EU ACHO …

O FREIO DE ACELERAÇÃO

O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar

Antes disso, vamos relembrar. Tudo “normal”, vida seguindo, tudo certo, de vento em popa, mercados crescendo e se desenvolvendo satisfatoriamente, mas algo era escasso…. o tempo. Lembram-se disso? Faltava-nos aquele período do ajuste fino, a análise do mérito. Tudo acontecendo em grande velocidade, encaixado no fluxo da produtividade perfeita, como as águas em direção ao mar.

E mesmo assim, nos escapava o tempo da observação, aquele momento do aprimoramento. O planejamento foi sendo esmagado, estava sem vez, tudo acontecendo ao vivo, em tempo real, o improviso virando regra, as empresas operando no repente.

E agora? Que novo normal é esse? O tempo está diferente? A resposta é sim. Encontramo-nos de frente a uma excelente oportunidade para construir uma nova divisão de tarefas domésticas além das empresariais. Cuidado com os filhos, com os idosos e com seus funcionários também, em busca de uma sociedade mais igualitária, justa e corporações mais equilibradas.

Podemos olhar a situação atual como um convite para perceber essa crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Fica a reflexão: já que fomos obrigados a reinventar, o que realmente importa? O que precisa ser feito?

O fato é que o vírus bloqueou grande parte do mundo em casa e transformou comportamentos. O coronavírus colocou a humanidade em cheque e nos fez refletir sobre nossas prioridades. Fomos obrigados a mudar, ainda que temporariamente, a anomalíssima normalidade da civilização humana. Devemos evoluir, reprogramar o futuro de nossas empresas. Que rumo queremos para elas?

Esse é o momento da reprogramação. É a hora do retrofit, onde devemos aprimorar a qualidade e evoluir com o que já existe. No campo da física, existe uma significante diferença entre velocidade e aceleração. O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar.

Apesar da situação global ainda estar delicada, percebemos a volta da confiança do empresariado além de muitos indicadores que já apontam para a recuperação da Economia.

O Sistema Fecomercio do Rio, por exemplo, não parou. Com austeridade, miramos no desenvolvimento e fortalecimento da instituição. Nos reinventamos, estamos reprogramados e oferecendo por meio do Sesc e Senac, diversos novos serviços à sociedade e aos funcionários do comércio. Investimos em qualificação profissional, em infraestrutura e inauguramos os restaurantes do Norte Shopping e BarraShopping para atender os funcionários das lojas com alimentação saudável e preço justo.

Entre outras iniciativas na Cultura, Saúde, Educação e Lazer, apostamos em melhorias e adequações em nossos quatro hotéis do Sesc, para a nova realidade do setor turístico. Estamos com protocolos de segurança sanitária e de comunicação em nível elevado, que são vitais para trilharmos um Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente. caminho seguro para o retorno às atividades.

Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente.

*** FÁBIO SOARES – É diretor de Desenvolvimento Institucional do Sesc/RJ

OUTROS OLHARES

O DILEMA DAS REDES

As mídias sociais não têm influência hegemônica sobre a Geração Z como se pensava. Nova pesquisa revela que muitos jovens estão se distanciando delas

“Meu conselho é: se puder sair das redes sociais, saia”, cravou Tristan Harris ex-funcionário do Google, em entrevista em setembro. Ele está no documentário da Netflix O Dilema das Redes, que detalha os riscos à privacidade das pessoas, que, em sua visão, acabam virando produtos do Facebook, Instagram, Twitter e outros. Se for tomado por base o estudo realizado pela agência de pesquisa Dentsu Aegis Network, muita gente já estava dando ouvidos ao conselho de Harris antes mesmo de ver o documentário. Foram entrevistadas 32.000 pessoas em 22 países, em março e abril, e o resultado foi surpreendente: entre os jovens de 18 a 24 anos, a Geração Z, um em cada cinco afirmou ter desativado suas contas nas redes sociais.

O número também impressiona por outro motivo: a debandada é duas vezes maior nessa faixa etária do que entre usuários acima de 45, mostrando que os mais velhos parecem se sentir menos afetados pelo admirável mundo novo. Entretanto, a maior preocupação apontada pelos que pularam fora das redes, em qualquer idade, é o dano que elas estariam causando à saúde mental. Mas qual seria, na prática, esse prejuízo psicológico? Harris diz que o ambiente virtual vicia. Trata-se de um processo químico no cérebro. Sempre que vivenciamos algo prazeroso, o neurotransmissor chamado dopamina é ativado, fazendo com que procuremos mais do mesmo, e receber curtidas no Facebook e Instagram dispara o processo. Na mesma medida, a sensação contrária é frustrante.

O escritor carioca Enrique Coimbra, de 28 anos, faz parte do grupo de desertores das redes sociais. Ele largou todas elas, até mesmo seu canal no YouTube, no qual dava dicas de controle emocional e tratamentos para ansiedade e depressão a mais de 200.000 inscritos. “Minha vida sem rede social melhorou 2.000%. As pessoas não fazem ideia da manipulação emocional que elas nos impõem”, conta o escritor. Antes leitor assíduo de livros pelo celular, mudou para o leitor de e-book a fim de evitar distrações.

A Dentsu detalha a posição dos entrevistados brasileiros em sua pesquisa: 39% afirmaram que pretendem se distanciar do mundo virtual. A empresa ressaltou, porém, que resultados mais concretos devem ser observados quando a pandemia acabar. Com a Covid-19, as pessoas usaram mais o computador para trabalhar e se divertir, possivelmente ficando sobrecarregadas de tanto contato com as redes. Uma vez que as restrições forem sendo afrouxadas, elas talvez passem a se preocupar menos com a exposição a elas.

O cenário de polarização política e propagação de notícias falsas também tem tratado de afastar usuários. Muitos ficam desiludidos quando ofendidos e acabam se dando conta de que estão em um ambiente hostil. Há queixas dirigidas também a um dos maiores sucessos dos últimos anos, o TikTok, aplicativo que tomou o mundo. A psicóloga Marina Haddad Martins ressalta que as redes dão uma ilusão de falso preenchimento. “A Geração Z, que já nasceu na era da internet, talvez dê menos importância às redes do que os mais velhos, que pegaram a virada da tecnologia”, diz ela. Isso explicaria a disposição em largá-las. Eles estariam valorizando o palpável, a segurança emocional e as relações pessoais. Quem diria, o mundo real, este no qual sempre vivemos, parece estar na moda outra vez. Que bom.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE DEZEMBRO

APRENDA A VIVER CONTENTE

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação (Filipenses 4.1).

O contentamento tem a ver com quem somos e não com o que possuímos. É mais uma atitude que uma posse. Muitas pessoas têm tudo, mas não são felizes: têm saúde, família, amigos, dinheiro, mas vivem um arremedo de vida. O contentamento é um aprendizado. O apóstolo Paulo escreveu: Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Não é a circunstância que faz você, é você quem faz a circunstância. A felicidade não está nas coisas, mas em Deus. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas a maneira como se caminha. Você pode estar contente até mesmo na escassez. O apóstolo Paulo diz que a piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Você pode estar contente apesar das aflições. Esse contentamento não vem apenas de dentro, mas especialmente de cima, do alto, do céu. Deus é a fonte da verdadeira felicidade. Na presença de Deus, é que existe plenitude de alegria e só à sua direita há delícias perpetuamente. Agora mesmo você pode experimentar essa verdadeira felicidade, essa alegria indizível e cheia de glória.

GESTÃO E CARREIRA

OPERAÇÃO DE GUERRA

Como uma empresa de ventiladores pulmonares multiplicou por 30 sua produção na pandemia de covid-19

É um clichê do mundo corporativo dizer que toda crise esconde uma oportunidade – ainda mais quando se trata de uma tragédia de saúde pública e social que vai deixar cicatrizes profundas em um país. Entre os efeitos da pandemia do novo coronavírus vem se destacando a mobilização do empresariado brasileiro a fim de ajudar a combater a doença e de reduzir o impacto econômico do necessário isolamento social para desacelerar o contágio. Os fundadores da fabricante paulista de respiradores mecânicos Magnamed-Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Kinjo – não imaginavam enfrentar uma emergência que os obrigasse a multiplicar por mais de 30, do dia para a noite, sua capacidade de produção. No maior desafio dos 15 anos da empresa, encontraram, porém, a chance de concretizar seu propósito juvenil de salvar vidas.

O sucesso da empreitada – um conforto para um Brasil que continua registrando aumento de casos da infecção respiratória covid-19- só vem sendo possível graças à parceria com companhias tão diferentes quanto produtoras de papel e celulose e fabricantes de gases industriais e à afinação com diversas instâncias do governo. Essa é uma história que aumenta a esperança no futuro. ”Em uma crise, sempre deparamos com os extremos, o melhor e o pior de cada um. Nesta jornada, encontramos bancos sendo bancos, e bancos não sendo bancos; empresários sendo empresários, e empresários não sendo empresários. Não foi o dinheiro que falou mais alto. Foi a vontade de devolver à sociedade parte do que todos recebemos”, afirma Paulo Tomazela, sócio da gestora de recursos KPTL, que é, junto com os três fundadores e a gestora Vox Capital, uma das donas da Magnamed.

O encontro com a KPTL se deu em 2008, na incubadora de empresas tecnológicas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Cietec, que hospedava a Magnamed. A KPTL começou a investir na startup por meio de um fundo de investimento que tinha 80º/o de seus recursos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20º/o do Banco do Nor deste. No início, a Magnamed queria centrar sua atividade no encolhimento de peças de equipamentos médicos, mas acabou encontrando seu filão nos ventiladores, um ramo no qual Ueda e Suzuki, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), haviam atuado juntos quando eram funcionários de outra empresa. Como boa startup, a companhia de tecnologia médica foi montada na garagem da casa de Ueda, em 2005, e logo depois Kinjo entrou.

Nem se falava ainda em novo coronavírus quando, em dezembro de 2019, a Magnamed notou um aumento do interesse por seus respiradores em uma feira de equipamentos médicos da Alemanha. Um mês depois, em outra feira de Dubai, o cenário estava mais claro. Países asiáticos e europeus corriam para encomendar ventiladores pulmonares, e já se começava a ter uma ideia da gravidade da doença.

Foi só quando o Ministério da Saúde bateu à porta da empresa com sede em Cotia, na Grande São Paulo, com uma encomenda de 15.000 respiradores para os fabricantes nacionais – o equivalente a sete vezes sua produção anual -, em 19 de março, que a Magnamed entendeu o tamanho da pandemia. O choque inicial se deu porque o governo federal exigiu ficar com toda a produção da empresa por um período de seis meses. Depois de uma análise jurídica, a empresa ficou sabendo que não se tratava de um confisco, mas que o Ministério da Saúde estava exercendo um direito de compra de equipamentos garantido pela Constituição Federal. Passado o baque, a Magnamed arregaçou as mangas para verificar quantas máquinas poderia efetivamente entregar.

Primeiro, seria necessário checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas de sua turma do ITA, onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho. O amigo Walter Schalka, presidente da Suzana, maior fabricante de celulose do país, resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da Suzana no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca. A fabricante de computadores paranaense Positivo acionou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores. Outro gargalo estava na montagem das máquinas. A linha de produção da Magnamed em Cotia conseguia fabricar apenas 200 respiradores por mês. Por indicação do ministério e de executivos próximos à empresa, a Magnamed acabou chegando à Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. Contando com a capacidade da Flex, em 23 de março a Magnamed infarmou ao governo que conseguiria entregar 6.500 respiradores em um período de seis meses.

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzana lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o BNDES, seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento. Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval- a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima, a General Motors ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia e a fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acelerou o processo para certificar a fábrica da Flex, e a Polícia Federal faz a escolta dos produtos finalizados. Nesse processo, a Magnamed identificou novos fornecedores que poderiam ajudar a diminuir seus custos no futuro e descobriu gargalos na produção. Com a Flex, a fabricante de respiradores pode dizer que sua capacidade de produção anual subiu para 64.000 unidades. ”Sabemos que podemos contar com nossos parceiros para projetos grandes. O Brasil tem as condições de virar um polo tecnológico na área médica”, afirma Ueda, presidente da Magnamed.

Apesar de todo o apoio, a jornada teve percalços. Em 28 de março, o vice-prefeito de Cotia invadiu a fábrica da Magnamed e confiscou 35 respiradores. Devolveu-os após uma ordem da Justiça. Agora o projeto atingiu a velocidade de cruzeiro, e a Magnamed planeja o futuro. Não espera que o faturamento deste ano, estimado em 390 milhões de reais por causa da pandemia, vá se repetir, tampouco deverá regredir ao tamanho que tinha no ano passado. A covid-19 chamou a atenção para a necessidade de hospitais públicos e privados aumentarem seu estoque de ventiladores pulmonares. Equipamentos alternativos fabricados por universidades durante a crise não têm serventia para outras doenças, e o mercado também tende a identificar as máquinas de melhor qualidade. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os ventiladores sejam substituídos a cada cinco anos de uso, e o governo brasileiro estima que o parque local tenha idade média de 12 anos. A Magnamed aposta que os novos clientes conquistados durante a crise continuarão comprando seus equipamentos ao fazer a troca. Com o dólar em 5 reais, seus principais concorrentes, dos Estados Unidos e da Europa, terão mais dificuldade para vender ao país. O fundo da KPTL, que investe na fabricante de Cotia, acabará em novembro de 2021, e a gestora avalia se venderá sua participação ou continuará no negócio, que se tornou a joia da coroa entre as 48 empresas de seu portfólio. Qualquer que seja a decisão, o ganho do investimento vai muito além do lucro da venda dos respiradores. ”Quando posto à prova, o brasileiro mostra sua competência técnica e capacidade de pensar em soluções”, diz Leandro Santos, presidente da Flex.

DE REPENTE, DISPUTADÍSSIMO

O mercado global de respiradores mecânicos, que podem fazer a diferença entre a vida e a morte na pandemia de covid-19, virou o centro das atenções de governos, profissionais de saúde e pacientes

RAIO X: MAGNAMED

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – VI

DEIXE PARA DEPOIS

Achar que tudo deve ser feito ‘para ontem” colabora para aumentar a ansiedade

“Não se afobe, não, que nada é pra já”. A letra da canção Futuros Amantes, de Chico Buarque pode generalizar demais, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Por mais urgente que algo seja, sempre há tempo para fazê-lo com calma. Apesar de o cantor e compositor estar se referindo ao amor, é possível aplicar a sugestão de não se afobar nas mais diversas situações do dia a dia, evitando, assim, despertar o “monstro da ansiedade”.

MIL E UMA TAREFAS

”Hoje em dia, com a globalização digital, praticamente tudo precisa ser feito “aqui e agora”. O presente é feito da mistura entre as atividades rotineiras e a execução dos projetos que foram pensados lá atrás”, afirma o neurologista Martin Portner. O nível acelerado que a vida vem tomando, somado à facilidade de conectividade presente em dispositivos móveis, como celulares e tablets, tem feito com que muitas pessoas ajam na forma de procrastinação, isto é, realizam uma tarefa tão logo a recebem. O motivo? Se livrarem antecipadamente da ansiedade que pode vir a seguir. No entanto, tal lógica pode gerar exatamente o efeito contrário, já que estamos o tempo todo fazendo algo, sem ter um momento para nós mesmos.

RESPIRE, INSPIRE, NÃO PIRE

Na contramão de ser supereficiente, existe a procrastinação. É o ato de adiar tarefas consideradas difíceis ou trabalhosas pela mente que, para evitar o desconforto, passa a dirigir a atenção para atividades mais imediatas e capazes de prover prazer. Cientificamente falando, tarefas procrastinadas são aquelas que acionam uma estrutura cerebral chamada amigdala, cuja missão é evitar a dor e o desagrado. “Neste caso, a amigdala cerebral direciona a atenção do momento para, por exemplo, a leitura de e-mails ou a visualização do Facebook, onde há sempre a chance de surgir uma boa nova”, explica Portner. Assim, procrastinar traz bem-estar momentâneo, porque afasta um incômodo. Alguns pesquisadores, inclusive, defendem a ideia de que o ato é um mecanismo programado pelo cérebro para evitar aborrecimentos.

Quando o assunto é ansiedade, momentos de procrastinação ajudam a afastá-la, já que é dada uma pausa no ritmo frenético de cobranças e ações. Viver de planos cria expectativas que podem fazer com que o ansioso sofra duas vezes: esperado que as ações aconteçam e se decepcionando, caso elas não aconteçam exatamente como planejado – o que, convenhamos, representa uma grande possibilidade. Estar o tempo todo arquitetando o que precisa fazer, estudar, pesquisar, enfim, as ações futuras coloca o indivíduo em transe, o impedindo de viver o presente, prospectando o futuro à base de muita ansiedade.

Por isso, ter intervalos na rotina reservados para o “nada”, ou melhor, para a procrastinação, ajuda a levar a vida com menos pressão. “É preciso desafiar o crítico interno que nos cobra perfeição e exige que tenhamos que dar conta de tudo, como heróis e heroínas, e nos faz impor a nós mesmos obrigações e fardos que drenam a energia e produzem uma culpa exagerada. Aliviar esta responsabilidade e relaxar de tempos em tempos é indispensável para nosso bem-estar físico e, principalmente, mental”, afirma a especialista em inteligência emocional Semadar Marques.

SEM CULPA

Mudar de uma hora para outra o costume de estar sempre sendo ativo não é algo fácil. Ao mesmo tempo em que a sensação de prazer surge ao procrastinar, pode também aparecer o sentimento de culpa por estar exatamente não fazendo algo que você acredita ser indispensável.

De acordo com Semadar, a dica para levar a rotina com pausa e sem culpa é entender e definir os valores que realmente são importantes para você, tornando-os prioridades em suas ações. “Quando a energia é direcionada para atitudes que nos levam a conquistar objetivos alinhados com nossos valores, fica mais fácil relaxar sem culpa, ansiedade ou medo de estar deixando de fazer algo”, destaca o profissional.

COM CAUTELA

Não há dúvidas de que ficar fazendo “nada” ajuda a controlar a ansiedade, porém, é preciso saber dosar o quanto ficar de pernas para o ar ou rolando o feed do Facebook. “Existem momentos de procrastinação que revelam uma autossabotagem, uma fuga dos sentimentos negativos que você terá que encarar ao enfrentar determinada tarefa”, destaca Semadar.

Portanto, é preciso ter em mente que o prazer vindo de procrastinar é momentâneo e, se não praticado com cuidado, pode até ser prejudicial. “Procrastinar dá lugar ao prazer, que depois cede espaço à realidade. Porém, os projetos e as necessidades retornam, agora com uma carga de ansiedade (e medo subliminar) redobrados, o que convoca uma nova procrastinação. O ciclo vicioso está estabelecido”, esclarece o neurologista. A conclusão é que não há nada de errado em procrastinar esporadicamente; faz até bem para o controle da ansiedade. Contudo, é preciso ter cautela, ou o rebote pode ser ainda pior.