EU ACHO …

LITERATURA OU ENTRETENIMENTO?

Menosprezar os romances de sucesso é elitista – e descabido

No início do ano, o tradicional Prêmio Jabuti causou polêmica ao divulgar a criação de uma nova categoria no segmento romance: o romance de entretenimento. Na época, recebi convites para tratar do assunto, mas preferi ficar em silêncio por duas razões: (1) eu queria acompanhar as discussões que daí surgiram e (2) eu tinha um romance recém-publicado, poderia concorrer e, assim, qualquer texto poderia ser mal interpretado. No fim de novembro, os resultados foram divulgados e meu livro mais recente, Uma Mulher no Escuro, acabou vencendo a categoria “romance de entretenimento”. Agora, me sinto à vontade para opinar.

Não é de hoje que críticos, curadores, escritores e leitores fazem a divisão entre “literatura” e “entretenimento”. A mim, a separação sempre soou descabida. Digo isso porque, se de um lado temos o “romance de entretenimento”, é de se supor quena outra categoria disputem os “romances de aborrecimento”, aqueles dedicados a arrancar bocejos do leitor, deixá-lo impaciente ou de saco cheio.

Em sentido oposto, se consideramos a categoria “romance literário”, temos a clara impressão de que os romances que entretêm não são (nem podem ser) literatura. Sem dúvida, um impasse desagradável. Afinal, o bom romance deve ser literatura e entretenimento. São os autores nesse “meio do caminho” que me encantam: aqueles que usam os jogos de linguagem, a potência das palavras, a forma e a estética para narrar boas histórias, para criar personagens complexos e tramas inesperadas. Em um país ideal, a distinção entre literatura e entretenimento em um prêmio do segmento seria desnecessária.

Mas sejamos realistas: vivemos num meio literário esnobe, distante de seu público, que abomina best-sellers e filas de leitores. A célebre frase cunhada por Tom Jobim nunca fez tanto sentido: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pega mal entreter, pega mal ser lido. Autores como Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca foram vistos por anos com maus olhos justamente porque, mesmo com o apuro de linguagem, faziam genuíno entretenimento, eram populares. Em anos de prêmios e festivais literários, romances e autores de gênero raramente foram contemplados, pois são escolhidos por um corpo de jurados elitista, que revira os olhos diante de uma narrativa policial, de terror, de humor, de ficção científica ou de fantasia.

Por isso, mesmo não sendo ideal, é inegável a urgência de uma categoria como essa no Prêmio Jabuti. Como leitor e apaixonado por romances policiais, sempre lamentei a ausência de prêmios dedicados ao gênero, como existem em países como Estados Unidos (Edgar Allan Poe Awards), França (Grand Prix de Littérature Policiere) e Alemanha (Deutscher Krimi Preis). Torço para que mais prêmios passem a levar em conta a grande e valiosa produção de romances de gênero que vem sendo feita no Brasil. Quem sabe assim nossa literatura brasileira contemporânea conquiste seu público e seja amplamente estudada nos cursos de letras. Tenho muito orgulho de ser o primeiro ganhador da categoria “romance de entretenimento”. Uma Mulher no Escuro é entretenimento. E é literatura.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

APERTEM OS CINTOS

Sucesso de vendas, o 737 Max foi suspenso por vinte meses depois de dois acidentes. Agora ele está de volta no mais turbulento momento da aviação comercial

O risco de um passageiro ser morto em um acidente de carro no caminho para o aeroporto é, estatisticamente, dezenas de vezes maior do que no voo em que ele embarcará. Desastres aéreos são raros e, quando acontecem, têm como causa fatores que não se repetem, pois tudo que se aprende com a queda de uma aeronave é usado para evitar outra tragédia igual. Aviões não caem, alegam os engenheiros: são derrubados. E, no caso do Boeing 737 Max, essa afirmação retórica é verdadeira. Em um intervalo de quatro meses, duas unidades do modelo foram abatidas pelo sistema de segurança que deveria protegê-las, matando 189 pessoas no mar da Indonésia e 157 na Etiópia, respectivamente em outubro de 2018 e março de 2019. Poucos dias após a segunda queda, todas as 387 aeronaves em operação em 59 países, incluindo o Brasil, ficaram proibidas de voar na mais longa paralisação da história da aviação, só encerrada em 18 de novembro.

No primeiro acidente com o 737 Max da Lion Air, já havia indícios de que os pilotos tinham perdido o controle devido à ação de um software chamado Mcas. O sistema impede que o jato aumente seu ângulo de ataque – ou seja, que levante o nariz – a ponto de perder sustentação. No voo fatídico, o Mcas aparentemente continuou a forçar o avião para baixo, contra as ordens dos pilotos, até despencar. Já suspeitando disso, os reguladores deveriam ter expedido a ordem de grounding (termo que significa “ficar em terra”), mas precisou ocorrer mais um desastre, desta vez com a Ethiopian Airlines, para segurar no chão o pássaro da Boeing. A centenária fabricante se viu então no meio de uma tempestade, sacudindo por tabela a economia dos Estados Unidos.

A Boeing é a maior exportadora industrial em solo americano, emprega 130.000 pessoas e contrata milhares de fornecedores. O 737, em serviço desde 1968, é seu principal produto. Ideal para curtas e médias distâncias, trata-se do jato comercial mais vendido de todos os tempos. As duas tragédias, entretanto, puseram a companhia na berlinda, principalmente depois da suspeita de que seu presidente, Dennis Muilenburg, estaria pressionando a FAA (a agência americana reguladora) a retirar a ordem de grounding. Muilenburg acabou demitido em dezembro do ano passado.

A investigação que se seguiu expôs a cultura corporativa da Boeing. Mensagens internas mostram um alarmante desprezo dos profissionais mais graduados por colegas, clientes e fiscais. Expressões como “esse avião é uma piada”, ”não confio em algumas pessoas daqui” e “não sei se a FAA entende o que está aprovando ou reprovando” aparecem em um compilado divulgado pelo jornal The New York Times. Acrise acabou refletindo até na Embraer: a Boeing cancelou a aquisição de 80% da divisão de aviões comerciais da empresa brasileira – uma transação de 4,2 bilhões de dólares. Não se sabe ao certo o que teria motivado tal decisão, mas aparentemente o desgaste provocado pelo 737 Max, associado à troca de gestão, mudou os ventos da negociação, deixando a Embraer largada na turbulência.

A punição ao Max durou vinte meses, mas todas as unidades serão autorizadas a voar assim que as mudanças forem concluídas. Além da FAA, participaram da recertificação outras agências reguladoras, incluindo a brasileira Anac. O software de proteção foi corrigido, a extensa fiação trocada e os pilotos passarão por treinamento em simuladores específicos. Em vídeo, o diretor da FAA, Stephen Dickson, declarou que o avião é seguro: “Eu colocaria minha família dentro dele”, afiançou. A American Airlines quer sua frota pronta para voar em 2021. O mesmo deseja a Gol, única linha aérea brasileira a usar o 737Max, com sete unidades em operação e 95 encomendadas.

A questão que se levanta é se o público costuma boicotar uma aeronave por seu histórico. Normalmente, isso não ocorre. Ao comprar um pacote, o passageiro quer saber se o voo é direto, a hora de partida e chegada e quanta bagagem pode levar. “É raro perguntarem qual o modelo da aeronave”, diz Nádia Botsaris, da Kauai Turismo. Ela esclarece que a maior preocupação do setor no momento é com a retomada das viagens e hospedagens na pandemia. A maioria das pessoas compartilha o sentimento de que voar é seguro. Já em relação às medidas tomadas contra a Covid-19, parece não haver ainda a mesma confiança.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERAR NA TENSÃO

Adaptar o estilo de gestão ao cenário externo mantém as equipes engajadas. Quem faz isso aplica a liderança situacional, importante durante a crise do coronavírus

Os tempos de pandemia que estamos vivendo são marcantemente caracterizados pelo ineditismo, pela imprevisibilidade e pela desconfiança. Assim, torna-se vital que as lideranças – tanto públicas quanto privadas – ajam com a maior efetividade possível. Isso é importante porque, em momentos como este, as pessoas entram em um nível de estresse elevado e exigem um estilo de liderança especialmente cuidadoso e adequado.

Mas qual é esse estilo? Para explicar, vou usar o que aprendi, anos atrás, em um curso ministrado pelo extraordinário professor Paul Hersey, que criou o conceito de liderança situacional. Ele defendia que o estilo de liderar deve se alterar de acordo com o momento – o que exige dos líderes uma grande capacidade de adaptação e de leitura do ambiente. E esse modelo faz muito sentido em momentos de alta pressão porque, nessas situações, as pessoas mudam rapidamente seu comportamento e precisam de líderes que compreendam isso e se adequem ao novo cenário.

Hoje, toda esta incerteza, insegurança e desconfiança sobre as autoridades públicas e a ciência modificam o estágio de maturidade das pessoas. Importante destacar que a maturidade não é estável. Todos nós, adultos, vivemos num chamado “continuum da maturidade”, o que significa que, num mesmo dia, podemos ter comportamentos maduros e imaturos, dependendo do contexto e das pessoas envolvidas conosco. Mas tudo dentro da normalidade social.

O problema é que, sob estresse, o comportamento humano é levado para o lado da imaturidade – exatamente por causa do medo, da insegurança e da desconfiança. Por isso, nessas situações, o líder deve dar orientações que sejam muito bem estruturadas. É preciso fugir de ordens genéricas proferidas sob a égide do “vocês são adultos, vão entender as ordens”. Sob estresse, não reagimos como adultos e precisamos de caminhos claros.

Não adianta, por exemplo, dizer que a partir de amanhã todos vão trabalhar de casa e achar que isso vai funcionar por si só. É preciso explicar como serão as regras de horários de expediente e intervalos e quais serão os processos e tecnologias usados, por exemplo. Não detalhar e partir do princípio de que todos vão entender costuma dar errado.

Orientar e criar uma estrutura é importante para que as pessoas, gradativamente, retornem seu estado normal de maturidade. Então, o grande conselho que dou para quem precisa chefiar nesse cenário é: respeite o estágio temporariamente imaturo dos profissionais e guie os times de maneira didática, compreensível e factível.

É desse tipo de gestão que precisamos agora – é o que a situação pede. Por isso, deixe-se levar pela liderança situacional, pois ela engrandece o líder, aumenta o respeito dos times e conquista resultados.

LUIZ CARLOS CABRERA – é presidente da L Cabrera consultores e professor na FGV-EAESP

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – IX

ALÉM DO BICHO-PAPÃO

Até as crianças podem desenvolver o medo e a ansiedade característicos da síndrome do pânico

É comum entre os adultos aquele pensamento saudoso do tempo em que eram apenas crianças, quando os compromissos, as contas e o estresse diário ainda não haviam dado as caras.

A infância remete a uma sensação de pureza e tranquilidade, mas quem disse que os pequenos não têm preocupações além do bicho-papão? Essa fase da vida é um momento de intenso aprendizado e pressões. Sendo assim, o medo e a ansiedade podem surgir nesse período. O limite da normalidade desses sentimentos fica por conta da intensidade das consequências na rotina e na vida da criança. “Cada vez mais queremos que os pequenos acompanhem o ritmo dos adultos, tanto nas questões diárias como acordar, tomar um café e almoçar com pressa, quanto na questão da quantidade dos compromissos e atividades que eles devem cumprir, somados à exigência de notas boas, à carga excessiva de lições e à cobrança para que correspondam às nossas altas expectativas”, ressalta Alessandra da Silva Ferreira, psicóloga infantil.

Mudanças significativas, situações traumáticas, falecimento de um ente querido e outras questões possibilitam que o mal da síndrome do pânico acabe atingindo a sociedade cada vez mais cedo. “Estudos têm demonstrado uma ligação entre adversidades afetivas na infância (consideradas como estressoras) com a síndrome do pânico. Além disso, as crianças que estão mais expostas a eventos estressantes, em que o contexto social e a família exercem grande pressão, também estão mais propensas a desenvolver a doença”, afirma a psicóloga clínica infantil e psicopedagoga Fátima Hemétrio.

QUANDO PASSA DA MANHA…

Birra, dengo e teimosia são todos sinônimos de uma atitude característica do universo infantil. Os pais estão mais do que acostumados a lidar com os choros e berros provenientes disso. Mas, em alguns casos, o que ocorre é a confusão em relação a um quadro de pânico com a manha da criança. “O diagnóstico pode ser difícil. O primeiro passo é reconhecer e aceitar que algo está errado e procurar ajuda. Quando os pais observam que o problema está afetando a vida social e escolar da criança, é hora de buscar ajuda”, explica Fátima.

Para ajudar a detectar sinais de pânico, é importante notar sintomas físicos que não fazem parte da rotina infantil, como: suor excessivo, palpitações, dores constantes de barriga sem explicação, dores no peito, tremores, apreensão elevada e medos excessivos de morrer ou de perder o controle. “Quando falamos em criança, o primeiro especialista que vai ter contato com o relato destes sintomas é o pediatra, que pode fazer o diagnóstico se tiver o conhecimento sobre isto e encaminhar para um psiquiatra e psicólogo infantil”, ressalta Alessandra.

CUIDANDO COM TRANQUILIDADE

O acometimento do pânico pode comprometer a rotina da criança, bem como suas relações sociais e rendimentos escolares. De acordo com Alessandra, durante esse período, algumas crianças podem se isolar e evitar eventos e festas infantis com medo de sofrer com os sintomas das crises. Entretanto, assim como acontece com os adultos, para as crianças a síndrome do pânico tem tratamento e necessita de orientação e acompanhamento profissional para ser eficiente. “A psicoterapia infantil, que utiliza exercícios lúdicos de respiração e pintura, brincadeiras que auxiliam a criança viver o momento presente e a orientação aos pais são fundamentais no processo”, afirma a psicóloga infantil.

Ainda é relevante que o ambiente familiar seja de calma e tranquilidade. Durante o tratamento, a criança demanda um cuidado diferente em relação a exigências e ao ritmo de atividades cotidianas. “Caso a criança sofra um trauma por conta de perdas e separações, os adultos devem ajudar no entendimento destas questões para ampará-la emocionalmente”, lembra Fátima.

ATENÇÃO AOS SINAIS

De acordo com o psicólogo Diogo Bonioli, existem algumas atitudes que podem ser de grande valia para perceber que há algo de errado com a criança. “Se três destes sintomas aparecerem, procure imediatamente um profissional de saúde mental”, aconselha o psicólogo.

• Práticas destrutivas e antissociais;

• Sensação de rejeição;

• Sentimento de culpa e frustração constante e sem motivos graves;

• Fadiga e cansaço;

• Perda de peso e de apetite;

• Insônia ou excesso de sono;

• Agitação e irritabilidade;

• Sentimento de infelicidade e tristeza;

• Desinteresse por atividades comuns;

• Rejeição de interação com os amigos;

• Queda no rendimento escolar.