EU ACHO …

MONTEIRO LOBATO DA MINHA INFÂNCIA

Cresci sentindo imensa compaixão por Tia Nastácia

A polêmica obra de Monteiro Lobato voltou ao debate público porque sua bisneta acaba de lançar uma adaptação de Narizinho Arrebitado, uma das onze histórias que integram o livro Reinações de Narizinho. A iniciativa atualiza as ilustrações originais, dando à trama uma identidade visual mais próxima ao nosso tempo. Tia Nastácia, por exemplo, deixa seu habitual figurino para ser representada de turbante, bata e colar de búzios pelos traços de Rafael Sam. O principal motivo da adaptação de Cleo Monteiro Lobato é fazer com que seu bisavô seja descoberto pelos mais jovens. Para tanto, ela suprimiu da versão anterior trechos que hoje soam racistas. Assim, a frase “a boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira” virou apenas ”Nastácia deu uma risada gostosa”.

O racismo nas obras de Lobato tem sido alvo de intensa discussão nos últimos anos e atingiu seu ápice com o parecer técnico de 2010, do Conselho Nacional de Educação, sobre o outro livro do escritor, Caçadas de Pedrinho. O documento recomendava a sua utilização em sala de aula apenas ”quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”, de modo a acolher os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, em especial os negros.

Ao ler a notícia sobre a adaptação, de imediato tentei recordar qual era a minha percepção, no passado, acerca das criações de Lobato. Interessei-me principalmente pelas referências que marcaram a minha infância, distantes do atual debate sobre o assunto. Ainda muito pequeno, assisti, com minha mãe e meu irmão mais novo, à primeira versão da série Sítio do Pica pau Amarelo, transmitida pela Globo entre 1977 e 1986. A obra audiovisual é uma adaptação dos inúmeros livros infantis de Lobato que tinham como paisagem o sítio de Dona Benta, onde se desenrolavam as tramas vividas por seus netos Pedrinho e Narizinho, Tia Nastácia, a boneca falante Emília, o Visconde de Sabugosa e demais personagens que povoam a imaginação de muitos brasileiros. Eu, particularmente, sentia uma atração especial por esse universo fantástico e ainda o tenho como referência dos momentos mais criativos de minha infância.

Foi só mais tarde que entrei em contato com a literatura de Lobato propriamente dita: primeiro, com textos avulsos contidos nos livros escolares; em seguida, com Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho. A leitura da obra e a série televisiva surtiram efeitos distintos sobre mim. Talvez por ter alcançado os escritos de Lobato poucos anos depois de ver a adaptação, seus textos não me encantaram tanto quanto a série, suavizada nas passagens de racismo explícito. As aventuras literárias da turma do Sítio não conseguiam competir com o brilho urbano dos livros infanto juvenis de Lúcia Machado de Almeida e Marcos Rey.

Na série, eu gostava especialmente de Dona Benta e Tia Nastácia, duas personagens que remetiam às mulheres da minha família, descendente de portugueses, tupinambás e negros escravizados oriundos da Nigéria e de Serra Leoa. Dona Benta, interpretada por Zilka Salaberry, era o estereótipo da boa avó, terna e carinhosa. Minha avó materna também tinha o cabelo branco, usava vestidos em casa e nutria grande afeição pelos trabalhos manuais, principalmente a costura. Por sua vez, Tia Nastácia me evocava parentes que usavam lenços para cobrir o cabelo crespo, sempre “por arrumar”, como elas mesmas diziam, considerando-os fora do padrão de beleza vigente. Exibindo uma bondade subserviente, a personagem transitava sobretudo pela cozinha, ambiente doméstico que foi meu lugar preferido durante muitos anos, em razão dos cheiros e sabores que ativavam os meus sentidos.

Tia Nastácia também era quem me despertava mais compaixão no Sítio, talvez por eu compreender que aquela não era a sua família e suspeitar de sua carência por vida própria. A ela só cabia servir, e uma vida de servidão parece muito triste, mesmo para uma criança que não sabe bem o porquê das coisas. Hoje percebo que não encontrei na Tia Nastácia literária o mesmo carisma que Jacira Sampaio emprestou à serviçal da tevê. A atriz, com sua sutil interpretação, conferiu humanidade à Tia Nastácia da série – atributo de que carecia a dos livros. Sempre alvo de chacotas e preconceito por parte de Emília, de Pedrinho e do narrador Lobato, a personagem foi desumanizada na literatura, destinada a um lugar de subserviência, comumente associado às mulheres negras de uma época.

Todas essas questões são indissociáveis do autor e mantêm. relação direta com minha própria história. A minha identificação racial tem sido vivida e formada desde que nasci em Salvador. Transitei do ”pardo” registrado na certidão de nascimento ao “moreno” que o projeto eugenista brasileiro, do qual Lobato foi divulgador, me destinou durante um tempo. Nem branco nem preto; a mestiçagem, símbolo de uma falsa democracia racial, era a justificativa para que eu permanecesse no limbo de minha própria existência. Enquanto a remota origem europeia, mesmo que se resumisse ao casal de imigrantes portugueses pobres e analfabetos que chegou aqui na década de 1910, era exaltada como algo a ser lembrado, o equivalente não ocorria com minha ascendência negra e indígena. O projeto de embranquecimento brasileiro culminou num apagamento brutal da minha memória familiar.

Aos poucos, fui descobrindo que há versões distintas sobre a existência de vários dos meus ancestrais. Embora uma prima mais velha garanta que minhas bisavós paternas eram negras – e isso seja evidente nos poucos registros fotográficos que temos -, muitos continuam a chamá-las de “morenas”. Meu bisavô José Alcino, o Seu Zeca, pai da minha avó que evocava os afetos que encontrei em Dona Benta, também é descrito como “mulato” por diversos descendentes. Insistir em denominá-lo negro, principalmente para os mais velhos, ainda soa ofensivo. Negro é o vocativo recorrente para descrever Tia Nastácia na obra de Lobato, sempre de maneira jocosa. Assumir-me negro-indígena, além de resgatar a origem da minha existência social em um país estruturalmente racista, se tornou um ato político diante do grande projeto eugenista que tentou e ainda tenta nos extinguir.

É impossível dissociar o escritor de sua obra, até mesmo porque o eugenismo do homem, Lobato se reflete na sua literatura.

Também é impossível imaginar como Lobato – figura contraditória, que editou Lima Barreto, um. autor negro, quando ninguém mais queria fazê-lo -, reagiria à leitura de seus próprios textos nos dias de hoje. A reedição de Narizinho Arrebitado, com a retirada de trechos racistas, não apaga a marca do preconceito na obra de Lobato, como o que está registrado em sua correspondência pessoal sobre a decepção com o fato de seu livro O Presidente Negro, por ser considerado racista, não ter encontrado editor nos Estados Unidos, onde o escritor era adido cultural: “[Eu] devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” Mesmo assim, não defendo qualquer censura à sua obra. Ela deve continuar disponível para ser lida como exemplo de uma época e de um país onde ainda precisamos lidar com a chaga do racismo.

*** ITAMAR VIEIRA JUNIOR – É escritor, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA.

OUTROS OLHARES

A REINVENÇÃO DA GASTRONOMIA NACIONAL

Com a crise financeira e as demissões no setor, chefs e donos de restaurantes buscam uma nova receita para alimentar seus negócios

A gastronomia brasileira está em busca de uma receita para se reinventar. A pandemia provocou o fechamento de restaurantes, demissões em massa e uma série de incertezas no setor. Mesmo assim, chefs e donos de restaurantes tentam manter o otimismo e confiam que a proximidade do “novo normal” vai começar, pouco a pouco, a trazer os clientes de volta.

Segundo dados da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), 25% dos negócios do ramo fecharam as portas em definitivo diante da crise, um em cada quatro estabelecimentos. No total, já são mais de 1,2 milhão de empregos perdidos em um mercado que, antes do colapso, contabilizava seis milhões de vagas diretas. A estimativa é que o prejuízo do setor ultrapasse os R$ 50 bilhões, além de provocar um longo e lento processo de recuperação.

Dados apontam uma queda de 80% no faturamento dos empreendimentos que continuam de portas abertas. No Rio de Janeiro, tiveram que fechar as portas e demitir funcionários casas tradicionais como O Navegador, da chef Teresa Corção, fundado há 45 anos, e o badalado Angu do Gomes, inaugurado em 1955 e considerado um patrimônio cultural carioca. Apenas nesses dois restaurantes, foram 33 cortes. Enquanto isso, outros milhares de estabelecimentos correm risco de decretar falência. Planos de apoio a microempresas, como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), oferecem suporte financeiro, mas é difícil que a ajuda chegue a todos pela demanda em excesso.

Apesar das incertezas, os empreendedores do setor não desanimam. O empresário Marcelo Fernandes, proprietário dos renomados Attimo e Kinoshita, entre outros restaurantes, afirma que a pandemia exigiu inovação e criatividade de sua equipe. “Acredito que os clientes vão retornar aos poucos. Seguiremos os padrões de distanciamento e esperamos que eles se sintam confortáveis. Sempre fomos especializados em alimentação fora de casa, o serviço de delivery nem fazia parte da nossa realidade. Tivemos que ser criativos para sobreviver a essa crise”, afirmou o empresário, que colaborou com programas de doações de alimentos para as vítimas da pandemia.

Rodrigo Oliveira, chef do premiado restaurante Mocotó, em São Paulo, é um dos poucos gestores que conseguiram evitar a demissão de funcionários. “A parte mais importante são as pessoas que trabalham conosco. Temos que preservá-las, aliás, porque elas são o negócio. Nosso mercado precisa se reinventar, se engana quem acha que nossa atividade consiste só em fazer arroz, macarrão. Trabalhamos com hospitalidade e o acolhimento de pessoas”, afirma o chef.

UM NOVO INGREDIENTE

A pandemia trouxe um novo ingrediente que hoje é essencial para a receita de transformação do setor da gastronomia: os entregadores. Sem eles, é impossível montar uma estratégia alternativa que inclua o delivery. Para a chef Morena Leite, do Grupo Capim Santo, o serviço de entregas é uma maneira de garantir a vida dos negócios, pelo menos no curto prazo. “A pandemia afetou muito a nossa operação, assim como a de outros colegas. Estamos fechados desde o dia 15 de março e não fazíamos serviços de delivery antes da pandemia. Hoje, essa é uma maneira de manter as coisas funcionando”, afirma. Alex Atala, empresário e um dos chefs mais conhecidos do País, acredita que ainda é cedo para saber exatamente como o setor será impactado. “Foram e estão sendo meses difíceis para todos. Vamos reabrir aos poucos os restaurantes, sempre tentando conter ao máximo os custos e ganhar o máximo de eficiência”, afirma o chef. “Esse recomeço será diferente, com menos gente, maior distanciamento. Mas vamos continuar buscando saídas para que o cliente continue tendo uma experiência única.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 14 DE JANEIRO

CONHECIMENTO, A MELHOR POUPANÇA

Os sábios entesouram o conhecimento, mas a boca do néscio é uma ruína iminente (Provérbios 10.14).

O conhecimento é melhor do que o ouro, é mais seguro do que a moeda mais valorizada do mercado. Os ladrões podem roubar nossos tesouros, e as traças podem corroer nossas relíquias, mas o conhecimento é uma riqueza que ninguém nos pode tirar. Os sábios entesouram o conhecimento e, com ele, vêm a reboque as riquezas desta terra. O conhecimento é a melhor poupança, o mais lucrativo investimento. Ninguém, porém, entesoura conhecimento de uma hora para outra. Esse é um processo longo. Para entesourar conhecimento é preciso dedicação, esforço e muito trabalho. Os tolos e preguiçosos acharão muito custoso fazer esse investimento. Preferem o sono, o lazer e a diversão. Aqueles cuja mente é vazia de conhecimento têm a boca cheia de tolices. A boca do néscio é uma ruína iminente. Em vez de ajudar as pessoas a trilhar pelas sendas da justiça, desencaminha-as para os abismos da morte. A língua do néscio é um veneno mortífero. Seus lábios são laços traiçoeiros. Sua boca é uma cova de morte. O sábio que entesoura o conhecimento, não apenas supre a si mesmo com o melhor desta terra, mas também se torna uma fonte de bênção para quem vive à sua volta.

GESTÃO E CARREIRA

10 LIÇÕES DO ESPORTE PARA OS NEGÓCIOS

Executivos esportistas revelam as atitudes campeãs para o sucesso nas corporações.

Avaliar adversários, planejar melhor as ações, desafiar os limites, superar as derrotas e tomar decisões vencedoras são as cinco lições do mundo esportivo para o ambiente corporativo – desde sempre um ambiente igualmente competitivo. Para a professora de Administração Miriam Vale, do Ibmec SP, essa comparação com os esportes é inevitável há muito tempo, mas evoluiu na prática com os avanços no meio corporativo e a mudança de perfil da liderança. “Hoje, entre as competências de um líder que se espelha no universo esportivo estão o foco, a disciplina, a determinação e a capacidade de definir um propósito”, afirmou. E assim manter uma unidade de direção para todos. “E, se for o caso, remodelar o seu negócio.”
Dono de quatro medalhas olímpicas na natação (duas de prata e duas de bronze), Gustavo Borges – que mergulhou de cabeça no empreendedorismo – é outro que defende com conhecimento de causa os ensinamentos esportivos para uma gestão empresarial de alta performance. “Ensina a ter coragem e a seguir em frente”, afirmou. “Favorece ainda uma construção de cultura organizacional de time, bem como a atuação de uma liderança pelo exemplo e consenso.”

Formado em economia pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o ex-nadador – proprietário da Academia GB e criador da Metodologia Gustavo Borges (MGB), que já capacitou mais de 400 estabelecimentos de natação no Brasil e no exterior – resumiu em três palavras as atitudes da sua carreira que guiaram os seus próprios negócios: excelência, consistência e persistência. “Quando você faz algo bem feito, com qualidade e por um bom tempo, e ainda se alia a pessoas positivas e que te levam para frente, o resultado acontece.” Com base na experiência vitoriosa de dez executivos renomados, listamos as principais lições aplicadas no âmbito dos negócios e que vêm das quadras, dos campos, dos tatames, dos mares, entre outros espaço esportivos pelo planeta.

1.NUNCA DESISTIR

O italiano Pietro Labriola pode ser considerado um empresário, ou melhor, um atleta que desafia qualquer limite. Aos 53 anos, tem no currículo a prática de esportes desde os tempos de universidade, quando disputava campeonatos de futebol. Já jogou squash para manter altos os níveis de adrenalina, iniciou o snowboard depois dos 40 anos e descobriu o skate recentemente. O CEO da TIM, formado em Administração, o esporte fortalece a disciplina pessoal, o autoconhecimento e o espírito de competição, ao servir de preparação para um mercado cada vez mais acirrado. “É com esportes e exercícios que conheço minhas potencialidades e meus limites, sem contar que são escapes para o estresse diário”, afirmou o CEO. O impacto da atividade esportiva no dia a dia dos negócios fica evidente em um aprendizado levado pelo italiano da prática da corrida para o escritório: “Never give up”. Lembra que não se deve desistir quando o resultado não chega, mas, sim, redobrar os esforços para colher os frutos. Labriola também cita a máxima “It’s never too late” ao destacar que nunca é tarde para investir em algo novo.

2.MANTER FOCO E DISCIPLINA

Se comandar uma empresa já não é tarefa das mais fáceis, imagine então controlar três bandeiras. Esse é o desafio da empresária Renata Moraes Vichi, CEO do Grupo CRM, controlador das marcas Kopenhagen (incluindo a rede de cafeterias Kop Koffee), Chocolates Brasil Cacau e Lindt Brasil. A executiva de 38 anos alia a prática de artes marciais mistas com treinamento funcional, musculação e spinning. A rotina diária de atividades esportivas tem duas sessões – uma pouco antes das 5h e a outra, no fim do dia. “Gosto de superar os meus limites e sempre com muito foco e disciplina”, afirmou. “Esses dois agentes combinados proporcionam resultados tantos nos treinos quanto nos negócios.” Formada em Administração e Publicidade, Vichi diz que o desejo latente de superação é outro elo importante entre os mundos esportivo e corporativo. “Permite estruturar o meu caminho até o objetivo final.”

3.EXERCER A RESILIÊNCIA

A rotina de Guilherme Benchimol é cheia de desafios. Aos 44 anos, o carioca é cofundador da XP Investimentos. Responsável por administrar R$ 412 bilhões em ativos de cerca de 2,2 milhões de clientes, o economista adotou a corrida à rotina. Treina cinco dias por semana – chega a percorrer 80km no período – e faz musculação em dois dias. Segundo ele, o esporte serve de terapia. “Toda vez que boto meu tênis, relógio no pulso, a impressão é que entrei em outra vida. Minha cabeça desconecta de tudo”, afirmou. Ele aponta a resiliência como ponto de convergência entre esporte e mundo corporativo. “É a capacidade de sacudir a poeira, levantar a cabeça e seguir em frente. O esporte ensina isso através das derrotas e das vitórias”, disse. Ele conta sobre uma ocasião no tênis quando ainda novo (sonhou ser profissional) virou uma partida contra o hoje lutador Victor Belfort e sagrou-se campeão. Benchimol já havia feito umas cinco ou seis finais contra Belfort e sempre era derrotado. “Segui um conselho do meu pai e venci. Sempre se deve acreditar, sempre há um caminho. É uma lição muito importante.”

4.TER HUMILDADE

Seja no Brasil, na França (onde já morou a trabalho) ou nas Ilhas Maldivas (em férias), o surfe tem acompanhado Ana Theresa Borsari, country manager da Peugeot, Citroën e DS no Brasil. Com apoio do marido, a executiva pegou a primeira onda há cerca de 20 anos e, agora, vê os dois filhos, de 13 e 15 anos, dia a dia compartilharem da mesma paixão pelo esporte na praia da Baleia, em São Sebastião (SP), onde estão desde o início da pandemia. Com o mesmo respeito dirigido à natureza – e típico dos surfistas que desafiam a força do mar – a executiva prega humildade no mundo corporativo. “Por mais sucesso que tenha na carreira profissional e no mundo corporativo, ninguém é sabedor de tudo”, afirmou. “Todos precisam ter uma postura humilde e de respeito, principalmente ouvindo os colaboradores para tomar a melhor decisão.” Praticante de meditação há mais de dois anos, Borsari conta que também já tirou lições preciosas de quando jogava handebol na época do colégio São Luís e na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Essa experiência com um esporte de alto contato físico – e que lhe rendeu inclusive o rompimento dos ligamentos dos joelhos – a ajudaria na carreira e na vida a nunca ter medo de enfrentar as situações e a seguir sempre adiante. “Acho que essa forma de se colocar é essencial no mundo dos negócios.”

5.SONHAR GRANDE

Aos 80 anos, o economista Jorge Paulo Lemann também levou ensinamentos do mundo do esporte, no caso o tênis, para o corporativo. Dono da maior cervejaria do planeta, a AB Inbev, e sócio da 3G Capital, controladora das marcas Burger King e Kraft-Heinz, o empresário sempre afirmou em entrevistas que “sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho”. A premissa, segundo ele, é válida na quadra e no escritório. Em depoimento no livro Como Fazer uma Empresa Dar Certo em um País Incerto (Elsevier), disse: “Estou sempre querendo chegar lá, conquistar mais alguma coisa. Essa é a graça. No dia em que eu tiver realizado o meu sonho, morri.” Homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em US$ 14,9 bilhões, pela lista da Forbes, o carioca iniciou a carreira no tênis aos 7 anos, no Country Club do Rio de Janeiro. Sagrou-se por cinco vezes campeão brasileiro e defendeu tanto o Brasil quanto a Suíça na Copa Davis, o mais renomado torneio entre nações. Teve ainda o privilégio de atuar em Roland Garros (França) e em Wimbledon (Inglaterra), dois dos quatro torneios do Grand Slam – ao lado do Aberto da Austrália e do Aberto dos Estados Unidos. Lemann chegou a liderar o ranking mundial na categoria veterano.

6.TRABALHAR EM EQUIPE

Com os mesmos ímpeto e habilidade com que supera dunas, rios, buracos e muitas outras adversidades nas pistas off-road pelo mundo, o empresário Reinaldo Varela, 61 anos, é contundente ao revelar o principal responsável pelo seu sucesso na carreira como piloto: o trabalho em equipe. Proprietário da rede Divino Fogão, especializada em culinária da fazenda, o paulistano tornou-se referência também fora da cozinha de uma das 180 unidades da franquia pelo Brasil. Tricampeão mundial de Rally Cross-Country (variação do rali de velocidade com o de regularidade), oito vezes vencedor do Rally dos Sertões e do Brasileiro, o administrador de empresas chegou ao topo no esporte em 2018, ao lado do navegador Gustavo Gugelmin, ao conquistar o título do tradicional Rally Dakar (categoria UTVs – intermediária entre o carro e o quadriciclo), disputado na América do Sul. Com a mesma estratégia, Varela levou o prêmio máximo do segmento em 2019 – o franqueador do ano. “Nunca se ganha sozinho, no rali ou nos negócios”, afirmou. “Nas pistas você só vence em equipe, composta por piloto, navegador, mecânicos e preparador. Todos são responsáveis pelo seu resultado. E no ambiente corporativo é a mesma coisa. Para Varela, quanto mais você dividir, mais você ganha. Porque todo mundo vai ter foco naquilo que está fazendo. “Outra coisa: só trabalha em equipe quem escuta. Quem não escuta, só manda. Tem que saber escutar, peneirar tudo o que ouve, ver as melhores ideias e colocar em prática. Isso é o que te faz ter grandes resultados em qualquer coisa.” O empresário, que chegou a ser campeão paulista de natação e praticou tênis em parte da vida, enumera outras lições do esporte que o guiam na jornada gastronômica: foco, persistência, dedicação para atingir a excelência, além de buscar os melhores equipamentos e profissionais.

7.APRENDER A SE ADAPTAR

O executivo Cícero Barreto, 46 anos, pode ser considerado um atleta fora de série. Desde 2009, disputa provas de ultramaratona em montanhas, o trail run, no Brasil e ao redor do mundo. Percorrer distâncias superiores a 100km tornou-se rotina na vida do diretor da Omint, operadora de saúde e seguradora. Formado em análise de sistemas, com pós-graduação e MBA em Marketing, aprendeu com o esporte que nenhuma prova é igual a outra. “O clima, a preparação e o planejamento mudam de acordo com o momento e isso tem tudo a ver com o mundo corporativo”, disse o sul-matogrossense, primeiro atleta sul-americano a ganhar a Sunrise to Sunset, ultramaratona com 100km na Mongólia, na Ásia. Outra lição que diz ter tirado do universo esportivo é exercer a cidadania. “O esporte agrega, promove congraçamento, inclusive em momentos delicados, como o que estamos passando”, afirmou. Em plena pandemia, ele lançou o #desafioaquecendoasruas. Cada quilômetro percorrido foi convertido em um cobertor doado a pessoas de situação de rua. “Batemos a meta de 1 mil cobertores doados”. Outros ensinamentos adotados por ele nos negócios são a resiliência (“Para estabelecer paz no meio do caos, se encontrar e conseguir performar”), senso de planejamento (“Para saber lidar com imprevistos”) e melhor gestão de recursos (“Não apenas físicos e financeiros, mas também de tempo, para obter resultados”).

8.SER DETERMINADO

Abílio Diniz, 83 anos, presidente do Conselho de Administração da Península Participações e membro do Conselho de Administração do Carrefour Global e do Carrefour Brasil, intercalou sua jornada nos esportes e na vida empresarial com atitudes campeãs como determinação e disciplina, que lhe renderam sucesso nas duas áreas. Como atleta, aos 6 anos já era goleiro. Aos 13, matriculou-se nas aulas de boxe e, ainda adolescente, aprendeu judô, capoeira, além de fazer musculação. Formado em Administração de Empresas, o executivo conciliou a voracidade e o arrojo à frente do grupo Pão de Açúcar à velocidade nas pistas, fossem na água ou nos autódromos. Em 1968, 1969 e 1970, conquistou o tricampeonato brasileiro de motonáutica e, ainda naquele último ano, no controle de um carro, ganhou a tradicional Mil Milhas de Interlagos, ao lado do irmão Alcides. Já nos anos 1990, Abílio aumentou o interesse pelas provas de longa distância e, em 1994, disputou a sua primeira maratona em Nova York, um de seus maiores orgulhos. “O esporte ainda faz parte da minha rotina, mas com o objetivo de me trazer longevidade com qualidade”, disse. “Há muitos anos dedico todos os dias duas horas da minha rotina para a prática de atividade física e tenho certeza de que ela é um dos pilares mais importantes para que eu tenha saúde aos 83 anos.”

9.SUPERAR LIMITES

Os desafios de um triatleta assustam apenas ao se enumerar. Nadar 3,8km, pedalar 180km e finalizar com uma corrida de 42km. Tudo em sequência. Um desafio e tanto para um seleto grupo de esportistas, mas que faz parte da vida de Eduardo Jurcevic há 22 anos. A paixão pelo triatlo começou aos 18 anos, quando assistiu a uma prova em Santos, sua cidade natal. “Entendi na mesma hora que era isso o que eu queria como hobby e lifestyle”, afirmou o CEO da Webmotors, plataforma de negócios e soluções para o mercado automotivo. Bacharel em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, o executivo de 45 anos tem na carreira mais de 30 provas de IronMan (categoria top do esporte) e o título do Meio IronMan 70.3 de Foz de Iguaçu, além de participações em Mundiais. A proeza exige muita disciplina e até logística. A sessão de treinamento é diária, das 4h às 7h. Além de ser uma forma de “aliviar 100% o estresse nos negócios e favorecer o mindfullness [estado mental de controle da concentração]”, o maior aprendizado que Jurcevic leva para suas decisões e estratégias é a capacidade de superar todos os limites, até mesmo aqueles criados pela mente. E, para explicar isso, ele cita superações reais como o dia em que tudo aconteceu em uma única prova em Fortaleza. “Fiz um corte profundo em um dos joelhos em uma quina saindo da água, escorreguei na prova de bicicleta e perdi uma garrafinha de água e, já na corrida, para aliviar uma bolha em um dos pés, coloquei silver tape para continuar”, afirmou. “A recompensa foi uma vaga para o Mundial do Havaí.”

10.MANTER A CONCENTRAÇÃO

Contornar seis balizas e três tambores no menor tempo… Em cima de um cavalo. O hipismo rural, modalidade bastante difundida no interior do Brasil, exige relação harmoniosa entre o cavaleiro e o animal, destreza para percorrer o percurso pré-determinado na pista, além de garra e coragem para superar as adversidades. “Mas o principal é ter concentração”, afirmou Flávio Osso, 40 anos, CEO da Ubook, maior plataforma de conteúdo em áudio por streaming da América Latina. “Se você entrar na pista para correr ou na quadra para jogar tênis (outro esporte praticado por ele) sem concentração, não consegue resultado algum, a exemplo do que acontece nos negócios.” Esportista ao longo da vida, praticante de judô (aos 7 anos), jiu-jítsu (dos 12 aos 20), vôlei (dos 15 aos 17) e tênis (costumava jogar duas a três vezes por semana antes da pandemia), o empresário descobriu o hipismo rural há cerca de cinco anos e, quase todos os fins de semana, segue com a mulher e a filha para o rancho da família, nas cercanias no Rio de Janeiro, para aliviar o estresse da vida empresarial. “É uma válvula de escape. Não é só o que você traz do esporte para dentro da empresa. Você tira da empresa e joga na pista, na quadra, quebra a raquete. Isso não é uma via de mão única. É de mão dupla.”

ANA THERESA BORSARI 

Do handebol ao surfe, executiva da Peugeot, Citroên e DS no Brasil diz que mundo corporativo pede lições de humildade; 

RENATA MORAES VICHI 

CEO do Grupo CRM alia a prática de artes marciais a exercícios de musculação e spinning. Tira deles para os negócios foco e disciplina; 

GUILHERME BENCHIMOL 

Para o cofundador da XP, o esporte serve de terapia e também ensina a “sacudir a poeira, levantar a cabeça e seguir em frente”; 

EDUARDO JURCEVIC 

Para o CEO da Webmotor, que é triatleta, o maior aprendizado tirado das provas para o mundo corporativo é a superação de limites.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MINDFULNESS – II

PAZ INTERIOR

Os tipos de meditação são diversos e podem ser praticados por todos!

A busca pelo bem-estar e pela saúde tornou-se cada vez mais constante no cotidiano. Paralelamente a tal procura, uma infinidade de estudos científicos comprovam para a sociedade que, por meio da inserção da meditação na rotina, a qualidade de vida pode ser alcançada de forma simples. Segundo Roberto Debski, médico, psicólogo e coach em Programação Neurolinguística, “a primeira resposta com o início da prática é a chamada ‘resposta de relaxamento’, descoberta em pesquisas de Herbert Benson, estudioso da Universidade de Harvard na década de 60 e 70”. Esse relaxamento ocorre tanto no corpo quanto na mente, pois os pensamentos diminuem, aumentando a atenção e o foco.

A boa notícia é que, além da técnica de atenção plena, existem vários tipos de meditação, o que pode facilitar no momento de encontrar o estilo que mais se encaixa, de acordo com seu perfil. O importante, segundo Roberto, é receber a orientação de um instrutor de meditação, procurar ler, ver vídeos e treinar diariamente. “Com o tempo, cada pessoa encontra os métodos mais adequados para si e pode evoluir na prática da meditação”, completa o especialista. A seguir, acompanhe as principais técnicas existentes:

MEDITAÇÃO BUDISTA

Com origens na tradição chinesa do zen budismo, essa meditação pode ser praticada de três formas: como foco no controle da respiração; sem focar em nada específico, mas permanecendo atento e observando o que se passa em sua mente e em seu entorno no presente; caminhando enquanto conta e sincroniza os passos de acordo com sua respiração (técnica introduzida pelo monge Thich Nhat Hanh). A finalidade em todas as formas, é uma só: trazer o praticante para a vida presente, desligando-o do restante.

MEDITAÇÃO ZAZEN

Nesta vertente, o que importa é o não pensamento, ou seja, a mente deve estar livre e não se concentrar. O exercício deve ser realizado em locais silenciosos e com boa acomodação (é comum que os praticantes se sentem em almofadas conhecidas come zafu). Dessa forma, o indivíduo consegue se desconectar e desacelerar as tensões, controlando a respiração e mantendo a mente serena.

MEDITAÇÃO HARE KRISHNA

Esse tipo de meditação difunde a ideia de que qualquer coisa que se faça (seja ajudar alguém ou preparar uma comida, por exemplo) deve ser dedicada a Deus. Acredita-se, portanto, que a meditação não é apenas uma prática, mas, sim, um processo de despertar do conhecimento espiritual. Os praticantes se reúnem para meditar em conjunto, geralmente, pela manhã, bem cedo. Durante a atividade, o mahamantra é cantado – Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Rare Hare”- entoando os diversos nomes de Krishna, famosa divindade hindu. Há quem entoe o mantra 1.728 vezes.

MEDITAÇÃO TRANSCENDENTAL

Desvinculada de práticas religiosas ou doutrinas, nesta vertente o principal foco é chegar à fonte dos pensamentos, acalmando o corpo, aliviando o estresse e instigando a reflexão. A atividade não é ensinada livremente, mas com instrutores licenciados que, de acordo com o sexo e a idade do praticante, entregam mantras específicos para serem entoados. Esses mantras, geralmente, são nomes tântricos de divindades hindus e escolhidos especificadamente para cada indivíduo.

VIPASSANA

A respiração é o único foco dessa meditação, pois o conceito defendido é que nossa mente é naturalmente agitada e, para acalmá-la, é preciso usar a respiração como aliada. A pessoa deve se concentrar na inspiração e na expiração do ar, purificando os pensamentos e tornando-os mais tranquilos. Outros métodos que podem ser usados como foco na meditação vipassana são a postura, as sensações do corpo e elementos naturais, como a água, por exemplo.

MEDITAÇÃO TÂNTRICA

Considerada a essência do budismo, no qual são trabalhadas energias do corpo e da mente, essa meditação colabora na transformação das emoções que causam aflição, despertando o estado positivo da mente. A ideia difundida que as emoções aflitivas e doenças físicas estão ligadas a determinados chakras do corpo, que representam centros de energia conectados com nossoorganismo. Ao praticar a meditação, que conta com mantras, respiração, posição das mãos e concentração, esses centros são purificados. Em consequência disso, diversos sintomas são cuidados. O objetivo é acumular energia e evoluir espiritualmente, fazendo com que o praticante se enxergue como um ser sagrado que possui a capacidade de ajudar todos os seres.

CONCENTRADA OU FOCADA

Durante essa prática, o meditador deve focar toda sua atenção em um único objeto. Pode ser um mantra, a respiração, visualização de uma parte do corpo ou, até mesmo, um objeto externo. Ao praticar frequentemente, a capacidade de atenção se desenvolve, fazendo com que a distração seja menos comum.

RAJA YOGA

Nessa forma de meditação, o objetivo é criar a paz na mente por meio da compreensão de si mesmo. O praticante deve permitir que os pensamentos negativos passem ao seu redor, mas sem ser distraído por eles, focado na ideia de que, é um ser de luz, repleto de energia positiva e amor.