EU ACHO …

QUEBRANDO A QUARENTENA

Saí de casa e experimentei pela primeira vez o novo normal

Juro. Até agora fui um dos mais radicais seguidores do isolamento social. Moro em um condomínio no campo e passei esses meses olhando o lago, visitando os patos. Todo o tempo fui alvo de tentações. Amigos que iam a festas secretas, gente que só queria bater um papo. E se ofendiam se eu dizia não. ”Mas eu também faço quarentena” – respondiam. Coisa nenhuma. Há uma categoria de pessoas que sai todos os dias passeia o tempo todo até entra em sites de relacionamento para encontros com desconhecidos. Mas tem convicção de que mantém o confinamento. Fato: as ruas estão cheias, as praias lotadas. Mesmo assim eu e um grupo de amigos nos mantivemos radicais.

É óbvio. Tudo que eu esperava era um pretexto. Já li todo Dostoiévski, estou estudando francês on-line, vi vários filmes coreanos, faço jejum intermitente. Estou que não aguento mais! O pretexto veio com um projeto para um livro. Sai para encontrar uma terapeuta seríssima, que me falou de sua experiência com crianças essencial para o livro. Muito consistente. Só não sei se era bonita porque não tirou a máscara um segundo. Ela me aconselhou a comprar uns brinquedos para entrar no universo infantil.

Ahhhh… Voei para o Shopping Villa Lobos, em São Paulo. De máscara. Só então pude entender o novo normal. Ainda no carro, mediram minha temperatura. Desci. Todo mundo de máscara. Assim como se eu estivesse em um filme de ficção científica. Encontrei o brinquedo; essencial para entrar no universo do meu personagem. Imagino que o vendedor estava sorrindo. Mas talvez não, poderia estar prestes a me morder.

Fui comer em um restaurante ótimo, de carne, que, juro tem a melhor coxinha da minha vida (sou viciado em coxinhas). Ambiente de nave espacial em filme trash. Todos os garçons de máscara de plástico transparente. Álcool em gel na mesa para passar nas mãos a cada segundo. Cada pessoa sentada a quilômetros da outra. Resolvi caminhar e deparei com uma linda decoração de Natal. Como assim, o Natal já está chegando? 0nde foi parar o resto do ano?

Fiz uma foto junto a um gigantesco laço vermelho. Duas mulheres apresentaram-se como fãs de meus livros e novelas. Enfim queriam foto. Topei admirado de terem reconhecido só pelos olhos (ou pela barriga, pois a calça escorregou e o umbigo ficou à mostra). Gentilmente, eu me propus a tirar a máscara para a foto. Tirei. Elas não. Não confiavam em mim. Voltei às pressas para o estacionamento, sem ninguém mais se aproximar. Acabaram-se os sorrisos e os cumprimentos, que antes eu trocava no simples contato humano.

Cheguei em casa imerso em culpa. E se contaminasse alguém? Tirei a roupa, tomei banho e teria entrado em uma banheira de álcool em gel se pudesse. Um amigo viu meu post e ligou. Disse que sou maluco, não posso sair. Tem 30 anos. Acaba de pegar Covid foi horrível. Avisou que a segunda onda vem aí. Estou de novo recolhido, pensando: “Há futuro?” e “Qual vai ser?”. Cai na real: nem mesmo comer uma feijoada com amigos será como antes.

*** WALCYR CARRASCO  

OUTROS OLHARES

INCLUSÃO SEM IGUALDADE

De cada 10 brasileiros, sete são usuários da internet, mas modalidades para o acesso ainda revelam um fosso de desequilíbrio

Ler o Brasil não é algo para amadores. É possível mergulhar nos mais recentes dados de consumo de mídia, e respectivos dispositivos, e sair deles tanto com a percepção de que o copo está meio cheio quanto o copo está meio vazio. Na conta positiva se pode comemorar que o País tenha hoje 126,9 milhões de usuários de internet, ou 70% da população com mais de 10 anos. Equivale a um México. Pela visão negativa, o exemplo pode ser a quantidade de domicílios das classes D e E com notebook: míseros 3%, contra 90% na classe A. Os números são da pesquisa TIC Domicílios 2018, lançada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

O fato de não haver computadores portáteis nas casas das classes D e E – muito menos desktops (presente em apenas 2% dos domicílios) – não significa, no entanto, que essas pessoas todas estejam desconectadas. Entre 2015 e 2018, a massa de usuários das camadas mais pobres da população saiu de 30% para 48%. Indiscutivelmente um marco. A questão, no entanto, “precisa ser vista em perspectiva”, diz Victor Corte Real, diretor do curso de Design Digital da PUC-Campinas e doutor em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo. Porque no universo digital, inclusão não é sinônimo de igualdade. “O dispositivo utilizado no acesso é decisivo no tipo de experiência e na sua qualidade”. Ter internet somente por wi-fi por alguns momentos do dia quando se está na rua não é o mesmo que acessar um computador em casa com conexão de alta velocidade.

E a pesquisa confirma esse consumo móvel. Majoritariamente os brasileiros acessam a web por meio de celulares (97%). A conectividade em movimento tornou-se onipresente e insuperável. O celular, aliás, se tornou tão inescapável na casa dos brasileiros (93% dos domicílios) quanto aparelhos de televisão (96%). E estes, aliás, com mais recursos e versões que permitem navegar pela web, já respondem por 30% dos acessos à internet. Ainda atrás de computador (43% das pessoas), que vê sua performance desabar – era de 80% há cinco anos –, o que deixa evidente que a televisão perderá apenas dos smartphones na hora de conectar.

Mesmo que as pessoas não invistam naquele modelão smart e high tech para ver Domingão do Faustão e sim Netflix – ou YouTube, navegar pelas redes sociais e até fazer compras – não é possível dissociar dispositivo de experiência. “Um desktop permite interações bem mais complexas que um smartphone e ainda muito mais em relação a um aparelho de televisão”, diz Victor Corte Real. “Consumir internet pela televisão, muitas vezes, pode se assemelhar ao velho formato emissor-receptor (passivo), com a única diferença de que o conteúdo pode ser visto a qualquer hora.” Não deixa de ser uma experiência pobre.

Outro ponto de destaque na TIC 2018 é a avidez do brasileiro por soluções digitais de consumo. Entre os usuários de internet do País, 32% já pediram táxis ou motoristas utilizando aplicativos, o que soma 40,8 milhões de pessoas. É quase uma Argentina chamando Uber e 99. Mesmo quimeras – como aversão à compra de produtos e serviços no mundo digital – parecem estar em processo de desconstrução, já que 28% dos usuários de internet pagaram para assistir a filmes ou séries, 12% realizaram pedidos de refeição e 8% desembolsaram algum dinheiro para consumo de música. Fazer comércio eletrônico definitivamente se tornou um hábito nacional – 60% dos brasileiros conectados já pesquisaram preços de produtos e serviços e mais da metade deles (34%) fez compras ou encomendas on-line.

CHAME O CARTÃO

O especialista Victor Corte Real diz que o acesso facilitado ao universo de cartões de crédito foi elemento igualmente decisivo na equação. Sua avaliação é ratificada tanto pela TIC2018 (69% dos brasileiros que compraram algo por e-commerce utilizaram cartão de crédito) quanto pela pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) que mostra que entre os consumidores que utilizaram cartão de crédito, num período de 12 meses, 21% portavam bandeiras vinculadas a fintechs e bancos digitais –número que cresce entre os mais jovens, chegando a representar 32% dos casos. Os principais atrativos foram justamente os argumentos das campanhas das instituições financeiras digitais: isenção de anuidade e juros e taxas menores em relação aos bancos convencionais.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE DEZEMBRO

APROVEITANDO A ÚLTIMA OPORTUNIDADE

Perguntou-lhe Jesus: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver. Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora (marcos 10.51,52).

Jesus estava passando por Jericó. Aquela era a última vez que passaria por ali, pois naquela semana seria preso, condenado e pregado na cruz. Uma grande multidão o seguia, quando um cego ouvindo o tropel da multidão e sabendo que se tratava de Jesus, gritou: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! (v. 47). A multidão tentou calar sua voz, mas ele gritava cada vez mais alto: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Jesus parou e mandou chamá-lo. O cego lançou longe sua capa e, de um salto, levantou-se e foi ter com Jesus. O Senhor lhe perguntou: Que queres que eu te faça? Respondeu: Mestre, que eu torne a ver. Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. Imediatamente o cego tornou a ver e passou a seguir a Jesus. O cego de Jericó aproveitou a oportunidade e não desistiu quando a multidão tentou impedi-lo. Demonstrou pressa, desprendimento e fé. Foi específico em seu pedido, e o resultado foi que Jesus o salvou e o curou. Antes de curá-lo da cegueira, Jesus abriu os olhos da sua alma, dando-lhe perdão e salvação eterna. Jesus pode fazer o mesmo em sua vida, agora mesmo. Não permita que a voz da multidão silencie o grito da sua alma. Não permita que nenhum embaraço o impeça de ir a Jesus. Não permita que Jesus passe pela sua Jericó, e você perca a última oportunidade da sua vida.

GESTÃO E CARREIRA

COACH VIRA ALIADO NO CAMPO PROFISSIONAL

O mercado de trabalho, além de extremamente competitivo, está em constante mudança, com os profissionais necessitando evoluir para tentar sobressair perante a grande concorrência

Além de pessoas qualificadas, as empresas, cada vez mais, buscam profissionais que estejam mentalmente desenvolvidos, que saibam trabalhar em equipe, lidar com os outros da melhor forma e preparados mentalmente para os desafios e dificuldades comuns que surgirão pela frente. É nesse cenário que um coach profissional está se tornando essencial na vida de muitos que desejam um novo caminho em sua carreira ou buscam soluções efetivas para ter um melhor equilíbrio na vida corporativa.

Por meio de um conjunto de técnicas e metodologias únicas são feitas mudanças comportamentais que permitem que as pessoas aprendam, por exemplo, a manter o foco nos resultados e que estejam em constante aprimoramento no que diz respeito ao gerenciamento de conflitos. É também com o bom trabalho de um coach que o profissional amplia sua capacidade de desenvolver habilidades e competências; aperfeiçoa a criatividade; e passa a ter mais controle emocional para lidar com as diferenças e definir metas e objetivos com maior clareza. De modo geral, as técnicas aplicadas ajudam a entender melhor como o ser humano pensa, age e se comunica, auxiliando na capacidade de identificar os problemas mais rapidamente, a aproveitar suas capacidades na plenitude e, assim, alcançar os resultados esperados.

Pesquisas apontam que cerca de 70% dos problemas nas organizações têm relação direta ou indireta com conflitos na comunicação. Ter profissionais que saibam se comunicar é uma excelente maneira de gerenciar crises.

De forma geral, o profissional de coaching sabe explorar as competências e capacidades de uma pessoa para que ela alcance um objetivo. Assim, ao ter esse auxílio, a pessoa aprende a lidar plenamente com o seu verdadeiro potencial, passando a ser dono do próprio cérebro, emoções e habilidades. Ao assumir as chamadas crenças positivas, o profissional ganha força e consegue se manter otimista diante de qualquer cenário. A partir daí, passa a ter em mente que todo pensamento traz com ele algum dispositivo emocional, a favor ou contra, e que ele deve utilizar esse recurso para se motivar. Ou seja, o importante será o significado que dará ao que está enfrentando.

A maioria não tem essa consciência, mas dar importância ao que os outros vão pensar afeta diretamente a segurança emocional. Por meio de técnicas aplicadas por um coach é possível adquirir mais confiança nas próprias capacidades de realizar tarefas. E somente quando aprender a romper ospadrões destrutivos de pensamento a pessoa conseguirá transformar a própria vida, tomando-se mais confiante e, assim, capaz de ir verdadeiramente atrás de seus sonhos e objetivos.

Outro desafio enfrentado no âmbito profissional e que tem no trabalho de um coaching uma importante ferramenta de combate é a “arte” de procrastinar. Por conta das distrações que surgirem com o avanço da tecnologia e mídias sociais, as pessoas criam o mau hábito de deixar para depois ou, popularmente, “empurrar com a barriga” uma tarefa que deve ser feita, uma decisão que deve ser tomada ou um trabalho que deve ser concluído.

A utilização da frase “amanhã eu faço” é usada de forma recorrente, mas esse amanhã nunca chega. A maioria adia algo que deve ser feito ou porque se trata de uma questão difícil ou porque consome muito tempo ou, no seu modo de ver, considera algo desagradável. Por um tempo, essa atitude pode até trazer algum sentimento confortável, porém, ao mesmo tempo, a pressão na mente por ter algo não concluído aumenta a cada dia. É um ciclo. No início, ele consegue deixar de lado. Depois de um tempo, passa a tentar deixar de lado, até que chega um ponto que não consegue mais ignorar e é tomada por aquilo. O coach ajuda as pessoas a trabalharem o excesso de procrastinação, atuando principalmente na manutenção da motivação. Ele faz com que os profissionais entendam a origem desse sentimento negativo, que normalmente é causado pela ansiedade de focar no resultado final. Ao observar somente o processo em si, ela conseguirá superar o primeiro grande obstáculo. Em seguida, é necessário estabelecer planos de ação para eliminar ou ao menos minimizar o problema. Uma das formas práticas é produzir uma lista por escrito de todas as coisas que estão sendo postergadas. Ao lado de cada item é necessário colocar quanto tempo a questão está sendo deixada de lado e o período em que pretende solucioná-la.

Outra maneira de se manter motivada é parar para pensar quanto estresse e problemas essa tarefa não concluída está trazendo, além de quanto tempo se gasta tentando não pensar nisso. Ao entrar novamente nessa sensação de desconforto, a pessoa teria motivo para seguir em frente. Também é importante comemorar as pequenas vitórias, que, ao longo do tempo, se tornam grandiosas. Ao dar crédito a si mesma, a pessoa criará o hábito e terá o desejo de agir novamente. Quando se tratar de algo grande a fazer, a solução é dividir o resultado que busca em diversas partes. Assim não surgirá o sentimento de estar sobrecarregado. Outra ação que traz resultados práticos é se dar uma recompensa. Transformar uma tarefa ruim em uma oportunidade de alcançar algo positivo. Ao cumprir a tarefa, a pessoa pode se dar um dia de folga ou um jantar no restaurante favorito. Isso será mais um motivador.

Vale ressaltar que um bom coach influencia não apenas no campo profissional, mas também no pessoal, afinal de contas, se o Indo pessoal não estiver em boas condições, o profissional pode ser afetado negativamente e vice-versa.

WILLIAM FERRAZ – é master coach especialista em Neurolinguística e Inteligência Emocional do Instituto Ideah de São Paulo. Practitioner e advanced trainer em PNL. Trainer com certificação Internacional em Neuro-Semântica – ISNS (EUA) meta coach (ACMC) com certificação internacional pela Meta Coach Foundation

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INTELIGÊNCIA CRIMINAL E SEUS DESAFIOS

Ao longo dos anos, a violência se tornou um fenômeno complexo do cotidiano e o desejo do conhecimento impulsiona a mente humana em direção a descobrir as causas que levam o indivíduo a cometer delitos

O desejo e a necessidade do conhecimento impulsionam a mente humana em direção a descobrir as causas que levam o indivíduo a cometer delitos. A violência se tornou uma equação complexa em nosso cotidiano. Porém, entender o perfil do criminoso, a arquitetura do crime, a busca da vítima e a execução implica em entender a múltipla face do ser humano. Assim nasceu a vontade de estudar especificamente o comportamento e a forma obtida na realização de cada impulso traçado, buscando-se as razões que levam o indivíduo ao ímpeto de delinquir através de uma química deletéria que envolve seus neurotransmissores, resultando no ato infracional. Cada sujeito opera sua mente da forma que acredita e dela retira referências oriundas de uma infância perdida de preceitos e com total anomia. Por consequência, em uma sociedade em que as instituições familiares, a educação e os preceitos morais tenham entrado em colapso, todo o complexo ético parece ameaçado, e nela a transferência de pauta de valores fica extremamente prejudicada.

A palavra inteligência provém do latim intellegentia, que significa “capacidade de entender, compreensão, entendimento”. Assim sendo, a origem etimológica do conceito de inteligência faz referência a ter conhecimento para selecionar, escolher e aplicar técnicas no intuito de descobrir onde existe a falha humana.

A criatividade humana é instigada continuamente a encontrar soluções para novos e velhos desafios. Inovações engenhosas são aplicadas nas diversas áreas do conhecimento, aprimorando o que já existe e trazendo novas e eficazes descobertas para serem aplicadas ao comportamento humano. A atividade de inteligência, em sua vertente mais conhecida e misteriosa a “espionagem” fascina alguns, mas atemoriza outros, provocando grandes mudanças no relacionamento humano.

VÁRIAS FACETAS

O objetivo deste artigo é fazer o leitor conhecer um pouco sobre o universo encantado da inteligência criminal, fazendo um percurso sobre a atividade de inteligência e descobrindo as várias facetas que o criminólogo, pesquisador da área de inteligência, encontra nesse caminho recheado de “brechas” que o analisando deixa sem perceber em sua trajetória, na linguagem verbal, omitindo fatos, e na linguagem não verbal, tentando esconder o que as expressões faciais e corporais revelam ao profissional atento e experiente.

Aqui cabe uma breve introdução sobre a atividade de inteligência: a inteligência é um conjunto de informações que são coletadas, analisadas e disponibilizadas para averiguação em um determinado processo. Existem três vetores principais: inteligência: produção do conhecimento; contrainteligência: visa a proteção; operações: levam à execução do ato.

Nota-se que a informação é a matéria-principal da inteligência, nela, fatos passados e presentes tornam-se um estado de certezas, que através de um conhecimento (que se formaliza como a representação de um fato ou mesmo de unia situação real ou hipotética que tenha interesse para algo específico) prescinde de uma oportunidade.

A inteligência criminal está ligada à diversidade de categorias que envolvem a atividade de inteligência, na qual é possível destacar a policial. Cada uma delas envolve conhecimento, busca de dados, identificação e avaliação das ameaças reais ou potenciais sobre a segurança.

O trabalho de inteligência criminal não se resume, porém, ao acúmulo de dados. Vindo de fontes ocultas (infiltração, interceptação, negociação etc.) ou de fontes abertas (internet, arquivos, inquéritos etc.), o dado bruto, coletado, é checado e confrontado.

A primeira fase é a coleta do informe, ou dado bruto. A segunda é a análise do material, separando fatos importantes e agregando dados pertinentes, o que, aos poucos, vai transformando o dado bruto em informação. A partir dessas informações, o profissional entra na terceira fase, que é a síntese, e assim produz uma apreciação, que se caracteriza como uma forma de conhecimento. A quarta e última fase é a da estimativa, elaborada a partir de um conhecimento consolidado. A inteligência policial envolve urna fusão de fatores como, por exemplo, a identificação de criminosos, tipologias específicas e procedimentos para se chegar ao ato do delito.

É imprescindível ressaltar que a atividade de inteligência nunca pode ser confundida com a atividade de investigação. A primeira reflete na busca da informação negada e, através de técnicas específicas, auxilia na investigação para o preparo da ação penal e a segunda busca as evidências, indícios e provas da materialidade e autoria do crime.

O indivíduo que comete o delito é estudado em todo seu limiar, ação e forma de execução do ato, para dessa maneira definir seu tipo de comportamento e sua personalidade.

Existem dois campos totalmente díspares: o comportamento anormal e o comportamento criminoso, apresentando facetas importantes. Em ambos, o número de indivíduos que apresentam comportamento desviante, indicado nas estatísticas oficiais, é bem inferior à cifra verdadeira. O comportamento considerado psicologicamente anormal varia entre as culturas. No setor criminal o ponto de vista parte da premissa básica de que os delinquentes são aqueles que não possuem regras e infringem as leis; muitos sem a menor afetividade, estes portadores de agressividade e violência no modus operandi.

PERSONALIDADE

Definindo o comportamento, avalia-se a personalidade do suspeito, que poderá ser dividida em:

A) PERSONALIDADE NUCLEAR: formação adquirida no ambiente familiar, com estrutura fixa e consistente,

B) PERSONALIDADE PERIFÉRICA: persona social mostra a interação social do indivíduo, na qual uma mudança de comportamento poderá causar danos irreversíveis em sua vida.

Jung, em sua teoria do inconsciente coletivo, ao apresentar os arquétipos como representação psicológica do instinto, explica os padrões do comportamento humano tal qual o esqueleto que estrutura, sustenta e dá base ao corpo.

O ser humano é agressivo. Para que possamos compreender essa afirmação é necessário entender que a agressividade é um impulso que pode se voltar para fora do corpo (heteroagressão) ou para dentro do indivíduo (autoagressão).

Sendo assim, apresenta-se como peça constituinte da vida psíquica, enquanto binômio amor/ ódio e pulsão de vida/ pulsão de morte (eros e tanatos).

Para a Psicanálise, a agressividade é constitutiva do ser humano, é a ruptura do pacto social da sociedade, é a perfeita anomia representada pelo sujeito.

A estrutura social define o status e os papéis dos sujeitos e a estrutura cultural define as metas a serem alcançadas por parte dos membros da sociedade, assim como as normas que devem seguir para que alcancem metas estabelecidas.

Piaget elaborou uma teoria do desenvolvimento moral que se revelou no contexto cognitivo. Segundo ele, a capacidade para agir adaptativamente está ligada à aquisição de um conhecimento do mundo circundante. No primeiro estágio do desenvolvimento pré-operacional (2 a 7 anos de idade), as ações são internalizadas como pensamentos, os acontecimentos são percebidos em termos absolutos e não relativos. Esse é o estado do egocentrismo, no qual tudo gira em torno do “eu”.

No segundo estágio, denominado operações concretas (7 anos à adolescência), a criança faz comparações entre acontecimentos e relacionados entre si. No terceiro estágio, denominado operações cognitivas (adolescência à fase adulta), a criança é capaz de executar a cognição, comparando possíveis futuros relacionamentos e eventos.

Para Piaget, o primeiro estágio se apresenta num locus em que as regras são impostas por outras pessoas, que têm o poder; no segundo, as crianças percebem que são capazes de inventar, criar e modificar as regras impostas; e, no terceiro estágio, elas percebem o primado das regras abstratas sobre a situação em particular. É nesse ponto que ocorre a defasagem da moralidade prática (comportamento), a qual precede a moralidade teórica (atitude).

Na teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg, todo ser humano, através de um processo maturacional e de interatividade, pode alcançar a moralidade. Ele observa também que a carência materna tem grande influência no desenvolvimento social do indivíduo.

A ligação entre a carência e o crime é proporcionada pela assertiva de que a carência prejudica a capacidade de construir laços afetivos.

A DESTRUTIVIDADE

Os atos agressivos são muitas vezes seguidos de resultados satisfatórios para o agressor. As consequências positivas da agressão podem ser materiais (dinheiro, posse etc.), ou, quando não são diretamente materiais, se encaixam na conquista de status ou mesmo de aprovação social (“senha” para entrar e ficar no grupo).

A destrutividade e a agressão são comportamentos apreendidos. A conduta do indivíduo é determinada pela interação da experiência e da constituição genética. O que produz a agressão não é a frustração, mas a injustiça ou a rejeição envolvida na situação.

O produto da inteligência criminal pode ser definido como a transformação de dados em informação, dando origem a uma coleta de informações minuciosa na busca do conhecimento, utilizando métodos específicos para obter resultados, trabalhando especificamente com o trinômio verdade, evidência e certeza.

Desde a Idade Média temos a utilização da inteligência na força; na Idade Moderna buscou-se a informação; e, na Idade Contemporânea, o conhecimento. Durante séculos, a atividade de inteligência permaneceu restrita, para muitos curiosos, e envolta em uma aura de mistério. Para se compreender o real significado de inteligência, é fundamental ter a certeza de que se trata de um conhecimento processado a partir de uma matéria bruta, com metodologia própria, que tem caráter extremamente sigiloso e se transforma em matéria lapidada com o objetivo de assessorar o processo decisório.

A coleta de dados é realizada de forma sigilosa e a observação fisiognomônica no depoimento do analisando é de suma importância para o processo, sendo fatores referenciais:

A) COLETA HUMANA: com a elaboração de entrevistas dissimuladas com informantes e colaboradores treinados;

B) COLETA PESSOAL: entrevista com observação das microexpressões faciais e corporais;

C) COLETA TECNOLÓGICA: com análise de sinais, bem como da telefonia, informática, filmadoras, fotografias, monitoramento da mídia, sistema bancário e outros.

ANÁLISE MINUCIOSA

A partir da análise minuciosa de um profissional altamente qualificado, os dados obtidos ganham coesão e coerência, sendo então transmitidos para serem analisados e checados com o depoimento do suspeito, envolvendo um trabalho intelectual preciso, com as seguintes conclusões que serão inseridas no relatório criminal do processo avaliativo: certeza: total convicção entre os dados obtidos e checados; opinião: indicadores de probabilidade entre os dados e as conclusões decorrentes do processo analítico, dúvida: equilíbrio entre a negação e a aceitação das conclusões apresentadas; ignorância: a análise feita não apresentou nenhuma conclusão lógica.

No relatório da inteligência criminal, a personalidade criminosa e o ato criminoso são inter-relacionados da seguinte forma: a personalidade é a matriz de produção da ação e define as condições e a modalidade do agir, enquanto o ato seria o processo de materialização dessa personalidade. Sabemos que o escopo da atividade da inteligência é a obtenção e a análise de variadas informações que atravessam o processo decisório. E, assim, onde houver planejamento, existe caminho para a verdade.

É importante mencionar que a atividade de inteligência opera com as causas do crime e a investigação criminal atua com os efeitos que o delito provoca. No âmbito da inteligência criminal, destacam-se os trâmites necessários para que uma investigação prossiga: delito (autoridade toma conhecimento do ato praticado), levantamento (investigadores buscam provas indícios, testemunhos); análise (autoridade avalia pertinência do caso); captura (prisão do suspeito); produção (autoridade produz a peça acusatória).

Assim, a atividade de inteligência segue para que se obtenha o melhor resultado, para que todo o processo seja finalizado com dados e informações que facilitem a elucidação do objetivo proposto, lembrando sempre que a inteligência é a produção de conhecimento para auxiliar uma decisão. Para que a inteligência opere com precisão, a memória tem que ser eficiente e, assim, a mnemotecria surge como uma das técnicas que, junto com a fisiognomonia micro­expressiva, pode oferecer excelentes subsídios para uma avaliação precisa.

A MNEMOTECNIA

A mnemotecnia é uma ciência milenar do século XIX, de origem grega e romana, oriunda do termo grego mnemos, e que significa recordação, termo relacionado ao nome da deusa grega da memória (mnemosine), conhecida por saber tudo do passado, presente e futuro. Ela era a base de toda a vida em sociedade.

Atualmente, a mnemotecnia se faz presente nas atividades de inteligência, juntamente com a técnica de observação e descrição, facilitando a busca do dado negado. Para isso, o profissional memoriza uma gama de informações (fisionomia, objetos, números e marcas corporais), com o objetivo de descrevê-las posteriormente, resgatando do cérebro todas as informações necessárias para o caso em questão.

MAPAS MENTAIS

A formação dos mapas mentais, representações físicas de informações úteis, serão mantidas na memória, ressaltando os pontos mais relevantes do alvo em avaliação. Essa técnica visa encadear, ligar e conectar várias palavras utilizando as imagens mentais.

No âmbito da inteligência criminal a memorização define-se como um conjunto de ações e reações que têm por finalidade auxiliar a memória na lembrança dos fatos. Por exemplo, são instrumentos que possibilitam ao investigador memorizar aspectos do reconhecimento, permitindo que ele transite por locais em segurança e sem a possibilidade de ser reconhecido, determinando êxito na operação.

O processo de gravação cerebral ocorre com todas as informações recebidas ao longo do dia, que chegaram ao hipocampo, região cerebral onde fica a acetilcolina (neurotransmissor que é distribuído no sistema nervoso central, responsável por receber e levar mensagens diárias). Com a técnica e a utilização da mnemotecnia, a rapidez na memorização de microexpressões faciais e corporais tem ajudado na elucidação de casos em que a inteligência é convidada a atuar. A atuação estratégica da inteligência criminal opera em três níveis, a saber: estratégico: tomada de decisões críticas, tático: estratégias e objetivos, operacional: produção de provas.

No entanto, com esse aparato de técnicas e um corpo de profissionais especializado conseguimos obter um mapeamento do indivíduo em análise, detectando em suas entrelinhas sua real intenção e no caminho do mal.

A inteligência busca compreender o passado e o presente para poder projetar o futuro, e a investigação criminal se volta ao passado, para poder reconstrui-lo e refazer os passos dados pelo criminoso.

O serviço de inteligência criminal produz conhecimento e diretriz para que o avaliador/ criminólogo possa interagir de forma precisa e rápida no processo investigativo, oferecendo suporte e eficiência ao trabalho operacional da inteligência.

É imprescindível perceber que a busca infindável da complexidade do ser humano, do qual cada ato assume múltiplas facetas nos fatos criminosos, nos leva ao desafio de construir efetivas respostas para que a inteligência criminal os consiga decifrar. Lembrando sempre que o conhecimento leva ao poder.

Se você conhece o inimigo e se conhece, você não precisa de medo dos resultados de cem batalhas. Se você se conhece, mas não o inimigo, para toda vitória você sofrerá também uma derrota. Se você não conhecer nem você, nem o inimigo, você é um tolo e conhecerá derrota em toda batalha (A arte da guerra, Sun Tzu).