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BIQUINI CAVADÃO

O verão 2021 assiste com prazer ao retorno do asa-delta, modelo inventado no Rio de Janeiro há quaro décadas que enfeita beldades nas praias aqui e no exterior

Verão é sol, praia, mar — e, na orla do Rio de Janeiro, hora de inventar alguma novidade que dê o que falar, nem que seja uma novidade pescada de priscas eras. Neste 2020, o zum­-zum-zum predominante entre a população que torra à beira-mar é o retorno do biquíni asa-delta, ousadíssimo modelo que nasceu na cidade, já lá se vão quatro décadas, e agora volta a (des)cobrir o corpo feminino. Verdade seja dita: quem recolocou de vez o asa-delta na boca e nos quadris das banhistas mundo afora foi a americana Kim Kardashian, a mãe de todas as influencers. Em diversas escapadas recentes a Bali, à Côte d’Azur, à costa mexicana do Pacífico e a outras areias exclusivas que costuma frequentar, Kim desfilou a superpoderosa circunferência pélvica em modelos asa-delta de cores e formas variadas (inclusive uma espécie de maiô cor de cobre, em Cabo San Luca) pensados para valorizar seus atributos. Cada um acompanhado de fotos e mais fotos, que é disso que ela vive.

Com ou sem Kim, porém, a calcinha minúscula com alças laterais quase na altura da cintura — contorno que lembra o equipamento voador esportivo — é aposta de todas as marcas de moda praia para este verão. “É um reflexo do momento atual das mulheres, que se sentem com poder para usar o que tiverem vontade”, diz Lilian Pacce, especialista em moda e autora de O Biquíni Made in Brazil. Empoderadas, como se diz, as atrizes Bruna Marquezine e Bruna Griphao e as apresentadoras Giovanna Ewbank e Sabrina Sato, no Brasil, junto com a cantora Dua Lipa, em Londres, e até a plus size Ashley Graham, nos Estados Unidos, estão entre as famosas que suspenderam as laterais do biquíni neste verão.

O asa-delta nasceu nos anos 1980, por obra de Cidinho Pereira, dono da marca BumBum Ipanema, que existe até hoje no Rio. Aos 79 anos, ainda no comando da empresa, ele conta que a inspiração para o modelo cavado de alças altas veio durante uma viagem a Ibiza, na Espanha, em 1984. “Todas as mulheres faziam topless. Prestei atenção nas calcinhas e percebi que o modelo tradicional deixava o bumbum quadrado. Pensei: o que é redondo precisa de uma embalagem redonda”, explica. E fez-se o asa-delta, que dá às mulheres — às que têm medidas para isso, com o perdão das poderosas — pernas alongadas e silhueta esguia. Frequentador da Praia de Ipanema, ele batizou sua criação com o nome do esporte que seus amigos estavam praticando naquele mesmo verão, o voo de asa-delta. A imortalização ficou por conta de Monique Evans e Luiza Brunet, modelos requisitadíssimas, que adotaram com gosto a moda do biquíni cavadão. “Além de deixar meu corpo mais bonito, não ficava aquela marquinha do biquíni normal no meio dos quadris”, elogia Monique, que, aos 63 anos, teve um câncer de pele e não vai mais à praia, mas, enquanto foi, experimentou todos os tipos de duas-peças da face da Terra.

A roupa de banho que deixa a barriga de fora estreou na França, nos anos 1940, e foi batizada com o nome do Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, Oceano Pacífico, onde as primeiras bombas nucleares acabavam de ser testadas. Os modelos comportadíssimos do começo foram perdendo pano até se transformarem na célebre dupla sutiã cortininha-calcinha de lacinho, um conjunto que, no Brasil, consome 50 centímetros de tecido — e olhe lá. A menor peça de roupa do closet é responsável pelo faturamento anual de 8 bilhões de reais com a produção, por cerca de 700 empresas, de 60 milhões de peças, das quais 10% se destinam ao mercado externo, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Sempre se disse que o Brasil não exportava mais biquínis porque os daqui eram demasiado diminutos para o gosto mais recatado das estrangeiras. A estilista Jacqueline De Biase, há 37 anos à frente da marca Salinas, conta que isso mudou e hoje é só uma meia verdade. “Atualmente, as americanas chegam a usar peças menores que as daqui”, afirma. São influenciadas, segundo ela, por top models como Gisele Bünd­chen, que levaram uma nova cultura às praias dos Estados Unidos. Na Europa, porém, biquininho ainda não tem vez — no caso, a calcinha, visto que a parte de cima é amplamente dispensada. “A prioridade das europeias ainda é o conforto”, diz Jacqueline. Já em Ipanema…

PIONEIRA – Monique desfila de asa-delta, em 1987: “Deixava meu corpo mais bonito”

DA AREIA PARA A ARENA

Nem só de biquinis vive a exportação carioca de modismos. Nos esportes, banhistas de sunga ou biquíni e mais nada também criaram invenções que se espalharam pelo mundo: Patrimônio imaterial do Rio desde 2015, o frescobol, tal qual foi criado, em 1945, entre os postos 2 e 3 da Praia de Copacabana, é um retrato da informalidade local: joga-se uma bolinha para lá e pra cá, de raquete na mão, e ninguém ganha nem perde. Praticante nos anos 1960, o escritor Millôr Fernandes, autor de motes memoráveis, parafraseou à sua maneira o lema das Olimpíadas, cunhado pelo barão de Coubertin, para definir o espírito do frescobol: “o importante é nem competir”.

Outro exercício carioca que correu o mundo foi o futevôlei, hoje praticado até nas areias da Tailândia. O jogo nasceu em 1965, herdeiro de outro hobby em que ninguém ganha de ninguém, a “altinha” – uma alternância de embaixadinhas informal à beira da água. Por força dos protestos dos banhistas incomodados (com razão, diga se), frescobol e altinha foram banidos para a faixa de areia próxima à calçada, onde ganharam quadras, regras e até escolinhas. O futevôlei é jogado em duplas em um espaço de 18 por 9 metros, cortado ao meio por uma rede. As partidas duram de trinta minutos a uma hora e o jogador usa os pés para o “saque” – no resto do tempo, apara a bola com braços, tórax, pernas e cabeça. O saque deve ser executado por meio do toque com os pés e tem de atravessar a rede por cima, chegando à área da quadra adversária. No caso do frescobol, a adaptação, batizada de beach tennis, é praticada também em duplas, em quadra, com raquete e bola próprias. Sim, contam-se pontos nos dois casos e um lado sai vencedor. Millôr não ia gostar nada, nadinha mesmo, dessa coisa de vitória.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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