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A ERA PÓS-VIAGRA

A quebra da última patente do remédio, em abril de 2020, abrirá as portas para uma nova leva de medicamentos contra a disfunção erétil

Desde o lançamento do Viagra, em 1998, a farmacêutica Pfizer acumulou cifras estratosféricas – de lá para cá, foram vendidos 3 bilhões de unidades da drágea em forma de losango destinada à disfunção erétil. No Brasil, o número chegou a 130 milhões. Nenhum medicamento, ao longo da história, teve tanto sucesso em seus três primeiros meses de vida, dadas as milagrosas e alcançadas promessas – mais até do que a aspirina e as estatinas para o controle do colesterol. Foi uma revolução comportamental e de mercado que atinge, agora, outro patamar. O mundo cor-de-rosa da pílula azul está chegando ao fim. Em abril de 2020 expira a última patente que autorizou a exploração exclusiva. O resultado será uma leva de novos tratamentos para um mercado global de 300 milhões de homens preocupados com o desempenho sexual.

“Inauguraremos, pela primeira vez desde o surgimento do Viagra, uma avenida de terapias inovadoras”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas. No grupo de métodos noviços há cirurgias, injeções de compostos, produtos tópicos e até choques elétricos. Um dos mais curiosos e promissores é um gel à base do veneno da aranha-armadeira, muito comum no Brasil, capaz de induzir a ereção em poucos minutos (veja o quadro abaixo). Produzido pela Universidade Federal de Minas Gerais e por técnicos da Fundação Ezequiel Dias, de Belo Horizonte, em parceria com a empresa de desenvolvimento de medicamentos Biozeus, o gel é inspirado em um mecanismo natural. A picada do aracnídeo pode provocar o priapismo, ereção involuntária e dolorosa que, quando não é tratada, se torna um atalho para a necrose do pênis. Os pesquisadores conseguiram reproduzir uma molécula com base na toxina, mas sem toxicidade.

Há um ponto comum a unir as recentes tentativas – elas driblam, ou ao menos tentam driblar, as reações indesejadas do Viagra. Agem localmente e não causam dor de cabeça, enjoo ou ondas de calor, efeitos colaterais conhecidos do remédio que nasceu como um vasodilatador para problemas cardíacos. O uso do Viagra, ressalve-se, é desaconselhado a doentes graves do coração ou do fígado e homens com pressão baixa. Outro aspecto positivo das versões que começam a aparecer: elas não precisam ser aplicadas logo antes das relações sexuais. Algumas das medicações em estudo permitem que o paciente se submeta a cuidados esporadicamente.

O alcance da pulverização de novas maneiras para combater um genuíno drama masculino pode ser ainda mais amplo que o do Viagra. Estudos recentes mostraram que em 30% dos casos de disfunção erétil o comprimido não é indicado – e é esse espaço que será ocupado. Além disso, as alternativas que não pressupõem a ingestão química podem vir a reduzir um fenômeno paralelo, evidentemente ruim: com o tempo, marmanjos saudáveis de 20 e poucos anos, no início da vida sexual, e não pessoas já de meia-idade, adotaram o santo graal anil para melhorar o desempenho na cama, no chamado uso recreativo da droga. Para essa turma, as soluções da era pós-Viagra podem ser mais adequadas. Diz Flavio Trigo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo: “Prolongar uma ereção normal à custa do remédio pode prejudicar o tecido peniano e tornar essas pessoas de fato dependentes do medicamento”.

Não haverá, contudo, apesar de todos os avanços científicos, nenhum mecanismo capaz de provocar a estrondosa revisão de comportamento acelerada pelo Viagra, com sua riqueza de aspectos positivos e negativos. Ao lidar com a ereção como quem combate uma dor de cabeça, a Pfizer deflagrou um diálogo que vivia à sombra, calado. O orgulho masculino impedia qualquer tipo de conversa sobre impotência – com as companheiras, sem dúvida, mas também com os médicos. Isso mudou, e os efeitos transbordaram. Na última década, em parte diante da real possibilidade de aplacar a disfunção sexual, homens e mulheres se sentiram autorizados a procurar novos parceiros, e o número de divórcios aumentou 126,9% no mundo todo. Estudo publicado no reputado Annals of Internal Medicine mostrou ainda que senhores na maturidade que usam remédios contra a impotência sexual como o Viagra correm mais risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, em comparação com os que não utilizam esses medicamentos. Nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, havia, no lançamento do Viagra, três novos casos de doenças ligadas ao sexo para cada 10.000 homens acima de 40 anos. Hoje, o número é o dobro. A pílula azul, evidentemente, não pode ser responsabilizada por todas as mudanças. Mas sua influência é incontestável. Um sinônimo de liberdade que pode ser comparado àquela promovida pela pílula anticoncepcional feminina. Diz a psiquiatra Carmita Abdo: “O Viagra modificou a postura sexual masculina nos anos 2000 de modo semelhante ao que fez o contraceptivo na década de 60 com as mulheres”. Que venha a próxima revolução.

ANTES E DEPOIS DA PÍLULA AZUL

As mudanças provocadas na rotina sexual dos brasileiros de 18 a 70 anos na última década – sob a influência do Viagra

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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