EU ACHO …

EM CONTATO COM O QUE?

Não estivemos isolados na pandemia. A rede nos liga, molda e monitora

Sim, foi o ano da pandemia. Ou será que foi o do combate à pandemia? É difícil decidir, os dois foram extraordinários. O vírus e o combate ao vírus. Do primeiro chegou-nos em janeiro a notícia de que qualquer coisa estava a acontecer numa cidade desconhecida da China. Dois meses depois era uma pandemia, com doentes e mortos por todos os lados e em todo o mundo. Nada escapou. Do segundo, do combate ao vírus, vem a notícia, ao que tudo indica, de que teremos a vacina aprovada neste ano e os primeiros grupos vacinados no início do ano.

Nunca na história da humanidade nada de parecido havia acontecido. O mais singular não foi a pandemia, mas a resposta humana à pandemia. De qualquer forma, num caso como no outro, a humanidade esteve ligada. Em contato.

Não é a primeira vez que os germes são protagonistas da história. O perigo nem sempre está no infinitamente grande e poderoso, mas existe também no infinitamente pequeno. A desorientação vem exatamente daí, de nada ser visível, a não ser ao microscópio. Só aparece quando a doença se manifesta, e às vezes tarde demais. Ainda assim, um pouco por todo o mundo, fomos capazes de fazer um combate respeitando o mínimo moral. Parar de trabalhar, parar de produzir, para poupar vidas ou, talvez melhor, para que nenhuma vida se perdesse sem assistência (gostaria de dizer o mesmo do Brasil, mas não tenho certeza). A economia se recuperará, as vidas não. Também por aqui não podemos dizer que a humanidade não esteve ligada. Em contato.

A pandemia também excitou as redes, o contato virtual, o zoom, o webinar. As redes. As redes sociais mostraram o seu poder. Estávamos ligados, é verdade, o fenômeno não é de agora, mas talvez só agora tenhamos realmente dado conta de como estamos dependentes dela, da rede. Agora todos nós temos consciência – estamos ligados, em contato. A rede. A quantidade de dados que voluntariamente entregamos à rede é absolutamente fascinante. A todo segundo geramos informação sobre nós, sobre a nossa saúde, o nosso estado de alma, os nossos projetos, os nossos interesses. E o fazemos depois de sabermos – sim, agora sabemos de fonte segura – que esses dados serão coletados, tratados, relacionados, classificados e, finalmente, usados para ganhar dinheiro e para ganhar poder. A coleta universal de dados não deixará nada à interpretação estatística, como antigamente. A verdade digital não trabalha com amostras, mas com todo o universo, todos os dados de 95% de nós, todos aqueles que aceitam se conectar e, nesses momentos, aceitam também ceder a informação sobre si próprios. Todo o contato será utilizado, tudo será organizado, tudo será classificado e tudo será vendido. Em breve será possível fazer um check-up de cada um, disponível para todos. Para todos os que tiverem dinheiro, evidentemente. Assim saberemos com quem vamos nos encontrar, com quem nos casaremos e com quem negociaremos – a genética, os hábitos de consumo, as preferências sexuais. A vida será mais segura, menos acaso.

Tudo isso será devidamente envolto num delicado e suave manto de inocência. A segurança é uma das promessas. O terrorismo constituiu, logo no início do século, a grande oportunidade para a colaboração entre a indústria digital e a indústria da inteligência. Numa guerra contra o inimigo escondido e misturado com a população, a primeira prioridade é a informação. Saber quem ele é, onde está, para extraí-lo da massa humana que o rodeia e, então, eliminá-lo. Tudo isso exige conhecimento e informação, isto é, acesso a dados pessoais. Como é próprio do poder, este vai sempre até onde pode ir, ou até onde o deixam ir. Por estes dias, como alguém disse, a agência nacional de segurança dos EUA sabe mais sobre os cidadãos alemães do que a Stasi, a polícia secreta do regime da antiga República Democrática Alemã. A agência conhece as deslocações, os contatos, os amigos, as preferências políticas. Em 2013, ficamos a saber que a espionagem norte-americana ouviu Ângela Merkel e por motivos que nada tinham a ver com terrorismo, mas com a economia europeia em tempos de crise. O mesmo aconteceu com Francois Hollande, com Sarkozy, com Dilma Rousseff. A aliança entre a inteligência e o digital encontra novos espaços de utilidade – o interesse econômico disfarçado de segurança nacional. A aliança também se aprofundou em nome do combate ao crime. Londres é a capital do vídeo-vigilância com cerca de 3 mil câmeras espalhadas pela cidade. O cálculo da polícia é que um cidadão é filmado cerca de 300 vezes por dia. E cada vez de forma mais sofisticada. Agora as câmeras sabem reconhecer uma cara no meio da multidão e identificar sua silhueta de costas. O sistema aperfeiçoa-se. No momento em que escrevo, o governo francês acaba de propor uma lei vergonhosa, segundo a qual a vídeo-vigilância deve constituir um monopólio das forças de segurança – as filmagens da ação policial serão proibidas, elas atrapalham. A promessa de tudo desvendar parece assim caminhar para o sítio adequado – sim, tudo se saberá, menos o que o Estado faz. Por detrás da promessa de liberdade individual que a rede oferecia, surge agora o seu verdadeiro rosto, o seu verdadeiro mestre, o Estado, o Leviatã.

Não demorou muito para que tudo isso chegasse às eleições e às disputas políticas. Em fevereiro de 2011, o presidente Barack Obama convidou para jantar na Casa Branca as 14 empresas mais poderosas da internet. A imprensa chamou o evento de o “jantar de reis”. Pouco depois, em 2012, numa sala da sua campanha eleitoral, denominada “a caverna”, vários informáticos trataram os metadados de comentários de internautas espalhados pela rede de forma a identificar os indecisos e a fabricar para eles as mensagens políticas mais apropriadas. Uma verdadeira campanha de massa personalizada. O mecanismo evoluiu na campanha do Brexit, depois com Trump e, mais tarde, também o Brasil descobriria esses métodos, a que se somariam os requintes de imbecilidade, malvadeza e brutalidade, tão próprios do temperamento do candidato. Eis ao que nos ligamos – ao mundo do Big Data, Amazon, Facebook, Google e Microsoft. A disputa comercial pelo 5G nada tem de livre-comércio, de regras de concorrência ou de preços. Ela assume agora a importância de uma questão estratégica. Este é o mundo a que nos ligamos. Sim, a rede mundial de investigadores foi capaz da façanha de conseguir uma vacina em apenas um ano. Isso tem muito a ver com o trabalho em rede. Este mundo novo não conhece, porém, direitos individuais nem a intimidade. A privacidade morrerá, portanto, em nome de uma vida melhor, mais segura e menos contingente. Fizemos contato? Sim, mas não sei com quê. Na verdade, tudo neste mundo me desagrada.

*** JOSÉ SÓCRATES – ex-primeiro-ministro de Portugal.

OUTROS OLHARES

REMÉDIO ARDIDO

Amada e odiada, a pimenta é um divisor de águas na culinária. Mas estudos recentes mostram que, consumida moderadamente, tem efeitos benéficos para o corpo

Quem tem aversão ao calor da pimenta precisa considerar uma mudança de hábito. Quem põe umas gotinhas na comida está no caminho certo – e convém até aumentar a frequência do uso. É o que pressupõe o resultado de estudos feitos pelo Instituto de Cardiologia da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, o mais reputado do país, referendado pela Associação Americana do Coração. Os pesquisadores investigaram os impactos da pimenta no organismo por meio da análise dos exames de mais de 570.000 pacientes no mundo e concluíram algo que já aparecia em trabalhos anteriores: a capsaicina, elemento natural que torna a pimenta ardente, tem efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e reguladores da glicose no sangue, o que reduz o risco de infarto e outras doenças associadas ao coração – ainda hoje a maior causa de mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Em comparação com quem raramente ou nunca consome pimenta, aqueles que a ingerem com regularidade apresentam 26% de redução na mortalidade por doença cardiovascular, 23% de diminuição relativa por câncer e 25% de queda na mortalidade em geral. Ou seja, de agora em diante, evite criticar o amigo que aprecia a deliciosa ardência do sarapatel, do acarajé e do vatapá. O funcionamento da pimenta no organismo ainda não é inteiramente conhecido, mas existem indícios de aceleração do metabolismo, o que ajudaria, inclusive, no emagrecimento: “Ela transforma a gordura branca, sólida e difícil de eliminar, em gordura marrom, mais fácil de quebrar”, explica Vanderli Marchiori, nutricionista da Associação Paulista de Nutrição. Isso não quer dizer que o fruto garanta o emagrecimento por si só. Portanto, recomenda-se não substituir exercícios e uma dieta saudável por suplementos de pimenta em cápsula.

Como exatamente o Homo sapiens pegou gosto por esse remédio ardido é incerto, mas a melhor hipótese está na ligação intuitiva que a espécie humana tem com o fogo: tudo aquilo que queima ajudaria a matar o que é ruim. Além disso, as especiarias tendem a conservar os alimentos. Originária das Américas, a pimenta deu sabor aos pratos da Europa a partir do século XVI. A atratividade é historicamente tão grande que se tornou objeto de estudo do farmacêutico americano Wilbur Scoville, que estabeleceu, em 1912, uma escala para medir a ardência. Scoville misturava extrato de óleo de capsaicina com água e açúcar e então colocava na língua das pessoas. Diluía a solução até o voluntário não sentir queimação alguma. Assim, o farmacêutico criou uma unidade mínima para classificar cada tipo. A pimenta jalapeno, por exemplo, usada na culinária mexicana, tem 8.000 unidades. É forte? A malagueta pode chegar a 100.000 unidades.

O pimentão só tem esse nome porque é grande, já que, na escala, leva nota zero. A biquinho marca no máximo 1.000 unidades. A dedo-de-moça, usada em caipirinhas, fica entre 5.000 e 15.000. Tome cuidado se lhe oferecem in natura a Trinidad Scorpion, e fuja da pimenta mais forte do mundo, a Carolina Reaper, que, de acordo com o livro Guinness dos Recordes, atinge o impressionante número de 2 milhões de unidades na escala Scoville. Cultivada numa fazenda na Carolina do Sul, ela recebeu o nome Reaper (Ceifadora) porque, se ingerida sem preparo, provocará, além de dor excruciante, queimaduras na boca e na garganta. Para quem quer cuidar da saúde, uma pitada de molho mineiro, de no máximo 5.000 unidades, já é o suficiente. O coração agradece.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE JANEIRO

O JUSTO É ABENÇOADO

Sobre a cabeça do justo há bênçãos, mas na boca dos perversos mora a violência (Provérbios 10.6).

Vale a pena conhecer a Deus, andar com Deus e servir a Deus. Sobre a cabeça do justo há bênçãos. A casa do justo é abençoada. Ele é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, que nunca murcha e no devido tempo dá o seu fruto. O justo floresce como a palmeira. Quem é o justo? Não é aquele que tem justiça própria, mas aquele que foi justificado. Não é aquele recebido por Deus pelos próprios méritos, mas aquele que, apesar dos seus deméritos, crê em Cristo e se veste da sua justiça. O justo é abençoado não porque corre atrás da bênção, mas porque é conhecido e amado pelo abençoador. Se a cabeça do justo é o endereço onde mora a bênção de Deus, a boca do perverso é o lugar onde habita a violência. A bênção que marca o justo vem do céu, do alto, de Deus; a violência que procede do perverso brota dele mesmo, pois a boca fala do que está cheio o coração. Sobre a cabeça do justo há bênçãos vindas de Deus que se espalham para outras pessoas; da boca dos perversos, porém, procede a violência que destrói e mata. O perverso segue pela estrada larga da condenação espalhando palavras de morte, enquanto o justo esparge a luz de Cristo, trescala seu perfume e distribui bênçãos ao seu redor. Ele é abençoado por Deus e por isso se torna um abençoador para os homens.

GESTÃO E CARREIRA

RENNER RENOVA A VITRINE

Com faturamento afetado pela pandemia, rede varejista enxerga nas estratégias de inovação saídas para reagir.

Vamos antes combinar uma coisa. Varejista crescer no on-line durante a pandemia não é novidade. É sobrevivência. Então é preciso olhar no detalhe para saber qual delas de verdade sairá da crise maior, melhor e, principalmente, transformada. É essa a briga. O restante é conversa. Por esse motivo a Renner fez a opção de mergulhar na essência. O presidente da companhia, Fabio Faccio, se diz confiante de que terá bons resultados. “Apesar do cenário tão difícil, acreditamos que este é o momento da Renner e que nossa empresa vai fazer a diferença mais do que nunca”, disse o executivo.

Antes da pandemia, segundo ele, a companhia estava em uma situação bastante confortável, sólida do ponto de vista financeiro, com endividamento líquido baixo, balanço saudável e, principalmente, estoques enxutos, um dos pontos mais importantes para uma varejista de moda. “Nosso modelo produtivo é um benchmarking mundial, comparado só a algumas das melhores empresas do mundo, que a gente pode contar nos dedos”, afirmou. “Isso nos traz uma flexibilidade e adaptabilidade tanto na cadeia produtiva quanto na gestão de estoque muito superior à dos outros players.”

Ainda assim a Covid-19 fez seus estragos. Com o início da quarentena, a receita teve queda de 6,1% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando R$ 1,55 bilhão. Nas lojas físicas, o volume de vendas caiu 10,7%. No entanto, Faccio prevê que os resultados dos próximos meses serão bem melhores. “Essa movimentação nos tornou mais fortes para lidar com esse momento.”

As principais estratégias da maior varejista de moda do Brasil são inovação, digitalização e sustentabilidade. Falando assim é quase um bem-vindo ao clube. A questão é como a Renner trata cada uma dessas variáveis. “Aceleramos as estratégias que já tínhamos desenhado. Queremos aproveitar as oportunidades que surgem. Quanto maior a crise, maiores as oportunidades”, disse o presidente da empresa. Em chinês, a palavra crise é representada por dois caracteres que significam tanto risco quanto oportunidade.

Em contraponto à queda das vendas nas lojas físicas no primeiro trimestre, com a aceleração da digitalização houve aumento de 32,9% nos canais digitais. Não precisa ser gênio das contas para entender que crescer quase 33% num canal, cair quase 11% em outro e ficar numa média negativa de 6% mostra ainda a dependência de lojas físicas. De toda forma, as vendas on-line de todas as marcas da companhia – além de Renner, Ashua, Camicado e Youcom – registraram crescimento na casa dos três dígitos. Em abril, o aplicativo da loja bateu recorde de downloads, atingindo a marca de 1 milhão de novos usuários. O número é 164% maior na comparação com o mesmo mês de 2019 e 33% superior ao registrado na última Black Friday, quando tradicionalmente ocorre uma elevação no volume de downloads.

No movimento de aceleração do processo de transformação digital, a Renner antecipou o desenvolvimento de iniciativas para facilitar a experiência dos consumidores, ampliando os canais de venda e aprimorando a entrega de mercadorias. Projetos originalmente previstos para o fim deste ano ou para 2021 foram antecipados e apresentam resultados promissores. Um deles é o Minha Sacola, que permite que qualquer um que estiver inscrito em uma plataforma parceira de marketing de afiliados anuncie artigos da marca Renner com a publicação de links em suas próprias redes sociais, blogs ou sites. Os afiliados recebem comissão líquida de 7% sobre qualquer venda gerada a partir do acesso por meio desses links. A iniciativa foi desenvolvida em cerca de uma semana durante a pandemia e já tem mais de 8 mil inscritos.

Outra novidade é a venda por WhatsApp, que também estava prevista para o ano que vem e começou a ser testada na segunda metade de abril em Porto Alegre. Agora, além de estar disponível em outras cidades gaúchas (Canoas, Caxias do Sul, Gramado e Santa Maria), também está funcionando em São Paulo (capital, Campinas, Ribeirão Preto e Valinhos), nas cidades pernambucanas de Recife e Jaboatão dos Guararapes, em Boa Vista (RR), Macapá (AP), Manaus (AM), Mossoró (RN) e Parnaíba (PI) e continua sendo ampliada para outras regiões do país. Durante os testes em Porto Alegre, em média 30% dos clientes que entraram em contato pelo WhatsApp finalizaram a compra, com tíquetes médios superiores aos observados no comércio eletrônico.

Outra novidade é retirar as compras feitas pela internet pelo sistema drive-thru. O serviço está disponível em 170 lojas da marca em 22 estados brasileiros e no Distrito Federal.

SHIP FROM STORE

Outra inovação antecipada de 2021 é o Ship from Store. Usando Inteligência Artificial, o sistema identifica a localização do consumidor e utiliza os estoques das lojas mais próximas – e não o centro de distribuição –, o que permite reduzir o prazo de entrega dos itens vendidos pelo e-commerce. Além da Renner, as outras marcas da empresa estão implementando gradualmente a venda por WhatsApp, a entrega via Drive Thru e o Ship from Store. Não são exatamente pioneirismos no varejo, mas são operações complexas e que, em marcas de maior robustez, exigem uma agilidade nem sempre disponível.

No ano passado, 8,5% dos produtos vendidos pela Renner foram distribuídos às lojas a partir das projeções obtidas por meio de Inteligência Artificial, o que resultou em vendas adicionais desses itens da ordem de 12%, com estoques 18% menores. Em 2020 o projeto está evoluindo e neste ano a Inteligência Artificial deverá ser responsável por orientar a distribuição de 17% dos produtos da Renner. É claro que tudo pede ações coordenadas entre investimentos e caixa. Para manter a saúde financeira da empresa, foram feitas algumas ações, como a redução de 40% do investimento previsto para a abertura de novas lojas. “A abertura de muitas destas unidades seria feita no segundo semestre, prorrogamos para o ano que vem”, afirmou Faccio. “Mas continuamos com um projeto bem agressivo de lojas novas, pois precisamos aumentar a capilaridade das nossas marcas.”

Essa prorrogação de prazos ajudou a melhorar a saúde financeira da empresa, permitindo realocar recursos para intensificar a estratégia de digitalização, conseguindo antecipar os projetos que estavam previstos para o período de 2020 a 2021. De certa forma, a pandemia fez virar em dias o que era para durar anos. Típico de quem busca na crise a oportunidade para afastar o risco.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOPATAS – MITOS E VERDADES

Desmitificamos os fatos mais conhecidos sobre o transtorno de personalidade antissocial

Seja na ficção, com os livros, os filmes, as séries de tevê, ou na realidade, com os julgamentos de criminosos reportados nos noticiários, a psicopatia vem ganhando grande representatividade na cultura popular. E devido à popularidade do tema, muitos conceitos errados e mal-entendidos se misturam aos fatos quando o assunto é o transtorno.

Personagens como Patrick Bateman de “Psicopata Americano”, Dexter Morgan de ”Dexter” e Hannibal Lecter de “O Silêncio dos Inocentes” são rapidamente retratados como indivíduos charmosos, intrigantes, desonestos, que não sentem culpa e aterrorizantes. Mas será que tudo isso são mitos ou há alguma verdade em como os psicopatas são comumente descritos?

PSICOPATIA E SOCIOPATIA SÃO A MESMA COISA.

PARCIALMENTE VERDADE. Um psicopata possui temperamento e personalidade bem definidos, caracterizados por impulsividade, ausência de medo que leva a comportamentos de risco e uma grande inabilidade de aceitar regras, normas e leis. Já o sociopata possui características próximas ao de indivíduo comum e sua condição é causada mais por fatores negativos na socialização e interação com as pessoas, geralmente causada por negligência dos pais e falta de referência. Porém, apesar dessas especificidades, no dia a dia da investigação criminal e do diagnóstico clínico a diferença é pequena. ”O que aproxima as duas patologias é que ambas são desordens de personalidade antissocial, e podem resultar em atos de violência”, explica o psicólogo Breno Rosostolato.

TODO PSICOPATA É UM SERIAL KILLER.

MITO. De acordo com as estatísticas, os psicopatas cometem quatro vezes mais crimes violentos que um criminoso comum. Além disso, a personalidade deles os leva a cometer novos crimes, sendo que as taxas de reincidência nesses indivíduos chega a 70%. Eles ainda agem dentro da prisão manipulando e controlando os outros da mesma forma que fora. Porém, apesar de uma grande quantidade de serial killers ser portador do distúrbio, isso não é uma regra. “Nem todo psicopata é um serial killer e sequer possui comportamentos violentos ou criminosos, mas isso não quer dizer que são pessoas amáveis e bondosas. Assim como psicopatia não é sinônimo de violência, o contrário também é válido, não é preciso ser psicopata para ser criminoso, para assassinar, roubar, etc.”, afirma Breno.

PSICOPATAS TÊM UM PODER DE SEDUÇÃO E DE MANIPULAÇÃO ACIMA DA MÉDIA.

VERDADE. Uma das formas mais comuns de identificar um psicopata é por sua grande desenvoltura e sua facilidade para manipular, controlar e mentir. Esse traço de sua personalidade é o motivo pelo qual, muitas vezes, suas atitudes negativas e destrutivas passam despercebidas. Os indivíduos que têm o transtorno ainda são egocêntricos e não lidam bem com autoridade. No trabalho, eles buscam informações dos companheiros, para, assim poder manipular situações e buscar benefícios. Não se importam com o sofrimento alheio e buscam sempre a própria satisfação.

Para a psicanalista Júlia Bárány, esse poder de manipulação é ainda mais agravado por conta da ausência de emoções nobres humanas: “Um ser humano ficaria constrangido, no seu mais íntimo, em dizer uma mentira, por exemplo, e assim essa emoção o atrapalharia. Como um psicopata não se constrange com nada, age sem ser atrapalhado pelas emoções humanas. O seu poder de manipulação é resultado de treino. Afinal, este é o seu meio de vida, que ele treina desde o berço. Com o passar do tempo e com as experiências, vai se aperfeiçoando em sua técnica”.

É POSSÍVEL ADQUIRIR O TRANSTORNO AO CONVIVER MUITO COM UM PSICOPATA.

MITO. Não existe a possibilidade de adquirir o distúrbio pelo convívio. Entretanto, conviver com um psicopata pode desequilibrar e adoecer uma pessoa, já que ele usa aqueles ao seu redor para seus propósitos egoístas. “Ninguém se torna psicopata a não ser que adquira uma lesão cerebral exatamente na região orbito-frontal, como foi o caso conhecido de Phineas Gage, um trabalhador de ferrovia que teve seu crânio perfurado por uma viga. Psicopata nasce psicopata e morre psicopata. Ele não se torna psicopata por causa de uma triste infância, de abuso, de maus tratos. Esses podem causar uma pessoa traumatizada, que pode ter reações psicopáticas, pois criança imita os adultos. Se ela é maltratada, aprendeu que é assim que se vive, e vai maltratar os outros”, pondera Júlia.

PESSOAS COM TRANSTORNO SOCIAL PSICOPÁTICO SÃO MAIS INTELIGENTES.

MITO. Os psicopatas podem tanto ter QI (quociente de inteligência) muito alto quanto extremamente baixo. O que os define realmente é a falta de empatia, como explica Breno: “Em geral, são pessoa bem articuladas e que se expressam muito bem. Dissimuladas e desenvoltas. Envolvem o outro a suas mentiras com o intuito de manipular e tirar proveito da situação”.

PSICOPATAS PODEM SER CONSIDERADOS LOUCOS.

MITO. Segundo Júlia, a psicopatia não é uma doença mental: “Na Classificação Internacional de Doenças (CID 10), consta sob F60 como transtorno de personalidade, em que a principal característica é a ausência de moral”. “Trata-se, portanto, de uma patologia caracterizada por comportamentos desajustados, que podem ser violentos ou não.

SITUAÇÕES ESTRESSANTES PODEM LEVAR A COMPORTAMENTOS PSICOPÁTICOS.

MITO. Uma situação estressante pode trazer a qualquer um nervosismo, ansiedade, violência e conflitos emocionais, mas não desencadear o distúrbio. “A psicopatia, conforme a definição, não é um comprometimento momentâneo e nem restrito a determinadas situações, mas é possível, sim, ocorrerem comportamentos antissociais, dependendo das situações”, conclui o neurologista clínico Fabio Sawada Shiba.

PSICOPATAS SÃO INCAPAZES DE AMAR.

VERDADE. Os psicopatas são incapazes de amar, uma vez que relacionam o amor como prazer sexual, a tristeza com frustração e a raiva com irritabilidade. “Buscam apenas a própria satisfação, nem que para isso tenham que eliminar o outro. Tratam pessoas como objetos que podem ser descartados. Não sentem culpa ou remorso”, enumera Rosostolato.

TROLLS (PESSOAS QUE GOSTAM DE TUMULTUAR EM FÓRUNS DE DISCUSSÃO E EM REDES SOCIAIS NA INTERNET), HACKERS E STALKERS (PESSOAS QUE ESPIONAM A VIDA DE OUTRAS PESSOAS PELA WEB) PODEM SER CONSIDERADOS PSICOPATAS.

MITO. De acordo com Breno, essas pessoas podem ser classificadas como sociopatas, porque apresentam uma grande dificuldade em socializar-se. Portanto, mesmo que trolls, hackers e stalkers apresentem comportamentos invasivos, agressivos e violentos, tendam a não reconhecer regras e que façam do outro, muitas vezes um objeto para manipular, essas pessoas ainda demonstram anseios, confusões emocionais, necessidade de se mostrar e de chamar atenção, muitas vezes por se sentirem sozinhas, abandonadas e por não conseguirem lidar com estes sentimentos. “Tratam-se, então, de pessoas que buscam aprovação, sentem medo e não conseguem sustentar a frustração, manifestando violência como um gesto de desespero.