GESTÃO E CARREIRA

TRAVEI. E AGORA?

Por que nós temos apagões mentais em momentos decisivos no trabalho – e o que fazer para evitar esses bloqueios

Você vai apresentar um importante projeto. Mas na hora H paralisa: as mãos tremem, a voz falha, as palavras desaparecem da mente. Alguns o encaram, outros trocam olhares constrangidos, e nada sai como planejado. Depois do desempenho pífio, só restam vergonha e culpa por ter falhado. Episódios como esse acontecem cotidianamente no mundo corporativo, inclusive com profissionais experientes. A explicação é científica. Com desafios constantes, o ambiente de trabalho se tornou um lugar estressante. De acordo com o órgão American Institute of Stress, estudos apontam que a tensão nas empresas é, de longe, a principal fonte de desassossego para os adultos. Há cobrança por resultados, cortes e mudanças constantes. Quando se vê diante de uma situação decisiva, o indivíduo, já sobrecarregado emocionalmente, empaca, acionando os mecanismos de defesa do sistema límbico, região cerebral relacionada à emoção. Quando isso acontece recursos cognitivos, como o raciocínio, a linguagem e a memória, são desligados. Sobressaem-se os físicos: o fluxo sanguíneo é direcionado para os músculos, os batimentos cardíacos aumentam, há queda de pressão. É nesse momento que você trava.

Carla Tieppo, neurocientista e professora na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, diz que ficamos ainda mais suscetíveis a bloqueios quando nos defrontamos com cenários novos – como uma palestra para desconhecidos ou uma entrevista de emprego. “Sou professora há 20 anos e, diante dessa emergência emocional, não vou ter problemas para dar aula por ser uma atividade que já está no automático. Mas, numa situação não automatizada, a pessoa não consegue ativar os circuitos cerebrais corretos”, diz Carla. Segundo ela, não existem dados precisos sobre casos de travamento, mas o problema está, em geral, associado à ansiedade. Como três em cada dez indivíduos possuem traços de ansiedade, não é difícil imaginar que seja algo comum. “Aqui no Brasil, a crise, o desemprego e a necessidade de conquistar espaço no mercado de trabalho vulnerabilizam ainda mais as pessoas”, diz a médica.

O psiquiatra e palestrante Roberto Shinyashiki diz que dois aspectos ajudam a frear o descontrole: domínio pleno do conteúdo e treinamento prévio para conduzir a circunstância, seja ela qual for, com segurança. “Muitas vezes, o profissional paralisa ao perceber que não está agradando”, diz. Segundo Roberto, os inseguros e os autoconfiantes, dois extremos, são os mais propensos a viver apagues e, por não conseguirem fazer uma leitura correta do contexto, acabam se prejudicando em momentos decisivos.

VALE PARA GERAL

Como ninguém está livre desse problema, o mais importante é enfrentar. “A imagem que o profissional deixará depende de como ele vai reagir após o travamento”, diz o consultor de carreira Marcelo Veras, presidente da Inova Business School. O conselho, nesses casos, é ser transparente, pedir desculpas e dizer que não está conseguindo falar naquele momento, mas que irá se preparar para apresentar melhor na próxima vez. Já no dia seguinte deve-se ter proatividade, procurar o chefe e pedir uma segunda chance. A boa notícia, segundo Marcelo, é que na nova economia há uma tolerância diferente ao erro. “Hoje, as empresas já conseguem entender que errar faz parte da jornada do funcionário e do processo de aprendizagem e evolução dele”, diz.

Confira, a seguir, cinco dicas que podem ajudar a prevenir bloqueios em situações-chave da profissão.

1 – REVISITE A SITUAÇÃO

Após o evento, que pode ser uma reunião importante, a apresentação para um investidor ou até mesmo uma entrevista de emprego, procure lembrar com detalhes o que aconteceu: o objetivo é identificar que momento exatamente o deixou vulnerável. Os motivos podem ser vários, como a ansiedade para gerar resultados, uma mudança com muita incerteza, um estresse forte na vida pessoal. “A maior par te do processamento do cérebro é inconsciente. Muitas vezes, a pessoa não sabe qual é o gatilho. Por isso, o autoconhecimento aprofundado é a ferramenta mais poderosa para reverter esse tipo de bloqueio”, afirma a neurocientista Carla Tieppo. Além de psicoterapia para identificar medos e inseguranças, especialistas indicam atenção plena às atitudes, às reações e aos pensamentos que surgem no momento de paralisia mental, para evitar que aconteçam novos episódios. A anotação dos fatos para futura analise é indicada. Um antigo bullying na escola pode estar por trás do blackout num momento crítico. Só de pensar em experimentar aquela sensação novamente, o indivíduo perde o controle. Ao saber o que o tira do eixo, o profissional se prepara e, claro, age de maneira racional.

2 – NÃO IMPROVISE

Se você possui tendência a travar, saiba que a falta de domínio pleno do assunto favorece os lapsos. A melhor maneira de minimizar os riscos é criando um roteiro (com ações e diálogos) bastante detalhado. O começo da história, ou seja, como você vai iniciar sua apresentação, é decisivo. Há pesquisas que mostram que os níveis de ansiedade caem de maneira significativa após os primeiros 60 segundos de apresentação. “Divida o tema em partes e organize a sequência dos argumentos, sabendo o caminho que pretende percorrer do início ao fim”, orienta Reinaldo Polito, professor de oratória e autor de livros como 29 minutos para Falar Bem em Público (Editora Saraiva). Criar um roteiro previne travamentos de modo em geral. Está assumindo a liderança de um time? Sente no computador e organize suas ideias, simulando situações com seus funcionários e frases que diria a eles. Isso reduz o receio do novo e melhora significativamente a comunicação, evitando panes futuras. Em palestras e reuniões, lance mão de slides com os assuntos mais importantes em tópicos. Se perder o fio da meada, basta olhar de relance para se situar. “Usar infográficos que vão além do tradicional gráfico de pizza deixa o conteúdo mais consistente e atrativo e ainda ajuda a nortear a apresentação”, sugere o consultor especialista em criatividade Denilson Shikako. De acordo com ele, o site Infogram oferece diversos modelos gratuitamente.

3 – TREINE, TREINE MUITO

Segundo um estudo publicado na revista Science, conduzido na Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, o método da decoreba ainda é um dos mais eficazes para lembrar o conteúdo. Por isso, ensaie repetidas vezes até dominar completamente o que pretende dizer, lendo o roteiro que você mesmo elaborou. Ao constatar que já está com tudo memorizado, peça a um amigo ou familiar para avaliar seu desempenho. Eles podem, inclusive, usar o celular para gravar sua apresentação. Assista ao vídeo e analise quais são os pontos que precisam ser melhorados. No mais, sempre que tiver oportunidade de usar a palavra, em reuniões informais de trabalho, aproveite para se manifestar. isso ajudará a ir se soltando.

4 – COMBATA PENSAMENTOS NEGATIVOS

O administrador de empresas Eduardo Lellis, de 35 anos, caminhava para fazer uma apresentação de resultados quando ouviu um colega se referir a ele como “moleque”. Então com 20 anos e já ocupando uma posição de gerência num banco, foi tomado por pensamentos ruins bem na hora de falar. “Os dados estavam na tela e, mesmo tendo ensaiado, não saía nenhuma palavra. Meu líder, que falaria em seguida, percebeu meu nervosismo e assumiu a apresentação”, lembra. É por isso que um dos conselhos de Roberto Shinyashiki para evitar apagões é mapear os diálogos internos. “São as chamadas vozes que nos fazem pensar que não vamos conseguir, que os superiores não nos valorizam”, diz. Anote suas fraquezas numa folha e corra para resolvê-las. Eduardo fez isso. “Certamente eu teria outras situações semelhantes pela frente e precisava melhorar a autoconfiança, a inteligência emocional e a parte técnica”, afirma ele, que hoje é empresário no ramo de lubrificantes automobilísticos. Além de observar as atitudes das pessoas que o inspiravam, Eduardo fez cursos de liderança, de negociação e de comunicação.

5 – SEJA VOCÊ MESMO

Uma das maneiras mais eficientes de se proteger do enguiço mental é saber quem é você e qual a hora certa de agir. “Uma breve pausa com respiração profunda num momento de estresse sinaliza para o cérebro que a pressão passou”, diz Carla Tieppo. Há oito anos, depois de travar em uma convenção comercial para 400 pessoas, onde tinha a missão de apresentar um projeto, a consultora de marketing Elisa Akikusa, de 47 anos, decidiu que precisava desenvolver o autocontrole. Embora dominasse o assunto, no momento de subir ao palco para representar a empresa, titubeou. Durante os 15 minutos de palestra, perdeu o fio da meada várias vezes. “Tive brancos e muita dor no estômago”, diz. Além de pedir desculpa ao gestor, foi buscar ajuda da psicóloga da empresa. “Vi quanta dificuldade tinha de falar sobre mim mesma e continuar focada, olhando nos olhos dela. “Para solucionar isso, Elisa se matriculou num curso de teatro para executivos com duração de um mês. Ali, ganhou mais consciência de suas características pessoais, melhorou a expressão corporal e descobriu que podia criar personagens (dissociados da imagem pessoal) para enfrentar situações novas no trabalho. “Hoje, consigo racionalizar e ser fiel ao meu estilo. Isso me deixa mais confiante”, diz. No cargo de coordenadora de marketing, ela deixou para trás o passado de travar em público. “Ainda fico nervosa, mas não gaguejo e passo a mensagem de maneira objetiva.”

DEU PANE

Soluções práticas para sair da situação embaraçosa

  •  Faça uma pergunta e “passe a bola” para os participantes responderem. Enquanto eles falam, você reorganiza suas ideias para retomar.
  •  Use “macetes” para ganhar tempo e contornar o nervosismo. Acertar a altura do microfone, mesmo que esteja correta, arrumar a ordem das folhas e falar um pouco mais devagar são técnicas que ajudam a retomar o raciocínio.
  •  Se perder a sequência da fala, diga: “na verdade, o que eu quero dizer é”. Essa frase o obriga a recobrar o que estava dizendo.
  •  Foque na pessoa com o semblante mais tranquilo do local e sorria brevemente olhando para ela. Essa atitude ajuda a aumentar a sensação de autoconfiança.
  •  Se você for extrovertido, encaixe uma breve história divertida na fala (relacionada ao tema) ou   brinque sobre o próprio esquecimento para quebrar o gelo.
  •  Peça uma pequena pausa, saia por alguns minutos do ambiente e faça exercícios de respiração profunda para voltar e retomar mais calmo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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