EU ACHO …

ME DESESPEREI NO BREU

Elaine Neves, 38 anos, enfrentou o parto da filha à luz de celulares durante o apagão no Amapá

Estava tudo certo para o nascimento da minha filha, Sarah Beatriz, na quarta-feira 4 de novembro. A expectativa era enorme e tínhamos a casa preparada fazia mais de um mês para recebê-la. Naquela madrugada, houve uma tempestade de raios e faltou luz. Não me preocupei, achei que ia voltar logo. Mal sabia que era o começo de um apagão que duraria vinte dias. Ao amanhecer, fui para a maternidade, onde faria o parto por cesariana, porque a gravidez era de risco. Cheguei às 7 horas e o hospital funcionava com a energia de um gerador. Como ninguém sabia a dimensão do problema, demos entrada normalmente na minha internação. Devido aos protocolos de prevenção do novo coronavírus, meu marido não pôde ficar como acompanhante. Ele voltou para casa e me vi sozinha, aguardando a hora da minha filha nascer, tomada de ansiedade e emoção.

No começo da tarde, entrei no centro cirúrgico. Me preparava para a anestesia quando o gerador falhou. Todo mundo ainda pensava que a falha na energia se resolveria logo e adiaram o parto para a noite. Mas assim que retornei à sala de cirurgia, já sob o efeito da anestesia, acabou o combustível do gerador e, novamente, ficamos no breu. A médica mandou buscar lâmpadas de emergência enquanto a equipe, muito agitada, acendia as lanternas dos celulares. Aí começou meu martírio. Com o ar-condicionado inoperante e o calor dominando a sala, o bisturi abriu o primeiro corte na minha barriga e eu senti nitidamente a dor. Gritei. Esperaram mais alguns minutos, depois me sedaram, mas nada adiantou. Talvez pelo nervoso extremo, a anestesia não fez efeito e senti cada minuto da operação. O gerador voltou à ativa quase uma hora depois, quando já estavam na etapa final da sutura, que foi feita à moda antiga: os pontos dados um a um, sem cauterização, já que o aparelho para isso só funcionaria com energia.

A enfermeira contou que me mostrou a Sarah logo depois do nascimento, mas eu não me lembro. No meio daquela escuridão, me desesperei e tive muito medo de morrer. Só conseguia pedir a Deus para não me levar. O meu parto era para ter sido maravilhoso, repleto de lembranças alegres, mas são poucos os momentos positivos na minha memória. O que ficou de mais forte mesmo foi o pavor de perder a vida tão cedo e ainda acontecer algo com minha filha. Naquele dia, um recém-nascido havia falecido no hospital e, depois, foi a vez da mãe. A notícia me deixou completamente abalada. Eu só chorava. Enquanto estive internada, o celular ficou sem bateria e as tomadas não funcionavam. Consegui falar com minha família apenas quando uma senhora me emprestou o dela.

Apesar do que passei, não culpo a equipe médica, mas lamento a negligência dos políticos que deixaram a situação chegar a esse ponto. Os médicos, ao contrário, foram verdadeiros heróis. Fizeram de tudo para que o parto fosse o mais rápido e o menos doloroso possível. Me diziam o tempo inteiro que daria tudo certo, e deu. Na escuridão, à luz de lanternas, eles conseguiram tirar minha filha com vida. Se não fosse por essas pessoas generosas e preparadas que cuidaram de mim, o final da história poderia ter sido bem diferente. A Sarah não foi planejada. Descobrimos a gravidez pouco antes da pandemia e, desde o início, a gestação foi bastante conturbada. Passei muito mal nos primeiros meses e acabei contraindo diabetes gestacional, o que fez com que ela crescesse muito – Sarah nasceu com mais de 4 quilos e 51 centímetros. Apesar de todos os sustos, foi sempre muito desejada e esperada. Quando enfim consegui ver sua carinha pela primeira vez, passado o efeito da sedação e em local bem iluminado, peguei na mão dela e disse: “Vencemos, filha”.

OUTROS OLHARES

A FÉ NA PONTA DO DEDO

Das mega igrejas as telas de smartphone, o cristianismo evangélico muda a política e a cultura no país

A vitória chegou, Deus abençoou

O barraquinho de madeira

Os buracos da telha, ele já tampou (amém)

A vitória chegou, Deus abençoou

Hoje entendo

Foi preciso passar veneno pra dar valor

Como podem sugerir as gírias ao leitor mais atento, o verso acima não é um trecho de uma pregação, louvor ou canção gospel. Foi composto por Felipe Messias Lopes, o MC Lipi, jovem morador da Zona Leste de São Paulo e hoje o artista de funk mais popular do YouTube. O clipe da canção A Vitória Chegou começa no interior de uma casa humilde, em meio a uma briga de Lipi com a família. Tava tudo desandando/ Fui demitido do trampo / E não tava ajudando em casa, canta. No fim, ele e os pais aparecem em uma casa reformada, de alvenaria, com a família tomando café à beira de uma piscina, onde se lê ao fundo a palavra fé. As imagens foram vistas mais de 68 milhões de vezes no YouTube. Lipi é cristão, e um dos expoentes do ”funk consciente” ou ”funk motivação”. Longe do estilo “ostentação” e da sensualidade que marcam os hits do gênero, o funk consciente oferece outro olhar sobre a vida nas quebradas. As letras valorizam o trabalho, a família e o esforço pessoal. Também exaltam as motos e o trabalho nos aplicativos de delivery como símbolos de superação.

Os evangélicos compõem 31% da população brasileira, segundo uma pesquisa do Datafolha de dezembro de 2019. Até a década de 2030, calcula o IBGE, devem desbancar os católicos como a religião mais popular do Brasil. Mais jovem, negro e feminino que o rebanho dos padres, o grupo lidera acelerada transição religiosa. Em matéria de fé, o cristianismo evangélico é o front que mais cresce. Em dez anos, segundo o último Censo de 2010, o aumento foi de 60%. A segunda legião que mais se expandiu é a daqueles que se declaram sem religião: passaram de 12,5 milhões em 2000 para mais de 15 milhões em 2010. A sociedade brasileira vive um paradoxo. Torna-se, ao mesmo tempo, secularizada e cada vez mais religiosa.

A era do tele evangelismo, que deu a organizações cristãs evangélicas o mando de sete grupos de mídia no Brasil e garante a solvência financeira até mesmo de redes comerciais, começa a ser superada pelo avanço nas novas tecnologias, em especial nas redes sociais. Com os cultos esvaziados por causada pandemia de coronavírus, e com cada vez menos doações de fiéis, a transição dos púlpitos para as telas do celular ficou cada vez mais visível. Na mesma rede que popularizou o funk de MC Lipi, uma horda de pregadores oferece conselhos e conforto espiritual à distância de alguns cliques. O mais popular deles é Deive Leonardo, catarinense de 30 anos que acumula mais de 7,2 milhões de seguidores no Instagram e 4,3 milhões no YouTube. Suas pregações semanais acumulam mais de 220 milhões de visualizações na rede, e aparece também nas postagens de celebridades como Neymar, o cantor Wesley Safadão e o surfista Daniel Medina. De camiseta, óculos e um sorriso no rosto, Leonardo destoa do clichê do pregador sisudo e histriônico das televisões. Suas reflexões misturam autoajuda, stand-up comedy e palestra motivacional. São menos sermão, mais conforto espiritual. Em sua pregação mais assistida no YouTube, ele usa o causo bíblico do paraplégico que voltou a andar como ode à amizade e à cooperação. Diz ele: “Quem tem amigos de verdade tem movimento, tem possibilidades, não fica paralisado. Porque seus amigos o impulsionam para a frente”.

A dinâmica das redes sociais favorece um modelo baseado no conflito, decisivo na captura de audiência. A família Pôncio, do Rio de Janeiro, é mestre no estilo. Bem-sucedidos no comércio de tabaco, os patriarcas Marcio e Simone lideram a Igreja Pentecostal Anabatista. No ano passado, Simone envolveu-se em uma polêmica no mundo gospel ao celebrar na igreja a união de dois homens, com direito a um ensaio fotográfico em que aparece nua ao lado de ambos. A história que alçou a família ao estrelato das colunas de fofoca é anterior: os filhos do casal, Saulo e Sarah, foram vítimas de traição dupla por parte do marido dela e da namorada dele. A novela mexicana rendeu aos envolvidos o status de celebridade e milhões de seguidores nas redes sociais. Até os bebês do clã têm perfil no Instagram. Daí para a política, foi um pulo. Ou melhor, um clique. Jonathan Couto, o rapaz que traiu a esposa e engravidou a concunhada, concorre a uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro como “o vereador da família”. Esse ciclo de pecado, arrependimento e salvação alimenta uma ampla rede de canais que favorece a desinformação e enche os bolsos de líderes religiosos. O Gospel Prime, maior portal de notícias evangélicas do País, investigado na CPMI das Fake News, controla o site Fuxico Gospel. Turismo, lazer, compras, romances, traições, qualquer assunto ligado ao universo das celebridades, segundo essa visão de mundo, pode e deve ter uma versão gospel. De roupas a músicas, os produtos com temática evangélica movimentam mais de 20 bilhões de reais por ano e mantêm cerca de 2 milhões de empregos.

Estima-se que, anualmente, 14 mil igrejas evangélicas abram as portas no Brasil. Basta um registro em cartório e, no caso das correntes mais tradicionais, a autorização das altas cúpulas. A maioria desses pequenos ministérios é chefiada por homens sem formação teológica consistente. Essa demanda deu origem ao ensino informado e a distância de leitura e interpretação da Bíblia. Em contraponto ao discurso de coach, fazem sucesso os pastores que defendem uma visão mais linha-dura do Evangelho. Nessa seara, destaca-se Yago Martins. Seu canal chamado Dois Dedos de Teologia faz sucesso ao tirar dúvidas aparentemente banais: é pecado fazer tatuagem? Fumar? Se comportar assim ou assado nas redes sociais? Seu maior sucesso de audiência no YouTube, contudo, é bem menos trivial, o vídeo intitulado Não Votem no Hitler, lançado em meio às eleições de 2018. Em tom apocalíptico, ele compara o Holocausto a um suposto movimento de interrupção em massa de gravidezes. E expõe seus requisitos devoto: ser absolutamente contra a legalização do “assassinato de crianças”, indicar ao Supremo Tribunal Federal ministros terminantemente contrários à legalização do aborto e fazer “tudo o que seja necessário” para impedir que essa “barbaridade primitiva” volte. E emenda: “Só há uma resposta humana e só depois dela eu começo a me preocupar com o resto das pautas políticas. Nem que isso signifique votar em alguém menos preparado”. Fica fácil entender quem (não) seria o Hitler da vez. Martins também é autor de um livro chamado A Máfia dos Mendigos, que defende a tese de que a caridade estimula a miséria. Naquele vídeo, Martins faz menção elogiosa a outro religioso: o católico Bernardo Kuster, editor do site olavista Brasil Sem Medo e alvo do inquérito das fake news no STF. Na era dos tele evangelistas, uma dobradinha como essa seria impensável. Mas, com a internet, a rivalidade e desconfiança mútuas entre católicos e evangélicos deu lugar a uma sólida aliança. O que azeita a relação é a resistência à renovação dos costumes e do entendimento referente a gênero, sexualidade, família e direitos reprodutivos. Um processo que a pesquisadora Magali Cunha, colunista do site de Carta Capital, chama de fundamentalização. O fundamentalismo, movimento que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs, está na raiz da chegada das igrejas protestantes históricas ao Brasil, no início do século XX. Sem, no entanto, uma perspectiva política. “Defendia-se um cristianismo mais reservado, afastado da sociedade”, afirma Cunha. No fim dos anos 1970, surge nos Estados Unidos a “maioria moral”, organização de lobby político liderada pelo pastor Jerry Falwell. A guinada à política logo se reflete nas igrejas brasileiras. E inspira o surgimento de um novo ramo religioso: as igrejas neo­pentecostais. Mesmo desfeita no fim dos anos 1980, a maioria moral deixou como legado uma polarização que ainda pulsa na cultura dos EUA. A guerra cultural alcançou o Brasil duas décadas depois. “Quando surgiu nos anos 1980, a bancada evangélica tinha demandas mais corporativistas”, observa a pesquisadora, evangélica atuante. A partir dos anos 2000, alinhados ao governo Lula, esses grupos ganham força no Executivo. Em pouco tempo, passaram, porém, a se contrapor aos avanços no campo dos direitos humanos e da educação. “O desejo de ter presença pública e o movimento gospel foram fundamentais para construir essa nova presença política.”

Os fiéis das igrejas históricas são hoje minoria entre os evangélicos: representam apenas 7% da população brasileira, ante 22% dos neopentecostais, segundo uma pesquisa do Datafolha de 2016. Constituem, porém, uma parcela mais escolarizada, rica e inserida na vida pública. Essa atuação discreta, mas eficaz, é conduzida principalmente pelos calvinistas. Esse grupo, de origem presbiteriana e batista, se diferencia pela compreensão de que o cristianismo deve reivindicar sua hegemonia sobre a cultura, reconstruindo a sociedade a partir da fé. O ideário está expresso na chamada teologia dos sete montes ou teologia do domínio. Os montes representam áreas de influência: família, igreja, cultura, mídia, educação, economia e governo. O governo tem hoje quatro ministros protestantes em postos-chave: Damares Alves, na Secretária da Mulher, Milton Ribeiro, na Educação, André Mendonça, na Justiça, e o general Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo. E vários outros no mesmo segundo escalão. Tem como front a universidade paulistana Mackenzie, de origem presbiteriana, e também figura em entidades como a Associação Nacional de Juristas Evangélicos, front de batalha nas altas cortes jurídicas em causas consideradas pela instituição como ameaças à liberdade religiosa e violação dos valores cristãos. A intenção não é tanto obter vitórias, mas barrar as pautas relacionadas a aborto, homossexualidade e educação sexual. Com a indicação de Kassio Marques ao Supremo, o lobby poderoso da Anajure sofreu um duro revés. O futuro ministro, católico, não demonstra até o momento disposição para misturar religião e justiça.

A união entre fundamentalismo religioso e poder político deve produzir frutos por muitos anos. A bancada evangélica tem hoje 194 deputados apoiadores, o que corresponde a mais de um terço da Câmara. Nas eleições municipais, o número de candidatos que se apresentam como líderes religiosos disparou. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, 4.656 candidatos se apresentam como “pastor” ou “pastora”. Em 2008, eram 1.985.

Ao mesmo tempo, estão em curso fenômenos internos que podem colocar em xeque o arranjo. É o caso dos desigrejados, fiéis que transitam entre várias congregações ao longo da vida, e acabam professando a fé de maneira independente. É o caso de Yago Gonçalves, crescido no seio das igrejas neopentecostais cariocas. “Tornei-me um sujeito teologicamente conservador, achava que mulher não poderia ser pastora”, lembra. Depois, passou pelas modernas mega­ churches e também se decepcionou. “A cosmovisão deles partia de um lugar, o ponto dominante, que é branco, e com o qual eu não me identifico.” Hoje frequenta uma pequena instituição, que não reúne mais que 30 adeptos, voltada à teologia negra e, segundo ele, mais aberta e inclusiva. A paulistana Jaqueline Ramos viveu uma experiência parecida. Depois de cinco anos na Bola de Neve, passou a questionar a hierarquia e a interferência da igreja na vida privada. “Fui questionada por oferecer carona a um colega da igreja, no qual eu não tinha nenhum interesse romântico. Naquela época, estava muito vulnerável e fui aceitando essas coisas. Isso vai minando a autoestima.” Após alguns anos longe dos templos, encontrou conforto existencial em outra agremiação, sediada na Barra Funda. Para Magali Cunha, o discurso ultrarreacionário nos costumes esbarra, de uma forma ou de outra, na realidade. “Esse discurso não toca nas questões mais essenciais da vida. As pessoas querem se sentir bem, ser felizes, mas no cotidiano a prática demanda que elas façam escolhas e tomem decisões. E geralmente essas decisões são bem fora da curva.”

Seja nas paradas musicais, em pequenos altares, nos grandes palcos iluminados ou na tela do celular, o cristianismo evangélico adapta-se com facilidade aos novos tempos. É uma religião do indivíduo, da inovação, do “agora”. Mas, ao mesmo tempo, oferece acolhimento, senso de comunidade e uma bússola moral. Também se adapta muito facilmente à realidade local. “É onde elas podem pedir ajuda, é onde conseguem acesso a advogados, doações. É uma rede de ajuda mútua. O cristianismo evangélico o autoriza a ter amor próprio, se autorrespeitar, quando o contexto da vida lhe diz o contrário. Isso funciona em muitos níveis”, afirma o antropólogo Juliano Spyer, autor do livro Povo de Deus: Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam. Especialista na relação entre as classes populares na internet, Spyer morou por um ano e meio em uma vila de trabalhadores na periferia de Salvador para uma pesquisa de campo, e escreveu o livro inspirado na convivência com as famílias locais. E advoga a retomada urgente do contato mais próximo e aberto com esse Brasil pobre e cristão. “Há uma generalização negativa, ou o evangélico é mercador da fé ou o coitadinho manipulado. Exigimos deles um esforço de entendimento que não estamos demonstrando.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE DEZEMBRO

OS PARADOXOS DA VIDA

Uns se dizem ricos sem terem nada; outros se dizem pobres, sendo mui ricos (Provérbios 13.7).

John Rockefeller, o primeiro bilionário do mundo, disse que o homem mais pobre que ele conhecia era aquele que só possuía dinheiro. Na verdade, o problema não é possuir dinheiro, mas ser possuído por ele. Não é carregar dinheiro no bolso, mas no coração. O dinheiro em si é bom, pois com ele desfrutamos de coisas boas e promovemos o bem. O problema é amar o dinheiro. O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Há indivíduos que se casam e se divorciam por causa de dinheiro. Há pessoas que corrompem e são corrompidas por causa do dinheiro. Há aqueles que matam e morrem por causa do dinheiro. Mas o dinheiro não oferece felicidade nem segurança. Logo, há ricos que são pobres. No entanto, há pobres que são ricos, pois aprenderam a viver contentes em toda e qualquer situação. O contentamento é uma atitude de plena satisfação em Deus. A vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. Podemos ser pobres e ao mesmo tempo ricos. Podemos dizer como o apóstolo Paulo: Entristecidos, mas sempre alegres;  pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo (2Coríntios 6.10).

GESTÃO E CARREIRA

MUITA CALMA NESTA HORA

Grupo Águia, dono de empresas como a agência de viagens Stella Barros, prega a retomada gradual de passeios e vê normalização no médio prazo

Quando a pandemia do novo coronavírus começou a se espalhar assustadoramente pelo mundo, entre fevereiro e março, muitos especialistas vaticinaram uma tragédia sem fim para o turismo, o primeiro a ser atingido. Alguns meses adentro da maior crise desde a Segunda Guerra Mundial, com a reabertura da Europa e da América do Norte, o setor começa a se reorganizar e acredita em recuperação total no médio prazo. ”Em um período de dois a três anos, as pessoas tendem a ser um pouco mais arredias e preocupadas com a saúde. Mas não vejo o caos atual como definitivo. Algumas coisas são impossíveis de substituir. Existe uma necessidade humana de ter os laços sólidos que o contato virtual não consegue forjar”, diz Thiago Abrahão, presidente do Grupo Águia, que controla a tradicional agência de viagens paulista Stella Barros, a Lynx Aviação Executiva e a operação da empresa de passeios Gray Line no país. A retomada tende a ser gradual, em sua avaliação. ”Relacionamentos pessoais e comerciais são construídos com o olho no olho, o aperto de mão.” Poucos turistas devem se aventurar fora do país em 2020. Assim, os destinos nacionais, que podem ser alcançados de carro ou com um voo curto, ficam em vantagem.

Aos poucos, conforme conhecem as novas práticas de aeroportos e companhias aéreas para higienizar e aumentar a segurança sanitária da experiência de voar, os passageiros devem buscar destinos mais longos. ”Andar de avião está mais seguro do que outras modalidades de transporte público”, diz Abrahão. Por outro lado, para o setor de cruzeiros aquáticos o desafio é maior: o navio, com suas muitas piscinas, restaurantes e salões de festa, tem como objetivo promover a socialização dos turistas. Enquanto muitas empresas do setor em todo o mundo pressionavam por uma reabertura rápida da economia, a empresa, que vendeu 90.000 bilhetes aéreos, 500.000 refeições e 200.000 diárias de hotel no ano passado, preferiu esperar, para preservar a saúde dos colaboradores e clientes. O Grupo Águia está começando agora a repovoar seus 14 escritórios, mas prevê uma volta à normalidade somente em cerca de dez semanas. Assim que percebeu a dramaticidade da situação, lançou um programa de apoio aos guias turísticos, que viram sua renda cair a praticamente zero com o surto da covid-19 e podem adiantar parte dos valores que vão receber quando os turistas regressarem. ”Queremos que se sintam amparados. Como empresa, temos de perceber que nosso papel não é só atravessar esta turbulência, mas ajudar quem está junto conosco a atravessar também”, diz o presidente do Grupo Águia. Cerca de 35 guias de turismo receberam a primeira das três parcelas mensais de 1.200 reais do auxílio em junho.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TRANSTORNOS EMOCIONAIS – II

DE DIVERSOS TIPOS

Os transtornos emocionais são vários e os sintomas podem causar confusão. Por isso, buscar orientação de um profissional capacitado é fundamental

Os transtornos emocionais são tão diversos que, na Classificação dos Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 eles sçao divididos por categorias, atualizdas de acordo com novas pesquisas.

Os transtornos de ansiedade são o problema de saúde mental mais com um no mundo e são divididos em diferentes distúrbios, de acordo com os sintomas que o paciente apresenta. Os tratamentos também vão ser determinados de acordo com o tipo do transtorno e com as necessidades de cada pessoa. Assim, o trabalho de profissionais capacitados vai fazer toda a diferença na melhoria do estado dos pacientes. Ter atenção nas mudanças de comportamento às queixas e ao histórico familiar e de vida de cada um é indispensável para o diagnóstico correto. Alguns problemas podem ser confundidos e, se indicado o tratamento inadequado, podem ter consequências graves.

Esses problemas tem causas multifatoriais, ou seja, surgem geralmente pela combinação da predisposição genética com os fatores ambientais. “Alguns comportamentos ou a falta de algumas habilidades sociais podem ser considerados fatores de risco relevantes – como a falta de assertividade (de maneira simplista, a falta de capacidade de dizer ‘sim’ ou ‘não’, quando deseja) e a falta de resiliência (capacidade de se manter inalterável, sem se deformar, perturbar, corromper ou se contaminar pelos eventos externos) – além de hábitos como o não gerenciamento do próprio tempo, geração do acúmulo excessivo de afazeres, ou daquilo que poderíamos considerar uma síndrome de super-herói, ou seja, acreditamos que temos o poder de estar presentes sempre, assumir toda e qualquer responsabilidade, inclusive pelas outras pessoas, abraçar mais tarefas e compromissos do que o tempo disponível permite e, além de tudo, não ter tempo para se cuidar ou liberar saudavelmente as próprias emoções e sentimentos”, lista o psicólogo e hipnoterapeuta Valdecy Carneiro.

Esses diversos fatores podem levar ao aparecimento de diferentes transtornos, que ainda podem surgir concomitantemente ou um desenvolver o outro. Apresentar predisposição genética, contudo, não é garantia de ter algum desses problemas, uma vez que eles dependem da combinação de causas. Conheça alguns e suas características:

TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG)

Ter ansiedade é normal e até saudável. Antes de um acontecimento importante, seja ele bom ou ruim, vem a sensação de expectativa, medo, além do que pode causar sintomas físicos como sudorese, tremores, aceleração dos batimentos cardíacos. O problema é quando essa sensação passa a ser frequente e atrapalhar o dia a dia e, o pior: sem motivo aparente. Essa preocupação excessiva ou expectativa apreensiva é a característica do transtorno de ansiedade generalizada, apenas um dos tipos que apresentam a ansiedade como sintoma. Genética, abuso de substâncias, traumas na infância, algumas doenças graves ou mesmo a personalidade (como a forma de lidar com as adversidades da vida) podem causar o transtorno, que precisa ser tratado com psicoterapia e medicamentos caso seja necessário.

TRANSTORNO DE PÂNICO

Mais conhecido como síndrome do pânico, o problema pode ser confundido com problemas do coração, como o infarto, pois provoca sintomas como taquicardia, respiração acelerada ou falta de ar, tremores, mãos e pés frios, boca seca e visão embaralhada. Alguns pacientes, aliás, descobrem ter transtorno de pânico ao procurar um cardiologista ou outro médico a fim de investigar os sintomas. “É um transtorno de ansiedade que apresenta crises severas sem motivo aparente e duram em média de 20 a 40 minutos, afetando física, mental e emocionalmente. A pessoa acometida pelo transtorno em geral relata que acha que vai morrer, razão pela qual procura o hospital”, destaca a psicóloga Poema Ribeiro.

O problema pode ter origem hereditária, mas as causas ainda não são totalmente conhecidas. Pode ser desencadeada, também, por uso de drogas, mas na maioria das vezes as crises surgem inesperadamente e sem razão específica, especialmente entre mulheres. É incomum na infância e mais visível entre as mulheres de 35 a 40 anos e na adolescência. “Para que o diagnóstico seja de transtorno, e não de urna crise isolada, o paciente tem que apresentar quatro ou mais dos sintomas citados, principalmente o medo de morrer, e não ter outras doenças em que os sintomas são parecidos: doenças cardíacas, distúrbios hormonais, epilepsia, asma ou meningite, avisa Poema.

A psicoterapia é fundamental no tratamento, pois o transtorno pode estar ligado a situações traumáticas que precisam ser esclarecidas. Repetidas crises também podem causar comportamento de medo, prejudicando o dia a dia do paciente, fazendo com que ele evite lugares públicos com medo de ser acometido por uma crise repentina, por exemplo. Esses casos são chamados de transtorno do pânico com agorafobia.

TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR

É o que se conhece como “depressão”, problema em que predominam sintomas como tristeza, angústia, choro fácil e frequente, visão de mundo pessimista, baixa autoestima, sentimento de incapacidade, irritabilidade aumentada, falta de concentração e insônia ou sonolência excessiva. Também podem aparecer alterações no apetite, que pode estar aumentando ou diminuído, levando a alterações no peso. Fatores biológicos, psicológicos e ambientas, combinados, têm um peso importante nos quadros depressivos, que podem ser desencadeados por experiências de perdas significativas (doença grave, perda de um emprego, luto ou perda do local de moradia, etc.). Filhos de pais depressivos também têm uma tendência maior a desenvolver o transtorno. Além da psicoterapia, diferentes medicamentos podem ser receitados, de acordo com a necessidade de cada paciente.

TRANSTORNO BIPOLAR

As mudanças de humor são a característica mais conhecida desse problema, porém os sintomas são mais complexos do que parecem. O comportamento do paciente alterna em depressivo e eufórico, contudo o episódio depressivo pode durar seis meses até surgir a euforia, o que pode levar a uma confusão no diagnóstico. Como os pacientes buscam ajuda médica quando são depressivos, podem receber tratamento para a depressão mascarando os sintomas e atrasando o diagnóstico correto. Somente uma avaliação minuciosa realizada por um psiquiatra poderá diferenciar as duas patologias. A avaliação do indivíduo e de sua história de vida, assim como a de seus familiares, constroem ao longo das consultas as hipóteses diagnósticas. Dependendo das manifestações clínicas apresentadas pelo paciente e de como ele for reagindo ao tratamento proposto, o diagnóstico vai se construindo até ter certeza de um diagnóstico único”, explica a psiquiatra Fernanda Ramalho.

Na fase depressiva, o paciente apresenta tristeza excessiva sem motivo aparente, indisposição, pensamentos pessimistas, desistência de projetos, isolamento social e alteração do sono. Já na fase eufórica, o humor é elevado, há hiperatividade mental, que também afeta o sono e a cognição. O paciente fica mais otimista, fala bastante, tem a libido aumentada e busca atividades prazerosas, além de iniciar vários projetos ao mesmo tempo – que podem ser abandonados logo depois. A duração das duas fases varia de acordo com cada pessoa e algumas podem apresentar apenas a fase de hipomania em que os sintomas eufóricos são mais amenos.

Na consulta com o psiquiatra, é importante relatar se há casos de transtorno bipolar na família e os sintomas o mais detalhadamente possível. O paciente na fase eufórica pode acreditar que está bem e não necessita de ajuda – cabe aos familiares, portanto, também prestarem atenção às mudanças de comportamento. O transtorno é tratado com psicoterapia e os medicamentos mais indicados são os moderadores de humor.