EU ACHO …

POR QUE OS PAÍSES ASIÁTICOS SE SAIRAM MELHOR NA PANDEMIA?

Oriente e Ocidente reagiram à pandemia como antípodas. Enquanto a China, a Coreia do Sul, o Vietnã ou o Japão têm tido sucesso no combate ao novo coronavírus, é eloquente o fracasso da Europa e das Américas – com destaque para os Estados Unidos de Donald Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. “A crise deixou o Ocidente mais fraco e a Ásia mais forte”, escrevem os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge em The wake-up call (Toque de despertar). “O Ocidente falhou miseravelmente no teste da Covid.” O que, perguntam, levou ao sucesso asiático? A tradição de Confúcio? A experiência com a Sars? Avanço científico e tecnológico? “Ou foi só porque conseguem gerir melhor um Estado moderno?”

A explicação mais comum para o contraste entre chineses e americanos diante do vírus é afirmar que “autocracias esclarecidas lidam melhor com problemas que democracias caóticas”. Não só por serem mais organizadas, mas por não terem pruridos em “aliar o punho cerrado à luva cirúrgica, adotando métodos a que as democracias resistem”. É uma explicação previsível, sedutora – e errada. O fato de os Estados Unidos terem se saído pior que a China nada prova. “Na batalha contra o vírus, houve democracias de alto desempenho, assim como autocracias de baixo desempenho. Por que não comparar a China a Coreia do Sul, Japão ou Taiwan? Ou Alemanha, Suíça e Nova Zelândia?”, questionam Micklethwait e Wooldridge.

A segunda explicação é atribuir o fracasso ocidental a líderes ineptos. É o caso de Trump recomendando injetar água sanitária para matar o vírus ou de Bolsonaro insistindo no besteirol do “tratamento precoce” à base de cloroquina e vermífugos. Não é uma explicação incorreta.

Um país governado por incompetentes desse jaez evidentemente tem menos chance de vencer uma pandemia do que aquele cujo vice-presidente é um epidemiologista, caso de Taiwan.

Mas é uma explicação incompleta. “Independentemente de quem estivesse no Salão Oval da Casa Branca, a crise da Covid-19 teria exposto as desvantagens dos sistemas americanos de saúde e de bem-estar.” No Brasil, a desigualdade de condições de saúde e habitação traria dificuldades ao mais iluminado ministro da Saúde.

Uma terceira explicação, frequente tanto na esquerda socialista quanto na direita nacionalista, é ver no combate ao vírus a demonstração de que é preciso aumentar o tamanho do Estado. Ideias antes desacreditadas, como política industrial (para garantir suprimentos médicos) ou renda mínima (para combater a pobreza), ganham mais e mais adeptos. Trata-se, naturalmente, de uma miragem, propagada por aqueles “que se divertem encaixando suas políticas preferidas na Covid-19 como se fossem enfeites numa árvore de Natal”. Para Micklethwait e Wooldridge, as “fantasias sobre renda básica não sobreviverão a uma era pós-pandêmica de cintos apertados”. A principal lição da pandemia, segundo os dois, diz respeito não ao tamanho, mas à qualidade do Estado.

“A principal característica dos países que lidaram bem com a Covid é simplesmente terem levado o governo a sério. Estudaram a arte de governar e modernizaram seus Estados”, afirmam. “Nossa esperança é que a pandemia, ao expor tantas fraquezas, forçará os governos ocidentais a embarcar num período de reformas.” É preciso trazer eficiência e talentos de volta ao setor público, com remuneração melhor e atrelada ao mérito, além de concentrar-se no que governos fazem bem. É preciso copiar o setor privado ou países onde o Estado funciona, como Cingapura, Nova Zelândia ou Dinamarca. É preciso que autoridades aprendam a levar uma vida frugal, sem mordomias. “É preciso dar aos funcionários públicos empregos vitalícios?”, perguntam. “Limitar o acesso à docência apenas a professores diplomados? Por que o governo precisa pagar pelas universidades, se os ganhos da educação se destinam predominantemente aos privilegiados?” As respostas são óbvias e já eram conhecidas antes da pandemia. O vírus apenas expôs a necessidade urgente de reformas no Estado, sobretudo nos países em que ele não funciona, como o Brasil.

John Micklethwait e Adrian Wooldridge, HarperVia 2020 – 176 páginas – US$18

HELIO GUROVITZ – é jornalista, editor de opinião do jornal O Globo

OUTROS OLHARES

A VOLTA DOS ANOS 70

Como acontece de tempos em tempos no universo fashion, as tendências do passado acabam voltando à tona: a moda agora são os anos 1970

Tudo começou com o retorno das calças boca de sino – agora chamadas de “Flare”. Daí vieram as estampas psicodélicas, os tamancos e os ternos com caimento mais folgado. A última coleção da grife italiana Gucci, uma das mais copiadas e desejadas do mundo, usa até filtros fotográficos para remeter à época de Woodstock. “O período de maior libertação que vivi aconteceu quando eu era criança, na década de 1970”, afirma o estilista Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci. “Continuo a recorrer a esses anos dourados porque, para mim, pessoalmente, simbolizam as reais sementes da mudança.” O fenômeno pode ser visto em outras marcas francesas consideradas mais conservadoras: a Louis Vuitton encheu suas bolsas de corações e a Dior adotou o crochê e os lenços na cabeça.

A volta ao estilo “paz e amor” também está nos vestidos floridos com recortes simples, bolsas de camurça ou de palha e fitas. Até a temática da época parece ter renascido – basta lembrar das letras anti-sistema de Bob Dylan ou da afirmação cultural negra dos penteados “Black Power”. A canção “Dreams” (“Sonhos”), hino geracional da banda setentista Fleetwood Mac, acaba de voltar às paradas mundiais. A razão é menos nobre do que se imagina: ela foi usada em muitos vídeos do aplicativo chinês TikTok, febre dos adolescentes globais. O hippie pode ter voltado a ser chique, mas sonhar não tem época, nem idade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE DEZEMBRO

SOLIDÃO, UM VAZIO NO MEIO DA MULTIDÃO

Volta-te para mim e tem piedade de mim… (Salmos 1 9.132a).

A solidão é um sentimento que tortura milhões de pessoas. No século da comunicação virtual, da internet e do telefone celular, quando tocamos o mundo com a ponta dos nossos dedos, somos assolados pelo drama da solidão. Entabulamos uma animada conversa virtual de uma hora via mensageiros instantâneos, porém não conseguimos mais sentar ao redor de uma mesa para um bate-papo de cinco minutos. Enfrentamos ruas congestionadas e somos acotovelados por uma multidão nas calçadas, no ônibus e no metrô, mas caminhamos entre essa multidão pela estrada da solidão. Pior que não saber conviver com o outro é não saber lidar consigo mesmo. Pior que não abraçar o outro, é não se sentir confortável na presença daquele que vemos no espelho. Gente precisa de Deus, mas gente precisa de gente. Você precisa de amigos. Você precisa de alguém com quem abrir o coração. Você precisa de um ombro amigo. Vale também dizer que o vazio da alma só pode ser preenchido por Deus. Nem mesmo as pessoas podem preencher essa brecha. O apóstolo Paulo estava numa masmorra romana, no corredor da morte, mas mesmo curtindo a dor da solidão e sofrendo o desamparo dos homens, tinha paz na alma por causa da assistência de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

RÁPIDOS E NADA FURIOSOS

Com a transformação digital em curso nas empresas, profissionais que atuam com metodologia ágil ganham espaço – e a área se torna cada vez mais promissora para o trabalho do futuro

Mantendo sua tradição em tentar prever (ou moldar) o futuro da economia e dos negócios, o Fórum Econômico Mundial publicou em janeiro deste ano o relatório Jobs of Tomorrow (“Empregos do amanhã”, numa tradução livre). Elaborado por cientistas de dados das empresas LinkedIn, Comsera e BurningGlass Technologies, o documento elenca as 96 profissões que elevem ganhar relevância nos próximos dois anos. As carreiras do futuro estão espalhadas em sete macrogrupos: vendas, marketing e conteúdo; saúde; dados e inteligência artificial; engenharia e computação em nuvem; desenvolvimento de produtos; economia verde; e pessoas e cultura.

Salta aos olhos a demanda por profissionais que tenham entre suas competências familiaridade com as metodologias ágeis. “Com a consolidação da Indústria 4.0, a adoção das metodologias ágeis será algo irreversível”, afirma Luciana Lima, professora de gestão de negócios e pessoas no lnsper. Ela avalia ainda que a adoção de tais procedimentos ágeis irá acontecer em todos os setores – as empresas se tornarão mais flexíveis para sobreviver e se adaptar às mudanças.

Baseado em uma série de valores e princípios, o Manifesto para Desenvolvimento Ágil de Software, feito por um grupo ele programadores americanos em 2001, é um dos documentos fundadores do movimento agile. No texto, os autores pregam protocolos mais flexíveis para fazer as entregas. “Hoje, tudo o que usa tecnologia é agile. Há gestão ágil em empresas de finanças, mídia, educação, saúde, logística, indústrias, varejo e até em governos”, afirma Luciana Lutaif, diretora de práticas e talentos da consultoria Accenture.

FACILITADORES

Dentre as carreiras elencadas pelo Fórum Econômico Mundial na categoria “desenvolvimento de produtos”, três estão diretamente relacionadas com as metodologias ágeis: product owner (em primeiro lugar da lista), agile coach (em terceiro) e scrum master (em sexto). De maneira sucinta, o product owner coordena uma equipe de desenvolvedores e tem a responsabilidade de construir e entregar o produto ou serviço mais adequado para as necessidades dos clientes. O scrum master é a pessoa que atua acima do product owner e tem a missão de ajudar todos a compreender os valores, princípios e práticas ágeis para melhorar a realização do trabalho. Já o agile coach, função mais conhecida, é o guia que orienta, nos diferentes níveis hierárquicos, todas as equipes durante o processo de implementação dos processos ágeis, incentivando funcionários e líderes na adoção de novas práticas e comportamentos. Todos funcionam como uma rede de apoio numa organização que aplique as metodologias ágeis.

Ainda que em diferentes contextos, essas funções têm algo em comum: precisam mediar e resolver os conflitos que surgem durante o desenvolvimento de um novo serviço ou produto. E esses embates podem ocorrer dentro dos times ou fora, caso existam clientes externos envolvidos no projeto. “Eles são facilitadores, aproximam pessoas que nunca trabalharam juntas, unindo-as com um objetivo comum e específico”, explica Luciana Lutaif, da Accenture. Para isso, habilidades socioemocionais – tais como facilidade de trabalhar em equipe, de criar e manter boas relações interpessoais, de escutar e mediar conflitos, entre outras – são essenciais.

“É curioso, mas a palavra ‘ágil’ não é a que melhor define o agile. ‘Maleabilidade’ é a melhor palavra para as metodologias ágeis”, diz Marcos Mattioli, especialista da consultoria Deloitte e responsável por implementar agilidade na companhia. Marcos, que está à frente de um time multidisciplinar composto de 13 pessoas, conta que até pouco tempo atrás os projetos eram grandes e dificílimos de ser moldados. Entre o pedido inicial e a entrega, passava-se tanto tempo que, quando saía do papel, o produto ou serviço já estava defasado em relação aos concorrentes ou às necessidades dos clientes. Ao usar métodos ágeis, com validações mais rápidas e pequenas entregas (os famosos sprints), o ciclo é acelerado e os ajustes são feitos com velocidade. “Não corremos mais o risco de sair do caminho das indicações iniciais. Tentamos mais, erramos mais, corrigimos rápido, aprendemos e entregamos mais”, diz Marcos.

EM ALTA

Numa pesquisa feita no LinkedIn em abril, havia 146 vagas para agile coach, 255 para product owner e 208 para scrum master. Juntas, as carreiras geravam mais de 600 oportunidades no período – lembrando que, em abril, o Brasil já enfrentava a crise econômica ocasionada pelo coronavírus. Essa demanda, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, tem forte tendência ao crescimento no país, exatamente como aponta o relatório do Fórum Econômico Mundial.

O problema é que o Brasil está diante de um paradoxo: há vagas, mas pouquíssimas pessoas com experiência prática nessas metodologias. “Não basta ter feito um curso, é preciso ter cicatrizes de guerra, ter atravessado problemas e conquistado resultados com as metodologias”, diz Luciana Lutaif.

A alta demanda se explica tanto pela adoção em massa das metodologias nas áreas tecnológicas de empresas como pelo uso delas em outros departamentos. Hoje o mercado já fala em organizações ágeis, com entregas mais curta e flexibilidade. “Há um movimento de disseminar a cultura ágil por toda a estrutura organizacional para eliminar barreiras, conectar pessoas de áreas distintas que possam resolver problemas, ter mais contato e cumplicidade com os clientes”, explica Luciana Lima, do lnsper. Uma das empresas que passa por essa transformação é a varejista Magazine Luiza, que está levando o processo tão a sério que foi até a Suécia recrutar o brasileiro Henrique Imberti, atual diretor de agilidade da companhia, que começou a se especializar no tema em 2004. Depois de algumas experiências como agile coach no Brasil, Henrique foi contratado pelo Spotify para atuar na mesma função, mas em Estocolmo, capital sueca. Ficou por lá de 2014 a 2017. “A temporada serviu para eu consolidar algumas certezas e derreter outras”, diz. No Magazine Luiza, seu objetivo (ao lado de um time de nove pessoas) é ajudar a mudar a mentalidade dos mais de 35.000 funcionários – e isso tem apoio do CEO da empresa, Frederico Trajano. “Agite coach, agile master, product owner, scrum master e qualquer variação possível não são super-heróis. Se não têm apoio interno, não fazem nada, falam para as paredes”, diz Henrique.

A equipe de agilidade do Magalu já colhe alguns frutos. O planejamento estratégico, por exemplo, não é mais anual, mas quadrimestral e ancorado em indicadores modernos, como número de usuários ativos no e-commerce e NPS (net promoter score, que mede a satisfação dos clientes). “Times e projetos mudam rápido, em semanas, mas mudar uma empresa desse tamanho é manobrar um transatlântico; demora um tempo, e é normal que seja assim”, diz o diretor. E ele completa: “Ser ágil é ter mais autonomia, é aprender com os erros para mudar rápido.”

PROFISSÕES DO AMANHÃ

Veja as atividades mais promissoras, de acordo com o relatório Jobs of Tomorrow, do Fórum Econômico Mundial

DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS

CARREIRAS

1. Product Owner

2. Analista de Qualidade

3. Agile Coach

4. Engenheiro de Qualidade de Software

5. Analista de Produto

6. Engenheiro de Qualidade

6. *Scrum Master

* Empatadas em sexto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Testagem de Software

2. Software Development Life Cycle (SOLC)

3. Ferramentas de Programação

4. Gestão de Projetos

5. Gestão de Negócios

6. Tecnologias de Armazenamento de Dados

7. Desenvolvimento de Web

8. Operações de Fabricação

9. Destreza Digital

10. Liderança

VENDAS, MARKETING E CONTEÚDO

CARREIRAS

1. Analista de Redes Sociais (conteúdo)

2. Growthhacker (Marketing)

3. Especialista em Customer Success (Vendas)

4. Coordenador de Redes Sociais (Conteúdo)

5. Growth Manager (Marketing)

5. *Representante Comercial (Vendas)

*Empatadas em quinto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Marketing Digital

2. Redes Sociais

3. Gestão de Negócios

4. Destreza Digital

5. Propaganda

6. Marketing de Produto

7. Vídeo

8. Design Gráfico

9. Liderança

10. Escrita

DADOS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

CARREIRAS

1. Especialista em Inteligência Artificial

2. Cientista de Dados

3. Engenheiro de Dados

4. Desenvolvedor de Big Data

5. Analista de Dados

6. Especialista em Analytics

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Ciência de Dados

2. Tecnologias de Armazenamento de Dados

3. Ferramentas de Programação

4. Inteligência Artificial

5. Software Development Life Cycle (SDLC)

6. Consultoria

7. Desenvolvimento Web

8. Destreza Digital

9. Computação Científica

10. Rede de Dados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – X

COM A PALAVRA, QUEM MAIS SOFRE

Confira os depoimentos de pessoas que enfrentaram e ainda enfrentam as dificuldades impostas pela síndrome do pânico.

ANDREIA ALVES, 37 anos (SANTO ANDRÉ-SP)

“Não tenho lembrança da minha primeira crise. Na verdade, analisando diversas situações passadas, posso dizer que sofro com o transtorno de pânico desde a infância. Inclusive, perdi um ano na escola, na quarta série. Sentia-me desesperada ao ver minha mãe indo embora e os portões se fechando. No ensino médio, a síndrome do pânico veio à tona com mais força. Comecei a ter crises no ônibus, ao ir e voltar da escola. O sintoma predominante era a falta de ar. Depois o coração começava a acelerar, as mãos ficavam suadas e dormentes. Era uma sensação iminente de morte. Essa é a melhor descrição. Nessa época procurei especialistas, fiz tratamento com psiquiatra e psicólogo e foi quando obtive o diagnóstico. A partir de então, adotei o péssimo costume de procrastinar o tratamento sempre que tinha alguma melhora. Anos depois tive novas crises… precisei me afastar pela previdência social. Fiz prova do vestibular em plena crise. Virou rotina passar mal nos trens, nos ônibus, na faculdade. Virou rotina ser socorrida de ambulância e, ao chegar no hospital, os médicos diziam que eu estava bem. Minha vida social acabou. Profissão. Planos. Projetos… Sempre me tratei com sertralina e o rivotril foi minha muleta para me socorrer em meio a uma crise.

Um grande erro é abandonar o tratamento, como agora, por exemplo. Por outro lado, sempre fui de encarar a doença e enfrentá-la. Não fosse isso, viveria enclausurada. Não desejo a ninguém. A síndrome paralisa e a tendência é, cada vez mais, afastar-se das outras pessoas, de uma vida social”.

NEUSA CARMO, 56 anos (SÃO PAULO-SP)

Neusa é dona da página “Síndrome do Pânico” no Facebook. Hoje, o espaço conta com mais de 311 mil seguidores que trocam experiências e tiram dúvidas. A proposta começou em 2004, ainda no extinto Orkut, e ajuda as pessoas a entenderem melhor sobre as crises e os inúmeros sintomas causados pelo transtorno.

“Descobri a doença em 2001. Nessa época, ela ainda era pouco conhecida por médicos de pronto-socorro, lugar para onde, normalmente, corremos por achar que estamos enfartando. Depois de muitas consultas, encontrei um médico chinês que, mesmo me pedindo vários exames, me encaminhou para um psiquiatra. Ele me diagnosticou com síndrome do pânico e iniciei o tratamento com antidepressivos e ansiolíticos. Porém, as coisas não são tão simples. Mesmo em tratamento, tive que mudar várias vezes de medicamentos. Não existe nada eficiente quando se está no auge das crises, pois nunca sabemos quando ela irá acontecer. É tudo muito inesperado e independe de situações, pois já tive muitas crises dormindo, acordando de madrugada com elas. Isso me deixava muito perturbada, porque, se eu estava dormindo, logo imaginava que estava relaxada e isso não fazia sentindo. Eram rotineiras as crises noturnas, mesmo estando medicada.

Com o passar do tempo, aprendi a respirar melhor com ajuda da prática de ioga – a respiração diafragmática me auxiliou muito e ajuda até hoje em momentos de muita ansiedade.

Lembro que os maiores e piores desafios diários impostos pela síndrome do pânico são: primeiro, não saber quando a crise vai te atacar. É como se você vivesse numa selva, com medo do ataque de um animal feroz, na qual você precisasse lutar contra ele. Porém, sabe que ele vai te devorar. Segundo, sair de casa. A agorafobia está presente o tempo todo e fazer tarefas simples, como ir ao supermercado, trabalhar, pegar um ônibus, metrô, torna-se algo extremamente desafiador e assustador.

A síndrome do pânico normalmente está acompanhada de depressão, hipocondria, TOC, existindo graus de pessoa para pessoa, o que faz tudo muito mais difícil.

A compreensão familiar é mínima. Ninguém entende doença mental. Normalmente, as pessoas não estão dispostas a compreender que uma pessoa visivelmente saudável pode estar mentalmente muito doente. E a cobrança de maneira errada machuca, destrói, pois ninguém que sofre com essa doença escolheu estar assim. Acham que melhorar depende da gente, que temos que nos esforçar. Mas o pouco que fazemos já nos custa muito empenho”.

SÍLVIA PORTO, 54 anos (RIO DE JANEIRO-RJ)

“Eu estava dormindo, mas acordei com dificuldade de respirar e tremores. Permaneci deitada prestando atenção no que eu estava sentindo. Comecei a ter dor no peito e fui ficando com o corpo dormente. Meu desespero já estava atingindo o nível máximo. Pensava desesperadamente como eu ia fazer pra conseguir socorro. Senti que estava morrendo. Meu coração estava muito acelerado e eu não conseguia respirar fundo.

Comecei a suar muito. Levantei com muito custo pra pegar água e comecei a sentir que ia desmaiar. Perdi as forças e minha vista escureceu. Deitei no chão da cozinha e senti que morreria ali mesmo, sozinha. Puxei o ar e fui engatinhando até o celular. Liguei para meu vizinho e pedi socorro. Disse a ele que estava desmaiando e pedi pra que me ajudasse rapidamente.

Ele veio e eu saí com a roupa do corpo. A sensação de morte iminente é assustadora. Ele me colocou no carro e me levou pra emergência mais próxima. Eu, deitada no banco de trás, com muita taquicardia e falta de ar, gritava: ‘corre que estou morrendo!’

Cheguei à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) gritando que estava morrendo e implorando socorro. Tremia bastante. A enfermeira verificou minha pressão, meu índice glicêmico e a taxa de oxigenação: todos estavam normais. Fui me acalmando. Os sintomas começaram a desaparecer. O médico que me atendeu disse que eu estava tendo uma crise de ansiedade e que iria me prescrever uma injeção de diazepam pra eu relaxar. Eu já estava bem. Dispensei o diazepam e fui pra casa. Lá, chorei bastante.

É muito difícil conviver com síndrome do pânico porque a qualquer momento você pode ter uma crise. Relatando esse episódio, não dá para descrever o pavor que ela é. Nunca vai dar… é indescritível”.