EU ACHO …

CONTRA O RACISMO, LEIS

Em 2006, quando eu ainda era chefe de sucursal do The New York Times no Rio, dois colegas amigos na matriz se casaram e decidiram passar sua lua de mel no Brasil. Feliz com a escolha, eu os ajudei a planejar o itinerário. Só que esqueci uma coisa: eles são negros (ele mais claro, ela de pele muito mais escura) e, quando entraram nos hotéis cinco estrelas onde ficaram hospedados, repetidamente foram interceptados pelos seguranças, que acharam que ela poderia ser uma garota de programa em companhia de um hóspede legítimo. Foi muito constrangedor, principalmente para eles, mas também para mim.

Fiquei pensando em meus amigos quando, depois do assassinato de João Alberto Silveira Freitas em Porto Alegre, o vice-presidente Hamilton Mourão respondeu dizendo que “no Brasil, o racismo não existe”. (Uma declaração curiosa, sendo que o próprio Mourão sustentou, em 2018, que a “malandragem é oriunda do africano” e que a indolência seria uma herança “que vem da cultura indígena” – asseverações que, para mim, são provas cabais da existência do racismo no Brasil. Horas depois, o presidente Bolsonaro conseguiu agravar ainda mais a injúria ao alegar que líderes do movimento pela igualdade racial “instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos”.

Pronto. A pergunta que me inquietava há 14 anos estava respondida. Se um casal de negros estrangeiros bem-sucedidos pode sofrer discriminação, como fica o negro brasileiro de classe menos privilegiada? O caso de Belo Freitas, espancado até a morte em um supermercado, mostra que em nenhum momento ele está seguro. Pior: as máximas autoridades do país vão negar a existência do fenômeno que resultou na morte dele e condenar a indignação de quem não consegue engolir o sapo amargo do racismo.

Quando, em maio, George Floyd foi asfixiado por um policial ajoelhado no pescoço dele, seu assassinato foi o estopim de um movimento multirracial e multigeracional que persiste até hoje e teve um papel importante nas eleições do dia 3. Ainda é muito cedo para saber se o assassinato do Beto terá um impacto semelhante no Brasil. Mas só um cego – ou alguém que simplesmente insiste em não reconhecer a realidade que está à frente de seus olhos – pode argumentar que o racismo não faz parte nenhuma da vida brasileira.

Há 40 anos, escrevi um perfil de Jorge Amado para a revista Newsweek, e tive o prazer de passar um par de dias conversando com ele no quintal de sua casa em Itapuã, tocando numa extensa gama de assuntos que incluía a raça. Num determinado momento ele me disse o seguinte: “os Estados Unidos têm milhões de pessoas que não são racistas, mas são um país racista. O Brasil tem milhões de pessoas que são racistas, mas não é um país racista”.

Respeito a opinião do mestre baiano. Mas discordo. Nossos dois países são racistas porque sofrem do mesmo pecado original: temos sociedades erguidas à base da escravidão e esse fato inegável deixou rastros que sentimos ainda hoje.

Todos nós: brancos, pretos, indígenas e asiáticos. Claro que os desdobramentos em cada país foram diferentes ao longo dos séculos, mas a mancha persiste.

Numa tentativa de sustentar sua posição, Mourão citou seu espanto, quando jovem, ao ver de perto a segregação racial nos Estados Unidos. Ele está certo. Somos da mesma geração e tenho lembranças vívidas da primeira vez que viajei ao sul do meu país, ainda guri, e vi banheiros públicos, restaurantes, salas de espera em rodoviárias e recepções de hotéis com o letreiro “Aqui só entra branco”. Era uma iniquidade, e o mesmo fenômeno existia no norte de uma forma mais sutil. Era assim, mas já não é. Talvez as leis não consigam mudar o coração das pessoas, mas, quando aplicadas, mudam seus comportamentos, sim. A legislação proibindo a discriminação racial no emprego, na educação etc. teve – e ainda tem – um impacto fundamental. Já tivemos um presidente negro, daqui a um mês vamos empossar uma vice negra e o número de deputados negros é equivalente à porcentagem de negros na população. Mais importante ainda, temos uma enorme classe média negra: Matilde Ribeiro me disse uma vez que era a coisa que mais a impressionou quando foi a Washington como ministra.

Mas a luta pela igualdade social e racial não termina nunca. O importante é empreender a luta e não desistir. Espero que milhões de brasileiros de boa vontade tenham assistido ao vídeo do Beto sangrando e gritando: “Tô morrendo”. Mas só aderindo à luta podemos todos assegurar que a morte dele não foi em vão.                                           

LARRY ROHTER – é jornalista e escritor. Ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

MACHISMO MILENAR

Fóssil de ‘mulher caçadora’ descoberto no Peru contraria teses sexistas sobre divisão do trabalho. Não eram apenas os homens que caçavam milênios atrás

A ideia errônea de que a mulher é inferior ao homem e menos apta para atividades braçais está presente na sociedade há milênios e o machismo está longe de ser uma construção social contemporânea. Porém, ainda que a diferença física entre os gêneros seja justificada pela ciência, novas evidências históricas comprovam a participação das mulheres em atividades de plantio, caça e fabricação de lanças e outros objetos num passado longínquo.

Arqueólogos da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, publicaram, recentemente, um curioso estudo na revista Science Advances no qual contrariam a ideia de inferioridade feminina apoiados na descoberta inédita do túmulo de uma mulher caçadora no Peru. Graças a uma nova técnica que analisou proteínas presentes no esmalte dos dentes recuperados, os especialistas concluíram que o fóssil tem cerca de nove mil anos e foi enterrado junto com dezenas de instrumentos de caça, como pontas de lança e pedras afiadas. A mulher encontrada era jovem e tinha entre 17 e 19 anos quando foi sepultada.

Para Randy Haas, antropólogo e chefe da expedição, os indícios históricos que conhecemos retratam a divisão do trabalho de forma extremamente sexista, onde o homem é responsável pela caça e a mulher por coletar comida e cuidar das crianças. “Acreditamos que essa descoberta é particularmente oportuna porque se relaciona com as conversas atuais sobre igualdade de gênero”, disse Haas, via comunicado. “A leitura das práticas de trabalho em sociedades antigas são baseadas em gênero, o que pode levar algumas pessoas a acreditar que desigualdades sexistas ou salariais em vigor na sociedade atual são coisas naturais”, destaca Haas.

Tomados pela curiosidade, a equipe aprofundou as buscas para saber se encontravam mais “tesouros” na região e chegou a consultar informações de sepultamentos realizados no final do período Pleistoceno e início do Holoceno – entre 2 e 11 milhões de anos atrás – tanto na América do Norte como na do Sul. Dos quase 429 esqueletos analisados, apenas 27 apresentavam relação com ferramentas de caça: 15 homens e 11 mulheres. O fato desmistifica a participação feminina na caça e pode mudar os rumos das pesquisas arqueológicas. “O pensamento dos próprios especialistas que trabalham com escavações é tendencioso. Sempre acham que os equipamentos de caça são de homens e nem cogitam as mulheres”, diz Edison Oliveira, professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Pernambuco. “Esse estudo pode mudar a maneira de tratar as descobertas científicas de um modo geral”.

SISTEMA PATRIARCAL

O século XIX é tido como o ponto de partida para a “ciência moderna”, pois sistematizou diversas áreas do conhecimento, como sociologia, antropologia e história. Para Diego Amaro, historiador do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, o período é importante porque marcou a construção de estruturas sociais que combatemos hoje, como o próprio machismo. “A maioria das teses sobre descobertas são sexistas porque nossa ciência nasceu durante o patriarcado, com o homem sendo a referência, e isso influencia no pensamento”, diz.

O patriarcado é apontado como principal responsável pela ideia de superioridade masculina, pois estava em vigor durante o desenvolvimento científico no século XIX. As mentes pensantes da época eram homens e não cogitavam que uma mulher pudesse ter sido uma governante ou até liderado uma tribo porque faziam parte de sociedade em que o homem era o centro de tudo. “O nosso olhar sobre o passado é baseado naquilo que vivenciamos no presente”, destaca Diego Amaro. Agora, o objetivo da equipe de arqueólogos é continuar as escavações para entender como as divisões de trabalho por gênero mudaram tanto em diferentes épocas.

NO TEMPO DOS NEANDERTAIS

Embora a ciência tenha feito descobertas significativas acerca de como viviam os povos pré-históricos, os mistérios parecem não ter fim. Uma pesquisa da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos revela uma enorme semelhança entre alguns hábitos da sociedade atual e os dos grupos neandertais que povoaram a Terra milênios atrás. Descobriu-se que eles forneciam, por exemplo, alimentos sólidos aos bebês apenas depois de 6 meses de vida, como fazemos hoje. As mães sabiam que as crianças não poderiam consumir nada além de leite materno. Arqueólogos afirmam que nossos parentes neandertais também se preocupavam com questões básicas para montar suas comunidades, como locais que tivessem água, comida e boas condições clim

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE DEZEMBRO

A CURA POR MEIO DA PALAVRA

Palavras agradáveis são como favo de mel: doces para a alma e medicina para o corpo (Provérbios 16.24).

As palavras agradáveis são terapêuticas. Fazem bem para a alma e para o corpo. Curam emocional e fisicamente. Um favo de mel renova as forças e dá brilho aos olhos. Palavras agradáveis levantam os abatidos, curam os aflitos, consolam os tristes e tonificam a alma daqueles que estão angustiados. Uma palavra boa, oportuna, que transmite graça aos que a ouvem, é medicina para o corpo. É um tratamento intensivo para os enfermos que a recebem. Nossa língua precisa estar a serviço da cura, e não do adoecimento. Precisamos ser agentes do bem, e não executores do mal. Nossas palavras precisam transportar esperança, e não desespero. Precisam ser veículos de vida, e não condutores de morte. Precisam ser medicina para o corpo, e não veneno que destrói a vida. Jesus usou de maneira singular a cura pela palavra. Sempre que alguém machucado pela vida e buscando socorro se aproximava dele, saía com o coração aliviado e a alma liberta. As palavras de Cristo eram bálsamo para os aflitos, tônico para os fracos, gotas de esperança para os cansados e luz de vida para os que andavam sem rumo. Precisamos aprender com Jesus. Nossas palavras podem dar sabor como o mel e podem curar como o remédio. Podem trazer deleite e restauração, cura e alegria.

GESTÃO E CARREIRA

ESGOTAMENTO TOTAL

Uma pesquisa inédita indica que um em cada cinco trabalhadores brasileiros já sofre de Burnout, a síndrome causada pelo estresse permanente do trabalho

Chega uma hora em que o estresse crônico com o trabalho não passa. A sensação de falta de energia ou de exaustão é constante. Todos os pensamentos sobre a vida profissional são negativos, cínicos, distantes. Um sentimento de impotência toma conta, e a produtividade vai lá para baixo. Não se trata de “mimimi” de jovens despreparados para os rigores da vida adulta, tampouco de um esgotamento que só atinge altos executivos de agendas extenuantes. A descrição acima é a do “burnout” (“queima total”, numa tradução livre), um mal de nossos tempos que, neste ano, passou a ser classificado como síndrome pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e já atinge quase 20 milhões de brasileiros, como indica uma pesquisa inédita da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), obtida com exclusividade.

“Muita gente diz que burnout é depressão, estresse ou ansiedade. No burnout, podemos ter tudo isso”, explicou a psiquiatra Carmita Abdo, professora de medicina e coordenadora do estudo da USP, que ouviu 6.070 pessoas com idades entre 21 e 65 anos, de diferentes cidades e classes sociais. “As áreas cerebrais afetadas são as mesmas. Mas a peculiaridade do burnout é que ele se desenvolve especificamente devido ao trabalho”, completou Abdo. A pesquisa constatou que um em cada cinco trabalhadores brasileiros sofre de burnout. Quando se levam em consideração também os que tiveram ao menos algum dos sinais, mas não “queima total”, fica-se diante de um quadro que atinge metade da força de trabalho do país.

Como trabalho sempre foi sinônimo de algum grau de estresse, uma das interrogações lançadas pela investigação da USP é justamente o que estaria causando esses índices.

Nas últimas cinco semanas, ouvimos médicos, psicólogos, psicanalistas, especialistas em mercado de trabalho e vítimas do esgotamento para entender o motivo dessa síndrome de alcance mundial. A conclusão é que a rotina profissional piorou de tal maneira nos últimos anos – impulsionada por avanços da tecnologia, mudanças na sociedade e no mercado de trabalho e novas dinâmicas empresariais -, que acabou por abalar a saúde mental das pessoas.

Para Rosylane Rocha, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), não há dúvida de que a pressão aumentou. “Hoje é tudo ‘urgente”‘, disse ela. A carga horária do trabalhador brasileiro se manteve estável em 40 horas semanais, segundo os dados do IBGE, mas a verdade é que esse número não capta as muitas mensagens de WhatsApp e e-mails de chefes e colegas que começaram a chegar fora do horário de expediente. ”Todos estão dependentes e escravizados por aplicativos”, disse Rocha. Além disso, sistemas de metas para vários níveis de funcionários, raros há algumas décadas, hoje são mais comuns. Para adicionar um ingrediente brasileiro a um problema que é global, o momento do mercado de trabalho por aqui também não tem ajudado. Há três anos, as taxas de desemprego estão em dois dígitos, o que aumenta a tensão nas empresas.

Existe um desajuste maior entre o tempo que as pessoas dedicam ao trabalho e o que dedicam a si mesmas e às famílias. É um sinal de nossos tempos”, disse a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da International Stress Management Association (Isma), associação sem fins lucrativos criada em 1973 nos Estados Unidos para pesquisa, prevenção e tratamento de estresse e hoje presente em 12 países. Para Rossi, há um círculo vicioso. “Quanto mais se dá atenção ao trabalho, menos tempo se tem para outras atividades que ajudariam a diminuir a pressão”, disse. A pesquisa da USP sobre burnout, realizada com o apoio do laboratório Cristália, também ajuda a colocar luz sobre como os jovens estão sendo afetados. A síndrome atinge em especial os profissionais com menos de 30 anos. “As gerações mais novas têm menos recursos protetivos. Ações como dizer ‘não’ e reconhecer que não vão fazer algo exigem certa maturidade. Ou, no mínimo, uma posição melhor dentro da empresa”, afirmou o psicanalista Christian Dunker. “As quinas da vida, que sempre estiveram aí no mundo profissional, agora estão ainda mais agudas, machucam mais essa geração. Isso favorece o burnout, inclusive porque os dispositivos de tratamento natural para isso, como deixar de lado os smartphones e recorrer aos amigos, são menos difundidos entre os mais jovens. As gerações mais novas são mais solitárias”, disse Dunker, com base em décadas de experiência clínica.

Além dos jovens, as mulheres também sofrem mais que os homens – elas são 60% dos casos de maior intensidade da síndrome, segundo a pesquisa da USP. Chegar do trabalho e ainda ter de dar conta das atividades domésticas é um dos fatores que pesam. Autocobrança também é frequente entre mulheres. Conta contra até o fato de elas ocuparem menos cargos de poder em um mercado normalmente liderado por homens, o que as leva a uma sobrecarga por frustração. Foi isso que indicou um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, divulgado no ano passado e que ajuda a entender o que se passa também no Brasil.

Mulher e jovem, Tayná da Silva Rios descreveu em detalhes o processo que a levou à queima total. Professora e historiadora, aos 26 anos acumulava dois empregos, um dando aula e outro como técnica de museologia, e ainda entrou num mestrado. “Comecei a ter dificuldade de concentração. Coisas que eu fazia com muita facilidade, como preparar aulas, textos e relatórios, já não funcionavam assim. Eu não tinha vontade de me levantar para trabalhar. Não entendia por quê. Eu me cobrava, porque sempre fiz mil coisas ao mesmo tempo”, lembrou Rios. Ela buscou o apoio de psicoterapia e, por um tempo, o diagnóstico foi de transtorno de ansiedade. Assim, manteve a rotina de trabalho. Mas aí veio uma crise de pânico, com episódios de falta de ar e crises de choro. Foi encaminhada a um psiquiatra que, há três anos, diagnosticou burnout. “Fiquei longe do trabalho uns 50 dias, entre afastamento e férias. Não que­ ria. Mas meu médico disse que eu não tinha escolha”, contou. “Precisei de ajuda para dar atenção a meu corpo e entender que, por mais que pareça clichê, a vida não é só trabalho”, afirmou Rios, hoje com 31 anos.

A primeira descrição de burnout aconteceu em 1974, pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberg. Ele próprio desconfiava padecer da síndrome. Na década seguinte, a psicóloga americana Christina Maslach, da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolveu um questionário para identificar o burnout, o mesmo usado pelos pesquisadores da USP. O foco de Maslach eram profissionais da área de saúde. Depois da primeira pesquisa, várias outras se seguiram. Um estudo de 2019 da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos identificou burnout em 54% dos enfermeiros e médicos americanos e em 60% dos estudantes de medicina e residentes.

Nas entrevistas, as pessoas têm de responder a perguntas como “Você sente que está na empresa ou profissão errada?” e “Você sente que não há nada para conversar?”, com notas em uma escala que varia de “nunca” (o) a “todos os dias” (6). Os especialistas identificam a síndrome quando há resultados significativos em áreas como exaustão associados a baixos resultados de eficiência profissional. O quadro reúne sinais físicos como fadiga, distúrbios do sono e dores no corpo; psíquicos, como desânimo, sentimento de desesperança, baixa autoestima e comprometimento da memória; comportamentais, como isolamento, agressividade, pessimismo e até uso de drogas e abuso de álcool; e profissionais, como queda de desempenho, baixa concentração e comunicação precária.

A síndrome raramente se instala de uma vez, e os sinais vêm aos poucos, como conta o engenheiro de telecomunicações B.L.F., de 38 anos. Ele começou a sentir os efeitos físicos do excesso de trabalho, como cansaço e taquicardia, há uns dois anos, mas ignorou. “A empresa passou por uma reestruturação pesada, e a jornada de trabalho aumentou muito. Pensei que mais trabalho não seria problema. Fui absorvendo aquilo, só que o que era para durar alguns meses virou rotina. Estendeu-se para o final de semana e atrapalhou a relação com a família”, contou ele, que pediu para que seu nome não fosse revelado. Não demorou para que os sintomas voltassem mais fortes. Taquicardia passou a ser rotina, além de sensação de angústia e incapacidade. Foi quando resolveu procurar ajuda psicológica e, mesmo resistente no início, concordou em rever prioridades. Tirou férias. Na véspera de voltar para o Rio de Janeiro, onde mora, teve uma crise no avião. “Já em casa, no segundo dia, acordei e não conseguia sair para trabalhar. Passei a noite em claro. Fiquei travado, chorei muito. Aí caiu a ficha de que eu não podia mais”, lembrou.

Pesquisas feitas em outros países com a metodologia e o alcance da adotada pela USP são raras. Mas há levantamentos que confirmam a preocupação crescente com o burnout. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), estudos realizados nos últimos dez anos indicam que 26,7% dos profissionais argentinos relatam estresse mental relacionado ao excesso de trabalho e 27,9% dos trabalhadores chilenos afirmam haver casos de estresse e depressão em suas empresas. “De maneira geral, mudou muito a noção que temos de tempo. Tudo tem de ser mais imediato, para daqui a pouco, e não é só no Brasil”, disse Bernard Miodownik, coordenador de Psiquiatria do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Em outubro, no México, entrou em vigor uma lei criada para defender funcionários e dividir com os empregadores a responsabilidade de cuidar de sua saúde mental. A chamada Norma Oficial Mexicana obriga todas as empresas a atender “qualquer situação negativa relacionada aos empregados”, de desordens de sono a ansiedade ou alto estresse, para reduzir seu impacto e, na medida do possível, “erradicá­la ou evitá-la”. Na França, uma lei em vigor desde 2017 estabeleceu o “direito de se desconectar” e proíbe as empresas de mandar e­ mails ou mensagens de celular para funcionários fora do horário de trabalho.

Autor de Dying for a paycheck (Morrendo por um salário), o pesquisador americano Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford, na Califórnia, é direto ao sugerir o que fazer quando o trabalho se torna prejudicial à saúde. “Em locais de trabalho tóxico, as pessoas devem fazer o mesmo que fariam se estivessem em um lugar cheio de fumaça ou pegando fogo: sair. Não há outra alternativa razoável, pois as consequências para a saúde são mortais”, afirmou. Há, claro, o pequeno detalhe das contas a pagar, que não param de chegar, independentemente das agruras da vida profissional. Mas Pfeffer alerta que, se no passado as condições de alto estresse no trabalho levavam ao abuso das bebidas e das drogas, isso só piorou. Hoje, não raro esses hábitos deletérios são acompanhados de pensamentos suicidas. A pessoa pensa em se matar, mas não em sair do trabalho. Pensa em deixar a vida, mas não em deixar o chefe. Uma hora, a conta chega.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – II

A DESCOBERTA

Muitas vezes, receber o diagnóstico de síndrome do pânico pode ser o que faltava para procurar ajuda especializada. Saiba como se dá esse processo de identificação do quadro

Agora que você já sabe o que é a síndrome do pânico e como o cérebro do paciente é afetado, o próximo passo é entender como o quadro se manifesta. “Gostaria de dizer que, se você está passando por este problema, procure ajuda, diga a sua família e amigos de confiança. Não deixe isso te dominar ou te torturar internamente”, declara Gustavo Antônio, de 25 anos, diagnosticado com o transtorno. Para procurar auxílio e recorrer aos tratamentos mais adequados, um ponto essencial é receber o diagnóstico preciso, que deve ser feito por um profissional especializado. Além disso, as pessoas próximas também podem ter papel importante para a identificação e apoio. Por isso, atente-se aos sintomas e consulte um médico!

COMO O CORPO REAGE

Os sintomas da síndrome do pânico são diversos e, em uma crise, podem se manifestar ao mesmo tempo, fator que torna a experiência realista, provocando puro terror e a sensação de morte iminente. Ao todo, são quase 30 sintomas – que não, necessariamente, manifestam-se juntos – incluindo palpitações, dores extremas, falta de ar, sudoreses, tontura, dificuldade de ouvir e pensar, sensação de morte, náuseas e dores no estômago.

Muitas vezes, esses desconfortos não existem de fato, ou seja, o cérebro imita algumas sensações que provocam “dores psicológicas” no corpo, os chamados sintomas psicossomáticos. Além disso, algumas manifestações não aparecem em crises, mas perduram durante todo o dia. É o caso do estresse intenso, o qual pode gerar fadigas, insônia, dores e fraqueza nas pernas e outros incômodos. Lembrando que as pessoas com estresse não obrigatoriamente têm a síndrome do pânico, porém, os indivíduos com o distúrbio estão predispostos a sofrer mais com os sintomas causados pelo estresse.

Além da questão comportamental, emocional e fisiológica nos momentos de pico, outros quadros clínicos podem ser registrados nos pacientes. É comum que a pessoa que passou por um ataque tenha medo de ter outro, evitando situações rotineiras que podem gerar gatilhos para crises (saiba mais no tópico V).

Outros fatores são mais percebidos em pacientes com fobias sociais – conhecido como agorafobia – e ansiedade insistente em relação à saúde. A primeira razão, segundo a psicóloga Márcia Mathias, “é o medo de sair de um lugar que considera seguro, o que ocorre, normalmente, depois de ter passado por uma situação que gerou o ataque de pânico”. Consequentemente, a crise, por produzir sensações tão realistas de morte, produz tamanha ansiedade que o paciente fica obcecado em saber se sua saúde está em dia para evitar uma possível morte súbita durante um acesso.

SEM CAUSA APARENTE

A síndrome do pânico é um transtorno cujas causas são diversas e incertas. Geralmente, o estopim da síndrome é após um estresse pós-traumático ou um quadro já conhecido de ansiedade sem tratamento. Contudo, para algumas pessoas, como Andreia Alves, de 37 anos, não houve pico de ansiedade por alguma situação de choque ou abalo emocional. “Não tenho lembrança da minha primeira crise. Na verdade, analisando diversas situações passadas, posso dizer que sofro com o transtorno de pânico desde a infância”, conta. Sendo assim, seu caso pode ser de ordem genética.

Outro fator que pode desencadear os sintomas se dá a partir do uso de medicamentos ou substâncias que causam ansiedade e outros sintomas, como a cafeína. E o caso de Gustavo Antônio, que passou mal na academia após ingerir comprimidos a base de cafeína. “Os sintomas que tive foram: visão turva, escurecimento da visão, vertigens, sensação de hipotensão e muita taquicardia. Avisei a personal trainer que estava comigo que não estava me sentindo bem e mal conseguia parar em pé. Claramente ela se assustou e notou que eu não estava bem”, conta Gustavo. E foi desse momento em diante que o rapaz teve episódios de crises.

“Pedi a minha mãe que me levasse a um pronto-atendimento e foi solicitado um eletrocardiograma, caso houvesse uma arritmia. Mas não houve nada, somente frequência alterada e hipertensão, que foi medicada com um beta bloqueador. A partir deste episódio da academia, tive as duas semanas piores da minha vida. No dia seguinte, quando fui trabalhar e utilizar o transporte público, tive minha primeira crise de transtorno de pânico”.

SENSAÇÕES DE PÂNICO: DO NORMAL AO PATOLÓGICO

Quem nunca sentiu o coração disparar de ansiedade perto de um acontecimento importante, por sentir medo ou, em casos mais extremos, fobia? Você sabe o motivo pelo qual determinadas situações despertam tais reações? “O medo é uma resposta biológica necessária para a sobrevivência humana, com a função básica de gerar ações para evitar perigos”, afirma o psiquiatra Alexandre Cintra.

O profissional explica que essa sensação é um sinal de alerta voltado para uma ameaça definida qualquer. Por exemplo, perceber-se em um local desprotegido com um animal correndo logo atrás gera o medo daquele animal. Já “a fobia é o medo excessivo de um objeto ou uma situação – como a aracnofobia, que é o horror exagerado despertado por todas as aranhas”, ressalta.

Assim como o medo, a ansiedade também é natural, pois funciona como uma espécie de alarme responsável por preparar o corpo diante de situações ameaçadoras. Dessa forma, as manifestações causadas por esses três quadros podem estar associadas à síndrome do pânico por conta dos sintomas físicos- e, algumas vezes, dos gatilhos. A diferenciação a ser feita é: a ansiedade, e o medo ocorrem de forma natural, desencadeados por situações ou objetos que justifiquem o disparo das defesas do corpo, ou agem de forma incapacitante mesmo sem o menor sinal de perigo?

Sendo assim, o pânico é um tipo de transtorno de ansiedade, e o medo passa de protetor a limitador. De acordo com a psicóloga Márcia Mathias, os ataques são súbitos – diferentemente de quando essas sensações são normais fisiologicamente -, gerando sintomas psicossomáticos. “Isso provoca uma condição paralisante com a perda da produtividade e do contato social”, afirma. Márcia ainda acrescenta que, para o diagnóstico, os profissionais utilizam as determinações das Escalas de Avaliação na Identificação e Rastreamento, e as mais frequentes são as propostas pela Clinicai Global lmpressiom e Panic Disorder Severity Scale (em tradução livre, Impressões Clínicas Globais e Escala de Severidade de Transtorno de Pânico).

PRIMEIROS SINAIS: ATENÇÃO!

De acordo coma psicóloga Márcia Mathias, como a pessoa tem medo de ter um problema no coração, o primeiro profissional que, normalmente, procura é o cardiologista. “Assim, será feito um check­up para verificar se o paciente apresenta causas clínicas. Posteriormente, há o encaminhamento para o psicólogo e o tratamento de psicoterapia, além do psiquiatra para o tratamento medicamentoso”, explica.