EU ACHO …

PAISAGEM INFERNAL

Descobertas que fiz durante a pandemia

Este será o verão de um imenso descontentamento. Enquanto escrevo, nossa redação ainda está fechada e a pandemia avança. É nessas condições que quero compartilhar alguns itens recentes que encontrei por acaso. Como diz o ditado: “um homem pode trabalhar de sol a sol, mas o trabalho de uma mulher provavelmente não será compensado na mesma medida que o de um homem, e seu salário como uma porcentagem da média em seu campo provavelmente diminuirá se sua profissão passa por uma transição para uma maioria feminina.”

Para obter exemplos desse fenômeno, consulte o artigo intitulado “Quando uma especialidade vira ‘trabalho feminino’: tendências e implicações da segregação de gênero na medicina”, publicado na Academic Medicine. Os autores são Elaine Pelley e Molly Carnes, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin-Madison. Hoje, essa origem elitista é motivo instantâneo para que muitos de meus compatriotas se recusem a prestar atenção, pois fala a um certo nível de conhecimento e experiência que eles acham cada vez mais, sabe, irritante.  Apesar das credenciais das autoras, vamos ouvi-las. Elas observam que “em 1975, quando as mulheres eram 22% dos pediatras, um pediatra ganhava 93% do salário médio de um médico em1 975, mas em 2017, quando 63% dos pediatras são mulheres, um pediatra ganha apenas 71% do salário médio de um médico”.

Outro caso: “Os salários em obstetrícia e ginecologia eram 20% e 25% maiores do que o salário médio de um médico em meados dos anos 1970 e 1980, quando a participação feminina era de 8% e 18%, respectivamente. No entanto, em 2017, quando a participação feminina nessas carreiras alcançou 57%, um obstetra / ginecologista recebe o mesmo que um médico médio. “Enquanto me perguntava sobre as implicações éticas dessas disparidades financeiras, encontrei um artigo de 2016 dos filósofos Eric Schwitzgebel e Joshua Rust intitulado “O comportamento dos estudiosos de bioética”.

Eles basicamente tentam determinar se os especialistas profissionais em ética se comportam de maneira mais ética em suas vidas pessoais do que outras pessoas (para facilitar o acesso aos indivíduos pesquisados, as outras pessoas eram filósofos não especializados em ética e professores de outras disciplinas). E eles descobriram que os especialistas em ética não trazem trabalho para casa: “Em média, o comportamento dos especialistas profissionais em ética é indistinguível do comportamento de grupos controle de professores em outras áreas”. Essa descoberta faz sentido para mim porque um tempo atrás participei de um simpósio de ética médica e tive um insight: Satanás seria um ótimo especialista em ética. Para estabelecer o curso de ação mais perverso numa situação, ele teria que realizar uma avaliação abrangente que também revelaria a melhor escolha de política. Saber o certo do errado é, portanto, uma condição necessária, mas insuficiente para o bem, e o capeta poderia escrever excelentes artigos sobre ética antes de incendiá-los.

Falando em inferno, um estudo publicado na edição de 3 de agosto da revista Current Biologi; revelou que a grande maioria dos membros de uma espécie de besouro, Regimbarlia attenuata, realizam uma façanha literalmente mortal após serem engolidos por várias espécies de sapos. O besouro aparentemente nada até conseguir sair pelo traseiro do sapo. Porque, como outro axioma diz, “Se você está passando pelo inferno, continue passando”. Para. descobrir se a passagem do inseto era ativa ou passiva. os pesquisadores imobilizaram alguns besouros cobrindo-os com cera antes de irem para a boca do inferno, ou melhor, do sapo. Nenhum desses besouros sobreviveu. Parafraseando o lendário autor de ficção Harlan Ellison (que definitivamente teria criado este protocolo experimental se tivesse vivido o suficiente): eles realmente não querem abrir a boca e devem gritar.

*** STEVE MIRSKY

OUTROS OLHARES

CAMINHO SEM VOLTA

As histórias das mulheres que mataram seus parceiros para preservar a própria vida

Três anos se passaram, mas a estudante Mel Silva, de 27 anos, ainda tem a impressão de que foi ontem o dia em que se sentou de frente para o júri popular no Tribunal de Justiça de Goiás, na condição de ré, por ter matado um homem que havia tentado estuprá-la. O crime ocorreu em 21 de março de 2011, e ela, então com 17 anos, se preparava para ir ao curso noturno de recursos humanos que tinha começado poucos meses antes. Mel e o irmão haviam chegado havia três meses do Pará para estudar na capital de Goiás e viviam sozinho numa quitinete no Setor Pedro Ludovico, bairro da região sul da cidade. O restante da família ficou em Parauapebas, a 1.465 quilômetros de Goiânia.

Os irmãos tinham como vizinho de frente um homem de 52 anos. Naquele dia, Mel foi até ele pedir emprestado um martelo para prender um varal no teto da cozinha, pois ela notara que suas roupas estavam sumindo quando as deixava secando do lado de fora. Ao devolver o martelo, Mel contou que ele pediu que ela entrasse e deixasse o objeto em cima da mesa. “Dei dois passos e ele já veio atrás de mim, colocou uma faca em meu pescoço e trancou a porta. Depois, me levou para o quarto. Em seguida, começou a rasgar minha roupa com a faca”, contou ela. Ao tentar se defender, Mel travou com ele uma luta corporal em que conseguiu tomar dele a arma e, em seguida, o esfaqueou. Quando ele caiu, ela, ensanguentada, pegou a chave e abriu a porta, mas desmaiou.

Mel acordou com policiais a seu redor. Presa em flagrante, contou ter sido ofendida com frases como: ”Agora não é mais tão valente, não é?”. “Ninguém se preocupou se eu estava ferida. Só me levaram para a delegacia e me trancaram como um bicho”, relembrou. A jovem ficou presa por oito dias enquanto seus pais reuniam recursos para pagar um advogado que pudesse entrar com um pedido de habeas corpus. A estudante foi denunciada pelo Ministério Público de Goiás por homicídio doloso qualificado e, sem dinheiro para pagar sua defesa, terminou representada pela defensora pública Ludmila Mendonça, que presenciou suas audiências no Tribunal do Júri. Ela contou que o promotor do caso fazia perguntas que sugeriam que a jovem teria dado motivos para a investida sexual. “Por que você foi entregar o martelo?” e “Que tipo de roupa você usava?”, foram algumas das frases proferidas pelo promotor José Eduardo Veiga Braga Filho, segundo Mendonça. Ao final, Mel foi absolvida por 4 votos a 3, mas ainda hoje é chamada de assassina. ”O fato de Mel estar viva e ter conseguido sobreviver àquela situação faz com que eu seja vista como um monstro”, disse. Procurado, o promotor enviou uma nota dizendo que havia a “convicção de· que ela teria criado a situação que resultou na morte do vizinho e que não há confirmação da perícia técnica sobre a versão apresentada por ela”. O promotor ainda vaticinou: ”O objetivo era provar que a ré tentou atrair a vítima e criar, de forma premeditada, uma situação, que culminasse em seu assassinato”.

No primeiro semestre de 2020, houve um aumento de 1,9% nos casos de feminicídio no país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A alta, atribuída em parte à pandemia, evidencia que, ainda que os últimos anos tenham sido de avanços na conscientização e no combate à violência contra a mulher, ainda é muito, difícil traduzir esse progresso em uma queda visível nos números. Desde 2016, primeiro ano inteiro de vigência da lei que tipificou o crime de feminicídio, o Brasil teve um aumento acumulado de 43% no número de casos. Também nos seis primeiros   meses deste ano foram 147.379 chamados ao 190 para atender ocorrências de violência doméstica, contra 142.005 nos seis meses iniciais de 2019.

Essa subida revela não só a perene situação de vulnerabilidade feminina, como expõe as mulheres a um outro tipo de crime: com o aumento das agressões, elas são mais frequentemente sujeitas a episódio em que terminam matando para salvar a própria vida.

Não existe uma estatística oficial sobre os casos de mulheres julgadas ou que aguardam julgamento por crimes dessa natureza. Segundo a cineasta Sara Stopazzolli diretora do documentário Legítima defesa, que mais tarde deu origem a um livro sobre o mesmo tema, lançado pela Darkside Books, foram mapeados para a produção do filme, em 2016, cerca de 50 casos ocorridos nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. A maioria já havia sido julgada. “Parti do zero, lendo processos judiciais, conversando com defensores e funcionários dos fóruns, e descobri que casos de mulheres que tomaram uma atitude extrema para sobreviver existiam, sim, e muito”, relata a cineasta na introdução de seu livro, lançado em agosto deste ano. Ouvimos outras mulheres como Mel, levadas aos tribunais por terem matado em legítima defesa, e depois absolvidas. Em comum entre elas há o histórico de agressões, os sentimentos contraditórios, quando a vítima é o parceiro de anos, e o machismo que presenciam ao serem acusadas e julgadas, na maioria das vezes, por homens.

A assistente social Úrsula Francisco faz planos de cursar Direito, mas há pouco mais de dez anos ela quase integrou a estatística das mulheres que perdem a vida assassinadas por seus companheiros.  Ela tentou construir uma família com o marido, que era policial militar na Baixada Fluminense.  Casaram-se em 1998. Mas não demorou para que ele se mostrasse possesivo e violento. Ela contou que, para camuflar as agressões, ele colocava uma toalha de pano ao redor da mão antes de iniciar os espancamentos. Em outras ocasiões, ligava música alta na casa para impedir que os vizinhos escutassem os gritos de Úrsula. Algumas vezes também pedia que a mulher tocasse piano para ele, depois de apanhar, para “acalmá-lo”. Úrsula disse ainda que ele a obrigava a sentar-se no portão de casa junto a ele e ao filho do casal, nos fins de tarde, posando para a rua como uma família unida, para que os vizinhos não desconfiassem das agressões. “Nenhuma vez eu registrei ocorrência. Ele dizia que se eu desse queixa ele ia me matar. Como ele era policial, eu não duvidava”, contou a assistente social, que hoje comanda um posto de saúde em Nova Iguaçu.

A agressividade escalou até se transformar em ameaças de morte. No fatídico dia 5 de fevereiro de 2008, durante uma discussão o marido foi até o banheiro, onde guardava uma de suas pistolas. Ao vê-lo buscar a arma, Úrsula alcançou a segunda pistola do policial, que estava no quarto. Ele próprio a havia ensinado a atirar sob o pretexto de que a vida da família poderia um dia depender do uso da arma. “Tive poucos segundos para pensar. Eu sabia que era eu ou ele. Quando atirei eu perdi um pouco do raciocínio”, disse. O filho do casal, que estava fora de casa na hora do crime, chegou justamente quando a arma da mãe disparou.

Em choque, Úrsula imediatamente saiu da casa com o filho. No dia seguinte, se entregou. Sua rua se encheu de policiais indignados com a mulher que havia matado o companheiro de farda. Em um ano, ela contou ter se mudado de casa sete vezes com medo de retaliações. Por sete anos aguardou o desfecho do caso. A primeira denúncia do Ministério Público (MP), em 2008, baseada no inquérito policial, dizia que o assassinato teria acontecido de maneira livre e consciente e sem possibilidade de defesa da vítima. Só em 2015 o MP reconheceu a rotina de agressões e a legítima defesa, o que resultou em sua liberação, sem a necessidade de ir a júri popular. Hoje, como assistente social, ela orienta outras mulheres que passam por situação parecida.

A defensora Glauce Maués, que atuou na defesa de Úrsula, relembra que um dos pontos chave do caso foi o depoimento do filho do casal, que levantou a blusa durante uma audiência para mostrar as marcas de espancamento que também sofria do pai. Segundo Maués, o juiz a puxou pelo braço e disse: “Não vou mandar essa mulher para o júri, não quero saber, ela sai hoje inocentada”. Na fase de pronúncia, o promotor acabou pedindo a absolvição e o caso foi encerrado antes de ir a júri. “Sou capaz de contar nos dedos de uma mão quantos promotores eu vi desistirem da acusação desse tipo de crime na primeira fase. É muito comum ir a júri”, contou a defensora. Úrsula foi inocentada por legítima defesa.

Mesmo quem é treinada para agir em situações-limite também pode se ver vulnerável diante de um agressor. Foi o caso de Vânia Nascimento, de 45 anos, que trabalha como guarda municipal em São Paulo. Alta, de porte atlético e vaidosa, Vânia concedeu entrevista em sua casa, em São Paulo, num dia de folga do trabalho, usando um vestido preto e com as unhas pintadas de vermelho.  Pouco lembrava a mulher que quase foi morta pelo companheiro apenas três anos antes, depois de um rompimento. Ele era motorista de aplicativo e sempre foi ciumento – ainda que, segundo Vânia, até o dia do crime ele nunca houvesse deixado o ciúme escalar para a agressão.

Os dois estavam juntos havia 11 anos e ele era sete anos mais jovem. Nos últimos meses de convívio, no entanto, a relação se desgastou e Vânia contou ter sugerido a separação, sobretudo depois de descobrir que o parceiro vinha espionando seu telefone e suas redes sociais. No rompimento, ele não demonstrou descontrole. Mas, numa noite em que Vânia saiu com um grupo de amigas para uma festa, recebeu mensagens violenta do ex. “Sua desgraçada, você acabou com a minha vida. Você vai ver como você vai ficar”, escreveu ele, em mensagens que posteriormente foram apresentadas à polícia. Vânia inicialmente achou que o rompante era uma tentativa de chamar sua atenção. Quando chegou em casa, espantou-se ao vê-lo chegar logo depois, portando a chave que mantivera após a separação. A filha do casal não estava – só a primogênita, que é filha de um relacionamento anterior de Vânia.Vânia não desconfiou que a visita poderia resultar numa agressão. Contou que, depois de ouvir suas reclamações, deixou o ex-companheiro na sala, sentado no sofá, e foi para o quarto. Ele a seguiu, sentou-se na beira da cama e disse que não tinha para onde ir. Ela não demonstrou muito interesse no que ele tinha a dizer e virou as costas. Nesse momento, ele pegou uma das armas que ela guardava perto da cama e atirou pela primeira vez. ”Quando ele me deu o primeiro tiro, eu me senti um nada, um lixo”, desabafou. Mesmo ferida, Vânia alcançou a pistola que tinha guardada no guarda-roupa e disparou, acertando cinco tiros no ex-parceiro, que acabou morrendo no local. Ela fraturou o braço, quebrou costelas e tem uma bala alojada nas costas. Os exames e laudos foram todos anexados ao processo, que ainda corre na Justiça. No caso de Vânia, ainda não se sabe se a legítima defesa será reconhecida, já que o inquérito sobre o crime não, foi concluído. Ou seja, se a Justiça não reconhecer suas provas, ela pode ser condenada e presa por homicídio. O MP-SP disse que o caso segue em fase de inquérito e que não se pronunciaria.

Diferentemente de Vânia, que não via indícios de que uma agressão poderia transcorrer, a massoterapeuta Ana Raquel Trindade, de 35 anos, contou ter registrado mais de dez boletins de ocorrência em Florianópolis, Santa Catarina, contra seu ex- patrão, que ela afirma ter sido obcecado por ela. Os relatos da obsessão incluíam crimes de estupro, agressão e ameaça. E mesmo com todos os informes oficiais protocolados na delegacia, o agressor nunca foi investigado ou    alvo de qualquer investida da polícia. Dez meses antes do crime, o Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher negou um pedido de medida protetiva feito por ela. A razão? Só havia a “palavra” dela para “sustentar o pleito”.

Temendo que as investidas continuassem, ela decidiu comprar uma arma ilegalmente para se defender. Em 16 de novembro de 2014, ele foi até a casa dela e forçou o portão para entrar. Conseguiu. Ela então pegou a arma e atirou aleatoriamente várias vezes. Acertou nove balas, e ele morreu dias depois. Ana Raquel foi presa e ficou 24 dias na cadeia até obter um habeas corpus. Em 2016, ela também foi levada a júri popular e absolvida, com a chancela do MP. “No contexto, em razão de tudo que aconteceu, mesmo que ela tenha desferido uma grande quantidade de tiros, ela agiu moderadamente, a legítima defesa ficou caracterizada”, afirmou o promotor Andrey Amorim.

Ana Raquel hoje briga por uma indenização de R$ 100 mil do estado de Santa Catarina, que ignorou seus pedidos de ajuda. Em primeira instância, a ação foi negada, em 2018. A juíza Andresa Bernardo, da 1ª Vara de Fazenda Pública, escreveu que ”não havia nenhum dever jurídico específico do Estado perante a autora, sendo que a situação de ser mulher e estar em condição de vulnerabilidade e fragilidade não é suficiente para constituir tal hipótese”. Em suma, a juíza não viu nenhuma falha do Estado ao não atender ao pedido de socorro em face dos boletins de ocorrência por ela registrados.

Em alguns casos, um dispositivo que não está na lei, mas já foi usado para inocentar homens que cometeram feminicídio no passado, agora tem sido aplicado em favor de mulheres que matam para escapar da violência.

Trata-se da “inexigibilidade de conduta diversa”, uma tese supralegal, construída com base em várias jurisprudências e empregada de forma controversa em casos em que o autor supostamente não poderia ter agido de outra forma diante das circunstâncias. Tal tese é alvo de infindáveis debates jurídicos e foi discutida mais recentemente após o lançamento do podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que reconta o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo empresário Doca Street. No primeiro julgamento de Street, em 1979, sua defesa usou a figura jurídica da “inexigibilidade de conduta diversa”, argumentando que o crime fora cometido em “legítima defesa da honra” do assassino, que ele teria agido sob ”forte emoção” por suspeita de uma traição”. Dois anos depois, em 1981, o processo foi revisto e um novo julgamento transcorreu, em que Street foi condenado a 15 anos por homicídio doloso, tendo ficado preso em regime fechado por apenas quatro anos.

Esse mesmo argumento de inexigibilidade foi usado pela defesa da cabeleireira Jadielma dos Santos Silva, de 35 anos, para livrá-la de uma condenação por ter matado o marido há oito anos. Sua história de abusos remonta logo ao início da relação. Natural de Arapiraca, em Alagoas, ela chegou a São Paulo em 2000, ainda com 14 anos, para trabalhar num salão de beleza. Descobriu, contudo, que o futuro patrão queria não só uma funcionária, mas também uma mulher. Ela discordou da proposta e voltou para a casa dos pais. Mas a pobreza enfrentada no Nordeste a fez reconsiderar a ideia anos depois e tentar a vida com o patrão, 25 anos mais velho.

Ao longo de quase oito anos juntos, entre 2004 e 2012, ela teve quatro filhos em um ambiente que descreve como inferno. Ele a obrigava a ficar em casa, sem dinheiro e sem celular e proibia que ela arrumasse o cabelo, pintasse as unhas ou usasse maquiagem. O sentimento de posse   constantemente resultava em violência física. A cabeleireira não sabia como fazer para denunciar os maus tratos e desconhecia políticas públicas que ajudam mulheres em sua situação. Segundo o defensor Renato de Vitto, que acompanhou o caso anos depois, ela por mais de uma vez acionou a Policia Militar nos momentos de briga, mas o marido nunca era levado, ainda que houvesse testemunhas dos atos de violência.

Jadielma contou que sempre que ela ameaçava sair de casa, o marido revidava dizendo que mataria os filhos. Desesperada com a rotina de agressões, numa noite de setembro de 2012, ela decidiu tomar medidas extremas, pondo fim à vida do marido. Primeiro o dopou. Depois, o enforcou com uma corda. Jadielma foi presa e aguardou na cadeia por um ano até obter um habeas corpus. Em outubro do ano passado, um tribunal do júri em São Paulo a absolveu por “inexigibilidade de conduta diversa”. Seu caso era mais complexo que os demais. A ela não poderia ser concedida a legítima defesa porque a morte do marido não decorreu de uma ação imediata iniciada por ele, já que ele havia sido dopado. Jadielma, portanto, premeditou o crime. Ainda assim, ao verificar o caso, e diante de todo o histórico de violência, o próprio Ministério Público em São Paulo concordou com a absolvição. “Há situações em que não cabe a legítima defesa. É uma tendência positiva os jurados entenderem isso. Naquelas circunstâncias, não seria exigível pedir que ela permanecesse calada, sob ameaça de continuar sendo agredida indefinidamente”, argumentou De Vitto, o defensor.

Em caso de violência, ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher do governo federal.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE DEZEMBRO

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá (Salmos 27.10).

A dor do abandono é cruel e avassaladora. Há pessoas machucadas porque foram rejeitadas desde o ventre materno. Há aquelas que nunca se sentiram amadas por seus pais. Há as que foram traídas e abandonadas pelo cônjuge. Há pais que são abandonados pelos filhos e jogados num asilo. O apóstolo Paulo, preso em Roma, sentiu-se abandonado por Demas, quando mais precisava dele. O abandono dói, fere a alma. Paulo foi abandonado na prisão e em sua primeira defesa ninguém foi a seu favor. Jesus foi abandonado no jardim do Getsêmani, e todos os seus discípulos fugiram. Seus amigos podem abandonar você. Sua família pode abandonar você, mas Deus jamais o abandonará. A Bíblia diz: Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá. Também diz: Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama…? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti (Isaias 49. 15). Deus ama você. Ele estará com você e carregará você em seus braços. Jesus diz: … E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mateus 28.20b).

GESTÃO E CARREIRA

DEFESA E ATAQUE

A pandemia mostrou a Florian Hagenbuch, fundador da Loft, que a crise exige mais do que um bom jogo de cintura dos gestores

Sou um grande fã de futebol. Acredito que o esporte nos revele ensinamentos táticos e estratégicos aplicáveis no mundo dos negócios. Não há um grande time com uma ótima defesa e um ataque perna de pau nem há um campeão com um ótimo ataque cuja defesa se mostra uma peneira. Os dois mindsets coexistem, sempre, em uma dança fluida, na qual cada parte ganha mais importância de acordo com o contexto. Logo, o que faz com que grandes times, grandes técnicos e grandes jogadores se destaquem e conquistem coisas incríveis é justamente a sabedoria de dosar, de distribuir forças e recursos entre o ataque e a defesa de maneira estratégica, dependendo da batalha disputada no momento.

Em tempos de crise, como a que vivemos hoje devido ao coronavírus, essa dança e essa distribuição são tensionadas ao extremo. Logo após a erupção da pandemia, muitos fundadores de empresas de tecnologia, inclusive eu, não tiveram outra opção a não ser adotar rapidamente o esquema tático defensivo. O foco, naquele momento, estava na sobrevivência e na necessidade de adaptar as providências de segurança das pessoas envolvidas na nossa operação a uma situação inédita. Ao mesmo tempo, precisávamos poupar os recursos da empresa o máximo possível, enquanto se ganhava a visibilidade da extensão dos danos humanitários e econômicos.

Algumas empresas estavam mais ou menos capitalizadas e outras mais ou menos alavancadas operacionalmente, o que fazia com que as decisões refletissem a gravidade da situação de cada uma. O objetivo era claramente não perder. Durante essa experiência percebemos que a duração da predominância desse mindset pode ditar a forma como – e a força com a qual – cada time sairá ”do outro lado”. Acredito que o segredo esteja na dosagem e na velocidade da mudança de chave.

Recentemente, em um dos encontros mensais que promovemos em nosso clube do livro na Loft, discutimos Shoe Dog. A obra conta a história da fundação da Nike, uma empresa que é o resultado da sobrevivência a diversas crises. Um de seus princípios originais, publicados em 1977, é ”We’re on offense. All the time’. A companhia, que por vezes teve de dar tudo de si apenas para sobreviver, esteve sempre também no ataque. Em outro desses encontros, lemos a obra-prima de nosso investidor, Ben Horowitz: The Hard Thing ahout Hard Things. Nela, Horowitz expõe seu framework de ”peacetime vs. wartime CEG’. Segundo ele, tempos de paz e tempos de guerra requerem estilos de gestão radicalmente diferentes. Poderia um CEO ter o skill set para ambas as situações e conseguir transitar entre elas? A resposta teórica é sim, apesar de ser bastante difícil na prática.

De acordo com Ben Horowitz, para poder transitar entre os dois estilos, é necessário entender todas as regras para saber quando segui-las e quando quebrá-las. Afinal, para muitas das situações que vivemos (a covid-19, por exemplo) e para muitas empresas de tecnologia, não há precedentes: há, e apenas pode haver, o improviso educado, a ação e a adaptação rápidas. Acredito que tenhamos sido rápidos em adotar a tática de defesa na Loft no surgimento da crise da covid-19 no início de março. A pandemia me deu, pela primeira vez, a oportunidade na Loft de ”jogar na retranca” e, ao mesmo tempo, a chance de entrar no modo wartime CEO. Vivi na pele a analogia do futebol: não existe uma função isolada da outra. Foi preciso mudar de tática constantemente, até no mesmo dia, no auge da tempestade.

Além de aprender sobre uma nova realidade – de extrema incerteza-, era preciso aprender sobre mim mesmo e sobre minha forma de gestão e, mais do que tudo, me adaptar (e readaptar) rapidamente. Ao mesmo tempo que me adaptava e aprendia, eu me surpreendi com a velocidade de adaptação de nosso time. Dois de nossos valores predominaram: ”win together’ e ”getit dane’. Naquele momento, estávamos 80% concentrados na defesa e 20% no ataque, e essa distribuição foi fundamental. Nosso foco era entender as dores de nossos clientes nesta nova realidade. Reorganizamos processos, encontramos oportunidades de redução de custos significativas, dosamos investimentos em nossos diferentes produtos e modelos de negócios, preparamos diversos cenários de previsão de caixa. Enquanto isso, os 20% permitiam que fizéssemos nossa primeira venda 100% online e até lançássemos dois produtos: empréstimo com imóvel em garantia e assessoria imobiliária.

De lá para cá, fui mudando gradualmente o foco, passando em determinado momento para um mindset 50% na defesa, 50% no ataque. Mais recentemente, conforme aprendemos e ganhamos mais visibilidade sobre onde estamos pisando, tenho me aproximado do cenário inverso ao do começo: 80% no ataque, 20% na defesa.

Um artigo da gestora NFX que li recentemente – It’s time to start playing offense – define bem esse mindset. Segundo o autor, ataque é assumir riscos e pensar em como sair mais forte da crise – quais são as jogadas mais arriscadas que podemos tomar, enquanto a opção da retranca pura atrai outros agentes do mercado? Vejo o cenário fluido: a todo momento, somos confrontados com novas informações e novas realidades. É possível que tenhamos de nos adaptar novamente a uma maior predominância da defesa, assim como é possível que aceleremos o ataque. O resumo que me guia neste momento vem de outro trecho do artigo da NFX: ”O mercado de hoje é, simultaneamente, mais perigoso e mais vantajoso do que qualquer outro visto anteriormente”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONTÁGIO NOS SONHOS

Como a pandemia de Covid-19 está mudando o nosso sono

Para muitos de nós, a vida no mundo da covid-19 dá a sensação de termos sido jogados em uma realidade alternativa. Vivemos dia e noite entre quatro paredes. Temos medo de coisas que chegam às nossas portas. Se nos aventuramos pela cidade, usamos máscaras. Temos problemas para discernir rostos. É como viver em um sonho.

A covid-19 já alterou nosso mundo dos sonhos: o quanto sonhamos, o quanto lembramos deles e até a natureza dos sonhos. No início deste ano, quando foram adotadas diretrizes de isolamento, a sociedade inesperadamente experimentou o que estou chamando de uma onda de sonhos: um aumento global nos relatos de sonhos vívidos e estranhos, muitos relacionados ao coronavírus e ao distanciamento social. Termos como sonhos de coronavírus e pesadelos de covid surgiram nas redes sociais. Em abril, as mídias sociais e tradicionais começaram a divulgar a notícia: o mundo está sonhando com a covid-19.

Embora grandes mudanças nos sonhos tenham sido relatadas nos EUA depois de eventos extraordinários como os ataques de 11 de setembro de 2001, um aumento dessa magnitude nunca tinha sido documentado. Essa disparada nos sonhos é a primeira a ocorrer globalmente, e a primeira a acontecer na era das mídias sociais, o que torna os sonhos rapidamente acessíveis para estudos imediatos. Enquanto um “evento” de sonhos, a pandemia é semprecedentes.

Mas que tipo de fenômeno é esse, exatamente? Para descobrir, Deirdre Barrett, professora da Universidade Harvard, iniciou uma pesquisa on-line acerca dos sonhos da covid-19 na semana de 22 de março. Erin e Grace Gravley, artistas da Área da Baía de São Francisco, lançaram o Dream of Covid, com um site de arquivos e ilustrações dos sonhos da pandemia. A conta @CovidDreams começou a operar no Twitter. Kelly Bulkeley, psicóloga e diretora do Banco de Dados do Sono e dos Sonhos, veio a seguir com uma pesquisa com 2.477 americanos adultos. E minha ex-aluna de doutorado Elizaveta Solomonova, junto com Rebecca Robillard, do Instituto Real de Pesquisa sobre Saúde Mental, e outros realizaram uma pesquisa respondida por 968 pessoas. Os resultados documentam um acentuado aumento nos sonhos, em sua diversidade e em seus efeitos sobre a saúde mental.

A enquete de Bulkeley revelou que, em março, 29% dos americanos lembravam mais de seus sonhos do que o habitual. Solomonova e Robillard descobriram que 37% das pessoas tiveram sonhos com a pandemia, muitos marcados por temas como não realizar tarefas adequadamente (tais como perder controle de um veículo) e ser ameaçado por outras pessoas. Muitos posts refletem essas descobertas. Uma pessoa relatou no Twitter: “Sonhei que retomava como professora substituta no outono, despreparada. Os estudantes tinham dificuldades para praticar o distanciamento social e os professores não conseguiam programar aulas ou encontros individuais.” Outra pessoa escreveu: “Meu celular tinha um vírus e postava muitas fotos aleatórias da minha câmera no Instagram e minha ansiedade estava em seu ponto máximo”.

Estudos mais recentes viram mudanças qualitativas nas preocupações com a saúde e as emoções dos sonhos. Relatos de sonhos de brasileiros em isolamento social tinham alta proporção de palavras relacionadas a raiva, tristeza, contaminação e higiene. A mineração de textos de relatos de 810 finlandeses mostrou que os agrupamentos de palavras estavam sobrecarregados por ansiedade; 55% eram diretamente sobre a pandemia (falta de respeito ao distanciamento social, pessoas mais velhas com problemas), e essas emoções predominavam entre as pessoas que sentiam o estresse aumentar durante o dia. Um estudo com cem enfermeiras recrutadas para tratar pacientes de covid-19 na China revelou que 45% tiveram pesadelos – o dobro da taxa de pacientes em ambulatórios psiquiátricos chineses e muito acima dos 5% da população em geral com problemas de pesadelos.

Parece claro que alguma dinâmica básica biológica e social teve um papel nessa abertura inédita das comportas oníricas. Pelo menos três fatores podem ter acionado ou sustentado a disparada dos sonhos: a interrupção dos períodos de sono aumentam o sono REM (de Movimento Rápido dos Olhos) e, portanto, os sonhos; ameaças de contágio e distanciamento social pesam sobre a capacidade dos sonhos de regularem as emoções: e a mídia e as redes sociais amplificam a reação do público à disparada.

MAIS SONO REM, MAIS SONHOS

Uma explicação óbvia é que os padrões de sono mudaram de repente quando as quarentenas entraram em vigor. Os primeiros informes demonstram níveis elevados de insônia na população chinesa, em especial nos trabalhadores na linha de frente. Porém, as ordens para ficar em casa, que removeram as longas viagens para o trabalho, melhoraram o sono para muitos. Chineses entrevistados relataram um aumento médio de 46 minutos na cama e 34 minutos a mais no total de sono. Cerca de 54% das pessoas na Finlândia disseram dormir mais depois do lockdown. Entre 13 e 27 de março, o tempo de sono nos EUA aumentou quase 20%.

Mais sono leva a mais sonhos; em laboratórios de sono, pessoas que dormem mais de 9.5horas lembram mais de seus sonhos do que se dormirem oito horas. Dormir mais tempo aumenta proporcionalmente o sono REM, que é quando ocorrem os sonhos mais vívidos e emocionais. Agendas menos rígidas também podem ter postergado os sonhos na parte da manhã, que é quando o sono REM prevalece e os sonhos ficam mais estranhos. Tuítes sobre sonhos refletem essas qualidades: “eu estava cuidando de uma recém-nascida com covid… era tão vívido e real.” O aumento dos sonhos em intervalos REM no fim da manhã resulta da convergência de vários processos. O sono tem ciclos entre os estágios profundo e leve a cada 90 minutos, mas a pressão por sono REM aumenta à medida que a necessidade de sono profundo e recuperador é progressivamente satisfeita. Enquanto isso, um processo circadiano, que se relaciona com o ritmo da temperatura de nosso corpo em 24 horas, confere um estimulo abrupto à propensão ao sono REM no fim do período de sono e se mantém elevado durante a manhã.

Desde que a pandemia começou, muitas pessoas dormem mais e mais tarde. Na China, o horário médio de ir para cama atrasou-se, em média, 26 minutos, mas o horário de se levantar se atrasou 72 minutos. Esses valores foram de 41 e 73 minutos na Itália e 30 e 42 minutos entre universitários dos EUA. E, sem o tempo de transporte, muitas pessoas ganharam tempo livre na cama para relembrar seus sonhos. E, à medida que eliminara m eventuais déficits de sono, as pessoas aumentam suas chances de acordarem de noite e lembrarem demais sonhos.

FUNÇÕES DOS SONHOS SOBRECARREGADAS

O Tema de muitos sonhos da covid-19 reflete diretamente ou metaforicamente os temores de contágio e os desafios do distanciamento social. Mesmo em épocas normais, sonhamos mais com novas experiências. Por exemplo, pessoas matriculadas em cursos de francês logo sonham sobre o francês. Repetir fragmentos de experiências é um exemplo do papel funcional que os pesquisadores atribuem ao sonho e ao sono REM: eles nos ajudam a solucionar problemas. Outros papéis incluem consolidar eventos do dia anterior em memórias mais duradouras, encaixar esses eventos em uma narrativa de nossas vidas e ajudar-nos a regular emoções.

Pesquisas já documentaram diversos casos de sonhos que auxiliaram feitos criativos. Estudos empíricos também mostram que o sono REM ajuda na resolução de problemas que exigem acesso a variadas associações de memória, o que pode explicar por que tantos sonhos na onda de 2020 envolvem tentativas criativas ou estranhas de lidar com o problema da covid-19. Um participante de uma pesquisa disse: “Eu estava buscando um tipo de creme que evitaria ou curaria a Covid-19. Eu coloquei minhas mãos na última garrafa”.

Duas outras funções atribuídas ao sonho são as de extinguir memórias de medo e simular situações sociais. Elas estão relacionadas à regulação da emoção, e ajudam a explicar por que as ameaças da pandemia e os desafios do distanciamento social aparecem com tanta frequência nessa onda de sonhos. Muitos sonhos relatados na mídia incluem reações de medo ligado à infecção, às finanças e ao distanciamento social. “Eu testei positivo para gravidez e covid… agora estou estressada”. Ameaças podem tomar a forma de imagens metafóricas como tsunamis ou alienígenas; zumbis são comuns. Imagens de insetos e outras pequenas criaturas também são bem representadas: “Meu pé estava coberto de formigas e 5 ou 6 viúvas-negras estavam grudadas na sola do meu pé”.

Uma forma de entender imagens diretas e metafóricas é considerar que sonhos expressam as principais preocupações de um indivíduo, aproveitando memórias que são semelhantes no tom emocional, mas diferentes no assunto. Essa contextualização é clara em pesadelos pós-traumáticos, em que a reação da pessoa a um trauma, como o terror durante um assalto, é representada como o terror diante de um desastre natural, como um tsunami. Ernest Harlmann, pesquisador pioneiro que estudou sonhos após os ataques de 11 de setembro, estipulou que essa contextualização ajuda as pessoas a se adaptarem, ao entrelaçar experiências antigas e novas. A integração bem-sucedida produz um sistema de memória mais estável, que resiste a traumas futuros.

Imagens metafóricas podem ser parte de um esforço construtivo para dar sentido a eventos perturbadores. Um processo relacionado é a eliminação do medo pela criação de novas “memórias de segurança”. Essas possibilidades, que eu e outros investigamos, refletem o fato de que as memórias de eventos apavorantes quase nunca são reprisadas nos sonhos em sua inteireza. Ao invés, os elementos de uma memória surgem de forma fragmentada, como se a memória original fosse reduzida a unidades básicas. Essas partes se recombinam com memórias e cognições mais recentes para criar contextos em que as metáforas e outras justaposições incomuns de imagens parecem incompatíveis com a vida real. E, mais importante, são incompatíveis com sentimentos de medo. Esse sonhar criativo produz imagens de segurança que se sobrepõem e inibem a memória do medo original, ajudando com o tempo a atenuar a angústia.

Porém, esse mecanismo pode se quebrar depois de traumas severos. Nesses casos, surgem os pesadelos em que a memória apavorante é reprisada de forma realista; os elementos recombinantes criativos da memória estão travados. O impacto final da pandemia nos sonhos de uma pessoa vai depender do seu grau de trauma e resiliência.

Um segundo tipo de teoria pode explicar os temas de distanciamento social, tais como os que permeiam os relatos em IDreamofCovid.com. As emoções nesses sonhos variam de surpresa a desconforto, de estresse a horror. Tuítes ilustram como os cenários dos sonhos são incompatíveis com o distanciamento social – tão incompatíveis que costumam provocar um raro momento de conscientização e despertar: “Nós estávamos celebrando algo em uma festa. E eu acordei porque alguma coisa estava errada já que não devemos fazer festas por causa do distanciamento social”.

Essas teorias focam a função de simulação social do sonho. A visão de que sonhar é uma simulação neural da realidade, análoga à realidade virtual, é agora amplamente aceita, e a ideia de que a simulação da vida social é uma função biológica essencial está crescendo. Em 2000, Arme Germain, agora executiva-chefe de medicina do sono da start-up Noctem, e eu propusemos que asimagens de personagens interagindo com o self em sonhos poderia ser básico a como o sonhar evoluiu, refletindo vínculos de relações essenciais à sobrevivência de grupos pré-históricos. Os fortes laços interpessoais reiterados durante o sonho contribuem para fortalecer as estruturas do grupo, ajudando a organizar asdefesas contra predadores e a cooperação na solução de problemas.

Outros pesquisadores, como Antti Revonsuo, da Universidade de Turku propuseram desde então funções sociais adicionais para o sonho: facilitar a percepção social (quem está em torno de mim?), a leitura da mente social (o que eles estão pensando?) e a prática da habilidade de criar vínculos sociais. Outra teoria apresentada por Mark Blagrove, da Universidade de Swansea, postula que, ao compartilhar sonhos, as pessoas reforçam a empatia com os outros. A lista de funções do sonho deve continuar crescendo à medida que aprendemos mais sobre os circuitos do cérebro na base da cognição social e o papel que o sono REM desempenha na memória para estímulos emocionais, faces humanas e reações à exclusão social. Como o distanciamento social é, de fato, um experimento de isolamento social cm um nível nunca visto – e é provavelmente antagônico à evolução humana – um choque com mecanismos dos sonhos profundamente enraizados deve ser evidente em larga escala. E como o distanciamento social perturba tão profundamente as relações normais, as simulações sociais nos sonhos podem desempenhar um papel crucial para ajudar famílias, grupos e até sociedades a lidarem com uma adaptação social repentina e generalizada.

A CÂMARA DE ECO DA MÍDIA SOCIAL

Será que a disparada nos sonhos foi amplificada pela mídia? É bem possível que os posts iniciais sobre uns poucos sonhos tenham circulado muito, e alimentado uma narrativa sobre sonhos da pandemia que virou viral, influenciando as pessoas a lembrarem de seus sonhos, notarem os temas da covid e os compartilharem. Essa narrativa pode até ter induzido pessoas a sonharem mais com a pandemia.

As evidências sugerem que as notícias na mídia tradicional provavelmente não dispararam o aumento dos sonhos, mas podem ter amplificado seu alcance, pelo menos temporariamente. As pesquisas de Bulkeley e Solomonova Robillard corroboraram uma clara onda de tuítes a respeito de sonhos em março, antes que as primeiras notícias sobre esses sonhos aparecessem; de fato, as primeiras histórias citavam várias sequências de tuítes como fontes da notícia.

Quando as histórias surgiram, foi detectado um crescimento nos relatos de sonhos em @CovidDreams e IDreamofCovid.com até o início de abril. Além disso, durante a primeira semana, 56% dos artigos no noticiário apresentavam entrevistas com a mesma cientista de sonhos de Harvard, o que pode ter influenciado leitores a sonharem com os temas repetidos por ela em várias entrevistas.

A onda começou a declinar no fim de abril, assim como o número de artigos na mídia tradicional, sugerindo o fim dos efeitos de câmara de eco. Resta saber qual é a natureza final da onda. Até que as vacinas ou os tratamentos para a covid-19 estejam disponíveis, e com a possibilidade de outras ondas de infecção, as ameaças da doença e do distanciamento social devem persistir. A pandemia pode ter gerado um aumento duradouro na capacidade humana de lembrar dos sonhos? Será que as preocupações com a pandemia podem se infiltrar permanentemente nos sonhos? Se sim, essas alterações vão ajudar ou prejudicar a adaptação das pessoas ao futuro pós-pandemia?

Certas pessoas poderão precisar de terapeutas. Os dados das pesquisas usados neste artigo não se aprofundam nos detalhes dos pesadelos. Mas alguns profissionais de saúde que viram muito sofrimento têm agora pesadelos recorrentes. E alguns pacientes que ficaram em UTIs por dias ou semanas sofreram pesadelos terríveis neste período, o que pode, em parte, ser resultado de medicações e falta de sono induzida pelos procedimentos hospitalares ininterruptos e barulhos. Esses sobreviventes vão precisar de ajuda de especialistas para recuperarem o sono normal.

Pessoas que estejam apenas um pouco assustadas com seus sonhos de covid também têm opções. Novas tecnologias como reativação de memória direcionada estão oferecendo às pessoas mais controle sobre as narrativas de seus sonhos. Por exemplo, aprender como praticar o sonho lúcido – tornar-se ciente de que se está sonhando – com a ajuda de reativação da memória direcionada ou outros métodos pode ajudar a transformar sonhos preocupantes em sonhos mais agradáveis e até úteis. Simplesmente observar e relatar sonhos da pandemia parece ter impacto positivo na saúde mental, como Natália Mota, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, descobriu em seus estudos. Na falta de terapia, podemos nos permitir relaxar e desfrutar das horas extras de sono. Os sonhos podem ser incômodos, mas eles também são sugestionáveis, maleáveis e, às vezes, inspiradores.