EU ACHO …

JOGO DA VIDA

Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída

Dezembro não é um mês que me desperta alegrias. Digo isso não como um manifesto contra as festas que se aproximam. Sou dos que rezam a vida e que celebram os acontecimentos que nos fazem mais elevados diante do sagrado mistério do existir. O menino Jesus nascendo em uma manjedoura, em uma simplicidade de uma noite fria, sempre me comoveu,

Faz frio em dezembro naquelas terras do oriente. Faz frio em mim. Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída.

Eu disse nada. Os anos em que estivemos juntos beiravam à perfeição. Era o que eu me dizia. Não a conheci menino. Nem no auge. Já havia deixado os campos de futebol e já não mais despertava os interesses de quando eu fazia gols, em domingos quentes, em estádios lotados.

Comecei cedo, passei de clube em clube, ganhei muito dinheiro, acreditei que o sucesso era eterno. Despi-me da minha melhor parte, quando vesti a camisa de campeão. Eu era um ídolo. Eu era imortal, aos 20 e poucos anos. E fui morrendo.

No jogo de despedida, eu nada entendia de despedidas. E os convites foram se rarefazendo. E os aplausos, também. E, então, convidei a bebida para estar comigo. Para ouvir as histórias que eu tinha para contar. Para destruir, todo dia, um pouco da tal imortalidade.

Foi na sujeira que conheci Helena. Sua graça fez dança comigo. E nos amamos como adolescentes que não éramos. E nos juramos uma história sem fim. Sem filhos, nos filiamos ao discurso de nos dedicarmos um ao outro. Esqueci os que de mim se esqueceram. Helena bastava.

Risos sem razão. E quem precisa de razão para rir?! Peraltices de mulher feita. Era menina em mim. Surpresas em dias comuns. Do estádio de futebol ao pódio de um sentimento de amor que ressignifica os dias.

E, então, surgiu o dia em que ela disse pouco e partiu. Soube que se apaixonou. Que ficou por um tempo dividida. Que ainda me amava, quando se amou a outro. Que demorou a se decidir. Que não quis viver duplicidades.

Foi em um dezembro que a porta da casa se fechou. Faz alguns anos. O perfume de Helena ainda impede outro amor de viver comigo. Vez em quando, me enrosco para espantar a solidão. Deito acompanhado, na ilusão de que já estou pronto para amar novamente. Finjo satisfação, elogio quem acabou de chegar. E acordo querendo nada, apenas esperar.

Em dias de derrota no campo, eu esperava o próximo jogo. Ia inteiro para fazer o que eu sabia fazer. E o grito de gol renascia em mim o gosto de viver. Mas não é disso que me lembro agora. Colecionei títulos nos gramados. No jogo da vida, só fui campeão com ela.

Vou segredar uma intenção, aguardarei o quanto for para ter Helena de volta. E nada direi, se ela voltar. Abrirei o imortal sorriso que aguarda em mim sua presença.

Quem sabe ela se canse do outro. Quem sabe ela se lembre do quanto fomos felizes. Quem sabe a porta se abra. Nunca troquei a fechadura nem exigi as chaves de volta. Quem sabe ela entre, rindo sua meninice e jurando nunca mais partir.

A esperança sempre esteve comigo. Só ela. Os outros se foram…

*** GABRIEL CHALITA – É professor e escritor

OUTROS OLHARES

O PUNHO COMO MANIFESTO

Ícone histórico dos anos 1970, o bracelete metálico da joalheria Tiffany renasce com uma mensagem adequada aos novos tempos de autoafirmação feminina

Na aventura da humanidade, desde que começamos a nos relacionar em sociedade, os punhos são um modo de comunicação. Quando fechados, simbolizam protesto, como faziam os Panteras Negras americanos nos mercuriais anos 1960. Quando cruzados na frente do peito, ao estilo do personagem Pantera Negra interpretado por Chadwick Boseman, significam orgulho e respeito ao próximo. No aspecto estético, o antebraço enfeitado também envia sinais, que podem ser entendidos como sentimentos de autoestima ou de ostentação. Nesse cenário, ganha destaque em 2020 uma peça do vestuário que andava meio esquecida: os braceletes, as largas pulseiras costumeiramente metálicas, que retornam à moda trazendo uma mensagem de poder e força femininos.

Bebe-se, com amplo sucesso nas redes sociais; é claro, de uma criação já cinquentenária da designer italiana Elsa Peretti, de 80 anos recém-completados, para a joalheria americana Tiffany – o bracelete Bone (do inglês, osso). Ele voltou com tudo – em coleções coloridas relançadas pela própria Tiffany, mas também em séries de outras grifes, como Chanel e Louis Vuitton. Peretti disse ter se inspirado nas visitas à Casa Milà, a obra-prima sem linhas retas de Antoni Gaudí (1852-1926) em Barcelona, e em sua infância em Roma. Em um folheto de apresentação da Tiffany, ela deu pistas dos primeiros esboços: “Visitava o cemitério de uma igreja capuchinha do século XVII com minha babá. Todos os quartos foram decorados com ossos humanos. De vez em quando eu roubava escondido um dos ossos e punha na minha bolsinha. Minha mãe mandava devolvê-los, mas as coisas proibidas permanecem com você para sempre”. O bracelete Bone foi adquirido em meados dos anos 2000 pelo British Museum – a joia contemporânea de prata polida faz agora parte de uma coleção histórica que reúne restos de animais do neolítico, amuletos de xamãs esculpidos em dentes de chifre e um sarcófago de madeira para gato de estimação. Não pairam dúvidas, portanto, da relevância do trabalho e de seu alcance – e nem seria preciso que ornamentasse, espetacularmente, os punhos de estrelas incontornáveis como Sophia Loren e Liza Minnelli para brilhar luminosamente, como se irradiasse camadas e camadas de autoafirmação feminina.

Nem um segundo é necessário para constatar que a peça (8.350 reais a unidade em prata de lei), além de bonita, é forte – não é coisa de bonequinha de luxo, para lembrar o nome em português do filme em que Audrey Hepburn se delicia diante das vitrines da Tiffany em Nova York. “O bracelete Bone e suas versões são um aceno ao empoderamento feminino desde seu nascimento, porque Elsa Peretti lançou essas peças numa época em que o setor era dominado por profissionais do sexo masculino”, diz Márcio Ito, professor de planejamento e desenvolvimento de produtos de moda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.

Para compreender a simbologia dos braceletes é preciso esticar a lupa até o Egito antigo, onde o item foi utilizado como sinal de nobreza, adornado com pedaços de vidro colorido raros. Esse status aristocrata se repetia em sociedades africanas e na civilização maia. Em alguns casos, apenas reis podiam ostentá-lo. Diz o professor de história da joalheria na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, João Braga: “Por meio dos braceletes, demonstravam-se poder material e prestígio”. Prestígio travestido de autoridade e autoestima é o que Elsa Peretti deu às mulheres no apogeu da revolução sexual, uma ideia que não para de ganhar espaço.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE DEZEMBRO

AMANHÃ VAI SER MELHOR

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe (Apocalipse 21.1).

O pessimismo é contagioso. Ele embaça nossos olhos, enfraquece nossos braços e rouba nosso entusiasmo. O povo de Israel pereceu no deserto depois de quarenta anos de peregrinação porque, em vez de confiar em Deus, se entregou à incredulidade e ao pessimismo. Chegou a pensar que era um bando de gafanhotos, e não uma geração eleita. Talvez você esteja olhando para a sua vida com óculos escuros. Talvez seu horizonte se pareça hoje com uma nuvem cinzenta. Talvez você esteja olhando apenas pelas lentes do retrovisor e lamentando o passado que se foi. Suba nos ombros dos gigantes. Tenha a visão do farol alto. O melhor está pela frente. Deus está no trono. Ele está conduzindo sua vida e é poderoso para lhe conduzir em triunfo. Não duvide; creia. Não tenha medo; tenha fé. Não olhe para trás; olhe para frente, pois o melhor ainda está por vir. Agora há lágrimas e dor. Agora seus pés são feridos pelas areias escaldantes do deserto, mas um tempo de refrigério virá da parte de Deus para sua vida. Depois do choro, vem a alegria. Depois da tempestade, vem a bonança. O melhor de Deus ainda está por vir. Estamos a caminho da glória, estamos a caminho do céu!

GESTÃO E CARREIRA

OBCECADOS POR DESENVOLVIMENTO?

Estamos sempre em busca de conhecimento e superação. Mas temos que discutir até que ponto isso é saudável

Ter novas habilidades, ser mais criativo, liderar com inspiração e, ainda, fazer esportes, manter a alimentação balanceada, reciclar o lixo, ser sempre a melhor versão de si mesmo…

Quantas dessas metas fazem parte de seu dia a dia? Talvez todas. E elas têm uma coisa em comum: o incentivo para que estejamos, sempre, em desenvolvimento. Por si só, esse objetivo não tem nada de errado. O problema acontece quando a busca pela evolução se torna uma obsessão – e, durante a quarentena, virou até piada o fato de que muita gente estava assistindo a vídeos sobre investimentos e fazendo aulas de dança ao mesmo tempo, tamanha era a busca por preencher o tempo livre.

Mas isso não é uma questão contemporânea. A percepção de que devemos estar sempre evoluindo tem seu embrião bem enraizado no passado. Na Roma Antiga, livros como A Arte de Amar, do filósofo Ovídio, ou Deo Ofjiciis, de Cícero, poderiam ser enquadrados como manuais para ajudar as pessoas no crescimento individual. O que é um sinal dos nossos tempos é o exagero na busca pelo aperfeiçoamento.

SEMPRE MELHOR?

No livro Desperately Seeking Self­improvement (“Desesperados pelo autodesenvolvimento”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil), os pesquisadores Carl Cederstrõm e André Spicer escrevem sobre essa busca incessante. “Devemos ficar mais em forma, felizes, saudáveis, ricos, espertos, calmos e produtivos – tudo ao mesmo tempo, e tudo hoje”, dizem em trecho da obra.

O problema é que essa busca, em vez de nos tornar melhores e mais felizes, acaba esvaziando nosso dia a dia – ficamos tão preocupados em nos superar em tudo que nem sabemos mais para quê. “Nossa sociedade nos dá a impressão de que precisamos sempre buscar ser melhores e melhores em quase tudo”, diz David Baker, jornalista, consultor britânico e um dos membros fundadores da The School of Life no Brasil. E há muita gente ganhando com isso. Um estudo de 2016 da Market Research, consultoria de tendências de mercado, previa que o setor de automelhoria, que valia então 9,9 bilhões de dólares, iria crescer em média 5,6% ao ano até 2022, chegando a 13,2 bilhões de dólares. Nesse segmento entram desde aplicativos de autocuidado (como meditação e atividade física) até cursos de desenvolvimento pessoal e coaching.

A LÓGICA DO ESFORÇO

“A mensagem que pregam é que, se nos esforçarmos, vamos ter tudo aquilo que merecemos”, diz Lucas Liedke, psicanalista e cofundador da Float, consultoria de estratégia, cultura e comportamento do consumo. “Tudo pode ser ‘hackeado’ e mensurado. Usamos aplicativos e dispositivos para otimizar ao máximo a alimentação, a carreira e as relações pessoais.” E temos recursos para isso – nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdos, conselhos e mentorias sobre praticamente qualquer assunto. O limite parece ser apenas o da nossa vontade de nos dedicar ao tema. Com tantas possibilidades, a pressão pelo desempenho fica toda em nossas mãos. As redes sociais agravam a situação. Vemos no Instagram e LinkedIn o melhor da vida dos outros. “Sentimos que, se fazem isso, também devemos fazer”, diz Flora Alves, fundadora da SG, consultoria de aprendizagem. Mesmo sabendo que o que está na mídia social não é tão real assim, nós continuamos sendo afetados pela comparação entre nossa vida e a vida dos outros.

Para Marcus Marques, sócio diretor do Instituto Brasileiro de Coaching, o efeito é de bola de neve. “As empresas estão cada vez mais competitivas, com margens mais espremidas, exigindo mais eficiência.” Todas as áreas passaram a ter metas e indicadores que são verificados e cobrados em tempo real – e isso gera uma pressão enorme, que é levada até para dentro de casa. É comum que as necessidades de objetivos atingidos se repitam no relacionamento com os filhos, com o cônjuge e consigo mesmo.

QUANDO COMEÇA O EXAGERO

Todos nós temos vontade de evoluir – é algo de nossa natureza. “A busca por melhoria é uma tendência do ser humano”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de educação e neurociência organizacional. Esse sentimento tem até nome: “maestria” – e é importante para nos manter felizes no trabalho e motivados para ter hobbies, por exemplo. O problema é o excesso. “Pode ser que a pessoa busque compulsivamente a superação porque falta reconhecimento e ela sente que precisa entregar mais”, diz Ana Carolina. Por outro lado, podemos nos viciar na sensação de que estamos nos superando. E nem sempre é fácil identificar quando isso acontece [veja quadro Passando do Ponto].

Em alguns casos, a pressão exagerada pode vir em momentos importantes, como quando assumimos um cargo novo. O carioca Elton Oliveira, de 37 anos, passou por isso. Gerente nacional de canal digital e delivery no Bob’s, um de seus maiores desafios aconteceu quando se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo, em 2017, para assumir uma posição nacional na empresa em que trabalhava e tocar a transformação digital. De uma hora para outra, Elton abandonou o estilo de vida que tinha no Rio, onde praticava esportes e conseguia relaxar. Agora ele convivia com líderes seniores e tinha de fazer reuniões em inglês e espanhol toda semana. “Isso me deixou muito ansioso para estar à altura”, diz. Elton passou a acordar às 5 da manhã todos os dias e a ir dormir só por volta da meia-noite. Quase todo o tempo livre ele passava estudando espanhol, adiantando entregas do trabalho ou estudando para se atualizar – ingressou, inclusive, em um segundo MBA.

“Passei todo esse tempo sem ver São Paulo, acabei engordando por comer por ansiedade e aí passei a me cobrar para emagrecer”, conta Elton. A virada começou quando seus amigos chamaram sua atenção. “Falaram que eu estava dedicado e intenso demais, perguntaram se eu estava bem.” A correria estava atrapalhando até a carreira: ele se atrasava com frequência no MBA e não conseguia ler nem estudar direito. Mas a mudança só veio quando Elton se forçou a ter objetivos de qualidade de vida, como passear na cidade e praticar esportes por prazer. “É um processo até hoje. Preciso, dentro de minha capacidade, ter metas e não idealizar tanto nem me sentir culpado quando não produzo.”

CADÊ O EQUILÍBRIO?

Para não se perder em um mar de obrigações, é necessário entender o que é importante para si mesmo. Medir-se pela régua dos outros é aumentar o risco de se frustrar e, pior, de dedicar esforço e tempo a coisas que não são prioridade para você. Mas é importante lembrar: em alguns momentos não sabemos o que queremos. E tudo bem. O importante é questionar se a pressão que sentimos vem de coisas relevantes internamente ou se é algo externo – como a expectativa de um chefe, amigo ou parceiro. E não se engane: não haverá o momento em que estaremos completamente satisfeitos. “A linha de chegada ao desenvolvimento não existe”, diz Vanessa Novais, diretora executiva de transição de carreira na Thomas Case, consultoria de recursos humanos. Quando alcançamos um objetivo, podemos ficar felizes, mas logo estaremos de olho no próximo alvo. Alternar as metas na hora de se planejar pode ser uma maneira de lidar com a ansiedade. “Posso dedicar um trimestre para focar os estudos e separar outro para relaxar e me dedicar mais ao lazer”, diz.

Essa foi uma das lições que Leonardo Meira, de 37 anos, gerente de tecnologia em um banco de investimentos, aprendeu. Em 2018, ele estava determinado a se dedicar ao autodesenvolvimento. “Queria ser o melhor líder, ser mais efetivo em trazer uma visão de futuro para meu time”, diz. “E queria desenvolver a inteligência emocional.” Assim, passou o ano todo focado em cursos e diversos tipos de coaching. “Você faz esses cursos e a sensação é de que vai ser o próximo Zuckerberg. Mas não havia como fazer tudo que os cursos pediam que eu fizesse.” Mesmo tendo seguido o ano todo dedicado às aulas, em 2019 Leonardo resolveu mudar de rumo: estudar filosofia e alterar a forma de olhar para o desenvolvimento. Durante esse ano, ele viu que expectativas altas e romantizadas traziam mais frustração. Assim, aprendeu a temperar a vontade de ser melhor com uma pitada de ceticismo. “O pessimismo, da forma correta, traz um pouco de calma e nos prepara.

Você não precisa ser o funcionário perfeito, ter o corpo perfeito, ser a pessoa mais divertida do mundo”, diz Leonardo. Essa descoberta mudou sua postura no trabalho. Agora, na hora de delegar uma tarefa, ele pensa mais na jornada do que na entrega em si. Além disso, estabelece prazos e riscos de forma mais conservadora, sem esperar que tudo vá dar certo sempre. Os erros servem para trazer aprendizados – e não só cobrança.

PASSANDO DO PONTO

Como descobrir se você está se cobrando demais

AMIGOS

Quando pessoas em quem confiamos começam a dizer que estamos exaltados, agitados ou trabalhando demais, devemos prestar atenção. Elas conhecem nossos padrões e podem perceber mudanças de comportamento sobre as quais ainda não nos conscientizamos.

TEMPO LIVRE

Quando existe uma folga na agenda, você se sente culpado por não estar se dedicando a alguma coisa? Em momentos de lazer ou esporte, você se preocupa com seu desempenho ou com quanto está aprendendo com aquilo? Esses podem ser indicativos de que a cobrança está alta demais.

COPPO

O corpo fala. Insônia, irritabilidade, impaciência, alterações de apetite e dores no corpo podem indicar que estamos pressionados. Claro que outros fatores podem estar envolvidos, mas vale se perguntar quanto sua autocobrança não está contribuindo.

METRICA

Se você se pega anotando e comparando índices de produtividade, de tempo de entrega ou até mesmo de exercícios que faz e comidas que consome com muita frequência, vale parar para se perguntar o que está por trás disso. Como você se sente quando não consegue cumprir um objetivo ou superar um limite anterior?

NA PRÁTICA

Olhe para os últimos cursos que fez e avalie quanto aplicou dos conhecimentos – isso ajuda a perceber excessos. Quando nos envolvemos com um volume demasiado de assuntos, não conseguimos construir a memória de longo prazo, aquela que ancora o conhecimento em nossa mente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – V

PRESENTE EM DIFERENTES MALES

Além de se manifestar na síndrome do pânico, a ansiedade também pode aparecer em casos de depressão

O coração bate aceleradamente, os sentidos começam a ficar um pouco confusos, a visão escurece, as mãos começam a tremer, você sente o suor frio escorrendo e a sensação de que o pior vai acontecer toma conta de sua mente.

Por outro lado, fica difícil cair no sono (ou quando dorme, é mais do que o recomendado) se perde a concentração e toda a disposição desaparece.

A síndrome do pânico e a depressão são distúrbios muito comuns entre a população mundial e são graves por si só. Enquanto o pânico é um transtorno ansioso, a depressão tem suas próprias definições. No entanto, não é incomum que os sintomas de um interfiram no quadro do outro.

UMA COISA LEVA A OUTRA

Quando o assunto é ansiedade, certas variações do sentimento vêm à tona na forma de distúrbios mentais, que acabam ultrapassando sua definição de “alarme natural”. Para exemplificar, podemos citar desde os transtornos obsessivos compulsivos (TOCs), passando pelas fobias, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico, entre outros quadros alterados pela ansiedade em excesso.

Porém, antes de compreender como essa reação do corpo atua em cada um desses exemplos, é necessário explicar que ela nem sempre age sozinha, sendo apenas uma consequência de outros fatores. Isso possibilita seu aparecimento em outros distúrbios que não contam necessariamente com a ansiedade como um de seus sintomas, por exemplo, a depressão. A psicóloga Ana Paula Cavaggioni esclarece que, “embora os transtornos de ansiedade tendam a ser altamente comórbidos (estarem relacionados) entre si, podem ser diferenciados pelo exame detalhado dos tipos de situações que são temidos ou evitados e pelo conteúdo dos pensamentos ou crenças associados”.

EFEITO DOMINÓ

“Todos os casos de síndrome do pânico são crises de ansiedade, mas nem todas as crises de ansiedade são síndromes do pânico “, começa explicando o psicólogo Bayard Galvão. O profissional afirma que o transtorno caracteriza-se, basicamente, pelo receio de sentir os sintomas da própria ansiedade aguda. Assim, se não controlado, esse medo será alimentado toda vez que houver uma recaída, uma vez que as sensações são bastante desagradáveis e difíceis de serem estabilizadas. Isso gera uma reação em cadeia que a cada fase se tornará mais intensa, podendo prejudicar a saúde mental do paciente caso não receba o tratamento adequado, seja medicamentoso ou terapêutico.

INFLUÊNCIAS

Segundo dados da organização Mundial da Saúde (OMS), é estimado que a depressão atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro, podendo ser considerado o mal do século

Mesmo com um número tão grande de vítimas deste quadro, o distúrbio ainda não é levado à sério tanto quanto se deveria. Seus sintomas, que variam entre o humor irregular, desânimo, perda ou excesso de apetite e de peso e insônia, muitas vezes, não são vistos com a devida importância, o que acaba piorando a saúde do paciente. E em uma situação extrema, o que era “apenas um sentimento de tristeza” vira algo muito pior: a OMS avalia que, das pessoas diagnosticadas com a depressão, 800 mil cometem suicídio.     

As consequências do distúrbio são graves por si só, mas podem aumentar quando unidas aos sintomas da ansiedade. Primeiramente, vale lembrar que a depressão e o transtorno ansioso são patologias com diagnósticos diferentes, mas que possuem traços semelhantes. No entanto, isso não impede que alguém com o quadro depressivo apresente também as manifestações da ansiedade, como taquicardia, sudorese, falta de ar e os próprios ataques de pânico.  

“Estudos mostram que cerca de 25% dos casos de depressão passam anteriormente por um quadro de ansiedade. E aproximadamente 65% dos pacientes diagnosticados com ansiedade apresentam sintomas depressivos”, constata a psicóloga Ana Paula.

FREQUÊNCIA

Não é nenhuma raridade que os traços de depressão e ansiedade se misturem, mas a manifestação de apenas um dos transtornos ainda é a probabilidade mais comum. “Considero pouco provável alguém viver até os 50 anos de idade e não ter desenvolvido em algum momento da vida um quadro de depressão ou ansiedade, seja de seis meses ou anos”, conclui o psicólogo Bayard Galvão.

OUTRAS VARIAÇÕES

Os transtornos ansiosos dividem-se em algumas categorias de acordo com o gatilho que faz seus sintomas virem à tona.

Além da Síndrome do pânico e a depressão (que não pertence a essa classe de distúrbios, mas    podem compartilhar dos mesmos sintomas), o especialista Bayard Galvão cita mais quatro exemplos que se encaixam no quadro:

• FOBIAS: aqui, o agente que aciona a ansiedade é o medo irracional por algum objeto, animal ou situação.

Contudo, o psicólogo ressalta que as fobias podem ser mal diagnosticadas às vezes: uma reflexão um pouco mais rigorosa leva ao fato de que o indivíduo não teme o avião em si, mas a queda do veículo. E não tanto o acidente, mas de morrer”.                                                    

• TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO: manifesta-se por meio de rituais que as pessoas com TOC simplesmente não consegue deixar de lado. Alguns dos comportamentos são fixações com determinados números ou algum pensamento que fica constantemente se repetindo na mente. Segundo Bayard, a manifestação dos sintomas ansiosos acontece, na verdade, por “uma intensa vontade de fazer algo que evitaria isso (de um modo fantasioso ou não), seja rezar, abrir e fechar a porta, dar pulos ou até lavar a mão e corpo de maneira contínua e terrivelmente rigorosa”.            

• ANSIEDADE GENERALIZADA: esse distúrbio se caracteriza, principalmente, pela preocupação exagerada sobre alguma coisa, o que gera muita tensão na pessoa com o quadro. Se esse padrão se repetir com frequência, haverão alguns efeitos negativos: “aumenta a irritabilidade, piora o sono, diminui a capacidade de concentração, de memorização e uma série de efeitos maléficos ao corpo, inclusive prejudicando o sistema imune, subindo a probabilidade de ter alguma doença”, alerta o psicólogo.

• DISTÚRBIO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO: os sinais da ansiedade aparecem após passar pela experiência de algum trauma psicológico, seja pela perda de uma pessoa querida, um assalto, um acidente de carro ou por sofrer atos violentos.