EU ACHO …

O DESACONTECIMENTO

Habitamos um tempo suspenso de possibilidades, alteração profunda produzida como acaso determinado pelo próprio mundo

Com metade do mundo, todos aqueles que podiam, isolada em casa por meses, em contato com a vida externa e social exclusivamente por meio da rede mundial de computadores, enquanto a outra metade, aquela que nunca pode, arriscava a vida nas ruas levando comida e mantendo o trabalho físico necessário a todos os demais, passamos o ano de 2020 como se ele não tivesse acontecido. Habitamos um tempo suspenso de possibilidades, um real tempo do desacontecimento, uma alteração profunda, produzida como acaso determinado pelo próprio mundo, da lógica da produção infinita.

Um tempo em que, por semanas a fio, um único complexo, como diziam os antigos psicanalistas, tomou a vida e a representação da vida, modulando nossa existência em níveis desconhecidos: em conjunto com a vida suspensa da cidade, da anulação do nosso vínculo amoroso com o cotidiano, passamos dias e mais dias olhando para a doença do mundo, os milhares de mortos, para a falta de hospitais e até de serviços funerários em países inteiros, para a estrutura molecular de um vírus que transmigrou de morcegos para homens na China via um wet market tradicional de Wulhan, os riscos iminentes, da dor e da perda dos mais velhos, da morte súbita sem ar, a contaminação de equipes inteiras de saúde, exaustas, o horizonte de centenas de milhares de mortos.

E mais: a morte isolada e sem vida social, da nova opacidade do valor da vida em um mundo aplainado, sem ritual e sem a presença daqueles que amam uma pessoa, fazendo de todos nós uma imago pós-moderna de Antígona. Uma Antígona administrada que, do ponto de vista do vírus, se via como espaço de razão comum universal pelo luto e o direito à vida, como só o amor geral pela forma mercadoria foi capaz de realizar.

Se o capitalismo hiperturbinado do início do século XXI universaliza a subjetivação para o mercado, regulando as pequenas e as grandes gangues das burguesias nacionais, e os grandes circuitos de máfias globais com um movimento mais amplo do acesso das massas à gestão de suas vidas no trabalho, se houver trabalho, para o simples e direto acesso ao mundo como shopping center, tudo o que se deseja; se o universal exclusivo entre nós é a mercadoria, e seu efeito de imagem sobre todos impulsionado em nível atomizado pelas máquinas de comunicação de massa pessoalizadas, celulares, e não mais os direitos e a proteção do trabalho e da vida; a emergência histórica súbita da crise ambiental como crise de saúde pública na sua primeira figura comum a toda a terra humana, o nosso vírus Sars 2 da pandemia mundial de 2020, necessariamente fez efeitos políticos impensáveis, nem novos nem velhos, mas desconhecidos, no quadro de dissolução humana, ambiental e gestão dos sujeitos, da vida dos cidadãos do hiperconsumo mundial.

Em um momento de incertezas sobre os rumos da hegemonia tecnológica do futuro próximo, da grande crise nacional do emprego no império norte-americano colhida como resultado da própria globalização do capital, realizada nos anos 1990 e 2000 como conceito e ação institucional pela própria riqueza dos EUA, da desorganização final dos fluxos e das grandes linhas de investimentos globais que se dissolveram após o crash de Wall Street de 2008 e da consequente emergência de novas ondas de nacionalismos autoritários, que passaram a projetar novamente a guerra, social e externa, como o modo-limite de repor e manter a acumulação posta em risco, neste mundo, perigoso e instável, vindo de fora como um fantasma, com o retorno incontornável de um recusado, como o desconhecido mínimo que nos é tão íntimo quanto a vida, o vírus da crise ambiental mundial desorganizou o que se desorganizava, e fundou um novo ponto fixo, negativo e infinito em sua concepção, o próprio “vírus” e suas imagens, para a reorganização das consciências, que perdiam todo o contato com os ideais de direitos próprios à vida humana.

Isso porque, no capitalismo tardio, o direito ao acesso econômico às benesses do mercado parecia implicar permanentemente a perda e a liquidação dos direitos de garantias sociais e comunitárias. O vírus tornou-se, por um ano inteiro, o único direito mundial, outro, paralelo e negativo em relação à reprodução universal da única coisa que ainda importa neste mundo, a lógica geral do mercado e do consumo, e sua destruição global endógena. Com sua diferença radical e efetiva, que se impunha como necessidade da própria vida, para além de todas as barreiras policiadas e perversas de classe do mundo como ele é, o vírus pôs pela primeira vez pensamentos em circulação que, até ontem, eram absolutamente impensados. Passou-se a falar da necessidade evidente de saúde pública comum e de acesso universal – um ponto que a Constituição brasileira de 1988 pôs o Brasil à frente de todo mundo – mas não só, relembrou-se a mediação iluminista da ciência como medida das coisas humanas de uma época globalizada irreversível, ciência como índice global de vida, que deve ser gerida pelos índices globais de democracia e de justiça, que vão da Organização Mundial da Saúde ao tratado do clima de Paris.

E mais, pela primeira vez, diante da ruína universal de um mundo que se unifica apenas na razão da peste, enfrentou-se a crise mundial do desemprego, produto imanente do próprio andamento contraditório da forma capital, com a ideia de uma renda mínima para a vida, universal. O capital globalizado começa a pensar que a socialização exclusiva da cultura fetichista da mercadoria, que de fato realiza como modo próprio de se manter e expandir, não é mais o suficiente para a sua própria vida. Dois caminhos se abrem à frente: o da fragmentação e da aposta de força neoimperialista neofascista na produção de excedente por modalidades de violência direta, destruição voraz da natureza, privatizações da vida e formas de guerra, ou o pensamento crítico mundial sobre a própria produção, e as possibilidades de sua regulação e transformação a favor da vida.

Com seu nível de corte direto sobre a vida orgânica, e ultrapassando as ficções políticas da acumulação de privilégio e poder das classes mundiais, o vírus de 2020, negativo e imaginário, abriu a perspectiva de se voltar a pensar em uma razão cosmopolita política global. Porque, como o primeiro sintoma vindo do real global, ele pôs novamente em perspectiva a ideia de um pensamento e de um sistema de valores que não sejam apenas a redução da fantasmagoria mundial de uma vida para o consumo. A mesma ordem, no limite da impossibilidade de se reproduzir, que nos trouxe até o sintoma mundial: os mesmos aviões dos negócios acelerados da China industrial com o seu mundo inteiro consumidor, de coisas e de energia, foram os aviões que em tempo real espalharam o vírus pela terra de 7, 7 bilhões de habitantes.

Neste quadro de profundas tristezas, tensão global pela vida e pela morte, necessidade de comunicação e sincronização das políticas públicas de direito à vida, tornou-se clara, no Brasil e nos EUA, a natureza destrutiva das políticas neo­fascistas ligadas à ideia de mercado total e absoluto que chegou ao poder nos últimos quatro anos. Além da tormenta da guerra trágica contra a morte invisível e onipresente tivemos de lidar com a política degradada ao nível da arrogância máxima e explícita, tendente à recusa da realidade, do contrato social e de todo bom senso.

Durante meses a fio Jair Bolsonaro, o líder autoritário de fato demenciado para o sentido do que é público e do que é comum, e seu governo pífio, incompetente e improdutivo, mas destrutivo, nos incomodou e pôs em risco ainda mais que o vírus. Quando a pandemia teve início, ele e suas hostes estavam diante de um quartel-general do Exército pedindo “AI-5 com Bolsonaro no poder”. Ou seja, buscando instrumentos de exceção para exercer o poder absoluto e dispor de nossas vidas como quisesse. 2020 foi o ano que vivemos para vermos o Brasil revelar a todos os seus porões subjetivos mais torpes. Muito piores do que a doença. Porque o vírus tem a elegância vazia das coisas reais em si mesmas, enquanto o governo estupidificado do Brasil é barbárie humana, imposta aos homens pela irracionalidade e o gosto pela violência.

Essa sintomática política choca e agride permanentemente, efeitos que tentam para sempre transformar em ganho, vitória da sua impertinência e da sua arrogância sobre as socieda­des que desorganizam com sistema. Felizmente, no último segundo histórico, com a derrota de Donald Trump, tivemos uma única notícia boa no ano da suspensão de tudo. O neofascismo de mercado, incapaz de qualquer reconhecimento que não o próprio autoritarismo, foi barrado por uma consciência histórica que emergiu pela presença do vírus, diante do qual se tornou óbvia a natureza antissocial destes governos. Promotores da irresponsabilidade, negadores do saber humano, banalizadores da morte, milhares foram vitimados nos EUA e no Brasil por esses líderes da barbárie autoindulgente do capitalismo dos últimos dias. Assim, o mesmo vírus que nos enquadrou e reduziu a vida se tornou um ponto de racionalidade histórica para a percepção do quanto estes governos são impossíveis. 

Infelizmente, tivemos de recuperar a racionalidade dos direitos e do respeito pelo outro pela medida histórica de uma tragédia, e de governos que a aprofundaram, amigos da morte que de fato são. Todo fascismo termina em morte de massas, o fundo mágico e mítico de sua política sacrificial. O mundo contemporâneo ainda não consegue pôr a medida de seu destino em alguma ordem de acordo e de razão do reconhecimento global. Se 80 milhões de norte-americanos destituíram Trump da sua posição de ditador imaginário, 74 milhões, de classe média e ricos, também votaram nele e o desejam. O neofascismo está aí, mais vivo do que nunca. Não sabemos se temos vacina para ele. Como o vírus, ele é produto imanente do nosso próprio mundo. Teremos muito trabalho humano e político pela frente para reduzir a sua presença social. Precisamos nos concentrar inteiramente nisso. Mais ou menos como a sombra da morte de um vírus de presença total no mundo exigiu toda a nossa atenção e nossa vida.

*** TALES AB. SÁBER – é psicanalista, ensaísta e professor de Filosofia da Psicanálise da Universidade Federal de São Paulo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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