EU ACHO …

BUCANEIROS MODERNOS

A naturalização da prática da pirataria on-line é assustadora

Nesta semana, recebi cinco e-mails de leitores pedindo o “PDF gratuito” de um dos meus romances. Com toda a paciência, respondi que escrever livros é meu trabalho e, por isso, eu não enviava o material de graça. Se desejasse, o leitor deveria comprar o título. Para minha surpresa, recebi a seguinte resposta:” Não precisa mais. Consegui por esse link”. Sem resistir, cliquei no link. Ali, meu romance Dias Perfeitos estava disponível de graça, e um contador mostrava mais de 100.000 downloads. Ou seja, mais pessoas haviam baixado o livro pirata do que comprado nas livrarias. Fiquei pasmo.

Já há alguns anos, baixar filmes, séries e músicas se tornou algo tão comum que pouca gente tem vergonha de esconder. Com a popularização do livro digital, o hábito chegou à literatura. O assunto me incomoda desde a época da faculdade de direito na UERJ. Para mim, parecia um contrassenso que, após aulas sobre justiça e moralidade, o professor indicasse aos alunos que, em uma pasta com seu nome na xerox, havia textos e capítulos inteiros de livros para ser fotocopiados.

A naturalização dessa prática é assustadora. Tenho vários amigos que vivem de direitos autorais e que assumem consumir pirataria, principalmente para encontrar filmes, músicas e livros na web. Com certo orgulho, esses “piratas modernos” se gabam de conseguir um link com algum filme raro ou de encontrar de graça algum livro em inglês que custaria uma fortuna para comprar. Em geral, o argumento usado para piratear é a disseminação do conteúdo. Segundo essa lógica, a pirataria contribui para que o conteúdo seja mais consumido. No caso dos livros, ainda dizem em tom de consolo que certos leitores poderão comprar em seguida, caso gostem. Para mim, funciona como alguém que rouba chocolates numa loja de departamentos. É crime, mesmo que o ladrão aprove o chocolate e passe a compra-lo depois.

Não sou contra autores que autorizam a publicação gratuita do seu trabalho – enquanto detentores dos direitos autorais, eles têm o direito de fazer o que bem entenderem. Por vezes, nos departamentos de marketing, as editoras oferecem trechos e capítulos do livro para download gratuito e legal, mas a obra completa de um autor não é (nem pode ser) amostra grátis de seu trabalho. Claro que não acredito que a arte atenda somente a fins econômicos – em alguns casos, já doei meus livros a bibliotecas de escolas públicas e a jovens carentes. Mas, em geral, fazer literatura, cinema e música é trabalho e deve ser remunerado como tal. Sei que tentar impedir a pirataria é uma guerra inútil, principalmente porque travada no território traiçoeiro do mundo digital. Ao mesmo tempo, é importante dar nome às coisas e, pouco a pouco, ir mudando a mentalidade das pessoas. Da próxima vez que alguém (ou você mesmo) baixar algo ilegalmente na internet, não custa sublinhar que isso é pirataria e que prejudica o trabalho de toda uma cadeia de profissionais.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

COMPRAR PARA QUE?

Com as vendas dos iPhones em queda, a Apple se prepara para diversificar suas receitas com um serviço de assinatura de seus belos – e caros – celulares

Não faz muito tempo, cada vez que a Apple anunciava o lançamento de um novo produto, o mundo da tecnologia de consumo entrava em frenesi. Primeiro sob a batuta do fundador Steve Jobs e depois já na gestão do executivo-chefe Tim Cook, os figurões do universo digital se reuniam em um auditório em Los Angeles ou São Francisco para ver em primeira mão as novidades, mesmerizados. De imediato, os consumidores mais fiéis, os chamados early adapters, começavam a traçar a estratégia para comprar o produto em questão antes de todo mundo (basicamente juntar dinheiro e escolher a loja em frente à qual passar alguns dias e noites). Hoje, tais situações se tornaram bem mais raras. Tanto que o lançamento da empresa que mais ouriçou os applemaníacos em 2019 foi o de um minúsculo fone de ouvido à prova de suor, com sensores para cancelamento de ruído externo e preço de 250 dólares nos Estados Unidos – pouco mais de 1.000 reais.

Com uma política de preços altos, acuada pela concorrência agressiva e por novidades cada vez menos bombásticas, a Apple resolveu travar suas batalhas em outro campo. O gigante da tecnologia, ainda posicionado como a empresa mais valiosa do mundo, vai entrar pesado na área de serviços e atuar em um novo nicho: o das assinaturas de celulares. Por meio do programa, o cliente paga uma tarifa mensal à companhia, o que lhe garante ter sempre um modelo atualizado em mãos, associado a um pacote de benefícios. Com isso, a Apple mantém seu consumidor fiel à tecnologia e sua já polpuda cesta de serviços como iCloud, Apple Music e Apple Pay, entre outros. “Até pouco tempo atrás, a Apple se destacava por oferecer a melhor câmera, os displays mais bem resolvidos, o design mais elegante e os dispositivos mais atraentes. Hoje, isso mudou. Seus últimos produtos têm pouca inovação e são muito semelhantes aos de empresas como Samsung e Huawei, e que custam bem menos”, diz o presidente da consultoria ITData, Ivair Rodrigues.

O recesso criativo da maçã californiana, além de visível nas prateleiras das Apple Stores, é facilmente constatado nos números. No último trimestre, a Apple amargou queda de 9% nas vendas de iPhone em relação ao mesmo período no ano passado – o lucro líquido da empresa caiu 3%, para 13 bilhões de dólares no último trimestre, em comparação com o mesmo período de 2018. Apesar de ainda serem a principal fonte de receita, os telefones (à venda em seis versões disponíveis no site da empresa com preços entre 3.399 e 9.599 reais) perderam participação nos lucros – foram superados, por exemplo, pelos minifones de ouvido, os AirPods, e pelos iPads.

Entretanto, o crescimento da área de serviços foi exponencial, o que fez a empresa atentar para esse nicho – o avanço no primeiro semestre de 2019 em relação ao mesmo período de 2018 foi de18%. O mais eloquente sinal de que a próxima novidade será o serviço de assinatura de celulares veio do próprio Tim Cook. “Existem muitos usuários que desejam um pagamento recorrente e o recebimento de novos produtos em algum tipo de padrão. Estamos comprometidos em tornar isso mais fácil”, declarou o executivo há duas semanas.

O novo pacote ainda não tem data definida de lançamento nem preços estabelecidos. Mas, funcionaria da seguinte forma: pagamentos mensais dariam direito a armazenamento extra de dados na nuvem da companhia, o iCloud, e ao canal de streaming AppleTV+ – novidade que acaba de chegar ao Brasil neste mês para o confronto com a Netflix. Além disso, os pagamentos permitiriam a troca automática do iPhone a cada lançamento, sem custo adicional. “Os produtos da Apple são muito caros, principalmente os iPhones, o que leva os consumidores a ter maior disposição para testar os produtos da concorrência, com inovações semelhantes e preços mais atraentes”, diz a analista Tina Lu, da consultoria americana especializada em tecnologia Counterpoint.

Assim como o touchscreen não foi invenção da Apple, a oferta de produtos por meio de assinaturas não é nenhuma novidade. Em meados do século XIX, a americana Singer produzia máquinas de costura inovadoras que passaram a ser rapidamente copiadas pela concorrência. Em 1856, o advogado Edward Cabot Clark, sócio da empresa, criou um sistema batizado de hire-purchase, pelo qual um aluguel mensal de 2 a 10 dólares poderia ser transformado em opção de compra do produto no fim do contrato – ou de troca por um modelo mais novo, com a manutenção das mensalidades. A medida garantiu à companhia o domínio absoluto do mercado por mais de 100 anos.

Nos últimos anos, os clubes de assinatura voltaram a chamar a atenção – tanto dos consumidores como dos fabricantes de bens de consumo. Pesquisa recente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico mostra que essa modalidade de venda apresentou avanço de 167% no país desde 2015 – 800 empresas oferecem a comodidade. O rol de produtos disponibilizados é variado, desde os mais comuns, como vinhos, livros e artigos para animais domésticos, até os mais caros, como automóveis.

No Brasil, locadoras de veículos e seguradoras criaram pacotes mensais que dão direito a veículos, sem o ônus da manutenção ou do IPVA. Em uma empresa como a Porto Seguro, o leque de ofertas vai de um simples Ford Ka, por 999 reais por mês, a um Mercedes-Benz C 180, por 5.799 reais mensais, em contratos de no mínimo um ano. “É interessante tanto para o consumidor quanto para as empresas. Existe a comodidade para o cliente de ter todo tipo de serviço sem que seja tão oneroso, enquanto as companhias fidelizam esse consumidor”, avalia Reynaldo Saad, sócio responsável pela área de consumo da consultoria Deloitte.

Mesmo entre as grandes da tecnologia, a Apple entrará em território que alguns concorrentes diretos já ocupam há alguns anos. Fabricantes de computadores pessoais como Lenovo, Dell e HP oferecem um serviço similar voltado para empresas. Os pacotes envolvem a troca periódica das máquinas e a atualização de softwares a preços preestabelecidos, com assistência técnica incluída nas mensalidades. A HP, por sinal, dispõe de um serviço com máquinas da própria Apple. Em fevereiro do ano passado, o gigante dos computadores e impressoras, que teve Steve Jobs entre seus estagiários e cujas peças foram usadas por ele para construir seus primeiros computadores, expandiu a linha de pacotes de assinatura para produtos como Macs, iPhones e iPads, em um modelo muito parecido com o que a Apple quer lançar por sua conta. Éexatamente o tipo de estratégia que Jobs aplicou com brilhantismo durante toda a sua vida: adaptar as criações alheias para criar produtos cada vez melhores e com isso se manter sempre no topo.

MÊS A MÊS

Para garantir a fidelidade dos consumidores, o varejo aderiu ao serviço de assinaturas

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE DEZEMBRO

CORAÇÃO ADOECIDO

A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida (Provérbios 13.12).

A esperança é o oxigênio da vida. Se ela falta, perecemos. Se ela tarda, adoecemos o coração. Porém, o anseio satisfeito é árvore de vida. A vida é feita de decisões. Não somos aquilo que falamos, mas o que fazemos. Não é sábio deixar para depois aquilo que podemos fazer hoje. Não é sensato empurrar com a barriga decisões que precisam ser tomadas com pressa. Não é prudente jogar para debaixo do tapete aquilo que precisamos resolver com agilidade. A esperança adiada entristece o coração. Talvez você tenha deixado para depois aquela conversa que precisaria ter com seu cônjuge, com seus filhos ou com seus pais. Talvez tenha fugido de tomar algumas decisões na sua vida. É melhor o desconforto do confronto que a posição confortável da omissão. Não espere mais para falar, agir e posicionar-se. Levante-se e seja forte. Ninguém pode assumir o seu lugar para tomar as decisões que só você pode fazê-las. Não adie mais. Acabe com esse ciclo vicioso. Sacuda a poeira. Ponha o pé na estrada. Mantenha a visão do farol alto. Suba nos ombros dos gigantes e comece uma marcha vitoriosa na vida. Não deixe para amanhã o que você precisa fazer hoje!

GESTÃO E CARREIRA

TOMADA DE DECISÃO

Manter sua posição ou voltar atrás?

Caso lhe mostrem evidências de que você tomou uma decisão equivocada, você acha que vai causar melhor impressão se mantiver sua posição ou se optar por outro curso de ação? De acordo com uma série de estudos, a resposta a essa pergunta depende do contexto. Pessoas que mudaram de ideia diante de evidências não confirmadas foram vistas como mais inteligentes do que as que mantiveram sua posição inicial —, mas elas foram vistas também como menos confiantes.

Os pesquisadores começaram estudando 84 empreendedores que participaram de uma competição em que deveriam expor suas ideias. Somente 20 mudaram seu discurso em decorrência do feedback de potenciais investidores; esse grupo mostrou-se quase seis vezes mais propenso a seguir para a rodada final da competição do que seus colegas mais teimosos.

Em um experimento subsequente, os participantes desempenharam a função de gerente de contratação avaliando dois candidatos com base no desempenho deles durante um debate. Depois de o moderador apresentar fatos que contradiziam a posição de um e outro, um deles reconsiderou suas ideias.

Os participantes informados de que estavam contratando um engenheiro — profissional que segundo o consenso deve primar pela inteligência — escolheram, de maneira esmagadora, o candidato que voltou atrás. Porém, os que sabiam estar contratando um palestrante motivacional — de quem se espera autoconfiança em primeiro lugar — preferiram o candidato que defendeu sua opinião até fim.

“Quando alguém está tentando mostrar-se confiante, mudar de ideia não é aconselhável”, escrevem os pesquisadores. “Contudo, nossos resultados mostram que quando se está tentando mostrar-se inteligente, mudar de ideia é sensato.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNOS EMOCIONAIS – IV

DIÁLOGO FUNDAMENTAL

A psicoterapia é indispensável no tratamento de transtornos, mas também pode ser realizada por qualquer pessoa, com ou sem problemas emocionais

Nos casos de transtornos emocionais, diversos profissionais da saúde podem atuar juntos.

O responsável pelo diagnóstico é o médico psiquiatra, que também vai recomendar o uso de fármacos caso seja necessário. Já o psicólogo entra tanto na prevenção quanto no tratamento dessas doenças e não está autorizado a receitar medicamentos – o tratamento é feito todo por meio de palavras, de conversas com o paciente. “O psicólogo é o responsável pela aplicação da avaliação psicológica e neuropsicológica e pode atuar como psicoterapeuta. A psicoterapia é um método que utiliza principalmente a fala eo diálogo. O intuito é auxiliar o indivíduo a compreender a si mesmo e a lidar melhor com seus problemas e dificuldades, que podem ser decorrentes de um transtorno mental leve (ansiedade ou fobias) ou de situações que fazem parte da vida de todos (separação ou morte), mas que o paciente tem uma dificuldade maior de compreensão e aceitação ou, ainda, de características da personalidade que prejudicam a pessoa esua integração emocional e social”, explica o psiquiatra e psicanalista Mário Louzã. Ambos os profissionais, contudo, podem ser psicoterapeutas e fica a critério do paciente escolher com quem realizar o tratamento.

ALÉM DO TRANSTORNO

Qualquer pessoa pode consultar um psicólogo e realizar sessões de psicoterapia, tendo ou não diagnóstico de transtornos mentais. Como destaca Louzã, as diferentes técnicas de terapia podem tratar um problema específico do indivíduo, por exemplo, a dificuldade para falar em público ou uma ansiedade exagerada, que não chega a ser doença. Também podem ser indicadas para determinadas fases da vida da pessoa, como quando surge a dificuldade para lidar com mudanças. Para quem tem predisposição.

Há quem opte por frequentar a sala do psicólogo a vida inteira, mas o tempo de psicoterapia varia para cada caso. Aliás, existe um método chamado “psicoterapia breve”, cujo prazo máximo é de um ano e trabalha focado em um problema específico. ”Acredito que todos nós deveríamos ter um psicólogo. Muitas pessoas resolvem questões que antes a prejudicavam e voltam quando percebem que algo não vai bem. Outras conseguem viver bem após a alta da psicoterapia”, afirma a psicóloga Lívia Marques.

PRIMEIRA ESCOLHA

Ao ter o diagnóstico de algum transtorno emocional confirmado, muitas pessoas preferem tentar um tratamento sem medicamentos. Em alguns casos menos graves, a psicoterapia pode ser suficiente para tratar o problema, mas não deve excluir o uso do medicamento caso este seja recomendado pelo psiquiatra. A medicação também não dispensa a psicoterapia. “Na maioria dos casos, a somatória do tratamento medicamentoso e psicoterápico produz um melhor resultado”, destaca o psiquiatra.

Enquanto o medicamento corrige possíveis falhas no organismo, como na produção de neurotransmissores, a psicoterapia vai buscar modificar o comportamento do paciente. “O psicólogo trabalha de forma que as pessoas com depressão e ansiedade por exemplo, possam analisar seus comportamentos disfuncionais e psicoeducá-los. Aprendem que, na verdade, é possível ter respostas diferentes nos estímulos, que não sejam depreciativos para elas. Os pacientes passam a viver de forma mais equilibrada e saudável, com qualidade de vida e com consciência de que as coisas podem ser trabalhadas dentro de um tempo chamado resiliência”, informa a psicóloga. Como os transtornos emocionais são causados por uma soma de fatores que envolve o funcionamento do organismo e o modo como o indivíduo lida com as adversidades da vida, o ideal é combater essas causas.