GESTÃO E CARREIRA

REACENDENDO A PAIXÃO

Desenvolver o amor pelo trabalho demanda reflexão e resistência a frustrações. O primeiro passo é entender que a satisfação pode ser construída aos poucos

“Faça o que ama e nunca terá que trabalhar um dia na sua vida” – essa é a ideia por trás da frase atribuída ao filósofo chinês Confúcio repetida em livros, palestras e cursos para ajudar a encontrar o emprego perfeito. Isso traz esperança, mas também pode trazer sofrimento. Se não estamos felizes, é porque não encontramos o trabalho certo e é preciso continuar procurando. O pior: muitas vezes nem sabemos o que, afinal, queremos. Pesquisas indicam que, em grande parte, o que determina nossa relação com o trabalho são as crenças cultivadas em relação a ele. Um estudo publicado em 2015 pela revista Personality and Social Psychology Bulletin, nos Estados Unidos, definiu duas categorias de pessoas em termos de sua relação com o trabalho. Os chamados ”fit theorists” (teóricos do encaixe) acreditam que exista o emprego ideal para eles. Já os “develop theorists (teóricos do desenvolvimento) acreditam que possam se adaptar a diferentes tipos de serviço. Os participantes do estudo que se encaixavam no modelo fit, por exemplo, mostraram menos interesse na leitura de um artigo que não correspondesse ao que eles julgavam como seu perfil, enquanto os outros aproveitaram o conteúdo.

De acordo com a pesquisa, os dois grupos tendem a ter índices de felicidade parecidos se são bem-sucedidos em agir de acordo com suas convicções. Por outro lado, o discurso que defende a busca pelo emprego ideal é muito mais comum. ”A teoria do fit é muito mais prevalente e corresponde a algo entre 60% e 80% das amostras que temos”, diz Patrícia Chen, coautora do estudo e hoje pesquisadora na Universidade Nacional de Singapura. Para ela, isso pode explicar porque essa mensagem é largamente difundida na mídia e nas escolas. “Há certo romantismo sobre ter coragem de seguir sua paixão e seus sonhos”, diz Patrícia. “Quem se concentra no desenvolvimento, porém, tende a ter mais tolerância com as dificuldades ao integrar novas vocações e ambientes de trabalho. “Isso porque essas pessoas não estão preocupadas em encontrar um “encaixe” ideal logo no início. Em vez disso, cultivam a relação de forma a torná-la mais positiva, conforme descobrem como usar suas paixões e habilidades no que fazem. “Essa é uma grande vantagem, especialmente para quem ainda não tem certeza do que ama fazer”, afirma Patrícia.

O modo como encaramos o trabalho é o que realmente influencia na satisfação. Outra pesquisa, realizada pela Universidade de São Paulo, avaliou 4.100 pessoas de nível superior para entender o papel do emprego na autorrealização. “O resultado deixa claro que o problema não é o que a pessoa faz, mas como ela faz”, diz Alexandre Pellaes, autor da pesquisa e fundador da consultoria   Exboss.

ALTOS E BAIXOS

Para melhorar a maneira como encaramos a carreira, é preciso entender que as frustrações fazem parte do pacote. “A felicidade no trabalho é uma aspiração legítima e saudável. Mas aspiração é algo de uma vida inteira, não algo que você chega um dia e está feliz e pleno”, diz Denise Fleck, professora e coordenadora da área estratégia da Coppead, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esse é, portanto, um caminho a ser percorrido. Vale lembrar que esse sentimento depende do ambiente e de nós mesmos – características que sempre podem variar, com altos e baixos. Por isso, esperar que um emprego corresponda perfeitamente àquilo que    julgamos ser nosso perfil pode, além de causar mais sofrimento, nos fazer perder chances de aprendizado e crescimento.

Refletir e avaliar o que nos agrada ou não em nosso dia a dia é um passo importante para descobrir outras maneiras de atuar e para ampliar a perspectiva. Muitas vezes a pessoa não está insatisfeita porque não gosta do que faz, mas porque o ambiente ou a cultura da empresa desmotivam. Assim, elas não se sentem tão desafiadas e tendem a ter um trabalho repetitivo. Aproveitar as oportunidades para se envolver com aspectos novos do que você já faz é uma forma de contornar isso. Fernando Gavinhas, de 23 anos, desenvolvedor na Tapps Games, tomou essa atitude. Desde o fim de 2014, ele trabalhava com desenvolvimento de softwares em um grande banco. A oportunidade era única, mas em pouco tempo ele já estava achando difícil ir ao trabalho. “Eu não tinha identificação com o produto nem com o negócio em si”, diz. Também não ajudava o fato de a empresa ser grande e seu time pequeno, o que dava a sensação de baixo impacto no que fazia. Mas isso não era algo novo – há anos Fernando trabalhava na área e nunca parecia encontrar o emprego certo. “Estava cansado de pular de um lugar para o outro e de me decepcionar”, diz. Quando sua namorada perguntou se não havia nada que ele gostasse em seu trabalho, ele resolveu encontrar coisas que o agradassem. Fernando anotou o que valorizava no dia a dia – como aprender a lidar com uma tecnologia complexa e ajudar a desenvolver programas que poderiam ser usados no mundo todo. “A partir daí, foquei em perseguir tarefas que me permitissem exercitar o que estava na lista”, diz. Além disso, tornou-se mais proativo: conversou sobre seus objetivos com colegas e chefia e pediu para participar de atividades alinhadas às suas metas. “Quando chegou um projeto de inovação com foco em sistemas de caixas eletrônicos, logo pensaram em mim. Conseguir separar o que não gostava do que gostava me dava ânimo,” diz. Os projetos no banco se tornaram um meio de exercitar sua capacidade de resolução de problemas e de aprendizagem – o que o preparou para o atual emprego na Tapps Games. “As coisas mudam e as coisas que a gente gosta também mudam e precisamos estar preparados para isso.”

HORA DE REDESCOBRIR

Para conseguir despertar o gosto pelo que fazemos, vale elaborar um inventário de reflexão. Primeiro, pense no que pode e consegue fazer com suas habilidades. Em seguida, identifique as oportunidades que existem onde está. Depois, pense sobre o que prefere fazer e o que deveria fazer do ponto de vista de seus valores. “Esse é um exercício constante, não algo que se faça de um dia para o outro”, afirma Denise, da Coppead.

Em alguns casos, é preciso conciliar paixões, como aconteceu com Moacyr Godoy Moreira, de 46 anos, médico do trabalho do Hospital RP – a Beneficência Portuguesa de São Paulo. Durante a faculdade de medicina, ele não sentia que iria se encontrar na área médica. Apesar disso, seguiu trabalhando como clínico e, em paralelo, investiu no que poderia ser outra carreira: fez mestrado e doutorado em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Em 2002, publicou o que seria o primeiro de quatro livros de ficção. Apesar disso, Moacyr nunca abandonou a medicina, por acreditar que seria melhor conciliar as duas carreiras. Desde 2010, atuava na medicina do trabalho, como perito médico independente, fazendo a avaliação de funcionários em ações trabalhistas uma área diferente, mas ainda longe de despertar paixão. “Ainda achava o dia a dia monótono e pouco aprofundado”, diz Moacyr.

Mesmo assim, em busca de mais estabilidade, passou a ocupar uma posição como médico do trabalho em uma grande montadora multinacional em 2016. “Eles queriam criar um setor de perícia, e eu comecei a ajudá-los a montar isso”, diz. Esse envolvimento também fez com que ele entrasse em contato com os aspectos de gestão envolvidos na área, o que, para Moacyr, era um mundo novo em sua profissão. Motivado, começou um mestrado, retomando o gosto pelos estudos. “É uma área pobre em termos científicos e senti a necessidade de estudar isso”, afirma. Quando entrou na BP no final de 2017, em princípio, sua função seria a mesma: atender os mais de 8.000 funcionários do hospital. Mas, como demostrou interesse em liderança, ele pode atuar na coordenação da atividade de equipes médicas, na elaboração de campanhas e de protocolos. Assim, seu escopo aumentou. “Descobri que gosto de métodos e diretrizes que permitam otimizar coisas que funcionam de forma caótica em situações simples e eficientes. Sou muito organizado e nunca tinha pensado que transferir isso para o trabalho poderia gerar bons frutos e uma satisfação pessoal tão grande”, diz Moacyr.

O PESO DO PROPÓSITO

Experiências como essa deixam claro que, muitas vezes, o emprego é o que fazemos dele. “O desagradável sempre vai existir. Mas dá para equilibrar isso com as conexões que temos na empresa, tentando entender o panorama do negócio, descobrir pessoas e ideias diferentes”, diz Carolina Fouad, coordenadora do núcleo de carreira do lnsper.

Nem sempre a empresa terá o ambiente mais aberto. Um chefe controlador demais ou um negócio que contraria seus valores são coisas difíceis de contornar. ”Quando você percebe que há estagnação sem alternativas de melhora, pode ser a hora de deixar o emprego”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching. É importante respeitar os princípios na hora de tomar decisões. Mas um ajuste de expectativas muitas vezes também é do que precisamos. ”Tente lembrar o que você esperava logo antes de ser chamado para o emprego”, diz Alexandre Pallaes, da Exboss. “O que era para você: ele ia resolver todos os seus problemas ou era uma oportunidade?” Dificilmente esperamos que seja tudo perfeito quando entramos em uma empresa – mas esperamos poder mostrar como somos lá dentro.

Só tome cuidado com o peso do propósito perfeito. A crença de que tudo precisa ter um grande valor pode agravar as frustrações diante da rotina e das tarefas mais maçantes. No lugar disso, pense sempre em quais resultados você busca, quais são seus objetivos de curto prazo e quais são os relacionamentos que pode criar por meio de seu trabalho. “Minha provocação é se não seria mais interessante prezar pela entrega, e não necessariamente pela vocação”, diz Alexandre. Ou seja, valorizar o trabalho pelo que ele pede: dedicação, esforço e aprendizado.

PENSAMENTOS LIMITANTES

Algumas crenças podem influenciar negativamente a percepção sobre a carreira

ACHAR QUE EXISTE O TRABALHO PERFEITO

“Esperar encontrar o ideal, como se estivesse fora de nós, é um mito”, diz Denise Fleck, da Coppead. O ideal segundo ela, está sempre dentro de nós e deve nortear nossas decisões.

FOCAR APENAS O DINHEIRO

Tentar se motivar apenas pelos ganhos financeiros podem funcionar no curto prazo, mas não fará você amar sua carreira. “O trabalho é mais do que sobrevivência, é uma forma essencial de nos expressar”, diz Alexandre Pellaes, da Exboss.

ACREDITAR QUE A RECOMPENSA SÓ ACONTECE NO FINAL

A felicidade é muito mais complexa do que meramente atingir objetivos profissionais. “Não dá para achar que, se eu fizer alguma coisa ou chegar a determinado ponto, vou ser feliz”, diz Denise. é clichê, mas é verdade: o processo é tão ou mais importante quanto o destino.

PENSAR QUE SUAS HABILIDADES E INTERESSES NÃO MUDAM

Logo cedo aprendemos a ter medo de errar e de lidar com o que é novo. A verdade é que nunca perdemos a capacidade de aprender, descobrir novos interesses. “Muitas vezes, as crianças na escola ficam nervosas e bravas quando não conseguem aprender o que precisam”, diz Carolina Fouad, do Insper. “É comparável com o que acontece com alguns profissionais no mercado de trabalho.”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.