EU ACHO …

COMO ENCARAR SUA SOMBRA

Se não há como ignorá-la, o melhor é lançar luz sobre ela

Aisha, a linda pastora-alemã do meu filho, tem uma mania curiosa. Ela foi adestrada para, durante os passeios na rua, seguir o dono de perto, sem coleira. Obediente, cola nele sempre que chamada. Até aí, sem surpresas. O curioso é que ela segue a sombra dele. Tenta alcançá-la, abana-lhe o rabo, bate-lhe com as patas, procura lambê-la, como se a sombra fosse palpável e tivesse vida própria. Empolgada, parece uma criança descobrindo o mundo à sua volta, ainda impressionada com aquela grudenta e intrigante silhueta escura. É uma cena divertida, dessas que, filmadas, renderiam memes.

Com o tempo, Aisha aprendeu que ela e o meu filho não sairiam mais a sós pelo bairro nos dias ensolarados. Haveria sempre entre eles uma sombra. Aisha aceitou a imposição do destino e aprendeu a conviver com aquela mancha se movente. Por fim, suponho, a cachorra e a sombra se tornaram amigas.

Conto essa história porque acredito haver certa sabedoria instintiva na reação de Aisha. Afinal, todos estamos condenados a conviver com as sombras que nos cercam. Parece estranho? Calma, eu explico. Em psicologia, a sombra é quase um sinônimo para inconsciente – impulsos, medos, paixões. Tudo aquilo que não passa pela consciência compõe essa temerária sombra que acompanha cada um de nós. É a nossa porção irracional. Embora não possamos controlá-la, ela age o tempo inteiro sobre nossa vida, influenciando decisões, temperamento, relações pessoais e, é claro, nossa saúde.

Quer um exemplo? A obesidade está intimamente relacionada ao que se passa em nossa cabeça. Fatores como ansiedade e depressão podem acionar gatilhos psicológicos poderosos, que contribuem para o aumento do peso. O grande desafio costuma ser resistir ao impulso de comer – que não deve ser confundido com a fome. A alimentação desregrada não é resultado das necessidades do corpo, mas de desejos do inconsciente.

Para os que conseguiram emagrecer, em geral é difícil conviver com a possibilidade de retornar ao peso anterior, depois de se sentir bem e se reconhecer em um corpo diferente. Todos esses casos exigem uma mudança de mentalidade. É preciso entender que o risco crônico da obesidade, como uma sombra, estará sempre ao lado. Como não podemos simplesmente apertar um botão e desligar nossas compulsões, cabe decidir como lidar com elas.

A pior opção é tentar ignorá-las. O sábio chinês Chuang Tzu conta a parábola de um homem que, incomodado com a própria sombra, decidiu correr para despistá-la. Correu cada vez mais rápido até que, exausto, caiu morto. Tzu e Aisha ensinam, cada um à sua maneira, que é inútil procurar se livrar das sombras. O melhor é lançar luz sobre elas. Sem alguma dose de autoconhecimento é impossível sustentar a longo prazo uma boa qualidade de vida.

Que situações despertam em você aquela vontade incontrolável de comer? Está confortável com sua silhueta atual (seja ela qual for)? São perguntas que devemos sempre nos fazer. As sombras do nosso inconsciente são inimigas poderosas, mas não invencíveis. Com paciência, podemos transformar o lado obscuro da nossa personalidade em um lugar iluminado e, como Aisha, aprender a brincar com nossas sombras.

*** LUCILIA DINIZ                     

OUTROS OLHARES

DIVERSIDADE NAS LETRAS

Ainda que tardiamente, o mercado editorial se abre para escritores negros brasileiros – os jovens e os não tão jovens também

Em 2013, o produtor cultural Vagner Amaro planejava comprar livros de autores negros brasileiros para a biblioteca onde trabalhava no Rio de Janeiro. Não foi nada fácil. Vários títulos estavam fora de catálogo há tempos, ou porque haviam tido uma única edição ou eram publicados por editoras minúsculas, incapazes de distribuir as próprias tiragens. Dois anos depois, quando quis comprar todos os livros de Conceição Evaristo, que participaria de uma conversa com estudantes, enfrentou o mesmo desafio. Apenas Olhos d’água, lançado no ano anterior, estava disponível. Os outros estavam fora de catálogo. Localizou um único exemplar do romance Ponciá Vicêncio – na casa da escritora. Um site anunciava a venda de um dos livros de Evaristo, mas o que o correio entregou era uma cópia xerocada.

Amaro decidiu que ele próprio publicaria os autores negros cujos livros lutava para encontrar. Ainda em 2015, criou a Malê, que até o final deste ano contará com mais de 70 títulos no catálogo e prepara o lançamento de um clube do livro por assinatura. “Algumas editoras passaram a lançar livros de cultura negra depois da Lei 11.645/08 (que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena), mas publicar literatura negra ainda causava estranhamento”, disse Amaro. A Malê apostou em autores como o afrofuturista Fábio Kabral e resgatou Geni Guimarães, poeta e contista que fez sucesso nos anos 1980, mas passou duas décadas sem publicar. “Há décadas, autores negros reivindicavam que o mercado editorial olhasse para eles”, afirmou Amaro. Ele comemora a diminuição da “invisibilidade” dos autores negros, que têm conquistado espaço até mesmo em editoras cujos catálogos não refletem, nem de longe, a diversidade racial do Brasil.

Quem tem o costume de frequentar livrarias, provavelmente, reparou. Nos últimos anos, a oferta de livros de autores negros cresceu. Eles passaram das estantes escondidas nos fundos das lojas para as vitrines. Toda livraria de respeito tem pilhas e pilhas dos livros da filósofa Djamila Ribeiro, cujos títulos acampam há anos nas listas de mais vendidos. Desde 2019, já foram impressos mais de 200 mil exemplares dos oito títulos da coleção Feminismos plurais (todos assinados por autores negros), coordenada por Ribeiro e editada pela Jandaíra. A chegada de Ribeiro, que antes publicava por uma pequena editora mineira, obrigou a Jandaíra (então chamada Pólen) a se reestruturar: passou de cinco para nove funcionários e, segundo a diretora editorial Lizandra Magoo de Almeida, “ainda falta gente”. Nos dois primeiros meses de pandemia, as vendas despencaram, mas a recuperação foi impressionante. A procura pelos títulos da editora decuplicou. A Jandaíra se prepara para lançar o selo Justiça Plural, dedicado a livros jurídicos. O conselho editorial, formado por dez pessoas, cinco delas mulheres, tem maioria negra.

Todas as grandes editoras têm apostado cada vez mais em autores negros e se esforçado para diversificar o catálogo. Em julho, o Grupo Companhia das Letras anunciou a contratação do historiador Fernando Baldraia para atuar como editor de diversidade e a publicação de autores negros como Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez. A Globo Livros, que lançou os livros de Igor Pires, autor do best-seller Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente, vai lançar um livro em que Rachel Maia contará como se tornou uma das empresárias mais influentes do país. A Ediouro Publicações, que tem publicado livros do ator e ex-BBB Rodrigo França, como O pequeno príncipe preto, também prepara um título sobre diversidade no mundo corporativo: A empresa antirracista, organizado por Maurício Pestana. A Todavia vai lançar Uma breve história do racismo no Brasil, da historiadora Ynaê Lopes dos Santos e Os supridores, primeiro romance de José Falero, autor do livro de contos Vila Sapo, editado pela pequena editora gaúcha Figura de Linguagem. O Grupo Editorial Record vai publicar a historiadora Giovana Xavier, que, em 2016, chamou a Festa Literária Inter nacional de Paraty (Flip), principal evento do mercado editorial brasileiro, de “arraiá da branquitude”.

No ano passado, dos cinco autores mais vendidos na Flip, quatro eram negros e um era indígena. Em 2016, no entanto, não havia um só negro entre os 39 autores convidados da festa literária. Num debate da programação paralela da Flip, Conceição Evaristo questionou o curador Paulo Werneck, que estava na plateia, sobre a ausência de escritores negros: “Que democracia racial é essa em que nós vivemos?”. No ano seguinte, quando metade dos autores convidados pela nova curadora, Joselia Aguiar, era mulher e um terço deles era negro, Evaristo voltou a Paraty como uma das estrelas da programação principal da Flip.

A biografia de Evaristo, nascida em Belo Horizonte, em 1946, ilustra as adversidades enfrentadas pelos escritores negros para publicar no Brasil. Ela lançou seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio, apenas em 2003 e arcou com todos os custos de publicação. “Fiz um empréstimo e fiquei o ano todo no vermelho”, contou. Textos dela começaram a aparecer nos Cadernos negros, do coletivo Quilombhoje, no início dos anos 1990 e, desde a década anterior, ela tentava publicar o romance Becos da memória. Enviava o manuscrito para editoras que nunca respondiam. “Fiquei tão frustrada que enfiei o livro na gaveta. Um amigo me dizia que Becos da memória, ainda inédito, já era best-seller, porque todo mundo que lia gostava”, contou. Quando finalmente foi publicado, em 2006, Becos da memória virou leitura obrigatória para os vestibulares de diversas universidades. Em 2014, Evaristo lançou Olhos d’água, premiado com um Jabuti no ano seguinte. Foi a primeira vez que ela não precisou pagar para publicar.

Nos últimos tempos, Evaristo passou a receber convites para publicar por editoras grandes. Talvez aceite, mas assegurou que jamais deixará de lançar livros por editoras independentes. “Para mim é uma questão de honra, porque foram elas que me ajudaram a fazer meu nome.” Em falas públicas, Evaristo nunca se esquece de citar outros escritores negros que, diferentemente dela, ainda não receberam o devido reconhecimento. “Eu me lembro de uma palavra de ordem de uma Marcha das Mulheres Negras que dizia: “Uma sobe e puxa a outra”, disse.

Foi Evaristo quem apresentou a escritora Ruth Guimarães (1920-2014) a Pedro Almeida, publisher da Faro Editorial. Guimarães foi a segunda mulher negra a publicar um romance no Brasil (a primeira foi Maria Firmina dos Reis, em 1859). Em 1946, Água funda arrancou elogios de Antônio Candido (1918-2017), nosso maior crítico literário. Estudiosa do folclore brasileiro, Guimarães escrevia sobre a cultura caipira do interior paulista e do sul de Minas e traduzia do francês, do russo e do latim. A Faro acaba de publicar dois livros inéditos dela – Contos negros e Contos índios – e promete outros dois para o ano que vem: Contos de encantamentos e Contos do céu e da terra. “O trabalho de pesquisa de campo que essa mulher fez não tem similar. Contos negros e Contos índios registram histórias de nossa tradição oral. Fiquei surpreso que esses tesouros ainda estivessem inéditos”, contou Almeida. “Ruth está sendo redescoberta porque não é possível mais ignorar tantos autores negros que formaram a literatura de nosso país.”

Fernando Baldraia, editor de diversidade da Companhia das Letras, acredita que a melhor literatura brasileira hoje é produzida por autoras negras. Segundo ele, o mercado editorial tem duas missões: divulgar autores que até hoje não receberam a devida atenção e “atentar a debates sobre diversidade e a como representá-los estética e politicamente na literatura”. Baldraia também destacou a importância de diversificar as equipes das editoras. O escritor Paulo Scott, outro entusiasta das narrativas de mulheres negras, concorda: diversificar os catálogos não é suficiente. “Estou há anos cobrando abertamente que a Flip tenha um curador negro e que a editora que me publica contrate editores retintos”, afirmou Scott, publicado pelo Grupo Companhia das Letras. “Não adianta contratar editores brancos formados na USP (Universidade São Paulo). Eles não têm a sensibilidade necessária nem sabem fazer as perguntas certas.” Em 2019, Scott lançou Marrom e amarelo, romance no qual um militante antirracista, pesquisador da “hierarquia cromática” brasileira e negro de pele clara (como o próprio Scott) é convidado pelo governo para participar de uma comissão que discute soluções para o “caos que, de súbito, tinha se tornado a aplicação da política de cotas raciais para estudantes no Brasil”.

Marrom e amarelo é um dos favoritos aos principais prêmios literários deste ano, como o Jabuti. Seu principal concorrente é outro romance que enfrenta o racismo brasileiro: Torto arado, de Itamar Vieira Junior, publicado pela Todavia e que já vendeu mais de 13 mil cópias (físicas e digitais). O número impressiona, porque raramente os livros de ficção nacional vendem mais de 3 mil exemplares. Torto arado dá voz a quem sempre esteve à margem. As narradoras são três: Bibiana, Belonísia e uma entidade do jarê, religião afro-brasileira praticada na Chapada Diamantina. Bibiana e Belonísia são filhas de camponeses negros e pobres, que vivem e trabalham em terra alheia, sem receber 1 centavo, como se a escravidão nunca tivesse sido abolida. O pai delas, Zeca Chapéu Grande, comandava as brincadeiras de jarê e apaziguava conflitos entre o dono da terra e os trabalhadores. “Zeca Chapéu Grande é uma homenagem ao meu bisavô José. O filho dele, meu avô, era um homem negro e forte, que sofreu muito racismo, mas nunca baixou a cabeça e ensinou a família a se orgulhar de nossa origem”, disse Vieira Junior. Geógrafo e servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ele se surpreendeu que muitos leitores tenham reconhecido, em Torto arado, as histórias de suas famílias, que, há poucas gerações, viviam no campo, próximas da extrema pobreza.

Se Scott e Vieira Junior lutam pelo Jabuti deste ano, um forte candidato ao prêmio de 2021 é Jeferson Tenório, que, recentemente, lançou O avesso da pele (Companhia das Letras), romance elogiado por ambos. No livro, um jovem tenta reconstituir a vida do pai, um professor morto numa desastrosa abordagem policial. É o terceiro romance de Tenório, que publicou O beijo na parede e Estela sem Deus, que saíram por editoras pequenas. O próximo vai contar a história de um rapaz negro que ingressou na universidade pública graças às cotas raciais. Tenório foi o primeiro cotista a se formar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e sustenta que as ações afirmativas ajudaram a formar um público leitor ávido por narrativas negras e pela democratização do cânone Literário. Ele é o primeiro patrono negro da Feira do Livro de Porto Alegre, que existe desde 1955 e passou a conceder a distinção em 1965. “Frequento a Feira do Livro de Porto Alegre há 20 anos e jamais pensei que receberia a mesma homenagem que Erico Veríssimo, Mario Quintana e Caio Fernando Abreu. Essa distinção geralmente era dada a escritores mais velhos, brancos e de uma classe social mais alta”, disse Tenório, de 43 anos. Ele defende que “ampliar o cânone não é excluir autores brancos, mas incluir autores negros que nos ajudam a contar a história do Brasil”, disse Tenório.

Os romances de Tenório são narrados por pessoas negras em diferentes fases da vida. Narradores negros são raros na literatura brasileira. Regina Dalcastagne, da Universidade de Brasília, analisou 692 romances lançados por 383 escritores brasileiros desde 1965. Dos autores publicados entre 1965 e 1979, 93% eram brancos. O índice subiu para 93,9% entre 1990 e 2004 e para 97,5% entre 2005 e 2014. Já os protagonistas negros eram, respectivamente, 4,7%, 5,8% e 4,5%. “Por não ver minha história nos livros, também não me via como autora”, afirmou Eliana Alves Cruz, autora de três elogiados romances históricos sobre a escravidão. Aos 11 anos, ela anotou em seu diário o sonho de ser escritora, mas só lançou seu primeiro livro, Água de barrela, aos 50. “A literatura brasileira não se reduz ao que escrevem homens brancos e heterossexuais da classe média do Sudeste. Tem muito mais história para ser contada, e isso já está começando a mudar.”

“Está na hora de pegarmos a caneta e contarmos nossas histórias”, afirmou o escritor Juan Jullian, de 25 anos. Negro, gay e morador da Zona Norte do Rio, ele cresceu lendo Harry Potter e buscando, sem muito sucesso, livros em que os personagens se parecessem com ele. “Resolvi escrever uma história em que o protagonista morasse no meu bairro, tivesse minha cor e enfrentasse os problemas que eu enfrentei.” O resultado foi Querido ex, romance no qual um jovem tenta superar o ex-namorado babaca que virou estrela de reality show. Jullian lançou Querido ex pela plataforma de auto publicação da Amazon, o KDP, em 2018. Com o sucesso, o livro ganhou uma nova edição, pela Galera Record, e Jullian já es tá escrevendo uma continuação. “Ninguém pensa que um menino preto pode ser escritor ou imagina que pessoas pretas escrevem sobre outros assuntos além do racismo” afirmou Jullian. Ele contou que costuma receber mensagens de leitores que nunca tinham encontrado um livro em que o protagonista se parecia com eles. E que Querido ex também caiu no gosto de mulheres brancas que já passaram dos 30 ou 40 anos. “No começo fiquei surpreso, mas depois me lembrei de que meu livro era sobre coração partido.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 06 DE DEZEMBRO

A SANTIDADE DO SEXO

Que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra (1Tessalonicenses 4.4).

O sexo é bom, santo, puro e deleitoso. Deus criou o homem e a mulher e criou-os sexuados, com desejos legítimos e com a capacidade de dar e receber prazer. O prazer sexual não é pecado; é santo. Deus instituiu a forma certa de desfrutarmos do sexo de forma segura, abundante e deleitosa: o casamento. O sexo antes do casamento é fornicação, e aqueles que se entregam a essa prática estão debaixo da ira de Deus. O sexo fora do casamento é adultério, e somente aqueles que querem destruir-se cometem tal loucura. O sexo é proibido por Deus antes e fora do casamento, mas ordenado por Deus no casamento. Mesmo no casamento, porém, o sexo precisa ser puro. A Bíblia diz que digno de honra entre todos é o casamento e o leito sem mácula. A palavra “leito” significa “coito”, relacionamento sexual. Marido e mulher não devem buscar expedientes pornográficos para aquecer o relacionamento sexual. A pornografia é um pecado. Vicia e adoece a relação. É como levar lixo para o leito conjugal. As pessoas mais felizes na vida sexual são aquelas que usufruem desse banquete do amor com santidade e pureza. São aquelas que bebem as águas de seu próprio manancial. A fidelidade conjugal é vital para um relacionamento sexual saudável entre marido e mulher. A Palavra de Deus é clara em ensinar que o cônjuge precisa ser um jardim fechado, uma fonte selada.

GESTÃO E CARREIRA

SOBROU PARA OS JOVENS

Afetada pelos impactos econômicos da pandemia, a geração entre 18 e 29 anos pode arcar por mais tempo com problemas provocados pela perda de renda e prejuízos aos estudos

O multitalentoso artista francês Jean Cocteau (1889-1963), de grandes contribuições à literatura e ao cinema, escreveu que “a juventude sabe o que rejeita antes de saber o que quer”. No futuro próximo, porém, ela poderá ser obrigada a aceitar muito menos do que deseja. Pelas características da Covid-19, os jovens foram muito mais preservados dos riscos à saúde causados pelo coronavírus aos mais velhos, e, se sentindo seguros, protagonizaram cenas de festas e convivência social, como a da foto do post, tirada no bairro do Leblon, no Rio. Entretanto, passado o pior da crise sanitária – e depois que até os idosos puderem abandonar o isolamento social -, há grandes probabilidades de eles serem os mais impactados pelos reflexos econômicos da pandemia. Diversos estudos mostram que menos oportunidades de emprego e de estudo trarão efeitos, talvez até por décadas, para a renda dos jovens de hoje. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), tem batido nessa tecla e afirmou recentemente que as cicatrizes econômicas causadas pelo coronavírus podem permanecer por um período de dez a quinze anos.

Quadro semelhante se desenha no Brasil. Dados da pesquisa Pnad Contínua compilados pelo Ibre/FGV mostram que a diminuição da força de trabalho foi muito mais aguda entre os mais novos. Do segundo trimestre de 2019 até o mesmo período deste ano, o número de adultos que estão no mercado de trabalho caiu 6,33%, enquanto na população com idade entre 25 e 29 anos a queda foi de 12,8%. Já para a faixa etária de 18 a 24 anos, a perda atingiu 17,5%. Quanto menor a idade, mais difícil ficou conseguir uma vaga, ao mesmo tempo que o estudo também acabou prejudicado. “A forma como o jovem se insere no mercado de trabalho impacta muito na sua vida produtiva nas décadas seguintes”, diz Daniel Duque, responsável pelo levantamento. “Com certeza, o jovem vai entrar em mais vagas informais.” Isso pode significar aceitar ocupações fora das atividades sonhadas.

Estudante do terceiro ano do ensino médio, Bárbara Xavier, de 18 anos, sente essa dificuldade. Ela teve de adiar o sonho de fazer faculdade por que não conseguiu estudar adequadamente para o Enem deste ano. “Desde o meio do ano passado me inscrevo em programas focados em jovens aprendizes e não recebi resposta. Agora ficou ainda pior porque a maioria das empresas está em home office, não quer contratar a distância e muito menos pessoas que ainda precisam ser treinadas”, diz ela. Três anos mais velha, Bianca Cavalcante foi obrigada a trancar a matrícula no segundo ano da graduação de publicidade, em agosto, devido à perda de renda familiar e ao alto custo da mensalidade. Hoje, ela trabalha vendendo tênis com o namorado. “Não tenho ideia de quando vou poder voltar para o curso”, diz.

Os obstáculos para o aprendizado são ainda maiores para as classes de renda mais baixa, num momento em que as aulas se tornaram remotas. Um estudo da Fundação lochpe; que faz parcerias com empresas para qualificar gratuitamente jovens para o mercado de trabalho mostrou que, de 1.300 alunos 50% possuem apenas o celular da família, portanto, com acesso esporádico, e 30% não têm nenhum dispositivo celular nem acesso à internet.

Outro levantamento, feito pelo Centro de Integração Empresa-Escola, o CIEE, evidencia que os contratos de estágio e aprendizagem caíram significativamente após a pandemia (veja o quadro abaixo). Mesmo que, para 2021 a expectativa seja de retomada gradual das vagas, elas ficarão aquém de 2019 quando 328.488 contratos foram assinados. Este ano deve se encerrar com 205.000 contratações e 2021 com 273. 000. ”Na melhor das hipóteses, voltaremos ao nível do ano passado no final de 2022, e isso se tudo der certo na economia”, diz Humberto Casagrande, CEO do CIEE. Tudo dependerá do crescimento do PIB. O que não será recuperado, infelizmente, é o tempo perdido durante a pandemia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNOS EMOCIONAIS – V

REEQUILÍBRIO FÍSICO

Necessários na maioria dos casos, os medicamentos devem fazer parte de um tratamento multidisciplinar

Imagine que alguém descobre ter uma infecção bacteriana na garganta. Logo o médico receita alguns dias de antibiótico para combater o micro-organismo causador da doença. Já para alguém que pega uma gripe ou um resfriado, são indicados medicamentos para aliviar sintomas como tosse, febre e dores e diminuir o mal-estar. Em todos esses casos, os medicamentos são fundamentais, porém funcionam bem melhor se houver outros cuidados por parte do paciente, como repouso, hidratação e boa alimentação. O mesmo acontece quando o assunto é algum transtorno emocional: em muitos casos, existe um desequilíbrio no cérebro que só o tratamento farmacológico consegue consertar. Contudo, o paciente com depressão, ansiedade ou quaisquer outros problemas emocionais vai apresentar uma melhora significativa se combinar esse tratamento com outros como a psicoterapia, a mudança de hábitos e até a adoção de terapias complementares. Independentemente do tipo de transtorno, buscar uma combinação de tratamentos é indispensável para que os sintomas não se agravem. “Os transtornos emocionais podem desencadear outros problemas de saúde, como a hipertensão arterial, o aumento do risco de AVC, infartos, etc.”, avisa o psicólogo e hipnoterapeuta Valdecy Carneiro.

É POSSÍVEL TRATAR SEM MEDICAÇÃO?

“Em casos mais leves de distúrbios emocionais, o tratamento com a psicoterapia pode ser efetivo, eliminando os sintomas, sem a necessidade de uma terapia medicamentosa. A combinação da psicoterapia com medicamentos é mais indicada nos casos mais graves, sendo que qualquer tratamento precisa ser mantido por, no mínimo, três semanas, para verificar os resultados e a eficiência”, responde a psicóloga e palestrante Aline Fontes Ribeiro. É o psiquiatra quem vai avaliar a necessidade ou não do uso de medicamentos e a indicar para outros tipos de tratamentos.

A consulta primária, contudo, pode ser realizada tanto com um psicólogo quanto com um psiquiatra, que poderão encaminhar para outros especialistas – somente o psiquiatra pode retirar medicação. ”A medicação alivia os sintomas, fazendo com que o sujeito tenha alívio e segurança para levar sua vida. Já a psicoterapia conduz o sujeito da ‘escuridão’ à luz, ou seja, do desconhecimento acerca dele mesmo até o conhecimento. A combinação de ambos facilitaria a transformação da inabilidade em habilidade de lidar com a diversidade situacional”, acrescenta a psicanalista Virgínia Ferreira.

SÓ COM ORIENTAÇÃO

Os medicamentos só devem ser consumidos com prescrição médica, já que muitos deles podem provocar efeitos colaterais indesejáveis. Cada pessoa necessita de uma dosagem específica, que pode ser modificada ao longo do tratamento de acordo com as mudanças dos sintomas. Apesar de muitas medicações servirem para o tratamento de diferentes transtornos, outras não podem ser consumidas em determinados distúrbios ou podem piorar os sintomas. Existem casos de dificuldade de diagnóstico do transtorno bipolar, por exemplo, em que o paciente foi tratado como depressivo e, portanto, recebendo medicamentos específicos para a doença o que pode resultar em agravamento da fase inicial do transtorno bipolar quando ela surge.

“Um antidepressivo, por exemplo, pode servir para tratar depressão, mas também ansiedade ou TOC. Alguns anticonvulsivantes também originalmente utilizados para tratar convulsões, podem agir de forma satisfatória na modulação do humor. A ação deles no organismo é muito variada e depende de cada substância, sendo alguns ainda nem conhecidos”, destaca a psiquiatra Fernanda Ramalho. Portanto, uma vez iniciado o tratamento com o psiquiatra, o acompanhamento é indispensável, com consultas de rotina.