EU ACHO …

PERICIANDO 2020

Analisando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um

É preciso periciar, minuciosamente, cada mensagem deste ano que se finda. Poderíamos dizer que foi um ano diferente, motivado pelo isolamento social que se impôs desde março, gerado por um vírus que se tornou um inimigo invisível e que ainda circula entre nós, mas que também nos convida a repensar valores, rotina e a vida em geral. Analisando ou periciando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um.

Infelizmente, esse impacto para quase 200 mil famílias trouxe a fatalidade, o que leva a nos solidarizarmos pelas suas perdas. Mesmo neste país com um sistema de Saúde diferenciado que, pelo menos teoricamente abarca todos os membros da sociedade – SUS, nunca tivemos de conviver com tantos hospitais lotados e mortes causadas por um mesmo motivo.

E esse filtro, talvez, seja o primeiro a ser considerado nessa perícia existencial. Com a covid ficou ainda mais evidenciada a desigualdade social, mas, ao mesmo tempo, ficou claro que somos todos iguais perante ao vírus. Para ele não há ricos ou pobres, famosos ou anônimos. Todos são vulneráveis.

Essa fase vai passar e é fundamental estarmos atentos aos ensinamentos passados, ainda que de forma dolorosa. Óbitos, internações, recuperação, desemprego, solidariedade, entre tantas outras coisas deverão ser reconhecidas e utilizadas para nos tornarmos uma sociedade melhor.

Em cada profissão ou segmento da Economia muita coisa mudou. Na área da perícia, como venho sinalizando, paradigmas foram quebrados e tudo caminhou. Claro que certas mudanças trazem melhorias, outras nos fazem retroceder, porém cabe a nós fazermos escolhas.

Como tudo na vida, seja no mercado de trabalho, escola ou em casa, o que escolhermos é o que ditará o nosso amanhã como cidadãos e comunidade. Esta freada foi providencial e cabe a nós fazer do limão uma limonada. Fomos convidados a reinventar. Estamos vivendo o “home office” como cotidiano. A minha vida mudou. Estou conseguindo tempo para escrever.

Se vamos voltar ao que era ou se iremos nos deparar com um novo normal não importa. O essencial é como queremos ser após essa turbulência. De qual sociedade estaremos falando após a pandemia. Qual será o nosso compromisso com ela em 2021?

Da minha parte, digo que as experiências vivenciadas em 2020 vão me permitir ser mais consciente e proativo nas relações profissionais e pessoais, com mais profissionalismo, ética e olhar mais apurado para o meu próximo. E você?

*** JARBAS BARSANTI – Perito Judicial Contábil, conselheiro do CRC-RJ e empresário

OUTROS OLHARES

OS FEIOS VENCERAM

Abercrombie, a grife que só queria clientes “bonitos e magros”, anuncia o fechamento de lojas e busca novos caminhos para se adaptar às mudanças do padrão de consumo

As empresas demoram décadas para construir uma boa reputação, mas bastam apenas alguns minutos para destruí-las. A velha máxima do mundo corporativo traduz a eletrizante trajetória da grife americana de roupas Abercrombie. Fundada em 1892, em Nova York, ela ficaria conhecida anos depois, quando personalidades como o presidente americano John F. Kennedy, a atriz Greta Garbo e o escritor Ernest Hemingway, entre muitas outras, passaram a exibir com orgulho o famoso alce que se tornaria símbolo da marca. No início do século XXI, a Abercrombie deixaria o universo das celebridades de meia-idade para seduzir os jovens com uma estratégia para lá de esquisita. Em vez de vendedores convencionais, a rede contratou modelos sarados que atendiam a clientela sem camisa, como um chamariz para atrair adolescentes. A ousadia funcionou, as filas avolumaram-se nas portas das lojas e muito dinheiro jorrou dos caixas da companhia. Até que uma estupidez poria tudo a perder. Em 2013, Mike Jeffries, então presidente da Abercrombie, disse que apenas “gente magra e bonita” era bem-vinda e deveria comprar seus produtos. Em questão de minutos, a centenária reputação seria irremediavelmente jogada no lixo.

O preço está sendo cobrado agora, quase uma década depois da tresloucada afirmação. A Abercrombie anunciou há alguns dias seu mais drástico plano de reestruturação – palavra que, no jargão corporativo, não é outra coisa a não ser corte de custos. A empresa fechará, até o fim de janeiro, as quatro maiores lojas próprias, sendo duas na Alemanha (Düsseldorf e Munique), uma na França (Paris) e uma na Inglaterra (Londres). Outros endereços importantes na Europa e no Japão deverão ser encerrados quando seus respectivos aluguéis expirarem.

Segundo cálculos do mercado, as lojas extintas representam 10% de toda a área física disponível para vendas. O novo foco da Abercrombie serão as unidades menores, sem o estandalhaço do passado – no início da década, alguns estabelecimentos simulavam baladas, com luzes piscantes que brilhavam ao ritmo do som altíssimo -, e mais distantes das áreas turísticas tradicionais. Em outras palavras: a empresa quer atrair o público mais popular, que vive nas franjas das cidades. O conjunto de iniciativas significará uma economia imediata de 8 milhões de dólares, dinheiro que compensará a queda de 5% das vendas no terceiro trimestre do ano fiscal encerrado em outubro.

A ascensão e queda de uma das grifes mais tradicionais dos Estados Unidos exemplifica como o descuido com a reputação pode ser devastador para as grandes empresas. Mike Jeffries, o presidente falastrão, foi afastado do cargo em 2014, mas os estragos estavam feitos. A reação à sandice foi o surgimento de um movimento nas redes sociais que pregou durante anos o boicote à marca e a distribuição de roupas que ostentassem o inconfundível alce a moradores de rua. O levante dos “feios e gordos”, a turma que não se enquadrava no estereótipo que o executivo queria ver em suas lojas, fez a Abercrombie perder fatias importantes de mercado. “Para complicar a situação, a nova geração é mais inclusiva do que qualquer outra na história”, diz Eduardo Tancinsky, consultor especializado em marcas. “No mundo competitivo da moda, só as marcas exclusivíssimas podem abrir mão de potenciais compradores. Chamar eventuais clientes de feios não foi apenas uma agressão, mas um contrassenso do ponto de vista de marketing.”

Nos últimos meses, para piorar, a Abercrombie enfrentou uma tempestade perfeita. Somaram-se aos problemas de imagem a crise imposta pela pandemia e os novos desafios do varejo físico, afetado pelo avanço do comércio eletrônico. Outras marcas icônicas também sofrem com as mudanças do mercado e do padrão de consumo. A grife Banana Republic foi uma das mais amadas nos anos 1990, mas perdeu público de uns tempos para cá. Sua controladora, a Gap, informou recentemente que fechará 130 lojas Banana Republic nos Estados Unidos até 2023 – é o corte mais radical da história da empresa. Já há até quem duvide da capacidade de sobrevivência da outrora inabalável marca.

O mundo das grifes parece ter virado do avesso na nova era doconsumo. Um dos mitos empresariais do século XXI, a grife californiana de acessórios e roupas íntimas Victoria’s Secret viu sua participação de mercado cair de 34%, uma década atrás, para 15%, atualmente. Assim como a Abercrombie, a empresa enfrenta uma crise de imagem. A estética sexualizada, consagrada pelas modelos lindas e esguias, parece fora de contexto em um mundo marcado pelo ativismo feminino. Há inúmeros casos. A sueca H&M, uma das maiores empresas do varejo de roupas do mundo, avisou que eliminará 250 lojas, de um total de 5.000, até o fim de 2021. “Mais e mais clientes começaram a comprar on-line durante a pandemia”, justificou a empresa.

Por maisque a situação pareça irreversível para algumas companhias, é prudente não duvidar da capacidade de as grifes resistirem às mudanças de comportamento, ajustando as operações ou até mesmo mudando radicalmente a linha de produtos. A própria Abercrombie é exemplo disso. Em meados do século passado, era uma marca robusta, para pessoas que desejassem transmitir ao mesmo tempo força e sofisticação. Anos depois, virou uma das grifes preferidas da garotada baladeira. Recentemente, a empresa fez novas apostas ao lançar uma campanha publicitária, veja só, estrelada por pessoas com alguns quilos a mais. O público aprovou. Talvez não seja tarde demais para se reinventar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE DO PERDÃO

Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto (Salmos 32.1).

O homem tem um vazio no coração do tamanho de Deus. As coisas não podem preencher esse vazio. Deus colocou a eternidade no coração humano e nada do que é terreno e temporal pode satisfazer o homem. O pecado separou o homem de Deus, e longe de Deus é território da infelicidade. Muitas pessoas vivem atormentadas pela culpa. Vivem no cabresto do pecado, na masmorra do medo, sem paz na alma. Há aqueles que tentam escapar desse sentimento avassalador, correndo para muitas aventuras. Outros se entregam à bebedeira e afogam a consciência em dores ainda mais profundas. Na ânsia de buscar uma resposta para a angústia da alma, o homem recorre a filosofias de autoajuda, entrega-se a experiências místicas e frequenta igrejas e mais igrejas. Porém, nenhum rito e nenhuma experiência mística podem aliviar a consciência culpada. Somente o sangue de Jesus pode apagar os nossos pecados e limpar a nossa consciência das obras mortas. Somente Jesus pode quebrar os ferrolhos dessa prisão e despedaçar nossas algemas. Somente Jesus pode nos oferecer perdão verdadeiro e felicidade eterna. Buscar o perdão noutra fonte é como cavar uma cisterna rachada, que não retém as águas. A vida está em Jesus. A salvação é uma dádiva de Jesus. O perdão só pode ser encontrado em Jesus. A felicidade é um presente de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

PRECISAMOS FALAR SOBRE BURNOUT

Metas, horas extras, pressão e uma cultura que faz da saúde mental um tabu são causas de esgotamento entre executivos, funcionários e empreendedores

O trabalho pode ser gratificante, mas também sufocante — e não é de hoje. O personagem Carlitos, interpretado pelo britânico Charles Chaplin em um de seus mais marcantes filmes, trabalha na linha de produção de uma fábrica apertando peças metálicas. A pressão em seu setor aumenta: a mando da alta gestão, a velocidade na linha fica mais intensa. Com certa dificuldade, Carlitos acompanha o ritmo sob o olhar severo de seu gestor direto. Pouco tempo depois, novas ordens para aumentar a produtividade. Carlitos parece entrar numa espiral de ansiedade, acaba subindo na esteira e sendo levado para dentro da máquina. “Ele é louco”, grita um colega de trabalho. O episódio dá início a Tempos Modernos, filme lançado em 1936 que aborda situações cômicas de um universo recém-industrializado. Na época, a força global de trabalho sentia os impactos da Segunda Revolução Industrial. O contexto era de baixos salários, ambiente laboral precário e alto índice de desemprego — condições ideais para gerar a confusão mental vivida por Carlitos.

Quase 100 anos mais tarde, a chamada Quarta Revolução Industrial promete uma intensa automatização do trabalho. A inteligência artificial e o apoio de robôs deveriam deixar mais tempo para as pessoas se dedicarem às tarefas analíticas e às habilidades humanas. A evolução nos hábitos de consumo também deveria nos levar a uma rotina mais saudável e flexível, com mais espaço para o ócio. Por ora, não é o que se vê. Os anos 2020 deverão ser marcados como aqueles que popularizaram o burnout, ou esgotamento pelo trabalho.

O fenômeno é global — e o Brasil, infelizmente, é um dos destaques. No Japão, 70% da população economicamente ativa diz ter tido burnout. Em 2016, quase um quarto das empresas japonesas exigia que os funcionários cumprissem mais de 80 horas extras por mês, de acordo com o governo local. Em 2019, uma lei limitou as horas extras a 45 por mês. Nesse cenário, a subsidiária japonesa da empresa de tecnologia Microsoft testou, por um mês, o fim de semana de três dias para 2.300 funcionários. A produtividade aumentou 40%. A empresa pretende implementar o programa novamente, ainda sem data definida.

Na China, terceiro país com maior incidência de burnout — atrás do Brasil —, é comum os funcionários do polo tecnológico trabalharem das 9 às 21 horas durante seis dias por semana. A prática é defendida por grandes empresários, como Jack Ma, cofundador da varejista online Alibaba. Nos Estados Unidos, quarto país da lista produzida pela International Stress Management Association, 20% da população economicamente ativa sofreu burnout. Episódios de esgotamento são a ponta de lança de um momento global de discussão sobre as formas de trabalho. Para Jeffrey Pfeffer, professor na universidade americana Stanford, é hora de um redesenho total.

Apesar de o termo já pipocar pelos escritórios, ser tema de palestras e motivo de afastamento do trabalho, só agora as corporações começaram a quebrar o tabu e a lidar com a questão. Uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh mostrou que projetos de saúde mental são prioridade em 2020: 30% das organizações querem implantar iniciativas e 46% afirmam já ter alguma prática implementada (veja quadro abaixo – Gestão da Saúde). Um estudo das empresas Mind Share Partners, SAP e Qualtrics apontou que 60% dos americanos tiveram algum sintoma de doenças do trabalho em 2018 e, desses, 60% nunca comentaram sobre o ocorrido. “Mais do que oferecer serviços, as empresas precisam superar a dificuldade de falar sobre o estigma. Por outro lado, os executivos pensam que, ao tocar no assunto, vão evidenciar um problema”, afirma Helder Valério, gerente de gestão de saúde da Mercer Marsh.

Não há um consenso sobre a definição de burnout. Numa tradução livre, o termo quer dizer “queimar até o fim”, estando relacionado a uma estafa física e mental por excesso de trabalho. Para Mario Louzã, psiquiatra e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o burnout é formado por um tripé. “É um casamento entre características da personalidade, situação de vida da pessoa e condições de trabalho, sendo este último o principal fator”, diz. Ainda não existem estudos consistentes para registrar o aumento de casos de burnout — até porque a síndrome só passará a existir oficialmente em 2022, quando entrará em vigor a 11a edição da Classificação Internacional de Doenças (CID), que vai agregar o burnout como “problema associado ao emprego ou desemprego”. No entanto, é claro para Louzã o aumento significativo na demanda de seus pacientes para tratamento de burnout. “Houve uma aceleração no ritmo de trabalho com a intensificação da tecnologia”, diz o psiquiatra. “Além disso, o maior acesso à informação e o avanço nos diagnósticos contribuem também para esse aumento no número de casos.”

Enquanto o burnout não é oficializado, as pesquisas que abordam a saúde mental do trabalhador costumam mensurar os níveis de estresse. Um estudo lançado pela consultoria Accenture em novembro avaliou um universo de mais de 2.000 funcionários no Reino Unido. O resultado mostra que 69% dos entrevistados já foram impactados por algum tipo de problema relacionado a saúde mental. No Brasil, a consultoria Betânia Tanure Associados fez medições de três tipos de estresse: baixo (quando o funcionário executa a tarefa com muita facilidade, sem prestar atenção, o que não contribui para a produtividade), construtivo (não nocivo e necessário para a motivação) e alto (este, sim, pode levar à síndrome de burnout).

O estudo avaliou executivos individualmente, seus times e as empresas em que atuam. Foram 538 respondentes das 500 maiores companhias brasileiras. Na comparação entre 2019 e 2018, houve aumento do estresse alto em todas as categorias. “O ponto crítico é o grau de incerteza presente nas organizações hoje”, diz Betânia, fundadora da consultoria, referindo-se aos novos concorrentes e às lógicas de negócio inovadoras que ganharam força com a tecnologia.

Apesar de haver profissões mais propensas ao desenvolvimento de um quadro de burnout — caso dos médicos e policiais —, não existe um perfil profissional específico para isso. Qualquer pessoa economicamente ativa pode ter uma crise. Os sintomas são igualmente diversos: existe uma gama ampla de sensações, que variam de acordo com a pessoa afetada.

Para Sofia Esteves, por exemplo, a síndrome foi sorrateira. Fundadora do grupo Cia de Talentos, ela vivia uma fase intensa na empresa em 2016. Em determinado momento, passou a ter lapsos de memória recente: não era capaz de lembrar de conversas do dia anterior, por exemplo. “Apesar de nunca sair tarde do escritório, eu passava o dia entrando e saindo de reuniões”, diz Sofia. “Quando há novos estímulos constantemente, sem descanso, chega um momento que o cérebro não consegue mais processar as informações.” Depois de perceber as falhas na memória, a executiva fez consultas médicas, foi diagnosticada com burnout e se afastou do trabalho por 50 dias. No retorno, teve apoio de sessões de técnicas de atenção plena, conhecidas como mindfulness, e diminuiu a agenda significativamente. “Cortar compromissos foi a parte mais difícil, mas foi importante aprender que não preciso participar de tudo e que, se eu estiver ausente, os processos vão continuar.”

Pessoalmente, Sofia não sentiu que o fato de ser mulher teve impacto no desenvolvimento do quadro. Mas homens e mulheres costumam exibir sintomas de burnout por motivos distintos. “Enquanto as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho e ainda acumulam responsabilidades em casa, o machismo faz com que os homens não mostrem vulnerabilidades, o que também é um problema”, diz o consultor Vicente Picarelli, diretor da consultoria de capital humano que leva seu sobrenome. Membro de conselhos de administração, Eduardo Terra sentiu na pele as pressões do trabalho na saúde mental dos executivos. “Em geral, o homem tem mais dificuldade de pedir ajuda: é a síndrome do super-homem”, diz.

No caso de Terra, o burnout chegou numa semana especialmente atribulada, com voos domésticos longos, palestras e privação de sono. Entre os sintomas, confusão na fala e braços dormentes. “Além do excesso de trabalho, acabamos corrigindo do modo errado, tomando mais cafeína para ficar acordado e descuidando da alimentação.” Como gosta de suas funções — sentimento muito comum entre os pacientes com burnout —, Terra resolveu ser mais regrado em seus hábitos para manter o ritmo. Depois de se recuperar da crise, há cerca de um ano e meio, o executivo deixou de ser sedentário, passou a seguir uma dieta saudável e perdeu 15 quilos. A agenda continua a mesma, com a diferença de que passou a planejar viagens longas com mais cuidado.

Nem sempre uma alteração na agenda é suficiente para manter a saúde mental. Com uma carreira de mais de 20 anos nas áreas comercial, de marketing e de gestão de pessoas em empresas como Walmart e Grupo Pão de Açúcar, Sylvia Leão teve de adiantar uma mudança planejada na carreira. Chamada para liderar projetos importantes no Carrefour em 2015, ela encarou o desafio como a última etapa da vida profissional antes de passar a atuar como conselheira. Inicialmente, a ideia era ficar cinco anos na empresa, mas a síndrome de burnout, iniciada em 2018, abreviou o processo. “Eu estava tão envolvida e cheia de desafios que demorei a perceber os sinais que o corpo me mandava”, diz.

Além do cansaço intenso, Sylvia tinha uma sensação difícil de definir, mas que ela descreve como angústia. A saída foi retornar à psicanálise e reconhecer seus limites. Hoje, a executiva participa de cinco conselhos de administração e entende que essa é a carga ideal de intensidade de trabalho para ela. Se o funcionário pode rever seus processos laborais, a empresa tem papel fundamental na mudança. O bem-estar também evita gastos. No Brasil, o burnout custa para os empregadores cerca de 80 bilhões de dólares ao ano. Nos Estados Unidos, o montante é de 300 bilhões de dólares.

Para evitar os resultados negativos causados pelo estresse alto e pelo burnout, a empresa alemã de tecnologia SAP começou uma campanha global para acabar com o estigma de falar sobre saúde mental. Em maio, na conferência global anual da empresa em Orlando, nos Estados Unidos, um painel sobre saúde mental foi apresentado por Cynthia Germanotta, mãe da cantora e atriz Lady Gaga. Mãe e filha lançaram há oito anos uma fundação para combater o bullying e os problemas de saúde mental ocasionados pela prática. O interesse dos funcionários pelo tema foi tão grande que um comitê de saúde mental foi criado globalmente. No Brasil há várias práticas, como a execução de peças de comunicação escancarando o tema e a promoção de palestras com psicólogos.

Para promover uma mudança cultural, é preciso inserir a alta liderança nos debates e nas ações. Há seis anos, desde que assumiu a presidência da SAP no Brasil, Cristina Palmaka realiza o Café com a Cris, encontro mensal com uma dezena de funcionários que voluntariamente se inscrevem para debater assuntos como gestão e vendas. Inspirado nesse modelo, o Chá com a Cris, uma reunião para falar exclusivamente de saúde mental, teve início em agosto. Nos dois primeiros encontros apenas gestores puderam participar, e os seguintes foram abertos para todos.

Os funcionários compartilham experiências e ideias de como criar um ambiente seguro, no qual falar de ansiedade e depressão não seja um problema. “É comum que as pessoas tenham crises pessoais e no trabalho. Fomentar a resolução gera um ambiente seguro, melhora o clima e os resultados”, diz Cristina. Com o objetivo de integrar funcionários e quebrar o tabu da saúde mental, algumas companhias buscam palestras de espiritualidade, coaching e até teatro corporativo, baseado em concepções de que cada pessoa assume um papel. A disputada budista monja Coen, autora de best-sellers e com mais de 2 milhões de seguidores somados no YouTube e no Instagram, diz ter dobrado a quantidade de palestras sobre espiritualidade nas companhias ao redor do Brasil nos últimos cinco anos. “As empresas precisam de funcionários emocional e espiritualmente saudáveis para ter lucro. Os gestores se deram conta disso e me procuram cada vez mais”, afirma.

Promover um ambiente seguro para tratar questões de saúde mental no trabalho abrange os sentimentos que nascem da porta para fora. Pessoas homossexuais, por exemplo, são cinco vezes mais propensas a tentar suicídio do que as heterossexuais. Entre os jovens negros o risco de cometer suicídio no Brasil é 45% maior do que o de jovens brancos. Na estratégia de quebrar o estigma, na SAP os grupos de diversidade são prioritários. Mas não é só nas grandes empresas que esse problema aparece. Na agência de publicidade Mutato, 27% dos profissionais se declaram negros, 64% são mulheres e 40% se declaram LGBTI+; mesmo assim, as pessoas desses grupos relataram se sentir mais vulneráveis e menosprezadas do que as outras. Depois disso, a empresa começou a promover palestras com psicólogos e sessões de ioga. Mas foi só em outubro de 2019 que o cofundador e presidente Andre Passamani percebeu a oportunidade de incentivar a terapia individual para os funcionários interessados. “Tenho 46 anos e, em minha juventude, saúde mental não era um assunto abordado.

Apenas recentemente ações de prevenção foram mais estruturadas”, diz. Desde outubro todos os funcionários da Mutato podem fazer terapia online por meio do aplicativo da Zenklub, uma startup que cresce 15% ao mês. As sessões são custeadas pela empresa e tiveram adesão de 30% dos funcionários. Apesar de as sessões serem confidenciais, os gestores conseguem saber em quais áreas da empresa as questões emocionais das pessoas estão relacionadas ao trabalho. “Pretendemos criar um histórico, traçar novos planos e melhorar o clima interno”, diz Passamani.

A exposição das doenças do trabalho também está atrelada às diferenças geracionais. Nos Estados Unidos, segundo um estudo da consultoria Deloitte, 84% da geração millennial (nascidos entre 1980 e 1995) diz ter experimentado a exaustão no trabalho atual, em comparação com 77% de todos os entrevistados. Quase metade dos millennials diz que deixou um emprego porque se sentiu esgotada. Consultora de recursos humanos, Sofia Esteves, da Cia de Talentos, acredita que a falta de experiência pode ter impacto nocivo sobre o trabalhador jovem. “O burnout ocorre por um efeito cumulativo, mas também tem relação com a quantidade de pressão que o trabalhador aguenta”, diz. “As gerações mais novas não têm o acúmulo, mas, em geral, toleram menos pressão.”

O quadro parece piorar quando o funcionário gosta do que faz. Foi o que aconteceu com Damião Silva, de 35 anos. Depois de entrar em uma fundação filantrópica, aos 18 anos, como monitor educacional, ele mostrou boa capacidade de gestão de pessoas e teve sucessivas promoções. Com dez anos de casa, controlava uma equipe de cerca de 400 pessoas. “Eu chegava a trabalhar 12 horas por dia, além de dedicar outras 4 horas diárias a cursos de especialização”, diz. Demissões na organização intensificaram ainda mais o ritmo.

Quando percebeu sinais como dificuldade para dormir e dores de cabeça, Silva já tinha engordado 20 quilos. Uma troca na gestão piorou a situação: a nova chefe cobrava trabalho até nas férias. A persistência dos sintomas levou o profissional buscar ajuda médica. Em 2018, ele foi diagnosticado com burnout, afastou-se do trabalho e, hoje, faz psicoterapia e toma medicamentos, sendo acompanhado por psiquiatra e neurologista.

Se não tem ajudado a evitar o esgotamento por trabalho, a tecnologia pode ser uma aliada no diagnóstico e no tratamento. Em 2016, o Hospital Albert Einstein estruturou um programa para cuidar da saúde de seus funcionários e dependentes por meio de uma clínica interna que pode atender cerca de 30.000 pessoas. Em 2018, o programa foi reestruturado para lidar também com questões emocionais. “Um profissional feliz e saudável atende melhor seus pacientes”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein. Os funcionários passaram a ter, por exemplo, assistência jurídica e atendimento psicológico 24 horas por dia, pelo telefone, e acompanhamento após retornar por afastamento de burnout e estresse. Quando voltam, eles respondem a um questionário de 50 perguntas. A intenção é que com essas respostas haja uma base de dados para, por meio de inteligência artificial, evitar sintomas negativos de saúde mental.

Especialistas americanos, porém, afirmam que o uso efetivo da inteligência artificial na saúde deve acontecer somente depois dos próximos cinco anos. O que se espera é que os dados sejam usados para diagnosticar sutilezas emocionais que passam despercebidas mesmo para os médicos. Para os funcionários, executivos e empreendedores brasileiros, outra boa notícia pode vir de uma retomada mais consistente da economia. A insegurança econômica, como alerta Pfeffer, da Stanford, é um grande gatilho de estresse. As respostas, como se vê, devem vir de cada um, das empresas, da ciência, da tecnologia, dos governos. O alerta não é de hoje: foi dado por Chaplin há mais de 80 anos.

                QUEM SOFRE BURNOUT NO BRASIL

Pesquisas apontam para o alto índice de estresse na população economicamente ativa brasileira e traça as marcas do Burnout

MAIS ESTRESSADOS DO MUNDO

Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior incidência de Burnout na população economicamente ativa.

GESTÃO DA SAÚDE

No planejamento das empresas brasileiras, a promoção da saúde física e da emocional ocorre ao mesmo tempo, mas a saúde mental é o tema mais importante para implementação em 2020: 30% das organizações querem promover iniciativas

PARA MANTER O CONTROLE

Um conjunto de ações tomadas pelo RH das empresas pode evitar a intensificação de casos de Burnout nas organizações

ESTABELECER CANAIS INTERNOS DE COMUNICAÇÃO

É importante que a empresa estabeleça formas seguras para o funcionário abordar

o tema, nos moldes dos canais de denúncia, operados por terceiros ou internamente, que garantam anonimato e segurança sobre os dados informados.

CONSCIENTIZAR OS LÍDERES

Pessoas que ocupam cargos de liderança são peças-chave para conter crises de burnout. Além de sofrer pressão de seus superiores – e estar, elas mesmas, suscetíveis ao problema -, devem estar atentas ao comportamento dos integrantes de sua equipe, equilibrando as demandas e negociando metas.

BUSCAR APOIO DE ESPECIALISTAS

Em situações específicas, empresas podem contratar serviços alternativos para dar apoio à saúde mental dos funcionários. Nesse sentido, são indicadas atividades que promovam o autoconhecimento, como palestras e rodas de conversa.

AMPLIAR BENEFÍCIOS RELACIONADOS À SAÚDE

Além de promover o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, as organizações podem dar aos funcionários acesso a programas que auxiliem no desenvolvimento de práticas mais saudáveis, a exemplo de parcerias com startups que oferecem acesso fácil a atividades físicas ou sessões de psicoterapia.

Fonte: consultorias

O CUSTO DO BURNOUT

Custos médicos, baixa produtividade, absenteísmo, turnover, passivos trabalhistas e orçamentos para treinamentos de novos profissionais geram custos altos para as empresas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

 CÉREBRO E ANSIEDADE – VIII

SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA

Quando o distúrbio começa a trazer muitos prejuízos à mente, o uso de remédios com acompanhamento profissional pode ser a melhor saída

Após o diagnóstico de um especialista, a próxima etapa é a prescrição dos tratamentos pra combater as crises ansiosas, seja por meio das terapias ou de medicamentos. Mas isso dependerá de cada caso. Ou seja, se o quadro já estiver em um grau avançado, o psiquiatra recomendará a utilização de determinados remédios para que as crises de ansiedade sejam controladas, proporcionando uma melhor qualidade de vida ao paciente.

QUANDO RECORRER?

Para que o médico indique o tratamento medicamentoso, o quadro deve estar em um nível intenso, influenciando e prejudicando atividades do dia a dia da pessoa.

O psiquiatra Sander Fridman explica que quando os sintomas são graves é necessário recorrer aos remédios junto às sessões psicoterápicas: “no sentido até de permitir que a psicoterapia possa acontecer e até reestabelecer mais prontamente a capacidade da pessoa em lidar consigo mesma, com sua vida, seus compromissos e atividades psicossociais objetivas”, completa o especialista.

AGINDO NO CÉREBRO

Como uma das principais disfunções cerebrais durante uma crise ansiosa é a queda dos níveis de serotonina (neurotransmissor responsável por regular o sono e o humor), os medicamentos buscam atuar nesse sentido. As substâncias são chamadas de inibidores receptação serotoninérgica (como fluoxetina, paroxetina, sertralina e citalopran), utilizados também contra a depressão.

Além disso, os antidepressivos podem agir como um escudo pois, segundo o psiquiatra Adiel Rios, a cada crise, o corpo é levado ao extremo com uma série de sintomas. Principalmente a liberação do cortisol, que pode afetar áreas cerebrais e prejudicar no futuro a memória e até predispor a doenças neurodegenerativas”, indica o especialista.

No entanto, Rios explica que, se o quadro estiver avançado, será preciso recorrer para antidepressivos mais modernos, os duais (velataxina e a duoxetina).

Outra opção em casos alarmantes é a utilização dos benzodiazepínicos para combater os sintomas com resultados mais imediatos, “como clonazepan, Rivotril e aprazolan, mas com devido cuidado para não levar a uma dependência”, conclui Adiel.

PRÓS E CONTRAS

Optar pelo tratamento medicamentoso nem sempre é uma escolha fácil, visto que o processo se dá por meio de substâncias bastante fortes que agem diretamente em funções cognitivas. Por isso, é importante colocar na balança as reais necessidades do paciente conforme a intensidade dos sintomas, pois pode haver efeitos colaterais.

“É comum sentir náusea ou cefaleia (dor de cabeça), que ocorrem apenas na primeira semana de tratamento. Durante a intervenção, pode haver aumento de peso e queda da libido”, explica o psiquiatra Edson Hirata. Mas o especialista garante que são efeitos controláveis.

Por outro lado, a principal vantagem de utilizar remédios contra a ansiedade é que eles são capazes de aliviar um momento de sofrimento durante uma crise, como é o caso dos benzodiazepínicos.

Já em relação aos inibidores seletivos da receptação de serotonina, segundo o psiquiatra Adiel Rios, os benefícios se mostram a longo prazo. “Você vai estar fazendo um tratamento efetivo para a ansiedade – o cérebro terá uma nova capacidade de melhor neuromodular e gerir os neurotransmissores, ou seja, regular a serotonina e diminuir os níveis dos sintomas.

ALTERNATIVA

Para quem precisa do tratamento contra a ansiedade, mas tem receio do uso de remédios, existem outras saídas. Além das terapias, Adiel sugere que o mais importante é promover uma mudança em hábitos do dia a dia, como se livrar do sedentarismo, uma das causas comprovadas desse distúrbio. O psiquiatra ainda alerta que “uso de drogas lícitas, como álcool e o cigarro, podem proporcionar um alívio momentâneo, mas depois, você tem um rebote e essa ansiedade acaba piorando”.