EU ACHO …

DA JABUTICABA À BLACK FRIDAY

Duas décadas atrás, ninguém acreditava que uma empresa que vende quase de tudo pela internet poderia ser viável. Agora, o comércio eletrônico é cada vez mais onipresente

O plano de negócios do Mercado Livre, lançado em 1999, foi recebido com certa desconfiança. Quando Marcos Galperin e eu apresentamos a ideia aos nossos colegas na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ouvimos que o consumidor latino-americano não aceitaria comprar um produto sem antes vê-lo e tocá-lo. Ouvi comentários semelhantes de outros colegas de um dos bancos onde trabalhei no fim dos anos 1990. Eles se mostraram curiosos, mas bastante céticos em relação ao investimento em um negócio de comércio eletrônico no Brasil. Eu me lembro, naquela época, de um almoço que tive com essa turma em um restaurante em São Paulo. Na ocasião, ouvi também a respeito das dificuldades de empreender no Brasil em meio a tantas jabuticabas e desafios macroeconômicos recorrentes no país.

No entanto, nunca duvidei do potencial do negócio. Sabia que o consumidor brasileiro em particular, e o latino-americano de uma maneira geral, não divergia em sua essência do consumidor americano ou de outras regiões do mundo mais desenvolvidas. Eu e meus sócios queríamos (e ainda queremos) excelência na experiência de compra: sortimento, bom custo-benefício e acesso mais imediato possível ao produto desejado. Sabíamos que o advento da internet transformaria, em escala e proporção, o princípio básico de oferta e procura.

No ano 2000, tínhamos algumas dezenas de tipos de produtos disponíveis na plataforma, como o “telefoninho”, um gadget que permitia fazer ligações telefônicas e que era o grande objeto de desejo do e-commerce à época. Saltando 21 anos, depois de enfrentar diversas crises políticas e econômicas, tanto globais quanto locais, e engolindo jabuticabas mais ou menos azedas, seguimos mais confiantes do que nunca. Atualmente, com mais de 300 milhões de anúncios, 76 milhões de usuários ativos e 12 milhões de vendedores únicos, o Mercado Livre é o espelho do sucesso de todo o setor de tecnologia para o e-commerce e os serviços financeiros da América Latina não apenas pelo valor de mercado da companhia na bolsa americana Nasdaq, mas por toda a cadeia de milhões de empreendedores, pequenos comércios, grandes redes varejistas e empresas de logística que impactamos positivamente.

Mesmo no cenário adverso da pandemia, dados da empresa de inteligência de mercado Compre & Confie mostram que, no terceiro trimestre de 2020, o e-commerce já ultrapassou toda a receita do ano passado. Segundo análise do banco Goldman Sachs, o comércio eletrônico deverá representar uma alta de pelo menos 40% em relação ao mesmo trimestre de 2019 – no mesmo período, as vendas do Mercado Livre avançaram 74% no Brasil. Não é só. Estima-se também que a penetração do e-commerce no varejo deverá saltar para 11% até o fim do ano, o que representa entre 5 e 6 pontos porcentuais acima do que registrávamos antes da pandemia.

As mesmas pessoas que buscaram o e-commerce em março e abril, no auge da pandemia, para se abastecer de produtos essenciais agora compram de tudo e com mais frequência: de alimentos a eletroeletrônicos, de itens de maquiagem a automóveis. Acredito que, tanto para o Mercado Livre, que dobrou sua operação neste ano, quanto para os seus concorrentes, a tendência é que o mercado continuará se expandindo em ritmo veloz.

Observo esse futuro se materializando nesta Black Friday. No evento, o e-commerce como um todo entregou volumes maiores, em geografias mais afastadas dos centros comerciais e com mais celeridade doque já havia feito em duas décadas. De nosso lado, reforçamos os investimentos em logística e tecnologia, com uma frota aérea e viária e novos centros de distribuição. Tudo isso para a Black Friday de 2020? Não apenas. Pensando no longo prazo, acredito que o sucesso do e-commerce daqui pra frente será medido justamente pela capacidade das plataformas de varejo digital e marketplaces de unir bits e bytes com o mundo dos átomos, ou seja, tecnologia e logística, facilitando sempre a navegação na plataforma, ampliando o sortimento de produtos, oferecendo um atendimento de pós-venda para auxiliar o comprador e o vendedor, dando-lhes acesso a bons negócios, pagamentos instantâneos e serviços financeiros e de crédito.

Mesmo assim, esse ainda não é o auge. Quando reflito sobre tudo o que ainda temos de conquistar, penso em mangas-rosas. Afinal, quando é que vou conseguir comprar minhas frutas favoritas – quiçá até jabuticabas – com a mesma celeridade e escala com que consigo obter quase tudo não perecível no Mercado Livre? Já temos alguns exemplos de redes de supermercado com e-commerces eficientes e algumas plataformas concorrentes com parcerias para entregas rápidas de alimentos. No entanto, ainda não chegamos a um modelo de logística específico, eficiente e rentável para o e-commerce que garanta entregas de não perecíveis no mesmo dia, em horas, para todo o Brasil.

Tenho certeza deque chegaremos lá. Ao avançar em categorias desafiadoras como as de supermercado, setor automotivo e moda, o e-commerce tende a fomentar ainda mais o ciclo virtuoso que move de pequenos produtores e microempresas de entrega a grandes marcas e distribuidores logísticos de escala nacional, conectando todos ao público consumidor. É com essa perspectiva que sigo otimista e confiante de que sairemos mais fortes da pandemia do coronavírus, com aprendizados que vão gerar frutos saborosos para quem compra e quem vende no Brasil e na América Latina.

*** STELLEO TOLDA – é cofundador do Mercado Livre, empresa líder em tecnologia para e-commerce e serviços financeiros da América Latina

OUTROS OLHARES

QUESTÃO DE PELE

A pandemia desperta a atenção da Dinamarca para a indústria de casacos de pele, um negócio bilionário que encobre o sofrimento de animais e ainda sobrevive no país

Há algo de podre no reino da Dinamarca, segundo disse o personagem Marcellu, em Hamlet, peça escrita por Shakespeare quatro séculos a trás. Pelo que foi revelado nas últimas semanas, continua havendo. Ao identificar uma possível mutação do Sars-CoV-2, o vírus da Covid-19, em um pequeno mamífero de pelo macio, o governo determinou que todos os 17 milhões existentes no país fossem abatidos. O animal em questão é o vison, também chamado de mink, cuja criação se dá basicamente para suprir o mercado de peles. Quando uma cepa do vírus relacionada ao bicho foi detectada em doze moradores do interior da Dinamarca, as autoridades sanitárias, com o apoio da polícia e das Forças Armadas, entraram nas fazendas e deram início ao abate.

Na primeira semana de novembro, quase 3 milhões de animais tinham sido sacrificados e incinerados, informou a rede BBC. O serviço dantesco já estava concluído em 116 fazendas, de uma cooperativa de 1.500, quando a primeira-ministra Mette Frederiksen admitiu que a decisão fora apressada e que não havia base legal para matar os animais que estavam saudáveis. Ainda assim, o governo está encorajando os fazendeiros a prosseguir com o abate, prometendo compensações financeiras aos mais de 3.500 trabalhadores do setor. Emma Hodcroft, geneticista da Universidade da Basileia, na Suíça, explica que a forma insalubre como os animais são criados, amontoados em espaços superlotados, compromete seu sistema imunológico e facilita a mutação e propagação do vírus. “A decisão rígida de abatê-los não se baseia apenas nas possíveis mutações, mas também na contenção da transmissão”, explica a cientista.

Há poucos dias, o governo se reuniu com membros da oposição para rediscutir o tema. Ficou pré-acordado que os fazendeiros terão de extinguir a criação de visons até o fim de 2021. Já aqueles que concordassem com o abate imediato receberiam, além da reparação pelo prejuízo comercial, um bônus de 30 coroas dinamarquesas (cerca de 25 reais) por unidade. A medida drástica é justificada pelo temor de que mutações em outras espécies possam ampliar a letalidade do novo coronavírus, como ocorreu com a chamada gripe suína em 2009. O que não encontra justificativa é um país nórdico desenvolvido ainda dar suporte a uma indústria há anos banida da maioria dos países da Europa, incluindo o Reino Unido.

O vison não é domesticável como seu parente próximo, o furão, mas ainda é mantido em cativeiro apenas para servir à indústria de moda e beleza – recentemente, cílios postiços feitos de sua pelagem ganharam popularidade. Com apenas 40 centímetros de comprimento, são necessários sessenta deles para fazer um só casaco. Há anos, organizações que lutam pelos direitos dos animais denunciam os maus-tratos contra os visons, mantidos em gaiolas minúsculas. A morte, quando não se dá por pancada na cabeça, pode ser feita por afogamento. Há relatos de capturas realizadas em armadilhas que quebram os ossos sem danificar a pelagem. Dessa forma, até mesmo a Animal Protection Denmark, grupo de proteção animal dinamarquês, acredita que a solução das autoridades, forçada pela pandemia, não seja pior do que o sofrimento infligido à espécie.

No passado, roupas de pele eram vistas como símbolo máximo de elegância, mas o glamour está em constante declínio. Muitas marcas de luxo reconheceram os evidentes conflitos éticos e se comprometeram a não mais produzir roupas de vison, chinchila, guaxinins e coelhos. Até mesmo a rainha Elizabeth II renunciou aos modelitos felpudos. Nas bolsas de mercadorias, o valor da pele de vison despencou 67% em sete anos. Ainda assim, mesmo com a desvalorização, se o pré-acordo escandinavo prevalecer, o baque econômico não será desprezível: líder mundial no setor, com uma fatia de 40%, a Dinamarca faturou com exportação, somente no ano passado, o equivalente a 4,2 bilhões de reais. Como a demanda segue em alta no mercado chinês, é bem possível que o país da Muralha aproveite o vácuo e abra em seu território fazendas que hoje se encontram na Europa. Graças às vacinas em andamento, a Covid-19 talvez esteja com seus dias contados. Mas o sofrimento do vison, apenas para satisfazer o capricho do homem, ainda está longe do fim.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE DEZEMBRO

O BOM NOME VALE MAIS DO QUE DINHEIRO

Mais vale o bom nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a prata e o ouro (Provérbios 22.1).

Numa sociedade que supervaloriza o poder econômico e atribui mais importância ao ter que ao ser, Salomão, que podia falar “de cadeira”, pois era o homem mais rico do seu tempo, é categórico em afirmar que há coisas mais preciosas que as riquezas materiais. O bom nome vale mais que muitas riquezas, e ser estimado é melhor que ouro e prata. Note que Salomão não apenas afirma que o bom nome é melhor que riquezas, mas que é melhor que muitas riquezas. É melhor ter uma boa reputação que ser um ricaço. É melhor ter o nome limpo na praça que ter o bolso cheio de dinheiro sujo. É melhor andar de cabeça erguida, com dignidade, que viver em berço de ouro, mas maculado pela desonra. A honestidade é um tesouro mais precioso que os bens materiais. Transigir com a consciência e vender a alma ao diabo para ficar rico é uma consumada loucura, pois aquele que usa de expedientes escusos para enriquecer, subtraindo o que pertence  ao próximo, em vez de ser estimado, passa a ser odiado na terra. A riqueza é uma bênção quando provém do trabalho e da expressão da generosidade divina. Mas perder o nome e a estima para ganhar dinheiro é tolice, pois o bom o nome e a estima valem mais que as muitas riquezas.

GESTÃO E CARREIRA

MOMENTO DE REFLETIR

Períodos de crise podem exacerbar nossas insatisfações com os rumos profissionais. Aprenda a estruturar uma reflexão sobre seu momento de vida

Nos últimos meses, a rotina de milhares de pessoas mudou drasticamente. A pandemia causada pelo novo coronavírus colocou estados e municípios inteiros em quarentena, levando a demissões em massa, suspensão de contratos de trabalho, redução de salários e de cargas horárias, causando pausas forçadas na carreira de muitos profissionais. Os tempos são difíceis, mas essa pausa involuntária das atividades pode ser usada para algo positivo: repensar as escolhas de carreira. “Nem tudo é negativo em meio ao caos. Surgem oportunidades para rever hábitos, valores, mudar de rotina, e quem sabe escolher um novo caminho”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de neurociência organizacional. Tais reflexões, entretanto, precisam ser feitas com cuidado. Superar o desânimo e tomar as rédeas da situação não é algo simples. “Mesmo quem manteve o emprego está passando por momentos de insegurança. Essa falta de controle deixa evidente uma resposta de estresse natural, e não deve existir a obrigação de achar que está tudo lindo”, explica Ana Carolina. A solução é ir com calma e começar se permitindo viver um pouco o estado de inércia – aquele período em que não conseguimos vislumbrar nada por estarmos muito imersos numa situação complicada. Quando a poeira baixar um pouco, será hora de começar a refletir sobre o que já foi conquistado e o que se quer alcançar.

TENTE DESACELERAR

Não é incomum que, na rotina habitual, as pessoas passem o tempo todo resolvendo questões práticas, trabalhando ou pensando no emprego. Nesse dia a dia cheio de tarefas, não sobra tempo – nem cérebro – para refletir. Por isso, uma das atitudes mais importantes é criar momentos de conexão consigo próprio. Só assim é possível começar a raciocinar sobre o que está bom e o que está ruim na carreira. “O ócio favorece o desenvolvimento do autoconhecimento e também da criatividade, duas habilidades valorizadas no mercado de trabalho e cruciais para a determinação do que se deseja para o futuro”, diz Ana Carolina.

Fazer essa pausa é fundamental, porque processos mentais importantes (como o da criatividade) precisam de inatividade para renovar os reservatórios de energia física e psíquica. Marcia Vazquez, consultora de carreira, coach e psicóloga, explica que, no momento em que há silêncio e inatividade, alguns questionamentos devem nortear as reflexões sobre uma mudança. “O que eu gosto de fazer? O que faço melhor? Quais são as prioridades da minha vida? Essas são perguntas que levam a entender as possibilidades de emprego dentro da personalidade de cada um”, explica a especialista.

DO PENSAMENTO PARA A AÇÃO

Um caminho para a reflexão pode ser a busca por ajuda profissional (como um coach ou uma consultoria de transição de carreira). Mas, quando não é possível investir nisso, uma maneira de pensar sobre os próprios passos é conversar com amigos, colegas ou parentes que o conheçam e tenham maturidade para opinar com objetividade e isenção. “Essa pessoa pode validar características e ideias que formamos sobre nós mesmos, além de agregar informações que sozinhos não teríamos”, diz a neurocientista Ana Carolina.

Caso a decisão seja mudar de área, interagir com pessoas que trabalhem nesse novo setor pode trazer reflexões profundas. “Nem sempre as informações da internet são capazes de dar um panorama completo sobre a profissão. Somente as pessoas que já atuam podem falar com propriedade a respeito do cenário atual e das expectativas para quem quer ingressar”, diz Lucas Papa, gerente da Michael Page, consultoria de recrutamento.

O especialista afirma que esse movimento de pensar sobre a profissão é muito rico para os trabalhadores. “Para quem deseja ser dono da própria carreira, o tempo para essa reflexão é muito precioso. Ter na mente definido o que se quer permite a inversão de papéis, que é se colocar na posição de entrevistar a empresa no momento em que é entrevistado. Passa a ser uma decisão para ambos os lados”, diz Lucas. Mas ele faz uma ponderação: “As pessoas não podem se deixar levar pela ideia de que se reinventar completamente e mudar de carreira será a solução para tudo. O passo a passo dessa reflexão é importante e deve ser feito com profundidade”. Cuidado para não cair nessa armadilha.

COMO ENCONTRAR TEMPO

É possível analisar sua carreira, mesmo dentro da rotina corrida. Veja algumas dicas

1 – PRIORIZE:

Delimitar quais são os compromissos prioritários e avaliar em que você está gastando tempo demais são os primeiros passos. Assim, você vai conseguir encontrar algumas brechas que podem ser realocadas em sua reflexão.

2 – TENHA PACIÊNCIA:

A reflexão pode ser um processo lento, então, não se cobre demais para encontrar respostas nos primeiros dias. Dê tempo ao tempo para amadurecer as ideias.

3 – PENSE DUAS VEZES:

Pontue se é possível fazer algo que tenha a ver com sua carreira atual. Mesmo que seja preciso fazer alguns cursos, esse tipo de transição costuma ser menos complexo.

GUIA DA PONDERAÇÃO

O passo a passo abaixo, dividido em duas partes, ajuda a pensar sobre suas conquistas e as metas que você quer atingir

PARTE 1 – PERSPECTIVAS

As respostas às perguntas a seguir geram insights sobre sua personalidade, suas competências e as áreas em que pode vir a atuar

O QUE JÁ FIZ E APRENDI NA FUNÇÃO QUE EXERÇO ATUALMENTE?

Pense tanto nas habilidades que desenvolveu como nas aptidões pessoais. Aqui você deve definir o que vale a pena preservar e o que pode ser eliminado em um novo caminho.

O QUE MAIS GOSTO DE FAZER E O QUE FAÇO MELHOR?

Mapeie seus interesses, seus valores, o que é mais e menos importante em sua vida. Classifique seus conhecimentos, talentos, experiências e trace pontos em comum que possam resultar em uma profissão.

QUAIS SÃO AS PRIORIDADES DA MINHA VIDA?

Entenda seu estilo de vida: O que vê como uma carreira bem-sucedida? O que deseja construir para o futuro? O que espera de uma mudança profissional?

PARTE 2 – PRESENTE E FUTURO

Num segundo momento, a ideia é entender onde você está e o que deve fazer para chegar aonde quer

QUAIS SÃO AS VANTAGENS E AS DESVANTAGENS DE UMA MUDANÇA?

Faça uma lista e pense em todo o processo: A transição demandará gastos financeiros? Em quanto tempo você estaria preparado para mudar? O que essa mudança transformaria em sua vida? Que custo emocional haveria?

O QUE ESTÁ EM MINHA MENTE?

Converse com pessoas próximas e peça opiniões sinceras sobre seus planos. Além disso, amplie sua rede de contatos para falar com profissionais da nova área ­ pergunte quais são as dores e as alegrias e o que foi preciso para chegar até ali.

QUAL É MEU PLANO?

É importante traçar um planejamento formal para não se perder. Crie metas de estudos, de networking e de despesas financeiras. Lembre-se de que os objetivos devem ser realistas e são apenas um guia.

SUPERANDO A INSEGURANÇA

Os pensamentos sobre o rumo profissional vieram à tona quando Renata Barretto, de 38 anos, ficou desempregada. Com 13 anos de carreira na área de tesouraria, ela estava confortável, mas tinha vontade de trabalhar com investimentos. Em 2015, quando foi desligada da companhia em que trabalhava, ela se viu em casa e compreendeu que era hora de se renovar. No começo não foi fácil. Renata não sabia como definir seu caminho profissional dali para a frente. Pensou nas habilidades que já possuía e nas que teria de aprender se fosse mudar de profissão. Por um momento, sentiu-se insegura e resolveu manter tudo como estava. Na sua cabeça, os dez anos de carreira na área e o investimento de tempo e dinheiro para se reinventar eram impeditivos para encontrar um novo caminho. Tudo mudou quando ela começou a ser entrevistada para vagas de tesouraria. “Depois de várias negativas, me enchi de coragem e decidi mudar: queria mesmo era trabalhar com investimentos”, diz. Renata compreendeu que a dificuldade já existia de toda maneira, então, era melhor lutar por aquilo que parecia fazer mais sentido. Com uma reserva financeira de 4.000 reais, ela conseguiu parar por um tempo para investir em educação. “Busquei por cursos com certificação, pagos e gratuitos, presenciais e online, li muitos Livros.

Foram meses dedicados a aprender tudo o que eu precisava para me qualificar”, diz. Em dezembro de 2016, ela viu seu esforço ser recompensado. Renata foi contratada como planejadora na Kl Capital Humano, empresa de planejamento financeiro. Dois anos depois, o bom trabalho prestado a levou a se tornar sócia adjunta da empresa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – VII

OS ALIADOS DA CURA

Junto com o acompanhamento psicológico, os medicamentos são essenciais para quem luta contra o transtorno do pânico

Pessoas com síndrome do pânico são frequentemente usuários dos serviços de atenção básica de saúde. Porém, muitos deles não são diagnosticados e tratados de maneira correta. Possivelmente, a presença de outros distúrbios, como a depressão, pode estar ou não relacionada com os transtornos. A falta de consciência e informação pelos próprios pacientes e profissionais e a pouca credibilidade em relação ao tratamento são fatores que, recorrentemente, causam desordens clínicas.

“A evolução do quadro, se não tratado, pode ser a pior possível, pois o transtorno do pânico costuma vir acompanhado de outras comorbidades. Quando se busca o tratamento para esse problema, pode-se descobrir outros que também serão tratados”, explica a psicoterapeuta Fátima Dutra. Os tratamentos indicados para os transtornos de ansiedade são baseados no paciente – na severidade da doença, nas doenças concomitantes, nas possíveis complicações, no histórico de tratamentos anteriores, nas questões de custo e em suas preferências.

A BASE DO TRATAMENTO

“Existe uma diferença entre episódios de pânico, que podem acontecer esporadicamente, e o transtorno do pânico, que tem uma frequência elevada, acontecendo até mais de uma vez no mesmo mês. É a partir desse momento que os remédios devem ser utilizados”, esclarece a psicoterapeuta. Entre as variações de tratamentos, o mais indicado pelos psicólogos é a combinação entre as técnicas da psicoterapia e a boa administração de medicamentos. “É por meio dela (psicoterapia) que a pessoa pode conversar sobre suas questões, medos, preconceitos, as dificuldades com a família que não aceita a doença e, assim, ficar livre dos sintomas o mais rápido possível”, conclui.

Preocupações e preconceitos em relação aos tratamentos podem impedir sua eficiência, em especial, quando o assunto são os remédios. Existe a crença de que causam mal à saúde ou que irão gerar a dependência. Outra atitude dos pacientes que pode atrapalhar é a vergonha de ter uma “doença na cabeça”, considerando-se incapazes e fracos. “Geralmente, eles se comparam a outras pessoas, que têm muitos compromissos, filhos, trabalham, moram distante do serviço, cuidam da casa, fazem cursos e conseguem lidar com todas essas coisas. Aí vem a pergunta: “Como que ela consegue fazer isso tudo e eu não consigo entrar numa farmácia?”, explica a psicoterapeuta.

OS EFEITOS POSITIVOS E NEGATIVOS

O portal online da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apresenta uma tabela com os efeitos positivos e negativos dos medicamentos mais utilizados no tratamento do transtorno do pânico:

ISRS

• POSITIVOS: baixo risco de mortalidade, são bem tolerados e tratam a depressão caso esteja associado.

• NEGATIVOS: Efeito demorado (4-12 semanas) e podem piorar os sintomas no início.

BZD (BENZODIAZEPÍNICOS)

• POSITIVOS: início de efeito rápido e bem tolerado.

• NEGATIVOS: alta sedação e risco de dependência.

TRICÍCLICOS

• POSITIVOS: tratam a depressão associada.

• NEGATIVOS: risco de overdose e efeitos anticolinérgicos (inibem a produção de acetilcolina).

IMAO (INIBIDORES DA MONOAMINOOXIDASE)

• POSITIVOS: tratam a depressão associada.

• NEGATIVOS: há um forte risco de crises hipertensivas.

RIMA (INIBIDOR REVERSÍVEL DA MONOAMINOOXIDASE TIPO A)

• POSITIVOS: reduz as restrições na dieta.

• NEGATIVOS: Menos efetivo do que as IMAO’s.

ANTICONVULSIVANTES

• POSITIVOS: rápido efeito inicial.

• NEGATIVOS: baixo nível de evidência, podem causar dependência e sedação.

POR DENTRO DOS MEDICAMENTOS

O cérebro do paciente não sabe diferenciar a realidade da imaginação. Isso ocorre porque a produção de serotonina no órgão é menor, o que contribui para que a pessoa crie uma nova realidade para sua vida e passe a acreditar nela como verdade absoluta.

A medicação é muito relativa, pois depende do perfil do paciente e do diagnóstico de cada caso. A princípio, os medicamentos mais indicados são exatamente os antidepressivos, que geralmente causam algum efeito colateral. Os remédios mais indicados são os chamados ISRS (Inibidores Seletivos dos Recaptadores da Serotonina). Eles são responsáveis pela operação dentro da fenda sináptica, que existe entre os terminais dos neurônios, chamados de botões sinápticos.

Pelos efeitos calmantes, a sertralina seria o remédio mais indicado, segundo a psicoterapeuta Fátima Dutra. Também são utilizados o relapax, o clonazepam, o lorazepam, o rivotril, o bromazepam, o lorax, o lexotam e o frontal. Em alguns casos, o uso de um ansiolítico para ‘abortar’ as crises é o recomendado.

INFLUÊNCIA NA DECISÃO

As medicações utilizadas no tratamento da síndrome do pânico são as mesmas prescritas para a depressão. Os antidepressivos utilizados têm uma função importante na melhora da condição neuronal, atuando como uma “vitamina” para o cérebro.

Esses remédios possuem a função de recuperar a serotonina para que, ao invés do pânico, a pessoa apresente bom humor mesmo diante de situações difíceis, acorde bem pela manhã e leve o dia com disposição e pensamentos positivos, ao contrário de causar a depressão.

A VIDA COM REMÉDIOS

O transtorno do pânico, em sua maioria, nunca está sozinho. Em muitos casos, pode estar associado a outras patologias como a bipolaridade, por exemplo. Dessa maneira, o tratamento é longo, e, em alguns casos, para a vida inteira. Para ter uma boa recuperação e eficácia nos resultados, o psiquiatra Mário Louzã explica ser necessário o uso da medicação por, no mínimo, um ano após o controle total dos ataques de pânico.

CIÊNCIA DO FUTURO

Um estudo dirigido por um grupo de pesquisadores brasileiros do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e do Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Neurociências Aplicados da Universidade de São Paulo (USP), foi publicado pelo The lnternational Journal of Neuropsychopharmacology. Nele. foram descobertos os benefícios do tratamento para a síndrome do pânico com o uso dos canabinoides, substâncias presentes na maconha. A pesquisa investigou os efeitos dos canabinoides naturais sobre as mudanças comportamentais induzidas em ratos na presença de um predador – um gato vivo -, simulando modelos de respostas diante de uma crise de pânico. A conclusão sugere que o segredo é o tratamento à base do sistema endocanabinoide, trazendo a sensação de “paz” e tranquilidade para o paciente, após algumas baforadas. Novos estudos estão sendo feitos para comprovar ainda mais a utilidade dessa propriedade terapêutica da erva.