EU ACHO …

SEM NORTE

Como o aquecimento global afeta a migração dos pássaros

O lockdown despertou um interesse renovado pelos pássaros dos nossos jardins, com milhões de pessoas apreciando vê-los pela janela. Mas será que algumas espécies – incluindo o chapim-real- poderão desaparecer dos jardins no fim deste século? Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega, em parceria com especialistas da Universidade de Oxford, do Reino Unido, modelaram como essas aves têm reagido à crise climática. Especificamente, elas são capazes de responder ao surgimento precoce das lagartas com as quais alimentam seus filhotes?

Aves como os chapins-reais evoluíram para fazer seu ciclo reprodutivo coincidir com o pico das lagartas de mariposas que se alimentam das folhas de carvalho, o que acontece tradicionalmente no fim de maio e em junho. Mas à medida que as temperaturas aumentam, os carvalhos começam a formar folhas mais cedo e as lagartas também eclodem mais cedo. Isso significa que, quando os filhotes de chapim-real estão prontos para ser alimentados, o pico das lagartas está perto do fim. Como as aves adultas precisam encontrar mil lagartas todos os dias para seus filhotes famintos, qualquer desencontro poderá reduzir drasticamente o sucesso reprodutivo.

Os pesquisadores descobriram que, embora as aves possam reagir às mudanças climáticas, elas não o fazem com a rapidez necessária. A principal autora do estudo, Emily Simmonds, estima que o ponto crítico ocorre quando as folhas de carvalho e as lagartas associadas a elas aparecem 24 dias antes do momento habitual. A descoberta de que os pássaros conseguem responder às mudanças climáticas reproduzindo-se antes do tempo normal foi feita pela primeira vez, na década de 1990, pelo doutor Humphrey Crick, cientista que trabalhava no Fundo Britânico para Ornitologia (BTO, na sigla em inglês). Ele analisava milhares de cartões do Esquema de Registro de Ninhos da instituição, que foram preenchidos por observadores de pássaros amadores no meio século anterior, detalhando as datas em que os ovos são postos e os filhotes eclodem.

Crick percebeu uma tendência surpreendente: para muitas espécies, a data em que colocaram os ovos avançou, em média, nove dias. O notável artigo resultante “Ospássaros do Reino Unido estão botando ovos mais cedo”, publicado na revista Nature em 1997, forneceu algumas das primeiras evidências empíricas de que as criaturas silvestres estão reagindo ao aquecimento do clima.

Uma década depois, em 2006, lembro-me de Bill Oddie apresentando Springwatch com a surpreendente notícia de que cada ninho de chapim-azul que eles monitoravam havia desenvolvido filhotes algumas semanas antes do normal. Como os chapins-azuis têm apenas uma ninhada, eles devem responder muito rapidamente a mudanças como as primaveras precoces. Se não conseguirem fazer isso com rapidez suficiente, seus números despencarão.

No fim de seu artigo de 1997, Humphrey Crick fez este comentário profético: “Para os pássaros, a nidificação precoce pode ser benéfica se a sobrevivência dos jovens for reforçada por um período prolongado antes do inverno. Por outro lado, as aves podem ser afetadas adversamente se não sincronizarem com a fenologia de seu suprimento alimentar”. Menos de um quarto de século depois, ambas as partes dessa previsão parecem se concretizar. A curto prazo, uma estação reprodutiva mais longa traz benefícios, especialmente para aves como o tordo-americano (da família do sabiá), o melro e o tordo-comum, que produzem duas ou mais crias. Começar a nidificar no início do ano (inverno no Hemisfério Norte) pode permitir que produzam ninhadas extras, e assim mais descendentes no total.

O professor James Pearce-Higgins, diretor de ciência do BTO, aponta que os menores pássaros, como os cristas douradas, as carriças e os chapins-de-cauda-longa, estão se beneficiando de outro aspecto da mudança climática: os invernos muito mais amenos dos últimos anos.

Ele também aponta o impacto positivo do nosso hábito de alimentar pássaros de jardim, o que ajuda espécies como o chapim-azul, o chapim-real e o pintassilgo. No momento, ele sugere que a vantagem das taxas de sobrevivência mais altas no inverno supera a falha em sincronizar como suprimento de alimentos na primavera, embora nem sempre seja assim.

Outro sucesso impulsionado pelo clima, a maneira como muitas espécies estão agora se expandindo para o norte. O último Atlas Europeu de Reprodução de Aves revela que, em média, as áreas de distribuição das aves em reprodução na Europa mudaram 28 quilômetros para o norte, desde que a pesquisa original foi feita, no fim dos anos 1980, quase 1 quilômetro por ano.

Pode não parecer muito, mas com o tempo permitirá que espécies antes confinadas à Europa continental cruzem o Canal da Mancha e colonizem o Reino Unido. Na verdade, como algumas espécies respondem muito mais rápido que outras, várias (incluindo as garças-reais e as garças-brancas) já o fizeram. Mas à medida que o nosso clima se torna menos previsível, com eventos climáticos mais extremos, como tempestades, secas e inundações, o que os cientistas chamam de “período de lua de mel” chegará a um fim abrupto.

Como observa o professor Pearce-Higgins, os pássaros que se alimentam no solo talvez não sejam capazes de lidar com as secas prolongadas de verão, o que dificulta para eles encontrar comida: “Uma potencial exceção a essa imagem positiva de temperaturas mais altas são os tordas e os melros, que dependem de invertebrados do solo. Sabemos, a partir de um estudo que realizamos recentemente pedindo aos alunos que contassem minhocas nos campos de esporte da escola, que a disponibilidade de minhocas – uma importante fonte de alimento para muitas espécies – diminui significativamente no verão, especialmente quando está seco”.

Portanto, enquanto estamos à beira do precipício de um mundo em aquecimento descontrolado, o futuro de muitos de nossos pássaros mais conhecidos e amados permanece equilibrado.

***STEPHEN MOSS – Naturalista, mestre em literatura sobre natureza e viagens e autor de The Swaloww: a Biography.

OUTROS OLHARES

BIQUINI CAVADÃO

O verão 2021 assiste com prazer ao retorno do asa-delta, modelo inventado no Rio de Janeiro há quaro décadas que enfeita beldades nas praias aqui e no exterior

Verão é sol, praia, mar — e, na orla do Rio de Janeiro, hora de inventar alguma novidade que dê o que falar, nem que seja uma novidade pescada de priscas eras. Neste 2020, o zum­-zum-zum predominante entre a população que torra à beira-mar é o retorno do biquíni asa-delta, ousadíssimo modelo que nasceu na cidade, já lá se vão quatro décadas, e agora volta a (des)cobrir o corpo feminino. Verdade seja dita: quem recolocou de vez o asa-delta na boca e nos quadris das banhistas mundo afora foi a americana Kim Kardashian, a mãe de todas as influencers. Em diversas escapadas recentes a Bali, à Côte d’Azur, à costa mexicana do Pacífico e a outras areias exclusivas que costuma frequentar, Kim desfilou a superpoderosa circunferência pélvica em modelos asa-delta de cores e formas variadas (inclusive uma espécie de maiô cor de cobre, em Cabo San Luca) pensados para valorizar seus atributos. Cada um acompanhado de fotos e mais fotos, que é disso que ela vive.

Com ou sem Kim, porém, a calcinha minúscula com alças laterais quase na altura da cintura — contorno que lembra o equipamento voador esportivo — é aposta de todas as marcas de moda praia para este verão. “É um reflexo do momento atual das mulheres, que se sentem com poder para usar o que tiverem vontade”, diz Lilian Pacce, especialista em moda e autora de O Biquíni Made in Brazil. Empoderadas, como se diz, as atrizes Bruna Marquezine e Bruna Griphao e as apresentadoras Giovanna Ewbank e Sabrina Sato, no Brasil, junto com a cantora Dua Lipa, em Londres, e até a plus size Ashley Graham, nos Estados Unidos, estão entre as famosas que suspenderam as laterais do biquíni neste verão.

O asa-delta nasceu nos anos 1980, por obra de Cidinho Pereira, dono da marca BumBum Ipanema, que existe até hoje no Rio. Aos 79 anos, ainda no comando da empresa, ele conta que a inspiração para o modelo cavado de alças altas veio durante uma viagem a Ibiza, na Espanha, em 1984. “Todas as mulheres faziam topless. Prestei atenção nas calcinhas e percebi que o modelo tradicional deixava o bumbum quadrado. Pensei: o que é redondo precisa de uma embalagem redonda”, explica. E fez-se o asa-delta, que dá às mulheres — às que têm medidas para isso, com o perdão das poderosas — pernas alongadas e silhueta esguia. Frequentador da Praia de Ipanema, ele batizou sua criação com o nome do esporte que seus amigos estavam praticando naquele mesmo verão, o voo de asa-delta. A imortalização ficou por conta de Monique Evans e Luiza Brunet, modelos requisitadíssimas, que adotaram com gosto a moda do biquíni cavadão. “Além de deixar meu corpo mais bonito, não ficava aquela marquinha do biquíni normal no meio dos quadris”, elogia Monique, que, aos 63 anos, teve um câncer de pele e não vai mais à praia, mas, enquanto foi, experimentou todos os tipos de duas-peças da face da Terra.

A roupa de banho que deixa a barriga de fora estreou na França, nos anos 1940, e foi batizada com o nome do Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, Oceano Pacífico, onde as primeiras bombas nucleares acabavam de ser testadas. Os modelos comportadíssimos do começo foram perdendo pano até se transformarem na célebre dupla sutiã cortininha-calcinha de lacinho, um conjunto que, no Brasil, consome 50 centímetros de tecido — e olhe lá. A menor peça de roupa do closet é responsável pelo faturamento anual de 8 bilhões de reais com a produção, por cerca de 700 empresas, de 60 milhões de peças, das quais 10% se destinam ao mercado externo, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Sempre se disse que o Brasil não exportava mais biquínis porque os daqui eram demasiado diminutos para o gosto mais recatado das estrangeiras. A estilista Jacqueline De Biase, há 37 anos à frente da marca Salinas, conta que isso mudou e hoje é só uma meia verdade. “Atualmente, as americanas chegam a usar peças menores que as daqui”, afirma. São influenciadas, segundo ela, por top models como Gisele Bünd­chen, que levaram uma nova cultura às praias dos Estados Unidos. Na Europa, porém, biquininho ainda não tem vez — no caso, a calcinha, visto que a parte de cima é amplamente dispensada. “A prioridade das europeias ainda é o conforto”, diz Jacqueline. Já em Ipanema…

PIONEIRA – Monique desfila de asa-delta, em 1987: “Deixava meu corpo mais bonito”

DA AREIA PARA A ARENA

Nem só de biquinis vive a exportação carioca de modismos. Nos esportes, banhistas de sunga ou biquíni e mais nada também criaram invenções que se espalharam pelo mundo: Patrimônio imaterial do Rio desde 2015, o frescobol, tal qual foi criado, em 1945, entre os postos 2 e 3 da Praia de Copacabana, é um retrato da informalidade local: joga-se uma bolinha para lá e pra cá, de raquete na mão, e ninguém ganha nem perde. Praticante nos anos 1960, o escritor Millôr Fernandes, autor de motes memoráveis, parafraseou à sua maneira o lema das Olimpíadas, cunhado pelo barão de Coubertin, para definir o espírito do frescobol: “o importante é nem competir”.

Outro exercício carioca que correu o mundo foi o futevôlei, hoje praticado até nas areias da Tailândia. O jogo nasceu em 1965, herdeiro de outro hobby em que ninguém ganha de ninguém, a “altinha” – uma alternância de embaixadinhas informal à beira da água. Por força dos protestos dos banhistas incomodados (com razão, diga se), frescobol e altinha foram banidos para a faixa de areia próxima à calçada, onde ganharam quadras, regras e até escolinhas. O futevôlei é jogado em duplas em um espaço de 18 por 9 metros, cortado ao meio por uma rede. As partidas duram de trinta minutos a uma hora e o jogador usa os pés para o “saque” – no resto do tempo, apara a bola com braços, tórax, pernas e cabeça. O saque deve ser executado por meio do toque com os pés e tem de atravessar a rede por cima, chegando à área da quadra adversária. No caso do frescobol, a adaptação, batizada de beach tennis, é praticada também em duplas, em quadra, com raquete e bola próprias. Sim, contam-se pontos nos dois casos e um lado sai vencedor. Millôr não ia gostar nada, nadinha mesmo, dessa coisa de vitória.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 12 DE JANEIRO

NÃO ODEIE, AME!

O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões (Provérbios 10.12).

Tanto o ódio como o amor são sentimentos que brotam do coração. São opostos e produzem resultados diferentes. Se o ódio excita contendas, o amor cobre as transgressões. Se o ódio afasta as pessoas, o amor as aproxima. Se o ódio expõe os defeitos das pessoas, o amor os encobre. Se o ódio cava abismos, o amor constrói pontes. O ódio é um sentimento irracional e avassalador. Antes de destruir os outros, arruína quem o nutre. Quem tem ódio no coração destrói a si mesmo antes de excitar contendas entre os outros. O ódio é uma espécie de autofagia. É como beber um copo de veneno pensando que o outro é quem vai morrer. O amor, porém, tem origem diferente e produz frutos distintos. O amor procede de Deus, e seu resultado não é maldizer o próximo nem jogar um contra o outro, mas abençoar as pessoas, protegê-las e reconciliá-las. O amor é paciente com os erros dos outros e benigno com as pessoas, mesmo em suas fraquezas. Quem ama protege o ser amado. Quem ama cobre as transgressões do outro e proclama suas virtudes. Quem ama tira os holofotes de si para enaltecer o próximo. O ódio traz o DNA da morte, mas o amor é fonte da vida. Não odeie; ame. Não seja um instrumento de contendas, mas um agente da reconciliação.

GESTÃO E CARREIRA

SURFISTAS CORPORATIVOS

Entenda por que profissionais que conseguem navegar de um departamento a outro dentro da companhia vêm sendo cada vez mais valorizados no mundo dos negócios

O administrador de empresas Fernando Chaves, de 37 anos, já fez de tudo um pouco na Novartis farmacêutica suíça. Trabalhou na área de marketing por seis meses, em novos negócios por um ano e meio, em representação de vendas por mais dois. Foi também gerente de produtos, líder da área de gestão de relacionamento com o cliente, assessor pessoal do CEO, diretor de marketing e, por fim, executivo comercial, seu atual cargo na empresa. Foram oito transições em 15 anos de multinacional (em média, uma a cada um ano e oito meses). Fernando é o que se chama hoje de “surfista corporativo”, figura que muda frequentemente de setor, aproveitando as ondas do negócio para crescer na carreira.

Antes visto com certa ressalva por recrutadores e RHs, esse tipo de profissional vem ganhando relevância num mercado cada vez mais volátil, complexo e incerto. Novas tecnologias surgem a todo momento, obrigando as companhias a rever estratégias, mexer em processos e reestruturar quadros. E quem lida melhor com isso, como é o caso desses surfistas, sai na frente.

“Trocar de área ajuda a entender como a empresa funciona e a desenvolver habilidades importantes para cargos de gestão”, diz Fernando. Ter sido representante de vendas, por exemplo, o levou a conhecer de perto os clientes, algo que mais tarde se mostraria essencial na. elaboração de ações de marketing.

Alógica do aprendizado contínuo vale, e muito, para quem sonha ser CEO. Executivos do alto escalão precisam ser multidisciplinares – ter noções básicas de finanças, de marketing, de vendas, de tecnologia e de atendimento ao cliente. Repare que muitos dos chefes de companhias famosas passaram por diversas dessas áreas antes de assumir a cadeira de presidente.

CARREIRA ACELERADA

Outro aspecto importante a ser levado em conta é que há uma rápida transformação nas relações de trabalho e no perfil dos empregados. Dificilmente um jovem entra numa empresa pensando apenas em salário e benefícios. Um estudo realizado pelo instituto de pesquisas Gallup mostrou que 87% dos millenials enxergam o desenvolvimento como um dos aspectos primordiais do trabalho, 70% desejam ser criativos no emprego e dois terços almejam oportunidades aceleradas.

Em outras palavras, a nova mão de obra não aceita tarefas monótonas por muito tempo e demanda dinamismo para continuar engajada.

É por isso que organizações investem cada vez mais em seleções de talentos internos, dando chance para quem está dentro da companhia ocupar diferentes cargos.

As descrições de vagas também estão mudando. Nãoé raro ouvir de recrutadores que as habilidades comportamentais tem peso maior do que as técnicas, justamente por não poderem ser    ensinadas em cursos, workshops e treinamentos. ”Vejo muita gente querendo mudar de departamento, mas reticente por achar que teria de começar do zero. Digo que sempre se levam lições do cargo anterior para a função seguinte. Mudanças desenvolvem competências como comunicação, organização, trabalho em equipe e iniciativa, que são bem mais difíceis de aprender do que as técnicas”, afirma Anna Cherubina, consultora de RH e professora de MBAs na Fundação Getúlio Vargas (FGV) nos cursos de gestão de pessoas e gestão empresarial.

De fato, quando bem-feitas, as transições agregam valor ao currículo, demonstrando que o candidato possui versatilidade, capacidade de adaptação e maior aptidão ao risco.

De acordo com especialistas, quem encara diferentes funções costuma ser mais inovador, mais ágil na resolução de problemas, mais assertivo nas tomadas de decisão e menos avesso às rupturas. É por isso que atualmente o trabalhador que circula é visto com bons olhos, enquanto aquele que passam muitos anos em seu quadrado é considerado acomodado.

MIGRAÇÃO ESTRATÉGICA

Antes de mudar de área, no entanto, é necessário tomar alguns cuidados. O primeiro deles é analisar as próprias motivações. Entra em cena o bom e velho autoconhecimento. Se você quer fazer a transição para escapar de tarefas maçantes, se livrar de um chefe ruim ou ganhar mais, pense bem. Quando movimentações assim acontecem, tendem a dar errado, pois o objetivo não é ter novos aprendizados e desafios, mas, sim, fugir de uma frustração. “Não dá para mudar de área toda vez que estiver insatisfeito no trabalho”, diz Adriana Prates, presidente da Dasein Executive Search, consultoria que recruta executivos para cargos de média e alta gestão.

Adriana pontua que transferências devem ser pensadas no contexto geral da carreira, após o estabelecimento de objetivos de curto, médio e longo prazo. Embora possa ajudar no reengajamento e na descoberta de novas vocações, a troca de área deve ser consistente, e faz mais sentido para quem tem como meta se tornar chefe. “Para quem ama trabalhar em cargo técnico, talvez não valha a pena mudar com o objetivo de ganhar mais, por exemplo”, salienta. Nesse caso, o mais indicado é buscar companhias com plano de carreira em Y (de especialista) e chance de crescimento linear, em que não é necessário virar gestor para ter aumento de salário e notoriedade.

Outro aspecto a ser avaliado é a cultura da empresa. Anna Cherubina, da FGV, sugere fazer perguntas que auxiliem na escolha: “A empresa vê com bons olhos quem muda de área? Como o setor para o qual desejo migrar é visto dentro da organização? Costuma ter corte de pessoal? É considerado estratégico? De que maneira o chefe atual vai reagir à transferência? Quem será meu futuro gestor e como ele trabalha?” É fundamental, também, solicitar feedback, investigando quais habilidades poderão ser levadas para o novo cargo e quais novas competências terão de ser desenvolvidas. Henrique Rebello, de 42 anos, sempre agiu assim. O analista de sistemas passou por quatro departamentos diferentes na Alterdata, companhia brasileira que desenvolve softwares empresariais, e diz que o direcionamento de ex-chefes o levou a fazer transições muito mais inteligentes. “Com base na devolutiva deles, eu já investia em conhecimento antes mesmo de mudar.

Estudei psicologia comportamental, liderança e comunicação. Fui me preparando para os passos que daria, e isso fez toda a diferença”, afirma. Quando entrou na empresa, aos 25 anos, seu trabalho era basicamente técnico. “Vivia fechado no meu mundinho de TI”, conta.

Para sair dali, precisou fazer networking, construindo relacionamentos fora de seu departamento e se mantendo informado sobre novos projetos e processos seletivos internos. Articulou primeiro uma mudança dentro da própria TI, saindo de analista para supervisor e, depois, passou por departamentos distintos, como o de infraestrutura e o de desenvolvimento de produtos. Hoje, é diretor-geral de gestão integrada, área responsável por integrar todas as áreas da empresa. “Ter mudado e vivenciado outros setores me ajuda, hoje, não só a liderar 400 pessoas como também a encontrar soluções em conjunto mais eficazes”, diz ele, que passou de três a sete anos nos diferences departamentos.

Não há regras claras sobre o tempo que se deve permanecer em cada ocupação. O ideal, afirmam especialistas, é fechar ciclos. “Deve-se ficar o suficiente para entender fatores críticos, identificar problemas, sugerir e implementar alternativas para resolvê-los e verificar resultados”, diz Adriana. É ao deixar um legado que o profissional se torna realmente relevante.

MANOBRA ARRISCADA

Como evitar os principais erros cometidos pelos surfistas corporativos

1. FALTA DE ALINHAMENTO

Antes de oficializar o pedido de transferência, alinhe expectativas com o gestor direto e tenha paciência para conduzir esse processo: jamais passe por cima de seu chefe atual.

2. DIFICULDADE DE LER O CENÁRIO

Avalie a companhia. Se há programas de Job Rotation, se diretores já circularam bastante na organização, se as promoções são oferecidas aos mais versáteis. Se o ambiente não é favorável, a chance de você ser interpretado como alguém infeliz – e colocado na geladeira – é grande.

3. INCONSISTÊNCIA

Não ficar tempo suficiente num posto impede que você adquira o conhecimento esperado e ainda demonstra instabilidade e descompromisso. Por isso, uma vez no novo departamento, abrace um projeto e só solte após entregá-lo com bons resultados.

4. AUTOCONFIANÇA

Seja humilde e anote quais são seus pontos fortes e fracos. Se não estiver pronto, corra em busca das competências que lhe faltam. Isso é importante para que os gestores não façam uma avaliação ruim, concluindo que você é imaturo e despreparado para o desafio.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NA MENTE DOS DEPRESSIVOS – V

MAIS BEM-ESTAR

A psicoterapia é fundamental no tratamento da depressão e é a responsável por mudar a forma como a mente trabalha diante das adversidades da vida

Mesmo quando os medicamentos são indicados, eles funcionam muito melhor se associados à psicoterapia. Este é o tratamento indispensável para qualquer caso de depressão e pode ser realizado tanto com psicólogo quanto com psiquiatra terapeuta. Existem diversos métodos psicoterápicos disponíveis para aqueles que sofrem com a depressão e cada paciente pode escolher a abordagem com a qual mais se identifica – podendo consultar outros profissionais caso não veja resultados. No entanto, a terapia, aliada a certas atitudes e posturas diante da vida, pode oferecer resultados ainda melhores. “Cuidar de si, melhorando aspectos importantes como sono, alimentação saudável e atividades físicas. Ser gentil com você mesmo e não se culpar se não fizer algo que planejou, além de experimentar coisas novas e compartilhar experiências com as pessoas”, analisa a psicóloga Monica Pessanha.

O objetivo principal da terapia é oferecer habilidades e visão que irão ajudar a lidar com a depressão por meio de técnicas práticas sobre como reformular o pensamento negativo e empregar habilidades comportamentais. “O tratamento também pode trabalhar a raiz do distúrbio, colaborando para a compreensão do motivo pelo qual a pessoa se sente de determinada maneira e quais os gatilhos desencadeiam suas sensações”, pontua a psicóloga. A profissional ainda acrescenta que, em termos gerais, a terapia se concentra em três áreas: relacionamento (familiar e trabalho), definição de limite (uma vez que tentar dar “passos maiores que as pernas” pode ser um desencadeador da depressão) e o momento de lidar com os problemas da vida (a maneira coma qual devemos desenvolver maior resiliência). “Existem muitos tipos disponíveis e três métodos mais comuns utilizados no tratamento, como as terapias cognitivo-comportamental, interpessoal e psicodinâmica. Muitas vezes, uma abordagem mista é mais usada”, esclarece Monica.

Tanto os sintomas como as causas e a maneira com a qual se enfrenta o distúrbio são particulares, cada um passa por esse período de um jeito específico, e com as respostas ao tratamento não é diferente. “Alguns indivíduos sofrem de depressão clínica temporária e tomam medicamentos por até 12 meses. Para outros, é uma batalha ao longo da vida, em que picos da doença aparecem com o tempo”, assinala Monica. Em muitos casos, o tratamento, ministrado por meio de psicoterapias e também de medicações, mostra-se eficaz, e o paciente pode ser considerado curado. “A depressão tem cura, mas a pessoa precisa ficar atenta para não reincidir e deslizar de volta aos hábitos sombrios, pois a tendência permanece. Toda cura psíquica é um processo de autoconhecimento, e a descoberta de objetivos de vida ajuda a anular essa predisposição,” ressalta Júlia.

TERAPIAS COMPLEMENTARES

Tudo o que puder ser feito para amenizar os sintomas da depressão é bem-vindo, inclusive as terapias alternativas, hoje chamadas de complementares por auxiliarem os tratamentos convencionais. Confira algumas opções!

A ARTE DA MEDITAÇÃO

Essa técnica vem sendo cada vez mais usada de forma complementar ao tratamento médico. “Na meditação, utilizamos a respiração como uma viga mestra. Quando oxigenam-se as células nervosas, há uma alteração no humor que nos faz sair do estado de inércia para uma maior proatividade”, explica a terapeuta especialista em meditação Nara Louzada. Por meio desse procedimento, é possível estimular nosso cérebro para transformar a interpretação de situações do dia a dia. “A meditação atua na parte frontal do cérebro, onde se situam a atenção e o foco, além de trabalhar o sistema límbico, responsável pelas questões emocionais”, descreve Nara.

TÉCNICA ORIENTAL

Outra opção que surge para auxiliar quem se encontra num quadro depressivo é a acupuntura. De acordo como acupunturista Rubenildo Coutinho, há dois mecanismos por meio dos quais essa prática pode ser útil. “Há o energético, que consiste no equilíbrio dos canais por onde a energia do corpo transcorre, e o fisiológico, que libera substâncias analgésicas, anti-inflamatórias, relaxantes musculares, além de ter uma ação moduladora sobre as emoções e distúrbios como a depressão e a ansiedade, ao estimular a produção de hormônios como a serotonina e a endorfina”, esclarece. Coutinho relata que a técnica empregada inclui estímulos com agulhas ou laser em determinados locais da pele – os chamados pontos de acupuntura – que são escolhidos para tratar a depressão.

MEXA-SE!

O tempo todo nós somos lembrados do quanto é importante praticar esportes. Além de ser uma importante atitude na busca por uma vida mais saudável, essa prática pode trazer vantagens na luta contra a depressão – especialmente pelo fato de ajudar na maior liberação de endorfina. “A endorfina é um hormônio produzido pela glândula hipófise e promove no organismo efeito analgésico, de bem-estar, melhora do humor e alegria”, descreve o ortopedista Mauro Olívio Martinelli. “Por ser liberada após atividades físicas e, por conta dos seus efeitos, pode ajudar no combate à depressão”. De acordo com o médico, alguns estudos indicam que atividades físicas aeróbicas como caminhadas, corridas, andar de bicicleta e nadar liberam maiores níveis de endorfina. Assim, com o acompanhamento de um profissional especializado, é possível consolidar uma regularidade na prática de esportes que, além de ajudar a superar o transtorno, pode colaborar para melhoras em áreas como memória, aprendizado, humor, disposição, sono e autoestima.

AJUDA DA TECNOLOGIA

Desde 2012, a estimulação magnética transcraniana (EMT) é uma técnica aprovada pelo Conselho Federal de Medicina para ajudar no tratamento de paciente com depressão e que não apresentam resposta satisfatória com uso de terapias convencionais. A EMT é não invasiva e indolor, realizada com um objeto semelhante a um capacete acoplado à cabeça do paciente, emitindo pulsos magnéticos de maneira focalizada no cérebro. As sessões duram 15 minutos em média e o objetivo é reduzir os sintomas da doença, podendo inclusive suspender o uso de medicamentos. O paciente se mantém acordado e a técnica é segura, sem apresentar efeitos colaterais, além de poder ser usada também no tratamento da esquizofrenia, ansiedade, transtorno do pânico, dor crônica, entre outros problemas.

Outra ferramenta que pode ajudar pacientes com depressão e recentemente lançado no Brasil é o Deprexis, um software baseado nos princípios da terapia comportamental cognitiva (TCC) e que conduz um diálogo interativo com os pacientes, na tentativa de despertar o prazer de realizar algumas tarefas do dia a dia. O Deprexis pode ser utilizado em dispositivos com acesso à internet, incluindo smartphones e tablets. Um estudo publicado em novembro de 2017 no Journal of Affective Disorders mostra que o uso de um software como ferramenta complementar da psicoterapia pode ser uma opção promissora para o tratamento da depressão. Assim, o Deprexis não deve substituir o tratamento convencional (com o uso de medicamentos caso necessário), e sim ser usado como um complemento para acelerar a melhora dos sintomas.