EU ACHO …

UM CENSO AFETIVO

Durante toda a minha infância o alarme de segurança do condomínio em que morávamos tocava uma vez por ano, para anunciar a chegada do Papai Noel. Ele aparecia num carro conversível no anoitecer do dia 24, estacionava junto ao gramado entre as casas e distribuía presentes para nós, as crianças com roupa de festa e o cabelo molhado de banho. Era uma cena cativante, a das crianças correndo de encontro ao bom velhinho num condomínio cercado de verde no Alto da Boa Vista, ele tirando os pacotes coloridos de um saco imenso, as embalagens sendo rasgadas para revelar um quebra-cabeça, boneca, trator.

O alarme era pra mim o início oficial da celebração, que prosseguiria com a sala cheia de presentes, as luzes acesas no pinheirinho, os primos correndo na varanda, os adultos expressando a felicidade cumulativa e seis horas ininterruptas ouvindo o LP natalino. “A harpa e a cristandade, do paraguaio Lu8is Bordon. O Natal era a nossa utopia, o único do dia perfeito do ano. Mesmo as brigas e implicâncias (tão comuns nas famílias quanto os vídeos cantando parabéns) se esvaziavam no dia 24 fazendo com que os sorrisos congelados nas fotos pesadas fossem também sinceros.

Com o tempo, eu descobri não só que Papai Noel não existia, como que o impostor do meu condomínio era um vizinho meio bêbado, num bugre emprestado, barba de algodão de farmácia, barriga de almofada e roupa de cetim barato das Casas Turuna. Restava-me pelo menos a segunda parte do Natal, e com o tempo eu descobri que era muito mais significativa, espécie de censo afetivo que fazíamos todos os anos. Bebês, cunhados e agregados surgiam, tios avós e bisavós partiam. A vida era imprevisível, e, no entanto, nós tentávamos controla-la e compreendê-la procedendo todos os anos com os mesmos rituais, os mesmos guardanapos engordurados pelos bolinhos, as mesmas frutas cristalizadas que ninguém comia, aquela insuportável harpa paraguaia na vitrola, as melhores roupas, atitudes e sorrisos, e sempre o mesmo monumento culinário que é o peru de Natal.   

Não estou me referindo ao peru de anuncio de Tv, no qual uma mulher maquiada coloca o bicho no forno, dá meia volta, o termômetro desponta, ela pega a baixela e é ovacionada na mesa. O peru a que me refiro é um empreendimento que começa na compra, passa por um tempero de 24 horas com uns 20 ingredientes, e termina no destrinchar. Peru de Natal de respeito tem receita mais complicada que manual de videocassete, e acho que é por isso que só é feito uma vez por ano. Para a cozinheira esquecer que foi trabalhoso ansiar pelo censo afetivo e cair na besteira de fazer de novo.

Este ano meu Natal não terá um peru monumento. Vai ter só um peito que pretendo cobrir com bacon para ficar mais interessante. Nossa ceia será singela, um símbolo desse Natal dividido, esvaziado e cheio de saudades. Ceia que está mais para um vizinho de roupa vermelha em cima de um bugre do que para um Papai Noel nórdico num trenó com renas. Mas deve ter lá alguma magia (além de bacon, que sempre ajuda), que vai servir para perpetuar a tradição até o ano que vem.

***MARTHA BATALHA

OUTROS OLHARES

NASCIDOS DESIGUAIS

Por que melhorar agora a saúde dos recém-nascidos é mais importante do que jamais foi

Uma razão para esse número alarmante é que afro-americanos têm taxas mais altas de diabetes, hipertensão e asma, doenças ligadas aos piores desfechos após a infecção por coronavírus. Décadas de pesquisa mostram que esses problemas de saúde, em geral diagnosticados na idade adulta, podem refletir dificuldades enfrentadas ainda no útero. Crianças não nascem em igualdade de condições. Fatores de risco relacionados à pobreza materna, como desnutrição, fumo, estresse ou falta de cuidados durante a gravidez, podem predispor os bebês a doenças futuras. E as mães de comunidades minoritárias tinham e têm maior probabilidade de estarem sujeitas a esses riscos.

Os afro-americanos idosos, que são os mais ameaçados pela Covid-19, têm mais chances de terem nascido na pobreza. Em 1959, 55% dos negros nos EUA tinham renda abaixo da linha de pobreza, ante menos de 10% dos brancos. Hoje, 20% dos americanos negros vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto a taxa de pobreza entre os brancos segue quase igual. Apesar da redução na desigualdade de renda, o racismo atua por rotas tortuosas para piorar as chances das crianças das minorias. Por exemplo, por causa das práticas pelas quais as instituições financeiras e outras instituições dificultam a compra de residências por negros em áreas predominantemente brancas, mesmo os afro-americanos em melhor situação têm mais chances de viver em áreas poluídas do que os brancos mais pobres, com um impacto correspondente na saúde do feto. É preocupante que os menos favorecidos desde o útero tenham probabilidade maior de ganhar menos e ter conquistas educacionais menores e, desta forma, os efeitos da pobreza e da discriminação podem perdurar por gerações.

Pesquisadores agora possuem evidências concretas deque programas específicos podem melhorar a saúde e reduzir a desigualdade. Expansões do seguro de saúde pública oferecido às mulheres, bebês e crianças no âmbito do Medicaid e do Programa de Seguro-Saúde das Crianças já tiveram um efeito tremendo, melhorando a saúde e o bem-estar de uma geração, com maior impacto entre crianças afro-americanas. E intervenções após o nascimento podem, com frequência, reverter boa parte dos danos sofridos no pré-natal. Junto com outros pesquisadores, mostrei que programas de nutrição para grávidas, bebês e crianças; visitas domiciliares por enfermeiras durante a gravidez e após o parto; cuidados de alta qualidade com as crianças; e suporte à renda podem melhorar os resultados para crianças menos favorecidas. Essas intervenções chegaram muito tarde para ajudar os nascidos nos anos 1950 ou antes, mas reduziram as diferenças de saúde entre crianças pobres e ricas, assim como entre crianças brancas e negras, nas décadas posteriores.

Mas persistem as enormes disparidades em saúde e vulnerabilidades, levantando questões sobre o futuro das crianças nascidas durante essa pandemia das mães mais pobres. É alarmante que, pouco antes de a pandemia eclodir, muitos dos programas mais essenciais estavam sendo cortados. Desde o começo de 2018, mais de um milhão de crianças perderam a cobertura do Medicaid por causa de novas exigências de trabalho e outras regulações e muitas ficaram sem seguro. Agora que o número de mortes da Covid-19 expôs as desigualdades gritantes em situações de saúde e seus riscos inerentes, os americanos precisam agir para reverter esses retrocessos e fortalecer os sistemas de saúde pública e a rede de seguridade social com especial atenção para os cuidados com as mães, os bebês e as crianças.

O INVERNO DA FOME

Décadas de observação e análises revelaram as muitas formas pelas quais o ambiente fetal afeta a saúde e as perspectivas futuras de uma criança, mas muitas continuam misteriosas. Seria antiético realizar experimentos para medir o impacto sobre um feto da desnutrição ou da poluição, por exemplo. Mas podemos buscar os chamados experimentos naturais – eventos que causam variações nesses fatores de forma a simular o experimento de fato. O epidemiologista David Barker afirmou nos anos 1980 que a desnutrição durante a gravidez poderia “programar” bebês no útero a desenvolverem problemas futuros como obesidade, doenças cardíacas e diabetes. As evidências iniciais para essas ideias vieram de estudos do “Inverno da Fome” na Holanda. Em outubro de 1944, os invasores nazistas cortaram os suprimentos de alimentos para a Holanda e, em abril de 1945, a fome grassava. Décadas mais tarde, registros militares, médicos e de emprego mostraram que os homens adultos cujas mães foram expostas à fome durante a gravidez tinham o dobro de chances de serem obesos na comparação com os outros homens, e probabilidade maior de sofrerem de esquizofrenia, diabetes ou doença cardíaca. Os nascidos na Holanda, durante a grande fome são parte de um grupo que pôde ser acompanhado ao longo do tempo por uma variedade de registros. Hoje, muitos pesquisadores, incluindo eu, buscam experimentos naturais para delinear esses grupos e assim destrinchar os impactos de longo prazo de experiências prejudiciais sofridas ainda no útero.

Também dependemos muito da medida de saúde do recém-nascido mais usada: o peso ao nascer. Um bebê nascer com peso “baixo”; definido como menos de 2.500 gramas, ou “muito baixo” menos de 1.500 gramas. Quanto mais baixo, maior o risco de óbito infantil. Fizemos enormes progressos para salvar bebês prematuros, mas crianças com baixo peso ao nascer ainda apresentam risco muito maior de complicações como hemorragia cerebral e problemas respiratórios que podem levar a deficiências de longo prazo.

Nos últimos anos, análises de computador de registros eletrônicos em larga escala tornou possível conectar a saúde infantil, medida pelo peso ao nascer, a ocorrências de longo prazo não só para grupos, mas também para indivíduos. Estudos com gêmeos ou irmãos que têm herança genética e social semelhantes, mostram que aqueles com peso mais baixo no nascimento são os que têm maior probabilidade de sofrerem de asma ou ‘Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) quando ficam mais velhos.

Vários estudos também mostraram que gêmeos ou irmãos com peso mais baixo ao nascer têm pontuação piorem testes. Quando adultos, terão maior probabilidade de receberem salários mais baixos, residirem em área de renda mais baixa ou precisarem de programas de auxílio a pessoas com deficiência. Em conjunto, estudos de grupos e irmãos demonstram que baixo peso ao nascer é prognóstico de diversos desfechos adversos de saúde mais tarde, incluindo maior probabilidade de asma, doença cardíaca, diabetes, obesidade e alguns problemas de saúde mental.

O peso ao nascer não captura todos os aspectos da saúde: um feto ganha a maior parte de seu peso no terceiro trimestre, por exemplo, mas muitos estudos mostraram que choques no primeiro trimestre são particularmente prejudiciais. De qualquer forma, eu uso a medida em meus estudos porque é importante e comumente disponível, tendo sido registrado para dezenas de milhões de bebês por décadas.

É significativo que o peso baixo ao nascer seja muito mais comum em bebês de mães pobres e de minorias. Em 2016, 13,5% das mães afro-americanas tiveram bebês com baixo peso, ante 7% das brancas não hispânicas e 7,3% das mães hispânicas. Entre aquelas com curso superior, 9,6% das mães negras tiveram bebês com baixo peso ao nascer, ante 3,7% das mães brancas não hispânicas. Essas desigualdades na saúde ao nascer refletem grandes diferenças na exposição a diversos fatores que afetam a saúde do feto.

A CONEXÃO POBREZA

Como dissemos, a qualidade da nutrição da mãe influencia substancialmente a saúde dos bebês. Em 1962, o geneticista James V. Noel levantou a hipótese de que um chamado gene parcimonioso teria programado os ancestrais coletores-caçadores da humanidade para reter toda caloria que pudessem conseguir e que, nos tempos modernos, essa tendência, combinada com uma abundância de alimentos altamente calóricos, levaram à obesidade e ao diabetes. Mas estudos recentes com cobaias indicam que a ligação entre fome e doença não é de origem genética e sim epigenética, alterando o modo como determinados genes são “expressados” como proteínas. A privação prolongada de calorias em uma ratazana grávida, por exemplo, desencadeia mudanças na expressão dos genes em sua cria que a predispõem ao diabetes. Além disso, o efeito pode ser transmitido por gerações.

A total inanição é agora rara em países desenvolvidos, mas mães mais pobres nos EUA com frequência não têm uma dieta rica em frutas e verduras, que contêm micronutrientes essenciais. Deficiências na ingestão de ácido fólico durante a gravidez estão relacionadas com defeitos no tubo neural das crianças, por exemplo.

Hoje uma das principais causas de baixo peso ao nascer nos EUA é o fumo durante a gravidez. Nos anos 1950, as grávidas ouviam que o fumo não gerava risco para o bebê. Cerca de 50% de todas as novas mães em 1960 disseram que fumaram na gravidez. Hoje, apenas 7,2% das grávidas se declaram fumantes. E 55%das mulheres que fumaram nos três meses antes de ficarem grávidas abandonaram o cigarro pelo menos durante a gravidez.

Mães com níveis mais altos de educação têm menos chances de fumarem, possivelmente porque na faculdade o fumo é desaconselhado. E 11, 7% das mães que não completaram o ensino médio fumam, ante 1% das mães com bacharelado.

Entre os muitos produtos químicos prejudiciais na fumaça dos cigarros está o monóxido de carbono (CO), que restringe o volume de oxigênio transportado pelo sangue para o feto. Além disso, a nicotina afeta o desenvolvimento dos vasos sanguíneos no útero e prejudica o desenvolvimento de sistemas neurotransmissores, levando a desfechos psicológicos piores. Fumar durante a gravidez também tem sido associado com mudanças epigenéticas no feto. A recente disparada no uso de cigarro eletrônico, que propicia altas doses de nicotina e que, segundo pesquisas, foi experimentado por quase 40% dos alunos mais velhos no ensino secundário, é um desenvolvimento preocupante que pode ter implicações de longo prazo para a saúde do feto e da criança.

Outra fonte significativa de dano aos fetos é a poluição. As grávidas podem ser expostas a milhares de produtos tóxicos no ar, na água, no solo e em produtos variados em casa e no trabalho. E cada poluente atua de uma maneira diferente. Acredita-se que partículas na atmosfera sejam a causa de inflamação em todas as partes do corpo, o que tem sido relacionado com parto prematuro e, por isso, baixo peso ao nascer. O chumbo, ingerido através da água ou do ar, cruza a placenta para se acumular no feto e afeta o desenvolvimento do cérebro. Em 2005. Jessica Wolpaw Reyes, do Amherst College, mostrou que a substituição do chumbo na gasolina nos EUA levou a uma redução de até 4% na mortalidade infantil e do baixo peso no nascimento.

O feto também pode receber menos oxigênio se a mãe inalar CO do escapamento de veículos. Em um estudo de 2009 com mães que vivem perto de monitores de poluição, meus colegas e eu descobrimos que altos níveis de CO no ambiente se relacionavam ao peso reduzido ao nascer. É preocupante que os efeitos do CO da poluição do ar sejam cinco vezes mais altos para fumantes do que para não fumantes.

Reduzir a poluição pode ter benefícios imediatos para grávidas e recém-nascidos. Em um estudo de 2011, Reed Walker, da Universidade da Califórnia, e eu focamos em mães que viviam perto de praças de pedágio do sistema eletrônico de pagamento E-ZPass antes e depois do início de suas operações. Nós as comparamos com mães que viviam um pouco mais longe das praças de pedágio, mas ao longo das mesmas estradas movimentadas. Os dois grupos de mães eram expostas ao tráfego, mas antes do E-ZPass, as mães próximas das praças eram expostas a mais poluição porque os carros rodavam sem rumo enquanto aguardavam para pagar o pedágio. O E-ZPass reduziu significativamente a poluição no entorno das praças de pedágio, permitindo que os carros passassem direto. De forma surpreendente, a implantação do E-ZPass reduziu a incidência de peso baixo ao nascer em mais de 10% nos bairros mais próximos das praças.

Em outro estudo, examinamos registros de nascimento de 11 milhões de recém-nascidos em cinco estados. Descobrimos que 45% das mães viviam a cerca de 1,5 km de um local que emitia produtos químicos tóxicos, como metais pesados ou carcinógenos orgânicos, e o número chegava a 61% entre mães afro-americanas. Focando bebês de mães que viviam a 1,5 km de uma fábrica, comparamos os pesos ao nascer quando a unidade estava operando e quando estava fechada. Também comparamos bebês nascidos na faixa de 1,5 km da unidade com bebês nascidos entre 1,5 km e 3 km em torno da indústria A probabilidade dos dois grupos de mães serem afetadas pela situação econômica com a abertura e o fechamento da fábrica era similar, mas as mães que viviam mais perto tinham mais chances de terem sido expostas à poluição durante a gravidez. Descobrimos que uma fábrica em operação aumentou em 3% a probabilidade de baixo peso no nascimento entre bebês cujas mães viviam a menos de 1,5 km.

A divisão racial na exposição à poluição é profunda, em parte por causa da contínua segregação habitacional que dificulta a mudança de famílias negras para fora de bairros historicamente negros. Comunidades menos favorecidas também podem não ter poder político para evitar empreendimentos prejudiciais, como uma unidade de produtos químicos em sua região. No estudo do E-ZPass, cerca de metade das mães que viviam perto das praças de pedágio eram hispânicas ou afro-americanas, comparadas com apenas 10% das mães que viviam a mais de 9,7 km do local. E, em um estudo publicado este ano, John Voorheis, do Birô de Recenseamento dos EUA, Walker e eu mostramos que, em todo os EUA, os bairros com maior número de moradores afro-americanos apresentam sistematicamente qualidade de ar pior do que em outros bairros. Os afro-americanos também têm o dobro da probabilidade dos demais de viverem perto de aterros de lixo tóxico. Por essas razões, as medidas de controle da poluição como a Lei do Ar Limpo têm beneficiado em grande medida os afro-americanos.

LUTAR OU FUGIR

O estresse prejudica desproporcionalmente o pobre – que têm preocupações crônicas com o pagamento de contas, por exemplo – e também abala o feto. Uma situação estressante desencadeia a liberação de hormônios que comandam uma série de mudanças físicas associadas com uma resposta do tipo lutar ou fugir. Alguns desses hormônios, incluindo cortisol, têm sido ligados a partos prematuros, que, por sua vez, levam a baixo peso ao nascer. Níveis altos de cortisol em circulação na mãe durante a gravidez podem prejudicar o sistema de regulação de cortisol do feto, tornando-o mais vulnerável ao estresse. E o estresse pode desencadear respostas comportamentais na mãe, como aumento no consumo de cigarros e bebidas, o que também prejudica o feto.

Um estudo revelador indica que a exposição do feto ao estresse maternal pode ter efeitos negativos de longo prazo maiores sobre a saúde mental do que o estresse diretamente sofrido por uma criança. Petra Persson e Maya Rossin-Slater examinaram o impacto da morte de um parente próximo. A morte pode provocar muitas mudanças indesejáveis em uma família, como redução na renda, o que também pode influenciar o desenvolvimento de uma criança. Para contabilizar essas complicações, as pesquisadoras usaram dados administrativos da Suécia para comparar crianças cujas mães foram afetadas por uma morte durante o período pré-natal com filhos de mães afetadas por uma morte durante os primeiros anos da criança. Elas descobriram que as crianças afetadas por uma morte no período pré-natal tinham 23% a mais de chances de usarem medicação para TDAH com idades entre nove e 11 anos e 9% mais chances de usarem antidepressivos na vida adulta do que as crianças cujas famílias passaram por uma morte poucos anos após seu nascimento.

Outro estudo inovador mediu os níveis de cortisol, um indicador de estresse durante a gravidez. Aos sete anos, as crianças cujas mães tiverem níveis mais altos de cortisol durante a gravidez tinham cursado até um ano a menos que seus próprios irmãos, indicando que o início dos estudos delas havia sido retardado. Além disso, para qualquer nível de cortisol no sangue da mãe, os efeitos negativos eram mais pronunciados para os filhos de mães menos escolarizadas. Essa descoberta sugere que, embora o estresse durante a gravidez seja prejudicial para o feto, as mães mais instruídas sã mais capazes de atenuar os efeitos sobre seus filhos – uma descoberta importante diante do estresse severo imposto pela COVID-19 para as famílias de hoje.

Não é surpresa que doenças também possam afetar o feto. Douglas V. Almond, da Universidade Columbia, estudo pessoas nascidas no pico da epidemia de influenza de 1991 e descobriu que elas tinham 1,5 vez mais chances de serem adultos pobres do que as nascidas pouco antes. Em um trabalho que eu fiz com Almond e Mariesa Herrmann examinando mães nascidas entre 1960 e 1990 nos EUA, descobrimos que mulheres nascidas em áreas onde ocorria uma doença contagiosa apresentaram probabilidade maior de terem diabetes ao darem à luz décadas depois – e os efeitos eram duas vezes maiores para as afro-americanas. Mais recentemente, Haunse Schwandt, da Universidade Northwestern, examinou dados dinamarqueses e constatou que a infecção materna com a gripe sazonal comum no terceiro trimestre dobra a taxa de parto prematuro e baixo peso ao nascer, e a infecção no segundo trimestre leva a uma redução de 9% na renda e a um aumento de 35% na dependência da seguridade social quando a criança se torna adulta.

EVITANDO DANOS

Porém, a saúde ao nascer e depois pode ser melhorada com intervenções cuidadosas direcionadas para as grávidas, bebês e crianças, e pela redução da poluição. A rede de segurança alimentar nos EUA obteve um grande sucesso em evitar o peso baixo ao nascer em bebês de mulheres carentes. A implantação do programa de cupons de alimentos, agora chamado Programa de Assistência à Nutrição Suplementar (Snap, na sigla em inglês), em meados dos anos 1970 reduziu a incidência de baixo peso no nascimento entre 5% e 11%. Além disso, as crianças beneficiadas pelo programa cresceram com menos chances de sofrerem de síndrome metabólica, um grupo de problemas que inclui obesidade e diabetes.

Nos anos 1970 também foi introduzido o Programa de Nutrição Suplementar Especial para Mulheres, Bebês e Crianças, conhecido como WIC. Cerca de 50% das grávidas receberam alimentos nutritivos do WIC, orientação sobre nutrição e maior acesso aos cuidados médicos. Dezenas de estudos mostraram que, quando as mulheres participam do WI.C durante a gravidez, seus bebês têm menos chances de pesarem pouco ao nascer. Em recente trabalho, Alma Chorniy, Lyudmyla Sonchak e eu pudemos demonstrar que crianças cujas mães recebem WIC durante a gravidez têm menos chances de sofrerem de TDAH e outros problemas de saúde mental comumente diagnosticados na primeira infância.

No fim dos anos 1980 e início dos 1990, os governos estaduais e federal trabalharam juntos para expandir o seguro-saúde público para grávidas dentro cio programa Medicaid. Jonathan Cruber e eu demonstramos que o seguro-saúde reduziu a mortalidade infantil e melhorou o peso ao nascer. Hoje, as crianças cujas mães se qualificaram para a cobertura do seguro-saúde à gravidez naquele período têm níveis mais altos de frequência em faculdades, emprego e renda do que as crianças de mães não atendidas pelo programa. Elas também apresentam taxas mais baixas de doenças crônicas e têm menos chances de terem sido hospitalizadas. Os efeitos estimados são mais poderosos para as afro-americanas, que, tendo renda média menor, se beneficiaram mais da expansão. O fato de que esses bebês apresentam mais chances de terem cursado faculdade aumentará as chances de vida de seus filhos. Nos EUA, um ano adicional de ensino superior da mãe reduz a incidência de baixo peso ao nascer nos filhos em 10%. Mesmo assim, muitas crianças ainda nascem com baixo peso, em especial se a mãe é negra. Mas, intervenções que ocorrem depois do nascimento podem melhorar seus resultados. Programas como a Parceria Enfermeira-Família incluem visitas em casa de enfermeiras a mulheres de baixa renda que estejam grávidas pela primeira vez, muitas das quais são jovens e solteiras. A enfermeira visita a residência todo mês ao longo da gravidez, e durante os dois primeiros anos de vida do bebê, para dar orientação sobre comportamento saudável. Essa assistência reduz o abuso infantil e o crime adolescente e melhora as conquistas acadêmicas da criança.

A ajuda financeira às famílias pobres com crianças pequenas também melhora a saúde materna, e os prognósticos da criança, sugerindo que o auxílio pago durante a Covid-19 também terá importantes efeitos protetores. Nos EUA, o maior programa em atividade desse tipo é o Crédito para o Imposto de Renda (EITC, na sigla em inglês). Estudos dos beneficiários do EITC mostraram que crianças em famílias que receberam o benefício tiveram resultados melhores nos testes escolares. Com o estresse financeiro sendo aliviado de alguma forma, a saúde mental das mães nessas famílias também melhorou. Ademais, programas de educação de qualidade para a primeira infância aumentam a saúde, a educação e a renda e reduzem o crime no futuro. Head Start, o programa de pré-escola financiado pelo governo federal implantado nos anos 1960, teve efeitos positivos substanciais nos resultados em saúde e educação, sobretudo em locais com menos acesso aos centros de cuidados infantis.

OLHANDO ADIANTE

Investimentos em grávidas e crianças têm dado retorno, com reflexo na queda acentuada das taxas de mortalidade infantil nos EUA apesar do aumento da desigualdade de renda e saúde. Mas é alarmante que muitos programas de sucesso, como Lei do Ar Limpo, o SNAP e o Medicaid, estejam sob ataque. A legislação Cares (sigla para “Coronavírus Aid, Relief e Economic Security”) aprovada em março ofereceu algum alívio, pelo menos em relação ao Medicaid. O Cares suspendeu temporariamente o desligamento do programa, dando flexibilidade adicional a programas estaduais de Medicaid em termos de prazos e elegibilidade de procedimentos. Mas os estados podem sofrer dificuldades ao incluírem os muitos que se tornarão elegíveis ao Medicaid por causa de perda de emprego. Além disso, estados que não expandiram o programa Medicaid para cobrir adultos de baixa renda inelegíveis, como prevê a Lei de Cuidados de Saúde Acessíveis, podem ver muito mais pessoas sem seguro-saúde. Um relatório das Academias de Ciência, Engenharia e Medicina publicado no ano passado delineou um roteiro para reduzir a pobreza infantil à metade em dez anos. Uma das descobertas mais impressionantes do estudo é que é viável atingir essa meta com a expansão de programas já existentes.

Diagnosticar e tratar condições como pré-eclâmpsia (pressão alta associada à gravidez) é essencial para proteger os bebês e reduzir a mortalidade das mães. É importante ajudar a grávida a parar de fumar e desenvolver novos métodos para uma nova geração viciada em cigarro eletrônico. Também é preciso adotar proteções mais fortes para mulheres em risco de violência doméstica, que leva diretamente a estresse crônico, parto prematuro e baixo peso no nascimento.

Uma questão em aberto importante é qual efeito a pandemia terá sobre a geração de crianças afetadas por ela no útero e início da vida. A Covid-19 em si pode ter efeitos negativos para o desenvolvimento do feto, embora a melhor informação disponível até agora sugira que as grávidas não são especialmente passíveis de se tornaram criticamente doentes e que os bebês afetados não estão apresentando defeitos óbvios ao nascer. Mesmo assim, considerando-se o fato de que a Covid-19 afeta muitos sistemas do corpo, ela pode revelar efeitos negativos sutis no desenvolvimento do feto. A pandemia também é um evento muito estressante acompanhado pela pior recessão desde a Grande Depressão. Há relatos de aumento na violência doméstica, consumo de álcool e overdoses de drogas, todos prejudiciais ao desenvolvimento do feto. Em consequência, a geração agora no útero provavelmente estará em maior risco e vai necessitar de investimentos sociais para superar seu início mais pobre na vida.

Em um recente sermão sobre o falecido líder dos direitos civis John Robert Lewis, o reverendo James Lawson relembrou os ganhos que esse movimento trouxe a americanos de todas as cores. Ele pediu que os líderes políticos da América “trabalhem em favor de cada garoto e de cada garota, para que cada bebê nascido nessas plagas tenha acesso à arvore da vida… para que todas as pessoas dos EUA determinem que não sossegaremos enquanto uma criança morrer no primeiro ano de vida. Não ficaremos quietos enquanto o maior grupo na pobreza em nossa nação seja o de mulheres e crianças”. À medida que reconstruímos nossas despedaçadas redes de seguridade e sistemas de saúde pública após a Covid-19, precisamos aproveitar o momento para usar o conhecimento que ganhamos acerca de como proteger mães e bebês – para dar a cada criança a oportunidade de florescer.

ASMA, POLUIÇÃO E SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL

As taxas de asma entre os negros eram duas vezes mais altas do que as de outras pessoas nos EUA em 2010. Parte dessa disparidade vem do baixo peso ao nascer, que está ligado à asma e é mais comum entre crianças negras. Esses gráficos ilustram o impacto da poluição e da segregação racial nas taxas de asma. Eles comparam crianças de Nova Jersey em bairros onde mais de 25% das crianças são negras com crianças de todos os demais bairros. A comparação dos painéis à esquerda e à direita mostra que o baixo peso ao nascer tem um efeito maior sobre as taxas de asma entre crianças de todas as raças nos bairros onde a maioria das crianças negras vive. Assim, a segregação residencial, que resulta em maior probabilidade de as crianças negras viverem em locais mais poluídos, se soma aos efeitos negativos do baixo peso ao nascer.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE DEZEMBRO

EMBRIAGUEZ, VERGONHA PARA A FAMÍLIA

E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução… (Efésios 5.18a).

Estou farto de ver homens tombados nas sarjetas, vencidos pelo álcool. Estou cansado de ver mulheres sofridas, carentes e humilhadas indo a antros do vício buscar seu cônjuge trôpego e coberto de vômito para levá-lo para casa. Estou triste de ver filhos chorando por pais que se arrastam na lama por causa desse vício maldito, e de ver pais sofrendo por causa de filhos prisioneiros da dependência química. O álcool é o maior ladrão de cérebros do mundo, o maior causador de acidentes, crimes passionais, separações dolorosas e famílias destruídas. Aqueles que agem sob sua influência lotam as cadeias e suas vítimas povoam os cemitérios. A Bíblia fala de Nabal, um homem rico, porém insensato (1Samuel 25.1-38). Entregue à embriaguez, fazia festa de rei sem ser rei. Movido pelo álcool, tornou-se duro no trato e incomunicável. Embalado pela avareza, tornou-se mesquinho. Sua embriaguez roubou-lhe a lucidez e custou-lhe a vida. Há muitos lares ainda hoje machucados e feridos pelos efeitos nocivos do álcool. Há muitos casamentos destruídos por causa da embriaguez. Há muitos filhos revoltados e cheios de vergonha por verem seus pais prisioneiros desse vício degradante. Há muitos jovens cativos do álcool, encurtando seus dias e lançando sua alma num abismo de dor e angústia. Em vez de sermos cheios de álcool, devemos ser cheios do Espírito. A embriaguez produz dissolução e morte, mas a plenitude do Espírito produz comunhão, adoração e gratidão.

GESTÃO E CARREIRA

VENCEDORAS DA PANDEMIA

Que crise? Para as empresas do setor tecnológico, a pandemia só aumentou a demanda por serviços digitais — uma tendência antecipada que veio para ficar

A ideia surgiu ainda em 2003, quando dois engenheiros de software da Amazon tiveram uma sacada genial. Eles propuseram que o gigante do varejo online usasse sua vasta infraestrutura tecnológica para hospedar os serviços digitais de outras companhias. Fazia sentido, uma vez que a capacidade de processamento dos data centers da Amazon ficava ociosa durante boa parte do tempo. Passados mais de 15 anos, a divisão de computação em nuvem da empresa, conhecida como Amazon Web Services (AWS), tornou-se um negócio de 35 bilhões de dólares e uma operação que se mostrou vital durante a pandemia do novo coronavírus — não só para a Amazon mas também para empresas de diversos segmentos.

Se o leitor participou de uma reunião por video­conferência, assistiu a uma série da Netflix, usou um programa de edição de textos online, fez um pedido a um restaurante por meio de um aplicativo ou realizou algum pagamento usando uma plataforma digital, é bem provável que tenha utilizado uma das redes públicas da Amazon ou de um dos outros gigantes provedores de computação em nuvem, como Microsoft, Google, IBM, Dell, Oracle, HPE e Cisco.

Nenhuma empresa deve sair ilesa da crise. No entanto, as companhias de tecnologia tendem a ser beneficiadas pela digitalização impulsionada (para não dizer forçada) pela pandemia. Em todo o mundo, milhares de companhias das mais variadas áreas tiveram de migrar, às pressas, suas operações para o ambiente digital, o que provocou uma corrida aos serviços das provedoras de nuvem. No primeiro trimestre deste ano, as três companhias líderes do setor (Amazon, Microsoft e Google) tiveram juntas um incremento de 6,1 bilhões de dólares no faturamento de suas unidades de computação em nuvem, um aumento de 32% em relação ao ano passado. Ao todo, elas faturaram 25,2 bilhões de dólares nos primeiros três meses do ano. Só na Microsoft, a demanda pela plataforma de computação em nuvem Azure saltou 59%. No Google, o faturamento da área subiu 52%. ”A covid-19 mudou a percepção que muitas empresas tinham sobre a computação em nuvem”, afirma Thomas Kurian, presidente global da unidade de nuvem do Google (leia entrevista abaixo). Por esse motivo, o setor de computação em nuvem tende a ser um dos mais resilientes na crise. Enquanto os gastos com tecnologia da informação devem cair 8% no mundo em 2020, o mercado de nuvem deverá crescer 19%, de acordo com a consultoria Gartner. Olhando para a frente, a digitalização dos negócios é um caminho sem volta. Nos próximos quatro anos, a expectativa é que o mercado de computação em nuvem dobre de tamanho, chegando a 550 bilhões de dólares. ”Quando sairmos da pandemia, as empresas terão de investir em tecnologia. O digital é o caminho para superar a crise”, diz John-David Lovelock, vice­ presidente de pesquisa da Gartner.

Mais do que nunca, os serviços online foram fundamentais para que as empresas pudessem manter suas operações. ”O mundo só não parou por causa dos serviços de nuvem. Eles também são os heróis desta pandemia”, diz Pietro Delai, gerente de pesquisa da consultoria IDC para a América Latina. A expectativa de maior demanda reflete-se no preço das ações das companhias de tecnologia. Depois de uma queda brusca nos meses de fevereiro e março, o valor dos papéis de empresas como Microsoft e Amazon já haviam se recuperado em junho e as companhias voltaram a bater recordes de valor de mercado. Juntas, as duas valem mais de 2,8 trilhões de dólares, três vezes o valor de todas as 330 companhias brasileiras listadas na B3 (760 bilhões de dólares). ”A gente está apenas no início de uma jornada, dado que hoje só 5% do investimento global de TI é gasto em nuvem. Há uma oportunidade grande para crescer”, diz Cleber Morais, presidente da AWS no Brasil.

Um dos símbolos da transformação digital na pandemia é a plataforma de videoconferência Zoom, cujas ações valorizaram 270% em 2020. A empresa projeta que o faturamento quase triplicará neste ano fiscal, chegando a 1,8 bilhão de dólares. O Zoom já vale 72,4 bilhões de dólares, mais do que a montadora Ford ou a companhia aérea American Airlines. E o número de participantes diários em reuniões passou de 10 milhões em dezembro para mais de 300 milhões em abril. No fim de fevereiro, a empresa já tinha conquistado mais novos usuários do que em todo o ano de 2019. Em um cenário de home office prolongado, o objetivo do Zoom e dos concorrentes Microsoft Teams, Google Meet e outros não é só surfar a onda na pandemia, mas aproveitar a mudança de comportamento de longo prazo acelerada por ela.

Numa empresa como a IBM, outra importante fornecedora de computação em nuvem, a crise fez com que as equipes tivessem de correr para auxiliar os clientes a migrar para a nuvem. O primeiro desafio foi configurar todos os sistemas para que os funcionários pudessem trabalhar remotamente. Depois, o objetivo foi ajudar os clientes a criar aplicações já adaptadas ao novo cenário digital. ”Em uma grande varejista, vimos um aumento do comércio eletrônico de 40%, 45%”, afirma Ana Paula Assis, presidente da IBM para a América Latina. ”Clientes com resistência à tecnologia não tiveram alternativa senão buscar essa solução.”

Foi com um serviço de nuvem, fornecido pela AWS, que a empresa de meios de pagamentos Cielo foi capaz de expandir um novo serviço criado no ano passado, chamado Super Link. A ferramenta permite aos lojistas enviar um link a um cliente (pelo WhatsApp, por exemplo) para que ele faça o pagamento remotamente. Antes da pandemia, 3.000 estabelecimentos estavam cadastrados para utilizar o recurso. Em poucos meses, esse número saltou para 800.000 em todo o país e a quantidade de transações subiu 650%. ”A vantagem da nuvem é o tempo para desenvolver uma solução desse tipo. E nos dá uma flexibilidade de ligar e desligar a infraestrutura de forma muito simples”, diz Danilo Zimmermann, vice-presidente de projetos e tecnologia da Cielo.

A digitalização favoreceu também as companhias brasileiras do setor de tecnologia. Uma delas é a empresa de serviços de internet Locaweb. A empresa de 22 anos abriu o capital em fevereiro. E o coronavírus não atrapalhou os planos. Os meses da pandemia foram os melhores da história. Em abril, o número de novas lojas online que usam o serviço saltou 252%. ”Somos um ecossistema em que as PMEs encontram tudo o que estão precisando agora para se digitalizar”, diz Fernando Cirne, presidente da Locaweb. Uma das estrelas do portfólio é o app para restaurantes Delivery Direto, comprado em 2018, cujo o número de clientes quadruplicou. Com a demanda em alta, a empresa fez 152 contratações – e há mais de 70 vagas em aberto. A ação, que começou sendo vendida na casa dos 20 reais, acumula alta de mais de 100%.

Se a crise assusta alguns e empolga outros, há quem encare a pandemia de forma mais natural. ”Nós crescemos em todas as crises. Em 2008 e 2009, dobramos de tamanho sem realizar nenhuma aquisição”, afirma Marco Stefanini, fundador da Stefanini, uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, com um faturamento estimado em 3,3 bilhões de reais em 2019. Para este ano, a previsão é que haja um crescimento de 15% a 20%. O grande trunfo da companhia foi um contrato de cinco anos firmado com um cliente americano, de nome não revelado, no valor de 100 milhões de dólares. A empresa apostou em um plano de aceleração dos negócios e alcançou em três meses algumas das metas previstas para os próximos três anos. A companhia atende clientes dos mais diversos segmentos. A queda no volume de negócios da indústria automotiva e das redes de academias foi compensada pela alta no setor financeiro e por um forte crescimento do varejo impulsionado pelo comércio eletrônico.

Com o capital aberto na B3 desde 2013, a companhia de software para o varejo Linx viu o valor de suas ações cair e se recuperar no primeiro trimestre. A alta recente se deu pelo impulso ao comércio eletrônico. Um dos pontos- chave para a virada foi a aquisição de duas empresas para auxiliar na digitalização do varejo. Em janeiro, a empresa adquiriu a fintech PinPag por 135 milhões de reais. No mês seguinte, pagou 17,6 milhões pela Neemo, uma plataforma de delivery de restaurantes. ”O timing não poderia ter sido melhor”, diz Alberto Menache, presidente da companhia. Segundo ele, as vendas em maio pela plataforma cresceram 350% em relação a janeiro, adicionando 540 restaurantes ao serviço. A plataforma de e-commerce, que atende desde varejistas tradicionais, como Walmart e Lojas Pernambucanas, até redes de padarias, lojas de conveniência e drogarias, teve um crescimento de 154% entre janeiro e maio.

Não serão só as empresas de capital aberto que sairão vencedoras da crise. Companhias bem posicionadas para atuar no mercado digital estão registrando crescimento significativo. Uma delas é a VTEX, que possui uma plataforma que unifica os canais de venda do varejo. Fundada em 1999, a empresa tem cerca de 3.000 clientes em 41 países, com escritórios em 16 cidades do mundo. No final de 2019, recebeu um aporte de 580 milhões de reais liderado pelo fundo japonês SoftBank. Em maio e junho de 2020, as vendas online pela plataforma subiram mais de 100% em relação ao ano passado no Brasil. ”A demanda aumentou nos mais diversos níveis. Desde aquela loja que abriu no digital durante a pandemia até a outra que achava que estava preparada e não deu conta do número de pedidos”, diz Rafael Forte, presidente da VTEX no Brasil. A equipe de vendas, composta de 30 pessoas em março, dobrou de tamanho.

Um cliente da VTEX que teve de repensar sua estratégia digital foi a varejista de moda C&A. Com o fechamento das mais de 280 lojas físicas, a empresa precisou adotar uma solução para que seus vendedores continuassem trabalhando. ”Desenvolvemos em um dia uma solução de social selling”, diz Forte, da VTEX. Por meio do WhatsApp, o funcionário conversa com o cliente, apresenta os produtos, monta um carrinho de compras virtual e envia um link para fechar a venda. No total, 500 funcionários da rede trabalham com o WhatsApp.

Empresas que atuam no segmento de educação online foram acionadas como nunca durante a pandemia. A startup mineira Samba Tech, fundada por Gustavo Caetano em 2008, é uma delas. Especializada em comunicação corporativa com a utilização de vídeos online, a companhia recebeu dezenas de pedidos de grupos de educação em busca de ajuda para montar um modelo seguro de ensino remoto. ”Nos primeiros 100 dias de home office, a gente teve mais de 1,7 milhão de alunos novos na plataforma”, diz Caetano. Além dos clientes, a empresa ofereceu seus serviços à rede pública de ensino de Minas Gerais. No total, de janeiro a abril, 19 milhões de pessoas acessaram vídeos dentro da plataforma. De fevereiro a abril, o consumo de vídeos na plataforma via dispositivos móveis subiu 308%; e por computadores, 506%. Para sustentar o aumento do volume, a empresa contratou mais de 40 pessoas. A Samba Tech também lançou um produto de videoconferência, que estava sendo testado desde 2019, em parceria com a Cisco, para atender a grupos de educação e empresas. Na pandemia, foram conquistados 40 novos clientes. A companhia atualmente tem mais de 400 clientes, entre eles os grupos Cogna, Ser Educacional e Damásio. ”A demanda por ensino à distância era crescente, mas agora aumenta mais rapidamente – e a gente continua apostando nisso”, afirma Caetano.

Em todos os setores, a pandemia tem mostrado que a necessidade de adaptar-se ao digital não é mais uma questão de escolha, e sim de sobrevivência. O uso de ferramentas digitais, que já era uma realidade antes da covid-19, só deve acelerar. Um levantamento recente realizado pelo banco suíço UBS estima que na próxima década o volume de dados que trafegam pela internet crescerá dez vezes, chegando a 456 zettabytes, um volume suficiente para ocupar 840 iPhones de 64 gigabytes para cada habitante do planeta. E, até lá, o número de pessoas com acesso à internet alcançará 6,6 bilhões – 2 bilhões além do nível atual. ”A gente tem a oportunidade de olhar as características e as condições dessa nova realidade de outra perspectiva. O digital vai ser o novo normal para a grande maioria das empresas”, afirma Fernando Lemos, diretor de tecnologia da Microsoft no Brasil. É uma virada que veio para ficar.

20 ANOS DE TRANSFORMAÇÃO

Em duas décadas, o perfil das maiores companhias americanas mudou e hoje ainda predominam as empresas de internet e tecnologia

DIGITAIS E VALIOSAS

As ações das empresas de tecnologia tiveram um desempenho muito acima do principal índice das companhias de capital aberto dos Estados Unidos

O PODER DA ECONOMIA DIGITAL

O aumento da demanda por serviços digitais favorece a expansão de mercados ligados à nova economia

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – III

À FLOR DA PELE

Coceiras? Manchas? A ansiedade em excesso pode refletir em doenças pelo corpo.

A cada dia, novas pesquisas comprovam que o transtorno de ansiedade generalizada tem ligações com outros distúrbios mentais. No entanto, o sinal de alerta despertado pela ansiedade também faz com que o mecanismo do corpo se altere, resultando em alterações físicas.

CÉREBRO EM ALERTA

Quando um quadro de ansiedade se instala, doenças psicossomáticas, isto é, ligadas ao mesmo tempo ao corpo e à mente, se manifestam das mais diversas formas. Elas surgem quando a região do hipotálamo no cérebro tem seu funcionamento alterado devido a emoções fortes, como a ansiedade. Isso implica diretamente no trabalho da hipófise, uma glândula ligada ao hipotálamo e responsável por produzir hormônios, que controlam várias funções do organismo. “O nível de estresse e ansiedade reflete e se expressa em nossa aparência física devido a toda a mudança do sistema hormonal, que passa a ser abalado com o transtorno de ansiedade”, afirma a psicóloga Maura de Albanesi.

SENTINDO NO CORPO

Pequenos ferimentos, coceira generalizada, falhas no couro cabeludo, entre outros sinais, podem indicar uma auto manipulação de um indivíduo com transtorno de ansiedade. “Estima-se que 40% dos pacientes que procuram um dermatologista têm algum problema emocional. Além da relação com doenças psíquicas mais graves, os problemas emocionais também estão associados às dermatoses mais comuns, como vitiligo e psoríase”, afirma a dermatologista Deusita Fernandes Gandia Soares.

VITILIGO

Caracterizada por manchas brancas de tamanhos e formas diferentes por todo o corpo, o vitiligo não é contagioso e costuma ocorrer em pessoas jovens. Apesar de sua causa ainda não ser totalmente esclarecida, diversos estudos apontam uma relação com aspectos emocionais, como a ansiedade e o estresse em excesso. Diversos pacientes relataram o aparecimento das primeiras manchas após traumas emocionais ou fases conturbadas da vida. Acredita-se que as variações emocionais possam desequilibrar o organismo, favorecendo alterações hormonais e imunológicas.

Não há cura para o transtorno, porém, é possível um controle por meio de medicamentos e terapia com psicólogo. “A terapia ajuda o ansioso a lidar com a vida de uma forma mais equilibrada e menos acelerada, até para lidar paulatinamente com o que ele pode e não pode  realizar, além de aliviar a cobrança “, indica Maura.

PSORÍASE

Uma das principais doenças ligadas a problemas com o controle da ansiedade e do estresse é a psoríase. Ela é crônica e não contagiosa, tendo suas causas ainda desconhecidas – no entanto, sabe-se que pode estar relacionada ao sistema imunológico, às interações com o meio ambiente e a genética. “Pessoas com altos níveis de estresse possuem sistema imunológico debilitado. E há observações de que a tensão emocional e o estresse podem influenciar no surgimento das crises de psoríase”, explica a dermatologista.

A psoríase se manifesta em crises, caracterizadas por erupções de placas vermelhas cobertas por escamas esbranquiçadas ou rosadas nos membros e no couro cabeludo. Seu acompanhamento é fundamental para que não interfira na qualidade de vida.

Nos casos leves, hidratar a pele, aplicar medicamentos tópicos na região das lesões e exposição diária ao sol são suficientes para melhorar o quadro.  Em casos moderados, faz-se necessário o tratamento com exposição à luz ultravioleta A (chamado de PULVAterapia). Essa modalidade terapêutica utiliza combinação de medicamentos que aumentam a sensibilidade da pele à luz, os psoralenos (P) com a luz ultravioleta A (UVA), geralmente em uma câmera emissora da luz”, explica Deusita. Já em casos graves, é necessário o tratamento com medicação via oral ou injetáveis.

Por ter um impacto significativo na autoestima do paciente, o estresse e a ansiedade gerados podem ainda piorar o quadro. “Assim, o acompanhamento psicológico é indicado em alguns casos. Outros fatores que impulsionam a melhora e até o desaparecimento dos sintomas são uma alimentação balanceada e a prática de atividade física”, ressalta a dermatologista.

GASTRITE E ÚLCERAS

Não é difícil encontrar alguém que basta ficar um pouco nervoso ou ansioso para começar a sentir fortes dores no estômago. Este é um caso de gastrite nervosa que, se não tratada, pode evoluir para uma úlcera.

Azia, enjoo e sensação de peso na barriga são sinais da elevação da quantidade de ácido clorídrico produzido pelo estômago, que passa a corroer a parede do órgão. Isso se dá devido ao alto nível de estresse e ansiedade que o cérebro identifica como perigo.