EU ACHO …

INSEGURANÇA JURÍDICA

Há que incentivar o ensino de economia nas escolas de direito

Em sua obra A Riqueza das Nações (1776,) Adam Smith mostrou o papel da segurança jurídica na prosperidade. No passado, disse ele, reis confiscavam bens, levando as famílias a se proteger do esbulho enterrando o patrimônio. Com a independência do Judiciário, as poupanças passaram a ser depositadas em bancos, de forma segura. Hoje, cabe aos juízes garantir respeito aos contratos e aos direitos de propriedade, o que assegura as condições para o investimento e a assunção de risco. Incentiva-se, assim, a geração de emprego, renda e riqueza.

Nem sempre, todavia, o nosso Judiciário exerce bem esse papel. Juízes, que por vezes não entendem corretamente como funciona economia, emitem sentenças que espalham incertezas e turvam o ambiente de negócios. Na mesma linha, membros do Ministério Público (MP) interferem negativamente na atividade econômica. No afã de exercer a missão de “defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”, a eles atribuída pela Constituição, procuradores tomam decisões equivocadas e viram fonte de insegurança jurídica.

Por exemplo, um procurador deu prazo de trinta dias úteis ao governo de Goiás para que estudasse tributar a exportação de grãos, a pedido da Federação das Indústrias. O respectivo imposto é de competência federal, além de ser atualmente inaplicável. Pela regra universal, incorporada ao direito brasileiro, não se oneram vendas ao exterior, dado que haverá tributação no país de destino. A dupla tributação prejudicaria os agricultores.

Decisão do Superior Tribunal de Justiça, corroborada em liminar do Supremo Tribunal Federal, manteve a retomada da concessão da Linha Amarela pela prefeitura do Rio de Janeiro. Autorizado o cancelamento pela Assembleia Legislativa, o prefeito usou retroescavadeiras para destruir cancelas e cabines de cobrança de pedágio. Por muito tempo, isso inibirá a participação de empresas privadas em leilões de concessões no Rio.

No apagão de energia elétrica do Amapá, houve lamentáveis intervenções do Judiciário. Um juiz federal determinou que os prejudicados teriam direito a receber mais duas parcelas do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso. O magistrado não se ateve ao fato de que existe limite à expansão do gasto público.

Menos de uma semana depois, o mesmo juiz suspendeu, por um mês, as diretorias da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Não percebeu que as instituições atuam em outros estados nem os riscos da acefalia no sistema elétrico nacional provocados por sua decisão.

Casos como esses realçam a necessidade de rever os currículos das escolas de direito. É preciso acelerar o trabalho de algumas delas na preparação de seus alunos para entender conceitos econômicos fundamentais. Isso já é norma há várias décadas nos Estados Unidos. A disciplina direito e economia precisa integrar a grade das faculdades que bem preparam futuros operadores do direito.

*** MAILSON DA NÓBREGA        

OUTROS OLHARES

AS MULHERES E O VINHO

A atividade de sommellére no Brasil é marcada por profissionais em grandes restaurantes e distribuidoras do País. As poucas mulheres que chegam ao topo da profissão, no entanto, enfrentam diariamente os fantasmas do machismo

“Você vem junto com a garrafa?” A cantada direcionada a quem trabalha profissionalmente com vinhos é barata – ou seja, inversamente proporcional ao preço das bebidas em questão. É também apenas uma das frases mais ouvidas pelas mulheres que atuam como sommeliéres – responsáveis pela carta de vinhos de um estabelecimento ou sugestão de harmonização para um cliente. “Nós não estamos sempre bêbadas ou bebemos o dia inteiro em uma festa infinita. como alguns imaginam”, explica Cibele Siqueira sommeliere da Wine, clube de assinaturas de vinhos. O trabalho é sério, mas ainda dominado pelos homens em todo o mundo.

No Brasil, foi no final da década de 1990 que as mulheres começaram a surgir e se destacar nesse mercado. A demora é decorrência da complexidade do cargo – e do investimento em tempo de estudo e alto custo da preparação. “Os cursos e as certificações são caros. Quando comecei, precisei me mudar para São Paulo para estudar”, afirma a curitibana Debora Breginski, sommeliere que começou a carreira aos 18 anos no restaurante Fasano. Uma das pioneiras no País, ela foi diretamente guiada pelo maior profissional brasileiro e um dos melhores do mundo, o sommelier Manoel Beato.

Debora conta que tem um paladar aguçado desde pequena. “Quando a avó pedia para buscar temperos na horta da família, reconhecia as plantas somente pelo olfato. No começo pensei em ser perfumista, mas só existiam cursos na França. Daí um amigo disse que existia a profissão de sommelier”, diz. Ela conta que teve uma educação bastante feminista e não pensou que a escolha da profissão seria um problema, mas a primeira barreira veio do pai, que não queria bancar aquele tipo de educação. Já em São Paulo, não conseguiu se inscrever em um curso de formação da Associação Brasileira de Sommeliers do estado e recebeu uma dica: “Se você estiver trabalhando em algum restaurante e for recomendada, quem sabe conseguimos te incluir na turma”, relembra.

CANTADAS

Foi assim que ela apareceu na porta do restaurante Fasano em São Paulo e deu de cara com o sommelier Manoel Beato. Contou sobre o seu olfato apurado e sobre esse sonho. “Acho que ele ficou chocado com essa abordagem Eu havia acabado de completar 18 anos e não tinha nenhuma formação”, lembra. Com a conquista do estágio garantido, passou a trabalhar de smoking, peça que conseguiu em uma alfaiataria após adaptar uma peça infantil masculina. Demorou até poder usar vestido no trabalho. Ouviu piadinhas e sofreu com as cantadas. “Eu era uma menina na época, não tinha maturidade ou jogo de cintura”, diz. A paciência chegou ao limite quando um cliente a chamou de “fogosa”. “Quero que você guarde essa garrafa aqui no restaurante, porque a sua temperatura deve ser mais alta do que a minha”, teria dito o homem.

Quando é convidada para realizar um trabalho, sua expertise é sempre comparada à de homens com menos experiência e estudo. Com mais de vinte anos de Fasano, centenas de certificados, vivências no exterior e o cargo de professora no Centro Europeu, Debora diz que pode se dar ao luxo de recusar trabalhos, mas não é isso que acontece com profissionais que estão começando. É o caso de Ana Carla Wingert de Morais, advogada que começou a falar de vinhos nas redes sociais por hobby há cerca de quatro anos. Hoje, como sommeliere, decidiu lançar um espumante próprio. Jovem e atraente, ela evita publicar fotos de si mesma no Instagram e foca nos rótulos das garrafas para evitar o assédio. “Tenho medo de perder o controle sobre a minha marca”, diz. Ela conta que com uma profissão graças a uma confraria de vinhos só para mulheres, mas nem a exclusão do sexo oposto foi sinónimo de liberdade. Seu namorado na época tinha ciúmes e dizia que os outros homens não estariam interessados em ouvi-la sobre vinhos, e que iriam ao seu local de trabalho apenas para seduzi-la. As mulheres que participavam do grupo também tinham que ser “autorizadas” por seus maridos a frequentá-lo. “Achei estranho porque quando comecei a fazer eventos para ambos os sexos, o grupo feminino não compareceu”, explica.

A grande preocupação das profissionais é sofrer algum tipo de represália ou divulgar o assédio dando nome aos seus agressores – uma grande parte é de profissionais que as empregam. Uma das mais famosas e importantes sommeliéres do País, Alexandra Corvo, revela que já sofreu diversos tipos de assédio. tanto moral como sexualde “praticamente todos os locais em que trabalhei” e ouvia sempre a frase: “Concordo com você porque você é bonitinha”. A invalidação da profissional é frequente. Já Gabriela Monteleone, responsável pelas bebidas do Grupo DOM, diz que a dúvida sobre sua capacidade profissional vemde homens e mulheres, mas que acontece pouco e não é explícita. ”Sei que acontece, mas nunca aconteceu comigo”, afirmou. Para Debora Breginski, a falta de apoio entre as próprias profissionais também é um problema. “Percebo que há uma rixa entre as mulheres”, diz. Cibele Serqueira defende ainda união para defender a categoria. Ela diz que não é “normal” passar por esse tipo de situação e que é preciso denunciar os culpados. “As coisas mudaram, agora nós podemos falar”,diz. Um brinde a essas mulheres cada vez mais poderosas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE DE RESTAURAR RELACIONAMENTOS

Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mateus 5.9).

A paz é sonho de consumo em um mundo encharcado de conflitos. No final de cada guerra, erguemos um monumento à paz, mas já começamos os novos investimentos para o próximo embate. O mundo fala sobre paz, mas gasta bilhões de dólares em arsenal nuclear. Vivemos numa sociedade marcada pela guerra entre as nações e pelos conflitos dentro das famílias. Escasseia-se a paz e agigantam-se as tensões. A violência tomou conta das ruas, e as agressões são constantes até dentro dos lares. Vemos, com profunda tristeza, pais lutando contra os filhos e filhos matando os pais. Nessa sociedade que cava cada vez mais abismos nos relacionamentos, somos chamados a construir pontes de aproximação. Jesus disse que bem-aventurados são os pacificadores porque eles são chamados filhos de Deus. Recebemos de Deus o ministério da reconciliação. Em vez de semear contendas, devemos lutar pelo fim dos conflitos. Em vez de jogar uma pessoa contra a outra, devemos aproximá-las. Em vez de semear a discórdia, devemos trabalhar pela cura dos relacionamentos. É quando somos agentes da paz que encontramos a felicidade. É quando agimos como pacificadores que somos reconhecidos como filhos de Deus. O monumento da felicidade não é erguido com ódio, mas levantado com a argamassa do amor.

GESTÃO E CARREIRA

SESSÃO DE TERAPIA

Empresas turbinam iniciativas de saúde mental e bem-estar para os colaboradores

O clássico Feitiço do Tempo, de 1993, transformou em ícone o repórter de TV Phil Connors, personagem interpretado pelo não menos cultuado Bill Murray. No longa, o “homem do tempo” viaja para o distrito de Punxsutawney, na Pensilvânia, para a cobertura do Dia da Marmota, um festival típico dos Estados Unidos e do Canadá celebrado anualmente em 2 de fevereiro. Mas ele se vê preso em uma armadilha temporal, condenado a viver o mesmo dia em uma espécie de loop, infinitamente – ou até que se dê conta de que é preciso dar um basta às suas atitudes arrogantes.

O Dia da Marmota virou sinônimo de dias rotineiros e repetitivos, uma situação que, para milhares de pessoas, reflete com exatidão esses tempos de pandemia. Cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU) de meados de abril indicavam que 4,5 bilhões de pessoas estavam obrigadas – ou seguiam recomendação – a ficar confinadas em suas casas.

Esse cenário cobra um preço: aumento de casos de depressão e ansiedade, sofrimento com a solidão ou o excesso de convivência familiar, medo excessivo de perder o emprego ou contrair a covid-19, dificuldades para dormir ou conciliar trabalho com os cuidados da casa e dos filhos pequenos tornam-se realidade comum. E, claro, dias que serepetem sem previsão de mudança no horizonte – ainda mais no caso do Brasil. “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante”, afirmou em 14 de maio Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Um estudo do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) com 1.460 brasileiros apontou, com base em duas pesquisas realizadas em março e abril, que o percentual de pessoas com estresse agudo passou de 6,9% para 9,7%; com depressão, de 4,2%, para 8%; enquanto para os quadros de ansiedade aguda o índice subiu de 8,7% para 14,9%. Em situações normais, a ansiedade e a depressão já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, segundo dados do instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

No Brasil, as empresas ligaram o sinal de alerta. Os cuidados com a saúde mental e o bem-estar dos colaboradores já eram uma tendência que ganhava corpo em anos recentes, com políticas estruturadas pelos departamentos de Recursos Humanos. ”Com a pandemia, isso se intensificou. Várias empresas montaram equipes de gerenciamento de risco que incluem iniciativas nesse sentido. A qualidade de vida dos colaboradores entrou de vez na pauta”, avalia o sócio-diretor da consultoria Fox Human Capital, Sócrates Melo. A face mais evidente dessas iniciativas são os serviços de apoio psicológico, que em tempos de crise sanitária migraram para o ambiente virtual. A empresa de energia Engie Brasil, por exemplo, implantou o Programa de Apoio Pessoal logo no início da pandemia, que inclui atendimentos jurídico, financeiro e psicológico, dentro do esforço para levar o bem-estar aos 3,5 mil colaboradores e familiares. Em abril, foram 373 atendimentos, sendo a metade para orientação psicológica.

Em pesquisas de acompanhamento do estado emocional dos funcionários, as mulheres se mostraram mais vulneráveis, com índices de estresse elevados. “Os dados nos levaram a fazer mais acompanhamentos individualizados e reforçar com os líderes a necessidade de interações mais próximas com as equipes”, diz a diretora de Pessoas e Cultura Simone Barbieri. A importância dos programas corporativos voltados aos cuidados emocionais dos funcionários é crescente e pode ser medida pela proliferação das plataformas online de terapia, como Zenklub e Vittude – ambas com braços corporativos em franco crescimento.

A prevenção é o melhor remédio e isso se reflete também em iniciativas diversas, que vão além de sessões de terapia com profissionais. As ações variam em forma e conteúdo. Muitas empresas apostaram na montagem de cartilhas para orientar os funcionários sobre atitudes que podem parecer simples, mas que ajudam na melhora da qualidade de vida na quarentena: como montar uma rotina em casa, como conciliar trabalho com afazeres domésticos e até mesmo a importância dos momentos de lazer.

É o caso do Nubank, que colocou os mil funcionários em home office em 12 de março e enviou todo o equipamento necessário (computadores, monitores e cadeiras) para que eles trabalhem com mais conforto. A adoção de jornadas flexíveis é outra aposta, como mostra a startup Pipefy, que anunciou que vai aderir ao home office até o final do ano e os funcionários terão liberdade para optar se querem trabalhar de casa ou do escritório. Happy hours virtuais. aulas de yoga e meditação, cursos de culinária e competições internas também fazem parte do rol de ações que vêm fazendo sucesso entre os colaboradores de diversas empresas na pandemia.

As medidas. entretanto, podem se tornar inócuas sem o envolvimento das lideranças. Com incertezas sobre o rumo da crise sanitária, da economia e dos impactos na própria empresa onde trabalham, os colaboradores estão mais ansiosos e é necessária a presença ativa dos gestores para tranquilizar a equipe. “O gestor precisa estar mais próximo do que nunca da equipe para entender como cada um está lidando com essa situação. As realidades são diferentes: há os solteiros, os casados com filhos, aqueles com pais idosos. Cada um precisará de um suporte diferente”, diz Melo.

Ao aportar R$ 4,5 milhões na Vittude, em novembro de 2019, o fundo Redpoint eventures já vislumbrava a importância crescente dos cuidados com a saúde mental nos próximos anos, com a tese de que a empresa poderia ser tornar a Gympass da terapia corporativa – em um modelo semelhante no dessa startup de “assinatura de academias”, em que as empresas contratam o serviço como benefício aos colaboradores. Isso mostra que o combo “saúde mental, bem-estar e qualidade de vida” dos colaboradores veio para ficar – a pandemia só intensificou essa tendência. Nesta reportagem, reunimos algumas iniciativas que já vinham sendo adotadas, mas foram digitalizadas nesse tempo de trabalho remoto, e outras tantas que foram desenhadas para aliviar as aflições dos colaboradores emtempos de covid-19. “O período é difícil. As pessoas sentem falta do convívio no escritório e os dias são muito parecidos. Parece, de fato, o Dia da Marmota”, diz o número 2 do LinkedIn na América Latina, Milton Beck, uma das empresas que ilustram esta reportagem.

BRK AMBIENTAL:

GRUPOS CUSTOMIZADOS AMPLIAM CONEXÕES

Ao acionar o comitê de crise da BR.K Ambiental, no início de março, a CEO Teresa Vernaglia, 55 anos, tinha duas preocupações em mente: garantir a continuidade dos serviços de coleta e tratamento de esgoto e abastecimento de água dessa que é uma das maiores empresas privadas de saneamento do pais, sem esquecer da segurança e do bem-estar dos colaboradores em meio à pandemia. Os desafios eram grandes. Pela própria natureza do negócio, apenas 1,7 mil dos 5 mil funcionários foram colocados em home office. Em meio a um turbilhão de notícias – e fake news sobre a covid-19 -, a comunicação tem sido peça fundamental para ajudar os funcionários a lidar com o que Teresa chama de “caldeirão de emoções e incertezas”. “Nos pautamos pelas diretrizes da OMS e do Ministério da Saúde e apostamos em uma comunicação oficial e qualificada para tranquilizar os funcionários. Envio áudios semanais para toda a companhia por WhatsApp”, diz. A empresa contratou a psicóloga Gisela Castanho, ainda no início da pandemia, para um encontro com 15 gestores, para explicar aspectos da liderança remota e do impacto emocional do confinamento nos funcionários. “Nas conversas, percebemos que o ser humano até se adapta a novas situações. Mas as pessoas deixaram escapar que tinham problemas em casa”, diz a gerente de RH Lia Mors, 40 anos. Para ajudar os colaboradores a desabafar sobre os temas que mais os afligem nesse período, a BRK apostou em sessões de apoio emocional virtuais e customizadas com a psicóloga. Os funcionários são divididos em grupos, trocam experiências e recebem orientações da especialista. Já houve encontros apenas com pais e mães com crianças de O a 7 anos e de 8 a 12 anos, com aqueles que moram sozinhos, com casais e com mães solteiras – os grupos são sugeridos pelos próprios funcionários. Já foram organizados 14 grupos temáticos, e os encontros virtuais reúnem, em média, 25 pessoas. Além do apoio psicológico e da troca de experiências os encontros geram redes de apoio a conexão entre os funcionários. Os solteiros já criaram um grupo de WhatsApp e organizaram happy hours virtuais por conta própria. “O próximo grupo tratará de depressão, que é um tema que começa a surgir”, diz Lia. A BRK também criou a iniciativa Viva Bem, estendida a família dos colaboradores, onde é possível acessar orientação financeira, psicológica, dicas de nutrição etc. A CEO Teresa Vernaglia ainda não participou das seções. “Limpar a casa tem sido uma boa terapia. Minha meta de produtividade é limpar o banhe iro em menos tempo e com a mesma qualidade”, brinca. A jornada de trabalho de 10 ou 12 horas se manteve intacta, somada a novas tarefas, como cozinhar, assistir a seriados e ajudar o filho Gabriel, de 13 anos, com o ensino à distância. “Eu também trouxe meu pai, que tem 85 anos, para ficar conosco nesse período. Fazia anos que não me sentava à mesa para tomar café, almoçar e jantar com marido, filho e pai. Tem sido ótimo”, finaliza.

OLX:

DA ERGONOMIA AO CONTROLE DO ESTRESSE

Dias depois de fechar as portas dos escritórios de São Paulo e do Rio de Janeiro, em 13 de março, a plataforma de compra e venda OLX realizou uma pesquisa interna com seus 750 colaboradores no Brasil, com o intuito de detectar quais eram os principais desafios do trabalho remoto. Embora o home fosse uma realidade na empresa, a modalidade se restringia a ou dois dias da semana e para algumas equipes. O levantamento mostrou que os dois principais problemas estavam relacionados a temas ligados a bem-estar e saúde mental: a falta de uma estação de trabalho adequada e a gestão da ansiedade e do estresse. A partir da descoberta, a empresa adotou uma série de ações. Embora todo o material de trabalho (como notebook, celular, acessórios de TI, modem de internet) já tivesse sido disponibilizado nos dias pré-quarentena, muitos colaboradores se queixavam de trabalhar em cadeiras inadequadas. “O que fizemos foi emprestar 270 cadeiras do escritório, para melhorar o conforto e as condições de trabalho”, diz o CEO da OLX Brasil, Andries Oudsboorn, 43 anos. A empresa também apostou em uma série de iniciativas de bem-estar para ajudar a equipe a manter a cabeça no lugar nesse período. De um lado, organizou workshops virtuais com temas como produtividade no trabalho remoto e inteligência emocional. De outro, disponibilizou sessões de terapia gratuitas, individuais e em grupo, para os funcionários mais impactados no período de isolamento. Aulas de yoga, ginástica laboral e meditação e encontros virtuais entre os colaboradores, que incluem apresentações musicais dos funcionários que se arriscam nos instrumentos completam esse menu. Em quarentena no Rio de Janeiro, com os dois filhos, de 8 e 11 anos, Oudsboorn se adaptou bem à rotina de trabalho em casa, com o qual não estava acostumado. Para aliviar o estresse, intensificou o consumo de audiobooks e manteve a rotina de exercícios. “Montei uma academia em casa para treinar pela manhã. Comprei os equipamentos pela OLX”, brinca. A rotina de mais de dez horas de viagens semanais ficou para trás, mas os contatos com outras empresas, investidores e os familiares na Holanda, seu país de origem, se mantém por videoconferência. Épor meio desse tipo de ferramenta que ele se comunica, também com os 750 colaboradores, uma vez por semana, para esclarecer dúvidas e atualizar sobre o momento da empresa – em tempos normais, essa comunicação ocorre uma vez por mês. “Tem sido um momento de adaptação e dificuldade para todo mundo, com muitos fatores de estresse. Foi preciso investir mais em comunicação com a equipe”, diz. “Tivemos a conscientização de explicar para os gestores que não se trata de uma realidade normal. Eles precisam estar mais próximos dos funcionários e identificar se alguém tem um problema”.

LINKEDIN

CADA COLABORADOR É UM COLABORADOR

Permitir que o colaborador leve as crianças para o escritório em uma ou duas datas anuais já é uma tradição de diversas empresas brasileiras. No último dia 15 de maio, o LinkedIn resolveu inovar. No lugar dos pequenos, 140 pais e mães dos funcionários da filial brasileira dessa rede social puderam conhecer um pouco mais sobre a empresa e conversar com o diretor-executivo para a América Latina, Milton Beck, 57 anos. Tudo como manda o figurino atual: por videoconferência. “É muito comum que os pais dos funcionários não entendam exatamente o trabalho dos filhos no LinkedIn ou como ganhamos dinheiro. Passei urna hora e 40 minutos explicando um pouco sobre tudo isso. Mas o objetivo principal era trazer um pouco de leveza para esses tempos tão difíceis”, diz Beck. Esse tipo de iniciativa de “descompressão” se tornou um mantra para o LinkedIn nos mais de dois meses de quarentena. Os 300 funcionários trabalham de casa desde 12 de março, e as estratégias da empresa para tornar os dias menos difíceis tentam abranger as mais diferentes necessidades dos colaboradores. A pandemia, pontua Milton, escancarou realidades distintas: há solteiros sofrendo de solidão, pais com crianças pequenas que não conseguem manter a produtividade, colaboradores fazendo malabarismo para conciliar trabalho com cuidados a parentes idosos, e outros tantos ansiosos com a falta de perspectiva de um retorno à normalidade. “Não adianta ter um programa de bem-estar e saúde mental restrito, é preciso urna abordagem individual. Há problemas de solidão, ansiedade, vontade de voltar ao escritório. As pessoas reagem de modo diferente. Está pesado para muita gente”, diz. Para ajudar os funcionários a gerenciar o estresse e a ansiedade, a empresa reforçou o aconselhamento com psicólogos e terapeutas com atendimento online e 24 horas. Pais com filhos menores de 13 anos –   ou colaboradores com pais idosos e que não têm acesso a casas de apoio – podem optar por trabalhar em horários flexíveis, reduzir a carga de trabalho ou simplesmente tirar uma licença remunerada de um mês. “Fica a critério do colaborador escolher o que melhor se encaixa à sua realidade”, diz. Happy hours e bingo virtuais, reuniões temáticas (onde todos usam chapéu, uma camiseta da mesma cor ou levam um brinquedo) e até aulas de culinária com o time da copa estão no rol de atividades oferecidas no período. As reuniões com a liderança fazem sucesso. A cada 15 dias, o CEO global, Jeff Weiner, conduz apresentações para toda a organização – algumas já reuniram 10 mil pessoas. Milton ajustou a própria rotina. As caminhadas pelo bairro paulistano da Vila Madalena, onde mora, se restringem agora a visitas à padaria, e a academia foi substituída por uma bicicleta ergométrica recém-adquirida. O executivo tentou emular a rotina do escritório, com jornadas diárias de trabalho das 8h às 18h30. “Moro em um apartamento pequeno, com minha esposa e dois filhos adultos. Há uma briga por espaço – eu trabalho da mesa da sala e o maior problema é a banda larga. Se eu tenho uma videoconferência, ninguém pode assistir a filmes online”, completa. Os finais de semana são reservados para o lazer: um filme na Netflix, um jogo de cartas ou xadrez com os filhos.

TRANSFERWISE:

DE CLUBE DO LIVRO A AULAS DE CULINÁRIA

Antes mesmo do início da quarentena no estado de São Paulo, em 24 de março, a executiva Heloisa Sirotá, 36 anos, já comandava o time de dez pessoas da operação brasileira da empresa de meios de pagamento TransferWise de seu apartamento no bairro paulistano da Mooca. Em 13 de março, a empresa, com sede em Londres e escritórios em 14 países, determinou que os cerca de 2,2 mil funcionários globais passassem a trabalhar remotamente. Em quarentena com a filha Rebeca, de 5 anos, a general manager no Brasil teve de se ajustar a uma nova rotina, em que viagens a trabalho e a ida ao escritório deram lugar a videoconferências e ajuda com tarefas escolares. “Acordamos cedo, tomamos café juntas, e já começo a trabalhar, com reuniões diárias com as equipes de Londres e da Estônia. Tive de liberar mais TV e iPad para ela”, conta. Com um tempo dedicado a ajudar a filha nas tarefas escolares, Heloisa retoma o trabalho na parte da tarde, muitas vezes estendendo para depois do jantar, sobretudo atividades que exigem maior concentração. “Para relaxar, voltei a ler e arrisquei receitas na cozinha”, diz. A escolha pela culinária não acontece à toa. Essa é apenas uma das atividades de lazer oferecidas pela TransferWise para tornar menos difíceis os dias de confinamento das equipes espalhadas pelo mundo – mais de 70 nacionalidades compõem o time. Por meio da ferramenta Slack, os funcionários organizaram canais temáticos que reúnem praticantes de yoga, amantes de literatura e chefs amadores. Uma competição semanal de curtas-metragens de um minuto está entre as salas de maior sucesso na pandemia. Outra é um canal dedicado a pais e mães que trocam experiências sobre os desafios de conciliar trabalho e cuidados com os pequenos. “Houve desde o início uma preocupação efetiva da liderança em criar momentos de descontração, algo para quebrar a rotina e tirar o foco do trabalho. Era preciso garantir que a saúde mental estivesse em dia”, diz Catarina Cicarelli, 31 anos, responsável pela comunicação da TransferWise na América Latina. Mesmo antes da pandemia, a empresa organizava semanalmente o “fika”, uma tradição de origem sueca que nada mais é do que uma pausa para um café e para jogar conversa fora. No Brasil, a iniciativa foi tropicalizada para “Açaí Wednesday” e adaptada aos tempos de pandemia –   todas as quartas-feiras, a equipe pede açaí por delivery e conversa pelo Zoom. A única regra é não falar sobre trabalho.” Em um momento em que a gente não consegue ter atividades fora do escritório, é importante ter espaço para descontração, ter esses momentos de leveza, criar atividades em que a gente não fala só de trabalho”, diz Bruna Sandrini, 32 anos, responsável pela ouvidoria. A aposta no bem-estar dos funcionários também inclui um profissional de saúde mental à disposição para conversas telefônicas, onde os colaboradores podem desabafar sobre a ansiedade do confinamento. ”A ordem da liderança é dar o maior suporte possível e apostar em ações de bem-estar para que situações de estresse ou ansiedade não saiam do controle”, diz Heloisa.

BRQ DIGITAL SOLLJTIONS:

 LIDERANÇA NA LINHA DE FRENTE

A empresa sofrerá com a crise? O senhor prevê recessão? Será preciso demitir em algum momento? Os exemplos acima são alguns dos questionamentos recebidos pelo CEO da BRQ Digital Solutions, Benjamin Quadros, 52 anos, durante as lives quinzenais que reúnem até 600 colaboradores e que servem para “dar a temperatura” de como a empresa tem enfrentado a tormenta. Nosso setor não está sofrendo com a crise, estamos até contratando, mas percebemos um aumento ansiedade, com pessoas diretamente afetadas pela covid-19, pessimistas com a economia, preocupadas em perder o emprego”, diz. Colocar um time de 2,5 mil funcionários em trabalho remoto espalhados por cinco cidades não foi desafiador do ponto de vista operacional para essa empresa de serviços de transformação digital com 26 anos de mercado – muitos dos funcionários já faziam home office uma ou duas vezes por semana. Mas, para dar conta do que chama de “psicologia do confinamento”, a BRQ criou ou digitalizou uma série de iniciativas de saúde mental e bem-estar. Um comitê multidisciplinar com 30 pessoas foi montado para organizar ações e compartilhar resultados. Além de um canal de atendimento psicológico 24 horas, a empresa estruturou o “Coffee Time”, encontro virtual em que os líderes se reúnem com o time para conversar sobre a vida, a rotina em casa, a convivência com a família – em suma, temas que não sejam o trabalho. ”Dentro dessas conversas identificamos possíveis comportamentos depressivos ou ansiosos, e acionamos a área médica. As pessoas se sentem confortáveis para falar”, relata a gerente de endomarketing Lígia Marcondes. Treinamentos online ensinam o colaborador a ser mais produtivo na quarentena, controlar as finanças e manter a saúde mental ao isolamento. Na seara de saúde física, a empresa adotou serviços de telemedicina para todo o time, organizou uma campanha de vacinação contra a gripe e ofereceu aulas de ginástica ao vivo, o que inclui até um desafio fitness, estendido aos familiares. Para ampliar o bem-estar, criou o #juntosdigltalmente, um encontro de lazer semanal via Zoom com temas variados e que já contou com shows de integrantes do CPM22 e do Charlie Brown Jr. Os resultados são positivos. O engajamento dos colaboradores às diferentes iniciativas passou de 80%, no período pré-pandemia, para 96%. “Uma pesquisa interna de clima mostra que 50% dos funcionários reportam aumento de produtividade, e 45%, manutenção. Para 72%, houve melhora na qualidade de vida”, diz Quadros. A rotina do executivo também foi ajustada a essa realidade. O apartamento em São Paulo onde mora com a esposa e as duas filhas adolescentes ganhou um escritório e, para descontrair, aumentou o consumo de audiobooks (“sou um beavy user”) e das horas gastas na cozinha. ”A interação com a família melhorou muito. Mas também estou trabalhando sete dias por semana. Nunca fui muito regrado em horários, mas depois que decidimos abrir todas as reuniões de trabalho online para quem desejar participar aumentei muito a interação”, diz. “Na relação com a companhia, me sinto mais próximo do que nunca.”

NESTLÉ BRASIL:

EM BUSCA DO EQUILÍBRIO FISICO E MENTAL

Lançado em outubro de 2019, o Programa Especializado de Apoio ao Colaborador (PEAC) foi criado para prestar auxílio gratuito aos 30 mil funcionários da Nestlé Brasil com especialistas nas áreas jurídica, financeira, além de apoio psicológico para ajudar o time a li dar com problemas como estresse e ansiedade. Antes da pandemia, a média de atendimentos era de cerca de 50 por mês. De março para cá, entretanto, a demanda cresceu drasticamente com mais de 5 mil atendimentos e a inclusão de um canal aberto em que o funcionário e os familiares podem tirar dúvidas sobre a covid-19. O programa é apenas um exemplo de ação de suporte à saúde mental e ao bem-estar da indústria de alimentos em tempos de pandemia. “As mudanças nas vidas profissional e pessoal demandaram o uso da tecnologia como aliada para atravessar o atual momento. O que normalmente fazemos em seis meses ou um ano foi reduzido para poucos dias, na agilidade necessária para que as iniciativas fossem ampliadas e estendidas a todos os colaboradores”, diz o CEO, Marcelo Melchior, 53 anos. Nessa seara, a Nestlé Brasil adotou uma série de iniciativas digitais e serviços remotos para apoio aos colaboradores, com algumas estendidas aos familiares. Desde março, os funcionários – cerca de 20% hoje em home office – têm acesso a psicólogo e nutricionista via e-mail, WhatsApp ou Skype. Até então, os atendimentos eram presenciais. “De forma geral, as maiores preocupações são com a questão da ansiedade e sobre como lidar com esse período de imprevisibilidade e incertezas”, diz o vice-presidente de Recursos Humanos da empresa, o colombiano Enrique Rueda, 50 anos. Desde o início da pandemia, também está em curso o programa “Emoções Conectadas”, que envolve reuniões em grupos das lideranças, com a consultoria de psicólogos, par a ajudar os gestores a lidar melhor com esse momento de imprevisibilidade e incertezas e liderar os times à distância. Já foram capacitados 500 líderes, e a perspectiva é trinar mais 500 nos próximos dois meses. Com o app proprietário Meu Treino, a empresa incentiva uma rotina de atividades físicas e ginástica laboral por videoaulas. Há também aula de yoga online uma vez por semana, e-books que ensinam jogos para as crianças e o programa Mais Imunidade, que faz consultoria remota com nutricionistas sobre alimentação equilibrada e reforço imunológico. O programa já conta com mais de 900 participantes. Do home office em São Paulo (SP), onde mora, Melchior reorganizou a rotina para essa nova realidade. As manhãs são reservadas para os temas mais urgentes da operação, com uma reunião com os vice-presidentes e diretores para a tomada de decisões rápidas. As tardes são dedicadas para “pensar e trabalhar” com os times multidisciplinares em questões mais estratégicas, “olhando para o futuro”. “Além disso, faço exercícios diariamente, o que ajuda a manter o equilíbrio, e mantenho uma alimentação saudável. Conciliar alimentação equilibrada, atividade física e equilíbrio mental é importante nesse momento”, diz.

OUTRAS PRESSÕES E ANGÚSTIAS

THOMAS CARLSEN

COO & Founder da startup My Work

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL..

“Estou sempre tentando fazer reuniões online com os meus amigos. Toda semana tem uma reuniãozinha online. Passamos horas conversando. Isso ajuda bastante. O que ajuda também é que faço bastante exercício. Eu gostava muito decorrer no lbirapuera e ir à academia e tento manter essa rotina em casa.”

…E A DA EQUIPE

“As pessoas ficam nervosas quando veem outras pessoas sendo demitidas. Nós temos conseguido passar uma tranquilidade nesse sentido. Temos a sorte de esta, num setor que não está sendo tão afetado. Não haverá demissões. Ao contrário. Nosso plano é contratar”.

RODRIGO PIMENTEL

Diretor de e-commerce alimentar do GPA

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“Eu tenho lido sobre assuntos fora do meu escopo de trabalho. Também tenho visto séries na Netflix com a minha família, como This Is Us. Tento fazer coisas que me desconectem um pouco. Eu também adoro corrida. Já participei de duas maratonas em Nova York e várias outras provas de corrida pedestre em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então, durante o Isolamento social, tenho praticado corrida no condomínio onde eu moro, que é uma área grande, para manter minhas atividades físicas e desestressar.”

…E A DA EQUIPE

“No home office, a gente acaba perdendo o controle de quando parar de trabalhar. São muitas mensagens, e-mails, videoconferências…Eu tenho falado para o meu time sobre a importância do equilíbrio, de parar para almoçar, tomar um café, curtir a família ou passear com o pet. Eu acho que só de falarmos sobre esse assunto como nosso time já traz um certo alívio. Um dia desses, cancelei uma de nossas reuniões semanais. Para nós, são reuniões muito importantes, pois envolvem todo o time. A equipe ficou espantada, mas depois eles admitiram que isso permitiu que todos respirassem um pouco e fez muito bem. O que eu tenho feito é liderar pelo exemplo,”

ANNETTE DE CASTRO

CEO da Mallory

COMO ELA CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“Para mim, o home office tem sido excepcional. Tenho sorte de ser privilegiada. Moro em uma casa grande, uma chácara, e os meus filhos voltaram para casa. Estou no céu, não posso negar. Agradeço todo santo dia. Para todos, tem sido mais complexo. Obviamente, funcionamos em um home office não estruturado, mas forçado. Sem estruturas, sem disciplina, sem treinamento. Não é fácil, exige disciplina, exige fisicamente estruturas que muitos não tem em casa. Todos nós vamos ter de nos adaptar. Estou trabalhando muito mais do que antes. O home office veio para ficar. Mas a gente vai ter de se organizar ao longo do tempo. Temos cursos de home office, estamos adaptando cadeiras, problemas de internet sendo resolvidos. Não creio que vá substituir, mas veio para ficar.”

…E A DA EQUIPE

“A minha primeira preocupação é a saúde. E não é só a saúde física das pessoas afetadas pelo coronavírus, mas a psicológica. De repente, somos confrontados por um mundo em incógnita. Durante esse período, ampliamos férias coletivas para mantê-las em casa. Ficamos 51 dias com fábricas fechadas. Reabrimos com 50% da força de trabalho. A minha função foi passar tranquilidade. Fizemos lives, mantivemos o contato de comunicação em todos os níveis de uma forma muito mais ampla do que em qualquer outro momento da nossa história.”

AGENOR LEÃO

V.P. da Plataforma de Negócios da Natura

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“A pandemia gera primeiro um medo, e depois dá um prejuízo na sensação do tempo. A frequência teajuda muito. Essa é uma dica que tenho usado para mim. Então. manter uma rotina de acordar, me trocar e trabalhar. Acho que isso ajuda muito no processo de sanidade. Continuar com um ritmo na sua vida. A marcação do tempo é urna medida imprescindível para passar por um processo como esse. Cada Indivíduo vai viver isso de uma forma – o seu medo, a sua precaução e a sua rotina vão te ajudar nisso. Para mim, o engajamento com o trabalho, o propósito de manter ativo o negócio, é uma responsabilidade muito grande. Isso me motiva e mantém meu engajamento.”

…E A DA EQUIPE

“A meditação é uma das ações adotadas por mim e por muitas pessoas da Natura. Temos um serviço de meditação dentro do aplicativo das consultoras. levamos para países de língua hispânica e inglesa. Acreditamos que essa é uma ferramenta poderosa de bem-estar. Também criamos novas ações em parceria com startups que promovem serviços de atendimento psicológico por meio de telemedicina para os colaboradores. Tem uma questão bacana e importante nesse momento: o nosso negócio é um negócio de relação, e as relações precisam se manter frequentes pelos meios digitais.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – VI

COMO DOMINAR O PÂNICO

A combinação entre tratamento medicamentoso, acompanhamento profissional adequado e métodos terapêuticos alternativos é essencial na redução dos sintomas e tratamento do transtorno, proporcionando melhor qualidade de vida aos pacientes

Caracterizada por episódios de medo intenso que acarretam diversas reações físicas graves quando não existem motivos reais ou aparentes, a síndrome gera insegurança e prejuízos para o organismo, causando sensações como perda de controle diante das situações, ataques cardíacos e, até mesmo, sentir que está morrendo.

“Comecei a ter crises no ônibus, ao ir e voltar da escola. O sintoma predominante era a falta de ar. Depois, o coração começava a acelerar, as mãos ficavam suadas e dormentes. Sentia uma sensação iminente de morte”, conta Andreia Alves, de 37 anos, diagnosticada com a síndrome desde o ensino médio.

Embora não cause risco de morte, o transtorno afeta negativamente qualidade de vida dos pacientes, podendo chegar a casos extremos de agorafobia, que consiste no medo de sair de casa ou estar em público.

Dessa forma, afim de reduzir ou vencer as crises, aliar terapias alternativa e acompanhamento profissional, com diferentes técnicas e tratamentos, essencial para quem sofre com o transtorno do pânico. “Nada melhor do que um acompanhamento psicoterapêutico para que a pessoa entre mais em contato consigo e com sua história de vida e, assim, possa identificar padrões nocivos de comportamento que resultariam em doenças de ordem psíquica”, afirma a psicóloga Milena Carbonari.

CONTROLE A MENTE COM A MEDITAÇÃO

Praticar meditação diariamente faz com que o indivíduo se conecte com seu estado mental, além de focar no momento presente. A técnica do Mindfullness, que, segundo o palestrante motivacional e instrutor espiritual em yoga Giridhari Das, significa “estar consciente e ser capaz de experimentar um pensamento, sensação ou ação externa plenamente, com toda a atenção”, pode ser uma aliada durante as crises. Quando a mente está no futuro, desejando resultados por vir, ansiedades em relação às consequências são inevitáveis. “Essas ansiedades se acumulam e viram medo. O medo se acumula e vira pânico. Aprender a controlar a mente, em especial, focar no aqui e agora, é uma das chaves para gradualmente desativar possíveis crises de síndrome do pânico”, explica Giridhari.

Meditar ativa a região cerebral chamada córtex pré-frontal, associada ao comportamento e raciocínios mais complexos. Dessa forma, o desempenho do cérebro é elevado, fazendo com que o indivíduo

passe a ter mais foco e racionalidade para assumir o controle de pensamentos e ações em diversas situações do dia a dia.

“Ao se deparar com uma situação sem risco físico verdadeiro, é necessário respirar e relaxar seus músculos, ter consciência de que você pode e deve estar em completo controle de suas faculdades como batimento cardíacos respiração e pressão sanguínea. Deixe seu corpo se acalmar. Essa pode se a chave para superar muitos momentos de ira, medo, preocupação e ansiedade, estados mentais desprazerosos e perturbadores”, aponta Giridhari.

AJUDA DA PSICOTERAPIA

Segundo o psiquiatra Rafael Lourenço, as sessões de psicoterapia podem ser realizadas por psicólogos ou psiquiatras, preferencialmente com formação em psicoterapia cognitiva comportamental (TCC), modalidade psicoterápica que possui mais evidências científicas de sucesso clínico. Estudos demonstram que cerca de seis sessões já começam a trazer benefícios para o paciente.

“Os atendimentos costumam ocorrer com ambos sentados de frente, em mesa, ou poltrona, o que favorece pacientes ansiosos. Os objetivos são práticos, baseados em tarefas, e tanto o terapeuta quanto o paciente têm papel ativo”, explica o profissional.

As sessões ocorrem norteando o entendimento de que o transtorno do pânico tem como sintoma principal uma desregulação nos sistemas de alerta humano, ou seja, que existe uma interpretação catastrófica dos sintomas corporais relativos à ansiedade e medos condicionados. O objetivo da terapia é reduzir a hipervigilância dos sintomas e novas crises, compreender e corrigir a causa das interpretações distorcidas e, caso exista, a eliminação da agorafobia. Para isso, determinadas técnicas podem ser utilizadas durante as sessões. Segundo Rafael, algumas delas são:

*** PSICOEDUCAÇÃO: essa abordagem busca privilegiar a pessoa em vez do problema. “Neste momento, explicam-se as características do transtorno do pânico”, diz o psiquiatra. Com isso, tem-se a melhor assimilação dos comportamentos positivos e extinção dos não desejados, ressaltando orientações sobre atitudes eficazes a se adquirir para evitar o impacto da síndrome no ânimo e na qualidade de vida do paciente.

*** TÉCNICAS CORPORAIS: o objetivo é abreviar as crises. Dessa forma, técnicas de respiração diafragmática e de relaxamento muscular são ensinadas para controlar a respiração, tentando aliviar a tensão dos músculos, o que pode diminuir a ansiedade durante a crise.

*** TÉCNICAS COGNITIVAS: “elas buscam identificar e reestruturar pensamentos negativos automáticos que aumentam a ansiedade, como as sensações de medo, pensamentos catastróficos quanto aos sintomas físicos, desesperança e incapacidade de lidar com o pânico, por exemplo”, aponta o especialista.

*** TÉCNICAS COMPORTAMENTAIS: são as terapias de exposição que possuem fases. “Primeiramente, a interoceptiva, que consiste em provocar sintomas por meio de exercício físico (coração acelerado e falta de ar, por exemplo), estimulando o paciente a manter-se sem ansiedade”, explica o psiquiatra. Depois, parte-se para a exposição in vivo, na qual o paciente faz uma lista de locais que deixou de ir e coisas que deixou de fazer, além dos pensamentos automáticos e sintomas ansiosos que teve em experiências anteriores (ou mesmo somente ao pensar em frequentá-los). “O último passo é começar a visitar lugares que produzem ansiedade, ficando um tempo mínimo e, após um determinado período, aumentando-se o tempo. Por último, estimula-se a retornada completa dos locais frequentados”, descreve Rafael.

*** REDUÇÃO DA DE PENDÊNCIA FAMILIAR: é comum os pacientes passarem a sair apenas acompanhados. “O objetivo é que ele consiga voltar a sair sozinho, mesmo que por um tempo mínimo. Isso faz com que aumente a autoestima e restaure a autonomia do paciente”, finaliza o psiquiatra.

IOGA: CORPO EMENTE EM EQUILÍBRIO

Apesar de não ser um tratamento, terapia ou sistema de cura, praticar ioga traz efeitos benéficos para equilibrar o corpo e a mente. Durante uma crise de pânico, sintomas como falta de ar e taquicardia são comuns e a atividade trabalha exatamente fatores como esses, utilizando técnicas de respiração para que o nervosismo, o estresse e os pensamentos negativos sejam reduzidos.

FAMOSOS QUE POSSUEM O TRANSTORNO EM SUA HISTÓRIA DE VIDA

*** THAMMY MIRANDA, ator

Apesar de já ter superado a doença, ele já teve síndrome do pânico: “no meio de um jantar, eu tive certeza que ia morrer naquela hora, minha sensação era de desmaio. A partir daquele momento, fiquei com medo de sentir aquele medo outra vez. Passei três meses sem sair de casa. Eu não ia ao banheiro sozinho, uma empregada ia comigo e ficava do lado de fora enquanto eu tomava banho. Eu ficava com raiva de estar sentindo aquilo”, contou em entrevista para o programa Encontro, da rede Globo.

*** OPRAH WINFREY, atriz, apresentadora e empresária

“Durante um período conturbado de trabalho em 2013, Oprah Winfrey teve um ataque de pânico. Ela estava filmando O Mordomo da Casa Branca e fazendo diversas entrevistas com celebridades. “No começo, só me senti acelerada e meio adormecida, pulando de uma coisa para a outra e para a outra”, disse ela ao programa de notícias americano Access Hollywood. “Quando percebi (que estava tendo um ataque de pânico), pensei: “OK, se não me acalmar, vou ter um problema sério. “Estava no meio das dublagens. Lembro de fechar os olhos cada vez que virava a página, porque olhar para a página e para o texto ao mesmo tempo era estímulo demais para meu cérebro”.

*** MADONNA, cantora

A rainha do pop também declarou sofrer com as crises. Ela contou em uma entrevista que, mesmo após mais de 30 anos de carreira, sofre de ataques de pânico antes de subir no palco, por medo de decepcionar o público.

*** LUCAS LUCCO, cantor e ator

No ano de 2016, o cantor enfrentou a síndrome por alguns meses. Durante uma participação no programa Encontro, da rede Globo, Lucas desabafou sobreo transtorno que fez com que ele perdesse compromissos profissionais porque não conseguia mais sair de casa. “As coisas foram acontecendo e, quando eu vi, já estava desse jeito. Comecei a não conseguir ir aos shows e faltar às gravações da novela. Tinha medo. É uma doença, uma ferida que ninguém pode enxergar. As pessoas te olham e não conseguem ver nada além de um rosto triste. É difícil de expor, explicar. Parece que ninguém te entende. Por mais que as pessoas tentem definir o que está acontecendo com você, é muito pior do que acham. Hoje, estou muito bem”.