OUTROS OLHARES

A FÉ NA PONTA DO DEDO

Das mega igrejas as telas de smartphone, o cristianismo evangélico muda a política e a cultura no país

A vitória chegou, Deus abençoou

O barraquinho de madeira

Os buracos da telha, ele já tampou (amém)

A vitória chegou, Deus abençoou

Hoje entendo

Foi preciso passar veneno pra dar valor

Como podem sugerir as gírias ao leitor mais atento, o verso acima não é um trecho de uma pregação, louvor ou canção gospel. Foi composto por Felipe Messias Lopes, o MC Lipi, jovem morador da Zona Leste de São Paulo e hoje o artista de funk mais popular do YouTube. O clipe da canção A Vitória Chegou começa no interior de uma casa humilde, em meio a uma briga de Lipi com a família. Tava tudo desandando/ Fui demitido do trampo / E não tava ajudando em casa, canta. No fim, ele e os pais aparecem em uma casa reformada, de alvenaria, com a família tomando café à beira de uma piscina, onde se lê ao fundo a palavra fé. As imagens foram vistas mais de 68 milhões de vezes no YouTube. Lipi é cristão, e um dos expoentes do ”funk consciente” ou ”funk motivação”. Longe do estilo “ostentação” e da sensualidade que marcam os hits do gênero, o funk consciente oferece outro olhar sobre a vida nas quebradas. As letras valorizam o trabalho, a família e o esforço pessoal. Também exaltam as motos e o trabalho nos aplicativos de delivery como símbolos de superação.

Os evangélicos compõem 31% da população brasileira, segundo uma pesquisa do Datafolha de dezembro de 2019. Até a década de 2030, calcula o IBGE, devem desbancar os católicos como a religião mais popular do Brasil. Mais jovem, negro e feminino que o rebanho dos padres, o grupo lidera acelerada transição religiosa. Em matéria de fé, o cristianismo evangélico é o front que mais cresce. Em dez anos, segundo o último Censo de 2010, o aumento foi de 60%. A segunda legião que mais se expandiu é a daqueles que se declaram sem religião: passaram de 12,5 milhões em 2000 para mais de 15 milhões em 2010. A sociedade brasileira vive um paradoxo. Torna-se, ao mesmo tempo, secularizada e cada vez mais religiosa.

A era do tele evangelismo, que deu a organizações cristãs evangélicas o mando de sete grupos de mídia no Brasil e garante a solvência financeira até mesmo de redes comerciais, começa a ser superada pelo avanço nas novas tecnologias, em especial nas redes sociais. Com os cultos esvaziados por causada pandemia de coronavírus, e com cada vez menos doações de fiéis, a transição dos púlpitos para as telas do celular ficou cada vez mais visível. Na mesma rede que popularizou o funk de MC Lipi, uma horda de pregadores oferece conselhos e conforto espiritual à distância de alguns cliques. O mais popular deles é Deive Leonardo, catarinense de 30 anos que acumula mais de 7,2 milhões de seguidores no Instagram e 4,3 milhões no YouTube. Suas pregações semanais acumulam mais de 220 milhões de visualizações na rede, e aparece também nas postagens de celebridades como Neymar, o cantor Wesley Safadão e o surfista Daniel Medina. De camiseta, óculos e um sorriso no rosto, Leonardo destoa do clichê do pregador sisudo e histriônico das televisões. Suas reflexões misturam autoajuda, stand-up comedy e palestra motivacional. São menos sermão, mais conforto espiritual. Em sua pregação mais assistida no YouTube, ele usa o causo bíblico do paraplégico que voltou a andar como ode à amizade e à cooperação. Diz ele: “Quem tem amigos de verdade tem movimento, tem possibilidades, não fica paralisado. Porque seus amigos o impulsionam para a frente”.

A dinâmica das redes sociais favorece um modelo baseado no conflito, decisivo na captura de audiência. A família Pôncio, do Rio de Janeiro, é mestre no estilo. Bem-sucedidos no comércio de tabaco, os patriarcas Marcio e Simone lideram a Igreja Pentecostal Anabatista. No ano passado, Simone envolveu-se em uma polêmica no mundo gospel ao celebrar na igreja a união de dois homens, com direito a um ensaio fotográfico em que aparece nua ao lado de ambos. A história que alçou a família ao estrelato das colunas de fofoca é anterior: os filhos do casal, Saulo e Sarah, foram vítimas de traição dupla por parte do marido dela e da namorada dele. A novela mexicana rendeu aos envolvidos o status de celebridade e milhões de seguidores nas redes sociais. Até os bebês do clã têm perfil no Instagram. Daí para a política, foi um pulo. Ou melhor, um clique. Jonathan Couto, o rapaz que traiu a esposa e engravidou a concunhada, concorre a uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro como “o vereador da família”. Esse ciclo de pecado, arrependimento e salvação alimenta uma ampla rede de canais que favorece a desinformação e enche os bolsos de líderes religiosos. O Gospel Prime, maior portal de notícias evangélicas do País, investigado na CPMI das Fake News, controla o site Fuxico Gospel. Turismo, lazer, compras, romances, traições, qualquer assunto ligado ao universo das celebridades, segundo essa visão de mundo, pode e deve ter uma versão gospel. De roupas a músicas, os produtos com temática evangélica movimentam mais de 20 bilhões de reais por ano e mantêm cerca de 2 milhões de empregos.

Estima-se que, anualmente, 14 mil igrejas evangélicas abram as portas no Brasil. Basta um registro em cartório e, no caso das correntes mais tradicionais, a autorização das altas cúpulas. A maioria desses pequenos ministérios é chefiada por homens sem formação teológica consistente. Essa demanda deu origem ao ensino informado e a distância de leitura e interpretação da Bíblia. Em contraponto ao discurso de coach, fazem sucesso os pastores que defendem uma visão mais linha-dura do Evangelho. Nessa seara, destaca-se Yago Martins. Seu canal chamado Dois Dedos de Teologia faz sucesso ao tirar dúvidas aparentemente banais: é pecado fazer tatuagem? Fumar? Se comportar assim ou assado nas redes sociais? Seu maior sucesso de audiência no YouTube, contudo, é bem menos trivial, o vídeo intitulado Não Votem no Hitler, lançado em meio às eleições de 2018. Em tom apocalíptico, ele compara o Holocausto a um suposto movimento de interrupção em massa de gravidezes. E expõe seus requisitos devoto: ser absolutamente contra a legalização do “assassinato de crianças”, indicar ao Supremo Tribunal Federal ministros terminantemente contrários à legalização do aborto e fazer “tudo o que seja necessário” para impedir que essa “barbaridade primitiva” volte. E emenda: “Só há uma resposta humana e só depois dela eu começo a me preocupar com o resto das pautas políticas. Nem que isso signifique votar em alguém menos preparado”. Fica fácil entender quem (não) seria o Hitler da vez. Martins também é autor de um livro chamado A Máfia dos Mendigos, que defende a tese de que a caridade estimula a miséria. Naquele vídeo, Martins faz menção elogiosa a outro religioso: o católico Bernardo Kuster, editor do site olavista Brasil Sem Medo e alvo do inquérito das fake news no STF. Na era dos tele evangelistas, uma dobradinha como essa seria impensável. Mas, com a internet, a rivalidade e desconfiança mútuas entre católicos e evangélicos deu lugar a uma sólida aliança. O que azeita a relação é a resistência à renovação dos costumes e do entendimento referente a gênero, sexualidade, família e direitos reprodutivos. Um processo que a pesquisadora Magali Cunha, colunista do site de Carta Capital, chama de fundamentalização. O fundamentalismo, movimento que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs, está na raiz da chegada das igrejas protestantes históricas ao Brasil, no início do século XX. Sem, no entanto, uma perspectiva política. “Defendia-se um cristianismo mais reservado, afastado da sociedade”, afirma Cunha. No fim dos anos 1970, surge nos Estados Unidos a “maioria moral”, organização de lobby político liderada pelo pastor Jerry Falwell. A guinada à política logo se reflete nas igrejas brasileiras. E inspira o surgimento de um novo ramo religioso: as igrejas neo­pentecostais. Mesmo desfeita no fim dos anos 1980, a maioria moral deixou como legado uma polarização que ainda pulsa na cultura dos EUA. A guerra cultural alcançou o Brasil duas décadas depois. “Quando surgiu nos anos 1980, a bancada evangélica tinha demandas mais corporativistas”, observa a pesquisadora, evangélica atuante. A partir dos anos 2000, alinhados ao governo Lula, esses grupos ganham força no Executivo. Em pouco tempo, passaram, porém, a se contrapor aos avanços no campo dos direitos humanos e da educação. “O desejo de ter presença pública e o movimento gospel foram fundamentais para construir essa nova presença política.”

Os fiéis das igrejas históricas são hoje minoria entre os evangélicos: representam apenas 7% da população brasileira, ante 22% dos neopentecostais, segundo uma pesquisa do Datafolha de 2016. Constituem, porém, uma parcela mais escolarizada, rica e inserida na vida pública. Essa atuação discreta, mas eficaz, é conduzida principalmente pelos calvinistas. Esse grupo, de origem presbiteriana e batista, se diferencia pela compreensão de que o cristianismo deve reivindicar sua hegemonia sobre a cultura, reconstruindo a sociedade a partir da fé. O ideário está expresso na chamada teologia dos sete montes ou teologia do domínio. Os montes representam áreas de influência: família, igreja, cultura, mídia, educação, economia e governo. O governo tem hoje quatro ministros protestantes em postos-chave: Damares Alves, na Secretária da Mulher, Milton Ribeiro, na Educação, André Mendonça, na Justiça, e o general Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo. E vários outros no mesmo segundo escalão. Tem como front a universidade paulistana Mackenzie, de origem presbiteriana, e também figura em entidades como a Associação Nacional de Juristas Evangélicos, front de batalha nas altas cortes jurídicas em causas consideradas pela instituição como ameaças à liberdade religiosa e violação dos valores cristãos. A intenção não é tanto obter vitórias, mas barrar as pautas relacionadas a aborto, homossexualidade e educação sexual. Com a indicação de Kassio Marques ao Supremo, o lobby poderoso da Anajure sofreu um duro revés. O futuro ministro, católico, não demonstra até o momento disposição para misturar religião e justiça.

A união entre fundamentalismo religioso e poder político deve produzir frutos por muitos anos. A bancada evangélica tem hoje 194 deputados apoiadores, o que corresponde a mais de um terço da Câmara. Nas eleições municipais, o número de candidatos que se apresentam como líderes religiosos disparou. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, 4.656 candidatos se apresentam como “pastor” ou “pastora”. Em 2008, eram 1.985.

Ao mesmo tempo, estão em curso fenômenos internos que podem colocar em xeque o arranjo. É o caso dos desigrejados, fiéis que transitam entre várias congregações ao longo da vida, e acabam professando a fé de maneira independente. É o caso de Yago Gonçalves, crescido no seio das igrejas neopentecostais cariocas. “Tornei-me um sujeito teologicamente conservador, achava que mulher não poderia ser pastora”, lembra. Depois, passou pelas modernas mega­ churches e também se decepcionou. “A cosmovisão deles partia de um lugar, o ponto dominante, que é branco, e com o qual eu não me identifico.” Hoje frequenta uma pequena instituição, que não reúne mais que 30 adeptos, voltada à teologia negra e, segundo ele, mais aberta e inclusiva. A paulistana Jaqueline Ramos viveu uma experiência parecida. Depois de cinco anos na Bola de Neve, passou a questionar a hierarquia e a interferência da igreja na vida privada. “Fui questionada por oferecer carona a um colega da igreja, no qual eu não tinha nenhum interesse romântico. Naquela época, estava muito vulnerável e fui aceitando essas coisas. Isso vai minando a autoestima.” Após alguns anos longe dos templos, encontrou conforto existencial em outra agremiação, sediada na Barra Funda. Para Magali Cunha, o discurso ultrarreacionário nos costumes esbarra, de uma forma ou de outra, na realidade. “Esse discurso não toca nas questões mais essenciais da vida. As pessoas querem se sentir bem, ser felizes, mas no cotidiano a prática demanda que elas façam escolhas e tomem decisões. E geralmente essas decisões são bem fora da curva.”

Seja nas paradas musicais, em pequenos altares, nos grandes palcos iluminados ou na tela do celular, o cristianismo evangélico adapta-se com facilidade aos novos tempos. É uma religião do indivíduo, da inovação, do “agora”. Mas, ao mesmo tempo, oferece acolhimento, senso de comunidade e uma bússola moral. Também se adapta muito facilmente à realidade local. “É onde elas podem pedir ajuda, é onde conseguem acesso a advogados, doações. É uma rede de ajuda mútua. O cristianismo evangélico o autoriza a ter amor próprio, se autorrespeitar, quando o contexto da vida lhe diz o contrário. Isso funciona em muitos níveis”, afirma o antropólogo Juliano Spyer, autor do livro Povo de Deus: Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam. Especialista na relação entre as classes populares na internet, Spyer morou por um ano e meio em uma vila de trabalhadores na periferia de Salvador para uma pesquisa de campo, e escreveu o livro inspirado na convivência com as famílias locais. E advoga a retomada urgente do contato mais próximo e aberto com esse Brasil pobre e cristão. “Há uma generalização negativa, ou o evangélico é mercador da fé ou o coitadinho manipulado. Exigimos deles um esforço de entendimento que não estamos demonstrando.”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.