EU ACHO …

O DESACONTECIMENTO

Habitamos um tempo suspenso de possibilidades, alteração profunda produzida como acaso determinado pelo próprio mundo

Com metade do mundo, todos aqueles que podiam, isolada em casa por meses, em contato com a vida externa e social exclusivamente por meio da rede mundial de computadores, enquanto a outra metade, aquela que nunca pode, arriscava a vida nas ruas levando comida e mantendo o trabalho físico necessário a todos os demais, passamos o ano de 2020 como se ele não tivesse acontecido. Habitamos um tempo suspenso de possibilidades, um real tempo do desacontecimento, uma alteração profunda, produzida como acaso determinado pelo próprio mundo, da lógica da produção infinita.

Um tempo em que, por semanas a fio, um único complexo, como diziam os antigos psicanalistas, tomou a vida e a representação da vida, modulando nossa existência em níveis desconhecidos: em conjunto com a vida suspensa da cidade, da anulação do nosso vínculo amoroso com o cotidiano, passamos dias e mais dias olhando para a doença do mundo, os milhares de mortos, para a falta de hospitais e até de serviços funerários em países inteiros, para a estrutura molecular de um vírus que transmigrou de morcegos para homens na China via um wet market tradicional de Wulhan, os riscos iminentes, da dor e da perda dos mais velhos, da morte súbita sem ar, a contaminação de equipes inteiras de saúde, exaustas, o horizonte de centenas de milhares de mortos.

E mais: a morte isolada e sem vida social, da nova opacidade do valor da vida em um mundo aplainado, sem ritual e sem a presença daqueles que amam uma pessoa, fazendo de todos nós uma imago pós-moderna de Antígona. Uma Antígona administrada que, do ponto de vista do vírus, se via como espaço de razão comum universal pelo luto e o direito à vida, como só o amor geral pela forma mercadoria foi capaz de realizar.

Se o capitalismo hiperturbinado do início do século XXI universaliza a subjetivação para o mercado, regulando as pequenas e as grandes gangues das burguesias nacionais, e os grandes circuitos de máfias globais com um movimento mais amplo do acesso das massas à gestão de suas vidas no trabalho, se houver trabalho, para o simples e direto acesso ao mundo como shopping center, tudo o que se deseja; se o universal exclusivo entre nós é a mercadoria, e seu efeito de imagem sobre todos impulsionado em nível atomizado pelas máquinas de comunicação de massa pessoalizadas, celulares, e não mais os direitos e a proteção do trabalho e da vida; a emergência histórica súbita da crise ambiental como crise de saúde pública na sua primeira figura comum a toda a terra humana, o nosso vírus Sars 2 da pandemia mundial de 2020, necessariamente fez efeitos políticos impensáveis, nem novos nem velhos, mas desconhecidos, no quadro de dissolução humana, ambiental e gestão dos sujeitos, da vida dos cidadãos do hiperconsumo mundial.

Em um momento de incertezas sobre os rumos da hegemonia tecnológica do futuro próximo, da grande crise nacional do emprego no império norte-americano colhida como resultado da própria globalização do capital, realizada nos anos 1990 e 2000 como conceito e ação institucional pela própria riqueza dos EUA, da desorganização final dos fluxos e das grandes linhas de investimentos globais que se dissolveram após o crash de Wall Street de 2008 e da consequente emergência de novas ondas de nacionalismos autoritários, que passaram a projetar novamente a guerra, social e externa, como o modo-limite de repor e manter a acumulação posta em risco, neste mundo, perigoso e instável, vindo de fora como um fantasma, com o retorno incontornável de um recusado, como o desconhecido mínimo que nos é tão íntimo quanto a vida, o vírus da crise ambiental mundial desorganizou o que se desorganizava, e fundou um novo ponto fixo, negativo e infinito em sua concepção, o próprio “vírus” e suas imagens, para a reorganização das consciências, que perdiam todo o contato com os ideais de direitos próprios à vida humana.

Isso porque, no capitalismo tardio, o direito ao acesso econômico às benesses do mercado parecia implicar permanentemente a perda e a liquidação dos direitos de garantias sociais e comunitárias. O vírus tornou-se, por um ano inteiro, o único direito mundial, outro, paralelo e negativo em relação à reprodução universal da única coisa que ainda importa neste mundo, a lógica geral do mercado e do consumo, e sua destruição global endógena. Com sua diferença radical e efetiva, que se impunha como necessidade da própria vida, para além de todas as barreiras policiadas e perversas de classe do mundo como ele é, o vírus pôs pela primeira vez pensamentos em circulação que, até ontem, eram absolutamente impensados. Passou-se a falar da necessidade evidente de saúde pública comum e de acesso universal – um ponto que a Constituição brasileira de 1988 pôs o Brasil à frente de todo mundo – mas não só, relembrou-se a mediação iluminista da ciência como medida das coisas humanas de uma época globalizada irreversível, ciência como índice global de vida, que deve ser gerida pelos índices globais de democracia e de justiça, que vão da Organização Mundial da Saúde ao tratado do clima de Paris.

E mais, pela primeira vez, diante da ruína universal de um mundo que se unifica apenas na razão da peste, enfrentou-se a crise mundial do desemprego, produto imanente do próprio andamento contraditório da forma capital, com a ideia de uma renda mínima para a vida, universal. O capital globalizado começa a pensar que a socialização exclusiva da cultura fetichista da mercadoria, que de fato realiza como modo próprio de se manter e expandir, não é mais o suficiente para a sua própria vida. Dois caminhos se abrem à frente: o da fragmentação e da aposta de força neoimperialista neofascista na produção de excedente por modalidades de violência direta, destruição voraz da natureza, privatizações da vida e formas de guerra, ou o pensamento crítico mundial sobre a própria produção, e as possibilidades de sua regulação e transformação a favor da vida.

Com seu nível de corte direto sobre a vida orgânica, e ultrapassando as ficções políticas da acumulação de privilégio e poder das classes mundiais, o vírus de 2020, negativo e imaginário, abriu a perspectiva de se voltar a pensar em uma razão cosmopolita política global. Porque, como o primeiro sintoma vindo do real global, ele pôs novamente em perspectiva a ideia de um pensamento e de um sistema de valores que não sejam apenas a redução da fantasmagoria mundial de uma vida para o consumo. A mesma ordem, no limite da impossibilidade de se reproduzir, que nos trouxe até o sintoma mundial: os mesmos aviões dos negócios acelerados da China industrial com o seu mundo inteiro consumidor, de coisas e de energia, foram os aviões que em tempo real espalharam o vírus pela terra de 7, 7 bilhões de habitantes.

Neste quadro de profundas tristezas, tensão global pela vida e pela morte, necessidade de comunicação e sincronização das políticas públicas de direito à vida, tornou-se clara, no Brasil e nos EUA, a natureza destrutiva das políticas neo­fascistas ligadas à ideia de mercado total e absoluto que chegou ao poder nos últimos quatro anos. Além da tormenta da guerra trágica contra a morte invisível e onipresente tivemos de lidar com a política degradada ao nível da arrogância máxima e explícita, tendente à recusa da realidade, do contrato social e de todo bom senso.

Durante meses a fio Jair Bolsonaro, o líder autoritário de fato demenciado para o sentido do que é público e do que é comum, e seu governo pífio, incompetente e improdutivo, mas destrutivo, nos incomodou e pôs em risco ainda mais que o vírus. Quando a pandemia teve início, ele e suas hostes estavam diante de um quartel-general do Exército pedindo “AI-5 com Bolsonaro no poder”. Ou seja, buscando instrumentos de exceção para exercer o poder absoluto e dispor de nossas vidas como quisesse. 2020 foi o ano que vivemos para vermos o Brasil revelar a todos os seus porões subjetivos mais torpes. Muito piores do que a doença. Porque o vírus tem a elegância vazia das coisas reais em si mesmas, enquanto o governo estupidificado do Brasil é barbárie humana, imposta aos homens pela irracionalidade e o gosto pela violência.

Essa sintomática política choca e agride permanentemente, efeitos que tentam para sempre transformar em ganho, vitória da sua impertinência e da sua arrogância sobre as socieda­des que desorganizam com sistema. Felizmente, no último segundo histórico, com a derrota de Donald Trump, tivemos uma única notícia boa no ano da suspensão de tudo. O neofascismo de mercado, incapaz de qualquer reconhecimento que não o próprio autoritarismo, foi barrado por uma consciência histórica que emergiu pela presença do vírus, diante do qual se tornou óbvia a natureza antissocial destes governos. Promotores da irresponsabilidade, negadores do saber humano, banalizadores da morte, milhares foram vitimados nos EUA e no Brasil por esses líderes da barbárie autoindulgente do capitalismo dos últimos dias. Assim, o mesmo vírus que nos enquadrou e reduziu a vida se tornou um ponto de racionalidade histórica para a percepção do quanto estes governos são impossíveis. 

Infelizmente, tivemos de recuperar a racionalidade dos direitos e do respeito pelo outro pela medida histórica de uma tragédia, e de governos que a aprofundaram, amigos da morte que de fato são. Todo fascismo termina em morte de massas, o fundo mágico e mítico de sua política sacrificial. O mundo contemporâneo ainda não consegue pôr a medida de seu destino em alguma ordem de acordo e de razão do reconhecimento global. Se 80 milhões de norte-americanos destituíram Trump da sua posição de ditador imaginário, 74 milhões, de classe média e ricos, também votaram nele e o desejam. O neofascismo está aí, mais vivo do que nunca. Não sabemos se temos vacina para ele. Como o vírus, ele é produto imanente do nosso próprio mundo. Teremos muito trabalho humano e político pela frente para reduzir a sua presença social. Precisamos nos concentrar inteiramente nisso. Mais ou menos como a sombra da morte de um vírus de presença total no mundo exigiu toda a nossa atenção e nossa vida.

*** TALES AB. SÁBER – é psicanalista, ensaísta e professor de Filosofia da Psicanálise da Universidade Federal de São Paulo.

OUTROS OLHARES

A FUGA DAS CIDADES

O êxodo urbano, a saída em massa das metrópoles, virou uma tendência mundial e é verificado em muitas grandes cidades neste momento. Impelidas pela pandemia, as pessoas estão, simplesmente, abandonando áreas mais densas e se mudando para o interior, comprando e alugando casas ou aproveitando muito melhor as que já tinham. Com a disseminação do home office, quem pode e tem essa opção está indo para o campo ou para as praias, em busca de tranquilidade para trabalhar e, principalmente, de qualidade de vida e segurança sanitária.

Poder respirar na natureza, ficar à vontade num quintal que seja, ou à beira da piscina, se tornou muito mais interessante do que permanecer isolado num apartamento. O isolamento social deixou o ar livre ainda mais precioso e cobiçado. E todos querem se afastar do epicentro da doença para diminuir os riscos de contágio. De um modo geral, o coronavírus vem fazendo muitas pessoas repensarem onde querem viver por medo, questões de sobrevivência ou mesmo por projeto pessoal. Não se trata apenas de um retiro emergencial, mas de uma preparação para uma saída definitiva da cidade grande. A possibilidade de trabalho remoto abre um campo vasto de opções para a moradia. Essa é uma tendência que se percebe principalmente no topo da pirâmide social, onde as pessoas têm dinheiro para realizar seus projetos de curto prazo, mas que, também, avança forte pela classe média. Há, por exemplo, uma procura crescente, nos últimos meses, por casas em condomínios de luxo no interior e litoral de São Paulo. Em alguns locais privilegiados, a procura por imóveis multiplicou por seis em relação ao ano passado.

É o mesmo fenômeno que acontece em torno de outras grandes cidades, como Nova York e Londres. Em Nova York há uma intensificação das compras e da busca por oportunidades imobiliárias no subúrbio. No norte de Manhattan, em Long Island, constata-se uma corrida pós-pandemia por casas mais espaçosas e com jardins, assim como nos condados de Bergen, Rockland e Westchester. Pesquisa recente realizada pela corretora Redfin mostrou que 50% dos entrevistados de Nova York, Boston e São Francisco consideram seriamente uma mudança definitiva para fora da cidade se o trabalho remoto se tornar permanente. Em Londres, um levantamento realizado pela Totaljobs, revelou que um quarto dos habitantes pretende continuar trabalhando à distância, fora da capital, mesmo quando acabar a quarentena. Um terço da população londrina declara que tem planos de viver em áreas rurais em breve ou nos próximos anos e que essa vontade aumentou depois da Covid-19. Em São Paulo, a situação é parecida.

“A procura por locação de imóveis de luxo no interior cresceu no início da pandemia porque as pessoas se viram aprisionadas e isso acontece bem numa época em que a taxa Selic está baixa, o que favorece as compras e financiamentos”, destaca Maria Marchetti, corretora da Bossa Nova Sotheby’s, imobiliária que atua no segmento de alto padrão. “Tenho clientes querendo comprar casas em condomínios como Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, mas não conseguem porque os terrenos estão quase todos vendidos. A média de preço de uma casa lá ultrapassa os R$ 4 milhões e, mesmo assim, estão sobrando interessados”, afirma. Segundo Maria, a demanda por casas de campo aumentou bastante durante a pandemia, em comparação com o ano passado. Entre janeiro e julho, o volume de vendas da Bossa Nova cresceu 28% se comparado ao mesmo período de 2019.

DINHEIRO NO BOLSO

Com dinheiro no bolso e a certeza de que não quer mais viver em São Paulo, Alessandro, ex-diretor financeiro de uma multinacional, fez suas malas e rumou para o interior de São Paulo, onde mora seu pai, Paulo. O destino? Um condomínio de luxo no interior com ar puro, natureza e lazer para aproveitar com a família. Após árduos 25 anos na capital, ele relata que não suportava mais o “confinamento” dentro de seu apartamento, ainda que morasse em Higienópolis, área nobre da cidade. “Eu não aguentava mais o trânsito infernal e a falta de espaço, por isso abandonei a vida de executivo”, afirma. “Eu era aquele menino do interior que queria usar terno e gravata, estudar na FGV, fechar grandes negócios, mas para mim deu, cansei de São Paulo. A qualidade de vida no interior é bem melhor”, destaca. Casado com uma médica e pai do menino Heitor, o ex-executivo ressalta que a escola de seu filho era perto de casa e sua esposa também levava pouco tempo para chegar ao trabalho. Por isso, eles demoraram a mudar de ares. “Aqui tenho ar puro e deixo meu filho brincar solto no quintal, o que é incrível. Viver aqui me fez iniciar um negócio com meu irmão, iremos investir na construção de moradias populares – acredito que muitas pessoas estão migrando para o interior por conta desse conforto”, conclui.

Prevendo essa mudança de estilo de vida há anos, condomínios como Fazenda Boa Vista, Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista, e Terras de São José, em Itu, localizados a 1h30 de São Paulo, foram projetados para pessoas que, assim como Alessandro, queriam espaço, mas sem abandonar os confortos da capital. “Teve aluguel que triplicou de R$ 50 mil para R$ 150 mil e mesmo assim os clientes alugaram em peso. Esgotou tudo em praticamente todos os condomínios de luxo”, afirma Guilherme Belluzzo, diretor da Agulha no Celeiro Imóveis Especiais. Especializado no ramo, Belluzzo ressalta que o estilo de vida nos três destinos acima podem ser casas de campo para os fins de semana ou moradia primária, visto que o morador não leva mais do que duas horas pra chegar lá vindo de São Paulo. “A estrutura desses lugares é padrão europeu, tem tudo do bom e do melhor”, afirma.

Segundo vários corretores de imóveis de luxo ouvidos, o relato número um dos clientes procurando casas é: “Preciso de espaço.” Os paulistanos começaram a enxergar que há vida fora da bolha metropolitana chamada São Paulo – e como há. “A procura intensa gerou aumento no valor de imóveis em condomínios no interior e litoral, além de despertar atenção de quem não frequentava muito suas casas de campo. Essas pessoas estão utilizando mais seus imóveis”, afirma José Roberto Graiche Junior, presidente da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC).

É o exemplo do empresário Danilo, da mulher Roseli e da filha Marina, paulistanos que utilizam sua segunda casa no litoral sul como nunca antes. Por conta das restrições da pandemia, que fechou o comércio e os espaços culturais, a família, que desfrutava das vantagens da cidade grande, viu suas opções de lazer diminuírem drasticamente. Mas há males que vêm para o bem. No momento em que se viram cercados pelo coronavírus, redescobriram a alegria da vida longe da metrópole, ainda que não possam migrar imediatamente por conta de algumas rotinas de trabalho. “Com a pandemia, repensamos os valores da vida e como é essencial estar perto da família e da natureza. Sentia falta de ficar com os pés na grama, respirar ar puro e observar o céu azul”, destaca Roseli.

A casa de Danilo tem piscina, área verde, varanda com espaço para almoço, entre outros cômodos. “Quando estamos aqui, meu marido faz questão de jantar na mesa com todos presentes, desfrutar os momentos, algo que em São Paulo é difícil de acontecer porque cada um tem uma rotina diferente”, afirma. Acenando positivamente após o comentário da esposa, Danilo exalta a proximidade da natureza com uma paixão de longa data: a jardinagem. “Amo plantas, quando estou aqui eu coloco as mãos na terra, planto uma coisa aqui e outra ali, ando descalço. Isso me faz muito bem. Dependendo do horário do dia, vejo até animais como esquilos e tucanos nas árvores pela manhã”, ressalta.

Para se ter uma ideia, especialistas no setor imobiliário apontam o crescimento entre 25% e 35% na procura por esses imóveis de alto padrão desde o início da pandemia, em março, e existe a tendência de aumento da demanda. Mesmo com vasta experiência no mercado, Renata Firpo, corretora da imobiliária Coelho da Fonseca, se surpreende com os valores pagos em aluguéis na Fazenda Boa Vista, destino da elite paulistana, construída a 1h30 da capital. “A média de aluguéis lá é de R$ 35 mil e teve gente que aceitou pagar mais de R$ 70 mil para não ficar sem casa”, destaca. Com mais de 200 residências distribuídas em mais de 12 milhões de m2, a Boa Vista caminha para se tornar uma “mini cidade”, extrapolando a ideia da segunda casa, que está virando a primeira. O condomínio concentra campos de golfe, quadras de tênis, spa, trilhas, fazendinha com animais, além do Hotel Fasano, empreendimento com cerca de 39 apartamentos – sendo 12 suítes. Isso explica a disputa por uma vaguinha na propriedade. “Se a pessoa trabalha na capital e leva duas horas pra chegar em casa do serviço, morando em um apartamento, por quê não morar aqui?”, pergunta. “Tudo isso perto da capital e você tem conforto, lazer, natureza. Isso é o futuro, aliás, o presente”.

CONFORTO MILIONÁRIO

A coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Gisele Catarine, relata que o isolamento forçado desencadeou atitudes extremamente emocionais e desesperadas, além de estreitar as relações sociais, o que pode explicar a incessante demanda por uma casa de campo. Há um estresse e uma sensação de perigo, que se torna sufocante para algumas pessoas e deixa a vida urbana cada vez menos atraente. “O conforto psicológico e emocional foi abalado pela perda do controle da situação, reflexo da Covid-19. Quem tem dinheiro, compra ou aluga uma casa espaçosa na ilusão de fugir da doença, mas o vírus ainda está lá fora e não escolhe sua vítima com base na conta bancária”, afirma a psicóloga. Seja como for, o distanciamento de locais com alta contaminação, como são as grandes cidades, é confortante e faz pensar que uma vida mais tranquila, em um ambiente bucólico, é possível.

Foi exatamente nisso que Roberto e Rosana Miranda pensaram quando decidiram deixar São Paulo. O casal, que possuía uma casa de campo em Mairiporã, a 40 quilômetros da capital, decidiu mudar de vez pra lá, mesmo que a ideia não estivesse nos seus planos de curto prazo. “Isso era um objetivo para daqui uns três anos, mas no início da pandemia viemos pra cá, ficamos mais tempo que o habitual e deu certo. Temos liberdade, ar fresco e os cachorros brincam no jardim. É uma verdadeira paz”, afirma Rosana. A vida frenética em São Paulo criou um estigma de que enquanto a pessoa não se aposentou, o campo serve apenas como retiro de férias, mas até os mais jovens perceberam as maravilhas de viver sem o estresse cotidiano da metrópole. Roberto e seus filhos, Danilo e Vitor, são engenheiros civis e contam com a expertise administrativa de Rosana para conduzir a empresa da família. “Estamos construindo um escritório aqui e remodelando tudo. Não precisamos estar na capital para atuar em alto nível”, diz Rosana. “Meu pai e eu funcionamos bem daqui, quando precisarmos fazer as visitas, teremos que sair, mas fora isso, não tem do que reclamar”, completa Danilo.

A frase “Conhece-te a ti mesmo”, máxima atribuída ao filósofo grego Sócrates, praticamente forjou as bases da filosofia e milênios depois, nos ajuda a entender o comportamento do ser humano. Para o professor de Filosofia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), José Marcos, a vida no campo, que se torna um objetivo de cada vez mais brasileiros, tem a ver com o contraste entre o bem-estar pessoal e a finitude da vida. “Quem tem dinheiro precisou apenas de um motivo mais forte para migrar rumo ao interior. Talvez, antes da pandemia, o motivo fosse vencido pela necessidade de trabalhar na capital”, destaca. Com o home office, essa necessidade diminuiu. Partindo do pressuposto que o vírus ceifou milhares de vidas, refletir sobre quão rápido a existência passa despertou a vontade de colocar a felicidade na frente de tudo. “A qualidade de vida contou muito. O cuidado com o bem-estar fez muitas pessoas descobrirem os prazeres da vida, conhecer mais de si mesmas e se libertar de paradigmas sociais das cidades grandes”, diz.

Historicamente, as epidemias têm sido um fator de impulsão do êxodo urbano. A debandada de milhares de famílias paulistanas para o interior e o litoral obedece a uma lógica de guerra. Todos querem se afastar do perigo, dos locais em que a crise é mais evidente, ainda que esse afastamento seja mais imaginário do que real. O fato é que o medo de contrair a Covid-19 reforçou a sensação de aprisionamento dentro das casas e apartamentos na metrópole e levou as pessoas a repensarem onde e como querem viver. O isolamento, ainda sem data de término definida, mexeu com as estruturas sociais de tal forma que muitos se viram sufocados em seu próprio ambiente de paz, o lar. Agora, com a rotina de home office adotada por milhares de empresas, a modalidade de trabalho à distância está passando por um teste decisivo e mostrando que uma outra vida é possível. Não é por acaso que quem tem opção busca uma casa no campo. De uma hora para outra, as grandes cidades ficaram mais chatas e arriscadas para se viver.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 09 DE JANEIRO

INTEGRIDADE É O MELHOR SEGURO DE VIDA

Quem anda em integridade anda seguro, mas o que perverte os seus caminhos será conhecido (Provérbios 10.9).

O melhor seguro de vida é a integridade; a melhor defesa, a consciência pura. Aqueles que vivem na corda bamba da desonestidade, com o rabo preso na ratoeira da mentira, metidos em toda sorte de corrupção, não andam em paz. Vivem atormentados e desassossegados. Os desonestos, que torcem a lei, assaltam o direito do inocente, roubam os cofres públicos e ainda assim escapam ilesos da justiça dos homens, esses podem até andar em carros blindados, com coletes à prova de bala, armados até os dentes, com seguranças parrudos dando-lhes escolta, mas não conseguem ter segurança. A verdadeira segurança procede da consciência limpa, do coração puro e da conduta irrepreensível. Aqueles que, na calada da noite ou nos bastidores do poder, fazem acordos escusos, corrompem e são corrompidos, pensando que ficarão escondidos no manto do anonimato ou impunes diante de seus pérfidos delitos, perceberão que a máscara da mentira não é tão segura assim. Serão descobertos e envergonhados, e sobre eles cairão o opróbrio e a vergonha. A blindagem do dinheiro, do prestígio e do sucesso não os pode proteger da execração pública nem do reto e justo juízo de Deus. Permanece o alerta divino: Quem anda em integridade anda seguro, mas o que perverte os seus caminhos será conhecido (Provérbios 10.9).

GESTÃO E CARREIRA

TECNOLÓGICA E HUMANA

Multinacional presente em 35 países, a Cognizant mantém sua operação a todo o vapor em meio à pandemia para acelerar a digitalização de seus clientes

Especializada em transformação digital, a multinacional Cognizant está no Brasil há mais de uma década. Com faturamento global de 16,4 bilhões de dólares em 2019, a companhia figurou, por nove anos consecutivos, no ranking da Fortune 500, que lista as maiores empresas americanas em termos de receita. De espírito jovem, a companhia tem até um conselho global formado por 45 funcionários que tenham entre 23 e 35 anos. Os participantes do Millennial Council, como o grupo é chamado, passam por um processo seletivo interno e têm a missão de apresentar ideias inovadoras para projetos e colaborar no desenvolvimento de soluções tecnológicas. “São peças-chave para trazer melhorias”, diz Tatiana Porto, diretora de RH da Cognizant. O Brasil é representado por dois jovens profissionais.

1 – MENTORES DE TODO TIPO

Há mentorias mensais que acontecem de duas formas: a tradicional, com um funcionário experiente contando suas histórias e tirando dúvidas sobre carreira, e a reversa, na qual quem comanda o bate-papo é um jovem.

2 – ESTÁ NA MÃO

A empresa criou o selo “você pediu e fizemos”, que fica atrelado aos benefícios incluídos no pacote por demanda dos empregados. Algumas ações implementadas por desejo das equipes são a previdência privada, a reforma da cafeteria para que o pessoal possa almoçar marmitas e a parceria de descontos com a plataforma de benefícios Allya.

3 – PAIS E MÃES PREPARADOS

Funcionários que estão esperando um bebê – não importa se homens ou mulheres -são convidados a participar do programa BB Learn, que oferece livros, palestras, rodas de conversa e aulas sobre cuidados com o recém-nascido.

4 – FALTA PADRONIZAR

O home office sempre foi uma política informal na companhia: os funcionários alinham diretamente com os chefes, mas não há uma regra geral. Com a pandemia, está todo mundo em casa, só que o procedimento ainda não foi formalizado.

5 – BUSCA POR INCLUSÃO

Comitês internos para tratar da luta de minorias estão em construção. Os mais avançados são os de mulheres, LGBT+ e PCDs, que contam com uma comissão que já conduz programas e palestras de conscientização. Os negros ganharam uma iniciativa recentemente.

6 – CUIDADO COM A COMUNICAÇÃO

As reuniões mensais com o Country Manager continuam na quarentena de maneira online – e as pautas discutidas são elaboradas pelos funcionários.

7 – NA COLA DO CHEFE

Os funcionários podem acompanhar de perto a rotina dos diretores da companhia. Para isso, se inscrevem num programa interno e escolhem um dos chefes participantes. Os selecionados passam um dia inteiro com o executivo, aprendem sobre estratégias de negócios, responsabilidades e o papel exercido por ele na empresa,

8 – PAPO EM DIA

No isolamento social, dá para conversar com os colegas diariamente às 17 horas. Nesse horário, um voluntário está disponível para falar sobre um assunto de interesse próprio – que nem sempre tem a ver com o trabalho. Já aconteceram bate-papos sobre educação financeira, filmes e até cultivo de mini – hortas.

9 – ATENDIMENTO COMPLETO

A Cognizant global possui um serviço de atendimento ao funcionário de apoio financeiro e jurídico. O programa se estende à familiares e ocorre por meio de um canal sem intermediação da empresa

10 – DE OLHO NA LIDERANÇA

Na plataforma de avaliação de empresas Glassdoor, ex-funcionários afirmam que “há gestores despreparados”, o que geraria falhas de liderança. Tatiana, diretora de RH, afirma que a empresa está trabalhando para desenvolver a chefia. Durante a quarentena, houve treinamentos online sobre comunicação, primeira liderança e negociação.

COMPETÊNCIAS

Neste momento de transformações, a empresa procura profissionais colaborativos, transparentes e que tenham o foco no cliente

SITE PARA ENVIO DE CURRÍCULO

careers.cognizant.com/br/pt  

VAGAS: 134

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NA MENTE DOS DEPRESSIVOS – II

A RAIZ DO TRANSTORNO

Entender as causas da depressão é um passo importante para o tratamento

Diante do diagnóstico da depressão, uma das questões que mais perturba a mente é “por que isso aconteceu?”. Essa reflexão passa pela cabeça da pessoa que está convivendo com o transtorno, daqueles que estão ao seu redor (tentando, ou não, ajudar) e também do profissional de saúde mental. Isso porque a identificação das causas propicia a informação necessária para que o distúrbio seja tratado e até mesmo estudado. “O entendimento dos desencadeadores do quadro depressivo favorece o desenvolvimento de novas pesquisas que poderão servir como instrumentos para o diagnóstico precoce, a escolha terapêutica adequada e a revisão dos caminhos para valorizar os momentos da vida”, destaca a professora de neuroanatomia e neurobiologia Marta Relvas.

É fato que existem diversos fatores capazes de causar a depressão, que se desenvolve de maneira distinta em cada indivíduo. No entanto, os especialistas acreditam que a combinação de fatores genéticos e ambientais está por trás da maioria dos casos.

HEREDITARIEDADE

Investigações promovidas atualmente estão comprovando, cada vez mais, a relação entre genética e depressão. Uma pesquisa conduzida por estudiosos da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, avaliou 424 pais deprimidos e 143 filhos de pessoas desse grupo. Ao mesmo tempo, em outro grupo, acompanhou o mesmo número de pais sem depressão e 197 filhos.

Depois de 23 anos de estudos, os resultados demonstraram que os filhos adultos dos indivíduos deprimidos possuem maior propensão aos sintomas da depressão (assim como mais problemas físicos e emocionais) quando comparados aos filhos dos pais saudáveis. Além disso, 70% dos que possuíam pais portadores do distúrbio alegaram ter outros membros da família com o mesmo quadro, enquanto apenas 45% do outro grupo relatou o mesmo caso.

Em 2016, um artigo publicado na revista científica Nature Genetics evidenciou 17 variações genéticas ligadas ao transtorno. Ao analisar perfis de genes de mais de 450 mil voluntários, dentre os quais 121 mil declararam possuir histórico de depressão. De acordo com Marta, fatores genéticos representam papéis importantes no desenvolvimento do transtorno do humor depressivo, que apresenta característica de herança genética quantitativa, ou seja, uma gravidade gradual de sintomas. “Por causa de seus fenótipos contínuos de apresentação, o distúrbio possui um padrão de transmissão de herança não mendeliana e, em geral, ocorre em famílias com um modo de herança complexo – provavelmente multifatorial poligênico, resultante da interação de múltiplos genes de vulnerabilidade com o ambiente”, explica. A professora também ressalta que essa abordagem orienta que patologias ligadas à depressão podem ser causadas por fatores ambientais e que os genes influenciam as suscetibilidades desses fatores.

UM MUNDO DE RAZÕES

Os nossos genes criam tendências, mas são as condições externas que motivam o transtorno. Grandes traumas, como doenças e a perda de pessoas queridas, também são capazes de gerar o quadro depressivo por estabelecerem mudanças repentinas e significativas na vida das pessoas. Contudo, ainda existem cenários em que o declínio gradativo do emocional produz o mesmo efeito. Fatos como problemas no relacionamento amoroso, desentendimentos familiares e insatisfação profissional colaboram com a perda de perspectiva.

“O mais incrível não é simplesmente o fator externo, mas a interpretação deste. Quando a pessoa se vê para baixo, acha que o mundo está contra ela e não consegue enfrentar as situações que a vida apresenta, atitude que desencadeia a depressão. Assim, vários sistemas neurais são enfraquecidos, e o córtex pré-frontal direito começa a ser ativado. Então, há uma junção de elementos que podem ser considerados causadores: situação, interpretação, sistema neurológico de neurotransmissores e ativação do córtex pré-frontal”, salienta a psicóloga e coach Graziela Vanni.

QUÍMICA DO CORPO

De acordo com Marta Relvas, uma das causas que também pode ser considerada como causadora da depressão é a alteração no sistema monoaminérgico, que tem como alvos neurotransmissores conhecidos como noradrenalina, serotonina e dopamina. A profissional explica que as principais ideias atuais são de que o aumento de concentração de monoaminas cause mudanças adaptativas em neurônios-alvo. “Uma das teorias é que essas mudanças ocorrem por alteração de vias de sinalização intracelular, levando a fosforilação de proteínas e alterações de expressão gênica. Evidências sugerem que vias de sinalização intracelular representam papéis fundamentais na disfunção de múltiplos sistemas de neurotransmissores e processos fisiológicos no transtorno depressivo”, finaliza.