EU ACHO …

JOÃO GRILO NO BANCO DOS RÉUS

Tribunal julga o personagem de O Auto da Compadecida

No dia 31 de outubro, sábado, o sertanejo João Grilo foi levado a júri popular em Petrolina, no interior de Pernambuco, denunciado por matar duas pessoas: o cangaceiro Severino de Aracaju e seu comparsa, Cabra. O crime foi cometido depois da invasão da cidade de Taperoá. O terrível cangaceiro se fiou na conversa de que João Grilo tinha uma gaita benzida, capaz de ressuscitar pessoas, e quando viu já tinha passado desta para melhor. Cabra, o comparsa de Severino, tombou logo em seguida, esfaqueado por João Grilo e seu amigo Chicó.

Os quatro são personagens da peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e foram os protagonistas da segunda edição do Júri Épico, que simula o julgamento de figuras populares da cultura nordestina. Mistura de tribunal e teatro, o encontro é organizado, para fins didáticos, por duas escolas da região, a Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina (Facape) e a Rede UniFTC, com o apoio da OAB de Petrolina, da Defensoria Pública e do Ministério Público de Pernambuco.

Toda a organização é feita por estudantes de direito, orientados pelo professor Anderson Wagner Araújo, da UniFTC, idealizador do projeto. “É uma coisa impensável, em meio à formalidade e ao dogmatismo jurídico, a gente trazer arte e música para mostrar que o direito é vivo, é cultura e toca na nossa sociedade. Não é letra fria, é vida”, diz Araújo.

O Júri Épico deste ano aconteceu num espaço para eventos e contou com a participação do juiz Elder Muniz, da 2° Vara Criminal da Comarca de Petrolina, cinco promotores e cinco defensores, entre eles o criminalista Zanone Júnior, que foi um dos advogados de Adélio Bispo, o homem que esfaqueou o presidente Jair Bolsonaro, em 2018. O júri popular foi escolhido por sorteio entre os integrantes da plateia, composta em grande parte por estudantes de direito. As testemunhas, extraídas também de outras peças de Suassuna, como O Santo e a Porca e A Pena e a Lei, foram interpretadas por atores da companhia Teatro Popular de Arte, que encena as obras do escritor paraibano há três décadas (o grupo tem, inclusive, uma declaração de Suassuna autorizando a montagem de suas peças).

O ator Domingos Soares, de 51 anos, um dos fundadores da companhia de teatro, foi quem deu vida ao réu. Ele demarca a diferença entre seu João Grilo – que Soares encarna há vinte anos – e o criado pelo ator Matheus Nachtergaele, no filme O Auto da Compadecida, de 2000. ”O meu João Grilo é mais sério, baseado nas minhas imaginações. Sou nascido e criado no sertão de Pernambuco, é um universo familiar para mim”, afirma o ator, que divide o trabalho no teatro com a rotina de auditor fiscal.

A primeira edição do Júri Épico foi realizada em 2019 para julgar Lampião. O ilustre cangaceiro foi condenado pelos numerosos crimes que cometeu. Na vida real, Lampião nunca esteve num tribunal: foi degolado pelas forças policiais que o capturaram em 1938. Para a edição deste ano – transmitida ao vivo pelo YouTube -, optou-se por um personagem fictício. “João Grilo é um símbolo de muitos nordestinos. A gente pensa nele como um espertalhão, mas é uma pessoa que luta para sobreviver, que entra em conflitos éticos, morais”, diz o professor Araújo. No ano que vem, ele planeja colocar no banco dos réus outro personagem histórico: Frei Caneca, líder de revoltas republicanas e independentistas que foi julgado e fuzilado em 1825.

A preparação do julgamento começa com a elaboração de um roteiro por alunos de direito. O material serve de guia aos juristas e atores, mas sempre deixa margem para improvisos. Dessa vez, aliás, como a pandemia impediu que fossem realizados ensaios, a improvisação foi um recurso importante no tribunal-teatro.

O julgamento de João Grilo começou às nove da manhã, com todos os participantes portando máscaras de proteção. Ao ser interrogado, o réu – que enfrentava seu segundo tribunal, já que na peça é julgado por Jesus, acusado pelo diabo e defendido pela Compadecida (Nossa Senhora) – afirmou que agiu em legítima defesa. “Era muito desigual, eu e Chicó completamente desarmados, com um cangaceiro sanguinário apontando um rifle pro lado da gente”, justificou o sertanejo, alegando que as suas ”embrulhadas” foram feitas para tentar sobreviver às ameaças de Severino de Aracaju.

Ouvidas as testemunhas de ambos os lados, entraram em cena os promotores. A tese principal da acusação visou desqualificar a personalidade de João Grilo, que foi caracterizado como uma pessoa manipuladora, mentirosa e trapaceira. “JoãoGrilo não é o melhor representante do povo sertanejo nordestino. A representação do sertanejo passa por dois requisitos essenciais: honestidade e valor ao trabalho. E tudo que ele não tem é honestidade”, argumentou a promotora Cíntia Granja.

Para a surpresa do público, a defesa não discordou da tese principal dos promotores, porém lembrou que o crime em julgamento era apenas o de assassinato. “João tem vários desvios de caráter, vários pontos negativos. O divisor de águas aqui é se João agiu ou não dentro da lei. Eu não posso condenar um homem que defendeu a própria vida da morte anunciada”, alegou o criminalista Zanone Júnior.

Apesar do clima respeitoso da encenação, o confronto entre teatro e tribuna produziu alguns momentos de tensão. Mais de uma vez os personagens extrapolaram os limites do rito jurídico, o que irritou alguns promotores. Um dos membros do MP pediu que o juiz explicasse ao público que a argumentação do defensor Marcílio Rubens havia excedido os limites tradicionais do rito – Rubens se valeu de música e poesia em sua defesa e, ao final, trocou a toga por trajes sertanejos. “Existe um certo duelo de postura, mas algo que eu venho buscando é a harmonia do processo judicial com a arte”, diz Araújo.

O julgamento durou doze horas, com pausas. Por volta de 21h30, o júri popular apresentou sua decisão: João Grilo é inocente. O personagem, comovido, abraçou seus defensores e comemorou recitando a sua reza: ”Já fui barco, fui navio, agora sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher. Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!”

O público aplaudiu e, como já era noite, fogos de artifício explodiram no céu de Petrolina. Depois de enfrentar na peça o julgamento divino, João Grilo agora resolveu suas pendências com a justiça dos homens.

*** JONATHAS COTRIM

OUTROS OLHARES

TOMBO NA PASSARELA

Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho foram acusados de atos preconceituosos, viraram alvo de “cancelamento” nas redes sociais e decidiram brigar nos tribunais

O racismo é crime, deixa sequelas drásticas em quem é alvo dele e impede uma sociedade de conviver em harmonia. Essa triste realidade, inflamada nas últimas semanas pelo brutal assassinato do negro George Floyd por um policial branco em Minneapolis, vem provocando manifestações e também um revisionismo histórico em diversos setores em todos os cantos do mundo. Com a indústria da moda, cujo DNA há até pouco tempo era ser elitista, arrogante e excludente, não é diferente. No Brasil, grandes figurões da área entraram na mira por meio de denúncias (muitas delas anônimas) publicadas no perfil do Instagram Moda Racista. Uma das manequins que apareceram como vítimas no espaço foi a baiana Diara Rosa. Filha de uma catadora de mariscos da Ilha de Itaparica, ela não era grande conhecedora dos nomes que ocupam o panteão da moda nacional quando desembarcou em São Paulo para tentar carreira, há sete anos. Sabia de cabeça o nome de poucos grandes estilistas, entre eles os badalados Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho. “Eram ícones para quem eu sonhava desfilar”, lembra. Em uma temporada de passarela em 2015, ela foi enviada para fazer o teste para a apresentação da São Paulo Fashion Week no ateliê de Lourenço. Passou horas em pé, equilibrando-se em um salto alto, sem direito sequer a um copo de água.

Quando foi chamada para a sala do costureiro, ficou enfileirada – no que o mercado chama de “paredão” – ao lado de outras meninas por menos de dez segundos. “Foi quando ele olhou para meu agente com cara de nojo e nos disse de imediato: ‘Podem sair daqui’.” No caso, ele se reteria apenas às modelos negras. “Ele me fez sentir um lixo”, conta Diara.

Mesmo assim, ela tentou fazer outros cinco testes com Reinaldo Lourenço, mas sempre acabou sendo dispensada logo de cara, da mesma forma fria. “Eu peguei campanhas do Kenzo e da Vodafone, desfilei em Paris e Milão. Será que ele não poderia ao menos me ver caminhar para então decidir se contratava?”, questiona. No casting para um desfile de Gloria Coelho, a modelo afirma ter sentido uma humilhação maior. Foi orientada a esperar do lado de fora, dentro de uma van, sem entrar no ateliê ao lado das colegas brancas. O motivo? Esperar autorização para ficar cara a cara com a estilista. Uma hora e meia depois, nada de ser chamada. Até que um agente que coordenava o trabalho terminou com a cena, abrindo o jogo. “Esquece, a Gloria não curte trabalhar com negras, não fazem o perfil da marca”, ouviu dele.

Na esteira do movimento iniciado pela página Moda Racista, outras modelos fizeram relatos parecidos sobre o comportamento de Reinaldo e Gloria. Com desfiles para Balmain e Dolce & Gabbana no currículo, Samile Bermannelli escreveu em uma rede social: “E o medo e opressão que as modelos sentem ao saber de casting dessa família? É como se fosse um gatilho”. Paulistana radicada em Nova York, a modelo Thayná Santos seguiu a mesma linha. “Engraçado o Reinaldo postando fotos com a hashtag do momento”, escreveu ela, referindo-se a # black lives matter, surgida em torno da comoção do assassinato de George Floyd. “Todos sabem e veem que, nos castings, ele nem olha na cara das modelos negras, muitas vezes faz piadas nada agradáveis sobre nossos traços físicos”, completou Thayná.

Em poucos dias, o perfil Moda Racista somou mais de 55.000 seguidores. Outro alvo das denúncias foi o responsável pelas propagandas de TV da Riachuelo, o publicitário Ralph Choate. Ele foi afastado dessa função depois de ser acusado de só colocar negros em campanhas da marca por uma exigência de cotas, “mas desde que não tivessem cara de pobre”. Choate nega racismo, mas faz um mea-culpa: “É possível que, mesmo sem intenção, eu tenha ofendido alguém com minhas palavras. Se o fiz, com sinceridade, peço desculpas”.

Reinaldo Lourenço também fez um mea-culpa. “Eu errei”, assumiu. “Tenho consciência de que me faltaram empatia e compreensão em relação às modelos negras.” Embora tenha reconhecido a grave falha, ele entrou no dia 11 de junho com uma ação em caráter de urgência na 39ª Vara Civil de São Paulo para tirar do ar o Moda Racista. A juíza Juliana Pitelli da Silva não acatou o pedido por ver no gesto uma tentativa de censura. Ela determinou, no entanto, que o Instagram revele o autor da conta para permitir direito de resposta. “Por melhor que seja a intenção desse perfil, é fundamental saber o nome à frente do negócio, até para os acusados terem como reivindicar erros e exageros”, afirma Raphael Garófalo Silveira, advogado de Lourenço. Outro especialista da mesma área concorda com o colega. “Perfil apócrifo com denúncias anônimas pode gerar um ‘gabinete do ódio’ às avessas”, alerta Newton Dias, especialista em direito digital. O Moda Racista saiu do ar de forma voluntária após a ação movida por Reinaldo Lourenço. O Instagram promete entregar o IP e identidade do celular do criador da conta. Até a quinta passada, 18, no entanto, isso ainda não havia acontecido. No mundo da moda, Reinaldo Lourenço é tratado como “O Rei” por suas amigas e clientes. É do tipo que arremessa grampeador na parede nos momentos de fúria e dá show de estrelismo na frente de todo mundo. Tem o hábito de medir o interlocutor da cabeça aos pés sem cerimônia e, muitas vezes, comenta com quem está ao lado que a pessoa em questão é “cafona”. Com cabelo rente à cabeça ao estilo dos militares dos anos 50, ele ficou preso ao passado de quando a moda era ser arrogante. Não existe nada mais antiquado do que isso. Seus vestidos e peças de alfaiataria são famosos por durar a vida toda. Mas sua originalidade já foi bastante contestada. Tão conhecido pelo talento quanto pela língua afiada, o estilista já falecido Ocimar Versolato lançou, em 2005, um livro de memórias intitulado Vestido em Chamas. Entre fuxicos e retalhos alheios e da própria vida, ele descreve um episódio ocorrido em um provador da butique da Commedes Garçons, nos anos 90, em Paris, em que um casal de estilistas, na obra tratados como “Graça Preá e Rinaldo Botelho, “foi flagrado fotografando modelitos dentro do provador para produzir depois cópias em série. Eles teriam sido detidos pela polícia e acionado a Embaixada do Brasil. Personagens óbvios do escândalo, Reinaldo e Gloria sempre negaram a história.

A dupla hoje no foco do movimento antirracismo foi casada por 25 anos e teve um único filho, o também estilista Pedro, de 30 anos. Como pai, mãe e filho só andavam de roupas escuras durante muito tempo, ganharam dos detratores o jocoso apelido de Família Addams. Atualmente Pedro está mais solar: radicado em Londres, trabalha apenas com tecidos ecológicos, como couro de abacaxi. Reinaldo e Gloria foram mais poderosos e badalados no passado. Com a pandemia, a crise que já existia no negócio de ambos se aprofundou. Está vazio hoje o ponto onde operou por décadas em São Paulo a loja de Lourenço. Ele justifica o fato dizendo ter esvaziado o local para focar as vendas por WhatsApp. Em março, o Tribunal Regional do Trabalho da 21 Região de São Paulo penhorou parte da receita da empresa para quitar uma dívida trabalhista na casa dos 30.000 reais.

Além dos pedidos de desculpas, Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho prometem promover atitudes de inclusão em suas empresas. Mas ainda há muito a ser feito no campo da moda – aqui e no exterior. Uma das modelos mais conhecidas do mundo, a belíssima Naomi Campbell teve mais visibilidade e alcançou o sucesso graças ao apoio de amigas que não se curvavam ao preconceito. No fim dos anos 80, ganhou destaque a atitude das modelos Linda Evangelista e Chirsty Turlington em prol da colega quando as três estavam em início de carreira. Estilistas que recusavam a amiga negra eram cobrados diretamente pelas duas: se Naomi não desfilasse, elas também não colocariam seus pés na passarela. Como se vê, ações de inclusão efetivas vão muito além do gesto de postar hashtag engajada no Instagram.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 13 DE JANEIRO

NÃO SEJA TOLO, MAS SÁBIO

Nos lábios do prudente, se acha sabedoria, mas a vara é para as costas do falto de senso (Provérbios 10.13).

O homem prudente é aquele que pauta sua vida pelos princípios de Deus, segue a retidão e anda em santidade. Em seus lábios habita a sabedoria. Ouvir uma pessoa prudente é matricular-se na escola da sabedoria, é assentar-se nos bancos do conhecimento e colocar os pés na estrada da bem-aventurança. Por outro lado, o tolo ou falto de senso, por desprezar o conhecimento e escarnecer da sabedoria, sofre as consequências inevitáveis de sua loucura. Por lhe faltar sabedoria nos lábios, recebe chibata nas costas. O sofrimento do tolo é autoimposto. O falto de senso produz a tempestade que o destrói. Ele transtorna sua própria vida. Tece o azorrague que flagela seu próprio corpo e abre a cova para seus próprios pés. O prudente, porém, afasta seu coração do conselho dos ímpios, retira seus pés do caminho dos pecadores e não se assenta na roda dos escarnecedores. O prudente alimenta sua alma com os manjares da verdade de Deus e, por isso, seus lábios destilam o néctar da sabedoria. Sabedoria é mais do que conhecimento, é a aplicação correta do conhecimento, é olhar para a vida com os olhos de Deus. É fazer as escolhas em conformidade com a vontade de Deus e para a glória do Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

PODER FEMININO

Aos 31 anos, a engenheira Juliana Coelho é a primeira mulher a assumir o comando de uma fábrica de carros da Fiat Chrysler Automóveis na América Latina. Ela chefiará mais de cinco mil homens

Tudo começou com a paixão pelo Fiat Uno quatro portas azul-marinho que a família Coelho comprou em 1995 após muita economia. “Foi uma conquista familiar muito grande. Ter o primeiro carro zero foi muito importante para nós. Meu pai era um apaixonado por velocidade e fazia questão de ter aquele modelo”, lembra Juliana Coelho. Aos seis anos, ela mal sabia que passadas duas décadas seria a primeira mulher a assumir a direção de uma fábrica da Fiat Chrysler Automóveis (FCA) na América Latina. E o melhor: no seu próprio estado, berço da sua carreira meteórica como engenheira química. Num universo predominantemente masculino, o automobilístico, ela conseguiu uma verdadeira façanha. No novo cargo, Juliana comandará 5,6 mil funcionários, dos quais 90% são homens.

A fábrica onde começou a trabalhar , é uma velha conhecida. Foi lá, justamente, que ela conseguiu seu primeiro emprego. Localizada em Goiana, a 64 quilômetros da capital Recife, é a unidade mais moderna da FCA no País, de onde saem os campeões de vendas da marca: os SUVS Jeep Compass, Jeep Renegade e a picape Fiat Toro. “O nome do meu cargo em inglês é Plant Manager, ou seja, vou estar no chão da fábrica e não só atrás de uma mesa dando ordens”, afirma a engenheira, com muito orgulho e forte sotaque da terra pernambucana. Aos 31 anos, ela substitui no cargo o italiano Pierluigi Astorino, nomeado diretor de Manufatura da Fiat Chrysler no mercado latinoamericano. Sua missão é tornar a fábrica ainda mais eficiente e produtiva e trabalhar na busca constante da melhoria de qualidade.

Juliana sempre foi estudiosa, apaixonada por matemática, física e química. Perdeu o pai aos 12 anos, mas ainda lembra como costumava ajudá-lo, não só a lavar e a cuidar do carro da família, mas também a acompanhá-lo na locadora de automóveis em que ele trabalhava. Estabelecida a paixão e a familiaridade pelos automóveis, pensou em trabalhar na área de petróleo, mas com a abertura da fábrica na região e após completar a pós-graduação e mestrado, decidiu participar do programa de trainee da FCA.

Outra coincidência do destino: o primeiro carro que Juliana Coelho dirigiu após tirar a habilitação também foi um Fiat Uno. Desta vez, a mãe decidiu comprar um modelo verde claro de duas portas e com ele a engenheira começou a rodar o País. Ao lado do marido, quem dirige nas viagens pelo País é ela. “Meu marido é professor e morre de orgulho de mim. Não tem problema nenhum com a minha profissão”, diz.

Durante o programa de treinamento na Fiat, fez cursos teóricos e práticos na Itália e na Sérvia, e ao voltar a Pernambuco trabalhou no setor de pintura, seu favorito, sendo contratada em 2013. Mesmo já tendo começado como especialista, sempre esteve próxima da equipe de chão de fábrica. Humildade e muita persistência fazem parte da trajetória de Juliana dentro da empresa. Ela começou na linha de produção e foi adquirindo posições de liderança por onde passava, inclusive na importante unidade de Betim, em Minas Gerais, onde estava até receber a promoção.

Contudo, afirma que mesmo nesta nova fase vai continuar andando pela unidade. “É um marco conseguir essa posição, eu já estava me preparando para isso, mas mesmo assim foi uma surpresa”, afirma. Liderar para ela é empoderar e desenvolver as pessoas. Saber o nome dos funcionários e fazer questão de impulsionar a todos é seu objetivo. Sem medos do novo desafio, Juliana está entusiasmada e não teme possíveis preconceitos machistas. “A opinião que formamos de uma pessoa acontece em menos de 10 segundos. É preciso não desistir e ter muita força de vontade para encarar o que vier”, afirma. Se ouvir alguma piada, diz que não vai ligar e seguirá trabalhando. “É isso o que importa”, finaliza.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MINDFULLNESS – I

ATENÇÃO PLENA

Conheça a origem da técnica e sua ligação com o budismo

A correria da vida cotidiana está deixando a população mundial com maiores níveis de ansiedade e estresse. Devido a isso, as pessoas estão procurando um estilo de vida mais calmo e pacífico, inspirando-se na cultura oriental para essa realização. É assim que surgiu a popularização do yoga, da meditação e, mais atualmente, do mindfulness. Traduzido como atenção plena, é “um termo moderno para um dos aspectos da milenar prática de autorrealização em yoga. Significa estar consciente, ser consciente de sua consciência e capaz de experimentar um pensamento, sensação ou ação externa plenamente, com toda a sua atenção”, explica o mestre espiritual Giridhari Das.

NA HISTÓRIA E NA PRÁTICA

Primeiramente, é preciso entender que os termos yoga e mindfulness conhecidos hoje são conceitos modernos. O yoga com posições e movimentos corporais surgiu há menos de 100 anos, em 1931, quando Tirumalai Krishnamacharya, o pai fundador do método, viajou até o Himalaia tibetano para encontrar um guru que lhe ensinou as posições (ou asanas, em sânscrito). Contudo, o yoga originalmente não apresenta posturas. O yoga-sutra, composto por Patanjali há cerca de dois mil anos, segue a filosofia e técnica de atenção plena. “O foco é inteiramente no aspecto espiritual interno do yoga, tal como a estrutura mental para a prática, a atenção para controle e observação da mente, o estudo de como a mente funciona, meditação e a meta final, que é a libertação. É um tratado muito bonito, apesar de bastante técnico, sobre o funcionamento de nossa consciência”, explica Giridhari.

A concepção da atenção plena tem origem ainda mais antiga, com a tradição hindu e o deus Krishna. O conceito foi retratado em seu texto Bhagavadgita, há 5.200 anos, em que se diz: “yoga significa conectar-se, ou, em outras palavras, ser realmente você, e ligar-se à fonte de tudo, por meio da observação e direcionamentoda própria mente”, lembra o mestre-espiritual. Outros estudiosos ainda contam que diversos povos – como os primitivos homens das cavernas – tinham sua própria versão da atenção plena, sendo utilizada para a técnica de caça, por exemplo. Desse modo, é possível identificar que o mindfulness conhecido hoje teve diversos nomes. A técnica nasceu quase naturalmente no ser humano, visto a sua habilidade de concentração na capacidade cerebral e trazer sua consciência para o presente, além de ser utilizada para diferentes fins.

UMA TÉCNICA CRESCENTE

A procura por urna vida mais plena e uma mente mais saudável tem aumentado consideravelmente. Há alguns anos, surgiram no ocidente aulas de yoga moderna nas academias que ensinam, além do exercício prático corporal, como fazer a energia fluir pelo organismo por meio da. respiração e concentração, ou seja, a meditação.

Foi por meio, do Buda que a técnica de atenção plena se espalhou pelo mundo, especialmente no oriente. Atualmente, o cientista e médico estadunidense Jon Kabot-Zinn trouxe o método para os países ocidentais, reunindo cada vez mais praticantes. Ele concebeu um programa que une seus conhecimentos sobre o budismo e a ciência para criar um projeto que ajuda a diminuir o estresse e ansiedade. Além disso, a popularização do mindfulness se dá pela sua facilidade de realização, bem como pelos diversos benefícios que a técnica traz.

Outro fator são os incontáveis estudos que comprovam a eficácia do método. Pesquisas mostram que a prática proporciona melhor sono, redução da ansiedade e estresse, além de ser um ótimo auxiliar no tratamento da depressão. O método também se mostra eficiente contra problemas respiratórios, cardíacos e dermatológicos, como a psoríase – feridas na pele que cicatrizam duas vezes mais rápido para quem pratica a atenção plena, quando comparado àqueles que não meditam.

Ter a validação e legitimidade da técnica pode afastar a associação com religiões e, assim, trazer uma nova visão medicinal sobre o assunto. O mindfulness é cada vez mais indicado como tratamento para melhorar transtornos mentais e desenvolver a inteligência emocional, já que muito do que as pessoas sentem são criadas pela própria mente, devido aos problemas pessoais e baixa autoestima. “Nós literalmente estamos nos deixando loucos”. Você está interpretando a realidade de forma errada, gerando todos esses sentimentos negativos, culminando em severa depressão crises de ansiedade, pânico, tristeza, desânimo, falta de propósito e motivação” , explica Giridhari.

ATENÇÃO PLENA NO BUDISMO

Sidarta Gautama, o Buda, no processo de iluminação e autoconhecimento, especificou alguns critérios de seus ensinamentos para que fossem facilmente assimilados por outras pessoas. Uma delas é o Cominho Octuplo, que consiste em uma série de práticas para alcançar a harmonia e o fim do sofrimento – a etapa final das quatro nobres verdades. O Caminho é dividido em oito técnicas baseadas na moderação e nas formas corretas de se viver e compreender o espaço e consciência. São elas: compreensão correta, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, concentração correta e atenção plena correta. O budismo compreende o mindfulness como o modo de desenvolver a atenção e consciência das ações do corpo e mente para evitar atos insensatos. É possível chegar à completa atenção por meio da contemplação da natureza e do presente.

Por isso, a pessoa precisa encontrar a simplicidade da mente e não se deixar levar por pensamentos negativos. Em resumo, significo manter a mente pura e atenta.