EU ACHO …

SEXISMO E RACISMO NA CIÊNCIA

Se pensarmos que o sistema vai se corrigir sozinho, estaremos nos enganando

Os ânimos estão acirrados na ciência (assim como nos EUA como um todo) à medida que se inicia o debate, já atrasado, sobre o tratamento dado a mulheres e pessoas de cor. Em junho, por exemplo, milhares de pesquisadores em todo o mundo, além dos periódicos Science e Nature, cruzaram os braços por um dia em protesto contra o racismo em suas fileiras. A Sociedade Física Americana endossou a iniciativa, e se declarou comprometida a erradicar o racismo sistêmico e a discriminação” na ciência.

A física exemplifica o problema. Os afro-americanos são mais ou menos 14% da população em idade universitária nos EUA, o que é proporcional ao seu percentual na população total, mas na física eles só recebem de 3% a 4% dos diplomas de graduação e menos de 3% dos doutores, e desde 2012, só compuseram 2% do corpo docente. Há muitas razões para essa sub-representação, mas preocupa a recusa de alguns cientistas em sequer reconhecer que pode haver algum problema. A ciência, argumentam eles, é inerentemente racional e autocorretiva.

Se fosse assim… A história da ciência está repleta de casos bem documentados de misoginia, preconceito e viés. Por séculos, biólogos promoveram falsas teorias sobre a inferioridade feminina, e instituições científicas costumavam barrar a participação de mulheres. A historiadora da ciência Margaret Rossiler documentou como, em meados do século 19, cientistas mulheres criaram suas próprias sociedades científicas para compensar a recusa de seus colegas homens em reconhecer seus trabalhos. Sharon Bertsch McGrayne encheu um volume inteiro com histórias de mulheres que deveriam ter sido agraciadas com o Prêmio Nobel por trabalhos em colaboração com colegas homens – ou, pior, que eles roubaram delas. O preconceito racial tem sido no mínimo tão danoso quanto o de gênero; afinal, foram cientistas que codificaram o conceito de raça como uma categoria biológica que não era simplesmente descritiva, mas também hierárquica.

Bons cientistas são abertos a ideias concorrentes; eles prestam atenção a dados desafiadores, e escutam opiniões contrárias. Mas cientistas também são humanos, e a ciência cognitiva mostra que estes são propensos a vieses, percepções falsas, raciocínio motivado e outras ciladas intelectuais. Dado que o raciocínio é lento e difícil, dependemos da heurística – atalhos intelectuais que muitas vezes funcionam, mas às vezes falham espetacularmente. Não é crível afirmar que cientistas são, de alguma forma, imunes aos vieses que afligem todas as outras pessoas.

Felizmente, a objetividade do conhecimento científico não depende da objetividade de cientistas individuais. Em vez disso, ela depende de estratégias para identificar, reconhecer e corrigir preconceitos e erros. Como observo em meu livro de 2019, Why Trust Science, o conhecimento científico começa na forma de afirmações propostas por cientistas individuais, equipes ou laboratórios, que são depois escrutinizadas por outros, que podem apresentar provas adicionais para sustentá-las, ou modificá-las, ou rejeitá-las. O que emerge como um fato cientifico ou teoria estabelecida raramente é idêntico à assertiva inicial; tanto um como outro foram ajustados à luz de evidências e argumentação. Ciência é um esforço coletivo, e ela funciona melhor quando as comunidades científicas são diversas. Comunidades heterogêneas têm mais chances do que as homogêneas de serem capazes de identificar pontos cegos e corrigi-los. A ciência não corrige a si mesma; os cientistas corrigem uns aos outros pela crítica. E isso significa estar disposto a discutir não só afirmações sobre o mundo exterior, mas também nossas próprias práticas e processos.

A ciência tem um admirável histórico de produção de conhecimento confiável sobre o mundo natural e o social, mas não é tão boa em reconhecer suas fraquezas. Não podemos corrigi-las se insistirmos que o sistema irá se corrigir magicamente. Reconhecer e confrontar vieses na ciência não é ideologia; ideológico é insistir que a ciência não pode ser tendenciosa apesar dos dados empíricos em contrário. Se nossas falhas na inclusão são conhecidas desde há muito, é hora de corrigi-las.

*** NAOMI ORESKES – é professora de história da ciência da Universidade Harvard, (autora de Why Trust Science? (Editora da Universidade Princeton, 2019) e coautora de Disceming Experts (Universidade de Chicago, 2019.)

OUTROS OLHARES

NOVOS PRAZERES DA CARNE

Cortes extraídos de áreas até então consideradas menos nobres no boi são redescobertos e ganham espaço na mesa do consumidor brasileiro

O suculento reinado da picanha vive dias nervosos. Uma novidade no mercado de carnes tem mudado o hábito de consumo, ao introduzir cortes tradicionalmente desdenhados nos churrascos brasileiros. A invasão é de peças extraídas sobretudo das dianteiras do boi, uma região musculosa devido à movimentação do animal. O destino do acém e da raquete (veja no quadro abaixo), por exemplo, era virar carne moída ou ensopado. A prosa mudou, e eles agora dividem espaço com talhos sofisticados e tradicionais em butiques de carne gourmet e restaurantes sofisticados. Pousam lindamente ao lado da picanha, é claro, mas também da alcatra e do ancho.

Atendência foi importada dos Estados Unidos – daí os nomes virem em inglês. Colou por aqui, pela descoberta dos sabores extraordinários. Os novos cortes são mais baratos (cerca de 30%) em relação aos considerados de áreas mais nobres, o que não significa descuido com a manipulação dos produtos, ao contrário. Mas a qualidade da manipulação os faz mais caros (aproximadamente 30%) que os cortes equivalentes e não repaginados. Tome-se o acém, rebatizado de denver steak. É insosso se não passar longo tempo na panela. O denver steak, porém, feito do miolo, eis o segredo, contém gordura e colágeno entremeados nas fibras, afeitos a derreter na hora de assar, atalho para a maciez. A raquete (flat iron steak, sua alcunha,) de difícil mastigação, pela estrutura do tecido, tem a reputação atual de ser o segundo corte mais macio do boi, atrás do filé-mignon. O truque: no centro da peça há uma membrana um tanto intragável. Mas dividir a peça no sentindo do comprimento, bem em cima dessa membrana, a transforma em dois filés de primeira.

Na reputada rede de churrascaria NBSteak, a peça especial de raquete recebeu o nome da casa e hoje é o prato mais pedido pelos clientes que aos poucos retomam as visitas. O dono, o empresário Arri Coser, foi o primeiro a popularizar os novos cortes no Brasil. “Eles disputam por igual em números de pedidos com os convencionais,” diz Coser. A casa Swift também aderiu às modernas linhas, com a grife Swift Black. A expansão de ofertas anda de mãos dadas com uma excelência brasileira, a qualidade do gado. “O desenvolvimento de raças bovinas, como angus e hereford, somado às novidades da genética e aos cuidados com a alimentação, resultou em um melhor aproveitamento do animal”, diz o jornalista especialista em gastronomia J. A. Dias Lopes. Ele aponta na atual revolução passo histórico semelhante ao que ocorreu em outros momentos da evolução gastronômica.

A velha e boa picanha foi descoberta por acaso, na década de70, no Brasil. Antes vendida como parte da alcatra ou do coxão duro, por ter uma grossa camada de gordura, era descartada. E, então, um açougueiro do frigorífico paulistano Bordon resolveu testar a ponta daquela parte gordurosa da alcatra e descobriu que era uma carne extremamente macia e saborosa. Há ainda outra explicação, mais divertida, quase folclórica. Um churrasqueiro argentino de São Paulo teria oferecido o corte ao industrial e playboy ítalo-brasileiro Baby Matarazzo Pignatair. Ao perguntar ao funcionário de onde vinha a delícia, ouviu: “Parte donde se pica la anha”. Em espanhol, “picar” significa “ferir com objeto pontiagudo” e “anha” é a haste de madeira com ponta de ferro usada na condução dos bois. A expressão teria dado origem ao nome picanha, a agora ameaçada picanha.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE DEZEMBRO

LEVANTE OS OLHOS PARA O ALTO

Então, conduziu-o [a Abraão] até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes… (Genesis 15.5a).

Talvez seu coração esteja abatido por uma notícia dolorosa que você recebeu há pouco. Talvez sua alma esteja triste porque alguém decepcionou você. Talvez um fato tenha trazido angústia à sua vida. Você olha para trás e tem memórias amargas. Olha ao redor e ainda há muita coisa que mete medo em seu coração.  Olha para o futuro e um nevoeiro denso não lhe permite ver uma luz no fim do túnel. O pessimismo parece tomar conta do seu coração. O pavor assalta a sua alma. O pânico rouba sua esperança. Nesse momento é preciso levantar os olhos e inclinar os ouvidos para escutar, não as vozes ameaçadoras da terra, mas as doces promessas do céu. A Bíblia diz: As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca (Lamentações 3.22-25). Não se desespere; espere em Deus. Não duvide; creia. Não olhe para as circunstâncias; olhe para o Deus que está no controle das circunstâncias!

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL – A TECNOLOGIA A SERVIÇO DA SANIDADE

A Covid-19 lançou a humanidade em um estado de angústia, ansiedade e depressão. Ao mesmo tempo, acelerou o uso de ferramentas, como a inteligência artificial, capazes de ajudar na detecção precoce aos distúrbios psiquiátricos

Ninguém conheceu trabalho remoto de forma tão extrema quanto o médico russo Valeri Polyakov. Interessado em saber como o corpo humano reage a longos períodos num ambiente de microgravidade – algo necessário para viagens a Marte – tornou-se, ele mesmo, parte da resposta. Entre janeiro de 1994 e março de 1995, morou e trabalhou na estação espacial MIR – dividindo a cápsula, pouco maior que um micro-ônibus, com dois hóspedes de permanência mais breve. Valeri realizou experimentos científicos, fez musculação, consertou defeitos imprevistos, almoçou e jantou comida de gosto ruim, cortou cabelo, leu livros, fez desenhos, aproveitou o silêncio e viu o pôr do sol pela janela – algo que acontece 16 vezes a cada 24 horas, quando se está numa órbita 300 quilômetros distante da Terra, à velocidade média de 27.700 km/h. Depois de 437 dias, ele voltou. Ao sair da nave espacial, dispensou a cadeira de rodas que lhe foi oferecida. Saiu caminhando. Em vez de ajuda, aceitou um cigarro e uma dose de bebida destilada, para comemorar a façanha e aplacar o frio que fazia no lugar de pouso, o Cazaquistão.

O corpo de Valeri resistiu muito bem a um ano de isolamento. A mente, nem tanto. O astronauta fez 29 testes cognitivas durante a viagem e continuou sendo monitorado seis meses depois. Nos primeiros 20 dias no espaço e nas duas semanas após o retorno, ele parecia perdido, diz um estudo publicado na revista científica Ergonomics. Apesar de manter o desen1penho intelectual, sentiu-se sobrecarregado.

Valeri é um herói com medalhas no peito, e, antes de trabalhar no espaço, se preparou durante 16 anos na agência espacial russa. Nós não tivemos a mesma sorte diante do novo coronavírus. Poucos meses após a China anunciar o primeiro caso, em 31 de dezembro de 2019, nosso mundo saiu de órbita. Para conter o ritmo de avanço da covid-19, 4,5 bilhões de trabalhadores tiveram de entrar em quarentena, fisicamente afastados dos parentes, amigos e colegas. Em casa, alguns lutam contra o desânimo de terem pouca ou nenhuma utilidade longe da empresa. Outros, ao contrário, lutam contra a sobrecarga. Precisam atingir metas traçadas para o escritório (um lugar otimizado, ao longo de décadas, para o desempenho profissional), agora em condições improvisadas, como trabalhar por oito horas na mesa de jantar e transformar o corredor em cenário para telerreuniões profissionais. Precisam dividir o computador e a atenção com filhos, que, sem escola, estudam e brincam entre quatro paredes. Precisam conviver 24 horas por dia com um cônjuge – algo que muitos até juraram fazer, diante de um padre, mas sem pensar em circunstâncias como a atual. Precisam cozinhar, lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro, varrer o chão, cortar unhas, talvez cabelos. Afinal, a especialização, que proporcionou ganhos de eficiência à sociedade desde a Revolução Industrial, recuou vários passos com o isolamento social. Quem dera fosse só isso.

O confinamento é apenas uma face de uma pandemia que ameaça a nossa vida. A covid-19 acaba por trazer, para a realidade, um artifício que os diretores de filmes de terror aprenderam há muito tempo: uma ameaça torna-se mais assustadora quando é invisível. O vírus está no ar, está no outro, talvez esteja em nós mesmos. Pode não trazer sintomas, pode matar em poucos dias. A própria morte tornou-se invisível. No hospital, o doente tem visitas restritas. Morto é enterrado em um caixão lacrado. “Além de tudo, o coronavírus impede rituais de passagem profundamente estabelecidos em nossa sociedade. A morte sem a devida cerimônia de despedida pode ficar em suspense por anos, com a sensação de que a pessoa sofreu um sequestro e pode voltar a qualquer momento”, diz Omar Ribeiro Thomaz, doutor em Antropologia e professor da Unicamp. Há mais de 5 milhões de casos de covid-19 confirmados no mundo, mesmo com um alto índice de subnotificações. Há mais de 300 mil mortos, numa tragédia longe do fim. Segundo Michael Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a América Latina tornou-se o epicentro da pandemia, e o Brasil é o país mais preocupante.

A ameaça à saúde trazida pelo coronavírus vem acompanhada da ameaça à saúde financeira. A quarentena, imposta no mundo inteiro para achatar a curva de novos casos, atingiu duramente a atividade econômica. “Nossas previsões indicam uma profunda recessão este ano, com uma contração de 5% para a economia global”, afirma David Malpass, presidente do Banco Mundial. “Mais de 60 milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema.” A taxa de desemprego nos Estados Unidos é a maior desde a Grande Depressão: saltou de 4,4% em março para 14,7% em abril, o equivalente à eliminação de 20,5 milhões de postos de trabalho. No Brasil, o PIB recuou inéditos 5,3% em março, primeiro mês de isolamento social nas maiores cidades. No primeiro trimestre, 1,1 milhão de brasileiros perderam o emprego, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As demissões atingem 13% das famílias e 40% das empresas, aponta a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A crise provocada pelo novo coronavírus afetou as atividades de 76% das empresas e causou o fechamento de mais de 600, diz a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em março, o Google perguntou a trabalhadores brasileiros: “O que mudou na sua vida?”. “Tudo” foi a principal resposta entre desempregados e autônomos, não importa a condição financeira, e a terceira mais citada por assalariados e empregadores de baixa renda. Na nuvem de palavras formada pelas entrevistas, destacam-se “saudades”, ”ansiedade”, “falta de paciência”, “medo” e preocupação”. O confinamento, a mudança de rotina, a ameaça à saúde e a ameaça à saúde financeira podem ser psicologicamente devastadores.

É normal sentir medo e ansiedade, diante de uma tragédia como a pandemia de coronavírus. Estranho seria não sentir. O medo é um dos responsáveis pela sobrevivência da raça humana, ao proteger de riscos e fazer fugir de perigos. A ansiedade faz o coração pular, no esforço vão de antecipar um acontecimento. A angústia aperta o peito diante da impotência, da pressão externa. “Medo, ansiedade e angústia não são doenças, são sentimentos humanos”, diz Wagner Gattaz, professor e presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria da USP, além de fundador e diretor da Gattaz Health & Results. “O problema é ir além. É doentio quando essas sensações nos paralisam, nos impedem de tocar a vida.” É o caso das crises de pânico: a pessoa começa a sentir palpitações, dificuldade para respirar, calafrios, suor, tonturas e embaçamento da visão, sem conexão com uma ameaça externa. É o caso da depressão: uma redução do metabolismo cerebral, com sintomas físicos (como cansaço e dores musculares) e mentais (como esquecimentos e insônia). “Mais do que tristeza, a depressão deixa a pessoa anestesiada por dentro. Traz a incapacidade de sentir prazer, até mesmo de chorar”, diz Wagner. A depressão é um problema silencioso. Segundo a OMS, trata-se da doença mais subdiagnosticada do planeta. Mais de 350 milhões de pessoas sofrem de quadros depressivos, mas 47% nem se dão conta. Cerca de 15% da população mundial tem predisposição, mas muitos jamais manifestaram sintomas. Diante de um grande trauma, pode acontecer uma crise. Ainda não é possível calcular o estrago causado pela pandemia de coronavírus na saúde mental – mas é certo que tem gente demais indo além da simples tristeza. Em um estudo da Sociedade Chinesa de Psicologia, com 18 mil voluntários, 42,6% apresentaram sintomas de ansiedade relacionada ao coronavírus. Um levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Universidade Yale, com 1.460 pessoas de todo o Brasil, mostrou um aumento de 90% nos casos de depressão entre os meses de março e abril. “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante. Mesmo quando a doença está sob controle, a dor, a ansiedade e a depressão continuam a afetar as pessoas e as comunidades”, afirma Tedros Adhauom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. A análise de práticas de isolamento social em epidemias anteriores, como de Sars (2003), na China e no Canadá, e de ebola (2014), no oeste da África, ensina que o trauma afeta um número maior de pessoas do que a própria doença original. Um artigo publicado na revista The Lancetrevisou 24 trabalhos sobre impactos psicológicos de regimes de isolamento social durante as epidemias de Sars, ebola e H1N1. “Essa revisão sugere que a quarentena é frequentemente associada a efeitos psicológicos negativos. Embora isso não seja exatamente uma surpresa, a evidência de que esses efeitos podem ser detectados meses ou anos depois é mais problemática e sugere a necessidade de assegurar medidas eficazes de mitigação”, diz o texto. Responsável pela condução de 5 mil entrevistas no Brasil em um estudo global sobre depressão patrocinado pela OMS, Wagner afirma que os padrões já conhecidos sugerem um cenário alarmante quando o coronavírus passar. “Num intervalo de 12 meses, encontramos que 20% das pessoas vão apresentar algum transtorno de ansiedade, 11% terão um episódio depressivo, 4%, vão desenvolver abuso de álcool ou outras substâncias e cerca de 15% terão burnout”, diz Wagner.

O coronavírus tornou inevitável o que já era urgente: cuidar da mente, antes que seja tarde e caro demais. “A pandemia está nos mostrando mais uma vez que a saúde mental é tão importante quanto a saúde física”, afirma Tedros, da OMS. Ele diz que as questões de saúde mental representam 30% do tempo vivido com alguma incapacidade, no mundo – apesar de receberem 2% do orçamento de Saúde dos governos. Em outro estudo, a OMS afirma que perda de produtividade por depressão ou ansiedade custa, globalmente, USS 1 trilhão. “Problemas de saúde mental, como depressão, estão entre as maiores causas de miséria em nosso mundo”, afirma António Guterres, secretário-geral da ONU. No Brasil, transtornos de ansiedade são a terceira razão de afastamentos do trabalho, com cerca de R$ 200 milhões gastos com pagamentos de benefícios anuais pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “Os custos globais em 2030 vão somar US$ 3 trilhões por ano, entre queda de produtividade, mortes prematuras e suicídios”, alerta Wagner. “Se existe um bom momento para investir em saúde mental”, diz Tedros, “é agora”.

Para as empresas, cuidar da saúde mental dos funcionários é um compromisso moral e um investimento. A história ensina exemplos como o da fábrica americana de alimentos Heinz, que, durante a Grande Depressão, na década de 30, evitou demitir e se empenhou em manter o pessoal motivado. Com pouca demanda para seu ketchup. arriscou lançar comidas prontas, como sopas e papinhas para bebê. Os produtos se tornaram um sucesso, e o comprometimento da empresa ajudou a reter funcionários e atrair consumidores nas décadas seguintes. “Depois de a crise passar, as pessoas se lembravam do que a Heinz havia feito e quais tinham sido suas prioridades”, disse Nancy Koehn, professora da administração da Universidade Harvard e autora do livro Forged in Crisis (inédito no Brasil), à Harvard Business Review. “Uma enorme parte da ansiedade em tempos de crise tem a ver com quem está no comando e como se comporta”. Presidente da SAP no Brasil, Cristina Palmaka diz incentivar os funcionários a cuidar da mente – mesmo sem enxergar, precisamente, o retorno financeiro da iniciativa. “Nove em cada dez funcionários que fazem terapia não falam disso no escritório. A gente quis tirar esse estigma. Quando a pessoa tem dificuldades e se sente obrigada a representar um “personagem”. É muito dispêndio de energia na coisa errada”, diz a executiva. “Você tem de colocar energia naquilo que é importante. Estou aqui para trabalhar, eu sou assim mesmo, é assim que eu agrego, essas são as minhas vulnerabilidades, aqui eu sou forte.” Criticadas pelo papel relativamente discreto que estão desempenhando na busca pela cura do coronavírus, as empresas de tecnologia podem se sair melhor no combate aos efeitos psicológicos colaterais. No Brasil, SAP, Amazon Web Services (AWS) e a agência Africa se aliaram em torno do Algoritmo da Vida – uma inteligência artificial que varre o Twitter em busca de usuários com indícios de depressão ou ideação suicida. Diante de um caso suspeito, o robô classifica a gravidade, numa escala de 1 a 4. Mediadores de ONGs parceiras recebem o alerta, entram em contato com a pessoa e avaliam o encaminhamento ao Centro de Valorização da Vida (CVV). A Africa apresentou a ideia no ano passado, durante o Setembro Amarelo (mês dedicado a campanhas de prevenção ao suicídio). A AWS forneceu a computação em nuvem e a SAP, o banco de dados e os algoritmos. Com a pandemia de coronavírus, o sistema foi reforçado para lidar com um maior volume de casos – está em 1.600 por dia – e refinar os filtros digitais. “É muito bacana ver a tecnologia da SAP melhorando gestão de caixa, inventários, é o que a gente faz todo dia”, diz Cristina. “Mas quando a gente vê a tecnologia salvando vidas. Aí é impagável”. Os dados estão sendo consolidados de forma anonimizada para, quando o auge da pandemia passar, servir a pesquisas acadêmicas. Esse material tem importância estratégica. Apesar de existirem estudos semelhantes no exterior, o aprendizado de máquina dos serviços de prevenção ao suicídio depende de um profundo conhecimento do idioma local e do contexto de cada usuário.

A inteligência artificial ainda carece de granular idade para entender as intenções e angústias de cada indivíduo nas redes sociais – mas já parece capaz de identificar, com sofisticação, tendências de comportamento coletivo. O instituto de inteligência artificial da Universidade do Sul da Califórnia (USC) tabulou 700 milhões de posts e mais de 700 mil reportagens sobre a pandemia de coronavírus nos Estados Unidos. Encontrou indícios de piora na qualidade social no país inteiro, sobretudo a partir da segunda semana de março. Identificou áreas especificas desse declínio na Califórnia, em Nova York e em Virgínia. Em Michigan, os diálogos indicam sinais de depressão crescente. Na Geórgia, os posts sugerem que o uso e o vício em entorpecentes aceleraram a deterioração do bem-estar. ”Monitorar o vasto fluxo de palavras pode trazer indícios muito mais rapidamente do que as enquetes tradicionais”, afirma Amit Sheth, cientista da computação e diretor do instituto.

Profundo conhecedor da alma humana – ao menos em volume de usuários em suas redes sociais, com 12,5 bilhões no Facebook e 1 milhão no Instagram -, Mark Zuckerberg quer promover o bem-estar em tempos de coronavírus. “Me preocupa muito, pessoalmente a possibilidade de o isolamento das pessoas em casa levar a mais casos de depressão ou problemas mentais”, disse, ao anunciar o aumento da equipe dedicada a filtrar posts sobre suicídio e autoagressão. “Vejo o trabalho nessa área como algo relacionado aos primeiros socorros prestados por profissionais de saúde ou policiais. Portanto, temos de ajudar com rapidez.” Mark doou US$ 2 milhões a organizações de apoio psicológico em diversos países, entre eles o brasileiro CVV, além de apresentar, num lugar de destaque do Facebook, orientações de saúde mental dadas pela OMS. No Instagram, criou um alerta automático para hashtags ligadas a comportamentos autodestrutivos, além de acrescentar um botão para usuários informarem condutas estranhas de seus colegas. “Alguém viu seu post e pensa que você pode estar passando por momentos difíceis. Se precisar de suporte, podemos ajudar”, diz a mensagem enviada pela rede social.

No Brasil e nos Estados Unidos, a pandemia estimulou os governos a flexibilizar o atendimento psicológico remoto, e aqueceu ainda mais o setor de healthtechs. O Crisis Text Line – chatbot em inglês, sem fins lucrativos, apoiado por Melinda Gates e Steve Ballmer – viu o número de mensagens aumentar 40% em março. E a base já era alta: 100 milhões, num ritmo crescente desde 2013. No Canadá, o primeiro-ministro, Justin Trudeau, incluiu, no pacote de medidas contra o coronavírus, a promessa de investir US$ 170 milhões em serviços de atendimento digital. A startup americana LyraHealth conseguiu US$ 75 milhões em uma rodada de investimentos em março – e a concorrente Vida Health, US$ 25 milhões. Como costuma acontecer, o forte crescimento de um setor traz consigo a necessidade de regras, amadurecimento e depuração. Uma preocupação é a qualidade técnica do serviço usado para as consultas. “WhatsApp e Skype são boas ferramentas para conversar com a família, mas não atendem a protocolos internacionais de segurança, como o HIPAA (Gealth lnsurance Portability and Accoun Hability Act), afirma Tatiana Pimento, fundadora e CEO da Vittude, startup que, no ano passado, recebeu R$ 4,5 milhões em uma rodada de investimento liderada pelo fundo Redpoint eventures. “Assistência psicológica é algo muito sério e delicado, não bastam boas intenções”, diz Carolina Dassie, fundadora e CEO da Hisnek.”Perder

a conexão durante um atendimento pode ter consequências gravissimas, dependendo do paciente.” Outra preocupação é o embasamento científico dos métodos usados em assistentes digitais. No ano passado, a revista Nature publicou o estudo “Usando ciência para vender aplicativos: avaliação da qualidade dos apps de saúde mental”, que avaliou os 73 apps mais populares contra depressão, autoagressão, uso de entorpecentes, ansiedade e esquizofrenia. “A linguagem científica era a estratégia mais frequentemente empregada para ressaltar as promessas de eficácia. No entanto, faltavam evidências de estudos feitos especificamente com apps, e muitos aplicativos descreviam técnicas sem evidência clara na literatura”, lê-se no texto.

Organização mais preocupada com a harmonia de seus funcionários em todo o universo, a Nasa está investindo em inteligência artificial para detectar alterações no tom da voz ou na expressão facial, pura a futura viagem a Marte. “Vamos procurar qualquer mudança significativa de comportamento no sono, na irritabilidade e na cognição”, diz Gary E. Beven, chefe de psiquiatria do programa espacial americano. Ele não quer que seus tripulantes repitam, com um orçsmento de US$ 20 bilhões em jogo, o resultado de um treinamento feito pela agência russa: de seis voluntários confinados juntos por 17 meses, quatro desenvolveram distúrbios. Mas Gary quer robôs para ajudar, não para substituir a empatia humana. Seus astronautas em missão conversam com psicólogos pelo menos duas vezes ao mês e podem fazer, a qualquer momento, teleconferência com os parentes. Apoio profissional e carinho familiar ainda são a tecnologia mais avançada para a saúde mental.

E A PRESSÃO AUMENTA

A pesquisa Pulse Saúde Mental foi realizada pela Vittude em parceria com a Valpe. Foram ouvidos 6 mil funcionários de cerca de 120 empresas. Todos trabalhando em regime de home office. O levantamento teve como base o OASS-21 (Depression, Anxiety and Stress Scale), com 21 questões que medem, com base nos comportamentos e sensações dos sete dias anteriores, o grau de ansiedade, depressão e estresse. Para essa pesquisa, foram consideradas apenas as questões relativas ao estresse.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – I

MAL NECESSÁRIO

Fora de controle, a ansiedade pode fazer muito mal, porém ela é fundamental para a sobrevivência humana

Fugir de predadores, correr atrás de presas, se proteger de fenômenos naturais… Estes e outros empecilhos da vida do homem pré-histórico fizeram com que alguns instintos se desenvolvessem na raça humana em nome da sobrevivência. Um deles é a ansiedade, gerada por causa do medo em situações identificadas como de perigo iminente.

Apesar de o sentimento ser algo nato desde suas origens, cenários que despertam o estado de alerta parecem ser maiores hoje em dia, já que a civilização trouxe com ela problemas modernos, como o medo de perder o emprego, novas epidemias, violência, contas a pagar… Assim, o maior desafio nessa rotina frenética é saber interpretar de uma forma saudável tudo o que acontece ao nosso redor, evitando que o gatilho da ansiedade dispare por motivos insignificantes.

UM LEÃO POR DIA

“Sentir medo é um estado neurofisiológico que ocorre naturalmente e possui a função de preparar o organismo diante de uma situação real, ameaçadora e perigosa à vida. Nessas circunstâncias, o organismo se prepara para enfrentar o perigo, como fugir ou se proteger”, explica a psicóloga Lígia Venturineli. Diferentemente dos homens da caverna, hoje em dia não é preciso colocar a vida em risco ao ir atrás de um javali para o jantar. Contudo, homens e mulheres precisam enfrentar outros problemas, praticamente “matando um leão por dia”, ainda que este leão não ruja – mas gera um medo enorme. “É natural sentirmos ansiedade frente a situações novas, quando estamos prestes a alcançar um objetivo importante, uma grande conquista”, esclarece a psicóloga Cleunice Menezes.

Quando o simples receio e a ansiedade pelo desafio comprometem o bem-estar, eles se tornam a verdadeira ameaça, gerando um transtorno mental que não escolhe sexo ou idade.

FORA DE CONTROLE

A expectativa exacerbada sobre o futuro faz com que surja a sensação de que algo ruim vai acontecer, sem que você tenha absolutamente nenhum domínio sobre isso, em outras palavras: transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

Basicamente, a ansiedade é entendida como um sintoma disfuncional que gera um conjunto de sensações físicas e psicológicas, como medo e tensão que naturalmente surgem perante uma situação identificada pela mente como perigosa ou de sofrimento iminente. “Transtorno de ansiedade é caracterizado quando o indivíduo apresenta respostas cognitivas, comportamentais, emocionais e fisiológicas relacionadas a preocupações e medos exagerados a determinadas situações ou eventos que ainda não aconteceram”, explica Lígia.

De acordo com o psiquiatra João Jorge Cabral, a ansiedade se inicia devido a um fator estressante: “estresse é um estado emocional que desequilibra o organismo, já um fator estressante é o que provoca esse desequilíbrio. Por exemplo: uma doença, uma separação, a morte de um ente querido, mas também coisas simples, como o barulho de um despertador. Para cada pessoa, existe um ponto para aguentar um fator estressante que, quando ultrapassa, gera uma ansiedade a nível patológico, podendo levar ao transtorno de ansiedade generalizada ou à síndrome do pânico”.

PROBLEMA REAL

Subestimado por muito tempo, por ser considerado exagero ou simplesmente algo temporário, o transtorno mental pode interferir em vários aspectos da vida social e profissional. Atualmente, a ansiedade fora de controle é categorizada como uma patologia, tanto que está presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) desde a década de 1980. A partir de então, o sentimento de alerta constante desdobrou-se em alguns outros males, como fobias, síndrome do pânico, além do próprio TAG.

Para se ter uma ideia de sua amplitude e interferência na rotina, a ansiedade está entre os problemas mentais que ocupam o terceiro lugar em motivos de afastamento do trabalho no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A ansiedade passa a fazer mal quando o indivíduo não consegue realizar pequenas atividades do dia a dia por acreditar que possa ter uma crise, ou seja, evita situações para não sentir os sintomas”, afirma Cleunice.

A SEU FAVOR

O transtorno de ansiedade tem tratamento, podendo até ser curado. No entanto, a ansiedade em si jamais desaparecerá, já que é algo nato. O importante, portanto, é aprender a conviver com ela de forma saudável. “É natural sentirmos ansiedade e, em alguns momentos, certo medo de que as coisas não funcionem tão bem quanto desejamos, mas é importante enfrentarmos o receio. Essa ansiedade pode ser uma mola propulsora para realizarmos nossos objetivos e desejos”, enfatiza a psicóloga Cleunice.

Lidar bem com o sentimento, na realidade, é algo que deve ser feito desde sempre para que o transtorno não se instale.

NO CÉREBRO

Apesar de ainda existir quem acredite que o transtorno de ansiedade não passe de “frescura”, a ciência prova que é algo muito sério – tanto que há ações químicas no cérebro.

Uma das reações da ansiedade no organismo é a maior produção de adrenalina e noradrenalina, hormônios neurotransmissores que atuam como disparos elétricos no cérebro, na comunicação entre os neurônios. “A produção desses neurotransmissores acontece em situações de perigo e estresse reais ou imaginárias, atuais ou que ainda não aconteceram”, conta a psicóloga Lígia. São eles os responsáveis por deixar o corpo em estado de alerta, preparado para enfrentar o perigo. É desta reação que se originam os sintomas físicos de uma crise de ansiedade, como aceleração dos batimentos cardíacos e rigidez muscular.

Além de preparar o corpo para algo que a mente acredita ser arriscado à sobrevivência, o distúrbio sem controle ainda pode comprometer permanentemente outras esferas do organismo, como explica a psicóloga Cleunice: “A ansiedade e o estresse crônico podem afetar áreas do cérebro que influenciam a memória a longo e a curto prazo e a produção química, que podem resultar em um desequilíbrio emocional”, Pessoas que sofrem com a ansiedade ainda possuem dificuldades para adormecerem, o que acarreta uma redução significativa de concentração nas atividades diárias.

Apesar dessas alterações, até então, não foram encontradas modificações fisiológicas no cérebro.

PRINCIPAIS SINTOMAS DO TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG).

SINTOMAS FÍSICOS:

Dor de cabeça, dor de estômago, rigidez muscular, insônia, suor frio, boca seca, ânsia, tremores, tontura, aceleração dos batimentos cardíacos, pupilas dilatadas, respiração ofegante, falta de ar.

SINTOMAS COGNITIVOS:

Preocupação excessiva, atenção prejudicada, irritabilidade, pensamentos de “e se eu não conseguir”, “e se der tudo errado”, “não vai dar certo”, “vou morrer”, “não vão gostar de mim” ou “uma tragédia vai acontecer”.

SINTOMAS COMPORTAMENTAIS:

Evitar situações, roer unhas, dificuldade para falar e tomar decisões, comer compulsivamente, sensação de impotência perante acontecimentos, isolamento social, nervosismo, etc.