EU ACHO …

“PAGO POR ALGO QUE NÃO FIZ”

A resiliência de um dos brigadistas presos em Alter do Chão um ano após a ação mal explicada da polícia local – e o amor pelo combate ao fogo e pela Amazônia mesmo depois da detenção

Eu fiquei três dias e duas noites preso em novembro de 2019. Fui acusado, com outros três companheiros da Brigada de Alter do Chão, pela Polícia Civil do Pará de colocar fogo na mata na qual combatíamos incêndios. Foram as noites mais longas da vida. Rasparam minha cabeça, me colocaram em rede nacional dizendo que era bandido. Passamos muito mal na prisão, não tem nem como descrever. Tudo é muito revoltante. Se for falar aqui, não acaba. Ainda estou sob medidas cautelares que não me permitem sair de casa aos fins de semana e nem estar na rua após as 21 horas. Também não posso sair da região por mais de 15 dias. Pago por algo que não fiz. Sou inocente.

Não nasci brigadista, não sou de Alter. Em 2015, visitei um colega que atuava nessa função na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Eu passaria um tempo de férias lá e me encantei com aquilo. Na época, morava em São Paulo e trabalhava produzindo material para alguns canais de TV, mas já queria sair daquela vida. Eu voltei a minha rotina, mas algo tinha mudado. Em algum dia de 2017 recebia notícia de que esse meu amigo, o Metal, havia morrido durante uma ação da brigada. Ele estava entrando numa nuvem de fumaça para tentar controlar um incêndio e foi atropelado por outro brigadista que estava vindo de caminhonete ou de carro – nem quis saber direito, porque essa história mexe muito comigo. Aquilo me afetou. Ali, senti um chamado, me lembrei de nosso último encontro. Quando estive com ele, falei que queria morar lá, e o Metal disse que eu devia conhecer o Brasil. Quando ele morreu, me veio essa lembrança. Foi quando dei uma guinada em minha vida. Vim para a Amazônia, rodei 6 mil quilômetros de moto, conheci o Amapá e depois Alter de Chão, no oeste do Pará. Eu me apaixonei, fiz família, e o fogo se mostrou presente. De lá para cá, sou um brigadista voluntário.

O primeiro incêndio que vi foi mais assustador. Era julho de 2017, na Serra do Carauari, em Alter. Não tinha conhecimento, equipamento, nada. Não era incêndio florestal, mas eu tinha medo de que se tornasse. O medo ajuda a ter cautela no momento do incêndio. Nessa hora, os combatentes estão entrando em direção ao fogo – e os animais, como as cobras, estão fugindo dele. Você não consegue enxergar nada. Se pisar num buraco e tiver uma simples torção, pode comprometer toda uma operação. Então, o medo existe, tem de existir.

Esse primeiro incêndio que vivi era uma casa de madeira que queimou totalmente, ao lado de onde vivo atualmente. Foi uma cena muito forte. Na hora, organizei a comunidade para ajudar a apagar. A gente viu ali a organização comunitária nascendo. Daí surgiu o sentimento da necessidade de criação da brigada. Santarém está a 40 quilômetros de Alter do Chão, e a região é enorme. Como moradores, conseguimos passar, de uma forma mais precisa, a informação para o Corpo de Bombeiros. E a brigada entra com o papel de primeiro combate.

Passei por muita coisa junto com meus companheiros da brigada durante essa jornada. Coisas que nunca passariam por nossa cabeça. Fazemos um trabalho honesto, direito. É voluntário. Ninguém recebe. Uma brigada que já tinha dois anos no território, que vinha crescendo. linha acabado de formar 16 novos brigadistas. A gente não imaginava a prisão. Foi um choque. Foi um momento muito conturbado em minha vida. Tenho criança, família. Graças a Deus não fiquei preso os dez dias, como o juiz havia determinado, e soltaram a gente com três por causa de uma pressão nacional e internacional.

Desde o episódio, a brigada está suspensa. Infelizmente, ainda não acabou esse processo. Ele foi para o Ministério Público e umas duas ou três vezes o promotor pediu diligências e a polícia não cumpriu. Vivemos uma tortura jurídica. Uma espera, uma demora, com passaporte retido. Em junho, eu passei para um processo seletivo para chefe de brigada do ICMBio da Gerência Regional Norte, que cuida de todas as Unidades de Conservação da Amazónia. Mas para a brigada de Alter só volto quando esse processo acabar.

A situação das queimadas neste ano está bem diferente do ano passado. Estamos tendo chuva, o que é uma bênção. Sei de um incêndio que aconteceu em uma reserva extrativista aqui da frente, que é um território de gestão do ICMBio, e que foi controlado. Os bombeiros montaram uma força-tarefa para atender a essas ocorrências em Alter do Chão. Quando se tem uma queimada como houve no ano passado, é muito difícil ocorrer de novo na mesma proporção. Porque o material combustível já foi queimado. O que vimos no ano passado foi fruto de massa acumulada de quase cinco anos sem chuva. Neste ano houve alguns desses incidentes, inclusive muito próximos à mesma área do incêndio de 2019, mas nada igual ao que enfrentamos. Eu sei também que algumas pessoas foram presas fazendo loteamento irregular.

A gente tem de pensar positivo e aprender com o que a vida mostra. A gente tem de olhar e carregar a experiência dos momentos em que a vida nos coloca de cabeça para baixo. Aprender o que ela mostra para não cair nas mesmas armadilhas, para se proteger cada vez mais. Nós éramos uma instituição que tinha um ano, tinha CNPJ, estatuto, uma diretoria trabalhando, todos voluntários, mas focados nisso, no desenvolvimento sustentável para o território, nas soluções ecológicas. Brigadista é uma profissão com especialização. Não é todo mundo que faz. É uma causa muito nobre, muito árdua. Agora, não sei o que mudará no futuro, mesmo com a eleição do Joe Biden. Sobre essa questão política, eu não tenho o que falar. Só observo. Prefiro ver a mudança. Moro na Amazônia, criei a brigada e amo o que faço. A gente se desgasta e vai ao limite. É um ato de amor. É uma coisa de outro mundo. Essa questão política eu prefiro observar.

OUTROS OLHARES

AÇOUGUE SEM CARNE

Com a popularização das dietas, vegetaria nas, cresce a demanda por cortes vegetais além do hambúrguer de soja

Imagine um açougue onde os produtos vendidos não são de origem animal. Será que uma picanha de grão de bico tem apelo em um país onde o churrasco é parte da identidade nacional? Apesar de inusitado, esse tipo de estabelecimento é uma novidade recente do mercado mundial e a nova moda também ganha força na indústria alimentícia por aqui. Somente no Brasil, segundo pesquisa do Ibope realizada em 2019, o número de pessoas que adotaram uma dieta vegetariana dobrou nos últimos seis anos: estima-se que 29 milhões de brasileiros já abandonaram o consumo de carne.

Há também a restrição a produtos de origem animal em modo mais moderado, praticado por gente que reduziu o consumo a apenas um dia na semana ou cortou só as carnes vermelhas do cardápio. A indústria de alimentos está de olho nessa tendência. Da gigante BRF, dona da Sadia e Perdigão, às pequenas marcas familiares, ninguém quer perder essa fatia crescente de consumidores. Para Celso Fortes, um dos criadores da rede “Açougue Vegano”, a busca por uma dieta vegetal não significa a adoção de uma dieta restritiva. “Uma refeição vegana é só mais uma opção. A pessoa come um dia na churrascaria, no outro em um restaurante italiano. O vegano pode entrar nessa escolha”. A empresa de congelados de Fortes decolou na pandemia e ele vendeu franquias do negócio até para empreendedores no estado do Piauí. Já o açougue “No Bones”, da chef Marcella Izzo, foca na produção de alimentos naturais, sem sojas transgênicas ou conservantes. “Os produtos mais vendidos são a costelinha de cogumelo, a carne de jaca e a linguiça de beterraba.” Marcella divide a produção em dois tipos: os industrializados, que imitam o gosto da carne por meio de corantes e aromas, e os artesanais, produzidos em pequena escala. “O tempero é feito com pimentas e a coloração, com beterraba, por exemplo”.

NUTRIÇÃO CONSCIENTE

Há carnes feitas com cogumelos, grãos, lentilha, grão-de-bico e soja. A nutricionista Cyntia Maureen, da rede vegana Superbom, explica que os processados não são vilões. “Alguns aromatizantes são sintéticos, mas isso não significa que são prejudiciais à saúde. As proteínas são enriquecidas com vitaminas e minerais e oferecem uma nutrição balanceada”, diz. Com pratos criativos e balanceados, as carnes vegetais têm tudo para entrar na mesa até de quem jamais pensou em deixar de ser carnívoro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE NÃO É FICÇÃO

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha… (Salmos 1.3a).

A felicidade existe. Não é uma ficção. Está ao nosso alcance. O Salmo 1 diz que aquele que é feliz é como uma árvore plantada junto à fonte, que no devido tempo dá o seu fruto, cuja folhagem não murcha, e tudo o que ele fizer será bem-sucedido. Enquanto o ímpio é comparado à palha seca e leve que é carregada pelo vento, o justo é comparado a uma árvore frondosa, viçosa e frutífera plantada junto às correntes das águas. Enquanto as alegrias do ímpio são superficiais e passageiras, a felicidade do justo é profunda e permanente. Enquanto a fonte do prazer do ímpio é o pecado, a fonte do prazer do justo é a Palavra de Deus e o Deus da Palavra. Quando nossa felicidade está em Deus, nossa vida lança suas raízes em lugares férteis. Quando a Palavra de Deus é a fonte do nosso prazer, somos como uma árvore junto à fonte, sempre verde e carregada de frutos. Quando nosso prazer jorra do trono de Deus, o mundo à nossa volta pode estar seco como um deserto, mas nós iremos florescer e frutificar como uma árvore plantada junto à fonte. O ímpio, aquele que despreza a Deus, porém, é como palha que o vento dispersa. Não tem vida nem estabilidade. Quando chega a tempestade, é desarraigado e levado pelo vendaval. A verdadeira felicidade não é tanto uma questão de ter, mas sobretudo de ser. Essa fonte de vida é o próprio Deus, e quem está plantado em Deus é verdadeiramente feliz!

GESTÃO E CARREIRA

MULHERES CONTRA A CRISE

A pandemia do novo coronavírus reforça a necessidade de discutir a equidade de gênero no trabalho – não apenas pela urgente questão social, mas porque isso pode ajudar na recuperação da economia e beneficiar a todos

A pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), causador da síndrome respiratória covid-19, está mudando a vida de todos. Com o distanciamento social, as dinâmicas de trabalho se alteram, as crianças deixam de ir à escola e até o ato de fazer compras está diferente. Nesse cenário, especialistas apontam que as mulheres são especialmente afetadas. Um dos motivos é a atribuição dos serviços domésticos não remunerados, ou seja, os cuidados da casa e da família, que se tornam ainda mais intensos. Para elas, em 2019 esse cuidado tomou 21 horas semanais, uma diferença de cerca de 10 horas a mais do que os homens. Agora, com a retomada econômica e com a reabertura gradual das cidades brasileiras, a dinâmica pode ficar ainda mais afetada, já que muitas dessas mulheres precisam retornar ao trabalho enquanto os filhos não voltarão à escola. ”Os executivos dizem sentir dificuldade em promover mulheres por atribuir a elas o cuidado da casa, e a pandemia evidencia isso”, diz Regina Madalozzo, coordenadora do núcleo de estudos de gênero do Insper. O modo cultural como o trabalho doméstico é dividido entre homens e mulheres parece impactar apenas o microuniverso familiar, mas o Fundo Monetário Internacional estima que o produto interno bruto global cresceria pelo menos 4% se o trabalho não remunerado fosse mais bem distribuído. Isso aconteceria porque elas teriam maior participação no mercado de trabalho e, consequentemente, maior movimentação econômica, gerando ganhos para todos. Assim como na divisão de tarefas domésticas, o que acontece dentro de casa passa a impactar toda a sociedade. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Ceará, em parceria com o Instituto Maria da Penha, estimou que o Brasil perde 1 bilhão de reais ao ano com a violência doméstica por causa de absentismo das funcionárias e impactos na saúde. No país, essa violência cresceu 40% em abril em comparação ao registrado no mesmo mês de 2019. ”O trabalho da mulher, remunerado ou em casa, é necessário para a sobrevivência de todos. E, quando o devido valor e respeito forem dados, ele poderá apresentar desenvolvimento social e monetário”, afirma Madalozzo.

Uma das evidências mais claras da força da mão de obra feminina está atrelada à pandemia do coronavírus. No setor de saúde global elas representam 70% da força de trabalho. No Brasil, as mulheres são 65% dos mais de 6 milhões de profissionais; e na enfermagem, 85%. Uma dessas mulheres na linha de frente é Lucia Santos, supervisora de enfermagem na Unidade de Tratamento Intensivo e Semi-Intensivo do Hospital São Luiz, no Morumbi, em São Paulo. Ela fez carreira no hospital, onde trabalha há 19 anos, e está atuando diretamente no enfrentamento da covid-19 ao gerenciar cerca de 280 enfermeiros. Desde o início da pandemia, toda a sua rotina mudou, da higiene antes de entrar em casa ao número de horas trabalhadas, que por vezes aumenta quando muitos funcionários acabam faltando por estresse, contaminação ou algum imprevisto. ”A pandemia mudou nossos hábitos e trouxe uma preocupação ainda maior com o cuidado das pessoas”, diz. Santos é também a maior provedora de renda da casa, onde vive com a mãe, um sobrinho e duas irmãs, que tiveram o salário reduzido. Ela faz parte do contingente de 45% das famílias brasileiras chefiadas por mulheres. No estado de São Paulo, cerca de 40% dos grupos familiares seguem esse modelo e, ainda assim, com rendimento 30% inferior ao de famílias chefiadas por homens. Isso acontece porque a média salarial entre homens e mulheres ainda é bastante desigual, o que afeta a permanência delas no mercado. Para ter uma ideia, os homens ganham cerca de 47,2% mais do que as mulheres com o mesmo nível de formação. ”Quando as mulheres precisam trabalhar mais em casa, trabalhar mais na empresa e ainda assim ganhar menos, o risco de desistência do emprego é maior”, diz Madalozzo.

Reduzir a disparidade salarial é, mais uma vez, além de uma questão social, um ganho econômico importante para o mundo pós-pandemia. Uma pesquisa da consultoria e auditoria PwC estima que a equalização dos ganhos entre homens e mulheres nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) pode aumentar o produto interno bruto em 6 trilhões de dólares. Já o Fundo Monetário Internacional aponta que a eliminação das desigualdades de gênero no trabalho, o aumento do tempo de permanência das mulheres no emprego e a chegada a posições de liderança beneficiariam toda a população, com um aumento de 35% no PIB global. ”As habilidades e os talentos das mulheres têm sido subutilizados. Os líderes precisam conhecer e erradicar as fontes de viés sistémico dentro de suas organizações para permitir que as funcionárias cresçam e beneficiem a todos”, diz Julie Nelson, professora de economia feminista na Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos.

A desigualdade de gênero, porém, está longe de ser eliminada. Um relatório do Fórum Econômico Mundial, divulgado em dezembro, calcula que, se o ritmo atual for mantido, serão necessários 99,5 anos para que isso aconteça. Houve uma pequena melhoria em relação à pesquisa anterior, que apontou 108 anos como prazo para a equiparação completa. A pandemia, no entanto, pode frear esse avanço. ”A covid-19 escancarou as desigualdades e vai nos fazer dar passos para trás caso medidas econômicas e sociais robustas não sejam tomadas por empresas e governos”, diz Luiza Nassif, pesquisadora de igualdade de gênero e economia no Levy Economics Institute of Bard College. No Brasil, a taxa de desocupação das mulheres no primeiro trimestre foi de 14,5%, ante 10,4% dos homens. O recorte também é pior para negros do que para brancos, com taxa de desocupação em 15,2% e 9,8%, respectivamente, independentemente do gênero. A discussão entre equidade de gênero e equidade étnico-racial está intimamente ligada. Basta olhar para os números das empregadas domésticas – bastante afetadas na pandemia – e que formam grande parte da rede de apoio das famílias brasileiras. Dos 5,7 milhões de mulheres na função, 3,9 milhões são negras. ”Essas mulheres são a base da economia brasileira e precisam ser puxadas para cima pelas mulheres brancas e pelos homens”, diz Luana Génot, diretora executiva do ID_BR-Instituto Identidades do Brasil. Com base nisso, Génot fundou o instituto para promover a equidade racial dentro das empresas por meio de metas e indicadores sólidos. Um desses meios é o selo Sim à Igualdade Racial, que reconhece as companhias que promovem a equidade por meio de empregabilidade, educação e engajamento. Ainda assim, é possível identificar um estágio inicial dessa discussão dentro das companhias. A pesquisa Saúde Financeira das Mulheres Negras na Pandemia da Covid-19, realizada por meio de uma parceria entre o ID_BR, a Comunidade Empodera, a organização EmpregueAfro e a Faculdade Zumbi dos Palmares, identificou que 20% delas estão alocadas em empresas nacionais, 7,8% em multinacionais e 72% são empreendedoras. ”A pandemia mostra como ainda há pouca inclusão e como as empresas são importantes na promoção da mudança”, diz Génot.

A falta de oportunidades incentiva parte das mulheres a empreender, mas nem sempre por necessidade estritamente financeira. Como Luana Génot, foi empreendendo por opção e paixão que a paulistana e psicóloga de formação Maitê Lourenço se encontrou. Em 2010 ela começou uma plataforma online de gestão de carreira para ajudar as pessoas a elaborar currículos, entre outras iniciativas. Com o aumento da demanda, ela percebeu que estava, na verdade, criando uma startup, e passou a frequentar eventos de tecnologia, nos quais encontrou um ambiente predominantemente masculino e branco. Com o passar dos anos, Lourenço estruturou a BlackRocks, empresa sem fins lucrativos que tem como objetivo promover a ascensão de pessoas negras na tecnologia por meio de educação e aceleração. Desde sua fundação, em 2017, foram cerca de 3.000 capacitados gratuitamente – os eventos são patrocinados por companhias como Facebook e Oracle. ”Escolhi empreender porque vi a oportunidade de criar algo benéfico economicamente para as pessoas negras, que socialmente têm mais dificuldade de estar inseridas em determinadas áreas do mercado”, diz. Desde então, Maitê Lourenço tem sido reconhecida em premiações e palestras no Brasil e no mundo. Aos poucos, as empresas estão sendo forçadas a olhar para o impacto da equidade racial em seus negócios. O Instituto Locomotiva estima que os negros – quase 56% da população brasileira – movimentem 1,7 trilhão de reais ao ano no país. Lourenço também busca o equilíbrio de gênero entre os mentores. Em um evento online que acontecerá em julho, por exemplo, 45% dos palestrantes são mulheres.

A demografia não explica a baixa participação feminina no mercado de trabalho. Por aqui, as mulheres com mais de 14 anos – idade de jovem aprendiz – são 52,4% da população brasileira, mas representam 43,2% do mercado. A ausência delas se deve a diferentes fatores, como cultura patriarcal e falta de programas de incentivo nas empresas, especialmente nas profissões consideradas majoritariamente masculinas. No setor de tecnologia, 75% das vagas são ocupadas por homens. Ainda assim, o Brasil tem representantes da liderança feminina nessa área. Além de Lourenço, um exemplo é Cristina Palmaka, presidente da SAP desde 2013 e primeira mulher a assumir essa posição na empresa no Brasil. Segundo ela, um dos segredos de seu sucesso, além de contar com uma rede de apoio, é a ousadia de provocar e aceitar desafios, como fez ao ser promovida em 2006, no nascimento de sua filha. ”Percebi que não sou o único exemplo, mas que poderia mostrar às meninas e às mulheres as possibilidades de crescimento na carreira”, diz. Sob seu comando, a SAP desenvolve ações como formação de grupos de diversidade e programas de quebra de vieses inconscientes para homens e mulheres, com o objetivo de ajudá-las a chegar ao topo. A empresa estipulou globalmente a meta de ter 25% de mulheres em posição de gerência até 2017, o que aconteceu com seis meses de antecedência.

Hoje, na subsidiária brasileira as mulheres são 35% da força de trabalho total e 25% estão na liderança.

Algumas empresas já perceberam que ter mulheres em cargos de chefia pode ser um diferencial competitivo. Uma pesquisa da consultoria McKinsey mostra que companhias com maior equidade de gênero entre os líderes tendem a ter resultado financeiro 25% maior do que as demais. Na realidade atual, porém, para cada 100 homens promovidos a cargos de gestão, 72 mulheres conseguem o mesmo reconhecimento. ”A liderança tem papel importante na valorização das mulheres, e também as próprias mulheres precisam incitar ações afirmativas”, diz Sofia Esteves, presidente do Grupo Cia de Talentos. É por isso que elas, quando chegam a cargos de direção, costumam ajudar as outras. Rachel Maia, presidente da Lacoste no Brasil, formou dois grupos de executivas para fomentar a troca de ideias e melhorias nos negócios. Para ela, é essencial ter uma rede com a participação de homens e mulheres que impulsione a força de trabalho feminina. ”Quando as mulheres apoiam umas às outras, as oportunidades crescem, e os homens também precisam participar da conversa”, diz. Outra dica da executiva é sempre se oferecer para o trabalho. Mulheres se candidatam a 20% menos vagas de emprego do que os homens por não se acharem preparadas. ”A mulher tem de ser a precursora de sua própria história e, com resiliência, deixar uma forte marca no espaço que definiu estar”, afirma Maia. Impulsionar as mulheres na economia é também papel das empresas da porta para fora. É por isso que na fabricante de eletroeletrônicos Whirlpool, presidida por Andrea Salgueiro, existe o programa Consulado da Mulher, encabeçado pela marca Consul. Em 18 anos de programa, 1.138 empreendimentos do setor gastronômico chefiados por mulheres foram assessorados. Como resultado, 35.378 pessoas acabaram sendo beneficiadas. Apenas em 2019, o aumento de renda das participantes foi de 42%. ”É preciso trabalhar ativamente com a diversidade para promover a mudança e ver os resultados”, diz Salgueiro. Para a executiva, a equidade de gênero é um projeto pessoal que decidiu encampar há cerca de 12 anos, antes mesmo de assumir o cargo atual em agosto do ano passado. Ao longo da carreira ela estima ter prestado mentoria a cerca de 60 mulheres globalmente.

Alguns países consideram estrategicamente a força de trabalho feminina. Na Argentina, a diretora nacional de economia, igualdade e gênero Mercedes D’Alessandro acredita que as mulheres precisem ser mais bem remuneradas, especialmente nas posições de cuidados. No estado do Havaí, nos Estados Unidos, há um documento do governo que orienta a reconstrução da economia a partir de uma visão feminista, com orientações de maior participação delas em diferentes setores de trabalho e também com a iniciativa de acolhimento a mulheres e LGBTI+. Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern serviu de exemplo sobre como erradicar a pandemia. Além de achatar a curva ao impor medidas duras de isolamento, ela cuidou da população ao incentivar, por exemplo, as pessoas a exibir desenhos de ovos de Páscoa nas janelas para a festividade. ”Ao redor do mundo, há diversos exemplos de como as mulheres são afetadas negativamente na pandemia e de como outras estão tentando reverter isso. É preciso ter mais homens dividindo tarefas domésticas e mais mulheres bem remuneradas em cargos de liderança”, diz Julie Nelson, professora de economia na UMass.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNOS EMOCIONAIS – VIII

ALIMENTAÇÃO PARA O BEM-ESTAR

Fazer as escolhas certas na dieta pode ajudar no tratamento dos transtornos emocionais e preveni-los em quem ainda não os desenvolveu

Se a forma como nos alimentamos interfere diretamente em nossa saúde (provocando ou prevenindo doenças cardiovasculares, obesidade e problemas no sistema digestivo, por exemplo), não seria diferente com o bem-estar emocional, uma vez que ele depende do correto funcionamento do sistema nervoso. Segundo um estudo da Universidade de Brigham Young, nos Estados Unidos, quem tem maus hábitos alimentares é 66% mais propenso apresentar queda de produtividade em comparação com aqueles que seguem uma dieta saudável, ou seja, a dieta também interfere no trabalho e nos estudos. De acordo com a pesquisa, não comer frutas, verduras e legumes regularmente reduz o desempenho em 93%. Adequar a alimentação, portanto, é fundamental para manter o cérebro funcionando a todo vapor. “Recomendamos que a pessoa busque o apoio de nutricionistas ou nutrólogos qualificados, que possam auxiliá-los na reeducação alimentar em prol de seu bem-estar”, indica o psicólogo e hipnoterapeuta Valdecy Carneiro.

No dia a dia, priorizar alimentos naturais e diminuir o consumo de alimentos processados já faz a diferença para amenizar os sintomas dos transtornos emocionais. Seguindo as recomendações básicas de urna dieta balanceada, é possível prevenir diversas doenças, não só as relacionadas à mente. Algumas das recomendações é ingerir verduras e legumes diariamente, equilibrar a quantidade de nutrientes nas refeições (com proteínas, vitaminas, minerais, fibras e carboidratos), comer apenas a quantidade necessária para se sentir saciado e excluir da lista de compras produtos como açúcar, biscoitos, refrigerantes, sorvetes, temperos em tabletes, embutidos, etc.

Dentro dessa dieta balanceada, alguns alimentos são capazes de beneficiar ainda mais o sistema nervoso. A banana e o grão de bico são exemplos de alimentos que favorecem o bem-estar, propriedade que já foi confirmada por pesquisas científicas.

Ambos os alimentos contêm triptofano, um aminoácido que, junto com outros nutrientes, como o magnésio, participa da produção de serotonina, um neurotransmissor importante nos processos bioquímicos do sono, da fome e do humor. Valdecy lista outras opções: “Principalmente os alimentos ricos em vitamina C (frutas cítricas, como limão, laranja, acerola, abacaxi, etc.), que também ajudam na produção de serotonina, considerado o hormônio da felicidade”. Os ricos em ômega-3, como peixes de águas frias (salmão, sardinha, atum), azeite, abacate e castanhas também têm essa função, já que esse nutriente compõe a membrana das células nervosas, protegendo-as de danos estruturais – o que, além de colaborar com o bem-estar, ainda protege funções cerebrais como a memória e a concentração. O ômega-3 é um ácido graxo que ainda tem outras funções: é anti-inflamatório e ajuda no controle do colesterol.

PARA CADA OCASIÃO

Balancear a alimentação, caprichando no consumo de nutrientes já é o suficiente para reduzir o risco de desenvolver um transtorno mental ou, caso algum já tenha sido diagnosticado, para amenizar os sintomas e colaborar com o tratamento. Mas é possível fazer ainda mais: existem alimentos considerados calmantes e outros, energizantes. Servem para serem consumidos especialmente nos momentos em que é necessário aliviar uma ansiedade exagerada ou quando bate a indisposição.

Se a intenção é amenizar ansiedade, nervosismo e afastar a insônia, por exemplo, aposte em alimentos que agem como analgésicos e sedativos naturais (leves, contudo). É o caso de alguns chás: camomila, valeriana, capim-limão, erva cidreira e folhas de maracujá. Alface, abacate e oleaginosas (castanha-do- Pará, castanha de caju, amêndoas, nozes e avelãs, por exemplo) também colaboram.

Já para os momentos de cansaço, indisposição e desânimo, alimentos energizantes podem ajudar a encarar os afazeres diários. Aposte em bebidas com cafeína, porém com moderação, como chá-preto, chá-verde, chá-mate e chá de hibisco; alimentos termogênicos como pimenta, gengibre e canela; frutas e legumes ricos em vitamina C (além dos já citados anteriormente, pimentão, mamão e caju são exemplos) e verduras verde-escuras que são ricas em ferro.

DO INTESTINO PARA O CÉREBRO

O que uma boa digestão tem a ver com o bem-estar emocional? Segundo os especialistas, tudo. Um amplo estudo da Federação Brasileira de Gastroenterologia mostrou que a maioria das mulheres entrevistadas relatou que sintomas gastrointestinais como dores, no abdômen, gases e prisão de ventre afetaram a qualidade de vida, com consequências como variação de humor (89%), queda na concentração (88%) e problemas na vida sexual (79%). É como um círculo vicioso: o aspecto emocional influencia no funcionamento intestinal e vice-versa. Ingerir boa quantidade de fibras (nutrientes presentes principalmente em verduras folhosas, mas também em legumes, frutas e cereais integrais) e de água e praticar atividade física é fundamental para normalizar o trânsito intestinal e, consequentemente, ganhar bem-estar emocional. Isso porque é no intestino que a maioria da serotonina que circula no corpo é produzida, uma vez que o órgão é repleto de células nervosas.

Mais um bom motivo para se alimentar bem!

DUPLA SAUDÁVEL

Além da dieta equilibrada, um outro hábito indispensável a ser mantido a vida toda é a prática de exercícios. Quando o objetivo é emagrecer, por exemplo, um não anda sem o outro: é fundamental ser ativo e se alimentar bem. A atividade física regular também melhora a produção de neurotransmissores e a oxigenação no cérebro, o que proporciona mais bem-estar e ajuda nas funções cognitivas. Segundo uma pesquisa da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, só uma seção de atividade física já é capaz de causar alterações neurológicas que melhoram essas funções (raciocínio, memória e capacidade de resolver problemas, por exemplo). Contudo, os efeitos mais consistentes a curto prazo são a melhora do humor e a redução dos níveis de estresse. Durante o exercício, há um aumento da liberação dos neurotransmissores dopamina, serotonina, epinefrina e noradrenalina, responsáveis pelo bom humor. Há estudos que mostram ainda, que o efeito dessas substâncias dura até 12 horas no organismo.

Assim, para renová-lo, é simples: basta se exercitar novamente! A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 minutos de exercícios por semana, que podem ser divididos em 30 minutos três vezes por semana, por exemplo.