EU ACHO …

PEQUENA ENCICLOPÉDIA DOS SERES HÍBRIDOS

CÁGADO-TIGRE-D’ÁGUA (Trachemys Dorbigni)

É um réptil que os humanos insistem em levar para casa, como se fosse adestrável. Mesmo não sendo peixe, sente-se à vontade nos rios, lagos e açudes. O que não o impede de também gostar de terras áridas. Cresce com certa rapidez, logo perdendo o ar de bichinho pet, que atrai a criançada. Seu lado tigre está na cor e nas listras, embora, às vezes, o amarelo rajado da cabeça se aparente com o da abóbora. Agora há pouco, vi um na vitrine de uma loja. Boquiaberto, não tinha a mínima ideia do que fazia ali, naquele cárcere.

FLOR-LEOPARDO (Belancanda cinensis)

Embora rústica, é uma planta de ar versátil. Originária da Asia, tem folhas espessas verde-azuladas, que se dão a ver como um leque sobre a haste. As flores têm forma de estrela, cujas pétalas pintadas se parecem, em cor e textura, com o pelo de um leopardo. Não suporta ficar encharcada e, por isso, se irrita na época das águas. Também fica brava se os gatos intrusos vêm cheirar suas folhas achatadas, ou quando os insetos confundem suas sementes com amoras em cachos. Tem uma beleza selvagem, mesmo quando é plantada em canteiros e vasos.

FORMIGA-LEÃO (Myrmeleon anbiguus)

Atende pelos nomes de cachorrinho-do-mato, piolho-de-urubu, joão-torrão, furão e tatuzinho. Porém, não é formiga, não é leão, nem nenhum desses outros bichos. Tampouco é o mirmecoleão – animal filho de pai leão e mãe formiga, catalogado nos bestiários antigos. Ambígua, ora é uma coisa, ora é outra, mas não é nenhuma ou é todas juntas. Sua larva tem uma mandíbula feroz de mamífero, cheia de pinças e espinhos, com a qual escava um buraco na areia para capturar possíveis vítimas. Sua vida adulta é breve: vai do fim da primavera até os primeiros dias do outono.

GAZELA-GIRAFA (Litocranius walleri)

É um antílope que vive nas regiões áridas da África. Seu pescoço longo e fino compete com o comprimento das pernas delgadas. Tem pelagem castanha, que se torna ruiva quando vista sob o sol da tarde. Suas orelhas enormes, em forma de asas, destacam-se na cabeça miúda. Olhuda, detesta ser observada. E, pelo que se diz, raramente bebe água. Seu alimento favorito são as acácias, com as quais se delicia ao lado de seus pares. O macho tem chifres curvos; a fêmea, um olhar sábio.

ORQUÍDEA-MACACO (Dracula Simia)

Essa orquídea com cara de macaco é um híbrido de extraordinária sutileza. Pode ter expressões variadas, que vãode alegria a perplexidade. Gosta de umidade e altura, embora já esteja quase acostumada à realidade dos jardins e dos vasos. Um dado interessante sobre ela é que as pontas de suas sépalas lembram os dentes caninos do Conde Drácula. Além disso, possui um aroma impreciso de laranja madura, que confunde quem nela busca algum cheiro menos ácido. Sabe-se, inclusive, que ela tem o dom de provocar o riso de quem flagra seu rosto símio em situações inesperadas.

PEIXE-BOI-DA-AMAZÔNIA (Trichechus inunguis)

É um adorável mamífero de água doce. Vegetariano, possui traços bovinos e corpo de morsa. Por emitir sons que evocam o canto das sereias, os zoólogos o chamam de sirênio, ao lado de outros mamíferos aquáticos, como o peixe-boi-marinho e o dugongo. Sabe-se que é muito dorminhoco: em vigília, fica alguns minutos fora d’água, para um respiro, mas passa a maior parte do tempo submerso, em sono espesso. Seus olhos pequenos discernem cores e enxergam tudo de longe, e um pouco atrás deles se encontram os ouvidos sem orelhas. Com os bigodes sensíveis do focinho, percebe as intenções de quem dele se aproxima. Encontra-se, mais do que nunca, sob perigo extremo. Não só pela cobiça de pescadores intrusos, mas sobretudo pelas sucessivas queimadas que devastam a Amazônia.

PEIXE-CACHORRO (Hydrolycus armatus)

Também se chama cachorra e não tem nada a ver como peixe-cadela (Cynopotamus humeralis). Gosta das águas rápidas, vivendo em canais e na mata inundada. Suas escamas mínimas combinam com o corpo comprimido. Na boca oblíqua, a mandíbula (de feição canina) se distingue, e nela se veem compridas presas. Não à toa, sua maxila de cima tem dois buracos para alojar esses dentes quando a boca se fecha e o peixe se ensimesma. Não é fácil de ser fisgado, dada sua rapidez em se livrar do anzol, ao puxar a isca. As piranhas apreciam suas nadadeiras como petiscos e ficam sempre à espreita, por saberem que ele é, de fato, muito arisco.

SOCÓ-JARARACA (Tigrisoma fasciatum)

Dizem que é uma ave muito tímida. Ela atende também pelo apelido socó-boi-escuro, o que acontece porque tem o abdômen em formato levemente bovino. Já o lado ofídico está no pescoço longo, de um cinza-escuro, com toques de marrom e canela. Sua íris é amarela. Habita florestas com rios límpidos, mas não recusa os lugares lúdricos do Cerrado goiano. Come peixes pequenos, larvas e insetos, sem prescindir de crustáceos, moluscos e anfíbios. Por ser reservada, ninguém imagina que possa ser, para outros seres, um desafio. Ama as folhas secas e cultiva a solidão como um privilégio. Os biólogos sabem que é de uma espécie ameaçada.

TARTARUGA-JACARÉ (Macrochelys temminckii)

Carrancuda, é avessa a piadas. Isso, no entanto, não impediu que seus conterrâneos – habitantes dos rios, lagos e pântanos norte-americanos – a apelidassem de “dinossauro”, em parte por conta das largas e pontudas escamas que formam o seu casco. Há de se admitir que ela tem uma certa beleza jurássica, mas ninguém lhe diz isso, por medo da potência aterradora de suas dentadas. Alimenta-se de peixes, patos, garças, sapos, cobras e lagartos. Se fosse bípede e soubesse manusear objetos, a tartaruga-jacaré seria, certamente, uma guerreira formidável.

TREPADEIRA-ELEFANTE (Argyreia nervosa)

É uma planta vigorosa. De ramagem longa e raízes profundas, sobe pelos caramanchões, muros e cercas. Uma fina penugem aveludada cobre seus ramos e a parte inferior de sua folhagem. Por isso o seu verde adquire um tom prateado. Dá flores em forma de sino, e suas folhas são como orelhas de elefante, o que legitima seu lado paquiderme. Mas o que nela mais atrai os humanos está nos efeitos alucinógenos de suas sementes, consideradas sagradas por conta de seus poderes xamânicos. Entretanto, como nem tudo é perfeito, ela está sempre com os nervos à flor da pele. Lenhosa e manhosa, odeia geadas e se aconchega ao calor úmido dos solos férteis.

*** MARIA ESTHER MACIEL – É escritora, diretora da revista 0lympio: Literatura e Arte e autora de Longe, Aqui, Poesia Incompleta 1998-2019

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.