EU ACHO …

FELIZ MESMO ANO!

A quebra do encanto se dará quando encerrarmos o ano sem nenhum sinal concreto de que 2021 será diferente com relação a nossa principal angústia: o fim da pandemia de covid-19

Estamos chegando ao fim de um ano que não vai acabar. O ano de 2020 quebrou o encanto da mágica noite de 31 de dezembro que sempre nos proporcionou a sensação de que, ao amanhecer, teríamos uma nova Era em que tudo seria diferente (para melhor, claro!). A quebra do encanto se dará quando encerrarmos o ano sem nenhum sinal concreto de que 2021 será diferente com relação a nossa principal angústia: o fim da pandemia de covid-19.

Não estamos falando aqui de esperança porque essa é inerente à natureza humana e sempre nos impulsiona a pensar num amanhã melhor. Estamos nos referindo a quebra de uma atitude “folclórica” que sempre fez parte da cultura de final de ano e essas quebras nos fazem pensar no porquê alimentamos essas crenças e qual o sentido, para cada um de nós, de ter que acreditar que a última noite do ano não será mágica e que amanheceremos, no dia 1º de janeiro, vivendo o mesmo mundo real do dia anterior.

Na Educação, essa simbologia está sendo materializada pela ausência do famoso “resultado final”. Esse fato é consequência do ciclo emergencial 2020/21, viabilizado pela legislação e adotado por quase todos os sistemas públicos e por algumas escolas particulares. 

Consiste na não finalização do ano letivo de 2020, que será continuado em 2021. Esse ano letivo prolongado comportará a série em que o aluno se encontra em 2020 e, de forma sequencial, a série que ele estará em 2021. O currículo deverá ser composto pelas aprendizagens essenciais das duas séries.

Alguns educadores têm reagido de forma inconformada ao fato de o aluno estar automaticamente na série seguinte em 2021. Argumentam que não acham justo que os alunos que não realizaram as atividades remotas recebam o mesmo tratamento. Tenho argumentado exaustivamente que não podemos usar a mesma lógica que usamos em anos “normais” e que não podemos concluir com tanta certeza de que apenas o descaso se fez presente. O ano contínuo nos convida ao resgate, à recuperação do que não foi aprendido, à empatia para avaliar e à predisposição para seguir em frente.

Na Educação ou na vida, mudança de ano sempre foi uma convenção. Nós é que acreditamos demais na mágica da noite de Réveillon. Talvez esse final de ano nos desperte para o fato de que a realidade é uma sequência de escolhas, consequências e contingências individuais e coletivas da qual, inexoravelmente não podemos fugir e que a melhor forma de lidarmos com o momento presente é encarando-o de frente. Sendo assim, feliz mesmo ano para todos!

OUTROS OLHARES

OS MEDICAMENTOS MAIS PROCURADOS PELOS BRASILEIROS DURANTE A PANDEMIA

■ TRATAMENTO E PREVENÇÃO DA COVID-19

Maior site de pesquisa de medicamentos do país, o Consulta Remédios fez um estudo inédito sobre quais as drogas que despertaram mais interesse dos brasileiros durante a pandemia. Em primeiro lugar no levantamento realizado entre abril e setembro aparecem Itens associados nos últimos meses à prevenção e ao combate do coronavírus. Mesmo sem nenhuma comprovação de eficácia em tratamentos contra a Covid-19, a Ivermectina monopolizou a curiosidade dos internautas, ocupando o primeiro lugar no período. Somente em julho o serviço registrou mais de 7 milhões de buscas a respeito da substância utilizada no tratamento de infecções provocadas por parasitas intestinais.

■ SAÚDE MENTAL

Muitos distúrbios de humor e crises de ansiedade foram desencadeados pelo período de isolamento. Não por acaso, a plataforma registrou alta na procura por informações relacionadas a drogas como o Donaren e a Fluoxetina, ambas utilizadas em tratamentos contra a depressão.

■ VIDA SEXUAL

A julgar pelas pesquisas feitas no Consulta Remédios, o período de quarentena não afetou a libido de muitos casais. Medicamentos contraceptivos e remédios indicados para disfunção erétil tiveram um aumento na procura por esclarecimentos.

■ EMAGRECIMENTO

Quatro em cada dez brasileiros ganharam peso durante a pandemia, o que se refletiu na busca de informações sobre dietas na plataforma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE DEZEMBRO

JESUS, NOSSA BENDITA ESPERANÇA

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança (1Timóteo 1.1).

A esperança de milhões de pessoas está morta, esmagada pelo desespero. Elas vivem com os olhos inchados de tanto chorar, feridas pelas revezes da vida. Estão sem esperança e sem Deus no mundo. Vão atrás de religiões e colhem decepções amargas. Buscam a psicologia de autoajuda e sentem-se ainda mais insatisfeitas. Correm para os banquetes do pecado e saem de lá mais frustradas. Na ânsia de encontrar sentido para a vida, muitos recorrem às fontes das aventuras e bebem todas as taças dos prazeres deste mundo, mas se sentem ainda mais infelizes. É nesse cenário cinzento de desespero que Jesus se apresenta como a nossa esperança. Ele é a nossa esperança porque morreu por nós, para nos salvar. Ele é a nossa esperança porque vive para nós, para nos santificar. Ele é a nossa esperança porque voltará para nós, para nos glorificar. Jesus pode ser o motivo perene do seu júbilo e a âncora segura da sua esperança. Não deposite a sua esperança nas suas próprias forças, nem na instabilidade da riqueza. Não coloque sua esperança nas coisas que perecem. Coloque seus olhos em Jesus. Ele não é uma miragem enganadora. É o refúgio verdadeiro. Ele é a nossa única esperança!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DOS COLEGAS

Formar uma turma de amigos é uma arma poderosa para enfrentar o mundo volátil e complexo em que vivemos

Um grande amigo meu, José Carlos Teixeira, consultor de marketing B2B e professor, me propôs um desafio muito interessante: desenvolver o conceito de um novo verbo. Pensei muito e cheguei à conclusão de que a palavra do momento deveria ser “colegar”. Vou explicar para você por que esse verbo, que sempre foi importante, é ainda mais essencial nos dias de hoje.

Temos urna necessidade de nos cercar de colegas para enfrentar o mundo VUCA. Na expressão americana, essa sigla quer dizer “volátil” (de mudanças aceleradas): “incerto” (as tendências conhecidas se transformam constantemente por causa da evolução tecnológica); “complexo” (acabou o mundo cartesiano onde as incógnitas eram de mesmo número que as equações; e”ambíguo” (muitas vezes há duas soluções, aparentemente, corretas e temos de conviver com elas).

Pensando nesse contexto tão peculiar que estamos enfrentando, elaborei a seguinte definição para meu novo verbo, “colegar”: desenvolver e sustentar relações pessoais e profissionais baseadas na identidade de valores e de propósito, tendo como alicerces a confiança e o respeito mútuo.

Ou seja, devemos olhar as coisas da vida e fazer nossos julgamentos (valores) de uma maneira similar. Além disso, temos que saber o que nos move, o que nos faz acordar mais cedo, o que nos dá vontade de continuar, sem desistir (propósito).

Acredito que uma turma de colegas é mais eficiente para enfrentar a turbulência do que uma equipe formada tradicionalmente – que é, em geral, formada apenas pela complementação de competências. Isso porque esse grupo está disposto a se sacrificar um pelo outro, a entender com profundidade as diferenças e a trabalhar a diversidade de forma natural, sem nada que o impeça de conversar e encontrar um consenso.

Nesse cenário, a liderança é contingencial. Isso quer dizer que o líder se apresenta dependendo da situação, é aceito, respeitado e, se a situação mudar rapidamente, outro líder assumirá seu lugar sem conflito. E o que é melhor: sem ciúmes nem inveja.

A turma de colegas tem de definir seus objetivos com clareza e comunicá-los bem, compartilhar resultados tangíveis e intangíveis e manter certa cerimônia entre os membros – respeitando os limites do próximo. Se eu sei o que lhe machuca, não devo dizer na discussão só para enfraquecê-lo.

Pertencer a uma turma é a formação ideal para resolver problemas complexos do ambiente VUCA e também para poder viver sob pressão, mas com alegria e com realização coletiva. Vamos colegar?

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor na eaesp – FGV e diretor na PMC – Panelli Motta Cabrera & Associados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – IX

“EU SUPEREI A ANSIEDADE”

Depoimentos de pessoas que conseguiram lidar com o transtorno

“ME MANTER OCUPADA AJUDA A AFASTAR OS SINTOMAS”.

DÉBORA SOARES, RIO DE JANEIRO (RJ)

“Sempre fui ansiosa. Tinha hiperidrose (suor em excesso) desde criança devido à ansiedade. No começo de 2014, comecei a ter vontade de ficar deitada o dia todo, sem ânimo para nada. Depois, surgiu um medo de perder as pessoas que eu amo. Comecei a ter dor no peito e dificuldade para respirar, achava que ia enfartar.  Tive a primeira paralisia do sono (o cérebro acorda e seu corpo, não). Foi horrível e não sabia explicar pra ninguém o que era. Um dia, estava deitada e tive a sensação que ia desmaiar, não sentia meus braços e a falta de ar ficou maior do que nunca. Fui para a emergência e o médico disse que era ansiedade. Não acreditei, achei o médico incompetente, porque aqueles sintomas não poderiam ser de ansiedade. Voltei para casa e uma hora depois fui a outro hospital. Encontrei uma médica que me diagnosticou com TAG. Aí sim, vi que meu problema era emocional. Mas não foi fácil. Todas as noites tinha crises piores. Na mesma semana, fui ao psiquiatra que me passou doses fracas de remédio que foram aumentando com o passar do tempo. Cheguei a tomar quatro tipos de medicamentos por dia, todos tarja preta e vermelha.

Não conseguia ir em festa de família porque passava mal, tinha dores de barriga, formigamento pelo corpo, o coração batia tão forte que eu tinha a impressão de ouvir ele batendo. E continuei assim durante os meses, praticamente isolada.

Em novembro do mesmo ano, perdi minha casa, pois o mercado que tinha ao lado pegou fogo. Minha vida ficou de cabeça para baixo e achei que iria ter um surto. Mas pelo contrário: com a correria, eu me esqueci de tomar os remédios e, como me vi obrigada a ser forte, consegui melhorar um pouco. Fui morar com meu namorado e como a gente gosta muito de medicina alternativa, comecei a me tratar com ervas, fiz ioga, acupuntura e tomava florais. Minha fé me ajudou demais. Vi que o chá de melissa me fazia dormir a noite toda. Depois que minha vida foi voltando aos eixos, comecei a me lembrar de tudo e sentia que minhas crises queriam voltar. Foi quando encontrei uma gatinha atropelada na rua. Ela estava muito machucada e precisei tratar dela integralmente. Toda vez que eu pensava em ter crise, ela miava e ia cuidar dela. Foi assim durante um mês eu me vi quase curada desde então. Além dela, tenho mais seis bichos, então sempre me distraio com eles. Passei a trabalhar com artesanato, fazia de tudo pra manter minha cabeça ocupada, já que, qualquer momento parada, é motivo para se ter crise.

Depois de tudo isso, parei para analisar o motivo de isso ter acontecido logo comigo. Tive certeza de que todas as cobranças por ter 24 anos na época e ter que ser alguém na vida me fizessem adoecer. Me sentia fracassada por ver as pessoas conseguindo as coisas e eu, não.

Nesse meio tempo, meu tio também foi diagnosticado com TAG, e a família passou a me entender, já que achavam frescura e diziam que eu tive isso porque não fazia nada, não trabalhava. Sofri bastante com o preconceito de quem não sabe o que é ter TAG.

Toda vez que uma sensação ruim vem, eu rezo e vou fazer qualquer coisa, até varrer a casa serve. Me manter ocupada ajuda a afastar os sintomas. Hoje agradeço a Deus por eu ter sido escolhida para ter a TAG, porque comecei a rever minha vida e a absorver apenas o que eu acho que vale à pena. Gosto mais de mim e me respeito mais. Aprendi a ser mais paciente comigo e a respeitar outras pessoas com problemas psicológicos. Por sorte tenho o Leonardo, hoje meu marido, que me mantém no meu ritmo e sempre me ajuda. E vivo sempre com o lema: um dia de cada vez “

“EU RECEBI MUITO AMOR, PACIÊNCIA, CARINHO E ATENÇÃO”

LUCIANE SMIDT, RIO DE JANEIRO (RJ)

“Sempre fui uma pessoa espiritualizada, determinada, alegre, inteligente, corajosa e bastante ativa. No entanto, em meados de março de 2013, comecei a apresentar insônia, dores intensas de cabeça, intercalada com dores musculares que me levavam a internações recorrentes. Estes sinais e sintomas desencadearam crises de pânico, seguidos de uma ansiedade que invadia e sufocava meu peito. Meu coração acelerava, suava frio, minha respiração ficava ofegante, sentia uma sensação de impotência e um medo terrível me consumia, principalmente, quando se aproximava o horário de ir para o trabalho.

Durante uns três meses vivenciei esses fatos, até que um dia a ansiedade era tamanha que não consegui sair de casa para ir trabalhar. Procurei um médico psiquiatra, pois já fazia terapia há algum tempo devido ao estresse ocasionado pelo trabalho. Fui afastada do emprego e medicada. Chorava muito, me isolei dos amigos, perdi minha autoestima e só queria dormir. Estava deprimida. Contudo, nunca aceitei a condição na qual eu estava, pois tenho um filho com síndrome de Down e sabia o quanto ele precisava da mãe saudável e forte!

Eu recebi muito amor, paciência, carinho e atenção, principalmente, do meu esposo. Na época, estávamos namorando fazia dois meses. Eu morava no Rio Grande do Sul e ele, no Rio de Janeiro e, nas crises de ansiedade, de orava comigo. O Lucas, meu filho, era o meu cristal. Ele é budista, realizava práticas várias vezes ao dia, queimava incenso e recitava mantras para mim. Seu sorriso, beijo e carinho alimentavam a minha força de querer sair daquele buraco negro.

Foram seis meses para eu sair da crise. Nesse período, mudei de psiquiatra e as condições para ela me tratar eram manter o tratamento medicamentoso, fazer terapia três vezes na semana, retomar a natação, incluir academia para socializar e buscar uma prática religiosa. Com o passar dos meses, a terapia foi reduzida para duas vezes na semana e já havia identificado que a minha cura dependia de pedir demissão do hospital em que eu trabalhava. Mesmo assim, eu precisava me superar, jamais aceitei fugir desta forma. Eu amava o meu trabalho, foram 15 anos de amor e dedicação.

Nessa fase, minha relação de intimidade com Jesus era imensa. Eu orava, realizava práticas meditativas do budismo, praticava regularmente atividade física, elaborei um plano alimentar voltado para a energização dos chakras e decidi que retornaria ao trabalho por mais alguns meses. Fui recebida pela equipe de trabalho com muito carinho, homenagens e festa. Nos dois primeiros. meses, tive algumas crises de ansiedade, mas respirava fundo lentamente, me lembrava das pessoas que amava, fechava os olhos, orava para Jesus e imaginava estar sendo banhada por luzes do arco-íris. Trabalhei por mais um ano, feliz, até optar pela demissão. Não sofro de ansiedade há mais de dois anos. Optei por administrar a minha vida com a família, os estudos e cuidando da alimentação das pessoas que buscam uma nutrição integral, aquela que nutre o corpo físico, a mente e a alma!”.

A MEDITAÇÃO E AS ORAÇÕES ESTÃO ME AJUDANDO A ENCARAR A VIDA DE UMA FORMA MAIS LEVE

POLLYANA DRUMOND VIEIRA, BELO HORIZONTE (MG)

“Quem é a Polly? O que a Polly gosta de fazer? O que a Polly vai ser? Por que a Polly vai fazer isso? Por que a Polly não fez aquilo? Estava aí a causa de eu ser uma pessoa muito ansiosa que sofria de preocupação excessiva, problemas de sono, tensão muscular e mal estar psíquico: as perguntas sem respostas relacionadas à minha vocação!

Desde que me formei em engenharia química há 11 anos, possuía uma certa ansiedade em relação a tudo e a todos. Mas esta aflição foi se acentuando quando pensava na minha vida profissional – saber o que eu realmente gostava e qual era meu verdadeiro talento. Após me formar, entrei como trainee em uma renomada empresa de engenharia em gestão empresarial e por lá fiquei durante oito anos. Acompanhada de minha inseparável amiga ansiedade. Ao sair, atuei em alguns projetos como autônoma e depois fui convidada a trabalhar em uma grande construtora. Possuia outro ritmo de vida, mais tranquilo, menos pressão. Mas a danada da ansiedade estava ali, cada vez mais presente nos meus dias.

Ai veio  esta crise que estamos enfrentando, as empresas começaram a demitir e eu me vi no grupo dos desempregados. Meu mundo caiu! Aquela ansiedade, até então normal, começou a ficar cada dia maior devido às dúvidas vocacionais, à falta de trabalho, e às péssimas perspectivas  econômicas do país. Eu, uma pessoa ansiosa e profissional gabaritada, precisava utilizar este momento a meu favor. Para não cair  em crise de paranoia no futuro, aceitei o convite da ansiedade para parar e me olhar profundamente.

Escolhi trabalhar mais minha espiritualidade e fazer o coaching de carreira como forma de apoio. A meditação e as orações estão me ajudando a encarar a vida de uma forma mais leve. Já o coaching me aproximo de minha essência e me fez reconhecer minha verdadeira vocação. As diversas ferramentas de autoconhecimento e os diálogos profundos geraram momentos extraordinários de  reflexão. Desenvolvi novas crenças para criar uma vida pessoal e profissional com mais significado, ajudando a tomar decisões alinhadas com os meus valores. Meu coach me ajudou muito a ter equilíbrio nesse processo de descoberta que, em algumas  etapas, não foram fáceis.

Hoje consigo responder às questões que vão aparecendo e sei quem é a verdadeira Polly. Mas o mais importante é que sei o que devo fazer para ter uma vida pessoal e profissional que realmente me faça sentido, mantendo aquela terrível ansiedade domesticada”.

“O QUE ME LIVROU DAS CRISES DE ANSIEDADE FOI MUDAR POR COMPLETO MINHA VIDA”

TALLIS CONSTANZI, FLORIANÓPOLIS (SC)

“Foi tudo muito de repente. Com 21 anos, eu nunca tinha parado para refletir sobre minha saúde mental, até achar que estava ficando louco. Na verdade, eu já vinha lidando com depressão e ansiedade há muitos anos e nem sabia. Mas nada se comprava aos últimos meses de 2015, quando tive as primeiras crises de ansiedade e pânico. Foram duas crises de pânico que deram início aos incessantes pensamentos mórbidos que eu não conseguia tirar da cabeça. Era como se eu estivesse tentando me assustar, como se eu fosse meu inimigo. Esses pensamentos estavam presentes todos os momentos do dia, a partir do momento que acordava até enquanto dormia, dentro dos sonhos. E foi durante o sono que tive a pior das crises de ansiedade, quando acordei suando frio e com dores no corpo todo. Pensamentos horríveis batendo como pedra na minha cabeça. Tudo me causava náuseas, senão extremo pavor. Mas o que me livrou das crises de ansiedade foi mudar por completo minha vida. Cidade, emprego, curso e relacionamento.”   

EU ACHO …

PERICIANDO 2020

Analisando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um

É preciso periciar, minuciosamente, cada mensagem deste ano que se finda. Poderíamos dizer que foi um ano diferente, motivado pelo isolamento social que se impôs desde março, gerado por um vírus que se tornou um inimigo invisível e que ainda circula entre nós, mas que também nos convida a repensar valores, rotina e a vida em geral. Analisando ou periciando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um.

Infelizmente, esse impacto para quase 200 mil famílias trouxe a fatalidade, o que leva a nos solidarizarmos pelas suas perdas. Mesmo neste país com um sistema de Saúde diferenciado que, pelo menos teoricamente abarca todos os membros da sociedade – SUS, nunca tivemos de conviver com tantos hospitais lotados e mortes causadas por um mesmo motivo.

E esse filtro, talvez, seja o primeiro a ser considerado nessa perícia existencial. Com a covid ficou ainda mais evidenciada a desigualdade social, mas, ao mesmo tempo, ficou claro que somos todos iguais perante ao vírus. Para ele não há ricos ou pobres, famosos ou anônimos. Todos são vulneráveis.

Essa fase vai passar e é fundamental estarmos atentos aos ensinamentos passados, ainda que de forma dolorosa. Óbitos, internações, recuperação, desemprego, solidariedade, entre tantas outras coisas deverão ser reconhecidas e utilizadas para nos tornarmos uma sociedade melhor.

Em cada profissão ou segmento da Economia muita coisa mudou. Na área da perícia, como venho sinalizando, paradigmas foram quebrados e tudo caminhou. Claro que certas mudanças trazem melhorias, outras nos fazem retroceder, porém cabe a nós fazermos escolhas.

Como tudo na vida, seja no mercado de trabalho, escola ou em casa, o que escolhermos é o que ditará o nosso amanhã como cidadãos e comunidade. Esta freada foi providencial e cabe a nós fazer do limão uma limonada. Fomos convidados a reinventar. Estamos vivendo o “home office” como cotidiano. A minha vida mudou. Estou conseguindo tempo para escrever.

Se vamos voltar ao que era ou se iremos nos deparar com um novo normal não importa. O essencial é como queremos ser após essa turbulência. De qual sociedade estaremos falando após a pandemia. Qual será o nosso compromisso com ela em 2021?

Da minha parte, digo que as experiências vivenciadas em 2020 vão me permitir ser mais consciente e proativo nas relações profissionais e pessoais, com mais profissionalismo, ética e olhar mais apurado para o meu próximo. E você?

*** JARBAS BARSANTI – Perito Judicial Contábil, conselheiro do CRC-RJ e empresário

OUTROS OLHARES

OS FEIOS VENCERAM

Abercrombie, a grife que só queria clientes “bonitos e magros”, anuncia o fechamento de lojas e busca novos caminhos para se adaptar às mudanças do padrão de consumo

As empresas demoram décadas para construir uma boa reputação, mas bastam apenas alguns minutos para destruí-las. A velha máxima do mundo corporativo traduz a eletrizante trajetória da grife americana de roupas Abercrombie. Fundada em 1892, em Nova York, ela ficaria conhecida anos depois, quando personalidades como o presidente americano John F. Kennedy, a atriz Greta Garbo e o escritor Ernest Hemingway, entre muitas outras, passaram a exibir com orgulho o famoso alce que se tornaria símbolo da marca. No início do século XXI, a Abercrombie deixaria o universo das celebridades de meia-idade para seduzir os jovens com uma estratégia para lá de esquisita. Em vez de vendedores convencionais, a rede contratou modelos sarados que atendiam a clientela sem camisa, como um chamariz para atrair adolescentes. A ousadia funcionou, as filas avolumaram-se nas portas das lojas e muito dinheiro jorrou dos caixas da companhia. Até que uma estupidez poria tudo a perder. Em 2013, Mike Jeffries, então presidente da Abercrombie, disse que apenas “gente magra e bonita” era bem-vinda e deveria comprar seus produtos. Em questão de minutos, a centenária reputação seria irremediavelmente jogada no lixo.

O preço está sendo cobrado agora, quase uma década depois da tresloucada afirmação. A Abercrombie anunciou há alguns dias seu mais drástico plano de reestruturação – palavra que, no jargão corporativo, não é outra coisa a não ser corte de custos. A empresa fechará, até o fim de janeiro, as quatro maiores lojas próprias, sendo duas na Alemanha (Düsseldorf e Munique), uma na França (Paris) e uma na Inglaterra (Londres). Outros endereços importantes na Europa e no Japão deverão ser encerrados quando seus respectivos aluguéis expirarem.

Segundo cálculos do mercado, as lojas extintas representam 10% de toda a área física disponível para vendas. O novo foco da Abercrombie serão as unidades menores, sem o estandalhaço do passado – no início da década, alguns estabelecimentos simulavam baladas, com luzes piscantes que brilhavam ao ritmo do som altíssimo -, e mais distantes das áreas turísticas tradicionais. Em outras palavras: a empresa quer atrair o público mais popular, que vive nas franjas das cidades. O conjunto de iniciativas significará uma economia imediata de 8 milhões de dólares, dinheiro que compensará a queda de 5% das vendas no terceiro trimestre do ano fiscal encerrado em outubro.

A ascensão e queda de uma das grifes mais tradicionais dos Estados Unidos exemplifica como o descuido com a reputação pode ser devastador para as grandes empresas. Mike Jeffries, o presidente falastrão, foi afastado do cargo em 2014, mas os estragos estavam feitos. A reação à sandice foi o surgimento de um movimento nas redes sociais que pregou durante anos o boicote à marca e a distribuição de roupas que ostentassem o inconfundível alce a moradores de rua. O levante dos “feios e gordos”, a turma que não se enquadrava no estereótipo que o executivo queria ver em suas lojas, fez a Abercrombie perder fatias importantes de mercado. “Para complicar a situação, a nova geração é mais inclusiva do que qualquer outra na história”, diz Eduardo Tancinsky, consultor especializado em marcas. “No mundo competitivo da moda, só as marcas exclusivíssimas podem abrir mão de potenciais compradores. Chamar eventuais clientes de feios não foi apenas uma agressão, mas um contrassenso do ponto de vista de marketing.”

Nos últimos meses, para piorar, a Abercrombie enfrentou uma tempestade perfeita. Somaram-se aos problemas de imagem a crise imposta pela pandemia e os novos desafios do varejo físico, afetado pelo avanço do comércio eletrônico. Outras marcas icônicas também sofrem com as mudanças do mercado e do padrão de consumo. A grife Banana Republic foi uma das mais amadas nos anos 1990, mas perdeu público de uns tempos para cá. Sua controladora, a Gap, informou recentemente que fechará 130 lojas Banana Republic nos Estados Unidos até 2023 – é o corte mais radical da história da empresa. Já há até quem duvide da capacidade de sobrevivência da outrora inabalável marca.

O mundo das grifes parece ter virado do avesso na nova era doconsumo. Um dos mitos empresariais do século XXI, a grife californiana de acessórios e roupas íntimas Victoria’s Secret viu sua participação de mercado cair de 34%, uma década atrás, para 15%, atualmente. Assim como a Abercrombie, a empresa enfrenta uma crise de imagem. A estética sexualizada, consagrada pelas modelos lindas e esguias, parece fora de contexto em um mundo marcado pelo ativismo feminino. Há inúmeros casos. A sueca H&M, uma das maiores empresas do varejo de roupas do mundo, avisou que eliminará 250 lojas, de um total de 5.000, até o fim de 2021. “Mais e mais clientes começaram a comprar on-line durante a pandemia”, justificou a empresa.

Por maisque a situação pareça irreversível para algumas companhias, é prudente não duvidar da capacidade de as grifes resistirem às mudanças de comportamento, ajustando as operações ou até mesmo mudando radicalmente a linha de produtos. A própria Abercrombie é exemplo disso. Em meados do século passado, era uma marca robusta, para pessoas que desejassem transmitir ao mesmo tempo força e sofisticação. Anos depois, virou uma das grifes preferidas da garotada baladeira. Recentemente, a empresa fez novas apostas ao lançar uma campanha publicitária, veja só, estrelada por pessoas com alguns quilos a mais. O público aprovou. Talvez não seja tarde demais para se reinventar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE DO PERDÃO

Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto (Salmos 32.1).

O homem tem um vazio no coração do tamanho de Deus. As coisas não podem preencher esse vazio. Deus colocou a eternidade no coração humano e nada do que é terreno e temporal pode satisfazer o homem. O pecado separou o homem de Deus, e longe de Deus é território da infelicidade. Muitas pessoas vivem atormentadas pela culpa. Vivem no cabresto do pecado, na masmorra do medo, sem paz na alma. Há aqueles que tentam escapar desse sentimento avassalador, correndo para muitas aventuras. Outros se entregam à bebedeira e afogam a consciência em dores ainda mais profundas. Na ânsia de buscar uma resposta para a angústia da alma, o homem recorre a filosofias de autoajuda, entrega-se a experiências místicas e frequenta igrejas e mais igrejas. Porém, nenhum rito e nenhuma experiência mística podem aliviar a consciência culpada. Somente o sangue de Jesus pode apagar os nossos pecados e limpar a nossa consciência das obras mortas. Somente Jesus pode quebrar os ferrolhos dessa prisão e despedaçar nossas algemas. Somente Jesus pode nos oferecer perdão verdadeiro e felicidade eterna. Buscar o perdão noutra fonte é como cavar uma cisterna rachada, que não retém as águas. A vida está em Jesus. A salvação é uma dádiva de Jesus. O perdão só pode ser encontrado em Jesus. A felicidade é um presente de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

PRECISAMOS FALAR SOBRE BURNOUT

Metas, horas extras, pressão e uma cultura que faz da saúde mental um tabu são causas de esgotamento entre executivos, funcionários e empreendedores

O trabalho pode ser gratificante, mas também sufocante — e não é de hoje. O personagem Carlitos, interpretado pelo britânico Charles Chaplin em um de seus mais marcantes filmes, trabalha na linha de produção de uma fábrica apertando peças metálicas. A pressão em seu setor aumenta: a mando da alta gestão, a velocidade na linha fica mais intensa. Com certa dificuldade, Carlitos acompanha o ritmo sob o olhar severo de seu gestor direto. Pouco tempo depois, novas ordens para aumentar a produtividade. Carlitos parece entrar numa espiral de ansiedade, acaba subindo na esteira e sendo levado para dentro da máquina. “Ele é louco”, grita um colega de trabalho. O episódio dá início a Tempos Modernos, filme lançado em 1936 que aborda situações cômicas de um universo recém-industrializado. Na época, a força global de trabalho sentia os impactos da Segunda Revolução Industrial. O contexto era de baixos salários, ambiente laboral precário e alto índice de desemprego — condições ideais para gerar a confusão mental vivida por Carlitos.

Quase 100 anos mais tarde, a chamada Quarta Revolução Industrial promete uma intensa automatização do trabalho. A inteligência artificial e o apoio de robôs deveriam deixar mais tempo para as pessoas se dedicarem às tarefas analíticas e às habilidades humanas. A evolução nos hábitos de consumo também deveria nos levar a uma rotina mais saudável e flexível, com mais espaço para o ócio. Por ora, não é o que se vê. Os anos 2020 deverão ser marcados como aqueles que popularizaram o burnout, ou esgotamento pelo trabalho.

O fenômeno é global — e o Brasil, infelizmente, é um dos destaques. No Japão, 70% da população economicamente ativa diz ter tido burnout. Em 2016, quase um quarto das empresas japonesas exigia que os funcionários cumprissem mais de 80 horas extras por mês, de acordo com o governo local. Em 2019, uma lei limitou as horas extras a 45 por mês. Nesse cenário, a subsidiária japonesa da empresa de tecnologia Microsoft testou, por um mês, o fim de semana de três dias para 2.300 funcionários. A produtividade aumentou 40%. A empresa pretende implementar o programa novamente, ainda sem data definida.

Na China, terceiro país com maior incidência de burnout — atrás do Brasil —, é comum os funcionários do polo tecnológico trabalharem das 9 às 21 horas durante seis dias por semana. A prática é defendida por grandes empresários, como Jack Ma, cofundador da varejista online Alibaba. Nos Estados Unidos, quarto país da lista produzida pela International Stress Management Association, 20% da população economicamente ativa sofreu burnout. Episódios de esgotamento são a ponta de lança de um momento global de discussão sobre as formas de trabalho. Para Jeffrey Pfeffer, professor na universidade americana Stanford, é hora de um redesenho total.

Apesar de o termo já pipocar pelos escritórios, ser tema de palestras e motivo de afastamento do trabalho, só agora as corporações começaram a quebrar o tabu e a lidar com a questão. Uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh mostrou que projetos de saúde mental são prioridade em 2020: 30% das organizações querem implantar iniciativas e 46% afirmam já ter alguma prática implementada (veja quadro abaixo – Gestão da Saúde). Um estudo das empresas Mind Share Partners, SAP e Qualtrics apontou que 60% dos americanos tiveram algum sintoma de doenças do trabalho em 2018 e, desses, 60% nunca comentaram sobre o ocorrido. “Mais do que oferecer serviços, as empresas precisam superar a dificuldade de falar sobre o estigma. Por outro lado, os executivos pensam que, ao tocar no assunto, vão evidenciar um problema”, afirma Helder Valério, gerente de gestão de saúde da Mercer Marsh.

Não há um consenso sobre a definição de burnout. Numa tradução livre, o termo quer dizer “queimar até o fim”, estando relacionado a uma estafa física e mental por excesso de trabalho. Para Mario Louzã, psiquiatra e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o burnout é formado por um tripé. “É um casamento entre características da personalidade, situação de vida da pessoa e condições de trabalho, sendo este último o principal fator”, diz. Ainda não existem estudos consistentes para registrar o aumento de casos de burnout — até porque a síndrome só passará a existir oficialmente em 2022, quando entrará em vigor a 11a edição da Classificação Internacional de Doenças (CID), que vai agregar o burnout como “problema associado ao emprego ou desemprego”. No entanto, é claro para Louzã o aumento significativo na demanda de seus pacientes para tratamento de burnout. “Houve uma aceleração no ritmo de trabalho com a intensificação da tecnologia”, diz o psiquiatra. “Além disso, o maior acesso à informação e o avanço nos diagnósticos contribuem também para esse aumento no número de casos.”

Enquanto o burnout não é oficializado, as pesquisas que abordam a saúde mental do trabalhador costumam mensurar os níveis de estresse. Um estudo lançado pela consultoria Accenture em novembro avaliou um universo de mais de 2.000 funcionários no Reino Unido. O resultado mostra que 69% dos entrevistados já foram impactados por algum tipo de problema relacionado a saúde mental. No Brasil, a consultoria Betânia Tanure Associados fez medições de três tipos de estresse: baixo (quando o funcionário executa a tarefa com muita facilidade, sem prestar atenção, o que não contribui para a produtividade), construtivo (não nocivo e necessário para a motivação) e alto (este, sim, pode levar à síndrome de burnout).

O estudo avaliou executivos individualmente, seus times e as empresas em que atuam. Foram 538 respondentes das 500 maiores companhias brasileiras. Na comparação entre 2019 e 2018, houve aumento do estresse alto em todas as categorias. “O ponto crítico é o grau de incerteza presente nas organizações hoje”, diz Betânia, fundadora da consultoria, referindo-se aos novos concorrentes e às lógicas de negócio inovadoras que ganharam força com a tecnologia.

Apesar de haver profissões mais propensas ao desenvolvimento de um quadro de burnout — caso dos médicos e policiais —, não existe um perfil profissional específico para isso. Qualquer pessoa economicamente ativa pode ter uma crise. Os sintomas são igualmente diversos: existe uma gama ampla de sensações, que variam de acordo com a pessoa afetada.

Para Sofia Esteves, por exemplo, a síndrome foi sorrateira. Fundadora do grupo Cia de Talentos, ela vivia uma fase intensa na empresa em 2016. Em determinado momento, passou a ter lapsos de memória recente: não era capaz de lembrar de conversas do dia anterior, por exemplo. “Apesar de nunca sair tarde do escritório, eu passava o dia entrando e saindo de reuniões”, diz Sofia. “Quando há novos estímulos constantemente, sem descanso, chega um momento que o cérebro não consegue mais processar as informações.” Depois de perceber as falhas na memória, a executiva fez consultas médicas, foi diagnosticada com burnout e se afastou do trabalho por 50 dias. No retorno, teve apoio de sessões de técnicas de atenção plena, conhecidas como mindfulness, e diminuiu a agenda significativamente. “Cortar compromissos foi a parte mais difícil, mas foi importante aprender que não preciso participar de tudo e que, se eu estiver ausente, os processos vão continuar.”

Pessoalmente, Sofia não sentiu que o fato de ser mulher teve impacto no desenvolvimento do quadro. Mas homens e mulheres costumam exibir sintomas de burnout por motivos distintos. “Enquanto as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho e ainda acumulam responsabilidades em casa, o machismo faz com que os homens não mostrem vulnerabilidades, o que também é um problema”, diz o consultor Vicente Picarelli, diretor da consultoria de capital humano que leva seu sobrenome. Membro de conselhos de administração, Eduardo Terra sentiu na pele as pressões do trabalho na saúde mental dos executivos. “Em geral, o homem tem mais dificuldade de pedir ajuda: é a síndrome do super-homem”, diz.

No caso de Terra, o burnout chegou numa semana especialmente atribulada, com voos domésticos longos, palestras e privação de sono. Entre os sintomas, confusão na fala e braços dormentes. “Além do excesso de trabalho, acabamos corrigindo do modo errado, tomando mais cafeína para ficar acordado e descuidando da alimentação.” Como gosta de suas funções — sentimento muito comum entre os pacientes com burnout —, Terra resolveu ser mais regrado em seus hábitos para manter o ritmo. Depois de se recuperar da crise, há cerca de um ano e meio, o executivo deixou de ser sedentário, passou a seguir uma dieta saudável e perdeu 15 quilos. A agenda continua a mesma, com a diferença de que passou a planejar viagens longas com mais cuidado.

Nem sempre uma alteração na agenda é suficiente para manter a saúde mental. Com uma carreira de mais de 20 anos nas áreas comercial, de marketing e de gestão de pessoas em empresas como Walmart e Grupo Pão de Açúcar, Sylvia Leão teve de adiantar uma mudança planejada na carreira. Chamada para liderar projetos importantes no Carrefour em 2015, ela encarou o desafio como a última etapa da vida profissional antes de passar a atuar como conselheira. Inicialmente, a ideia era ficar cinco anos na empresa, mas a síndrome de burnout, iniciada em 2018, abreviou o processo. “Eu estava tão envolvida e cheia de desafios que demorei a perceber os sinais que o corpo me mandava”, diz.

Além do cansaço intenso, Sylvia tinha uma sensação difícil de definir, mas que ela descreve como angústia. A saída foi retornar à psicanálise e reconhecer seus limites. Hoje, a executiva participa de cinco conselhos de administração e entende que essa é a carga ideal de intensidade de trabalho para ela. Se o funcionário pode rever seus processos laborais, a empresa tem papel fundamental na mudança. O bem-estar também evita gastos. No Brasil, o burnout custa para os empregadores cerca de 80 bilhões de dólares ao ano. Nos Estados Unidos, o montante é de 300 bilhões de dólares.

Para evitar os resultados negativos causados pelo estresse alto e pelo burnout, a empresa alemã de tecnologia SAP começou uma campanha global para acabar com o estigma de falar sobre saúde mental. Em maio, na conferência global anual da empresa em Orlando, nos Estados Unidos, um painel sobre saúde mental foi apresentado por Cynthia Germanotta, mãe da cantora e atriz Lady Gaga. Mãe e filha lançaram há oito anos uma fundação para combater o bullying e os problemas de saúde mental ocasionados pela prática. O interesse dos funcionários pelo tema foi tão grande que um comitê de saúde mental foi criado globalmente. No Brasil há várias práticas, como a execução de peças de comunicação escancarando o tema e a promoção de palestras com psicólogos.

Para promover uma mudança cultural, é preciso inserir a alta liderança nos debates e nas ações. Há seis anos, desde que assumiu a presidência da SAP no Brasil, Cristina Palmaka realiza o Café com a Cris, encontro mensal com uma dezena de funcionários que voluntariamente se inscrevem para debater assuntos como gestão e vendas. Inspirado nesse modelo, o Chá com a Cris, uma reunião para falar exclusivamente de saúde mental, teve início em agosto. Nos dois primeiros encontros apenas gestores puderam participar, e os seguintes foram abertos para todos.

Os funcionários compartilham experiências e ideias de como criar um ambiente seguro, no qual falar de ansiedade e depressão não seja um problema. “É comum que as pessoas tenham crises pessoais e no trabalho. Fomentar a resolução gera um ambiente seguro, melhora o clima e os resultados”, diz Cristina. Com o objetivo de integrar funcionários e quebrar o tabu da saúde mental, algumas companhias buscam palestras de espiritualidade, coaching e até teatro corporativo, baseado em concepções de que cada pessoa assume um papel. A disputada budista monja Coen, autora de best-sellers e com mais de 2 milhões de seguidores somados no YouTube e no Instagram, diz ter dobrado a quantidade de palestras sobre espiritualidade nas companhias ao redor do Brasil nos últimos cinco anos. “As empresas precisam de funcionários emocional e espiritualmente saudáveis para ter lucro. Os gestores se deram conta disso e me procuram cada vez mais”, afirma.

Promover um ambiente seguro para tratar questões de saúde mental no trabalho abrange os sentimentos que nascem da porta para fora. Pessoas homossexuais, por exemplo, são cinco vezes mais propensas a tentar suicídio do que as heterossexuais. Entre os jovens negros o risco de cometer suicídio no Brasil é 45% maior do que o de jovens brancos. Na estratégia de quebrar o estigma, na SAP os grupos de diversidade são prioritários. Mas não é só nas grandes empresas que esse problema aparece. Na agência de publicidade Mutato, 27% dos profissionais se declaram negros, 64% são mulheres e 40% se declaram LGBTI+; mesmo assim, as pessoas desses grupos relataram se sentir mais vulneráveis e menosprezadas do que as outras. Depois disso, a empresa começou a promover palestras com psicólogos e sessões de ioga. Mas foi só em outubro de 2019 que o cofundador e presidente Andre Passamani percebeu a oportunidade de incentivar a terapia individual para os funcionários interessados. “Tenho 46 anos e, em minha juventude, saúde mental não era um assunto abordado.

Apenas recentemente ações de prevenção foram mais estruturadas”, diz. Desde outubro todos os funcionários da Mutato podem fazer terapia online por meio do aplicativo da Zenklub, uma startup que cresce 15% ao mês. As sessões são custeadas pela empresa e tiveram adesão de 30% dos funcionários. Apesar de as sessões serem confidenciais, os gestores conseguem saber em quais áreas da empresa as questões emocionais das pessoas estão relacionadas ao trabalho. “Pretendemos criar um histórico, traçar novos planos e melhorar o clima interno”, diz Passamani.

A exposição das doenças do trabalho também está atrelada às diferenças geracionais. Nos Estados Unidos, segundo um estudo da consultoria Deloitte, 84% da geração millennial (nascidos entre 1980 e 1995) diz ter experimentado a exaustão no trabalho atual, em comparação com 77% de todos os entrevistados. Quase metade dos millennials diz que deixou um emprego porque se sentiu esgotada. Consultora de recursos humanos, Sofia Esteves, da Cia de Talentos, acredita que a falta de experiência pode ter impacto nocivo sobre o trabalhador jovem. “O burnout ocorre por um efeito cumulativo, mas também tem relação com a quantidade de pressão que o trabalhador aguenta”, diz. “As gerações mais novas não têm o acúmulo, mas, em geral, toleram menos pressão.”

O quadro parece piorar quando o funcionário gosta do que faz. Foi o que aconteceu com Damião Silva, de 35 anos. Depois de entrar em uma fundação filantrópica, aos 18 anos, como monitor educacional, ele mostrou boa capacidade de gestão de pessoas e teve sucessivas promoções. Com dez anos de casa, controlava uma equipe de cerca de 400 pessoas. “Eu chegava a trabalhar 12 horas por dia, além de dedicar outras 4 horas diárias a cursos de especialização”, diz. Demissões na organização intensificaram ainda mais o ritmo.

Quando percebeu sinais como dificuldade para dormir e dores de cabeça, Silva já tinha engordado 20 quilos. Uma troca na gestão piorou a situação: a nova chefe cobrava trabalho até nas férias. A persistência dos sintomas levou o profissional buscar ajuda médica. Em 2018, ele foi diagnosticado com burnout, afastou-se do trabalho e, hoje, faz psicoterapia e toma medicamentos, sendo acompanhado por psiquiatra e neurologista.

Se não tem ajudado a evitar o esgotamento por trabalho, a tecnologia pode ser uma aliada no diagnóstico e no tratamento. Em 2016, o Hospital Albert Einstein estruturou um programa para cuidar da saúde de seus funcionários e dependentes por meio de uma clínica interna que pode atender cerca de 30.000 pessoas. Em 2018, o programa foi reestruturado para lidar também com questões emocionais. “Um profissional feliz e saudável atende melhor seus pacientes”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein. Os funcionários passaram a ter, por exemplo, assistência jurídica e atendimento psicológico 24 horas por dia, pelo telefone, e acompanhamento após retornar por afastamento de burnout e estresse. Quando voltam, eles respondem a um questionário de 50 perguntas. A intenção é que com essas respostas haja uma base de dados para, por meio de inteligência artificial, evitar sintomas negativos de saúde mental.

Especialistas americanos, porém, afirmam que o uso efetivo da inteligência artificial na saúde deve acontecer somente depois dos próximos cinco anos. O que se espera é que os dados sejam usados para diagnosticar sutilezas emocionais que passam despercebidas mesmo para os médicos. Para os funcionários, executivos e empreendedores brasileiros, outra boa notícia pode vir de uma retomada mais consistente da economia. A insegurança econômica, como alerta Pfeffer, da Stanford, é um grande gatilho de estresse. As respostas, como se vê, devem vir de cada um, das empresas, da ciência, da tecnologia, dos governos. O alerta não é de hoje: foi dado por Chaplin há mais de 80 anos.

                QUEM SOFRE BURNOUT NO BRASIL

Pesquisas apontam para o alto índice de estresse na população economicamente ativa brasileira e traça as marcas do Burnout

MAIS ESTRESSADOS DO MUNDO

Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior incidência de Burnout na população economicamente ativa.

GESTÃO DA SAÚDE

No planejamento das empresas brasileiras, a promoção da saúde física e da emocional ocorre ao mesmo tempo, mas a saúde mental é o tema mais importante para implementação em 2020: 30% das organizações querem promover iniciativas

PARA MANTER O CONTROLE

Um conjunto de ações tomadas pelo RH das empresas pode evitar a intensificação de casos de Burnout nas organizações

ESTABELECER CANAIS INTERNOS DE COMUNICAÇÃO

É importante que a empresa estabeleça formas seguras para o funcionário abordar

o tema, nos moldes dos canais de denúncia, operados por terceiros ou internamente, que garantam anonimato e segurança sobre os dados informados.

CONSCIENTIZAR OS LÍDERES

Pessoas que ocupam cargos de liderança são peças-chave para conter crises de burnout. Além de sofrer pressão de seus superiores – e estar, elas mesmas, suscetíveis ao problema -, devem estar atentas ao comportamento dos integrantes de sua equipe, equilibrando as demandas e negociando metas.

BUSCAR APOIO DE ESPECIALISTAS

Em situações específicas, empresas podem contratar serviços alternativos para dar apoio à saúde mental dos funcionários. Nesse sentido, são indicadas atividades que promovam o autoconhecimento, como palestras e rodas de conversa.

AMPLIAR BENEFÍCIOS RELACIONADOS À SAÚDE

Além de promover o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, as organizações podem dar aos funcionários acesso a programas que auxiliem no desenvolvimento de práticas mais saudáveis, a exemplo de parcerias com startups que oferecem acesso fácil a atividades físicas ou sessões de psicoterapia.

Fonte: consultorias

O CUSTO DO BURNOUT

Custos médicos, baixa produtividade, absenteísmo, turnover, passivos trabalhistas e orçamentos para treinamentos de novos profissionais geram custos altos para as empresas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

 CÉREBRO E ANSIEDADE – VIII

SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA

Quando o distúrbio começa a trazer muitos prejuízos à mente, o uso de remédios com acompanhamento profissional pode ser a melhor saída

Após o diagnóstico de um especialista, a próxima etapa é a prescrição dos tratamentos pra combater as crises ansiosas, seja por meio das terapias ou de medicamentos. Mas isso dependerá de cada caso. Ou seja, se o quadro já estiver em um grau avançado, o psiquiatra recomendará a utilização de determinados remédios para que as crises de ansiedade sejam controladas, proporcionando uma melhor qualidade de vida ao paciente.

QUANDO RECORRER?

Para que o médico indique o tratamento medicamentoso, o quadro deve estar em um nível intenso, influenciando e prejudicando atividades do dia a dia da pessoa.

O psiquiatra Sander Fridman explica que quando os sintomas são graves é necessário recorrer aos remédios junto às sessões psicoterápicas: “no sentido até de permitir que a psicoterapia possa acontecer e até reestabelecer mais prontamente a capacidade da pessoa em lidar consigo mesma, com sua vida, seus compromissos e atividades psicossociais objetivas”, completa o especialista.

AGINDO NO CÉREBRO

Como uma das principais disfunções cerebrais durante uma crise ansiosa é a queda dos níveis de serotonina (neurotransmissor responsável por regular o sono e o humor), os medicamentos buscam atuar nesse sentido. As substâncias são chamadas de inibidores receptação serotoninérgica (como fluoxetina, paroxetina, sertralina e citalopran), utilizados também contra a depressão.

Além disso, os antidepressivos podem agir como um escudo pois, segundo o psiquiatra Adiel Rios, a cada crise, o corpo é levado ao extremo com uma série de sintomas. Principalmente a liberação do cortisol, que pode afetar áreas cerebrais e prejudicar no futuro a memória e até predispor a doenças neurodegenerativas”, indica o especialista.

No entanto, Rios explica que, se o quadro estiver avançado, será preciso recorrer para antidepressivos mais modernos, os duais (velataxina e a duoxetina).

Outra opção em casos alarmantes é a utilização dos benzodiazepínicos para combater os sintomas com resultados mais imediatos, “como clonazepan, Rivotril e aprazolan, mas com devido cuidado para não levar a uma dependência”, conclui Adiel.

PRÓS E CONTRAS

Optar pelo tratamento medicamentoso nem sempre é uma escolha fácil, visto que o processo se dá por meio de substâncias bastante fortes que agem diretamente em funções cognitivas. Por isso, é importante colocar na balança as reais necessidades do paciente conforme a intensidade dos sintomas, pois pode haver efeitos colaterais.

“É comum sentir náusea ou cefaleia (dor de cabeça), que ocorrem apenas na primeira semana de tratamento. Durante a intervenção, pode haver aumento de peso e queda da libido”, explica o psiquiatra Edson Hirata. Mas o especialista garante que são efeitos controláveis.

Por outro lado, a principal vantagem de utilizar remédios contra a ansiedade é que eles são capazes de aliviar um momento de sofrimento durante uma crise, como é o caso dos benzodiazepínicos.

Já em relação aos inibidores seletivos da receptação de serotonina, segundo o psiquiatra Adiel Rios, os benefícios se mostram a longo prazo. “Você vai estar fazendo um tratamento efetivo para a ansiedade – o cérebro terá uma nova capacidade de melhor neuromodular e gerir os neurotransmissores, ou seja, regular a serotonina e diminuir os níveis dos sintomas.

ALTERNATIVA

Para quem precisa do tratamento contra a ansiedade, mas tem receio do uso de remédios, existem outras saídas. Além das terapias, Adiel sugere que o mais importante é promover uma mudança em hábitos do dia a dia, como se livrar do sedentarismo, uma das causas comprovadas desse distúrbio. O psiquiatra ainda alerta que “uso de drogas lícitas, como álcool e o cigarro, podem proporcionar um alívio momentâneo, mas depois, você tem um rebote e essa ansiedade acaba piorando”.

EU ACHO …

LEGALIZAÇÃO PARALISADA

A regularização do uso e cultivo de cannabis no Brasil ficou estagnada ao longo de 2020, e não podemos culpar a Covid por isso

Poderíamos até usar a pandemia da covid-19 registrada este ano para justificar a estagnação da legalização da cannabis no país, tanto no âmbito social (recreativo) quanto no medicinal. Afinal, esta doença fez com que a sociedade em geral parasse suas atividades a fim de conter a contaminação em massa da população.

Mas, quando olhamos a postura de outros países, como México, Argentina e o próprio Estados Unidos, que modernizaram suas legislações no decorrer de 2020 quanto ao uso e cultivo da erva, vemos que esta pauta não avançou em terras brasileiras não só por causa do coronavírus, mas também pela imposição de políticas proibicionistas em todas as esferas federais.

A Argentina regularizou o cultivo doméstico no último mês de novembro para fins medicinais. No decreto, quem desejar cultivar deverá ter uma prescrição médica, e uma autorização do governo. A decisão não estipula um número de plantas por pacientes, e ainda permite ainda o comércio de óleos, cremes e medicamentos em farmácias cadastradas.

No México, a lei que legaliza o uso medicinal e social da maconha já foi aprovada pelo Senado, mas ainda precisa ainda entrar em votação na Câmara deste país para entrar em vigor. No entanto, a aprovação é dada como certa. Com isso, o México se tornará o terceiro país a legalizar totalmente a erva, junto com Canadá e Uruguai.

Nos EUA, foi colocada em votação em vários estados, no último processo eleitoral, a questão da legalização da cannabis, e mais quatro unidades federativas aprovaram esta proposta (Nova Jersey, Montana, Dakota do Sul e Arizona). Além disso, a Câmara Federal de lá também aprovou a descriminalização em âmbito federal, faltando apenas a aprovação pelo Senado para entrar em vigor. Isso representará um alívio para o mercado canábico estadunidense, que não pode até o momento usar o sistema financeiro deste país, que é regido por leis federais.

Toda esta conjuntura mundial pela legalização, no entanto, não motivou o STF a retomar a votação recurso extraordinário (RE 635.659), que trata da descriminalização da cannabis, entre outras substâncias. Aqui, a maconha é permitida somente para uso medicinal, e isso com uma série de restrições. Os obstáculos começam em encontrar médicos que receitem a erva, passam pelos altos preços dos medicamentos canábicos, e terminam nos Habeas Corpus que permitem o plantio àqueles pacientes que não tem condições financeiras para arcarem com as importações destes remédios.

Até a própria ONU já retirou a cannabis da lista de drogas perigosas da sociedade. Mesmo assim, infelizmente, não existe perspectiva alguma do Brasil surfar esta onda tão breve. Em tempos de “gripezinha”, maconha é considerada veneno, e, ozônio, remédio. Por isso, é necessário, cada vez mais, mantermos o nosso posicionamento pela legalização, a fim de não permitirmos que as leis que atendem aos usuários não regridam em nossa legislação.


*** LUCIANO CUNHA NOIA – É advogado no Estado do Rio de Janeiro e ativista pela descriminalização da cannabis

OUTROS OLHARES

PÁGINA VIRADA

A crise das megastores abre espaço para as pequenas livrarias, que também enfrentam dificuldades, mas cativam um público que demanda atenção

“As livrarias são fortes solitários, espalhando luz sobre a calçada. Elas civilizam seus bairros.” A frase, atribuída ao escritor americano John Updike, ganhou especial significado nos tempos de quarentena, que afastou as pessoas e tornou as livrarias ainda mais solitárias. Esvaziadas, algumas das mais famosas lojas do mundo estão com sua existência ameaçada. Um dos casos mais dramáticos é o da Shakespeare and Company, de Paris, que nos anos 1920 era frequentada por escritores como Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, e que publicou Ulysses, de James Joyce. Fechada pelos nazistas na II Guerra Mundial, ela corre o risco de encerrar suas atividades pela segunda vez devido à vertiginosa queda de vendas. Entretanto, sua proprietária, Sylvia Whitman, não pretende desistir. Com ações entre amigos, vendas on-line e os melhores títulos para quem gosta de ler, a Shakespeare and Company tem atributos para sobreviver, assim como outras do mesmo estilo mundo afora, inclusive no Brasil.

A crise das grandes livrarias não vem de hoje. Instaladas em grandes shoppings ou em estruturas faraônicas de rua, elas enfrentam há anos elevação de custos operacionais em uma ponta e demanda em declínio na outra. Mas o maior adversário é a Amazon. O mamute do comércio eletrônico, que levou muitas lojas do varejo tradicional à falência nos Estados Unidos, tem uma política agressiva de preços, que oferece descontos entre 30% e 50%, com os quais as lojas físicas, carregando pesados custos, não conseguem competir.

Nos Estados Unidos, das redes que no passado dominavam o mercado editorial, hoje só resta a Sarnes & Noble, que perdeu toda a opulência de antes. No Brasil, a Saraiva e a Livraria Cultura, que já foram as duas maiores redes do país, estão envolvidas em complicados processos de recuperação judicial e risco constante de falência, além de enfrentarem a falta de produtos. “É impossível para uma livraria física, que tem altos custos, competir com canais on-line apenas no preço”, diz Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros.

Como o capitalismo tende a ocupar espaços vazios e nem todos gostam de pescar livros na internet, o mercado está vendo o surgimento de uma nova leva de livrarias que busca seu lugar ao sol fugindo da guerra predatória e focando seu público. Elas estão criando novos modelos de negócios e vão razoavelmente bem mesmo em meio aos problemas impostos pela quarentena. Apesar da queda de receita de 45% no início da crise, o mercado foi se recuperando, e o resultado em outubro ficou 25% acima do registrado no mesmo mês do ano passado.

Em Pinheiros, bairro de classe média alta de São Paulo, a livreira Monica Carvalho montou uma loja acolhedora, de apenas 120 metros quadrados, que se tornou ponto de encontro de leitores. A Livraria da Tarde é administrada por ela e por dois funcionários. O local tem café, promove cursos e saraus, transmitidos virtualmente durante a pandemia. O modelo é parecido com o da Mandarina, também localizada em Pinheiros, que recentemente realizou um evento sobre literatura russa. “Meu cliente não procura preço, procura boas sugestões de leitura. Conversa sobre livros enquanto toma um café com a gente.

Ele aceita pagar o preço cheio do livro porque recebe tudo isso junto”, diz Roberta Paixão, uma das sócias. Asduas livrarias foram abertas no ano passado e, segundo as fundadoras, estão fechando no azul.

Ainda que os ventos estejam soprando a favor dos pequenos varejistas de loja única, que buscam atender um cliente diferenciado, algumas redes também estão conseguindo se expandir, mantendo a estratégia de ter lojas de pequeno ou, no máximo, médio porte. É o caso da carioca Livraria da Travessa, a paulistana Livraria da Vila e a mineira Leitura, que estão, inclusive, abrindo unidades em meio à pandemia. A Leitura, fundada em Belo Horizonte em 1967, é a maior dessas redes, devendo encerrar o ano com oitenta estabelecimentos. Em 2021, ela deve investir cerca de 20 milhões de reais na expansão. O modelo de negócios é baseado na meritocracia. Marcus Teles, presidente da empresa, explica que, para incentivar a concorrência interna, geralmente um gerente é convidado a ser sócio quando um novo ponto é aberto. Segundo Teles, o crescimento é sustentável, a rede não tem dívidas e os empreendimentos começam com capital próprio.

O crescente sucesso das livrarias de bairro pode deter o avanço do comércio eletrônico? Certamente não, e esse nem é o objetivo, dada a luta inglória. A venda on-line é incontornável, pois é prática, rápida e, na maioria das vezes, mais econômica. Mas as livrarias acolhedoras, como a Shakespeare and Company, sempre poderão oferecer atenção, lazer, curadoria e troca de ideias a seus clientes de uma forma que as megastores e as lojas virtuais são incapazes de fazer. Ainda assim, parafraseando Updike, o fundamental e bonito é que as livrarias continuem espalhando luz – e conhecimento -, onde quer que estejam.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE DEZEMBRO

O CONSOLADOR VINDO DO CÉU

Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei (João 16.7).

As pessoas andam aflitas e carentes de consolo. Buscam alívio para suas dores em muitas fontes. O verdadeiro consolo está em Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus veio ao mundo, nasceu numa manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz. Mas a morte não pôde detê-lo. Ele ressuscitou em glória, voltou ao céu, assentou-se no trono e enviou-nos o Espírito Santo, o Consolador, a terceira pessoa da Trindade. O Espírito Santo é Deus, e ele veio para habitar em nós. Ele é o selo de Deus em nós. É o penhor e a garantia de que somos de Deus e de que um dia teremos um corpo de glória. Ele veio não apenas para estar conosco, mas para estar em nós. É ele quem nos guia pelas veredas da verdade. É ele quem nos consola em nossas angústias. É ele quem nos assiste em nossas fraquezas e intercede por nós com gemidos inexprimíveis. O Espírito Santo é Deus em nós, intercedendo por nós, ao Deus que está sobre nós. Ele pode encher nossa alma de doçura, nosso coração de alegria e nossa vida de paz!

GESTÃO E CARREIRA

O QUE PODE SAIR ERRADO?

No Brasil, 90% dos executivos não estavam preparados para lidar com a crise do coronavírus – e isso mostra a importância do gerente de riscos, profissional estratégico para as companhias

Antes de 2020, cogitar uma pandemia tão drástica quanto a da covid-19 só seria admissível em filmes apocalípticos. Prova disso é o resultado da pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que mostrou que 90% dos executivos de 205 companhias nacionais não estavam preparados para lidar com crises desse porte – e nem as próprias empresas estavam prontas. O levantamento revelou que apenas 28% das organizações tinham um plano estruturado de gerenciamento de crise. “Essa é uma situação realmente inesperada, mas o que se vê é que, como poucos empresários tinham preparação para lidar com tamanho revés, a grande maioria descobriu somente agora a importância da área de risco”, diz Ana Carolina Jacob Manzoli, professora na FGV-Eaesp. O profissional responsável pela mensuração de riscos e identificação de possíveis cenários danosos para a organização ou para o mercado em que ela atua é o gerente de riscos, uma função que não é nova, mas foi ressignificada. “Nos últimos anos temos visto como a vulnerabilidade das empresas aumentou. São casos de vazamento de dados, marcas sujeitas aos tribunais das redes sociais, pressões socioambientais – todos fatores que afetam financeiramente as companhias e que cabem ao gerente de risco avaliar”, diz Rafael Souto, fundador e CEO da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira.

A área de riscos é comumente trilhada por profissionais de administração, engenharia financeira e ciências contábeis, como é o caso de Anderson Abreu dos Santos, de 44 anos, gerente geral de segurança empresarial e risco da VLI, empresa de logística de ferrovias, portos e terminais. “As oportunidades estão aí, o mercado está aberto para contratações, e a sociedade começou a exigir das empresas esse controle de riscos”, diz Anderson, que atua há 20 anos na área. Rafael Souto dá a dica: “A estratégia é estudar os temas e as normativas legais. É uma profissão que exige muito conhecimento técnico”. Na equipe de Anderson, por exemplo, se destacam aqueles que possuem habilidades como planejamento, visão do todo e boa comunicação. “O contato com a alta direção é constante, assim como com todas as áreas da empresa. Saber se posicionar é fundamental”, explica.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

horas trabalhadas: 8 A 10 horas diárias

DIVISÃO DO TEMPO

25% – RELATÓRIOS INTERNOS – Avaliando e deliberando sobre análises da equipe de risco               

25% – REPORTES – Interlocução com a alta diretoria e com comitês de auditoria interna

30% – CONTATO COM OPERACIONAL – Interlocução com gerentes de outras áreas

20% – GERENCIAMENTO DA EQUIPE – Apoio para o time

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Grande capacidade analítica e de liderança. Exige conhecimento de regras éticas e jurídicas. Entre as habilidades comportamentais estão capacidade de planejamento, visão holística e boa comunicação. Já as competências técnicas são as certificações ISO 31000 e ISO 31010.

QUEM CONTRATA

Setor financeiro e empresas de grande porte que operam em mercado regulado (como de energia, telefonia, farmacêutico e químico).

ATIVIDADES-CHAVE

Determinar riscos e identificar possíveis cenários para o mercado e para a organização; criar planos de contingência para cada risco avaliado; analisar e alimentar planilhas com estimativas de eventos que poderiam causar prejuízos à empresa.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Graduações como Economia, Ciências Contábeis, Administração e Engenharia Financeira oferecem base de conhecimento, mas especializações como as certificações ISO, cursos de auditoria, matemática estatística e legislação são diferenciais.

PONTOS POSITIVOS

Tem forte influência nas estratégias da companhia e convive com todas as áreas, desde as operacionais até as administrativas.

PONTOS NEGATIVOS

Está à frente de um departamento que trabalha com estatísticas e análises, com foco em previsões que podem mudar a todo o momento. A resiliência e o equilíbrio podem ser grandes desafios.

SALÁRIO: de 5.425 A 17.532 reais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – VII

DESACELERE SUA MENTE!

Existem quadros de distúrbios ansiosos que podem ser revertidos por meio de terapias. Confira 10 saídas para evitar e conter a sensação de alerta constante

Atualmente, ter uma rotina caótica ´praticamente algo comum entre o grande público – lidar com adversidades no trabalho, cuidar dos filhos, da casa e, às vezes, tudo isso de uma só vez. Consequentemente, se forma um quadro bastante favorável para o desenvolvimento de algumas patologias, mais especificamente falando dos transtornos relacionados à ansiedade.

No entanto, junto com esses distúrbios, também se estimula a descoberta de novos meios mais eficazes e menos dependentes de substâncias químicas para combatê-los, como é o caso das terapias.

POR QUE SEGUIR ESSE CAMINHO?

Por mais tentador que seja recorrer logo às promessas de alívio rápido que os remédios proporcionam, é preciso analisar a situação de cada quadro com calma. O psiquiatra Sander Fridman explica que, em casos mais simples, provenientes de momentos críticos e isolados da vida de uma pessoa, as psicoterapias podem ser a melhor escolha. “A medicação poderá tirar do paciente a oportunidade de aprender com seus sintomas a sinalizar seus desencadeantes emocionais internos e psicossociais externos, tornando o aprendizado ou cura psicoterápica um pouco mais difícil”, finaliza Fridman.

FAÇA SUA ESCOLHA

Dentre as terapias alternativas, existem diversas maneiras para buscar o controle sobre os sintomas de uma crise de ansiedade, seja por meio de psicoterapias ou exercícios mais voltados para atividades físicas.

HIPNOTERAPIA: antes vista como charlatanismo, a técnica ganhou bastante crédito na ciência quando o assunto são as terapias para tratar distúrbios mentais.

A hipnose clínica, por meio de ressignificação do subconsciente, pode reconstruir o sentido de algo que serve de gatilho para uma reação ansiosa, como o medo de alguma situação, objeto ou animal em casos de fobias.

A nível emocional, uma sessão de hipnoterapia é capaz de proporcionar um relaxamento profundo ao indivíduo que vive na ansiedade todo dia. Vale lembrar que não há nada de místico na técnica; portanto, é necessário mais de uma sessão para que os efeitos positivos apareçam.

IOGA: uma forma de se abstrair do estresse cotidiano é a prática regular da ioga. Os exercícios trabalham desde a postura até técnicas de respiração que ajudam a pessoa a relaxar e diminuir a tensão relacionada à ansiedade.

PILATES: visando aperfeiçoar a respiração e corrigir a postura corporal, a atividade também é uma opção interessante para quem busca controlar o distúrbio.

EXERCÍCIOS FÍSICOS: além de estarem diretamente relacionados à diminuição dos níveis de ansiedade com a produção de endorfina (neurotransmissor ligado ao bem-estar), a falta deles também indica o aumento dos sintomas do transtorno e da depressão – isso sem falar de outras tantas patologias ligadas ao sedentarismo. Vamos lá, se mexer um pouco não faz mal a ninguém!

ACUPUNTURA: a técnica se utiliza da aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo visando liberar a tensão da região afetada. Dependendo da intensidade dos sintomas, o método pode proporcionar alívio imediato ou gradual, conforme ocorrerem mais sessões. O especialista nessa área vai colocar as agulhas em vias nervosas, fazendo com que o cérebro libere substâncias relacionadas ao prazer, relaxamento e à redução de dores locais, como a dopamina, endorfina e serotonina.

TERAPIAS PARA A MENTE

A organização sem fins lucrativos Associação de Ansiedade e Depressão da América (ADAA, sigla em inglês), dos Estados Unidos ainda indica outras opções efetivas de terapias:

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC): essa terapia é uma forma bastante efetiva de aprender a lidar com uma crise ansiosa. Esse procedimento ocorre pela identificação e compreensão dos sintomas do paciente para ajudá-lo a, progressivamente, mudar os pensamentos relacionados à ansiedade e, por fim, controlar os comportamentos derivados de uma crise.

Na TCC, a pessoa aprende a encarar o distúrbio, sendo parte fundamental, não dependendo apenas do profissional. E, segundo a ADAA, os benefícios podem ser notados, geralmente, entre 12 a 16 semanas de tratamento.

TERAPIA DE EXPOSIÇÃO: neste tipo de intervenção, o foco é em fazer o paciente encarar as situações que ativem uma crise de ansiedade, como determinados medos no caso das fobias.

Vale lembrar que o processo não ocorre de uma hora para a outra. Ou seja, se a pessoa tem medo de altura, por exemplo, não significa que ela vai ser colocada na beira de um penhasco para superar o distúrbio. Além das fobias, o método também é recomendado para quem apresenta o quadro de Transtorno-Obsessivo Compulsivo, os TOCs.

TERAPIA DE ACEITAÇÃO E COMPROMISSP (TAC): como o próprio nome diz, o processo se dá por meio de exercícios para aceitar e se comprometer a mudar pensamentos e controlar sentimentos que ativam o gatilho da crise de ansiedade. Uma técnica utilizada nesse tipo de terapia é a mindfulness, que consiste em levar a pessoa a um estado mental de experimentar situações sem julgamentos, aprendendo também a viver o momento presente.

TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA (TCD): com técnicas da TCC, essa terapia busca focar os pontos positivos da pessoa, na questão emocional e comportamental, para fazer com que aprenda a identificar, admitir e enfrentar de maneira mais racional as questões que, eventualmente, levam a uma crise de ansiedade.

TERAPIA INTERPESSOAL (TIP): antes usada apenas em casos de depressão, a TIP hoje também pode estar presente em tratamentos de outros distúrbios, como de ansiedade e bipolar, por exemplo. O terapeuta bisca focar na interação em sociedade atual do paciente do que em suas características pessoais.

APOIO É FUNDAMENTAL

Apesar de todas essas terapias disponíveis para ajudar a aliviar os sintomas, são necessárias também a participação e colaboração de amigos e familiares da pessoa. A psicóloga Fernanda Medeiros ressalta que não se deve tratar o quadro como “frescura”. “Uma boa maneira de auxiliar e desconstruir o preconceito que ainda existe em relação aos transtornos mentais, ou de ordem psicológica”, conclui a especialista.

NO CASO DOS PEQUENOS

Quando o transtorno de ansiedade surge logo na infância, terapias alternativas podem ser mais interessantes o tratamento medicamentoso. Isso porque a criança ainda está em fase de desenvolvimento, seja psíquico, social ou biológico, e os remédios podem interferir nesse processo. “A terapia com um profissional psicólogo aparece, portanto, como uma maneira mais incisiva nos casos de ansiedade infantil. É por meio disso que a criança pode vir a experimentar novas maneiras de pensar e agir em situações que lhe causam ansiedade”, indica Fernanda Medeiros.

Além dessas opções, a criação dos pequenos em um ambiente seguro, segundo a psicóloga, é a melhor saída até para prevenir que um distúrbio venha a se desenvolver.

EU ACHO …

O FREIO DE ACELERAÇÃO

O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar

Antes disso, vamos relembrar. Tudo “normal”, vida seguindo, tudo certo, de vento em popa, mercados crescendo e se desenvolvendo satisfatoriamente, mas algo era escasso…. o tempo. Lembram-se disso? Faltava-nos aquele período do ajuste fino, a análise do mérito. Tudo acontecendo em grande velocidade, encaixado no fluxo da produtividade perfeita, como as águas em direção ao mar.

E mesmo assim, nos escapava o tempo da observação, aquele momento do aprimoramento. O planejamento foi sendo esmagado, estava sem vez, tudo acontecendo ao vivo, em tempo real, o improviso virando regra, as empresas operando no repente.

E agora? Que novo normal é esse? O tempo está diferente? A resposta é sim. Encontramo-nos de frente a uma excelente oportunidade para construir uma nova divisão de tarefas domésticas além das empresariais. Cuidado com os filhos, com os idosos e com seus funcionários também, em busca de uma sociedade mais igualitária, justa e corporações mais equilibradas.

Podemos olhar a situação atual como um convite para perceber essa crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Fica a reflexão: já que fomos obrigados a reinventar, o que realmente importa? O que precisa ser feito?

O fato é que o vírus bloqueou grande parte do mundo em casa e transformou comportamentos. O coronavírus colocou a humanidade em cheque e nos fez refletir sobre nossas prioridades. Fomos obrigados a mudar, ainda que temporariamente, a anomalíssima normalidade da civilização humana. Devemos evoluir, reprogramar o futuro de nossas empresas. Que rumo queremos para elas?

Esse é o momento da reprogramação. É a hora do retrofit, onde devemos aprimorar a qualidade e evoluir com o que já existe. No campo da física, existe uma significante diferença entre velocidade e aceleração. O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar.

Apesar da situação global ainda estar delicada, percebemos a volta da confiança do empresariado além de muitos indicadores que já apontam para a recuperação da Economia.

O Sistema Fecomercio do Rio, por exemplo, não parou. Com austeridade, miramos no desenvolvimento e fortalecimento da instituição. Nos reinventamos, estamos reprogramados e oferecendo por meio do Sesc e Senac, diversos novos serviços à sociedade e aos funcionários do comércio. Investimos em qualificação profissional, em infraestrutura e inauguramos os restaurantes do Norte Shopping e BarraShopping para atender os funcionários das lojas com alimentação saudável e preço justo.

Entre outras iniciativas na Cultura, Saúde, Educação e Lazer, apostamos em melhorias e adequações em nossos quatro hotéis do Sesc, para a nova realidade do setor turístico. Estamos com protocolos de segurança sanitária e de comunicação em nível elevado, que são vitais para trilharmos um Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente. caminho seguro para o retorno às atividades.

Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente.

*** FÁBIO SOARES – É diretor de Desenvolvimento Institucional do Sesc/RJ

OUTROS OLHARES

O DILEMA DAS REDES

As mídias sociais não têm influência hegemônica sobre a Geração Z como se pensava. Nova pesquisa revela que muitos jovens estão se distanciando delas

“Meu conselho é: se puder sair das redes sociais, saia”, cravou Tristan Harris ex-funcionário do Google, em entrevista em setembro. Ele está no documentário da Netflix O Dilema das Redes, que detalha os riscos à privacidade das pessoas, que, em sua visão, acabam virando produtos do Facebook, Instagram, Twitter e outros. Se for tomado por base o estudo realizado pela agência de pesquisa Dentsu Aegis Network, muita gente já estava dando ouvidos ao conselho de Harris antes mesmo de ver o documentário. Foram entrevistadas 32.000 pessoas em 22 países, em março e abril, e o resultado foi surpreendente: entre os jovens de 18 a 24 anos, a Geração Z, um em cada cinco afirmou ter desativado suas contas nas redes sociais.

O número também impressiona por outro motivo: a debandada é duas vezes maior nessa faixa etária do que entre usuários acima de 45, mostrando que os mais velhos parecem se sentir menos afetados pelo admirável mundo novo. Entretanto, a maior preocupação apontada pelos que pularam fora das redes, em qualquer idade, é o dano que elas estariam causando à saúde mental. Mas qual seria, na prática, esse prejuízo psicológico? Harris diz que o ambiente virtual vicia. Trata-se de um processo químico no cérebro. Sempre que vivenciamos algo prazeroso, o neurotransmissor chamado dopamina é ativado, fazendo com que procuremos mais do mesmo, e receber curtidas no Facebook e Instagram dispara o processo. Na mesma medida, a sensação contrária é frustrante.

O escritor carioca Enrique Coimbra, de 28 anos, faz parte do grupo de desertores das redes sociais. Ele largou todas elas, até mesmo seu canal no YouTube, no qual dava dicas de controle emocional e tratamentos para ansiedade e depressão a mais de 200.000 inscritos. “Minha vida sem rede social melhorou 2.000%. As pessoas não fazem ideia da manipulação emocional que elas nos impõem”, conta o escritor. Antes leitor assíduo de livros pelo celular, mudou para o leitor de e-book a fim de evitar distrações.

A Dentsu detalha a posição dos entrevistados brasileiros em sua pesquisa: 39% afirmaram que pretendem se distanciar do mundo virtual. A empresa ressaltou, porém, que resultados mais concretos devem ser observados quando a pandemia acabar. Com a Covid-19, as pessoas usaram mais o computador para trabalhar e se divertir, possivelmente ficando sobrecarregadas de tanto contato com as redes. Uma vez que as restrições forem sendo afrouxadas, elas talvez passem a se preocupar menos com a exposição a elas.

O cenário de polarização política e propagação de notícias falsas também tem tratado de afastar usuários. Muitos ficam desiludidos quando ofendidos e acabam se dando conta de que estão em um ambiente hostil. Há queixas dirigidas também a um dos maiores sucessos dos últimos anos, o TikTok, aplicativo que tomou o mundo. A psicóloga Marina Haddad Martins ressalta que as redes dão uma ilusão de falso preenchimento. “A Geração Z, que já nasceu na era da internet, talvez dê menos importância às redes do que os mais velhos, que pegaram a virada da tecnologia”, diz ela. Isso explicaria a disposição em largá-las. Eles estariam valorizando o palpável, a segurança emocional e as relações pessoais. Quem diria, o mundo real, este no qual sempre vivemos, parece estar na moda outra vez. Que bom.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE DEZEMBRO

APRENDA A VIVER CONTENTE

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação (Filipenses 4.1).

O contentamento tem a ver com quem somos e não com o que possuímos. É mais uma atitude que uma posse. Muitas pessoas têm tudo, mas não são felizes: têm saúde, família, amigos, dinheiro, mas vivem um arremedo de vida. O contentamento é um aprendizado. O apóstolo Paulo escreveu: Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Não é a circunstância que faz você, é você quem faz a circunstância. A felicidade não está nas coisas, mas em Deus. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas a maneira como se caminha. Você pode estar contente até mesmo na escassez. O apóstolo Paulo diz que a piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Você pode estar contente apesar das aflições. Esse contentamento não vem apenas de dentro, mas especialmente de cima, do alto, do céu. Deus é a fonte da verdadeira felicidade. Na presença de Deus, é que existe plenitude de alegria e só à sua direita há delícias perpetuamente. Agora mesmo você pode experimentar essa verdadeira felicidade, essa alegria indizível e cheia de glória.

GESTÃO E CARREIRA

OPERAÇÃO DE GUERRA

Como uma empresa de ventiladores pulmonares multiplicou por 30 sua produção na pandemia de covid-19

É um clichê do mundo corporativo dizer que toda crise esconde uma oportunidade – ainda mais quando se trata de uma tragédia de saúde pública e social que vai deixar cicatrizes profundas em um país. Entre os efeitos da pandemia do novo coronavírus vem se destacando a mobilização do empresariado brasileiro a fim de ajudar a combater a doença e de reduzir o impacto econômico do necessário isolamento social para desacelerar o contágio. Os fundadores da fabricante paulista de respiradores mecânicos Magnamed-Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Kinjo – não imaginavam enfrentar uma emergência que os obrigasse a multiplicar por mais de 30, do dia para a noite, sua capacidade de produção. No maior desafio dos 15 anos da empresa, encontraram, porém, a chance de concretizar seu propósito juvenil de salvar vidas.

O sucesso da empreitada – um conforto para um Brasil que continua registrando aumento de casos da infecção respiratória covid-19- só vem sendo possível graças à parceria com companhias tão diferentes quanto produtoras de papel e celulose e fabricantes de gases industriais e à afinação com diversas instâncias do governo. Essa é uma história que aumenta a esperança no futuro. ”Em uma crise, sempre deparamos com os extremos, o melhor e o pior de cada um. Nesta jornada, encontramos bancos sendo bancos, e bancos não sendo bancos; empresários sendo empresários, e empresários não sendo empresários. Não foi o dinheiro que falou mais alto. Foi a vontade de devolver à sociedade parte do que todos recebemos”, afirma Paulo Tomazela, sócio da gestora de recursos KPTL, que é, junto com os três fundadores e a gestora Vox Capital, uma das donas da Magnamed.

O encontro com a KPTL se deu em 2008, na incubadora de empresas tecnológicas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Cietec, que hospedava a Magnamed. A KPTL começou a investir na startup por meio de um fundo de investimento que tinha 80º/o de seus recursos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20º/o do Banco do Nor deste. No início, a Magnamed queria centrar sua atividade no encolhimento de peças de equipamentos médicos, mas acabou encontrando seu filão nos ventiladores, um ramo no qual Ueda e Suzuki, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), haviam atuado juntos quando eram funcionários de outra empresa. Como boa startup, a companhia de tecnologia médica foi montada na garagem da casa de Ueda, em 2005, e logo depois Kinjo entrou.

Nem se falava ainda em novo coronavírus quando, em dezembro de 2019, a Magnamed notou um aumento do interesse por seus respiradores em uma feira de equipamentos médicos da Alemanha. Um mês depois, em outra feira de Dubai, o cenário estava mais claro. Países asiáticos e europeus corriam para encomendar ventiladores pulmonares, e já se começava a ter uma ideia da gravidade da doença.

Foi só quando o Ministério da Saúde bateu à porta da empresa com sede em Cotia, na Grande São Paulo, com uma encomenda de 15.000 respiradores para os fabricantes nacionais – o equivalente a sete vezes sua produção anual -, em 19 de março, que a Magnamed entendeu o tamanho da pandemia. O choque inicial se deu porque o governo federal exigiu ficar com toda a produção da empresa por um período de seis meses. Depois de uma análise jurídica, a empresa ficou sabendo que não se tratava de um confisco, mas que o Ministério da Saúde estava exercendo um direito de compra de equipamentos garantido pela Constituição Federal. Passado o baque, a Magnamed arregaçou as mangas para verificar quantas máquinas poderia efetivamente entregar.

Primeiro, seria necessário checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas de sua turma do ITA, onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho. O amigo Walter Schalka, presidente da Suzana, maior fabricante de celulose do país, resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da Suzana no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca. A fabricante de computadores paranaense Positivo acionou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores. Outro gargalo estava na montagem das máquinas. A linha de produção da Magnamed em Cotia conseguia fabricar apenas 200 respiradores por mês. Por indicação do ministério e de executivos próximos à empresa, a Magnamed acabou chegando à Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. Contando com a capacidade da Flex, em 23 de março a Magnamed infarmou ao governo que conseguiria entregar 6.500 respiradores em um período de seis meses.

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzana lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o BNDES, seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento. Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval- a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima, a General Motors ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia e a fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acelerou o processo para certificar a fábrica da Flex, e a Polícia Federal faz a escolta dos produtos finalizados. Nesse processo, a Magnamed identificou novos fornecedores que poderiam ajudar a diminuir seus custos no futuro e descobriu gargalos na produção. Com a Flex, a fabricante de respiradores pode dizer que sua capacidade de produção anual subiu para 64.000 unidades. ”Sabemos que podemos contar com nossos parceiros para projetos grandes. O Brasil tem as condições de virar um polo tecnológico na área médica”, afirma Ueda, presidente da Magnamed.

Apesar de todo o apoio, a jornada teve percalços. Em 28 de março, o vice-prefeito de Cotia invadiu a fábrica da Magnamed e confiscou 35 respiradores. Devolveu-os após uma ordem da Justiça. Agora o projeto atingiu a velocidade de cruzeiro, e a Magnamed planeja o futuro. Não espera que o faturamento deste ano, estimado em 390 milhões de reais por causa da pandemia, vá se repetir, tampouco deverá regredir ao tamanho que tinha no ano passado. A covid-19 chamou a atenção para a necessidade de hospitais públicos e privados aumentarem seu estoque de ventiladores pulmonares. Equipamentos alternativos fabricados por universidades durante a crise não têm serventia para outras doenças, e o mercado também tende a identificar as máquinas de melhor qualidade. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os ventiladores sejam substituídos a cada cinco anos de uso, e o governo brasileiro estima que o parque local tenha idade média de 12 anos. A Magnamed aposta que os novos clientes conquistados durante a crise continuarão comprando seus equipamentos ao fazer a troca. Com o dólar em 5 reais, seus principais concorrentes, dos Estados Unidos e da Europa, terão mais dificuldade para vender ao país. O fundo da KPTL, que investe na fabricante de Cotia, acabará em novembro de 2021, e a gestora avalia se venderá sua participação ou continuará no negócio, que se tornou a joia da coroa entre as 48 empresas de seu portfólio. Qualquer que seja a decisão, o ganho do investimento vai muito além do lucro da venda dos respiradores. ”Quando posto à prova, o brasileiro mostra sua competência técnica e capacidade de pensar em soluções”, diz Leandro Santos, presidente da Flex.

DE REPENTE, DISPUTADÍSSIMO

O mercado global de respiradores mecânicos, que podem fazer a diferença entre a vida e a morte na pandemia de covid-19, virou o centro das atenções de governos, profissionais de saúde e pacientes

RAIO X: MAGNAMED

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – VI

DEIXE PARA DEPOIS

Achar que tudo deve ser feito ‘para ontem” colabora para aumentar a ansiedade

“Não se afobe, não, que nada é pra já”. A letra da canção Futuros Amantes, de Chico Buarque pode generalizar demais, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Por mais urgente que algo seja, sempre há tempo para fazê-lo com calma. Apesar de o cantor e compositor estar se referindo ao amor, é possível aplicar a sugestão de não se afobar nas mais diversas situações do dia a dia, evitando, assim, despertar o “monstro da ansiedade”.

MIL E UMA TAREFAS

”Hoje em dia, com a globalização digital, praticamente tudo precisa ser feito “aqui e agora”. O presente é feito da mistura entre as atividades rotineiras e a execução dos projetos que foram pensados lá atrás”, afirma o neurologista Martin Portner. O nível acelerado que a vida vem tomando, somado à facilidade de conectividade presente em dispositivos móveis, como celulares e tablets, tem feito com que muitas pessoas ajam na forma de procrastinação, isto é, realizam uma tarefa tão logo a recebem. O motivo? Se livrarem antecipadamente da ansiedade que pode vir a seguir. No entanto, tal lógica pode gerar exatamente o efeito contrário, já que estamos o tempo todo fazendo algo, sem ter um momento para nós mesmos.

RESPIRE, INSPIRE, NÃO PIRE

Na contramão de ser supereficiente, existe a procrastinação. É o ato de adiar tarefas consideradas difíceis ou trabalhosas pela mente que, para evitar o desconforto, passa a dirigir a atenção para atividades mais imediatas e capazes de prover prazer. Cientificamente falando, tarefas procrastinadas são aquelas que acionam uma estrutura cerebral chamada amigdala, cuja missão é evitar a dor e o desagrado. “Neste caso, a amigdala cerebral direciona a atenção do momento para, por exemplo, a leitura de e-mails ou a visualização do Facebook, onde há sempre a chance de surgir uma boa nova”, explica Portner. Assim, procrastinar traz bem-estar momentâneo, porque afasta um incômodo. Alguns pesquisadores, inclusive, defendem a ideia de que o ato é um mecanismo programado pelo cérebro para evitar aborrecimentos.

Quando o assunto é ansiedade, momentos de procrastinação ajudam a afastá-la, já que é dada uma pausa no ritmo frenético de cobranças e ações. Viver de planos cria expectativas que podem fazer com que o ansioso sofra duas vezes: esperado que as ações aconteçam e se decepcionando, caso elas não aconteçam exatamente como planejado – o que, convenhamos, representa uma grande possibilidade. Estar o tempo todo arquitetando o que precisa fazer, estudar, pesquisar, enfim, as ações futuras coloca o indivíduo em transe, o impedindo de viver o presente, prospectando o futuro à base de muita ansiedade.

Por isso, ter intervalos na rotina reservados para o “nada”, ou melhor, para a procrastinação, ajuda a levar a vida com menos pressão. “É preciso desafiar o crítico interno que nos cobra perfeição e exige que tenhamos que dar conta de tudo, como heróis e heroínas, e nos faz impor a nós mesmos obrigações e fardos que drenam a energia e produzem uma culpa exagerada. Aliviar esta responsabilidade e relaxar de tempos em tempos é indispensável para nosso bem-estar físico e, principalmente, mental”, afirma a especialista em inteligência emocional Semadar Marques.

SEM CULPA

Mudar de uma hora para outra o costume de estar sempre sendo ativo não é algo fácil. Ao mesmo tempo em que a sensação de prazer surge ao procrastinar, pode também aparecer o sentimento de culpa por estar exatamente não fazendo algo que você acredita ser indispensável.

De acordo com Semadar, a dica para levar a rotina com pausa e sem culpa é entender e definir os valores que realmente são importantes para você, tornando-os prioridades em suas ações. “Quando a energia é direcionada para atitudes que nos levam a conquistar objetivos alinhados com nossos valores, fica mais fácil relaxar sem culpa, ansiedade ou medo de estar deixando de fazer algo”, destaca o profissional.

COM CAUTELA

Não há dúvidas de que ficar fazendo “nada” ajuda a controlar a ansiedade, porém, é preciso saber dosar o quanto ficar de pernas para o ar ou rolando o feed do Facebook. “Existem momentos de procrastinação que revelam uma autossabotagem, uma fuga dos sentimentos negativos que você terá que encarar ao enfrentar determinada tarefa”, destaca Semadar.

Portanto, é preciso ter em mente que o prazer vindo de procrastinar é momentâneo e, se não praticado com cuidado, pode até ser prejudicial. “Procrastinar dá lugar ao prazer, que depois cede espaço à realidade. Porém, os projetos e as necessidades retornam, agora com uma carga de ansiedade (e medo subliminar) redobrados, o que convoca uma nova procrastinação. O ciclo vicioso está estabelecido”, esclarece o neurologista. A conclusão é que não há nada de errado em procrastinar esporadicamente; faz até bem para o controle da ansiedade. Contudo, é preciso ter cautela, ou o rebote pode ser ainda pior.

EU ACHO …

JOGO DA VIDA

Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída

Dezembro não é um mês que me desperta alegrias. Digo isso não como um manifesto contra as festas que se aproximam. Sou dos que rezam a vida e que celebram os acontecimentos que nos fazem mais elevados diante do sagrado mistério do existir. O menino Jesus nascendo em uma manjedoura, em uma simplicidade de uma noite fria, sempre me comoveu,

Faz frio em dezembro naquelas terras do oriente. Faz frio em mim. Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída.

Eu disse nada. Os anos em que estivemos juntos beiravam à perfeição. Era o que eu me dizia. Não a conheci menino. Nem no auge. Já havia deixado os campos de futebol e já não mais despertava os interesses de quando eu fazia gols, em domingos quentes, em estádios lotados.

Comecei cedo, passei de clube em clube, ganhei muito dinheiro, acreditei que o sucesso era eterno. Despi-me da minha melhor parte, quando vesti a camisa de campeão. Eu era um ídolo. Eu era imortal, aos 20 e poucos anos. E fui morrendo.

No jogo de despedida, eu nada entendia de despedidas. E os convites foram se rarefazendo. E os aplausos, também. E, então, convidei a bebida para estar comigo. Para ouvir as histórias que eu tinha para contar. Para destruir, todo dia, um pouco da tal imortalidade.

Foi na sujeira que conheci Helena. Sua graça fez dança comigo. E nos amamos como adolescentes que não éramos. E nos juramos uma história sem fim. Sem filhos, nos filiamos ao discurso de nos dedicarmos um ao outro. Esqueci os que de mim se esqueceram. Helena bastava.

Risos sem razão. E quem precisa de razão para rir?! Peraltices de mulher feita. Era menina em mim. Surpresas em dias comuns. Do estádio de futebol ao pódio de um sentimento de amor que ressignifica os dias.

E, então, surgiu o dia em que ela disse pouco e partiu. Soube que se apaixonou. Que ficou por um tempo dividida. Que ainda me amava, quando se amou a outro. Que demorou a se decidir. Que não quis viver duplicidades.

Foi em um dezembro que a porta da casa se fechou. Faz alguns anos. O perfume de Helena ainda impede outro amor de viver comigo. Vez em quando, me enrosco para espantar a solidão. Deito acompanhado, na ilusão de que já estou pronto para amar novamente. Finjo satisfação, elogio quem acabou de chegar. E acordo querendo nada, apenas esperar.

Em dias de derrota no campo, eu esperava o próximo jogo. Ia inteiro para fazer o que eu sabia fazer. E o grito de gol renascia em mim o gosto de viver. Mas não é disso que me lembro agora. Colecionei títulos nos gramados. No jogo da vida, só fui campeão com ela.

Vou segredar uma intenção, aguardarei o quanto for para ter Helena de volta. E nada direi, se ela voltar. Abrirei o imortal sorriso que aguarda em mim sua presença.

Quem sabe ela se canse do outro. Quem sabe ela se lembre do quanto fomos felizes. Quem sabe a porta se abra. Nunca troquei a fechadura nem exigi as chaves de volta. Quem sabe ela entre, rindo sua meninice e jurando nunca mais partir.

A esperança sempre esteve comigo. Só ela. Os outros se foram…

*** GABRIEL CHALITA – É professor e escritor

OUTROS OLHARES

O PUNHO COMO MANIFESTO

Ícone histórico dos anos 1970, o bracelete metálico da joalheria Tiffany renasce com uma mensagem adequada aos novos tempos de autoafirmação feminina

Na aventura da humanidade, desde que começamos a nos relacionar em sociedade, os punhos são um modo de comunicação. Quando fechados, simbolizam protesto, como faziam os Panteras Negras americanos nos mercuriais anos 1960. Quando cruzados na frente do peito, ao estilo do personagem Pantera Negra interpretado por Chadwick Boseman, significam orgulho e respeito ao próximo. No aspecto estético, o antebraço enfeitado também envia sinais, que podem ser entendidos como sentimentos de autoestima ou de ostentação. Nesse cenário, ganha destaque em 2020 uma peça do vestuário que andava meio esquecida: os braceletes, as largas pulseiras costumeiramente metálicas, que retornam à moda trazendo uma mensagem de poder e força femininos.

Bebe-se, com amplo sucesso nas redes sociais; é claro, de uma criação já cinquentenária da designer italiana Elsa Peretti, de 80 anos recém-completados, para a joalheria americana Tiffany – o bracelete Bone (do inglês, osso). Ele voltou com tudo – em coleções coloridas relançadas pela própria Tiffany, mas também em séries de outras grifes, como Chanel e Louis Vuitton. Peretti disse ter se inspirado nas visitas à Casa Milà, a obra-prima sem linhas retas de Antoni Gaudí (1852-1926) em Barcelona, e em sua infância em Roma. Em um folheto de apresentação da Tiffany, ela deu pistas dos primeiros esboços: “Visitava o cemitério de uma igreja capuchinha do século XVII com minha babá. Todos os quartos foram decorados com ossos humanos. De vez em quando eu roubava escondido um dos ossos e punha na minha bolsinha. Minha mãe mandava devolvê-los, mas as coisas proibidas permanecem com você para sempre”. O bracelete Bone foi adquirido em meados dos anos 2000 pelo British Museum – a joia contemporânea de prata polida faz agora parte de uma coleção histórica que reúne restos de animais do neolítico, amuletos de xamãs esculpidos em dentes de chifre e um sarcófago de madeira para gato de estimação. Não pairam dúvidas, portanto, da relevância do trabalho e de seu alcance – e nem seria preciso que ornamentasse, espetacularmente, os punhos de estrelas incontornáveis como Sophia Loren e Liza Minnelli para brilhar luminosamente, como se irradiasse camadas e camadas de autoafirmação feminina.

Nem um segundo é necessário para constatar que a peça (8.350 reais a unidade em prata de lei), além de bonita, é forte – não é coisa de bonequinha de luxo, para lembrar o nome em português do filme em que Audrey Hepburn se delicia diante das vitrines da Tiffany em Nova York. “O bracelete Bone e suas versões são um aceno ao empoderamento feminino desde seu nascimento, porque Elsa Peretti lançou essas peças numa época em que o setor era dominado por profissionais do sexo masculino”, diz Márcio Ito, professor de planejamento e desenvolvimento de produtos de moda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.

Para compreender a simbologia dos braceletes é preciso esticar a lupa até o Egito antigo, onde o item foi utilizado como sinal de nobreza, adornado com pedaços de vidro colorido raros. Esse status aristocrata se repetia em sociedades africanas e na civilização maia. Em alguns casos, apenas reis podiam ostentá-lo. Diz o professor de história da joalheria na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, João Braga: “Por meio dos braceletes, demonstravam-se poder material e prestígio”. Prestígio travestido de autoridade e autoestima é o que Elsa Peretti deu às mulheres no apogeu da revolução sexual, uma ideia que não para de ganhar espaço.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE DEZEMBRO

AMANHÃ VAI SER MELHOR

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe (Apocalipse 21.1).

O pessimismo é contagioso. Ele embaça nossos olhos, enfraquece nossos braços e rouba nosso entusiasmo. O povo de Israel pereceu no deserto depois de quarenta anos de peregrinação porque, em vez de confiar em Deus, se entregou à incredulidade e ao pessimismo. Chegou a pensar que era um bando de gafanhotos, e não uma geração eleita. Talvez você esteja olhando para a sua vida com óculos escuros. Talvez seu horizonte se pareça hoje com uma nuvem cinzenta. Talvez você esteja olhando apenas pelas lentes do retrovisor e lamentando o passado que se foi. Suba nos ombros dos gigantes. Tenha a visão do farol alto. O melhor está pela frente. Deus está no trono. Ele está conduzindo sua vida e é poderoso para lhe conduzir em triunfo. Não duvide; creia. Não tenha medo; tenha fé. Não olhe para trás; olhe para frente, pois o melhor ainda está por vir. Agora há lágrimas e dor. Agora seus pés são feridos pelas areias escaldantes do deserto, mas um tempo de refrigério virá da parte de Deus para sua vida. Depois do choro, vem a alegria. Depois da tempestade, vem a bonança. O melhor de Deus ainda está por vir. Estamos a caminho da glória, estamos a caminho do céu!

GESTÃO E CARREIRA

OBCECADOS POR DESENVOLVIMENTO?

Estamos sempre em busca de conhecimento e superação. Mas temos que discutir até que ponto isso é saudável

Ter novas habilidades, ser mais criativo, liderar com inspiração e, ainda, fazer esportes, manter a alimentação balanceada, reciclar o lixo, ser sempre a melhor versão de si mesmo…

Quantas dessas metas fazem parte de seu dia a dia? Talvez todas. E elas têm uma coisa em comum: o incentivo para que estejamos, sempre, em desenvolvimento. Por si só, esse objetivo não tem nada de errado. O problema acontece quando a busca pela evolução se torna uma obsessão – e, durante a quarentena, virou até piada o fato de que muita gente estava assistindo a vídeos sobre investimentos e fazendo aulas de dança ao mesmo tempo, tamanha era a busca por preencher o tempo livre.

Mas isso não é uma questão contemporânea. A percepção de que devemos estar sempre evoluindo tem seu embrião bem enraizado no passado. Na Roma Antiga, livros como A Arte de Amar, do filósofo Ovídio, ou Deo Ofjiciis, de Cícero, poderiam ser enquadrados como manuais para ajudar as pessoas no crescimento individual. O que é um sinal dos nossos tempos é o exagero na busca pelo aperfeiçoamento.

SEMPRE MELHOR?

No livro Desperately Seeking Self­improvement (“Desesperados pelo autodesenvolvimento”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil), os pesquisadores Carl Cederstrõm e André Spicer escrevem sobre essa busca incessante. “Devemos ficar mais em forma, felizes, saudáveis, ricos, espertos, calmos e produtivos – tudo ao mesmo tempo, e tudo hoje”, dizem em trecho da obra.

O problema é que essa busca, em vez de nos tornar melhores e mais felizes, acaba esvaziando nosso dia a dia – ficamos tão preocupados em nos superar em tudo que nem sabemos mais para quê. “Nossa sociedade nos dá a impressão de que precisamos sempre buscar ser melhores e melhores em quase tudo”, diz David Baker, jornalista, consultor britânico e um dos membros fundadores da The School of Life no Brasil. E há muita gente ganhando com isso. Um estudo de 2016 da Market Research, consultoria de tendências de mercado, previa que o setor de automelhoria, que valia então 9,9 bilhões de dólares, iria crescer em média 5,6% ao ano até 2022, chegando a 13,2 bilhões de dólares. Nesse segmento entram desde aplicativos de autocuidado (como meditação e atividade física) até cursos de desenvolvimento pessoal e coaching.

A LÓGICA DO ESFORÇO

“A mensagem que pregam é que, se nos esforçarmos, vamos ter tudo aquilo que merecemos”, diz Lucas Liedke, psicanalista e cofundador da Float, consultoria de estratégia, cultura e comportamento do consumo. “Tudo pode ser ‘hackeado’ e mensurado. Usamos aplicativos e dispositivos para otimizar ao máximo a alimentação, a carreira e as relações pessoais.” E temos recursos para isso – nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdos, conselhos e mentorias sobre praticamente qualquer assunto. O limite parece ser apenas o da nossa vontade de nos dedicar ao tema. Com tantas possibilidades, a pressão pelo desempenho fica toda em nossas mãos. As redes sociais agravam a situação. Vemos no Instagram e LinkedIn o melhor da vida dos outros. “Sentimos que, se fazem isso, também devemos fazer”, diz Flora Alves, fundadora da SG, consultoria de aprendizagem. Mesmo sabendo que o que está na mídia social não é tão real assim, nós continuamos sendo afetados pela comparação entre nossa vida e a vida dos outros.

Para Marcus Marques, sócio diretor do Instituto Brasileiro de Coaching, o efeito é de bola de neve. “As empresas estão cada vez mais competitivas, com margens mais espremidas, exigindo mais eficiência.” Todas as áreas passaram a ter metas e indicadores que são verificados e cobrados em tempo real – e isso gera uma pressão enorme, que é levada até para dentro de casa. É comum que as necessidades de objetivos atingidos se repitam no relacionamento com os filhos, com o cônjuge e consigo mesmo.

QUANDO COMEÇA O EXAGERO

Todos nós temos vontade de evoluir – é algo de nossa natureza. “A busca por melhoria é uma tendência do ser humano”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de educação e neurociência organizacional. Esse sentimento tem até nome: “maestria” – e é importante para nos manter felizes no trabalho e motivados para ter hobbies, por exemplo. O problema é o excesso. “Pode ser que a pessoa busque compulsivamente a superação porque falta reconhecimento e ela sente que precisa entregar mais”, diz Ana Carolina. Por outro lado, podemos nos viciar na sensação de que estamos nos superando. E nem sempre é fácil identificar quando isso acontece [veja quadro Passando do Ponto].

Em alguns casos, a pressão exagerada pode vir em momentos importantes, como quando assumimos um cargo novo. O carioca Elton Oliveira, de 37 anos, passou por isso. Gerente nacional de canal digital e delivery no Bob’s, um de seus maiores desafios aconteceu quando se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo, em 2017, para assumir uma posição nacional na empresa em que trabalhava e tocar a transformação digital. De uma hora para outra, Elton abandonou o estilo de vida que tinha no Rio, onde praticava esportes e conseguia relaxar. Agora ele convivia com líderes seniores e tinha de fazer reuniões em inglês e espanhol toda semana. “Isso me deixou muito ansioso para estar à altura”, diz. Elton passou a acordar às 5 da manhã todos os dias e a ir dormir só por volta da meia-noite. Quase todo o tempo livre ele passava estudando espanhol, adiantando entregas do trabalho ou estudando para se atualizar – ingressou, inclusive, em um segundo MBA.

“Passei todo esse tempo sem ver São Paulo, acabei engordando por comer por ansiedade e aí passei a me cobrar para emagrecer”, conta Elton. A virada começou quando seus amigos chamaram sua atenção. “Falaram que eu estava dedicado e intenso demais, perguntaram se eu estava bem.” A correria estava atrapalhando até a carreira: ele se atrasava com frequência no MBA e não conseguia ler nem estudar direito. Mas a mudança só veio quando Elton se forçou a ter objetivos de qualidade de vida, como passear na cidade e praticar esportes por prazer. “É um processo até hoje. Preciso, dentro de minha capacidade, ter metas e não idealizar tanto nem me sentir culpado quando não produzo.”

CADÊ O EQUILÍBRIO?

Para não se perder em um mar de obrigações, é necessário entender o que é importante para si mesmo. Medir-se pela régua dos outros é aumentar o risco de se frustrar e, pior, de dedicar esforço e tempo a coisas que não são prioridade para você. Mas é importante lembrar: em alguns momentos não sabemos o que queremos. E tudo bem. O importante é questionar se a pressão que sentimos vem de coisas relevantes internamente ou se é algo externo – como a expectativa de um chefe, amigo ou parceiro. E não se engane: não haverá o momento em que estaremos completamente satisfeitos. “A linha de chegada ao desenvolvimento não existe”, diz Vanessa Novais, diretora executiva de transição de carreira na Thomas Case, consultoria de recursos humanos. Quando alcançamos um objetivo, podemos ficar felizes, mas logo estaremos de olho no próximo alvo. Alternar as metas na hora de se planejar pode ser uma maneira de lidar com a ansiedade. “Posso dedicar um trimestre para focar os estudos e separar outro para relaxar e me dedicar mais ao lazer”, diz.

Essa foi uma das lições que Leonardo Meira, de 37 anos, gerente de tecnologia em um banco de investimentos, aprendeu. Em 2018, ele estava determinado a se dedicar ao autodesenvolvimento. “Queria ser o melhor líder, ser mais efetivo em trazer uma visão de futuro para meu time”, diz. “E queria desenvolver a inteligência emocional.” Assim, passou o ano todo focado em cursos e diversos tipos de coaching. “Você faz esses cursos e a sensação é de que vai ser o próximo Zuckerberg. Mas não havia como fazer tudo que os cursos pediam que eu fizesse.” Mesmo tendo seguido o ano todo dedicado às aulas, em 2019 Leonardo resolveu mudar de rumo: estudar filosofia e alterar a forma de olhar para o desenvolvimento. Durante esse ano, ele viu que expectativas altas e romantizadas traziam mais frustração. Assim, aprendeu a temperar a vontade de ser melhor com uma pitada de ceticismo. “O pessimismo, da forma correta, traz um pouco de calma e nos prepara.

Você não precisa ser o funcionário perfeito, ter o corpo perfeito, ser a pessoa mais divertida do mundo”, diz Leonardo. Essa descoberta mudou sua postura no trabalho. Agora, na hora de delegar uma tarefa, ele pensa mais na jornada do que na entrega em si. Além disso, estabelece prazos e riscos de forma mais conservadora, sem esperar que tudo vá dar certo sempre. Os erros servem para trazer aprendizados – e não só cobrança.

PASSANDO DO PONTO

Como descobrir se você está se cobrando demais

AMIGOS

Quando pessoas em quem confiamos começam a dizer que estamos exaltados, agitados ou trabalhando demais, devemos prestar atenção. Elas conhecem nossos padrões e podem perceber mudanças de comportamento sobre as quais ainda não nos conscientizamos.

TEMPO LIVRE

Quando existe uma folga na agenda, você se sente culpado por não estar se dedicando a alguma coisa? Em momentos de lazer ou esporte, você se preocupa com seu desempenho ou com quanto está aprendendo com aquilo? Esses podem ser indicativos de que a cobrança está alta demais.

COPPO

O corpo fala. Insônia, irritabilidade, impaciência, alterações de apetite e dores no corpo podem indicar que estamos pressionados. Claro que outros fatores podem estar envolvidos, mas vale se perguntar quanto sua autocobrança não está contribuindo.

METRICA

Se você se pega anotando e comparando índices de produtividade, de tempo de entrega ou até mesmo de exercícios que faz e comidas que consome com muita frequência, vale parar para se perguntar o que está por trás disso. Como você se sente quando não consegue cumprir um objetivo ou superar um limite anterior?

NA PRÁTICA

Olhe para os últimos cursos que fez e avalie quanto aplicou dos conhecimentos – isso ajuda a perceber excessos. Quando nos envolvemos com um volume demasiado de assuntos, não conseguimos construir a memória de longo prazo, aquela que ancora o conhecimento em nossa mente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – V

PRESENTE EM DIFERENTES MALES

Além de se manifestar na síndrome do pânico, a ansiedade também pode aparecer em casos de depressão

O coração bate aceleradamente, os sentidos começam a ficar um pouco confusos, a visão escurece, as mãos começam a tremer, você sente o suor frio escorrendo e a sensação de que o pior vai acontecer toma conta de sua mente.

Por outro lado, fica difícil cair no sono (ou quando dorme, é mais do que o recomendado) se perde a concentração e toda a disposição desaparece.

A síndrome do pânico e a depressão são distúrbios muito comuns entre a população mundial e são graves por si só. Enquanto o pânico é um transtorno ansioso, a depressão tem suas próprias definições. No entanto, não é incomum que os sintomas de um interfiram no quadro do outro.

UMA COISA LEVA A OUTRA

Quando o assunto é ansiedade, certas variações do sentimento vêm à tona na forma de distúrbios mentais, que acabam ultrapassando sua definição de “alarme natural”. Para exemplificar, podemos citar desde os transtornos obsessivos compulsivos (TOCs), passando pelas fobias, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico, entre outros quadros alterados pela ansiedade em excesso.

Porém, antes de compreender como essa reação do corpo atua em cada um desses exemplos, é necessário explicar que ela nem sempre age sozinha, sendo apenas uma consequência de outros fatores. Isso possibilita seu aparecimento em outros distúrbios que não contam necessariamente com a ansiedade como um de seus sintomas, por exemplo, a depressão. A psicóloga Ana Paula Cavaggioni esclarece que, “embora os transtornos de ansiedade tendam a ser altamente comórbidos (estarem relacionados) entre si, podem ser diferenciados pelo exame detalhado dos tipos de situações que são temidos ou evitados e pelo conteúdo dos pensamentos ou crenças associados”.

EFEITO DOMINÓ

“Todos os casos de síndrome do pânico são crises de ansiedade, mas nem todas as crises de ansiedade são síndromes do pânico “, começa explicando o psicólogo Bayard Galvão. O profissional afirma que o transtorno caracteriza-se, basicamente, pelo receio de sentir os sintomas da própria ansiedade aguda. Assim, se não controlado, esse medo será alimentado toda vez que houver uma recaída, uma vez que as sensações são bastante desagradáveis e difíceis de serem estabilizadas. Isso gera uma reação em cadeia que a cada fase se tornará mais intensa, podendo prejudicar a saúde mental do paciente caso não receba o tratamento adequado, seja medicamentoso ou terapêutico.

INFLUÊNCIAS

Segundo dados da organização Mundial da Saúde (OMS), é estimado que a depressão atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro, podendo ser considerado o mal do século

Mesmo com um número tão grande de vítimas deste quadro, o distúrbio ainda não é levado à sério tanto quanto se deveria. Seus sintomas, que variam entre o humor irregular, desânimo, perda ou excesso de apetite e de peso e insônia, muitas vezes, não são vistos com a devida importância, o que acaba piorando a saúde do paciente. E em uma situação extrema, o que era “apenas um sentimento de tristeza” vira algo muito pior: a OMS avalia que, das pessoas diagnosticadas com a depressão, 800 mil cometem suicídio.     

As consequências do distúrbio são graves por si só, mas podem aumentar quando unidas aos sintomas da ansiedade. Primeiramente, vale lembrar que a depressão e o transtorno ansioso são patologias com diagnósticos diferentes, mas que possuem traços semelhantes. No entanto, isso não impede que alguém com o quadro depressivo apresente também as manifestações da ansiedade, como taquicardia, sudorese, falta de ar e os próprios ataques de pânico.  

“Estudos mostram que cerca de 25% dos casos de depressão passam anteriormente por um quadro de ansiedade. E aproximadamente 65% dos pacientes diagnosticados com ansiedade apresentam sintomas depressivos”, constata a psicóloga Ana Paula.

FREQUÊNCIA

Não é nenhuma raridade que os traços de depressão e ansiedade se misturem, mas a manifestação de apenas um dos transtornos ainda é a probabilidade mais comum. “Considero pouco provável alguém viver até os 50 anos de idade e não ter desenvolvido em algum momento da vida um quadro de depressão ou ansiedade, seja de seis meses ou anos”, conclui o psicólogo Bayard Galvão.

OUTRAS VARIAÇÕES

Os transtornos ansiosos dividem-se em algumas categorias de acordo com o gatilho que faz seus sintomas virem à tona.

Além da Síndrome do pânico e a depressão (que não pertence a essa classe de distúrbios, mas    podem compartilhar dos mesmos sintomas), o especialista Bayard Galvão cita mais quatro exemplos que se encaixam no quadro:

• FOBIAS: aqui, o agente que aciona a ansiedade é o medo irracional por algum objeto, animal ou situação.

Contudo, o psicólogo ressalta que as fobias podem ser mal diagnosticadas às vezes: uma reflexão um pouco mais rigorosa leva ao fato de que o indivíduo não teme o avião em si, mas a queda do veículo. E não tanto o acidente, mas de morrer”.                                                    

• TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO: manifesta-se por meio de rituais que as pessoas com TOC simplesmente não consegue deixar de lado. Alguns dos comportamentos são fixações com determinados números ou algum pensamento que fica constantemente se repetindo na mente. Segundo Bayard, a manifestação dos sintomas ansiosos acontece, na verdade, por “uma intensa vontade de fazer algo que evitaria isso (de um modo fantasioso ou não), seja rezar, abrir e fechar a porta, dar pulos ou até lavar a mão e corpo de maneira contínua e terrivelmente rigorosa”.            

• ANSIEDADE GENERALIZADA: esse distúrbio se caracteriza, principalmente, pela preocupação exagerada sobre alguma coisa, o que gera muita tensão na pessoa com o quadro. Se esse padrão se repetir com frequência, haverão alguns efeitos negativos: “aumenta a irritabilidade, piora o sono, diminui a capacidade de concentração, de memorização e uma série de efeitos maléficos ao corpo, inclusive prejudicando o sistema imune, subindo a probabilidade de ter alguma doença”, alerta o psicólogo.

• DISTÚRBIO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO: os sinais da ansiedade aparecem após passar pela experiência de algum trauma psicológico, seja pela perda de uma pessoa querida, um assalto, um acidente de carro ou por sofrer atos violentos.

EU ACHO …

APENAS UMA PAUSA

Apenas uma pausa

Não deve estar sendo fácil por aí, não é? Aqui também não! Não estávamos preparados para viver essa situação. Principalmente psicologicamente.

Somos frutos de uma geração que não para, que está sempre na “correria”, que conta com ajuda externa para dar conta da casa, dos filhos e etc. Somos de uma geração em que mulheres estão inseridas no mercado de trabalho, e muitas delas, representam a principal fonte de renda das famílias. Somos acostumados a nos reunirmos apenas no horário de almoço e jantar (e às vezes nem isso) e contamos como apoio familiar nos finais de semana.

De repente, somos obrigados a ficar 24 horas por dia, sabe-se lá por quanto tempo, com a família dentro de casa. Desafiador!

De uma rotina estabelecida a uma nova realidade imposta, surge a necessidade de se reinventar, redescobrir e vencer dia após dia, uma nova batalha.

A demanda familiar, as responsabilidades do trabalho, ou até o receio de perdê-lo, nos faz ter medo, angustia, nos enche de dúvidas e culpa.

Manter a sanidade mental, em minha opinião, é o nosso maior desafio. Portanto, não se cobre demais, não tente dar conta de tudo e não exija ser produtivo nesse período. Fazer o que for possível e não se sentir mal por isso é o caminho.

A situação é atípica, então relaxe um pouco, viva cada dia com fé e esperança de que essa fase vai passar e tudo ficará bem.

Não é hora de sofrer pele futuro e fazer grandes planos.

Vamos pensar que é apenas uma pausa, um parêntese em nossas vidas e logo tudo se normalizará.

Tenho certeza de que estamos fazendo um belo trabalho e o lado bom disso tudo (sim, sempre tento ver o lado bom) é que estamos tendo a oportunidade de viver momento em família que jamais viveríamos se não fosse essa pausa.

Eu, particularmente tenho podido ver de perto o desenvolvimento dos meus filhos, cada descoberta e travessura. Aproveitando intensamente uma fase da vida deles que nunca voltará.

As outras coisas, mantendo a saúde física e mental, a gente volta a “correr atrás”!

 

*** MARCELA CORBELLI – Psicóloga, graduada pela Universidade Presidente Antônio Carlos. Pós graduada em gestão de pessoas, Grupo de estudo e orientação em psicanálise, cursando psicanálise com crianças e adolescentes. CRP 04/30.453

 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE DEZEMBRO

gotas-de-consolo-para-a-alma

JESUS NASCEU, GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS!

E ela [Maria] deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura… (Lucas 2.7a).

 

 

O Natal fala-nos sobre o nascimento de Jesus, o Filho do Altíssimo. Ele deixou a glória excelsa e desceu até nós. Esvaziou-se e assumiu a forma humana. Sendo Deus, fez-se homem; sendo Rei, fez-se servo; sendo exaltado, humilhou-se até a morte, e morte de cruz. O nascimento de Jesus foi prometido desde a eternidade. As profecias apontaram para sua vinda. Dele falaram os patriarcas e profetas. Todos os sacrifícios judaicos eram sombras que apontavam para sua realidade. Na plenitude dos tempos, ele nasceu em Belém, nasceu de mulher, nasceu sob a lei, para ser o nosso redentor. Seu nascimento foi um milagre, sua vida foi um portento, sua morte foi substitutiva, sua ressurreição foi poderosa. O Natal não é uma festa pagã. A figura central do Natal não é o Papai Noel, nem a mensagem central do Natal é o comércio. Natal não é o brilho pálido da terra, mas a luz fulgurante do céu. Natal não é troca de presentes nem banquetes requintados, mas a oferta da graça, o presente da salvação. Jesus é o milagre do Natal, o conteúdo do Natal, a razão da nossa celebração. Ele veio do céu para nos levar ao céu. Ele se fez homem para nos fazer filhos de Deus. Morreu para nos dar vida. Levou sobre si os nossos pecados para nos oferecer seu completo perdão.

 

 

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHO DE QUALQUER LUGAR

A pandemia do coronavírus mostrou que as empresas podem funcionar bem – ou até melhor – com seus empregados longe do escritório. Após a quarentena, não faz sentido tudo voltar ao que era antes. O escritório deixa de ser o endereço do trabalho e vira um hub de conexão de pessoas

Trabalho de qualquer lugar

O conceito de escritório corporativo começou a ganhar corpo há cerca de 200 anos, durante a Revolução Industrial, como uma extensão das fábricas. Era um lugar criado com o objetivo de reunir pessoas para lidar com a papelada da burocracia que envolvia questões fiscais e administrativas. Como se sabe, a burocracia não parou de crescer – e esses espaços físicos também. Não é exagero dizer que a expansão do escritório moldou a vida urbana dos últimos dois séculos. Os prédios de escritórios foram ocupando as áreas mais nobres das cidades, empurrando as fábricas para o interior e os trabalhadores para bairros distantes. Nesse processo, a natureza do trabalho também mudou. As tarefas ficaram mais complexas e os computadores permitiram reduzir o volume de papéis, mas a essência do escritório se manteve: um lugar onde os empregados se reúnem quase todos os dias no mesmo horário, e passam cerca de um terço da vida, para executar tarefas ao lado de colegas. Aí veio a pandemia do novo coronavírus. As empresas levaram um enorme susto, tiveram de instituir o trabalho à distância para boa parte de seus funcionários, e todos sofreram para se adaptar ao novo esquema. Muitas delas fecharam as portas porque as fábricas pararam de produzir e o comércio deixou de vender. Não há notícia, porém, de quebradeira de empresas pelo fato de ter seus funcionários trabalhando remotamente. Ao contrário, surgiram relatos de ganhos de produtividade e de outras vantagens do trabalho à distância. A covid-19 continua espalhando medo mundo afora, mas, gradualmente, a economia está reabrindo. A questão agora é: como ficam os escritórios? Com o fim da quarentena, as empresas vão voltar a fazer tudo como antes?

Não é o que parece. Depois de testar na marra o modelo de ”trabalho de qualquer lugar”, muitas empresas gostaram da experiência e pretendem acelerar uma tendência que, não fosse a pandemia, levaria anos para ganhar escala. Segundo uma pesquisa da consultoria Betânia Tanure Associados, entre as empresas que adotaram o home office por causa da quarentena, 85% pretendem continuar, em diferentes graus, com a política para os funcionários. Os dados mostram que o trabalho flexível veio para ficar. Algumas empresas já tinham adotado esse modelo antes mesmo da pandemia.

Em seu primeiro dia como presidente da administradora de planos de saúde coletivos Qualicorp, em novembro de 2019, Bruno Blatt abriu as portas de sua nova sala- e não as fechou mais. Seu escritório ficava no 150 andar de um prédio em São Paulo e, para ter acesso a ele, os funcionários precisavam agendar horário com duas secretárias e passar por portas protegidas por seguranças. Blatt removeu as barreiras e transformou a cobertura onde ficavam as salas de diretores em um espaço para inovação, acessível a todos. ”Minha sala passou a ser meu computador e meu celular”, diz Blatt. ”Acabei com a ‘diretorlândia’.” A informalidade e a flexibilidade foram estendidas aos 1.900 funcionários do grupo.

Blatt autorizou a compra de 650 notebooks, para implantar o home office, e investiu 145 milhões de reais para transformar o sistema de vendas físico usado pelos 35.000 corretores de seguros num sistema digital, na nuvem. Com o ganho de eficiência, devolveu sete dos 15 andares do prédio. Segundo Blatt, o trabalho flexível faz parte da mudança na cultura para deixar a empresa mais ágil e proporcionar mais qualidade de vida aos funcionários.

Uma das vantagens desse modelo é ampliar as possibilidades de contratação de talentos. Uma empresa de São Paulo pode buscar o profissional com o perfil mais adequado no interior da Bahia, na Índia ou na Noruega. A britânica Claranet, fornecedora de serviços de tecnologia, adotou o home office como uma possibilidade permanente no Brasil. ”Quebramos as fronteiras. Há projetos sendo desenvolvidos em conjunto por equipes no mundo inteiro”, diz Fábio Amigo, diretor-presidente da Claranet no país. ”Nas contratações, vamos buscar habilidades e o perfil de que precisamos. O lugar onde a pessoa mora é menos relevante.” A mesma política está sendo adotada pela empresa de tecnologia Stefanini, que tem 25.000 funcionários no mundo, dos quais 14.000 no Brasil e o restante espalhado por 40 países.

Antes da pandemia, apenas 120 ficavam em home office. Agora quase 7.000 funcionários trabalharão de casa, apenas no Brasil. ”Há universidades muito boas no interior do país, e os alunos não precisam se mudar para as capitais em busca de trabalho. Os funcionários podem morar em uma cidade menor, com mais qualidade de vida”, diz Rodrigo Pádua, vice-presidente global de gente e cultura do Grupo Stefanini. O plano da empresa é colocar 50% dos funcionários em home office.

Se o ambiente de trabalho pode ser mais flexível, outros aspectos também podem se tornar menos rígidos. ”O relógio de ponto perde totalmente o sentido. O importante é entregar o trabalho no prazo e com qualidade”, diz André Brik, especialista do Instituto Trabalho Portátil, uma consultoria em trabalho remoto. O publicitário Igor Rezende Ferreira, de 36 anos, é um exemplo dessa nova tendência. Há cinco anos, ele decidiu tirar um ano sabático e viajar pelo mundo. Gostou tanto da experiência que decidiu se tornar um nômade digital. ”Vi que não conseguiria voltar para o ambiente corporativo e parar de viajar.” Hoje ele é gerente de comunicação e marca de uma agência de viagens online com sede nos Estados Unidos. ”Não tenho despesas fixas, como casa e carro, e posso viver em países com menor custo de vida. No Vietnã, com o que ganho, consigo alugar até uma casa com piscina.” Ferreira costuma dar expediente em cafés e coworkings. ”Só preciso de notebook e internet.”

Para o americano Robert E. Siegel, professor de gestão na Universidade Stanford, a tendência ao trabalho flexível já existia e só foi intensificada pela pandemia. Segundo uma pesquisa global da consultoria Cognizant, a flexibilidade é capaz de trazer um aumento de até 13º/o na produtividade. Além disso, as companhias podem reduzir o custo por empregado em até 11.000 dólares ao ano. Apesar das vantagens, Siegel lembra a natureza social das pessoas e não acredita que a função agregadora do espaço de trabalho desaparecerá. Embora não seja mais essencial para o trabalho em si, o escritório deverá se moldar à demanda por conexão, tornando-se um centro que oferece uma experiência melhor para encontros com clientes, cultivo de cultura e colaboração entre pares. No dia a dia, ninguém vai lamentar a perda de cubículos impessoais, mas os profissionais vão sentir falta das conversas na hora do cafezinho. Para João Lucio de Azevedo Filho, presidente da Cognizant no Brasil, o escritório do futuro terá mais áreas para a confluência de pessoas e menos cantos individualizados. ”Nos anos 2000, diziam que as empresas de tijolo e cimento morreriam e que tudo seria feito na internet. Eu ainda gosto de ir ao shopping, mas compro online”, afirma Azevedo Filho. ”Nem tudo será remoto e nem tudo será presencial.”

A mudança de mentalidade das empresas em relação à organização do trabalho pode ter impacto também no mercado imobiliário. Uma pesquisa feita por uma das maiores empresas de arquitetura especializadas em projetos corporativos, a Athié Wohnrath, mostra que 51°/o das companhias consultadas pretendem reduzir o espaço do escritório. ”Vemos um potencial de liberação de área de 20% a 30 %. Em média, os funcionários que ficavam um dia e meio fora por semana passarão a ficar dois dias e meio. Ou seja, ficarão metade do tempo fora da empresa”, diz Ivo Wohnrath, um dos sócios do escritório. No curto prazo, o pós-quarentena deve exigir mais automação para minimizar pontos de contato e reduzir os riscos sanitários. Maior frequência de limpeza, medição de temperatura, sensor nos elevadores, ativação de catracas por QR Code e maior distância entre as estações de trabalho são algumas das medidas que poderão ser adotadas no fim da quarentena.

Algumas mudanças deverão ser mais permanentes. Nos últimos anos, o espaço privativo diminuiu e aumentaram os espaços compartilhados nos escritórios. No Vale do Silício, empresas de tecnologia, como Google e Facebook, buscaram atrair funcionários com escritórios divertidos e cheios de mimos. Piscinas de bolinhas, escorregadores e mesas de pingue-pongue tornaram-se comuns. O conceito de salas de descompressão está sendo deixado de lado, segundo o arquiteto Enrico Benedetti, sócio do Arealis, escritório de arquitetura especializado em ambientes corporativos. ”Se uma empresa precisa de um espaço de descompressão, é porque os funcionários estão ficando estressados”, diz Benedetti.

Hoje, de acordo com ele, o escritório está cada vez mais parecido com a casa – ambientes aconchegantes, com redes, sofás ou pufes, para trabalhar sozinho ou com colegas.

Esse tipo de escritório começou a ser popularizado nos últimos anos pelas startups. Um exemplo é a fintech de empréstimos digitais Geru. Em 2014, a empresa decidiu instalar seu escritório num local mais perto de onde seus colaboradores jovens trabalhavam, a região de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. A opção foi reformar um antigo teatro. As estações de trabalho foram montadas na área do palco, enquanto as áreas de descanso ocuparam a plateia superior. Do total de funcionários, 15% já trabalhavam de forma remota antes da pandemia, e o escritório servia apenas de ponto de encontro para reuniões. A ideia da Geru é ampliar o home office gradualmente e, quem sabe, chegar a 100% no futuro. ”Mesmo para quem ficava no escritório, sempre houve flexibilidade para trabalhar de casa eventualmente”, diz Sandro Reiss, presidente da Geru. ”Mas exigimos disciplina. Não importa se o funcionário está no escritório, em casa ou trabalhando em um coworking. Ele tem de formalizar processos por meio de nossas ferramentas, estar plugado na videoconferência e manter a comunicação.”

Continuará havendo, é claro, quem prefira escritórios mais tradicionais. O Banco Original inaugurou recentemente sua sede, um prédio de 24 andares envidraçado no Brooklin, na zona sul de São Paulo. A sede é um cartão de visita do banco, reflexo da imagem que deseja mostrar ao mercado: uma empresa digital e moderna. Na entrada, há um sistema de detecção de temperatura corporal e uma câmara de desinfecção para tornar a volta ao trabalho mais segura após a pandemia. O acesso dos funcionários é liberado por reconhecimento facial, que funciona até com pessoas que usam máscara. O escritório tem sofás, uma sala para cochilas e muito verde. O prédio foi pensado para acomodar o crescimento do banco digital. ”Em 2019, o Original quadruplicou o número de clientes e contratou 700 pessoas”, diz Luciano Almeida, diretor de marketing, experiência do cliente e CRM do banco. A empresa conta agora com 1.500 funcionários. Cerca de 70% terão a opção de trabalhar de casa até três dias por semana.

Outra empresa que está planejando seu novo cartão de visita é a corretora XP. Ela quer mudar a sede, localizada na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, para os arredores da capital paulista. Como pretende aumentar o número de trabalhadores remotos de 50% para 80%, construir uma sede maior parece um paradoxo. Mas a ideia é que a nova sede, batizada de Villa XP, seja um ponto de encontro de funcionários, clientes e fornecedores, além de um centro de treinamento e perpetuação da cultura da companhia. ”A ideia é ter escritórios pulverizados em diversas cidades, o que nos permitirá contratar funcionários em qualquer lugar do país”, diz Guilherme Sant’Anna, sócio responsável pela área de gente e gestão da corretora. Diferentemente do empreendimento que lhe serviu de inspiração – a sede da Apple, no Vale do Silício -, o novo endereço da XP será mais frugal, segundo Sant’Anna. Ainda assim, o projeto prevê um showroom com sala de cinema 4D, heliponto e um complexo esportivo com piscina, academia e quadras.

Qualquer que seja o endereço comercial que conste no cartão de visita, a tendência é que haja cada vez menos distinção entre casa e trabalho. ”No passado, vivíamos em um mundo de OU: ou escritório, ou casa; ou cidade, ou interior. O futuro é um mundo de E. As barreiras que existiam se dissolvem”, diz a futurista americana Elatia Abate (leia entrevista abaixo). Para especialistas, romper com o modo tradicional que mantinha a rotina abre caminho para soluções de problemas históricos no mercado de trabalho – e, por consequência, na sociedade – de inclusão e diversidade. ”Boa parte dos trabalhos não precisa de uma escala. Para pais e mães, isso significa poder passar mais tempo com os filhos, sem perder nas entregas”, diz Paula Crespi, cofundadora da startup Theia. ”Quando as empresas entenderem que a geografia não é uma barreira, vão passar a perceber que o horário também não é.” Trabalhar de qualquer lugar já é uma realidade. Romper com o expediente fixo parece o próximo passo para tornar a vida ainda mais flexível – e, idealmente, menos estressante.

 O TRABALHO REMOTO VEIO PARA FICAR

Uma pesquisa feita pela Betânia Tanure Associados mostra que 85% das empresas consultadas pretendem, após a quarentena, manter a política de home office para os empregados, em algum grau. Metade das entrevistadas acredita que isso não afeta a produtividade

Trabalho de qualquer lugar. 2

COMO SERÃO OS ESCRITÓRIOS QUANDO A QUARENTENA CHEGAR AO FIM

Metade das empresas pretende reduzir a área do escritório, de acordo com uma pesquisa da empresa de arquitetura Athié Wohnrath com sua base de clientes

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A EVOLUÇÃO DO ESCRITÓRIO

O conceito de escritório surgiu há cerca de 200 anos. De lá para cá, houve grandes mudanças nesse espaço de trabalho. Confira as principais fases

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A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉRBRO E ANSIEDADE – IV

Cérebro e ansiedade - IV

NO MUNDO DOS PEQUENOS

As crianças também podem ter crises de ansiedade. Entenda como são os sinais e os métodos para o tratamento dos quadros infantis

 

 

A correria do dia a dia, as obrigações no trabalho e os deveres dos estudos são alguns dos fatores que desencadeiam o transtorno de ansiedade. Contudo, engana-se quem pensa que esse quadro seja exclusivo ao universo dos adultos. Na verdade, as crianças também podem passar por isso.

Tudo dependerá de como é o processo de criação, a cultura que estão inseridas e, obviamente, as próprias características desenvolvidas ao longo da vida (ainda que curta). Por isso, é fundamental que os pais e os responsáveis permaneçam atentos aos sinais claros (e outros nem tanto) apresentados pelos pequenos – até mesmo em atitudes rotineiras.

 

DE ONDE VEM?

Diferentemente da maioria dos adultos, as crianças possuem uma dificuldade maior na hora de expressar as emoções. Boa parte disso é fruto do contexto em que elas convivem diariamente. “É muito comum que elas evitem falar como se sentem, pois, na maioria das vezes, não se aprende a nomear o que sentimos nos ambientes compartilhados, seja escola, família, clubes ou momentos recreativos. Sendo assim, tornou-se culturalmente natural ocultar os sentimentos e as preocupações, sejam de adultos ou crianças”, esclarece a psicóloga Fernanda Medeiros.

Dessa maneira, são diversas as causas possíveis para uma crise ou, até mesmo para um quadro mais grave de ansiedade. “Algumas mudanças, tais como separação dos pais, morte de alguém próximo, nascimento de um irmão, abuso emocional e/ou sexual, mudança de cidade e/ou escola e bullying, costumam ter um impacto maior na saúde emocional dos pequenos, o que pode favorecer o surgimento do transtorno”, alerta a professora de psicologia Adna Rabelo.

 

POR DENTRO DOS SINAIS

A atenção às reações das crianças é essencial para a identificação do quadro. Segundo Fernanda, alguns dos principais sinais são “excessiva preocupação na maioria dos dias da semana, problemas para dormir à noite, enurese (fazer xixi na cama), inquietação ou fadiga excessiva, irritabilidade frequente, dificuldades de manter a atenção, principalmente para tarefas de rotina e escolares; e complicações na socialização”.

Todo esse processo de diagnóstico também gira em torno de demonstrar interesse na rotina delas, questioná-las, observá-las e oferece-las uma abertura maior para diálogos, ou seja, proporcionar um ambiente favorável para que se sintam confortáveis. Com isso, a chance de se evitar os sentimentos reprimidos aumenta, já que as crianças irão notar que se trata de um apoio e não de uma ameaça.

O CAMINHO PARA O CONTROLE

Os pais e responsáveis, após notarem alguns sinais ligados à ansiedade, devem buscar ajuda profissional para um tratamento mais eficaz, já que este é realizado de maneira diferente aos dos adultos. “A terapia com um psicólogo aparece, portanto, como uma maneira mais incisiva nos casos dos transtornos de ansiedade infantil. Por meio desse método, a criança pode experimentar novas maneiras de pensar e agir em situações que lhe causam ansiedade”, explica a psicóloga Fernanda Medeiros. Em alguns casos, atividades e ferramentas lúdicas são utilizadas como forma de aproximar o especialista do paciente. Já nos quadros mais graves, também é válida a prescrição de medicamentos que ajudam a controlar a ansiedade.

OUTROS OLHARES

SORRISO (MAIS QUE) PERFEITO

A busca por dentes cada vez mais brancos é a nova moda nos consultórios odontológicos. Diferente do clareamento, técnica que já tornou-se popular entre os brasileiros, o branqueamento é caro e irreversível

Sorriso (mais que) perfeito

É só ligar a televisão para perceber o padrão: sorrisos tão brancos que causam até estranheza. A completa reconstrução dos dentes por meio de técnicas com porcelana é a nova febre nos consultórios odontológicos. Diferente do simples clareamento, que reverte o amarelado causado pelo tempo, alimentos ou cigarro, o branqueamento busca uma imagem idealizada — uma tonalidade branca que o corpo humano sequer é capaz de produzir naturalmente.

Segundo o dentista Rodrigo Ribeiro, responsável pela higiene bucal de diversas celebridades, há duas maneiras de se fazer o branqueamento: por meio de lentes de contato, mais superficiais e modernas, ou com facetas dentárias, que mexem de forma mais profunda na estrutura do dente. “A procura pelo sorriso perfeito anda absurda. É a maior moda no consultório hoje. As pessoas chegam com dúvidas, mas com a mesma certeza: querem dentes branquíssimos”, diz Rodrigo, do Instituto Cores do Sorriso e da Face.

Sorriso (mais que) perfeito. 2

ESCULPIDOS

Qual tratamento é o mais efetivo? A faceta é um método em que se encapa somente a parte da frente do dente, com maior desgaste e riscos de sensibilidade. Já a lente de contato dental consiste em uma película de porcelana muito fina. Essa é a técnica mais moderna atualmente — sem um limite para a tonalidade branca. Também é possível “misturar” tratamentos, como o clareamento clássico feito em gel em alguns dentes e lentes de contato em outros. Tudo dependerá do histórico e da estrutura da arcada dentária do paciente. Uma vez colocadas, tanto as lentes como as facetas, elas não podem ser simplesmente removidas, pois o dente natural perde seu esmalte no processo.

Segundo Rodrigo, a preocupação deve ser, acima de tudo, com o material utilizado pelo dentista — e é justamente isso que encarece o tratamento. A cobertura pode ser feita com resina ou porcelana: a resina, apesar de mais barata, é porosa e escurece com o tempo; a porcelana de qualidade não deforma, não escurece e não corre riscos de infiltração. O preço? As desejadas lentes podem chegar até R$ 3 mil cada. O custo final, se forem aplicadas em vinte dentes, pode passar dos R$ 60 mil — um valor que acaba com qualquer sorriso.

EU ACHO …

UM CENSO AFETIVO

Durante toda a minha infância o alarme de segurança do condomínio em que morávamos tocava uma vez por ano, para anunciar a chegada do Papai Noel. Ele aparecia num carro conversível no anoitecer do dia 24, estacionava junto ao gramado entre as casas e distribuía presentes para nós, as crianças com roupa de festa e o cabelo molhado de banho. Era uma cena cativante, a das crianças correndo de encontro ao bom velhinho num condomínio cercado de verde no Alto da Boa Vista, ele tirando os pacotes coloridos de um saco imenso, as embalagens sendo rasgadas para revelar um quebra-cabeça, boneca, trator.

O alarme era pra mim o início oficial da celebração, que prosseguiria com a sala cheia de presentes, as luzes acesas no pinheirinho, os primos correndo na varanda, os adultos expressando a felicidade cumulativa e seis horas ininterruptas ouvindo o LP natalino. “A harpa e a cristandade, do paraguaio Lu8is Bordon. O Natal era a nossa utopia, o único do dia perfeito do ano. Mesmo as brigas e implicâncias (tão comuns nas famílias quanto os vídeos cantando parabéns) se esvaziavam no dia 24 fazendo com que os sorrisos congelados nas fotos pesadas fossem também sinceros.

Com o tempo, eu descobri não só que Papai Noel não existia, como que o impostor do meu condomínio era um vizinho meio bêbado, num bugre emprestado, barba de algodão de farmácia, barriga de almofada e roupa de cetim barato das Casas Turuna. Restava-me pelo menos a segunda parte do Natal, e com o tempo eu descobri que era muito mais significativa, espécie de censo afetivo que fazíamos todos os anos. Bebês, cunhados e agregados surgiam, tios avós e bisavós partiam. A vida era imprevisível, e, no entanto, nós tentávamos controla-la e compreendê-la procedendo todos os anos com os mesmos rituais, os mesmos guardanapos engordurados pelos bolinhos, as mesmas frutas cristalizadas que ninguém comia, aquela insuportável harpa paraguaia na vitrola, as melhores roupas, atitudes e sorrisos, e sempre o mesmo monumento culinário que é o peru de Natal.   

Não estou me referindo ao peru de anuncio de Tv, no qual uma mulher maquiada coloca o bicho no forno, dá meia volta, o termômetro desponta, ela pega a baixela e é ovacionada na mesa. O peru a que me refiro é um empreendimento que começa na compra, passa por um tempero de 24 horas com uns 20 ingredientes, e termina no destrinchar. Peru de Natal de respeito tem receita mais complicada que manual de videocassete, e acho que é por isso que só é feito uma vez por ano. Para a cozinheira esquecer que foi trabalhoso ansiar pelo censo afetivo e cair na besteira de fazer de novo.

Este ano meu Natal não terá um peru monumento. Vai ter só um peito que pretendo cobrir com bacon para ficar mais interessante. Nossa ceia será singela, um símbolo desse Natal dividido, esvaziado e cheio de saudades. Ceia que está mais para um vizinho de roupa vermelha em cima de um bugre do que para um Papai Noel nórdico num trenó com renas. Mas deve ter lá alguma magia (além de bacon, que sempre ajuda), que vai servir para perpetuar a tradição até o ano que vem.

***MARTHA BATALHA

OUTROS OLHARES

NASCIDOS DESIGUAIS

Por que melhorar agora a saúde dos recém-nascidos é mais importante do que jamais foi

Uma razão para esse número alarmante é que afro-americanos têm taxas mais altas de diabetes, hipertensão e asma, doenças ligadas aos piores desfechos após a infecção por coronavírus. Décadas de pesquisa mostram que esses problemas de saúde, em geral diagnosticados na idade adulta, podem refletir dificuldades enfrentadas ainda no útero. Crianças não nascem em igualdade de condições. Fatores de risco relacionados à pobreza materna, como desnutrição, fumo, estresse ou falta de cuidados durante a gravidez, podem predispor os bebês a doenças futuras. E as mães de comunidades minoritárias tinham e têm maior probabilidade de estarem sujeitas a esses riscos.

Os afro-americanos idosos, que são os mais ameaçados pela Covid-19, têm mais chances de terem nascido na pobreza. Em 1959, 55% dos negros nos EUA tinham renda abaixo da linha de pobreza, ante menos de 10% dos brancos. Hoje, 20% dos americanos negros vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto a taxa de pobreza entre os brancos segue quase igual. Apesar da redução na desigualdade de renda, o racismo atua por rotas tortuosas para piorar as chances das crianças das minorias. Por exemplo, por causa das práticas pelas quais as instituições financeiras e outras instituições dificultam a compra de residências por negros em áreas predominantemente brancas, mesmo os afro-americanos em melhor situação têm mais chances de viver em áreas poluídas do que os brancos mais pobres, com um impacto correspondente na saúde do feto. É preocupante que os menos favorecidos desde o útero tenham probabilidade maior de ganhar menos e ter conquistas educacionais menores e, desta forma, os efeitos da pobreza e da discriminação podem perdurar por gerações.

Pesquisadores agora possuem evidências concretas deque programas específicos podem melhorar a saúde e reduzir a desigualdade. Expansões do seguro de saúde pública oferecido às mulheres, bebês e crianças no âmbito do Medicaid e do Programa de Seguro-Saúde das Crianças já tiveram um efeito tremendo, melhorando a saúde e o bem-estar de uma geração, com maior impacto entre crianças afro-americanas. E intervenções após o nascimento podem, com frequência, reverter boa parte dos danos sofridos no pré-natal. Junto com outros pesquisadores, mostrei que programas de nutrição para grávidas, bebês e crianças; visitas domiciliares por enfermeiras durante a gravidez e após o parto; cuidados de alta qualidade com as crianças; e suporte à renda podem melhorar os resultados para crianças menos favorecidas. Essas intervenções chegaram muito tarde para ajudar os nascidos nos anos 1950 ou antes, mas reduziram as diferenças de saúde entre crianças pobres e ricas, assim como entre crianças brancas e negras, nas décadas posteriores.

Mas persistem as enormes disparidades em saúde e vulnerabilidades, levantando questões sobre o futuro das crianças nascidas durante essa pandemia das mães mais pobres. É alarmante que, pouco antes de a pandemia eclodir, muitos dos programas mais essenciais estavam sendo cortados. Desde o começo de 2018, mais de um milhão de crianças perderam a cobertura do Medicaid por causa de novas exigências de trabalho e outras regulações e muitas ficaram sem seguro. Agora que o número de mortes da Covid-19 expôs as desigualdades gritantes em situações de saúde e seus riscos inerentes, os americanos precisam agir para reverter esses retrocessos e fortalecer os sistemas de saúde pública e a rede de seguridade social com especial atenção para os cuidados com as mães, os bebês e as crianças.

O INVERNO DA FOME

Décadas de observação e análises revelaram as muitas formas pelas quais o ambiente fetal afeta a saúde e as perspectivas futuras de uma criança, mas muitas continuam misteriosas. Seria antiético realizar experimentos para medir o impacto sobre um feto da desnutrição ou da poluição, por exemplo. Mas podemos buscar os chamados experimentos naturais – eventos que causam variações nesses fatores de forma a simular o experimento de fato. O epidemiologista David Barker afirmou nos anos 1980 que a desnutrição durante a gravidez poderia “programar” bebês no útero a desenvolverem problemas futuros como obesidade, doenças cardíacas e diabetes. As evidências iniciais para essas ideias vieram de estudos do “Inverno da Fome” na Holanda. Em outubro de 1944, os invasores nazistas cortaram os suprimentos de alimentos para a Holanda e, em abril de 1945, a fome grassava. Décadas mais tarde, registros militares, médicos e de emprego mostraram que os homens adultos cujas mães foram expostas à fome durante a gravidez tinham o dobro de chances de serem obesos na comparação com os outros homens, e probabilidade maior de sofrerem de esquizofrenia, diabetes ou doença cardíaca. Os nascidos na Holanda, durante a grande fome são parte de um grupo que pôde ser acompanhado ao longo do tempo por uma variedade de registros. Hoje, muitos pesquisadores, incluindo eu, buscam experimentos naturais para delinear esses grupos e assim destrinchar os impactos de longo prazo de experiências prejudiciais sofridas ainda no útero.

Também dependemos muito da medida de saúde do recém-nascido mais usada: o peso ao nascer. Um bebê nascer com peso “baixo”; definido como menos de 2.500 gramas, ou “muito baixo” menos de 1.500 gramas. Quanto mais baixo, maior o risco de óbito infantil. Fizemos enormes progressos para salvar bebês prematuros, mas crianças com baixo peso ao nascer ainda apresentam risco muito maior de complicações como hemorragia cerebral e problemas respiratórios que podem levar a deficiências de longo prazo.

Nos últimos anos, análises de computador de registros eletrônicos em larga escala tornou possível conectar a saúde infantil, medida pelo peso ao nascer, a ocorrências de longo prazo não só para grupos, mas também para indivíduos. Estudos com gêmeos ou irmãos que têm herança genética e social semelhantes, mostram que aqueles com peso mais baixo no nascimento são os que têm maior probabilidade de sofrerem de asma ou ‘Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) quando ficam mais velhos.

Vários estudos também mostraram que gêmeos ou irmãos com peso mais baixo ao nascer têm pontuação piorem testes. Quando adultos, terão maior probabilidade de receberem salários mais baixos, residirem em área de renda mais baixa ou precisarem de programas de auxílio a pessoas com deficiência. Em conjunto, estudos de grupos e irmãos demonstram que baixo peso ao nascer é prognóstico de diversos desfechos adversos de saúde mais tarde, incluindo maior probabilidade de asma, doença cardíaca, diabetes, obesidade e alguns problemas de saúde mental.

O peso ao nascer não captura todos os aspectos da saúde: um feto ganha a maior parte de seu peso no terceiro trimestre, por exemplo, mas muitos estudos mostraram que choques no primeiro trimestre são particularmente prejudiciais. De qualquer forma, eu uso a medida em meus estudos porque é importante e comumente disponível, tendo sido registrado para dezenas de milhões de bebês por décadas.

É significativo que o peso baixo ao nascer seja muito mais comum em bebês de mães pobres e de minorias. Em 2016, 13,5% das mães afro-americanas tiveram bebês com baixo peso, ante 7% das brancas não hispânicas e 7,3% das mães hispânicas. Entre aquelas com curso superior, 9,6% das mães negras tiveram bebês com baixo peso ao nascer, ante 3,7% das mães brancas não hispânicas. Essas desigualdades na saúde ao nascer refletem grandes diferenças na exposição a diversos fatores que afetam a saúde do feto.

A CONEXÃO POBREZA

Como dissemos, a qualidade da nutrição da mãe influencia substancialmente a saúde dos bebês. Em 1962, o geneticista James V. Noel levantou a hipótese de que um chamado gene parcimonioso teria programado os ancestrais coletores-caçadores da humanidade para reter toda caloria que pudessem conseguir e que, nos tempos modernos, essa tendência, combinada com uma abundância de alimentos altamente calóricos, levaram à obesidade e ao diabetes. Mas estudos recentes com cobaias indicam que a ligação entre fome e doença não é de origem genética e sim epigenética, alterando o modo como determinados genes são “expressados” como proteínas. A privação prolongada de calorias em uma ratazana grávida, por exemplo, desencadeia mudanças na expressão dos genes em sua cria que a predispõem ao diabetes. Além disso, o efeito pode ser transmitido por gerações.

A total inanição é agora rara em países desenvolvidos, mas mães mais pobres nos EUA com frequência não têm uma dieta rica em frutas e verduras, que contêm micronutrientes essenciais. Deficiências na ingestão de ácido fólico durante a gravidez estão relacionadas com defeitos no tubo neural das crianças, por exemplo.

Hoje uma das principais causas de baixo peso ao nascer nos EUA é o fumo durante a gravidez. Nos anos 1950, as grávidas ouviam que o fumo não gerava risco para o bebê. Cerca de 50% de todas as novas mães em 1960 disseram que fumaram na gravidez. Hoje, apenas 7,2% das grávidas se declaram fumantes. E 55%das mulheres que fumaram nos três meses antes de ficarem grávidas abandonaram o cigarro pelo menos durante a gravidez.

Mães com níveis mais altos de educação têm menos chances de fumarem, possivelmente porque na faculdade o fumo é desaconselhado. E 11, 7% das mães que não completaram o ensino médio fumam, ante 1% das mães com bacharelado.

Entre os muitos produtos químicos prejudiciais na fumaça dos cigarros está o monóxido de carbono (CO), que restringe o volume de oxigênio transportado pelo sangue para o feto. Além disso, a nicotina afeta o desenvolvimento dos vasos sanguíneos no útero e prejudica o desenvolvimento de sistemas neurotransmissores, levando a desfechos psicológicos piores. Fumar durante a gravidez também tem sido associado com mudanças epigenéticas no feto. A recente disparada no uso de cigarro eletrônico, que propicia altas doses de nicotina e que, segundo pesquisas, foi experimentado por quase 40% dos alunos mais velhos no ensino secundário, é um desenvolvimento preocupante que pode ter implicações de longo prazo para a saúde do feto e da criança.

Outra fonte significativa de dano aos fetos é a poluição. As grávidas podem ser expostas a milhares de produtos tóxicos no ar, na água, no solo e em produtos variados em casa e no trabalho. E cada poluente atua de uma maneira diferente. Acredita-se que partículas na atmosfera sejam a causa de inflamação em todas as partes do corpo, o que tem sido relacionado com parto prematuro e, por isso, baixo peso ao nascer. O chumbo, ingerido através da água ou do ar, cruza a placenta para se acumular no feto e afeta o desenvolvimento do cérebro. Em 2005. Jessica Wolpaw Reyes, do Amherst College, mostrou que a substituição do chumbo na gasolina nos EUA levou a uma redução de até 4% na mortalidade infantil e do baixo peso no nascimento.

O feto também pode receber menos oxigênio se a mãe inalar CO do escapamento de veículos. Em um estudo de 2009 com mães que vivem perto de monitores de poluição, meus colegas e eu descobrimos que altos níveis de CO no ambiente se relacionavam ao peso reduzido ao nascer. É preocupante que os efeitos do CO da poluição do ar sejam cinco vezes mais altos para fumantes do que para não fumantes.

Reduzir a poluição pode ter benefícios imediatos para grávidas e recém-nascidos. Em um estudo de 2011, Reed Walker, da Universidade da Califórnia, e eu focamos em mães que viviam perto de praças de pedágio do sistema eletrônico de pagamento E-ZPass antes e depois do início de suas operações. Nós as comparamos com mães que viviam um pouco mais longe das praças de pedágio, mas ao longo das mesmas estradas movimentadas. Os dois grupos de mães eram expostas ao tráfego, mas antes do E-ZPass, as mães próximas das praças eram expostas a mais poluição porque os carros rodavam sem rumo enquanto aguardavam para pagar o pedágio. O E-ZPass reduziu significativamente a poluição no entorno das praças de pedágio, permitindo que os carros passassem direto. De forma surpreendente, a implantação do E-ZPass reduziu a incidência de peso baixo ao nascer em mais de 10% nos bairros mais próximos das praças.

Em outro estudo, examinamos registros de nascimento de 11 milhões de recém-nascidos em cinco estados. Descobrimos que 45% das mães viviam a cerca de 1,5 km de um local que emitia produtos químicos tóxicos, como metais pesados ou carcinógenos orgânicos, e o número chegava a 61% entre mães afro-americanas. Focando bebês de mães que viviam a 1,5 km de uma fábrica, comparamos os pesos ao nascer quando a unidade estava operando e quando estava fechada. Também comparamos bebês nascidos na faixa de 1,5 km da unidade com bebês nascidos entre 1,5 km e 3 km em torno da indústria A probabilidade dos dois grupos de mães serem afetadas pela situação econômica com a abertura e o fechamento da fábrica era similar, mas as mães que viviam mais perto tinham mais chances de terem sido expostas à poluição durante a gravidez. Descobrimos que uma fábrica em operação aumentou em 3% a probabilidade de baixo peso no nascimento entre bebês cujas mães viviam a menos de 1,5 km.

A divisão racial na exposição à poluição é profunda, em parte por causa da contínua segregação habitacional que dificulta a mudança de famílias negras para fora de bairros historicamente negros. Comunidades menos favorecidas também podem não ter poder político para evitar empreendimentos prejudiciais, como uma unidade de produtos químicos em sua região. No estudo do E-ZPass, cerca de metade das mães que viviam perto das praças de pedágio eram hispânicas ou afro-americanas, comparadas com apenas 10% das mães que viviam a mais de 9,7 km do local. E, em um estudo publicado este ano, John Voorheis, do Birô de Recenseamento dos EUA, Walker e eu mostramos que, em todo os EUA, os bairros com maior número de moradores afro-americanos apresentam sistematicamente qualidade de ar pior do que em outros bairros. Os afro-americanos também têm o dobro da probabilidade dos demais de viverem perto de aterros de lixo tóxico. Por essas razões, as medidas de controle da poluição como a Lei do Ar Limpo têm beneficiado em grande medida os afro-americanos.

LUTAR OU FUGIR

O estresse prejudica desproporcionalmente o pobre – que têm preocupações crônicas com o pagamento de contas, por exemplo – e também abala o feto. Uma situação estressante desencadeia a liberação de hormônios que comandam uma série de mudanças físicas associadas com uma resposta do tipo lutar ou fugir. Alguns desses hormônios, incluindo cortisol, têm sido ligados a partos prematuros, que, por sua vez, levam a baixo peso ao nascer. Níveis altos de cortisol em circulação na mãe durante a gravidez podem prejudicar o sistema de regulação de cortisol do feto, tornando-o mais vulnerável ao estresse. E o estresse pode desencadear respostas comportamentais na mãe, como aumento no consumo de cigarros e bebidas, o que também prejudica o feto.

Um estudo revelador indica que a exposição do feto ao estresse maternal pode ter efeitos negativos de longo prazo maiores sobre a saúde mental do que o estresse diretamente sofrido por uma criança. Petra Persson e Maya Rossin-Slater examinaram o impacto da morte de um parente próximo. A morte pode provocar muitas mudanças indesejáveis em uma família, como redução na renda, o que também pode influenciar o desenvolvimento de uma criança. Para contabilizar essas complicações, as pesquisadoras usaram dados administrativos da Suécia para comparar crianças cujas mães foram afetadas por uma morte durante o período pré-natal com filhos de mães afetadas por uma morte durante os primeiros anos da criança. Elas descobriram que as crianças afetadas por uma morte no período pré-natal tinham 23% a mais de chances de usarem medicação para TDAH com idades entre nove e 11 anos e 9% mais chances de usarem antidepressivos na vida adulta do que as crianças cujas famílias passaram por uma morte poucos anos após seu nascimento.

Outro estudo inovador mediu os níveis de cortisol, um indicador de estresse durante a gravidez. Aos sete anos, as crianças cujas mães tiverem níveis mais altos de cortisol durante a gravidez tinham cursado até um ano a menos que seus próprios irmãos, indicando que o início dos estudos delas havia sido retardado. Além disso, para qualquer nível de cortisol no sangue da mãe, os efeitos negativos eram mais pronunciados para os filhos de mães menos escolarizadas. Essa descoberta sugere que, embora o estresse durante a gravidez seja prejudicial para o feto, as mães mais instruídas sã mais capazes de atenuar os efeitos sobre seus filhos – uma descoberta importante diante do estresse severo imposto pela COVID-19 para as famílias de hoje.

Não é surpresa que doenças também possam afetar o feto. Douglas V. Almond, da Universidade Columbia, estudo pessoas nascidas no pico da epidemia de influenza de 1991 e descobriu que elas tinham 1,5 vez mais chances de serem adultos pobres do que as nascidas pouco antes. Em um trabalho que eu fiz com Almond e Mariesa Herrmann examinando mães nascidas entre 1960 e 1990 nos EUA, descobrimos que mulheres nascidas em áreas onde ocorria uma doença contagiosa apresentaram probabilidade maior de terem diabetes ao darem à luz décadas depois – e os efeitos eram duas vezes maiores para as afro-americanas. Mais recentemente, Haunse Schwandt, da Universidade Northwestern, examinou dados dinamarqueses e constatou que a infecção materna com a gripe sazonal comum no terceiro trimestre dobra a taxa de parto prematuro e baixo peso ao nascer, e a infecção no segundo trimestre leva a uma redução de 9% na renda e a um aumento de 35% na dependência da seguridade social quando a criança se torna adulta.

EVITANDO DANOS

Porém, a saúde ao nascer e depois pode ser melhorada com intervenções cuidadosas direcionadas para as grávidas, bebês e crianças, e pela redução da poluição. A rede de segurança alimentar nos EUA obteve um grande sucesso em evitar o peso baixo ao nascer em bebês de mulheres carentes. A implantação do programa de cupons de alimentos, agora chamado Programa de Assistência à Nutrição Suplementar (Snap, na sigla em inglês), em meados dos anos 1970 reduziu a incidência de baixo peso no nascimento entre 5% e 11%. Além disso, as crianças beneficiadas pelo programa cresceram com menos chances de sofrerem de síndrome metabólica, um grupo de problemas que inclui obesidade e diabetes.

Nos anos 1970 também foi introduzido o Programa de Nutrição Suplementar Especial para Mulheres, Bebês e Crianças, conhecido como WIC. Cerca de 50% das grávidas receberam alimentos nutritivos do WIC, orientação sobre nutrição e maior acesso aos cuidados médicos. Dezenas de estudos mostraram que, quando as mulheres participam do WI.C durante a gravidez, seus bebês têm menos chances de pesarem pouco ao nascer. Em recente trabalho, Alma Chorniy, Lyudmyla Sonchak e eu pudemos demonstrar que crianças cujas mães recebem WIC durante a gravidez têm menos chances de sofrerem de TDAH e outros problemas de saúde mental comumente diagnosticados na primeira infância.

No fim dos anos 1980 e início dos 1990, os governos estaduais e federal trabalharam juntos para expandir o seguro-saúde público para grávidas dentro cio programa Medicaid. Jonathan Cruber e eu demonstramos que o seguro-saúde reduziu a mortalidade infantil e melhorou o peso ao nascer. Hoje, as crianças cujas mães se qualificaram para a cobertura do seguro-saúde à gravidez naquele período têm níveis mais altos de frequência em faculdades, emprego e renda do que as crianças de mães não atendidas pelo programa. Elas também apresentam taxas mais baixas de doenças crônicas e têm menos chances de terem sido hospitalizadas. Os efeitos estimados são mais poderosos para as afro-americanas, que, tendo renda média menor, se beneficiaram mais da expansão. O fato de que esses bebês apresentam mais chances de terem cursado faculdade aumentará as chances de vida de seus filhos. Nos EUA, um ano adicional de ensino superior da mãe reduz a incidência de baixo peso ao nascer nos filhos em 10%. Mesmo assim, muitas crianças ainda nascem com baixo peso, em especial se a mãe é negra. Mas, intervenções que ocorrem depois do nascimento podem melhorar seus resultados. Programas como a Parceria Enfermeira-Família incluem visitas em casa de enfermeiras a mulheres de baixa renda que estejam grávidas pela primeira vez, muitas das quais são jovens e solteiras. A enfermeira visita a residência todo mês ao longo da gravidez, e durante os dois primeiros anos de vida do bebê, para dar orientação sobre comportamento saudável. Essa assistência reduz o abuso infantil e o crime adolescente e melhora as conquistas acadêmicas da criança.

A ajuda financeira às famílias pobres com crianças pequenas também melhora a saúde materna, e os prognósticos da criança, sugerindo que o auxílio pago durante a Covid-19 também terá importantes efeitos protetores. Nos EUA, o maior programa em atividade desse tipo é o Crédito para o Imposto de Renda (EITC, na sigla em inglês). Estudos dos beneficiários do EITC mostraram que crianças em famílias que receberam o benefício tiveram resultados melhores nos testes escolares. Com o estresse financeiro sendo aliviado de alguma forma, a saúde mental das mães nessas famílias também melhorou. Ademais, programas de educação de qualidade para a primeira infância aumentam a saúde, a educação e a renda e reduzem o crime no futuro. Head Start, o programa de pré-escola financiado pelo governo federal implantado nos anos 1960, teve efeitos positivos substanciais nos resultados em saúde e educação, sobretudo em locais com menos acesso aos centros de cuidados infantis.

OLHANDO ADIANTE

Investimentos em grávidas e crianças têm dado retorno, com reflexo na queda acentuada das taxas de mortalidade infantil nos EUA apesar do aumento da desigualdade de renda e saúde. Mas é alarmante que muitos programas de sucesso, como Lei do Ar Limpo, o SNAP e o Medicaid, estejam sob ataque. A legislação Cares (sigla para “Coronavírus Aid, Relief e Economic Security”) aprovada em março ofereceu algum alívio, pelo menos em relação ao Medicaid. O Cares suspendeu temporariamente o desligamento do programa, dando flexibilidade adicional a programas estaduais de Medicaid em termos de prazos e elegibilidade de procedimentos. Mas os estados podem sofrer dificuldades ao incluírem os muitos que se tornarão elegíveis ao Medicaid por causa de perda de emprego. Além disso, estados que não expandiram o programa Medicaid para cobrir adultos de baixa renda inelegíveis, como prevê a Lei de Cuidados de Saúde Acessíveis, podem ver muito mais pessoas sem seguro-saúde. Um relatório das Academias de Ciência, Engenharia e Medicina publicado no ano passado delineou um roteiro para reduzir a pobreza infantil à metade em dez anos. Uma das descobertas mais impressionantes do estudo é que é viável atingir essa meta com a expansão de programas já existentes.

Diagnosticar e tratar condições como pré-eclâmpsia (pressão alta associada à gravidez) é essencial para proteger os bebês e reduzir a mortalidade das mães. É importante ajudar a grávida a parar de fumar e desenvolver novos métodos para uma nova geração viciada em cigarro eletrônico. Também é preciso adotar proteções mais fortes para mulheres em risco de violência doméstica, que leva diretamente a estresse crônico, parto prematuro e baixo peso no nascimento.

Uma questão em aberto importante é qual efeito a pandemia terá sobre a geração de crianças afetadas por ela no útero e início da vida. A Covid-19 em si pode ter efeitos negativos para o desenvolvimento do feto, embora a melhor informação disponível até agora sugira que as grávidas não são especialmente passíveis de se tornaram criticamente doentes e que os bebês afetados não estão apresentando defeitos óbvios ao nascer. Mesmo assim, considerando-se o fato de que a Covid-19 afeta muitos sistemas do corpo, ela pode revelar efeitos negativos sutis no desenvolvimento do feto. A pandemia também é um evento muito estressante acompanhado pela pior recessão desde a Grande Depressão. Há relatos de aumento na violência doméstica, consumo de álcool e overdoses de drogas, todos prejudiciais ao desenvolvimento do feto. Em consequência, a geração agora no útero provavelmente estará em maior risco e vai necessitar de investimentos sociais para superar seu início mais pobre na vida.

Em um recente sermão sobre o falecido líder dos direitos civis John Robert Lewis, o reverendo James Lawson relembrou os ganhos que esse movimento trouxe a americanos de todas as cores. Ele pediu que os líderes políticos da América “trabalhem em favor de cada garoto e de cada garota, para que cada bebê nascido nessas plagas tenha acesso à arvore da vida… para que todas as pessoas dos EUA determinem que não sossegaremos enquanto uma criança morrer no primeiro ano de vida. Não ficaremos quietos enquanto o maior grupo na pobreza em nossa nação seja o de mulheres e crianças”. À medida que reconstruímos nossas despedaçadas redes de seguridade e sistemas de saúde pública após a Covid-19, precisamos aproveitar o momento para usar o conhecimento que ganhamos acerca de como proteger mães e bebês – para dar a cada criança a oportunidade de florescer.

ASMA, POLUIÇÃO E SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL

As taxas de asma entre os negros eram duas vezes mais altas do que as de outras pessoas nos EUA em 2010. Parte dessa disparidade vem do baixo peso ao nascer, que está ligado à asma e é mais comum entre crianças negras. Esses gráficos ilustram o impacto da poluição e da segregação racial nas taxas de asma. Eles comparam crianças de Nova Jersey em bairros onde mais de 25% das crianças são negras com crianças de todos os demais bairros. A comparação dos painéis à esquerda e à direita mostra que o baixo peso ao nascer tem um efeito maior sobre as taxas de asma entre crianças de todas as raças nos bairros onde a maioria das crianças negras vive. Assim, a segregação residencial, que resulta em maior probabilidade de as crianças negras viverem em locais mais poluídos, se soma aos efeitos negativos do baixo peso ao nascer.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE DEZEMBRO

EMBRIAGUEZ, VERGONHA PARA A FAMÍLIA

E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução… (Efésios 5.18a).

Estou farto de ver homens tombados nas sarjetas, vencidos pelo álcool. Estou cansado de ver mulheres sofridas, carentes e humilhadas indo a antros do vício buscar seu cônjuge trôpego e coberto de vômito para levá-lo para casa. Estou triste de ver filhos chorando por pais que se arrastam na lama por causa desse vício maldito, e de ver pais sofrendo por causa de filhos prisioneiros da dependência química. O álcool é o maior ladrão de cérebros do mundo, o maior causador de acidentes, crimes passionais, separações dolorosas e famílias destruídas. Aqueles que agem sob sua influência lotam as cadeias e suas vítimas povoam os cemitérios. A Bíblia fala de Nabal, um homem rico, porém insensato (1Samuel 25.1-38). Entregue à embriaguez, fazia festa de rei sem ser rei. Movido pelo álcool, tornou-se duro no trato e incomunicável. Embalado pela avareza, tornou-se mesquinho. Sua embriaguez roubou-lhe a lucidez e custou-lhe a vida. Há muitos lares ainda hoje machucados e feridos pelos efeitos nocivos do álcool. Há muitos casamentos destruídos por causa da embriaguez. Há muitos filhos revoltados e cheios de vergonha por verem seus pais prisioneiros desse vício degradante. Há muitos jovens cativos do álcool, encurtando seus dias e lançando sua alma num abismo de dor e angústia. Em vez de sermos cheios de álcool, devemos ser cheios do Espírito. A embriaguez produz dissolução e morte, mas a plenitude do Espírito produz comunhão, adoração e gratidão.

GESTÃO E CARREIRA

VENCEDORAS DA PANDEMIA

Que crise? Para as empresas do setor tecnológico, a pandemia só aumentou a demanda por serviços digitais — uma tendência antecipada que veio para ficar

A ideia surgiu ainda em 2003, quando dois engenheiros de software da Amazon tiveram uma sacada genial. Eles propuseram que o gigante do varejo online usasse sua vasta infraestrutura tecnológica para hospedar os serviços digitais de outras companhias. Fazia sentido, uma vez que a capacidade de processamento dos data centers da Amazon ficava ociosa durante boa parte do tempo. Passados mais de 15 anos, a divisão de computação em nuvem da empresa, conhecida como Amazon Web Services (AWS), tornou-se um negócio de 35 bilhões de dólares e uma operação que se mostrou vital durante a pandemia do novo coronavírus — não só para a Amazon mas também para empresas de diversos segmentos.

Se o leitor participou de uma reunião por video­conferência, assistiu a uma série da Netflix, usou um programa de edição de textos online, fez um pedido a um restaurante por meio de um aplicativo ou realizou algum pagamento usando uma plataforma digital, é bem provável que tenha utilizado uma das redes públicas da Amazon ou de um dos outros gigantes provedores de computação em nuvem, como Microsoft, Google, IBM, Dell, Oracle, HPE e Cisco.

Nenhuma empresa deve sair ilesa da crise. No entanto, as companhias de tecnologia tendem a ser beneficiadas pela digitalização impulsionada (para não dizer forçada) pela pandemia. Em todo o mundo, milhares de companhias das mais variadas áreas tiveram de migrar, às pressas, suas operações para o ambiente digital, o que provocou uma corrida aos serviços das provedoras de nuvem. No primeiro trimestre deste ano, as três companhias líderes do setor (Amazon, Microsoft e Google) tiveram juntas um incremento de 6,1 bilhões de dólares no faturamento de suas unidades de computação em nuvem, um aumento de 32% em relação ao ano passado. Ao todo, elas faturaram 25,2 bilhões de dólares nos primeiros três meses do ano. Só na Microsoft, a demanda pela plataforma de computação em nuvem Azure saltou 59%. No Google, o faturamento da área subiu 52%. ”A covid-19 mudou a percepção que muitas empresas tinham sobre a computação em nuvem”, afirma Thomas Kurian, presidente global da unidade de nuvem do Google (leia entrevista abaixo). Por esse motivo, o setor de computação em nuvem tende a ser um dos mais resilientes na crise. Enquanto os gastos com tecnologia da informação devem cair 8% no mundo em 2020, o mercado de nuvem deverá crescer 19%, de acordo com a consultoria Gartner. Olhando para a frente, a digitalização dos negócios é um caminho sem volta. Nos próximos quatro anos, a expectativa é que o mercado de computação em nuvem dobre de tamanho, chegando a 550 bilhões de dólares. ”Quando sairmos da pandemia, as empresas terão de investir em tecnologia. O digital é o caminho para superar a crise”, diz John-David Lovelock, vice­ presidente de pesquisa da Gartner.

Mais do que nunca, os serviços online foram fundamentais para que as empresas pudessem manter suas operações. ”O mundo só não parou por causa dos serviços de nuvem. Eles também são os heróis desta pandemia”, diz Pietro Delai, gerente de pesquisa da consultoria IDC para a América Latina. A expectativa de maior demanda reflete-se no preço das ações das companhias de tecnologia. Depois de uma queda brusca nos meses de fevereiro e março, o valor dos papéis de empresas como Microsoft e Amazon já haviam se recuperado em junho e as companhias voltaram a bater recordes de valor de mercado. Juntas, as duas valem mais de 2,8 trilhões de dólares, três vezes o valor de todas as 330 companhias brasileiras listadas na B3 (760 bilhões de dólares). ”A gente está apenas no início de uma jornada, dado que hoje só 5% do investimento global de TI é gasto em nuvem. Há uma oportunidade grande para crescer”, diz Cleber Morais, presidente da AWS no Brasil.

Um dos símbolos da transformação digital na pandemia é a plataforma de videoconferência Zoom, cujas ações valorizaram 270% em 2020. A empresa projeta que o faturamento quase triplicará neste ano fiscal, chegando a 1,8 bilhão de dólares. O Zoom já vale 72,4 bilhões de dólares, mais do que a montadora Ford ou a companhia aérea American Airlines. E o número de participantes diários em reuniões passou de 10 milhões em dezembro para mais de 300 milhões em abril. No fim de fevereiro, a empresa já tinha conquistado mais novos usuários do que em todo o ano de 2019. Em um cenário de home office prolongado, o objetivo do Zoom e dos concorrentes Microsoft Teams, Google Meet e outros não é só surfar a onda na pandemia, mas aproveitar a mudança de comportamento de longo prazo acelerada por ela.

Numa empresa como a IBM, outra importante fornecedora de computação em nuvem, a crise fez com que as equipes tivessem de correr para auxiliar os clientes a migrar para a nuvem. O primeiro desafio foi configurar todos os sistemas para que os funcionários pudessem trabalhar remotamente. Depois, o objetivo foi ajudar os clientes a criar aplicações já adaptadas ao novo cenário digital. ”Em uma grande varejista, vimos um aumento do comércio eletrônico de 40%, 45%”, afirma Ana Paula Assis, presidente da IBM para a América Latina. ”Clientes com resistência à tecnologia não tiveram alternativa senão buscar essa solução.”

Foi com um serviço de nuvem, fornecido pela AWS, que a empresa de meios de pagamentos Cielo foi capaz de expandir um novo serviço criado no ano passado, chamado Super Link. A ferramenta permite aos lojistas enviar um link a um cliente (pelo WhatsApp, por exemplo) para que ele faça o pagamento remotamente. Antes da pandemia, 3.000 estabelecimentos estavam cadastrados para utilizar o recurso. Em poucos meses, esse número saltou para 800.000 em todo o país e a quantidade de transações subiu 650%. ”A vantagem da nuvem é o tempo para desenvolver uma solução desse tipo. E nos dá uma flexibilidade de ligar e desligar a infraestrutura de forma muito simples”, diz Danilo Zimmermann, vice-presidente de projetos e tecnologia da Cielo.

A digitalização favoreceu também as companhias brasileiras do setor de tecnologia. Uma delas é a empresa de serviços de internet Locaweb. A empresa de 22 anos abriu o capital em fevereiro. E o coronavírus não atrapalhou os planos. Os meses da pandemia foram os melhores da história. Em abril, o número de novas lojas online que usam o serviço saltou 252%. ”Somos um ecossistema em que as PMEs encontram tudo o que estão precisando agora para se digitalizar”, diz Fernando Cirne, presidente da Locaweb. Uma das estrelas do portfólio é o app para restaurantes Delivery Direto, comprado em 2018, cujo o número de clientes quadruplicou. Com a demanda em alta, a empresa fez 152 contratações – e há mais de 70 vagas em aberto. A ação, que começou sendo vendida na casa dos 20 reais, acumula alta de mais de 100%.

Se a crise assusta alguns e empolga outros, há quem encare a pandemia de forma mais natural. ”Nós crescemos em todas as crises. Em 2008 e 2009, dobramos de tamanho sem realizar nenhuma aquisição”, afirma Marco Stefanini, fundador da Stefanini, uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, com um faturamento estimado em 3,3 bilhões de reais em 2019. Para este ano, a previsão é que haja um crescimento de 15% a 20%. O grande trunfo da companhia foi um contrato de cinco anos firmado com um cliente americano, de nome não revelado, no valor de 100 milhões de dólares. A empresa apostou em um plano de aceleração dos negócios e alcançou em três meses algumas das metas previstas para os próximos três anos. A companhia atende clientes dos mais diversos segmentos. A queda no volume de negócios da indústria automotiva e das redes de academias foi compensada pela alta no setor financeiro e por um forte crescimento do varejo impulsionado pelo comércio eletrônico.

Com o capital aberto na B3 desde 2013, a companhia de software para o varejo Linx viu o valor de suas ações cair e se recuperar no primeiro trimestre. A alta recente se deu pelo impulso ao comércio eletrônico. Um dos pontos- chave para a virada foi a aquisição de duas empresas para auxiliar na digitalização do varejo. Em janeiro, a empresa adquiriu a fintech PinPag por 135 milhões de reais. No mês seguinte, pagou 17,6 milhões pela Neemo, uma plataforma de delivery de restaurantes. ”O timing não poderia ter sido melhor”, diz Alberto Menache, presidente da companhia. Segundo ele, as vendas em maio pela plataforma cresceram 350% em relação a janeiro, adicionando 540 restaurantes ao serviço. A plataforma de e-commerce, que atende desde varejistas tradicionais, como Walmart e Lojas Pernambucanas, até redes de padarias, lojas de conveniência e drogarias, teve um crescimento de 154% entre janeiro e maio.

Não serão só as empresas de capital aberto que sairão vencedoras da crise. Companhias bem posicionadas para atuar no mercado digital estão registrando crescimento significativo. Uma delas é a VTEX, que possui uma plataforma que unifica os canais de venda do varejo. Fundada em 1999, a empresa tem cerca de 3.000 clientes em 41 países, com escritórios em 16 cidades do mundo. No final de 2019, recebeu um aporte de 580 milhões de reais liderado pelo fundo japonês SoftBank. Em maio e junho de 2020, as vendas online pela plataforma subiram mais de 100% em relação ao ano passado no Brasil. ”A demanda aumentou nos mais diversos níveis. Desde aquela loja que abriu no digital durante a pandemia até a outra que achava que estava preparada e não deu conta do número de pedidos”, diz Rafael Forte, presidente da VTEX no Brasil. A equipe de vendas, composta de 30 pessoas em março, dobrou de tamanho.

Um cliente da VTEX que teve de repensar sua estratégia digital foi a varejista de moda C&A. Com o fechamento das mais de 280 lojas físicas, a empresa precisou adotar uma solução para que seus vendedores continuassem trabalhando. ”Desenvolvemos em um dia uma solução de social selling”, diz Forte, da VTEX. Por meio do WhatsApp, o funcionário conversa com o cliente, apresenta os produtos, monta um carrinho de compras virtual e envia um link para fechar a venda. No total, 500 funcionários da rede trabalham com o WhatsApp.

Empresas que atuam no segmento de educação online foram acionadas como nunca durante a pandemia. A startup mineira Samba Tech, fundada por Gustavo Caetano em 2008, é uma delas. Especializada em comunicação corporativa com a utilização de vídeos online, a companhia recebeu dezenas de pedidos de grupos de educação em busca de ajuda para montar um modelo seguro de ensino remoto. ”Nos primeiros 100 dias de home office, a gente teve mais de 1,7 milhão de alunos novos na plataforma”, diz Caetano. Além dos clientes, a empresa ofereceu seus serviços à rede pública de ensino de Minas Gerais. No total, de janeiro a abril, 19 milhões de pessoas acessaram vídeos dentro da plataforma. De fevereiro a abril, o consumo de vídeos na plataforma via dispositivos móveis subiu 308%; e por computadores, 506%. Para sustentar o aumento do volume, a empresa contratou mais de 40 pessoas. A Samba Tech também lançou um produto de videoconferência, que estava sendo testado desde 2019, em parceria com a Cisco, para atender a grupos de educação e empresas. Na pandemia, foram conquistados 40 novos clientes. A companhia atualmente tem mais de 400 clientes, entre eles os grupos Cogna, Ser Educacional e Damásio. ”A demanda por ensino à distância era crescente, mas agora aumenta mais rapidamente – e a gente continua apostando nisso”, afirma Caetano.

Em todos os setores, a pandemia tem mostrado que a necessidade de adaptar-se ao digital não é mais uma questão de escolha, e sim de sobrevivência. O uso de ferramentas digitais, que já era uma realidade antes da covid-19, só deve acelerar. Um levantamento recente realizado pelo banco suíço UBS estima que na próxima década o volume de dados que trafegam pela internet crescerá dez vezes, chegando a 456 zettabytes, um volume suficiente para ocupar 840 iPhones de 64 gigabytes para cada habitante do planeta. E, até lá, o número de pessoas com acesso à internet alcançará 6,6 bilhões – 2 bilhões além do nível atual. ”A gente tem a oportunidade de olhar as características e as condições dessa nova realidade de outra perspectiva. O digital vai ser o novo normal para a grande maioria das empresas”, afirma Fernando Lemos, diretor de tecnologia da Microsoft no Brasil. É uma virada que veio para ficar.

20 ANOS DE TRANSFORMAÇÃO

Em duas décadas, o perfil das maiores companhias americanas mudou e hoje ainda predominam as empresas de internet e tecnologia

DIGITAIS E VALIOSAS

As ações das empresas de tecnologia tiveram um desempenho muito acima do principal índice das companhias de capital aberto dos Estados Unidos

O PODER DA ECONOMIA DIGITAL

O aumento da demanda por serviços digitais favorece a expansão de mercados ligados à nova economia

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – III

À FLOR DA PELE

Coceiras? Manchas? A ansiedade em excesso pode refletir em doenças pelo corpo.

A cada dia, novas pesquisas comprovam que o transtorno de ansiedade generalizada tem ligações com outros distúrbios mentais. No entanto, o sinal de alerta despertado pela ansiedade também faz com que o mecanismo do corpo se altere, resultando em alterações físicas.

CÉREBRO EM ALERTA

Quando um quadro de ansiedade se instala, doenças psicossomáticas, isto é, ligadas ao mesmo tempo ao corpo e à mente, se manifestam das mais diversas formas. Elas surgem quando a região do hipotálamo no cérebro tem seu funcionamento alterado devido a emoções fortes, como a ansiedade. Isso implica diretamente no trabalho da hipófise, uma glândula ligada ao hipotálamo e responsável por produzir hormônios, que controlam várias funções do organismo. “O nível de estresse e ansiedade reflete e se expressa em nossa aparência física devido a toda a mudança do sistema hormonal, que passa a ser abalado com o transtorno de ansiedade”, afirma a psicóloga Maura de Albanesi.

SENTINDO NO CORPO

Pequenos ferimentos, coceira generalizada, falhas no couro cabeludo, entre outros sinais, podem indicar uma auto manipulação de um indivíduo com transtorno de ansiedade. “Estima-se que 40% dos pacientes que procuram um dermatologista têm algum problema emocional. Além da relação com doenças psíquicas mais graves, os problemas emocionais também estão associados às dermatoses mais comuns, como vitiligo e psoríase”, afirma a dermatologista Deusita Fernandes Gandia Soares.

VITILIGO

Caracterizada por manchas brancas de tamanhos e formas diferentes por todo o corpo, o vitiligo não é contagioso e costuma ocorrer em pessoas jovens. Apesar de sua causa ainda não ser totalmente esclarecida, diversos estudos apontam uma relação com aspectos emocionais, como a ansiedade e o estresse em excesso. Diversos pacientes relataram o aparecimento das primeiras manchas após traumas emocionais ou fases conturbadas da vida. Acredita-se que as variações emocionais possam desequilibrar o organismo, favorecendo alterações hormonais e imunológicas.

Não há cura para o transtorno, porém, é possível um controle por meio de medicamentos e terapia com psicólogo. “A terapia ajuda o ansioso a lidar com a vida de uma forma mais equilibrada e menos acelerada, até para lidar paulatinamente com o que ele pode e não pode  realizar, além de aliviar a cobrança “, indica Maura.

PSORÍASE

Uma das principais doenças ligadas a problemas com o controle da ansiedade e do estresse é a psoríase. Ela é crônica e não contagiosa, tendo suas causas ainda desconhecidas – no entanto, sabe-se que pode estar relacionada ao sistema imunológico, às interações com o meio ambiente e a genética. “Pessoas com altos níveis de estresse possuem sistema imunológico debilitado. E há observações de que a tensão emocional e o estresse podem influenciar no surgimento das crises de psoríase”, explica a dermatologista.

A psoríase se manifesta em crises, caracterizadas por erupções de placas vermelhas cobertas por escamas esbranquiçadas ou rosadas nos membros e no couro cabeludo. Seu acompanhamento é fundamental para que não interfira na qualidade de vida.

Nos casos leves, hidratar a pele, aplicar medicamentos tópicos na região das lesões e exposição diária ao sol são suficientes para melhorar o quadro.  Em casos moderados, faz-se necessário o tratamento com exposição à luz ultravioleta A (chamado de PULVAterapia). Essa modalidade terapêutica utiliza combinação de medicamentos que aumentam a sensibilidade da pele à luz, os psoralenos (P) com a luz ultravioleta A (UVA), geralmente em uma câmera emissora da luz”, explica Deusita. Já em casos graves, é necessário o tratamento com medicação via oral ou injetáveis.

Por ter um impacto significativo na autoestima do paciente, o estresse e a ansiedade gerados podem ainda piorar o quadro. “Assim, o acompanhamento psicológico é indicado em alguns casos. Outros fatores que impulsionam a melhora e até o desaparecimento dos sintomas são uma alimentação balanceada e a prática de atividade física”, ressalta a dermatologista.

GASTRITE E ÚLCERAS

Não é difícil encontrar alguém que basta ficar um pouco nervoso ou ansioso para começar a sentir fortes dores no estômago. Este é um caso de gastrite nervosa que, se não tratada, pode evoluir para uma úlcera.

Azia, enjoo e sensação de peso na barriga são sinais da elevação da quantidade de ácido clorídrico produzido pelo estômago, que passa a corroer a parede do órgão. Isso se dá devido ao alto nível de estresse e ansiedade que o cérebro identifica como perigo.

EU ACHO …

VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL A UM CLIQUE

Poderosa indústria pornográfica retroalimenta absurdo de forma perversa

Uma menina chinesa adotada por um casal americano é forçada a participar de vídeos pornográficos aos nove anos de idade. Aos 23, ela ainda luta para que seus vídeos parem de circular na internet.

Imagino que você, como eu, pense imediatamente na chamada deep web, na qual pessoas de bem não estão, porque é onde circula o crime. Mas não. Segundo a reportagem recente do New York Times, reproduzida pela Folha, estamos falando do Pornhub, um site que tem 3,5 bilhões de visitas por mês, mais do que Netflix, Yahoo ou Amazon.

Vamos então falar um pouco sobre internet e violência sexual. Há quatro anos, quando criamos o Instituto Liberta e nos aprofundamos no drama da exploração sexual de crianças e adolescentes, constatamos que digitar “novinha” no Google nos leva a inúmeras imagens e vídeos de cunho sexual. À época relacionamos as letras de funk e sua apologia à figura do “sexo com novinhas” e pensamos em como enfrentar isso.

Mais tarde, quando conhecemos Gail Dines, socióloga britânica que há 27 anos estuda a indústria da pornografia e sua influência e reflexos na sociedade, entendemos que o funk tem muito dessa cultura pornográfica que moldou as novas gerações. O estilo musical não é origem do problema, é resultado.

Mergulhamos então nos sites de pornografia e encontramos filmes como “pai se divertindo com a filha” ou “professor dando nota para aluna. Apesar de muitas meninas parecerem adolescentes, supomos que são maiores de idade; afinal, estamos em sites adultos, pagos com cartões de crédito. Mas este fato não tira a gravidade da questão, já que se trata de incitação à violência sexual. Esta banalização da violência sexual infantil é tratada na nota técnica nº 11/1.017, documento do Ministério Público Federal (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão) que fala justamente sobre isso e é denominado “liberdade de expressão artística em face da proteção de crianças e adolescentes”.

Para que o vídeo seja considerado criminoso, a nota conclui que é necessário que haja efetivamente a participação de criança ou adolescente. Não concordo de forma alguma, pois entendo que uma sociedade que tem como fundamento a dignidade da pessoa humana não pode pactuar com certos comportamentos. Mas o que o texto do New York Times nos mostra aqui, ao contrário do que supúnhamos, muitos desses filmes são violências reais, abusos e estupros, não simulações.

O que ocorre é que o Pornhub, de forma leviana e ancorado na tese da irresponsabilidade de sites e plataformas por conteúdo postado por usuários, aceita todos os vídeos sem (ou quase sem) nenhum filtro. E são cerca de 6,8 milhões por ano, muitos deles de violências sexuais que estão ajudando a divulgar.

Em decorrência de pressões da sociedade civil, o site decidiu banir termos de busca como “estupro”, “pré-adolescente” e “pedofilia” (imagine que eles existiam!). No entanto, se você digitar algo como “estupro” encontrará 1.901 vídeos.

Mas tem solução? O que é possível fazer Nicholas Kristof, que assina a reportagem, ao final sugere três ações bem simples e nada radicais para refrear esse absurdo: permitir que apenas usuários verificados postem vídeos; proibir downloads; e aumentar a moderação (verificadores dos filmes postados).

Após a repercussão, o Pornhub anunciou a adoção dessas três medidas alegando que já estavam sendo construídas desde abril. Mas a verdade é que, sem pressão social, é muito difícil que medidas realmente efetivas se concretizem; afinal, o site fatura com cerca de 3 bilhões de impressões de anúncios por dia e, com certeza, não quer abrir mão disso. Sabemos que não são os sites pornográficos os culpados por esses crimes, que na raiz do problema está uma cultura patriarcal, machista e violenta. Mas também sabemos que só será possível mudar essa cultura antiga se enfrentarmos de olhos bem abertos a atual e poderosíssima indústria pornográfica, que a retroalimenta de forma ainda mais perversa. A nossa sociedade precisa falar sobre violência sexual infantil e, para isso, tem que falar de pornografia.

*** LUCIANA TEMER – Advogada, professora da Faculdade de Direito da PUC-SP e da Uninove e presidenta do Instituto Liberta.

OUTROS OLHARES

O JEITINHO QUERUBIM

Nascido na década de 60, o corte de cabelo que remete à imagem do bom-moço volta a agradar os homens das novas gerações

Como tudo o que eles cantavam era o amor, e pouca coisa a mais, soava natural que os cortes de cabelo no estilo angelical apresentados ao mundo pelos Beatles, perto da primeira metade dos anos 1960, logo virassem sinônimo de bom-mocismo – antes, portanto, do sexo, drogas & rock’n’roll. Batizados então de mop-top, termo para “cabeça de esfregão,” a moda exibia franjinhas simétricas de comprimento médio, por vezes penteada para o lado, e fios um pouco abaixo das orelhas. E não é que neste estranho 2020 o antigo desenho voltou à moda? Artistas jovens como os cantores canadenses Justin Bieber e Shawn Mendes, o britânico Harry Styles, além de Kim Tae-hyung, do estrondoso grupo de K-pop BTS, ressuscitaram o penteado – que agora é chamado angelicalmente de querubim.

É praticamente impensável mencionar alguma tendência deflagrada neste ano sem ressaltar as quarentenas que comprometeram o cotidiano. E é exatamente isso o que aconteceu. Por longos meses foi impossível ir a um bom cabeleireiro para manter as madeixas em ordem e muita gente foi obrigada a abrir mão da manutenção.

As cabeleiras vicejaram e deu no que deu, o renascimento daquele jeitão sessentista.

“Entre os adolescentes a moda pegou de vez, mas tenho também clientes adultos, do rígido mercado financeiro, que adotaram esse estilo”, diz o cabeleireiro Marcos Proença, dono de dois concorridos salões em São Paulo. É possível, contudo, que mesmo sem o distanciamento imposto pelo vírus o fenômeno se espalhasse. Aexplicação: ele está associado aos desejos das gerações de agora de romper com os conceitos convencionais sobre masculinidade, comuns nos tempos de seus pais e avós. O guarda-roupa dos homens mais jovens permite um estilo de ser e de se vestir até pouquíssimo tempo atrás considerado mais feminino. Para essa turma, ser bad boy está totalmente fora de moda, daí o aceno para o ar ingênuo. Para além dos cabelos graciosos, veem-se as novas coleções que exibem rapazes usando roupas com estampas coloridas, tecidos de acabamento brilhante e colares de pérolas sem perder um pingo de virilidade. “Eles entendem a masculinidade de uma forma mais permissiva, sem necessidade de se exibir como macho o tempo todo”, diz Marcio Banfi, professor do curso de design de moda da Faculdade Santa Marcelina.

E assim caminha a humanidade. Os homens usam o que lhes vai no couro cabeludo para comunicar alguma coisa desde que o mundo é mundo. A exuberância dos fios na Grécia Antiga era um método de diferenciação da elite dos escravos, que tinham a cabeça raspada. A lógica se inverteu em meados do século V, com a popularização das atividades atléticas, atrapalhadas pelas generosas cabeleiras. Os querubins de 2020 vieram agora para trazer um recado muito nítido e saudável: a leveza no jeito de ser faz sempre bem, e não significa fraqueza.

Que assim seja.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE DEZEMBRO

VIOLÊNCIA, ATÉ QUANDO?

E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos (Mateus 24.12).

Parece que o mundo enlouqueceu. As nossas cidades estão-se transformando em campos de sangue. A violência está nas ruas, nas escolas, nas famílias, entre as nações. Falamos de paz, mas gastamos bilhões de dólares fabricando armas de destruição. Receamos sair de casa. Temos medo de assalto e medo de sequestro. Temos medo de bala perdida. Temos medo dos bandidos e medo da polícia. Estamos enjaulados dentro de casa, trancados com cadeados e cercas elétricas. A violência não está apenas do lado de fora dos muros, está dentro de casa. Há pais matando filhos, e filhos matando pais. Há maridos matando a esposa, e esposas matando o marido. Os inimigos do homem são os da sua própria casa (Miquéias 7.6). Estamos alarmados, pois no passado nos diziam que a violência era resultado da ignorância e da pobreza. Mas a violência cresce no meio de gente culta e rica. O problema é que a violência está dentro do nosso coração. É do coração que procedem os maus desígnios. Não podemos resolver o problema da violência apenas com educação. Precisamos de transformação. Só Jesus pode mudar o nosso coração. Só ele pode colocar amor onde havia ódio. Só ele pode colocar perdão onde havia mágoa. Só Jesus pode trazer paz para o coração, para a família e para a sociedade. Jesus é o Príncipe da Paz. Ele é a paz e só ele pode dar a paz verdadeira.

GESTÃO E CARREIRA

FOODTECHS REDUZEM DESPERDÍCIO E PROMOVEM ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Startups usam algoritmos para elaborar pratos e racionalizar cadeia; desconto chega a 70%

De olho em alimentar pessoas no home office ou baratear produtos em meio à crise, startups estão surgindo com foco em alimentação saudável e sustentável.

Essas empresas atuam desde a criação de alimentos à base de plantas, passando pela conexão entre pequenos produtores e cozinheiras, até a logística de distribuição, evitando o desperdício de comida.

Esse último é o caso da Super Opa, uma foodtech que surgiu como um trabalho universitário em 2018 e hoje está em 500 cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O modelo consiste em um aplicativo que funciona como marketplace da indústria de alimentos, conectando distribuidoras diretamente ao cliente final, para que possam vender, a preços mais baixos, alimentos próximos do vencimento e que não vão para as prateleiras de mercado.

São toneladas de comida que, de outra forma, acabariam em lixões ou incineradas sem um comprador.

“É tanta ineficiência enorme da cadeia. Além de perder o que comprou da indústria, as distribuidoras ainda têm o custo de descarte do lixo”, explica Luís Borba, presidente executivo da startup.

Para que a operação aconteça, o produto passa por uma verificação de qualidade antes de ser disponibilizado pelo aplicativo. Aprovado, recebe um selo de sustentabilidade, estratégia encontrada pelos empreendedores de levar uma imagem positiva aos produtos que são por vezes rejeitados por mercados e clientes, ainda que estejam em ótimo estado para consumo.

“É necessária uma mudança de paradigma que talvez seja nosso maior desafio. A gente tem esse hábito de achar que o produto próximo à validade não presta e isso atrapalha muito a distribuição de alimentos. Fazendo o movimento contrário, ajuda a combater a fome e diminuir o descarte de lixo”, diz Borba.

Outro desafio encontrado pela empresa é o de negociar os descontos para os produtos com as marcas. Segundo Borba, algumas não permitem ofertas muito grandes, e como consequência alguns produtos seguem empacados. Aqueles que não são vendidos em um prazo considerado adequado para o consumo antes do vencimento, são distribuídos pela startup a ONGs parceiras.

Borba explica que seu principal público hoje está nas classes B e C, que se beneficiam dos baixos valores em que os alimentos são vendidos – os descontos podem chegar a até 70%.

Ospreços acessíveis ainda têm como efeito melhorar a alimentação da população, que sem eles acaba por vezes recorrendo a produtos de baixa qualidade, por serem mais baratos ou serem os disponíveis nos mercados próximos. “Tivemos um distribuidor com uma picanha argentina de R$ 85 por kg empacada. Colocamos por R$ 16, preço da salsicha, que é campeã de vendas nas classes C e D e acaba sendo usada como mistura no dia a dia. Os clientes enviaram vídeos recebendo a carne, fazendo churrasco. Salvamos 200 kg de alimento e tivemos um impacto positivo na vida de pessoas que não conseguiriam introduzir a carne ao cardápio.

Outras startups como a Liv Up e a duLocal vão além na cadeia e conectam agricultores a consumidores finais preparando os pratos e levando refeições saudáveis de porta em porta.

Para isso, usam inteligência de dados para prever consumo, elaborar cardápios e preparar pratos na medida certa, levando em consideração a sazonalidade de produtos e a demanda calculada.

A Liv Up começou com um portfólio de alimentos prontos congelados que podiam ser combinados pelo consumidor no momento da compra pelo aplicativo. Hoje a empresa entrega também refeições completas, sopas e sobremesas em 50 cidades brasileiras, além de oferecer uma quitanda de orgânicos.

Essa última opção teve início durante a pandemia, quando seus agricultores parceiros perderam muitos clientes com o fechamento de restaurantes. São mais de 7.000 toneladas de produtos compradas de mais de 30 famílias.

“Nossa tese sempre foi pautada em aliar alimentação saudável e praticidade”, diz o presidente executivo Victor Santos. ”Fazemos um trabalho bastante intenso com chefes de cozinha, nutricionistas e engenheiros de dados para entender como melhorar a experiência do consumidor nesse sentido.

A duLocal possui uma logística semelhante, com a diferença de incluir cozinheiras de Paraisópolis, na periferia de São Paulo, que preparam refeições para serem consumidas na hora, a partir de ingredientes também comprados de produtores familiares.

As mulheres, que atuam como autônomas, recebem os produtos e realizam o preparo de casa. Para isso, recebem treinamento gastronômico, capacitação e apoio psicológico – hoje esse processo tem sido feito todo de forma online.

”Acho que de certa forma acabamos democratizando o home office, que foi segmentado para algumas classes”, diz Roberta Rapuano, sócia da foodtech e diretora de operações. “Mulheres venderem comida que fizeram nas próprias casas é a realidade do Brasil. Nós profissionalizamos essas mulheres que ganham a vida dessa forma”.

A startup, que começou com a ideia de reunir campo e cidade, abarca hoje uma rede de 13 cozinheiras, 30 entregadores e quase 50 fornecedores entre agricultores orgânicos e cooperativas.

Por ora, as entregas são feitas apenas na região do centro expandido de São Paulo, mas a empresa tem planos de aumentar o alcance e também levar a produção para outras comunidades da periferia.

Acreditamos no poder de descentralizar as cozinhas na cidade, podendo produzir para mais pessoas sem precisar de grandes recursos”, diz Roberta.

Ainda na linha do uso de tecnologia para fomentar uma alimentação saudável e sustentável, outras startups atuam na própria criação de novos alimentos. É o que faz a N.Ovo, empresa que desenvolve produtos alimentícios à base de plantas.

“Conhecendo startups que fazem isso no Vale do Silício, vi quantos problemas globais elas ajudam a endereçar ao criar esse tipo de alimento, como combater aquecimento global, fomentar um uso sustentável da terra, combater pandemias e, principalmente, a fome”, diz a fundadora Amanda Pinto, nomeada este mês “inventora do ano” pela MIT Technology Review, publicação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Atualmente a N.Ovo oferece variantes de ovos para serem usadas em receitas, ovos mexidos e três tipos de maionese. No ano que vem a startup pretende lançar um quarto sabor, que poderá ser escolhido pelos clientes.

“Queremos ser a escolha óbvia, sem sermos impositivos. Trabalhamos para educar consumidores e atingir um público de “flexitarianos”, brinca, se referindo a pessoas que comem carne, mas se preocupam com a diminuição do seu consumo.

Entre as limitações dessas foodtechs está o de ainda atingirem um público restrito, devido ao preço de seus produtos ou área de alcance. Com exceção da Super Opa, os clientes das demais se concentram nas classes mais altas.

O segundo desafio, dizem os empreendedores, está na educação alimentar.

“Tenho certeza de que o mercado está só no começo. As pessoas estão tomando consciência dessas questões e nós também estamos começando a desenvolver as tecnologias nesse sentido. Há um universo a se explorar”, conclui Pinto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – II

PANE NO SISTEMA

O transtorno pode acarretar crises com sintomas por todo o corpo

Um vazio no peito, sensação de perder o domínio do próprio corpo e até mesmo sentir que pode morrer a qualquer momento – tudo isso acontecendo em um lugar seguro, como o sofá de casa. Os sintomas descritos são comuns em uma crise ansiosa, que possui uma forte característica do transtorno de ansiedade: a incoerência, já que, muitas vezes, o medo do futuro ganha um tamanho desproporcional ao possível problema.

Esse tipo de crise é o ápice do descontrole emocional gerado pelo distúrbio e o indivíduo não precisa, necessariamente, estar em um cenário caótico.

Neste momento, é preciso tentar ficar calmo e respirar fundo, esperando que a crise passe em alguns minutos. Não há remédio para as reações do corpo, como as palpitações e tremedeiras, já que o problema é mais além. “Para acabar com a ansiedade, é necessário ir à sua causa, onde se originou o fator estressante e ensinar ao paciente como lidar com ela”, explica o psiquiatra João Jorge Cabral.

Os sintomas variam de uma pessoa para a outra. A seguir, confira as reações mais comuns:

RESPIRAÇÃO CURTA E RÁPIDA

A crise de ansiedade tem ligação direta com o ato de respirar. Durante o período, há um bloqueio no peito na parte onde ficamos pulmões e, por isso, a respiração fica desregulada e, geralmente, se torna rápida e curta. A dificuldade em respirar recebe o nome de dispneia.

DOR DE CABEÇA

A sensação de perigo que a ansiedade dispara no cérebro faz com que o sistema nervoso acelere seu funcionamento. Devido ao aumento do fluxo sanguíneo, pode surgir a dor de cabeça. Além disso, é comum que a pessoa apresente falhas na memória e dificuldade de concentração devido a esse funcionamento desregulado da mente.

SUOR FRIO

Transpirara em excesso pode ocorrer mesmo em dias frios. Isso acontece porque há uma estimulação do sistema nervoso simpático, e, com isso, as glândulas sudoríparas produzem mais suor. A transpiração pode ser generalizada ou concentrada em algumas partes, como mãos, pés e axilas.

BOCA SECA

Chamado de xerostomia ou de hipossalivação, ficar com a boca seca acontece porque a crise provoca alterações na liberação dos hormônios adrenalina, noradrenalina e acetilcolina. Além disso, com a respiração ofegante, pode ocorrer de a pessoa respirar pela boca, o que aumenta ainda mais a sensação.

PUPILAS DILATADAS

Em um sinal de que o perigo está por vir, as pupilas se dilatam no momento de medo. Já reparou que quando alguém está assustado os olhos ficam assim?

SENSAÇÃO DE TAQUICARDIA

O coração acelerado é um dos sintomas que mais assustam, pois pode levar a pessoa a crer que está tendo um infarto. Porém, no caso da crise de ansiedade, não passa de uma resposta do coração ao metabolismo acelerado.

PARALISAÇÃO

A crise pode ser tão aguda que paralisa o indivíduo, ao ponto de ele não ter vontade e forças para sair de casa. Ou então, fazer tudo no “automático”, sem ter ânimo de se empenhar nas tarefas cotidianas.

NÁUSEAS

Por um momento, o trabalho do estômago para. É um tipo de reação do organismo iniciado pela descarga de hormônios.

TREMORES

A grande liberação de hormônios interfere no controle do corpo. Por isso, mãos, pés e pernas podem ficar trêmulas.

MÚSCULOS TENSOS

O disparo de hormônios e a mensagem de risco iminente pelo cérebro faz com que os músculos fiquem rígidos, como se o corpo estivesse se preparando para um ataque ou fuga. Em algumas crises, a rigidez é tanta que pode provocar dores, principalmente nos ombros e pescoço, que costumam ficar mais tensos.

EU ACHO …

SEXISMO E RACISMO NA CIÊNCIA

Se pensarmos que o sistema vai se corrigir sozinho, estaremos nos enganando

Os ânimos estão acirrados na ciência (assim como nos EUA como um todo) à medida que se inicia o debate, já atrasado, sobre o tratamento dado a mulheres e pessoas de cor. Em junho, por exemplo, milhares de pesquisadores em todo o mundo, além dos periódicos Science e Nature, cruzaram os braços por um dia em protesto contra o racismo em suas fileiras. A Sociedade Física Americana endossou a iniciativa, e se declarou comprometida a erradicar o racismo sistêmico e a discriminação” na ciência.

A física exemplifica o problema. Os afro-americanos são mais ou menos 14% da população em idade universitária nos EUA, o que é proporcional ao seu percentual na população total, mas na física eles só recebem de 3% a 4% dos diplomas de graduação e menos de 3% dos doutores, e desde 2012, só compuseram 2% do corpo docente. Há muitas razões para essa sub-representação, mas preocupa a recusa de alguns cientistas em sequer reconhecer que pode haver algum problema. A ciência, argumentam eles, é inerentemente racional e autocorretiva.

Se fosse assim… A história da ciência está repleta de casos bem documentados de misoginia, preconceito e viés. Por séculos, biólogos promoveram falsas teorias sobre a inferioridade feminina, e instituições científicas costumavam barrar a participação de mulheres. A historiadora da ciência Margaret Rossiler documentou como, em meados do século 19, cientistas mulheres criaram suas próprias sociedades científicas para compensar a recusa de seus colegas homens em reconhecer seus trabalhos. Sharon Bertsch McGrayne encheu um volume inteiro com histórias de mulheres que deveriam ter sido agraciadas com o Prêmio Nobel por trabalhos em colaboração com colegas homens – ou, pior, que eles roubaram delas. O preconceito racial tem sido no mínimo tão danoso quanto o de gênero; afinal, foram cientistas que codificaram o conceito de raça como uma categoria biológica que não era simplesmente descritiva, mas também hierárquica.

Bons cientistas são abertos a ideias concorrentes; eles prestam atenção a dados desafiadores, e escutam opiniões contrárias. Mas cientistas também são humanos, e a ciência cognitiva mostra que estes são propensos a vieses, percepções falsas, raciocínio motivado e outras ciladas intelectuais. Dado que o raciocínio é lento e difícil, dependemos da heurística – atalhos intelectuais que muitas vezes funcionam, mas às vezes falham espetacularmente. Não é crível afirmar que cientistas são, de alguma forma, imunes aos vieses que afligem todas as outras pessoas.

Felizmente, a objetividade do conhecimento científico não depende da objetividade de cientistas individuais. Em vez disso, ela depende de estratégias para identificar, reconhecer e corrigir preconceitos e erros. Como observo em meu livro de 2019, Why Trust Science, o conhecimento científico começa na forma de afirmações propostas por cientistas individuais, equipes ou laboratórios, que são depois escrutinizadas por outros, que podem apresentar provas adicionais para sustentá-las, ou modificá-las, ou rejeitá-las. O que emerge como um fato cientifico ou teoria estabelecida raramente é idêntico à assertiva inicial; tanto um como outro foram ajustados à luz de evidências e argumentação. Ciência é um esforço coletivo, e ela funciona melhor quando as comunidades científicas são diversas. Comunidades heterogêneas têm mais chances do que as homogêneas de serem capazes de identificar pontos cegos e corrigi-los. A ciência não corrige a si mesma; os cientistas corrigem uns aos outros pela crítica. E isso significa estar disposto a discutir não só afirmações sobre o mundo exterior, mas também nossas próprias práticas e processos.

A ciência tem um admirável histórico de produção de conhecimento confiável sobre o mundo natural e o social, mas não é tão boa em reconhecer suas fraquezas. Não podemos corrigi-las se insistirmos que o sistema irá se corrigir magicamente. Reconhecer e confrontar vieses na ciência não é ideologia; ideológico é insistir que a ciência não pode ser tendenciosa apesar dos dados empíricos em contrário. Se nossas falhas na inclusão são conhecidas desde há muito, é hora de corrigi-las.

*** NAOMI ORESKES – é professora de história da ciência da Universidade Harvard, (autora de Why Trust Science? (Editora da Universidade Princeton, 2019) e coautora de Disceming Experts (Universidade de Chicago, 2019.)

OUTROS OLHARES

NOVOS PRAZERES DA CARNE

Cortes extraídos de áreas até então consideradas menos nobres no boi são redescobertos e ganham espaço na mesa do consumidor brasileiro

O suculento reinado da picanha vive dias nervosos. Uma novidade no mercado de carnes tem mudado o hábito de consumo, ao introduzir cortes tradicionalmente desdenhados nos churrascos brasileiros. A invasão é de peças extraídas sobretudo das dianteiras do boi, uma região musculosa devido à movimentação do animal. O destino do acém e da raquete (veja no quadro abaixo), por exemplo, era virar carne moída ou ensopado. A prosa mudou, e eles agora dividem espaço com talhos sofisticados e tradicionais em butiques de carne gourmet e restaurantes sofisticados. Pousam lindamente ao lado da picanha, é claro, mas também da alcatra e do ancho.

Atendência foi importada dos Estados Unidos – daí os nomes virem em inglês. Colou por aqui, pela descoberta dos sabores extraordinários. Os novos cortes são mais baratos (cerca de 30%) em relação aos considerados de áreas mais nobres, o que não significa descuido com a manipulação dos produtos, ao contrário. Mas a qualidade da manipulação os faz mais caros (aproximadamente 30%) que os cortes equivalentes e não repaginados. Tome-se o acém, rebatizado de denver steak. É insosso se não passar longo tempo na panela. O denver steak, porém, feito do miolo, eis o segredo, contém gordura e colágeno entremeados nas fibras, afeitos a derreter na hora de assar, atalho para a maciez. A raquete (flat iron steak, sua alcunha,) de difícil mastigação, pela estrutura do tecido, tem a reputação atual de ser o segundo corte mais macio do boi, atrás do filé-mignon. O truque: no centro da peça há uma membrana um tanto intragável. Mas dividir a peça no sentindo do comprimento, bem em cima dessa membrana, a transforma em dois filés de primeira.

Na reputada rede de churrascaria NBSteak, a peça especial de raquete recebeu o nome da casa e hoje é o prato mais pedido pelos clientes que aos poucos retomam as visitas. O dono, o empresário Arri Coser, foi o primeiro a popularizar os novos cortes no Brasil. “Eles disputam por igual em números de pedidos com os convencionais,” diz Coser. A casa Swift também aderiu às modernas linhas, com a grife Swift Black. A expansão de ofertas anda de mãos dadas com uma excelência brasileira, a qualidade do gado. “O desenvolvimento de raças bovinas, como angus e hereford, somado às novidades da genética e aos cuidados com a alimentação, resultou em um melhor aproveitamento do animal”, diz o jornalista especialista em gastronomia J. A. Dias Lopes. Ele aponta na atual revolução passo histórico semelhante ao que ocorreu em outros momentos da evolução gastronômica.

A velha e boa picanha foi descoberta por acaso, na década de70, no Brasil. Antes vendida como parte da alcatra ou do coxão duro, por ter uma grossa camada de gordura, era descartada. E, então, um açougueiro do frigorífico paulistano Bordon resolveu testar a ponta daquela parte gordurosa da alcatra e descobriu que era uma carne extremamente macia e saborosa. Há ainda outra explicação, mais divertida, quase folclórica. Um churrasqueiro argentino de São Paulo teria oferecido o corte ao industrial e playboy ítalo-brasileiro Baby Matarazzo Pignatair. Ao perguntar ao funcionário de onde vinha a delícia, ouviu: “Parte donde se pica la anha”. Em espanhol, “picar” significa “ferir com objeto pontiagudo” e “anha” é a haste de madeira com ponta de ferro usada na condução dos bois. A expressão teria dado origem ao nome picanha, a agora ameaçada picanha.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE DEZEMBRO

LEVANTE OS OLHOS PARA O ALTO

Então, conduziu-o [a Abraão] até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes… (Genesis 15.5a).

Talvez seu coração esteja abatido por uma notícia dolorosa que você recebeu há pouco. Talvez sua alma esteja triste porque alguém decepcionou você. Talvez um fato tenha trazido angústia à sua vida. Você olha para trás e tem memórias amargas. Olha ao redor e ainda há muita coisa que mete medo em seu coração.  Olha para o futuro e um nevoeiro denso não lhe permite ver uma luz no fim do túnel. O pessimismo parece tomar conta do seu coração. O pavor assalta a sua alma. O pânico rouba sua esperança. Nesse momento é preciso levantar os olhos e inclinar os ouvidos para escutar, não as vozes ameaçadoras da terra, mas as doces promessas do céu. A Bíblia diz: As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca (Lamentações 3.22-25). Não se desespere; espere em Deus. Não duvide; creia. Não olhe para as circunstâncias; olhe para o Deus que está no controle das circunstâncias!

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL – A TECNOLOGIA A SERVIÇO DA SANIDADE

A Covid-19 lançou a humanidade em um estado de angústia, ansiedade e depressão. Ao mesmo tempo, acelerou o uso de ferramentas, como a inteligência artificial, capazes de ajudar na detecção precoce aos distúrbios psiquiátricos

Ninguém conheceu trabalho remoto de forma tão extrema quanto o médico russo Valeri Polyakov. Interessado em saber como o corpo humano reage a longos períodos num ambiente de microgravidade – algo necessário para viagens a Marte – tornou-se, ele mesmo, parte da resposta. Entre janeiro de 1994 e março de 1995, morou e trabalhou na estação espacial MIR – dividindo a cápsula, pouco maior que um micro-ônibus, com dois hóspedes de permanência mais breve. Valeri realizou experimentos científicos, fez musculação, consertou defeitos imprevistos, almoçou e jantou comida de gosto ruim, cortou cabelo, leu livros, fez desenhos, aproveitou o silêncio e viu o pôr do sol pela janela – algo que acontece 16 vezes a cada 24 horas, quando se está numa órbita 300 quilômetros distante da Terra, à velocidade média de 27.700 km/h. Depois de 437 dias, ele voltou. Ao sair da nave espacial, dispensou a cadeira de rodas que lhe foi oferecida. Saiu caminhando. Em vez de ajuda, aceitou um cigarro e uma dose de bebida destilada, para comemorar a façanha e aplacar o frio que fazia no lugar de pouso, o Cazaquistão.

O corpo de Valeri resistiu muito bem a um ano de isolamento. A mente, nem tanto. O astronauta fez 29 testes cognitivas durante a viagem e continuou sendo monitorado seis meses depois. Nos primeiros 20 dias no espaço e nas duas semanas após o retorno, ele parecia perdido, diz um estudo publicado na revista científica Ergonomics. Apesar de manter o desen1penho intelectual, sentiu-se sobrecarregado.

Valeri é um herói com medalhas no peito, e, antes de trabalhar no espaço, se preparou durante 16 anos na agência espacial russa. Nós não tivemos a mesma sorte diante do novo coronavírus. Poucos meses após a China anunciar o primeiro caso, em 31 de dezembro de 2019, nosso mundo saiu de órbita. Para conter o ritmo de avanço da covid-19, 4,5 bilhões de trabalhadores tiveram de entrar em quarentena, fisicamente afastados dos parentes, amigos e colegas. Em casa, alguns lutam contra o desânimo de terem pouca ou nenhuma utilidade longe da empresa. Outros, ao contrário, lutam contra a sobrecarga. Precisam atingir metas traçadas para o escritório (um lugar otimizado, ao longo de décadas, para o desempenho profissional), agora em condições improvisadas, como trabalhar por oito horas na mesa de jantar e transformar o corredor em cenário para telerreuniões profissionais. Precisam dividir o computador e a atenção com filhos, que, sem escola, estudam e brincam entre quatro paredes. Precisam conviver 24 horas por dia com um cônjuge – algo que muitos até juraram fazer, diante de um padre, mas sem pensar em circunstâncias como a atual. Precisam cozinhar, lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro, varrer o chão, cortar unhas, talvez cabelos. Afinal, a especialização, que proporcionou ganhos de eficiência à sociedade desde a Revolução Industrial, recuou vários passos com o isolamento social. Quem dera fosse só isso.

O confinamento é apenas uma face de uma pandemia que ameaça a nossa vida. A covid-19 acaba por trazer, para a realidade, um artifício que os diretores de filmes de terror aprenderam há muito tempo: uma ameaça torna-se mais assustadora quando é invisível. O vírus está no ar, está no outro, talvez esteja em nós mesmos. Pode não trazer sintomas, pode matar em poucos dias. A própria morte tornou-se invisível. No hospital, o doente tem visitas restritas. Morto é enterrado em um caixão lacrado. “Além de tudo, o coronavírus impede rituais de passagem profundamente estabelecidos em nossa sociedade. A morte sem a devida cerimônia de despedida pode ficar em suspense por anos, com a sensação de que a pessoa sofreu um sequestro e pode voltar a qualquer momento”, diz Omar Ribeiro Thomaz, doutor em Antropologia e professor da Unicamp. Há mais de 5 milhões de casos de covid-19 confirmados no mundo, mesmo com um alto índice de subnotificações. Há mais de 300 mil mortos, numa tragédia longe do fim. Segundo Michael Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a América Latina tornou-se o epicentro da pandemia, e o Brasil é o país mais preocupante.

A ameaça à saúde trazida pelo coronavírus vem acompanhada da ameaça à saúde financeira. A quarentena, imposta no mundo inteiro para achatar a curva de novos casos, atingiu duramente a atividade econômica. “Nossas previsões indicam uma profunda recessão este ano, com uma contração de 5% para a economia global”, afirma David Malpass, presidente do Banco Mundial. “Mais de 60 milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema.” A taxa de desemprego nos Estados Unidos é a maior desde a Grande Depressão: saltou de 4,4% em março para 14,7% em abril, o equivalente à eliminação de 20,5 milhões de postos de trabalho. No Brasil, o PIB recuou inéditos 5,3% em março, primeiro mês de isolamento social nas maiores cidades. No primeiro trimestre, 1,1 milhão de brasileiros perderam o emprego, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As demissões atingem 13% das famílias e 40% das empresas, aponta a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A crise provocada pelo novo coronavírus afetou as atividades de 76% das empresas e causou o fechamento de mais de 600, diz a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em março, o Google perguntou a trabalhadores brasileiros: “O que mudou na sua vida?”. “Tudo” foi a principal resposta entre desempregados e autônomos, não importa a condição financeira, e a terceira mais citada por assalariados e empregadores de baixa renda. Na nuvem de palavras formada pelas entrevistas, destacam-se “saudades”, ”ansiedade”, “falta de paciência”, “medo” e preocupação”. O confinamento, a mudança de rotina, a ameaça à saúde e a ameaça à saúde financeira podem ser psicologicamente devastadores.

É normal sentir medo e ansiedade, diante de uma tragédia como a pandemia de coronavírus. Estranho seria não sentir. O medo é um dos responsáveis pela sobrevivência da raça humana, ao proteger de riscos e fazer fugir de perigos. A ansiedade faz o coração pular, no esforço vão de antecipar um acontecimento. A angústia aperta o peito diante da impotência, da pressão externa. “Medo, ansiedade e angústia não são doenças, são sentimentos humanos”, diz Wagner Gattaz, professor e presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria da USP, além de fundador e diretor da Gattaz Health & Results. “O problema é ir além. É doentio quando essas sensações nos paralisam, nos impedem de tocar a vida.” É o caso das crises de pânico: a pessoa começa a sentir palpitações, dificuldade para respirar, calafrios, suor, tonturas e embaçamento da visão, sem conexão com uma ameaça externa. É o caso da depressão: uma redução do metabolismo cerebral, com sintomas físicos (como cansaço e dores musculares) e mentais (como esquecimentos e insônia). “Mais do que tristeza, a depressão deixa a pessoa anestesiada por dentro. Traz a incapacidade de sentir prazer, até mesmo de chorar”, diz Wagner. A depressão é um problema silencioso. Segundo a OMS, trata-se da doença mais subdiagnosticada do planeta. Mais de 350 milhões de pessoas sofrem de quadros depressivos, mas 47% nem se dão conta. Cerca de 15% da população mundial tem predisposição, mas muitos jamais manifestaram sintomas. Diante de um grande trauma, pode acontecer uma crise. Ainda não é possível calcular o estrago causado pela pandemia de coronavírus na saúde mental – mas é certo que tem gente demais indo além da simples tristeza. Em um estudo da Sociedade Chinesa de Psicologia, com 18 mil voluntários, 42,6% apresentaram sintomas de ansiedade relacionada ao coronavírus. Um levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Universidade Yale, com 1.460 pessoas de todo o Brasil, mostrou um aumento de 90% nos casos de depressão entre os meses de março e abril. “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante. Mesmo quando a doença está sob controle, a dor, a ansiedade e a depressão continuam a afetar as pessoas e as comunidades”, afirma Tedros Adhauom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. A análise de práticas de isolamento social em epidemias anteriores, como de Sars (2003), na China e no Canadá, e de ebola (2014), no oeste da África, ensina que o trauma afeta um número maior de pessoas do que a própria doença original. Um artigo publicado na revista The Lancetrevisou 24 trabalhos sobre impactos psicológicos de regimes de isolamento social durante as epidemias de Sars, ebola e H1N1. “Essa revisão sugere que a quarentena é frequentemente associada a efeitos psicológicos negativos. Embora isso não seja exatamente uma surpresa, a evidência de que esses efeitos podem ser detectados meses ou anos depois é mais problemática e sugere a necessidade de assegurar medidas eficazes de mitigação”, diz o texto. Responsável pela condução de 5 mil entrevistas no Brasil em um estudo global sobre depressão patrocinado pela OMS, Wagner afirma que os padrões já conhecidos sugerem um cenário alarmante quando o coronavírus passar. “Num intervalo de 12 meses, encontramos que 20% das pessoas vão apresentar algum transtorno de ansiedade, 11% terão um episódio depressivo, 4%, vão desenvolver abuso de álcool ou outras substâncias e cerca de 15% terão burnout”, diz Wagner.

O coronavírus tornou inevitável o que já era urgente: cuidar da mente, antes que seja tarde e caro demais. “A pandemia está nos mostrando mais uma vez que a saúde mental é tão importante quanto a saúde física”, afirma Tedros, da OMS. Ele diz que as questões de saúde mental representam 30% do tempo vivido com alguma incapacidade, no mundo – apesar de receberem 2% do orçamento de Saúde dos governos. Em outro estudo, a OMS afirma que perda de produtividade por depressão ou ansiedade custa, globalmente, USS 1 trilhão. “Problemas de saúde mental, como depressão, estão entre as maiores causas de miséria em nosso mundo”, afirma António Guterres, secretário-geral da ONU. No Brasil, transtornos de ansiedade são a terceira razão de afastamentos do trabalho, com cerca de R$ 200 milhões gastos com pagamentos de benefícios anuais pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “Os custos globais em 2030 vão somar US$ 3 trilhões por ano, entre queda de produtividade, mortes prematuras e suicídios”, alerta Wagner. “Se existe um bom momento para investir em saúde mental”, diz Tedros, “é agora”.

Para as empresas, cuidar da saúde mental dos funcionários é um compromisso moral e um investimento. A história ensina exemplos como o da fábrica americana de alimentos Heinz, que, durante a Grande Depressão, na década de 30, evitou demitir e se empenhou em manter o pessoal motivado. Com pouca demanda para seu ketchup. arriscou lançar comidas prontas, como sopas e papinhas para bebê. Os produtos se tornaram um sucesso, e o comprometimento da empresa ajudou a reter funcionários e atrair consumidores nas décadas seguintes. “Depois de a crise passar, as pessoas se lembravam do que a Heinz havia feito e quais tinham sido suas prioridades”, disse Nancy Koehn, professora da administração da Universidade Harvard e autora do livro Forged in Crisis (inédito no Brasil), à Harvard Business Review. “Uma enorme parte da ansiedade em tempos de crise tem a ver com quem está no comando e como se comporta”. Presidente da SAP no Brasil, Cristina Palmaka diz incentivar os funcionários a cuidar da mente – mesmo sem enxergar, precisamente, o retorno financeiro da iniciativa. “Nove em cada dez funcionários que fazem terapia não falam disso no escritório. A gente quis tirar esse estigma. Quando a pessoa tem dificuldades e se sente obrigada a representar um “personagem”. É muito dispêndio de energia na coisa errada”, diz a executiva. “Você tem de colocar energia naquilo que é importante. Estou aqui para trabalhar, eu sou assim mesmo, é assim que eu agrego, essas são as minhas vulnerabilidades, aqui eu sou forte.” Criticadas pelo papel relativamente discreto que estão desempenhando na busca pela cura do coronavírus, as empresas de tecnologia podem se sair melhor no combate aos efeitos psicológicos colaterais. No Brasil, SAP, Amazon Web Services (AWS) e a agência Africa se aliaram em torno do Algoritmo da Vida – uma inteligência artificial que varre o Twitter em busca de usuários com indícios de depressão ou ideação suicida. Diante de um caso suspeito, o robô classifica a gravidade, numa escala de 1 a 4. Mediadores de ONGs parceiras recebem o alerta, entram em contato com a pessoa e avaliam o encaminhamento ao Centro de Valorização da Vida (CVV). A Africa apresentou a ideia no ano passado, durante o Setembro Amarelo (mês dedicado a campanhas de prevenção ao suicídio). A AWS forneceu a computação em nuvem e a SAP, o banco de dados e os algoritmos. Com a pandemia de coronavírus, o sistema foi reforçado para lidar com um maior volume de casos – está em 1.600 por dia – e refinar os filtros digitais. “É muito bacana ver a tecnologia da SAP melhorando gestão de caixa, inventários, é o que a gente faz todo dia”, diz Cristina. “Mas quando a gente vê a tecnologia salvando vidas. Aí é impagável”. Os dados estão sendo consolidados de forma anonimizada para, quando o auge da pandemia passar, servir a pesquisas acadêmicas. Esse material tem importância estratégica. Apesar de existirem estudos semelhantes no exterior, o aprendizado de máquina dos serviços de prevenção ao suicídio depende de um profundo conhecimento do idioma local e do contexto de cada usuário.

A inteligência artificial ainda carece de granular idade para entender as intenções e angústias de cada indivíduo nas redes sociais – mas já parece capaz de identificar, com sofisticação, tendências de comportamento coletivo. O instituto de inteligência artificial da Universidade do Sul da Califórnia (USC) tabulou 700 milhões de posts e mais de 700 mil reportagens sobre a pandemia de coronavírus nos Estados Unidos. Encontrou indícios de piora na qualidade social no país inteiro, sobretudo a partir da segunda semana de março. Identificou áreas especificas desse declínio na Califórnia, em Nova York e em Virgínia. Em Michigan, os diálogos indicam sinais de depressão crescente. Na Geórgia, os posts sugerem que o uso e o vício em entorpecentes aceleraram a deterioração do bem-estar. ”Monitorar o vasto fluxo de palavras pode trazer indícios muito mais rapidamente do que as enquetes tradicionais”, afirma Amit Sheth, cientista da computação e diretor do instituto.

Profundo conhecedor da alma humana – ao menos em volume de usuários em suas redes sociais, com 12,5 bilhões no Facebook e 1 milhão no Instagram -, Mark Zuckerberg quer promover o bem-estar em tempos de coronavírus. “Me preocupa muito, pessoalmente a possibilidade de o isolamento das pessoas em casa levar a mais casos de depressão ou problemas mentais”, disse, ao anunciar o aumento da equipe dedicada a filtrar posts sobre suicídio e autoagressão. “Vejo o trabalho nessa área como algo relacionado aos primeiros socorros prestados por profissionais de saúde ou policiais. Portanto, temos de ajudar com rapidez.” Mark doou US$ 2 milhões a organizações de apoio psicológico em diversos países, entre eles o brasileiro CVV, além de apresentar, num lugar de destaque do Facebook, orientações de saúde mental dadas pela OMS. No Instagram, criou um alerta automático para hashtags ligadas a comportamentos autodestrutivos, além de acrescentar um botão para usuários informarem condutas estranhas de seus colegas. “Alguém viu seu post e pensa que você pode estar passando por momentos difíceis. Se precisar de suporte, podemos ajudar”, diz a mensagem enviada pela rede social.

No Brasil e nos Estados Unidos, a pandemia estimulou os governos a flexibilizar o atendimento psicológico remoto, e aqueceu ainda mais o setor de healthtechs. O Crisis Text Line – chatbot em inglês, sem fins lucrativos, apoiado por Melinda Gates e Steve Ballmer – viu o número de mensagens aumentar 40% em março. E a base já era alta: 100 milhões, num ritmo crescente desde 2013. No Canadá, o primeiro-ministro, Justin Trudeau, incluiu, no pacote de medidas contra o coronavírus, a promessa de investir US$ 170 milhões em serviços de atendimento digital. A startup americana LyraHealth conseguiu US$ 75 milhões em uma rodada de investimentos em março – e a concorrente Vida Health, US$ 25 milhões. Como costuma acontecer, o forte crescimento de um setor traz consigo a necessidade de regras, amadurecimento e depuração. Uma preocupação é a qualidade técnica do serviço usado para as consultas. “WhatsApp e Skype são boas ferramentas para conversar com a família, mas não atendem a protocolos internacionais de segurança, como o HIPAA (Gealth lnsurance Portability and Accoun Hability Act), afirma Tatiana Pimento, fundadora e CEO da Vittude, startup que, no ano passado, recebeu R$ 4,5 milhões em uma rodada de investimento liderada pelo fundo Redpoint eventures. “Assistência psicológica é algo muito sério e delicado, não bastam boas intenções”, diz Carolina Dassie, fundadora e CEO da Hisnek.”Perder

a conexão durante um atendimento pode ter consequências gravissimas, dependendo do paciente.” Outra preocupação é o embasamento científico dos métodos usados em assistentes digitais. No ano passado, a revista Nature publicou o estudo “Usando ciência para vender aplicativos: avaliação da qualidade dos apps de saúde mental”, que avaliou os 73 apps mais populares contra depressão, autoagressão, uso de entorpecentes, ansiedade e esquizofrenia. “A linguagem científica era a estratégia mais frequentemente empregada para ressaltar as promessas de eficácia. No entanto, faltavam evidências de estudos feitos especificamente com apps, e muitos aplicativos descreviam técnicas sem evidência clara na literatura”, lê-se no texto.

Organização mais preocupada com a harmonia de seus funcionários em todo o universo, a Nasa está investindo em inteligência artificial para detectar alterações no tom da voz ou na expressão facial, pura a futura viagem a Marte. “Vamos procurar qualquer mudança significativa de comportamento no sono, na irritabilidade e na cognição”, diz Gary E. Beven, chefe de psiquiatria do programa espacial americano. Ele não quer que seus tripulantes repitam, com um orçsmento de US$ 20 bilhões em jogo, o resultado de um treinamento feito pela agência russa: de seis voluntários confinados juntos por 17 meses, quatro desenvolveram distúrbios. Mas Gary quer robôs para ajudar, não para substituir a empatia humana. Seus astronautas em missão conversam com psicólogos pelo menos duas vezes ao mês e podem fazer, a qualquer momento, teleconferência com os parentes. Apoio profissional e carinho familiar ainda são a tecnologia mais avançada para a saúde mental.

E A PRESSÃO AUMENTA

A pesquisa Pulse Saúde Mental foi realizada pela Vittude em parceria com a Valpe. Foram ouvidos 6 mil funcionários de cerca de 120 empresas. Todos trabalhando em regime de home office. O levantamento teve como base o OASS-21 (Depression, Anxiety and Stress Scale), com 21 questões que medem, com base nos comportamentos e sensações dos sete dias anteriores, o grau de ansiedade, depressão e estresse. Para essa pesquisa, foram consideradas apenas as questões relativas ao estresse.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – I

MAL NECESSÁRIO

Fora de controle, a ansiedade pode fazer muito mal, porém ela é fundamental para a sobrevivência humana

Fugir de predadores, correr atrás de presas, se proteger de fenômenos naturais… Estes e outros empecilhos da vida do homem pré-histórico fizeram com que alguns instintos se desenvolvessem na raça humana em nome da sobrevivência. Um deles é a ansiedade, gerada por causa do medo em situações identificadas como de perigo iminente.

Apesar de o sentimento ser algo nato desde suas origens, cenários que despertam o estado de alerta parecem ser maiores hoje em dia, já que a civilização trouxe com ela problemas modernos, como o medo de perder o emprego, novas epidemias, violência, contas a pagar… Assim, o maior desafio nessa rotina frenética é saber interpretar de uma forma saudável tudo o que acontece ao nosso redor, evitando que o gatilho da ansiedade dispare por motivos insignificantes.

UM LEÃO POR DIA

“Sentir medo é um estado neurofisiológico que ocorre naturalmente e possui a função de preparar o organismo diante de uma situação real, ameaçadora e perigosa à vida. Nessas circunstâncias, o organismo se prepara para enfrentar o perigo, como fugir ou se proteger”, explica a psicóloga Lígia Venturineli. Diferentemente dos homens da caverna, hoje em dia não é preciso colocar a vida em risco ao ir atrás de um javali para o jantar. Contudo, homens e mulheres precisam enfrentar outros problemas, praticamente “matando um leão por dia”, ainda que este leão não ruja – mas gera um medo enorme. “É natural sentirmos ansiedade frente a situações novas, quando estamos prestes a alcançar um objetivo importante, uma grande conquista”, esclarece a psicóloga Cleunice Menezes.

Quando o simples receio e a ansiedade pelo desafio comprometem o bem-estar, eles se tornam a verdadeira ameaça, gerando um transtorno mental que não escolhe sexo ou idade.

FORA DE CONTROLE

A expectativa exacerbada sobre o futuro faz com que surja a sensação de que algo ruim vai acontecer, sem que você tenha absolutamente nenhum domínio sobre isso, em outras palavras: transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

Basicamente, a ansiedade é entendida como um sintoma disfuncional que gera um conjunto de sensações físicas e psicológicas, como medo e tensão que naturalmente surgem perante uma situação identificada pela mente como perigosa ou de sofrimento iminente. “Transtorno de ansiedade é caracterizado quando o indivíduo apresenta respostas cognitivas, comportamentais, emocionais e fisiológicas relacionadas a preocupações e medos exagerados a determinadas situações ou eventos que ainda não aconteceram”, explica Lígia.

De acordo com o psiquiatra João Jorge Cabral, a ansiedade se inicia devido a um fator estressante: “estresse é um estado emocional que desequilibra o organismo, já um fator estressante é o que provoca esse desequilíbrio. Por exemplo: uma doença, uma separação, a morte de um ente querido, mas também coisas simples, como o barulho de um despertador. Para cada pessoa, existe um ponto para aguentar um fator estressante que, quando ultrapassa, gera uma ansiedade a nível patológico, podendo levar ao transtorno de ansiedade generalizada ou à síndrome do pânico”.

PROBLEMA REAL

Subestimado por muito tempo, por ser considerado exagero ou simplesmente algo temporário, o transtorno mental pode interferir em vários aspectos da vida social e profissional. Atualmente, a ansiedade fora de controle é categorizada como uma patologia, tanto que está presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) desde a década de 1980. A partir de então, o sentimento de alerta constante desdobrou-se em alguns outros males, como fobias, síndrome do pânico, além do próprio TAG.

Para se ter uma ideia de sua amplitude e interferência na rotina, a ansiedade está entre os problemas mentais que ocupam o terceiro lugar em motivos de afastamento do trabalho no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A ansiedade passa a fazer mal quando o indivíduo não consegue realizar pequenas atividades do dia a dia por acreditar que possa ter uma crise, ou seja, evita situações para não sentir os sintomas”, afirma Cleunice.

A SEU FAVOR

O transtorno de ansiedade tem tratamento, podendo até ser curado. No entanto, a ansiedade em si jamais desaparecerá, já que é algo nato. O importante, portanto, é aprender a conviver com ela de forma saudável. “É natural sentirmos ansiedade e, em alguns momentos, certo medo de que as coisas não funcionem tão bem quanto desejamos, mas é importante enfrentarmos o receio. Essa ansiedade pode ser uma mola propulsora para realizarmos nossos objetivos e desejos”, enfatiza a psicóloga Cleunice.

Lidar bem com o sentimento, na realidade, é algo que deve ser feito desde sempre para que o transtorno não se instale.

NO CÉREBRO

Apesar de ainda existir quem acredite que o transtorno de ansiedade não passe de “frescura”, a ciência prova que é algo muito sério – tanto que há ações químicas no cérebro.

Uma das reações da ansiedade no organismo é a maior produção de adrenalina e noradrenalina, hormônios neurotransmissores que atuam como disparos elétricos no cérebro, na comunicação entre os neurônios. “A produção desses neurotransmissores acontece em situações de perigo e estresse reais ou imaginárias, atuais ou que ainda não aconteceram”, conta a psicóloga Lígia. São eles os responsáveis por deixar o corpo em estado de alerta, preparado para enfrentar o perigo. É desta reação que se originam os sintomas físicos de uma crise de ansiedade, como aceleração dos batimentos cardíacos e rigidez muscular.

Além de preparar o corpo para algo que a mente acredita ser arriscado à sobrevivência, o distúrbio sem controle ainda pode comprometer permanentemente outras esferas do organismo, como explica a psicóloga Cleunice: “A ansiedade e o estresse crônico podem afetar áreas do cérebro que influenciam a memória a longo e a curto prazo e a produção química, que podem resultar em um desequilíbrio emocional”, Pessoas que sofrem com a ansiedade ainda possuem dificuldades para adormecerem, o que acarreta uma redução significativa de concentração nas atividades diárias.

Apesar dessas alterações, até então, não foram encontradas modificações fisiológicas no cérebro.

PRINCIPAIS SINTOMAS DO TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG).

SINTOMAS FÍSICOS:

Dor de cabeça, dor de estômago, rigidez muscular, insônia, suor frio, boca seca, ânsia, tremores, tontura, aceleração dos batimentos cardíacos, pupilas dilatadas, respiração ofegante, falta de ar.

SINTOMAS COGNITIVOS:

Preocupação excessiva, atenção prejudicada, irritabilidade, pensamentos de “e se eu não conseguir”, “e se der tudo errado”, “não vai dar certo”, “vou morrer”, “não vão gostar de mim” ou “uma tragédia vai acontecer”.

SINTOMAS COMPORTAMENTAIS:

Evitar situações, roer unhas, dificuldade para falar e tomar decisões, comer compulsivamente, sensação de impotência perante acontecimentos, isolamento social, nervosismo, etc.

EU ACHO …

PAISAGEM INFERNAL

Descobertas que fiz durante a pandemia

Este será o verão de um imenso descontentamento. Enquanto escrevo, nossa redação ainda está fechada e a pandemia avança. É nessas condições que quero compartilhar alguns itens recentes que encontrei por acaso. Como diz o ditado: “um homem pode trabalhar de sol a sol, mas o trabalho de uma mulher provavelmente não será compensado na mesma medida que o de um homem, e seu salário como uma porcentagem da média em seu campo provavelmente diminuirá se sua profissão passa por uma transição para uma maioria feminina.”

Para obter exemplos desse fenômeno, consulte o artigo intitulado “Quando uma especialidade vira ‘trabalho feminino’: tendências e implicações da segregação de gênero na medicina”, publicado na Academic Medicine. Os autores são Elaine Pelley e Molly Carnes, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin-Madison. Hoje, essa origem elitista é motivo instantâneo para que muitos de meus compatriotas se recusem a prestar atenção, pois fala a um certo nível de conhecimento e experiência que eles acham cada vez mais, sabe, irritante.  Apesar das credenciais das autoras, vamos ouvi-las. Elas observam que “em 1975, quando as mulheres eram 22% dos pediatras, um pediatra ganhava 93% do salário médio de um médico em1 975, mas em 2017, quando 63% dos pediatras são mulheres, um pediatra ganha apenas 71% do salário médio de um médico”.

Outro caso: “Os salários em obstetrícia e ginecologia eram 20% e 25% maiores do que o salário médio de um médico em meados dos anos 1970 e 1980, quando a participação feminina era de 8% e 18%, respectivamente. No entanto, em 2017, quando a participação feminina nessas carreiras alcançou 57%, um obstetra / ginecologista recebe o mesmo que um médico médio. “Enquanto me perguntava sobre as implicações éticas dessas disparidades financeiras, encontrei um artigo de 2016 dos filósofos Eric Schwitzgebel e Joshua Rust intitulado “O comportamento dos estudiosos de bioética”.

Eles basicamente tentam determinar se os especialistas profissionais em ética se comportam de maneira mais ética em suas vidas pessoais do que outras pessoas (para facilitar o acesso aos indivíduos pesquisados, as outras pessoas eram filósofos não especializados em ética e professores de outras disciplinas). E eles descobriram que os especialistas em ética não trazem trabalho para casa: “Em média, o comportamento dos especialistas profissionais em ética é indistinguível do comportamento de grupos controle de professores em outras áreas”. Essa descoberta faz sentido para mim porque um tempo atrás participei de um simpósio de ética médica e tive um insight: Satanás seria um ótimo especialista em ética. Para estabelecer o curso de ação mais perverso numa situação, ele teria que realizar uma avaliação abrangente que também revelaria a melhor escolha de política. Saber o certo do errado é, portanto, uma condição necessária, mas insuficiente para o bem, e o capeta poderia escrever excelentes artigos sobre ética antes de incendiá-los.

Falando em inferno, um estudo publicado na edição de 3 de agosto da revista Current Biologi; revelou que a grande maioria dos membros de uma espécie de besouro, Regimbarlia attenuata, realizam uma façanha literalmente mortal após serem engolidos por várias espécies de sapos. O besouro aparentemente nada até conseguir sair pelo traseiro do sapo. Porque, como outro axioma diz, “Se você está passando pelo inferno, continue passando”. Para. descobrir se a passagem do inseto era ativa ou passiva. os pesquisadores imobilizaram alguns besouros cobrindo-os com cera antes de irem para a boca do inferno, ou melhor, do sapo. Nenhum desses besouros sobreviveu. Parafraseando o lendário autor de ficção Harlan Ellison (que definitivamente teria criado este protocolo experimental se tivesse vivido o suficiente): eles realmente não querem abrir a boca e devem gritar.

*** STEVE MIRSKY

OUTROS OLHARES

CAMINHO SEM VOLTA

As histórias das mulheres que mataram seus parceiros para preservar a própria vida

Três anos se passaram, mas a estudante Mel Silva, de 27 anos, ainda tem a impressão de que foi ontem o dia em que se sentou de frente para o júri popular no Tribunal de Justiça de Goiás, na condição de ré, por ter matado um homem que havia tentado estuprá-la. O crime ocorreu em 21 de março de 2011, e ela, então com 17 anos, se preparava para ir ao curso noturno de recursos humanos que tinha começado poucos meses antes. Mel e o irmão haviam chegado havia três meses do Pará para estudar na capital de Goiás e viviam sozinho numa quitinete no Setor Pedro Ludovico, bairro da região sul da cidade. O restante da família ficou em Parauapebas, a 1.465 quilômetros de Goiânia.

Os irmãos tinham como vizinho de frente um homem de 52 anos. Naquele dia, Mel foi até ele pedir emprestado um martelo para prender um varal no teto da cozinha, pois ela notara que suas roupas estavam sumindo quando as deixava secando do lado de fora. Ao devolver o martelo, Mel contou que ele pediu que ela entrasse e deixasse o objeto em cima da mesa. “Dei dois passos e ele já veio atrás de mim, colocou uma faca em meu pescoço e trancou a porta. Depois, me levou para o quarto. Em seguida, começou a rasgar minha roupa com a faca”, contou ela. Ao tentar se defender, Mel travou com ele uma luta corporal em que conseguiu tomar dele a arma e, em seguida, o esfaqueou. Quando ele caiu, ela, ensanguentada, pegou a chave e abriu a porta, mas desmaiou.

Mel acordou com policiais a seu redor. Presa em flagrante, contou ter sido ofendida com frases como: ”Agora não é mais tão valente, não é?”. “Ninguém se preocupou se eu estava ferida. Só me levaram para a delegacia e me trancaram como um bicho”, relembrou. A jovem ficou presa por oito dias enquanto seus pais reuniam recursos para pagar um advogado que pudesse entrar com um pedido de habeas corpus. A estudante foi denunciada pelo Ministério Público de Goiás por homicídio doloso qualificado e, sem dinheiro para pagar sua defesa, terminou representada pela defensora pública Ludmila Mendonça, que presenciou suas audiências no Tribunal do Júri. Ela contou que o promotor do caso fazia perguntas que sugeriam que a jovem teria dado motivos para a investida sexual. “Por que você foi entregar o martelo?” e “Que tipo de roupa você usava?”, foram algumas das frases proferidas pelo promotor José Eduardo Veiga Braga Filho, segundo Mendonça. Ao final, Mel foi absolvida por 4 votos a 3, mas ainda hoje é chamada de assassina. ”O fato de Mel estar viva e ter conseguido sobreviver àquela situação faz com que eu seja vista como um monstro”, disse. Procurado, o promotor enviou uma nota dizendo que havia a “convicção de· que ela teria criado a situação que resultou na morte do vizinho e que não há confirmação da perícia técnica sobre a versão apresentada por ela”. O promotor ainda vaticinou: ”O objetivo era provar que a ré tentou atrair a vítima e criar, de forma premeditada, uma situação, que culminasse em seu assassinato”.

No primeiro semestre de 2020, houve um aumento de 1,9% nos casos de feminicídio no país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A alta, atribuída em parte à pandemia, evidencia que, ainda que os últimos anos tenham sido de avanços na conscientização e no combate à violência contra a mulher, ainda é muito, difícil traduzir esse progresso em uma queda visível nos números. Desde 2016, primeiro ano inteiro de vigência da lei que tipificou o crime de feminicídio, o Brasil teve um aumento acumulado de 43% no número de casos. Também nos seis primeiros   meses deste ano foram 147.379 chamados ao 190 para atender ocorrências de violência doméstica, contra 142.005 nos seis meses iniciais de 2019.

Essa subida revela não só a perene situação de vulnerabilidade feminina, como expõe as mulheres a um outro tipo de crime: com o aumento das agressões, elas são mais frequentemente sujeitas a episódio em que terminam matando para salvar a própria vida.

Não existe uma estatística oficial sobre os casos de mulheres julgadas ou que aguardam julgamento por crimes dessa natureza. Segundo a cineasta Sara Stopazzolli diretora do documentário Legítima defesa, que mais tarde deu origem a um livro sobre o mesmo tema, lançado pela Darkside Books, foram mapeados para a produção do filme, em 2016, cerca de 50 casos ocorridos nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. A maioria já havia sido julgada. “Parti do zero, lendo processos judiciais, conversando com defensores e funcionários dos fóruns, e descobri que casos de mulheres que tomaram uma atitude extrema para sobreviver existiam, sim, e muito”, relata a cineasta na introdução de seu livro, lançado em agosto deste ano. Ouvimos outras mulheres como Mel, levadas aos tribunais por terem matado em legítima defesa, e depois absolvidas. Em comum entre elas há o histórico de agressões, os sentimentos contraditórios, quando a vítima é o parceiro de anos, e o machismo que presenciam ao serem acusadas e julgadas, na maioria das vezes, por homens.

A assistente social Úrsula Francisco faz planos de cursar Direito, mas há pouco mais de dez anos ela quase integrou a estatística das mulheres que perdem a vida assassinadas por seus companheiros.  Ela tentou construir uma família com o marido, que era policial militar na Baixada Fluminense.  Casaram-se em 1998. Mas não demorou para que ele se mostrasse possesivo e violento. Ela contou que, para camuflar as agressões, ele colocava uma toalha de pano ao redor da mão antes de iniciar os espancamentos. Em outras ocasiões, ligava música alta na casa para impedir que os vizinhos escutassem os gritos de Úrsula. Algumas vezes também pedia que a mulher tocasse piano para ele, depois de apanhar, para “acalmá-lo”. Úrsula disse ainda que ele a obrigava a sentar-se no portão de casa junto a ele e ao filho do casal, nos fins de tarde, posando para a rua como uma família unida, para que os vizinhos não desconfiassem das agressões. “Nenhuma vez eu registrei ocorrência. Ele dizia que se eu desse queixa ele ia me matar. Como ele era policial, eu não duvidava”, contou a assistente social, que hoje comanda um posto de saúde em Nova Iguaçu.

A agressividade escalou até se transformar em ameaças de morte. No fatídico dia 5 de fevereiro de 2008, durante uma discussão o marido foi até o banheiro, onde guardava uma de suas pistolas. Ao vê-lo buscar a arma, Úrsula alcançou a segunda pistola do policial, que estava no quarto. Ele próprio a havia ensinado a atirar sob o pretexto de que a vida da família poderia um dia depender do uso da arma. “Tive poucos segundos para pensar. Eu sabia que era eu ou ele. Quando atirei eu perdi um pouco do raciocínio”, disse. O filho do casal, que estava fora de casa na hora do crime, chegou justamente quando a arma da mãe disparou.

Em choque, Úrsula imediatamente saiu da casa com o filho. No dia seguinte, se entregou. Sua rua se encheu de policiais indignados com a mulher que havia matado o companheiro de farda. Em um ano, ela contou ter se mudado de casa sete vezes com medo de retaliações. Por sete anos aguardou o desfecho do caso. A primeira denúncia do Ministério Público (MP), em 2008, baseada no inquérito policial, dizia que o assassinato teria acontecido de maneira livre e consciente e sem possibilidade de defesa da vítima. Só em 2015 o MP reconheceu a rotina de agressões e a legítima defesa, o que resultou em sua liberação, sem a necessidade de ir a júri popular. Hoje, como assistente social, ela orienta outras mulheres que passam por situação parecida.

A defensora Glauce Maués, que atuou na defesa de Úrsula, relembra que um dos pontos chave do caso foi o depoimento do filho do casal, que levantou a blusa durante uma audiência para mostrar as marcas de espancamento que também sofria do pai. Segundo Maués, o juiz a puxou pelo braço e disse: “Não vou mandar essa mulher para o júri, não quero saber, ela sai hoje inocentada”. Na fase de pronúncia, o promotor acabou pedindo a absolvição e o caso foi encerrado antes de ir a júri. “Sou capaz de contar nos dedos de uma mão quantos promotores eu vi desistirem da acusação desse tipo de crime na primeira fase. É muito comum ir a júri”, contou a defensora. Úrsula foi inocentada por legítima defesa.

Mesmo quem é treinada para agir em situações-limite também pode se ver vulnerável diante de um agressor. Foi o caso de Vânia Nascimento, de 45 anos, que trabalha como guarda municipal em São Paulo. Alta, de porte atlético e vaidosa, Vânia concedeu entrevista em sua casa, em São Paulo, num dia de folga do trabalho, usando um vestido preto e com as unhas pintadas de vermelho.  Pouco lembrava a mulher que quase foi morta pelo companheiro apenas três anos antes, depois de um rompimento. Ele era motorista de aplicativo e sempre foi ciumento – ainda que, segundo Vânia, até o dia do crime ele nunca houvesse deixado o ciúme escalar para a agressão.

Os dois estavam juntos havia 11 anos e ele era sete anos mais jovem. Nos últimos meses de convívio, no entanto, a relação se desgastou e Vânia contou ter sugerido a separação, sobretudo depois de descobrir que o parceiro vinha espionando seu telefone e suas redes sociais. No rompimento, ele não demonstrou descontrole. Mas, numa noite em que Vânia saiu com um grupo de amigas para uma festa, recebeu mensagens violenta do ex. “Sua desgraçada, você acabou com a minha vida. Você vai ver como você vai ficar”, escreveu ele, em mensagens que posteriormente foram apresentadas à polícia. Vânia inicialmente achou que o rompante era uma tentativa de chamar sua atenção. Quando chegou em casa, espantou-se ao vê-lo chegar logo depois, portando a chave que mantivera após a separação. A filha do casal não estava – só a primogênita, que é filha de um relacionamento anterior de Vânia.Vânia não desconfiou que a visita poderia resultar numa agressão. Contou que, depois de ouvir suas reclamações, deixou o ex-companheiro na sala, sentado no sofá, e foi para o quarto. Ele a seguiu, sentou-se na beira da cama e disse que não tinha para onde ir. Ela não demonstrou muito interesse no que ele tinha a dizer e virou as costas. Nesse momento, ele pegou uma das armas que ela guardava perto da cama e atirou pela primeira vez. ”Quando ele me deu o primeiro tiro, eu me senti um nada, um lixo”, desabafou. Mesmo ferida, Vânia alcançou a pistola que tinha guardada no guarda-roupa e disparou, acertando cinco tiros no ex-parceiro, que acabou morrendo no local. Ela fraturou o braço, quebrou costelas e tem uma bala alojada nas costas. Os exames e laudos foram todos anexados ao processo, que ainda corre na Justiça. No caso de Vânia, ainda não se sabe se a legítima defesa será reconhecida, já que o inquérito sobre o crime não, foi concluído. Ou seja, se a Justiça não reconhecer suas provas, ela pode ser condenada e presa por homicídio. O MP-SP disse que o caso segue em fase de inquérito e que não se pronunciaria.

Diferentemente de Vânia, que não via indícios de que uma agressão poderia transcorrer, a massoterapeuta Ana Raquel Trindade, de 35 anos, contou ter registrado mais de dez boletins de ocorrência em Florianópolis, Santa Catarina, contra seu ex- patrão, que ela afirma ter sido obcecado por ela. Os relatos da obsessão incluíam crimes de estupro, agressão e ameaça. E mesmo com todos os informes oficiais protocolados na delegacia, o agressor nunca foi investigado ou    alvo de qualquer investida da polícia. Dez meses antes do crime, o Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher negou um pedido de medida protetiva feito por ela. A razão? Só havia a “palavra” dela para “sustentar o pleito”.

Temendo que as investidas continuassem, ela decidiu comprar uma arma ilegalmente para se defender. Em 16 de novembro de 2014, ele foi até a casa dela e forçou o portão para entrar. Conseguiu. Ela então pegou a arma e atirou aleatoriamente várias vezes. Acertou nove balas, e ele morreu dias depois. Ana Raquel foi presa e ficou 24 dias na cadeia até obter um habeas corpus. Em 2016, ela também foi levada a júri popular e absolvida, com a chancela do MP. “No contexto, em razão de tudo que aconteceu, mesmo que ela tenha desferido uma grande quantidade de tiros, ela agiu moderadamente, a legítima defesa ficou caracterizada”, afirmou o promotor Andrey Amorim.

Ana Raquel hoje briga por uma indenização de R$ 100 mil do estado de Santa Catarina, que ignorou seus pedidos de ajuda. Em primeira instância, a ação foi negada, em 2018. A juíza Andresa Bernardo, da 1ª Vara de Fazenda Pública, escreveu que ”não havia nenhum dever jurídico específico do Estado perante a autora, sendo que a situação de ser mulher e estar em condição de vulnerabilidade e fragilidade não é suficiente para constituir tal hipótese”. Em suma, a juíza não viu nenhuma falha do Estado ao não atender ao pedido de socorro em face dos boletins de ocorrência por ela registrados.

Em alguns casos, um dispositivo que não está na lei, mas já foi usado para inocentar homens que cometeram feminicídio no passado, agora tem sido aplicado em favor de mulheres que matam para escapar da violência.

Trata-se da “inexigibilidade de conduta diversa”, uma tese supralegal, construída com base em várias jurisprudências e empregada de forma controversa em casos em que o autor supostamente não poderia ter agido de outra forma diante das circunstâncias. Tal tese é alvo de infindáveis debates jurídicos e foi discutida mais recentemente após o lançamento do podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que reconta o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo empresário Doca Street. No primeiro julgamento de Street, em 1979, sua defesa usou a figura jurídica da “inexigibilidade de conduta diversa”, argumentando que o crime fora cometido em “legítima defesa da honra” do assassino, que ele teria agido sob ”forte emoção” por suspeita de uma traição”. Dois anos depois, em 1981, o processo foi revisto e um novo julgamento transcorreu, em que Street foi condenado a 15 anos por homicídio doloso, tendo ficado preso em regime fechado por apenas quatro anos.

Esse mesmo argumento de inexigibilidade foi usado pela defesa da cabeleireira Jadielma dos Santos Silva, de 35 anos, para livrá-la de uma condenação por ter matado o marido há oito anos. Sua história de abusos remonta logo ao início da relação. Natural de Arapiraca, em Alagoas, ela chegou a São Paulo em 2000, ainda com 14 anos, para trabalhar num salão de beleza. Descobriu, contudo, que o futuro patrão queria não só uma funcionária, mas também uma mulher. Ela discordou da proposta e voltou para a casa dos pais. Mas a pobreza enfrentada no Nordeste a fez reconsiderar a ideia anos depois e tentar a vida com o patrão, 25 anos mais velho.

Ao longo de quase oito anos juntos, entre 2004 e 2012, ela teve quatro filhos em um ambiente que descreve como inferno. Ele a obrigava a ficar em casa, sem dinheiro e sem celular e proibia que ela arrumasse o cabelo, pintasse as unhas ou usasse maquiagem. O sentimento de posse   constantemente resultava em violência física. A cabeleireira não sabia como fazer para denunciar os maus tratos e desconhecia políticas públicas que ajudam mulheres em sua situação. Segundo o defensor Renato de Vitto, que acompanhou o caso anos depois, ela por mais de uma vez acionou a Policia Militar nos momentos de briga, mas o marido nunca era levado, ainda que houvesse testemunhas dos atos de violência.

Jadielma contou que sempre que ela ameaçava sair de casa, o marido revidava dizendo que mataria os filhos. Desesperada com a rotina de agressões, numa noite de setembro de 2012, ela decidiu tomar medidas extremas, pondo fim à vida do marido. Primeiro o dopou. Depois, o enforcou com uma corda. Jadielma foi presa e aguardou na cadeia por um ano até obter um habeas corpus. Em outubro do ano passado, um tribunal do júri em São Paulo a absolveu por “inexigibilidade de conduta diversa”. Seu caso era mais complexo que os demais. A ela não poderia ser concedida a legítima defesa porque a morte do marido não decorreu de uma ação imediata iniciada por ele, já que ele havia sido dopado. Jadielma, portanto, premeditou o crime. Ainda assim, ao verificar o caso, e diante de todo o histórico de violência, o próprio Ministério Público em São Paulo concordou com a absolvição. “Há situações em que não cabe a legítima defesa. É uma tendência positiva os jurados entenderem isso. Naquelas circunstâncias, não seria exigível pedir que ela permanecesse calada, sob ameaça de continuar sendo agredida indefinidamente”, argumentou De Vitto, o defensor.

Em caso de violência, ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher do governo federal.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE DEZEMBRO

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá (Salmos 27.10).

A dor do abandono é cruel e avassaladora. Há pessoas machucadas porque foram rejeitadas desde o ventre materno. Há aquelas que nunca se sentiram amadas por seus pais. Há as que foram traídas e abandonadas pelo cônjuge. Há pais que são abandonados pelos filhos e jogados num asilo. O apóstolo Paulo, preso em Roma, sentiu-se abandonado por Demas, quando mais precisava dele. O abandono dói, fere a alma. Paulo foi abandonado na prisão e em sua primeira defesa ninguém foi a seu favor. Jesus foi abandonado no jardim do Getsêmani, e todos os seus discípulos fugiram. Seus amigos podem abandonar você. Sua família pode abandonar você, mas Deus jamais o abandonará. A Bíblia diz: Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá. Também diz: Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama…? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti (Isaias 49. 15). Deus ama você. Ele estará com você e carregará você em seus braços. Jesus diz: … E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mateus 28.20b).

GESTÃO E CARREIRA

DEFESA E ATAQUE

A pandemia mostrou a Florian Hagenbuch, fundador da Loft, que a crise exige mais do que um bom jogo de cintura dos gestores

Sou um grande fã de futebol. Acredito que o esporte nos revele ensinamentos táticos e estratégicos aplicáveis no mundo dos negócios. Não há um grande time com uma ótima defesa e um ataque perna de pau nem há um campeão com um ótimo ataque cuja defesa se mostra uma peneira. Os dois mindsets coexistem, sempre, em uma dança fluida, na qual cada parte ganha mais importância de acordo com o contexto. Logo, o que faz com que grandes times, grandes técnicos e grandes jogadores se destaquem e conquistem coisas incríveis é justamente a sabedoria de dosar, de distribuir forças e recursos entre o ataque e a defesa de maneira estratégica, dependendo da batalha disputada no momento.

Em tempos de crise, como a que vivemos hoje devido ao coronavírus, essa dança e essa distribuição são tensionadas ao extremo. Logo após a erupção da pandemia, muitos fundadores de empresas de tecnologia, inclusive eu, não tiveram outra opção a não ser adotar rapidamente o esquema tático defensivo. O foco, naquele momento, estava na sobrevivência e na necessidade de adaptar as providências de segurança das pessoas envolvidas na nossa operação a uma situação inédita. Ao mesmo tempo, precisávamos poupar os recursos da empresa o máximo possível, enquanto se ganhava a visibilidade da extensão dos danos humanitários e econômicos.

Algumas empresas estavam mais ou menos capitalizadas e outras mais ou menos alavancadas operacionalmente, o que fazia com que as decisões refletissem a gravidade da situação de cada uma. O objetivo era claramente não perder. Durante essa experiência percebemos que a duração da predominância desse mindset pode ditar a forma como – e a força com a qual – cada time sairá ”do outro lado”. Acredito que o segredo esteja na dosagem e na velocidade da mudança de chave.

Recentemente, em um dos encontros mensais que promovemos em nosso clube do livro na Loft, discutimos Shoe Dog. A obra conta a história da fundação da Nike, uma empresa que é o resultado da sobrevivência a diversas crises. Um de seus princípios originais, publicados em 1977, é ”We’re on offense. All the time’. A companhia, que por vezes teve de dar tudo de si apenas para sobreviver, esteve sempre também no ataque. Em outro desses encontros, lemos a obra-prima de nosso investidor, Ben Horowitz: The Hard Thing ahout Hard Things. Nela, Horowitz expõe seu framework de ”peacetime vs. wartime CEG’. Segundo ele, tempos de paz e tempos de guerra requerem estilos de gestão radicalmente diferentes. Poderia um CEO ter o skill set para ambas as situações e conseguir transitar entre elas? A resposta teórica é sim, apesar de ser bastante difícil na prática.

De acordo com Ben Horowitz, para poder transitar entre os dois estilos, é necessário entender todas as regras para saber quando segui-las e quando quebrá-las. Afinal, para muitas das situações que vivemos (a covid-19, por exemplo) e para muitas empresas de tecnologia, não há precedentes: há, e apenas pode haver, o improviso educado, a ação e a adaptação rápidas. Acredito que tenhamos sido rápidos em adotar a tática de defesa na Loft no surgimento da crise da covid-19 no início de março. A pandemia me deu, pela primeira vez, a oportunidade na Loft de ”jogar na retranca” e, ao mesmo tempo, a chance de entrar no modo wartime CEO. Vivi na pele a analogia do futebol: não existe uma função isolada da outra. Foi preciso mudar de tática constantemente, até no mesmo dia, no auge da tempestade.

Além de aprender sobre uma nova realidade – de extrema incerteza-, era preciso aprender sobre mim mesmo e sobre minha forma de gestão e, mais do que tudo, me adaptar (e readaptar) rapidamente. Ao mesmo tempo que me adaptava e aprendia, eu me surpreendi com a velocidade de adaptação de nosso time. Dois de nossos valores predominaram: ”win together’ e ”getit dane’. Naquele momento, estávamos 80% concentrados na defesa e 20% no ataque, e essa distribuição foi fundamental. Nosso foco era entender as dores de nossos clientes nesta nova realidade. Reorganizamos processos, encontramos oportunidades de redução de custos significativas, dosamos investimentos em nossos diferentes produtos e modelos de negócios, preparamos diversos cenários de previsão de caixa. Enquanto isso, os 20% permitiam que fizéssemos nossa primeira venda 100% online e até lançássemos dois produtos: empréstimo com imóvel em garantia e assessoria imobiliária.

De lá para cá, fui mudando gradualmente o foco, passando em determinado momento para um mindset 50% na defesa, 50% no ataque. Mais recentemente, conforme aprendemos e ganhamos mais visibilidade sobre onde estamos pisando, tenho me aproximado do cenário inverso ao do começo: 80% no ataque, 20% na defesa.

Um artigo da gestora NFX que li recentemente – It’s time to start playing offense – define bem esse mindset. Segundo o autor, ataque é assumir riscos e pensar em como sair mais forte da crise – quais são as jogadas mais arriscadas que podemos tomar, enquanto a opção da retranca pura atrai outros agentes do mercado? Vejo o cenário fluido: a todo momento, somos confrontados com novas informações e novas realidades. É possível que tenhamos de nos adaptar novamente a uma maior predominância da defesa, assim como é possível que aceleremos o ataque. O resumo que me guia neste momento vem de outro trecho do artigo da NFX: ”O mercado de hoje é, simultaneamente, mais perigoso e mais vantajoso do que qualquer outro visto anteriormente”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONTÁGIO NOS SONHOS

Como a pandemia de Covid-19 está mudando o nosso sono

Para muitos de nós, a vida no mundo da covid-19 dá a sensação de termos sido jogados em uma realidade alternativa. Vivemos dia e noite entre quatro paredes. Temos medo de coisas que chegam às nossas portas. Se nos aventuramos pela cidade, usamos máscaras. Temos problemas para discernir rostos. É como viver em um sonho.

A covid-19 já alterou nosso mundo dos sonhos: o quanto sonhamos, o quanto lembramos deles e até a natureza dos sonhos. No início deste ano, quando foram adotadas diretrizes de isolamento, a sociedade inesperadamente experimentou o que estou chamando de uma onda de sonhos: um aumento global nos relatos de sonhos vívidos e estranhos, muitos relacionados ao coronavírus e ao distanciamento social. Termos como sonhos de coronavírus e pesadelos de covid surgiram nas redes sociais. Em abril, as mídias sociais e tradicionais começaram a divulgar a notícia: o mundo está sonhando com a covid-19.

Embora grandes mudanças nos sonhos tenham sido relatadas nos EUA depois de eventos extraordinários como os ataques de 11 de setembro de 2001, um aumento dessa magnitude nunca tinha sido documentado. Essa disparada nos sonhos é a primeira a ocorrer globalmente, e a primeira a acontecer na era das mídias sociais, o que torna os sonhos rapidamente acessíveis para estudos imediatos. Enquanto um “evento” de sonhos, a pandemia é semprecedentes.

Mas que tipo de fenômeno é esse, exatamente? Para descobrir, Deirdre Barrett, professora da Universidade Harvard, iniciou uma pesquisa on-line acerca dos sonhos da covid-19 na semana de 22 de março. Erin e Grace Gravley, artistas da Área da Baía de São Francisco, lançaram o Dream of Covid, com um site de arquivos e ilustrações dos sonhos da pandemia. A conta @CovidDreams começou a operar no Twitter. Kelly Bulkeley, psicóloga e diretora do Banco de Dados do Sono e dos Sonhos, veio a seguir com uma pesquisa com 2.477 americanos adultos. E minha ex-aluna de doutorado Elizaveta Solomonova, junto com Rebecca Robillard, do Instituto Real de Pesquisa sobre Saúde Mental, e outros realizaram uma pesquisa respondida por 968 pessoas. Os resultados documentam um acentuado aumento nos sonhos, em sua diversidade e em seus efeitos sobre a saúde mental.

A enquete de Bulkeley revelou que, em março, 29% dos americanos lembravam mais de seus sonhos do que o habitual. Solomonova e Robillard descobriram que 37% das pessoas tiveram sonhos com a pandemia, muitos marcados por temas como não realizar tarefas adequadamente (tais como perder controle de um veículo) e ser ameaçado por outras pessoas. Muitos posts refletem essas descobertas. Uma pessoa relatou no Twitter: “Sonhei que retomava como professora substituta no outono, despreparada. Os estudantes tinham dificuldades para praticar o distanciamento social e os professores não conseguiam programar aulas ou encontros individuais.” Outra pessoa escreveu: “Meu celular tinha um vírus e postava muitas fotos aleatórias da minha câmera no Instagram e minha ansiedade estava em seu ponto máximo”.

Estudos mais recentes viram mudanças qualitativas nas preocupações com a saúde e as emoções dos sonhos. Relatos de sonhos de brasileiros em isolamento social tinham alta proporção de palavras relacionadas a raiva, tristeza, contaminação e higiene. A mineração de textos de relatos de 810 finlandeses mostrou que os agrupamentos de palavras estavam sobrecarregados por ansiedade; 55% eram diretamente sobre a pandemia (falta de respeito ao distanciamento social, pessoas mais velhas com problemas), e essas emoções predominavam entre as pessoas que sentiam o estresse aumentar durante o dia. Um estudo com cem enfermeiras recrutadas para tratar pacientes de covid-19 na China revelou que 45% tiveram pesadelos – o dobro da taxa de pacientes em ambulatórios psiquiátricos chineses e muito acima dos 5% da população em geral com problemas de pesadelos.

Parece claro que alguma dinâmica básica biológica e social teve um papel nessa abertura inédita das comportas oníricas. Pelo menos três fatores podem ter acionado ou sustentado a disparada dos sonhos: a interrupção dos períodos de sono aumentam o sono REM (de Movimento Rápido dos Olhos) e, portanto, os sonhos; ameaças de contágio e distanciamento social pesam sobre a capacidade dos sonhos de regularem as emoções: e a mídia e as redes sociais amplificam a reação do público à disparada.

MAIS SONO REM, MAIS SONHOS

Uma explicação óbvia é que os padrões de sono mudaram de repente quando as quarentenas entraram em vigor. Os primeiros informes demonstram níveis elevados de insônia na população chinesa, em especial nos trabalhadores na linha de frente. Porém, as ordens para ficar em casa, que removeram as longas viagens para o trabalho, melhoraram o sono para muitos. Chineses entrevistados relataram um aumento médio de 46 minutos na cama e 34 minutos a mais no total de sono. Cerca de 54% das pessoas na Finlândia disseram dormir mais depois do lockdown. Entre 13 e 27 de março, o tempo de sono nos EUA aumentou quase 20%.

Mais sono leva a mais sonhos; em laboratórios de sono, pessoas que dormem mais de 9.5horas lembram mais de seus sonhos do que se dormirem oito horas. Dormir mais tempo aumenta proporcionalmente o sono REM, que é quando ocorrem os sonhos mais vívidos e emocionais. Agendas menos rígidas também podem ter postergado os sonhos na parte da manhã, que é quando o sono REM prevalece e os sonhos ficam mais estranhos. Tuítes sobre sonhos refletem essas qualidades: “eu estava cuidando de uma recém-nascida com covid… era tão vívido e real.” O aumento dos sonhos em intervalos REM no fim da manhã resulta da convergência de vários processos. O sono tem ciclos entre os estágios profundo e leve a cada 90 minutos, mas a pressão por sono REM aumenta à medida que a necessidade de sono profundo e recuperador é progressivamente satisfeita. Enquanto isso, um processo circadiano, que se relaciona com o ritmo da temperatura de nosso corpo em 24 horas, confere um estimulo abrupto à propensão ao sono REM no fim do período de sono e se mantém elevado durante a manhã.

Desde que a pandemia começou, muitas pessoas dormem mais e mais tarde. Na China, o horário médio de ir para cama atrasou-se, em média, 26 minutos, mas o horário de se levantar se atrasou 72 minutos. Esses valores foram de 41 e 73 minutos na Itália e 30 e 42 minutos entre universitários dos EUA. E, sem o tempo de transporte, muitas pessoas ganharam tempo livre na cama para relembrar seus sonhos. E, à medida que eliminara m eventuais déficits de sono, as pessoas aumentam suas chances de acordarem de noite e lembrarem demais sonhos.

FUNÇÕES DOS SONHOS SOBRECARREGADAS

O Tema de muitos sonhos da covid-19 reflete diretamente ou metaforicamente os temores de contágio e os desafios do distanciamento social. Mesmo em épocas normais, sonhamos mais com novas experiências. Por exemplo, pessoas matriculadas em cursos de francês logo sonham sobre o francês. Repetir fragmentos de experiências é um exemplo do papel funcional que os pesquisadores atribuem ao sonho e ao sono REM: eles nos ajudam a solucionar problemas. Outros papéis incluem consolidar eventos do dia anterior em memórias mais duradouras, encaixar esses eventos em uma narrativa de nossas vidas e ajudar-nos a regular emoções.

Pesquisas já documentaram diversos casos de sonhos que auxiliaram feitos criativos. Estudos empíricos também mostram que o sono REM ajuda na resolução de problemas que exigem acesso a variadas associações de memória, o que pode explicar por que tantos sonhos na onda de 2020 envolvem tentativas criativas ou estranhas de lidar com o problema da covid-19. Um participante de uma pesquisa disse: “Eu estava buscando um tipo de creme que evitaria ou curaria a Covid-19. Eu coloquei minhas mãos na última garrafa”.

Duas outras funções atribuídas ao sonho são as de extinguir memórias de medo e simular situações sociais. Elas estão relacionadas à regulação da emoção, e ajudam a explicar por que as ameaças da pandemia e os desafios do distanciamento social aparecem com tanta frequência nessa onda de sonhos. Muitos sonhos relatados na mídia incluem reações de medo ligado à infecção, às finanças e ao distanciamento social. “Eu testei positivo para gravidez e covid… agora estou estressada”. Ameaças podem tomar a forma de imagens metafóricas como tsunamis ou alienígenas; zumbis são comuns. Imagens de insetos e outras pequenas criaturas também são bem representadas: “Meu pé estava coberto de formigas e 5 ou 6 viúvas-negras estavam grudadas na sola do meu pé”.

Uma forma de entender imagens diretas e metafóricas é considerar que sonhos expressam as principais preocupações de um indivíduo, aproveitando memórias que são semelhantes no tom emocional, mas diferentes no assunto. Essa contextualização é clara em pesadelos pós-traumáticos, em que a reação da pessoa a um trauma, como o terror durante um assalto, é representada como o terror diante de um desastre natural, como um tsunami. Ernest Harlmann, pesquisador pioneiro que estudou sonhos após os ataques de 11 de setembro, estipulou que essa contextualização ajuda as pessoas a se adaptarem, ao entrelaçar experiências antigas e novas. A integração bem-sucedida produz um sistema de memória mais estável, que resiste a traumas futuros.

Imagens metafóricas podem ser parte de um esforço construtivo para dar sentido a eventos perturbadores. Um processo relacionado é a eliminação do medo pela criação de novas “memórias de segurança”. Essas possibilidades, que eu e outros investigamos, refletem o fato de que as memórias de eventos apavorantes quase nunca são reprisadas nos sonhos em sua inteireza. Ao invés, os elementos de uma memória surgem de forma fragmentada, como se a memória original fosse reduzida a unidades básicas. Essas partes se recombinam com memórias e cognições mais recentes para criar contextos em que as metáforas e outras justaposições incomuns de imagens parecem incompatíveis com a vida real. E, mais importante, são incompatíveis com sentimentos de medo. Esse sonhar criativo produz imagens de segurança que se sobrepõem e inibem a memória do medo original, ajudando com o tempo a atenuar a angústia.

Porém, esse mecanismo pode se quebrar depois de traumas severos. Nesses casos, surgem os pesadelos em que a memória apavorante é reprisada de forma realista; os elementos recombinantes criativos da memória estão travados. O impacto final da pandemia nos sonhos de uma pessoa vai depender do seu grau de trauma e resiliência.

Um segundo tipo de teoria pode explicar os temas de distanciamento social, tais como os que permeiam os relatos em IDreamofCovid.com. As emoções nesses sonhos variam de surpresa a desconforto, de estresse a horror. Tuítes ilustram como os cenários dos sonhos são incompatíveis com o distanciamento social – tão incompatíveis que costumam provocar um raro momento de conscientização e despertar: “Nós estávamos celebrando algo em uma festa. E eu acordei porque alguma coisa estava errada já que não devemos fazer festas por causa do distanciamento social”.

Essas teorias focam a função de simulação social do sonho. A visão de que sonhar é uma simulação neural da realidade, análoga à realidade virtual, é agora amplamente aceita, e a ideia de que a simulação da vida social é uma função biológica essencial está crescendo. Em 2000, Arme Germain, agora executiva-chefe de medicina do sono da start-up Noctem, e eu propusemos que asimagens de personagens interagindo com o self em sonhos poderia ser básico a como o sonhar evoluiu, refletindo vínculos de relações essenciais à sobrevivência de grupos pré-históricos. Os fortes laços interpessoais reiterados durante o sonho contribuem para fortalecer as estruturas do grupo, ajudando a organizar asdefesas contra predadores e a cooperação na solução de problemas.

Outros pesquisadores, como Antti Revonsuo, da Universidade de Turku propuseram desde então funções sociais adicionais para o sonho: facilitar a percepção social (quem está em torno de mim?), a leitura da mente social (o que eles estão pensando?) e a prática da habilidade de criar vínculos sociais. Outra teoria apresentada por Mark Blagrove, da Universidade de Swansea, postula que, ao compartilhar sonhos, as pessoas reforçam a empatia com os outros. A lista de funções do sonho deve continuar crescendo à medida que aprendemos mais sobre os circuitos do cérebro na base da cognição social e o papel que o sono REM desempenha na memória para estímulos emocionais, faces humanas e reações à exclusão social. Como o distanciamento social é, de fato, um experimento de isolamento social cm um nível nunca visto – e é provavelmente antagônico à evolução humana – um choque com mecanismos dos sonhos profundamente enraizados deve ser evidente em larga escala. E como o distanciamento social perturba tão profundamente as relações normais, as simulações sociais nos sonhos podem desempenhar um papel crucial para ajudar famílias, grupos e até sociedades a lidarem com uma adaptação social repentina e generalizada.

A CÂMARA DE ECO DA MÍDIA SOCIAL

Será que a disparada nos sonhos foi amplificada pela mídia? É bem possível que os posts iniciais sobre uns poucos sonhos tenham circulado muito, e alimentado uma narrativa sobre sonhos da pandemia que virou viral, influenciando as pessoas a lembrarem de seus sonhos, notarem os temas da covid e os compartilharem. Essa narrativa pode até ter induzido pessoas a sonharem mais com a pandemia.

As evidências sugerem que as notícias na mídia tradicional provavelmente não dispararam o aumento dos sonhos, mas podem ter amplificado seu alcance, pelo menos temporariamente. As pesquisas de Bulkeley e Solomonova Robillard corroboraram uma clara onda de tuítes a respeito de sonhos em março, antes que as primeiras notícias sobre esses sonhos aparecessem; de fato, as primeiras histórias citavam várias sequências de tuítes como fontes da notícia.

Quando as histórias surgiram, foi detectado um crescimento nos relatos de sonhos em @CovidDreams e IDreamofCovid.com até o início de abril. Além disso, durante a primeira semana, 56% dos artigos no noticiário apresentavam entrevistas com a mesma cientista de sonhos de Harvard, o que pode ter influenciado leitores a sonharem com os temas repetidos por ela em várias entrevistas.

A onda começou a declinar no fim de abril, assim como o número de artigos na mídia tradicional, sugerindo o fim dos efeitos de câmara de eco. Resta saber qual é a natureza final da onda. Até que as vacinas ou os tratamentos para a covid-19 estejam disponíveis, e com a possibilidade de outras ondas de infecção, as ameaças da doença e do distanciamento social devem persistir. A pandemia pode ter gerado um aumento duradouro na capacidade humana de lembrar dos sonhos? Será que as preocupações com a pandemia podem se infiltrar permanentemente nos sonhos? Se sim, essas alterações vão ajudar ou prejudicar a adaptação das pessoas ao futuro pós-pandemia?

Certas pessoas poderão precisar de terapeutas. Os dados das pesquisas usados neste artigo não se aprofundam nos detalhes dos pesadelos. Mas alguns profissionais de saúde que viram muito sofrimento têm agora pesadelos recorrentes. E alguns pacientes que ficaram em UTIs por dias ou semanas sofreram pesadelos terríveis neste período, o que pode, em parte, ser resultado de medicações e falta de sono induzida pelos procedimentos hospitalares ininterruptos e barulhos. Esses sobreviventes vão precisar de ajuda de especialistas para recuperarem o sono normal.

Pessoas que estejam apenas um pouco assustadas com seus sonhos de covid também têm opções. Novas tecnologias como reativação de memória direcionada estão oferecendo às pessoas mais controle sobre as narrativas de seus sonhos. Por exemplo, aprender como praticar o sonho lúcido – tornar-se ciente de que se está sonhando – com a ajuda de reativação da memória direcionada ou outros métodos pode ajudar a transformar sonhos preocupantes em sonhos mais agradáveis e até úteis. Simplesmente observar e relatar sonhos da pandemia parece ter impacto positivo na saúde mental, como Natália Mota, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, descobriu em seus estudos. Na falta de terapia, podemos nos permitir relaxar e desfrutar das horas extras de sono. Os sonhos podem ser incômodos, mas eles também são sugestionáveis, maleáveis e, às vezes, inspiradores.

EU ACHO …

ATIVIDADE FÍSICA E METABOLISMO

O exercício, panaceia moderna, começa a ter a sua fisiologia desvendada

Se existe uma panaceia na medicina moderna é a atividade física. São incontáveis seus benefícios: redução da mortalidade por doenças cardiovasculares, prevenção e controle do diabetes e da hipertensão, do número de casos de diversos tipos de câncer, da obesidade e de suas consequências, do declínio cognitivo associado ao envelhecimento e até do risco de desenvolver as formas graves da Covid-19.

Embora a prática de exercícios com regularidade diminua a mortalidade geral e o risco de doenças cardiovasculares, os mecanismos responsáveis por esses resultados são claros.

Mallhew Naylor e colaboradores do Massachusetts General Hospital acabam de publicar na revista Circulation um estudo para avaliar os padrões da arquitetura da resposta metabólica ao exercício em seres humanos.

Foram realizados testes da função cardiopulmonar e do perfil metabólico antes e depois de alguns minutos de exercício extenuante (em bicicleta estacionária), entre os participantes do Framingliam Heart Study, uma corte dessa cidade próxima de Boston, que vem sendo acompanhada há décadas para avaliar os fatores envolvidos nas doenças cardiovasculares.

As idades variaram entre 46 e 61 anos (média= 53). Do total, 63% eram mulheres. Os participantes tiveram 588 metabólitos dosados no sangue colhido antes e depois de pedalar à exaustão (em média 12 minutos). Em 502 houve mudança do perfil induzida pela atividade física.

Os níveis de metabólitos presentes na circulação antes da prática do exercício guardaram relação direta com o preparo físico anterior. As alterações induzidas pela atividade física incluíam redução das concentrações de metabólito implicados na resistência à insulina (que predispõem ao diabetes), aumento daqueles relacionados com a lipólise (envolvidos na “queima” de gordura), na biodisponibilidade de óxido nítrico e do tecido adiposo marrom, entre outros fatores relevantes para o risco cardiometabólico.

Essas modificações variaram de acordo com a quantidade de exercício realizado, o sexo e o índice de massa corpórea. O impacto na produção de alguns metabólitos protetores foi menor nos participantes que estavam na faixa da obesidade e mais alto nas mulheres, mesmo quando praticaram exercícios menos intensos.

Com base nas respostas obtidas com o exercício foi possível identificar quatro “assinaturas” metabólicas, duas das quais associadas à mortalidade geral. Num período médio de observação de 2,3 anos. Os autores concluem que, em indivíduos da comunidade -, exercícios intensos, mesmo quando praticados por um período curto, são capazes de causar alterações no metabolismo centrais à saúde de cardiometabólica e a proteção contra doenças cardiovasculares.

A diferença entre as panaceias egípcias, greco-romanas e as mais populares da Idade Média, prescritas durante séculos sem evidências de eficácia e do mecanismo de ação, o exercício físico, panaceia moderna, começa a ter a sua fisiologia desvendada.

*** DRAUZIO VARELLA

OUTROS OLHARES

NÃO TEM BOI NA LINHA

Produtos vegetarianos e veganos que imitam o sabor de carnes viram moda nas classes A e B e ganham espaço nas gôndolas

As carnes, aos poucos, estão saindo dos pratos de um grupo maior de pessoas. As razões e a intensidade variam. Para alguns, evitar o sofrimento dos animais é um motivo bom o suficiente. Outros usam argumentos que ligam a produção de carne ao aquecimento global. A maioria lembra dos benefícios à saúde trazidos pela diminuição do consumo de proteína animal. O que, num passado não muito distante, era conversa de bicho-grilo, agora tem o apoio de celebridades. Da cantora Beyoncé ao piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, passando pelas tenistas Serena e Vênus Williams, não falta quem fale das vantagens de tirar ou evitar carnes na hora das refeições. Não é por nada que movimentos como o Segunda sem Carne ganharam popularidade mundo afora.

No Brasil, um parâmetro para medir a força dessa tendência é o aumento da procura por proteínas plant based, nome dado a produtos que tentam imitar o sabor da carne usando apenas vegetais. “O surgimento de startups que passaram a investir em tecnologia para substituir hambúrgueres tradicionais foi o pontapé inicial da expansão desse mercado”, disse Rodrigo Godoi, especialista da consultoria Euromonitor lnternational. A primeira geração dos alimentos de proteína vegetal era praticamente composta de soja. O panorama começou a mudar há três anos, com a inovação, mas a variedade aumentou de fato mais recentemente, com produtos plant based mais similares a proteínas como frango, linguiça suína e bife bovino.

É essa variedade que tornou as opções mais atrativas ao público de modo geral e chamou a atenção de grandes marcas de alimentos tradicionais e de gigantes varejistas. Elas não estão interessadas apenas no público formado por vegetarianos e veganos, ainda pequeno, embora em crescimento. “As empresas estão de olho no cliente sazonal, que come carne, mas que, por estar preocupado com nutrição e bem-estar, também consome alternativas porque quer reduzir o consumo de proteína animal para comer menos gordura, controlar colesterol, evitar hipertensão, ou mesmo por preocupações ambientais”, afirmou Godoi. Um em cada quatro consumidores brasileiros tem a intenção de reduzir o consumo de carne, segundo levantamento da Euromonitor feito neste ano.

A rede de supermercados Pão de Açúcar decidiu no ano passado dar maior visibilidade à linha de produtos vegetarianos e especialmente aos substitutos de carne para verificar se a demanda por eles tinha potencial, segundo o gerente comercial da rede André Machado. “Havia essa tendência de crescimento no mercado externo enão sabíamos qual era o potencial do segmento no Brasil. Aqui é um mercado liderado pelas foodtechs, começamos com poucos produtos, mas tivemos uma demanda muito expressiva. No início, do consumidor de 16 a 31 anos e mais voltado para a qualidade dos produtos, não tanto ao preço”, disse ele.

A rede criou nas lojas um corredor de produtos “verdes”, mas também decidiu expor os substitutos de carne na área do açougue, próximo às carnes, o que aumentou as vendas. No Pão de Açúcar, a percepção é que a demanda deixou de ser restrita a um nicho. Durante o período da pandemia, cresceu 60% na comparação mês a mês, estimulada também pela ampliação do portfólio de produtos. “Queremos aumentar a variedade do cardápio, para que a pessoa possa viver de plant based todo dia da semana. Lácteos, carnes, embutidos, suínos, quibes, pescados, frango. Para isso, ampliamos os fornecedores. Hoje, trabalhamos com dez marcas e temos carne moída, almôndega, peixe e frango em opções vegetarianas”, salientou Machado. Hoje, todas as unidades da rede já têm ao menos algum produto do tipo nas gôndolas.

Apesar do sucesso inicial, os plant based não são para todos. O maior limitador do crescimento da categoria não é mais o sabor, mas sim o preço, ainda elevado. Com a entrada de grandes empresas e frigoríficos, os valores cobrados deverão cair, mas o preço médio de um substituto de carne congelada chega a RS 71 por quilo, em comparação a RS 20 da carne fresca, a depender do corte. É essa diferença que torna esse mercado restrito para as classes A e B.

A rede Carrefour também incorporou a categoria a suas gôndolas no Brasil, no âmbito de um movimento global feito pela companhia a partir de 2018. “O que a gente identifica é que o cliente de maneira geral fica muito curioso com essa categoria. Na pandemia, as pessoas ficaram mais em casa, tiveram de cozinhar e passaram a experimentar mais esses produtos”, disse Lucio Vicente, diretor de sustentabilidade do grupo.

A fabricante líder do segmento de substitutos de carne no país é a Fazenda Futuro, fundada em 2019. A empresa foi avaliada em RS 715 milhões e recebeu em setembro R$ 115 milhões em uma rodada de investimentos.

Inicialmente, a fábrica da marca foi projetada para produzir 100 toneladas mensais, mas a demanda crescente fez com que a capacidade fabril precisasse ser ampliada logo no segundo trimestre de operação, de acordo com o presidente e fundador da empresa, Marcos Leta. Hoje, a marca tem capacidade para fazer 600 toneladas ao mês. “Não competimos com outros produtos veganos e vegetarianos, mas sim com frigoríficos. Lançamos o hambúrguer e depois outros produtos, como frango e peixe à base de plantas”, afirmou ele. Segundo Leta, a marca já está hoje em 10 mil pontos de venda no Brasil. “Quase 95% de nossos consumidores são pessoas que gostam de carne e consomem carne todo dia e que vêm diminuindo o consumo de proteína animal durante a semana. É o que chamamos de flexitariano”, afirmou o executivo.

A marca faz 90% de suas vendas no Brasil, mas iniciou um programa de expansão internacional. Já exporta hoje para a Europa e começará a vender seus produtos nos Estados Unidos em fevereiro. A projeção é que a receita internacional chegue aos 50% do faturamento nos próximos anos.

A entrada de tradicionais marcas de frigoríficos nesse mercado não é vista pela Fazenda Futuro como uma ameaça. “Os grandes frigoríficos entram nesta categoria para estender suas linhas, mas seguem fazendo altos investimentos em terra, ração, gado, criação de pintinho, que precisam ser viáveis economicamente. Nós temos um propósito de eficiência. Se numa área do tamanho de uma quadra de futebol você consegue produzir alimentos para 14 pessoas com plantas, com boi, produz para uma”, disse.

Entre as grandes redes de fast-food, Pizza Hut e McDonald’s anunciaram internacionalmente o lançamento de opções de proteína plant based em seus cardápios. No McDonald’s, o primeiro hambúrguer vegetal criado pela empresa chama-se McPlant e foi testado em unidades da marca no Canadá ao longo de 2019. A rede afirmou que “os mercados podem adotar o McPlant quando estiverem prontos”, mas não deu mais detalhes sobre o cronograma de implementação no Brasil. A rede de fast-food já chegou a oferecer no exterior um hambúrguer vegetal em seu cardápio anteriormente, em parceria com a foodtech Beyond Meat, especializada em substitutos veganos para a carne. O McPlant, porém, foi desenvolvido pela própria marca. Já a Pizza Hut anunciou em 10 de novembro a produção das primeiras pizzas feitas com linguiças à base de plantas do mercado, disponíveis nos Estados Unidos e em algumas unidades da rede em Londres, no Reino Unido. A alternativa é uma parceria da marca com a Beyond Meat e começou com duas opções no menu, a Beyond Italian Sausage, pizza de queijo com picadinho de linguiça vegetal, e sua versão vegana, a Great Beyond. A Pizza Hut ainda não tem previsão para oferecer os produtos em suas unidades brasileiras.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE DEZEMBRO

O CÁRCERE ESCURO DA MÁGOA

O que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho (Salmos 15.3).

José do Egito foi vítima de muitas injustiças. Sofreu nas mãos de seus irmãos e de seu patrão. Passou treze anos da sua vida, dos 17 aos 30 anos, açoitado pelo vendaval das crises mais medonhas. Foi jogado num buraco escuro. Foi vendido como escravo. Foi acusado injustamente. Foi lançado numa prisão imunda. Mas jamais deixou seu coração azedar. A mágoa jamais teve permissão para se instalar em seu íntimo. José estava preso, mas sua alma estava livre. Deus restaurou a sorte de José, que foi exaltado à honrosa posição de governador do Egito. Com o poder nas mãos, ele poderia ter-se vingado dos seus irmãos, mas resolveu perdoá-los, dando-lhes o melhor da terra do Egito. José não só perdoou seus irmãos, mas também ergueu um monumento vivo do seu perdão, chamando seu filho primogênito de Manassés, cujo significado é “Deus me fez esquecer”. A mágoa escraviza, mas o perdão liberta. Quem não perdoa não tem paz. Quem não perdoa não pode ser perdoado. O perdão é a faxina da mente, a assepsia da alma, o grito de liberdade do coração. Tome a decisão de perdoar aos seus ofensores. Faça como José: se o seu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber!

GESTÃO E CARREIRA

MAIS HUMANIDADE

Empresas e profissionais sairão transformados pela crise do novo coronavírus. Por isso, as mentalidades terão de se transformar também

Vamos tirar muitas lições diante de toda a experiência que estamos vivendo com a pandemia do coronavírus. E isso vai ocorrer não apenas na dimensão pessoal, mas também nas relações de trabalho.

O home office é um bom exemplo. Ouvi várias vezes, durante os treinamentos que ofereço, líderes relutantes dizendo que não acreditam nessa forma de trabalho – algo comum para gestores que ainda estão no sistema de comando e controle, tendo certeza de que os profissionais só entregam resultados se estiverem trabalhando na frente do chefe.

Claro que a crise da covid-19 nos levou ao extremo: as pessoas foram obrigadas a ficar em casa, e as empresas (e as famílias) tiveram de se adaptar a esse cenário. Afinal, não ficamos no modelo tradicional de home office – os filhos estão ao lado demandando muita atenção das mães e dos pais, o que pode comprometer algumas das entregas.

Ficar integralmente isolado não é o melhor caminho, pois as equipes precisam trocar experiências para criar conexões e ter boas ideias. Mas é importante que as companhias pensem numa flexibilidade maior do modelo de trabalho. Acredito que ir de duas a três vezes por semana para o escritório seja o suficiente – ter esse equilíbrio pode ajudar as pessoas a ser mais produtivas e a conciliar as tarefas pessoais e as profissionais.

Em condições mais normais, o home office é visto corno um grande benefício. Tanto que, em um estudo realizado pelo lnternational Workplace Group (IWG) em 2019 com mais de 15.000 entrevistados, 83% disseram que o trabalho remoto era fator decisivo para continuar na empresa e 85% afirmaram se sentir mais produtivos com essa flexibilidade. Por isso, sugiro que, quando tudo isso passar, a liderança reflita sobre o home office e sobre outras práticas. É preciso urgentemente mudar os modelos mentais atrasados que ficaram tão em evidência durante a pandemia.

Há tempos a geração Z já demanda um novo modelo de trabalho, baseado na autonomia e nas entregas. Eles querem sentir que os gestores confiam em seu comprometimento pelos resultados apresentados, e não pela cobrança de estar fisicamente no trabalho durante 8 horas seguidas.

Esse olhar cria um ambiente mais dinâmico, produtivo e agradável, porque o empregador faz com que o funcionário se sinta empoderado e responsável por suas metas. Além disso, esse comportamento faz com que o empregado entenda conscientemente que seu trabalho é importante para a engrenagem da companhia girar – o que potencializa a sensação de pertencimento.

Mesmo diante dessa crise e das incertezas que a pandemia nos traz, existe um lado positivo: vejo cada vez mais pessoas humanizadas e sensíveis aos outros. Acredito que esses aprendizados serão refletidos nas corporações, com empregados e lideranças passando a valorizar e a entender as necessidades alheias – o que levará a um trabalho mais inclusivo.

CRIS KERR – É CEO da CKZ Diversidade, mestra em sustentabilidade e professora de diversidade na Fundação Dom Cabral

 criskerr@ckzdiversidade.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MORTE NAS FESTAS DE FIM DE ANO

Os parricídios são crimes que despertam muita curiosidade nas pessoas, justamente por serem, sempre, de extrema gravidade

Sempre nos chamou a atenção o fato de que nas datas festivas aumenta o número de crimes entre membros da família.

De modo especial, os parricídios (parere, parir; parricídio é matar os antecedentes) acontecem na época de Natal, passagem de ano, aniversários, bodas de casamento, dia dos pais etc. Há explicação plausível? Sim, considerando que esses eventos têm capacidade de mexer com os sentimentos das pessoas, podendo excitar a esfera timo-afetiva e despertar pulsões que, fora destas datas, estão em estado psíquico larvário. A afetividade fluindo anormalmente pode voltar-se para o interior do indivíduo, dando o narcisista, o egoísta, o depressivo e o seu grau máximo, o suicida (nas datas festivas também aumentam os suicídios); e pode voltar-se para o exterior do indivíduo, dando o exibicionista, o hipertímico, o hetero agressivo e o seu grau máximo, o homicida. Recorde-se que o tema está umbilicalmente ligado à literatura trágica, na qual o assassino é tido como mentalmente normal, ou seja, o parricídio é um ato consciente e desejado.

O crime seria o cumprimento de oráculos ou de ritos, como no combate de morte que permite aos jovens suceder o velho rei e pai. A luta entre eles refletiria o simbolismo da fecundação, uma vez que ao rei se imputam qualidades mágicas, divinas, capazes de manter viva e atuante a mística da fecundação e fertilidade dos corpos. Decaído o vigor físico, consequentemente, diminuiria a força mágico ­ mística e o todo poderoso rei teria que ceder o seu lugar ao jovem capaz de levar adiante o poder fecundador ligado à fertilidade da terra.

Recorde-se também que Sigmund Freud concebeu como pedra de base de sua doutrina o chamado complexo de Édipo, que é um parricídio, extraído da tragédia grega Édipo Rei: de Sófocles.

O “Pai da Psicanálise” concluiu que possivelmente o primeiro impulso sexual da criança se dirige para a mãe e o primeiro impulso de ódio se volta para o pai.

Então, Édipo, que mata o pai e desposa a mãe, realiza um dos sonhos da infância.

E os parricídios verdadeiros das manchetes de jornais, teriam embutido no psiquismo dos criminosos algo desses dramas gregos? A resposta é não, pois na prática os achados são bem diferentes. Os parricidas são, todos, sem exceção, portadores de sérios transtornos mentais.

E no caso de haver coincidência de datas festivas com o crime, esse fato deve ser visto como fator desencadeante do ato, e não fator determinante, o qual é sempre, como dito, sinal de grave deformidade psíquica.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

EU ACHO …

A FESTA

“Tudo certo para a festa de fim de ano? Precisa de alguma ajuda?”, pergunta o irmão à anfitriã. “Tudo certo”, ela diz. “Não, não vai precisar de mais nada. Já encomendei as bebidas e eles devem trazer tudo entre hoje e amanhã – preferi a entrega mesmo, para não ter de ir à loja. Sabe como é, todo mundo lotando loja no fim do ano para abastecer as festas, gente que não usa máscara direito e ignora o vidro de álcool em gel na porta. Ah, eu pedi para a empregada passar a noite aqui, ajudar a servir o jantar, lavar a louça, essas coisas. Cada um vai contribuir um pouco para que ela depois possa fazer uma bela ceia com os filhos e a mãe. Desse modo, vou te pedir também uma contribuição, tudo bem?” O irmão hesita, mas responde: “Tá, tudo bem. Só não posso dar muito porque ando apertado”.

Os dias se passaram, a anfitriã satisfeita que todos os convidados poderiam comparecer, inclusive as amigas da mãe, as três. As três mais idosas. Seriam umas 20 e poucas pessoas no total, mas o apartamento era arejado e, se estivesse muito quente, o ar condicionado daria conta. Com o ar condicionado, há ventilação, de modo que estaria seguindo todas as orientações de saúde.

Máscaras? Não, não era necessário. Tudo em família. E 20 e poucas pessoas não é, exatamente uma aglomeração, não é mesmo?

Dia desses a fulana contava que o jantar que fez para o marido tinha mais de 50. Isso, sim, é irresponsabilidade. Onde já se viu? Cinquenta pessoas no meio de uma pandemia? Sorte dela que não virou um covidário. Ou, como é mesmo que falam? Evento de superdisseminação? Não, estava tudo bem arranjando no caso da festa de fim de ano. Como seria bom estar com todos, rever os sobrinhos.

Ah! Mas teve aquele dia em que o sobrinho adolescente encontrou com o amigo no calçadão, o amigo que testou positivo logo depois. Ah, mas tudo bem, foi rapidinho, o encontro foi ao ar livre, os dois estavam de máscara. É verdade que a máscara estava debaixo do queixo, como a garotada faz; mas, imagina! O vírus não passa assim. Passa mesmo é pelos objetos tocados pelos outros, mãos sujas, mãos contaminadas, mãos pegajosas, mãos suadas, mãos de desconhecidos. É preciso esfregar, lavar, entornar todo o vidro de detergente, de álcool. As luvas! Onde estão as luvas?

É claro que o sobrinho foi ao jantar da família. Jantar de Natal? Ceia de Ano-Novo? Faz diferença? E, no momento em que os vemos, lá estão todos, extasiados com a exuberância da liberdade de celebrar juntos, embevecidos com o elixir da ignorância. Ignorância, pois o sobrinho se expôs, o sobrinho trocou ar com o amigo: deu a ele o seu, recebeu dele o dele. Contaminado. Naquele exato momento em que todos se reúnem – precisa dizer que estão sem máscara? – em torno da mesa com farta comilança, está o sobrinho exalando partículas virais para cima dos avós, dos pais, dos irmãos, dos tios, dos primos, das amigas da avó e, é claro, da empregada hipertensa, que naquela noite não está com a família. Ela, que mora apertada, que cuida dos filhos. Ela, que cuida da mãe idosa, mãe também hipertensa e que já sofreu AVC. A mãe que mora na mesma casa com os netos e a filha.

As partículas que o sobrinho exala são invisíveis e aquilo que os olhos não veem o coração não sente e a mente não registra. Não registra. Não registra a febre do avô, que aparecerá alguns dias depois. Não registra a tosse da tia, que aparecerá alguns dias depois. Não registra a contaminação do irmão mais novo, que não terá sintomas, mas que passará a noite na casa da outra avó dali a alguns dias. Não registra o susto dos meninos da empregada hipertensa ao chegarem em casa: a mãe estirada na cama, o suor lhe escorrendo pelo rosto, o esforço para respirar. Dali a alguns dias.

Essa não é uma história real, mas poderia ser. Outras, muito parecidas com ela, estão acontecendo todos os dias ao redor de todo o país e há várias semanas. As pessoas julgam-se irracionalmente invencíveis mesmo quando as mortes se amontoam e amigos e conhecidos padecem. Há até quem torça para ter logo Covid e assim se ver livre, livre. Livre a ponto de se gabar. Veja! Sou imune, não pego mais essa doença. Claro que ignoram os riscos de reinfecção. Pensar nessa possibilidade é demasiado inconveniente.

E assim vamos. Assim seguimos. Até o dia em que recebemos de nosso pai, mãe, avô, avó, o terrível telefonema.

“Oi. Vi agora na internet. Deu positivo.”

*** MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

MEDO DA AGULHA

Um movimento antivacina com foco na contra HPV mistura saúde, ciência, religião e política – um microcosmos do que pode acontecer com a imunização contra a Covid-19

No segundo sábado de novembro, um grupo de mães do Acre realizou a primeira assembleia da Associação Brasileira de Vítimas de Vacinas e Medicamentos (Abravac). Realizada com o aplicativo Zoom, a reunião marcou o início de um novo capítulo numa história sem data marcada para acabar. As fundadoras dizem que tudo começou quando suas filhas e, em alguns casos, também filhos tomaram a vacina contra o HPV, sigla em inglês para um vírus transmitido sexualmente que pode provocar câncer. A partir desse ponto, dizem as mães, os adolescentes e pré-adolescentes passaram a apresentar sérios problemas de saúde.

Uma jovem de 17 anos – ela prefere que seu nome não seja revelado – é uma das que sofrem com convulsões frequentes, dores de cabeça e fraqueza desde 2015, quando tomou a vacina. Sua família foi uma das primeiras a procurar o Ministério Público do Acre, em 2017, para relatar o que entende ser uma consequência da vacina. “Logo depois que a primeira mãe nos procurou, vieram mais três ou quatro. Em seguida, eram dez e, com o passar do tempo, foi aumentando mais e mais”, disse o promotor Gláucio Oshiro, responsável pelo caso. No último levantamento, havia 48 casos. “Minha filha tinha 12 anos quando tomou a vacina. Era esperta, gostava de esportes, de natação. Agora não anda mais sozinha, não deixamos fazer mais nada. Ontem mesmo ela teve uma convulsão. As convulsões não param. É dia sim, dia não”, disse a mãe.

Quando o Ministério da Saúde foi acionado para atuar em parceria com o governo do Acre, no primeiro semestre de 2018, os adolescentes já tinham passado por diversos médicos da rede pública e particular sem que fossem detectados problemas orgânicos. Decidiu-se, então, selecionar os casos mais graves. Isso foi feito entre o fim de 2018 e início de 2019. Um grupo de 16 viajaria até São Paulo para ser investigado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), centro de referência na América Latina. Quatro jovens se recusaram, mas 12 pegaram o avião e participaram dos testes coordenados pelos pesquisadores Renato Luiz Marchetti e José Gallucci Neto, diretor da Unidade de Videoencefalografia, especializada em atividade cerebral.

Além de exames clínicos e laboratoriais, os jovens foram monitorados constantemente por vídeos que registram e determinam a natureza de eventos suspeitos de epilepsia, alteração súbita do nível de consciência, coma, encefalite, desmaios, movimentos involuntários, alterações metabólicas, acidente vascular cerebral e estados catatônicos. Em outubro de 2019, ao fim do check-up, apenas um casal de irmãos foi diagnosticado com epilepsia de natureza genética, que costuma se manifestar na adolescência. Os outros dez casos foram classificados pelos especialistas como sendo de crises psicogênicas não epilépticas, conhecidas pela sigla CNEP, um fenómeno de origem psicológica. Ou seja, foi descartado qualquer problema com as vacinas contra HPV.

Os médicos da USP avaliaram que a CNEP coletiva foi desencadeada pelo medo do ato de vacinar, agravado por um ambiente predisposto contra a imunização e que disseminou insegurança. A demora no diagnóstico definitivo – foram quatro anos desde os primeiros casos – e condições psicossociais, como famílias disfuncionais, contribuíram para que o surto da doença psicológica se espalhasse. “É algo que pode ocorrer individualmente, quando, por exemplo, uma criança, tem medo da agulha. Mas também pode acontecer uma epidemia, em grupo. É uma situação bastante grave. É uma doença incapacitante”, afirmou Marchetti. Vídeos de adolescentes com crises compartilhados pelas redes sociais podem também ter influenciado outros jovens a apresentar os mesmos sintomas.

A falta de preparo e equipamentos dos profissionais de saúde que cuidaram desses casos no Acre antes da viagem a São Paulo só agravou a situação. Atendidos muitas vezes em unidades de pronto-socorro, alguns desses jovens chegaram a ser medicados com drogas para epilepsia e a ser internados. Houve casos até de intubação. Outras vezes, não receberam atenção por não apresentarem algo físico. “As crises não são falsas. Mas, por não terem fundo orgânico, muitos profissionais de saúde entendem como não sendo algo real”, disse o promotor Oshiro. Hoje pelo menos esse problema está sanado. Alysson Besten e Lins, secretário de Saúde do Acre, disse que foi montado um centro para atendimento dos adolescentes, com médicos, psicólogos e assistentes sociais. O maior obstáculo, segundo Lins, é que muitas famílias não levam seus filhos e filhas ao centro.

Quem achava que o diagnóstico feito pela USP encerraria a questão errou feio. Muitas mães simplesmente não aceitaram o veredito. Uma delas é a presidente da Abravac, Edilene dos Santos Conceição, mãe de M., hoje com 16 anos, que tomou a primeira dose da vacina contra HPV em 2015. Ela contou que os primeiros sintomas da filha foram dores e fraqueza nas pernas. Após a segunda dose, tomada em 2018, a adolescente começou a desmaiar. Conceição disse que relacionou o problema à vacina quando, na igreja Assembleia de Deus, ouviu o testemunho de uma fiel contando que uma parente havia ficado 40 dias na UTI, muito tempo na cadeira de rodas e sem enxergar quase nada. A família atribuía o problema ao imunizante e a cura a Deus. “Era um testemunho. Quando ouvi, fiquei atenta e angustiada. Pensei nos sintomas de minha filha”, disse Conceição. Em vários grupos conservadores se espalhou a ideia de que a vacina HPV, por combater um vírus sexualmente transmissível, estimularia o início da vida sexual dos adolescentes, uma suposição sem amparo em nenhum grupo de pesquisas respeitado pela comunidade científica.

No meio médico, a principal voz contra a vacina HPV e a favor das mães que negam o diagnóstico da USP é Maria Emília Gadelha Serra, que se tornou conhecida durante a pandemia do coronavírus ao propor aplicação retal de ozônio como tratamento. Serra disse que entrou no caso do Acre a pedido de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. “Ela pediu para eu ver o que acontecia no Acre”, disse Serra. Procurada, a ministra afirmou que não se manifestaria. Em outubro de 2019, Serra falou contra a vacina HPV a políticos na Assembleia Legislativa do Acre. No mês seguinte, a médica fez uma apresentação numa sessão da Comissão de Seguridade e Saúde da Câmara dos Deputados. Em ambas as ocasiões não faltaram teorias conspiratórias. Em conversa, Serra disse que o estudo da USP é uma “farsa” e defendeu que os adolescentes fossem submetidos a angiografia por ressonância magnética – que visualiza as veias e artérias. Marchetti, da USP, disse que o exame foi feito apenas nos casos em que era necessário para descartar o diagnóstico de hipertensão intra­craniana e que Serra usa um discurso pseudocientífico na tentativa de desacreditar a ciência. O advogado Lucas Loesch, diretor jurídico da Abravac, afirmou que a entidade não quer imputar culpa ou responsabilidade a ninguém, mas buscar mais de uma opinião sobre o caso das meninas do Acre. “Ouvir a opinião de um único instituto é frágil. Pelo menos três institutos de renome deveriam avaliar os casos”, disse Loesch, que espera que a entidade recém-criada receba doações para contratar novos estudos.

Na segunda semana de novembro, o Ministério da Saúde divulgou uma nota afirmando que fake news e tabus são um problema. Citando especificamente o caso da vacina contra HPV, o texto diz que a desinformação é um dos fatores que afastam os adolescentes dos postos de saúde. Com as vacinas contra o coronavírus chegando perto do estágio de aprovação, o medo de vários especialistas é que movimentos como o das mães do Acre contaminem o esforço de imunização que terá de ser montado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE DEZEMBRO

COMO EXPERIMENTAR PLENITUDE DE ALEGRIA

Tu me farás ver o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Salmos 16.1).

A felicidade existe e está ao nosso alcance. Não é apenas um destino aonde se chega, mas a maneira como se caminha. A felicidade não está num lugar específico, mas numa atitude definida. Jesus falou sobre a felicidade nas bem-aventuranças. O problema humano não é buscar a felicidade, mas contentar-se com uma felicidade limitada. Deus nos salvou para a maior das felicidades. A felicidade verdadeira está em Deus. É na presença de Deus que existe alegria superlativa e abundante. O principal propósito da nossa vida é conhecer e desfrutar da intimidade com Deus.  Nas bem-aventuranças, Jesus nos fala sobre um relacionamento correto com Deus, conosco mesmos e com o próximo. Somos felizes quando nossas relações estão harmonizadas. A felicidade que o mundo oferece é uma farsa, porém. O glamour do mundo é irreal. O sorriso que as pessoas estampam no rosto não passa de uma máscara. As taças doces do pecado são veneno que intoxica a alma. Os prazeres transitórios desta vida desembocam numa constante perturbação. A verdadeira felicidade está em Deus.  É na sua presença que encontramos plenitude de alegria e delícias perpetuamente.

GESTÃO E CARREIRA

A IGUALDADE É COLORIDA

Comunidade LGBTI+ ganha força na sociedade, mas ainda é vítima de muito preconceito, especialmente no ambiente corporativo. Mas já há bons exemplos a ser seguidos.

A crise do coronavírus aqueceu o debate em torno das pautas ligadas ao grupo LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Intersexuais e outros). Segundo levantamento da empresa de pesquisa Kantar, apenas em mensagens publicadas no Twitter nos cinco primeiros meses deste ano, houve um aumento de 100% em relação ao mesmo período de 2019, saltando de 2 milhões para 4 milhões de posts. Vale ressaltar, ainda, que outros temas relevantes à sociedade também são tratados com destaque nesses grupos. “Este ano, notamos a vontade do movimento LGBTI+ de se unir e reforçar as pautas das lutas das mulheres e da população negra”, observa Elder Munhoz, diretor de Operações da Divisão Insights da Kantar. “A pandemia também reforçou o apoio a marcas que são responsáveis, que olham além das vendas para atender melhor às comunidades internas e externas por meio de comportamentos positivos”, declara Munhoz.

As causas LGBTI+ ainda sofrem preconceito de grande parte da sociedade, mas já são bem mais aceitas do que num passado recente. O desafio, agora, é levar as empresas a incentivar e fomentar políticas de diversidade e inclusão no Brasil.

Especialmente, diante de uma taxa de desemprego de 12,6% no último trimestre, segundo o IBGE, e do fechamento de quase 5 milhões de postos de trabalho. Com o Dia do Orgulho LGBTI+ celebrado no domingo 28, o debate torna-se ainda mais oportuno. Na opinião de Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, a pandemia deu maior visibilidade à desigualdade no País. “Pessoas vulneráveis são as que mais estão sofrendo durante a crise econômica, social e política que vivemos”, diz Magri. Ele acredita que a sociedade brasileira vai sair desse processo com uma dívida ainda maior do que a que já existe em relação à população negra, das mulheres e do grupo LGBTI+.

“Se a crise leva as empresas a fazer cortes, isso, somado ao racismo e ao preconceito, as tornará mais masculinas e brancas, salvo as que já adotam políticas afirmativas.”

Um estudo realizado pelo Instituto Ethos, analisando o perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil, traz dados interessantes. A pesquisa aponta que a sub-representação e as dificuldades de ascensão na carreira são alguns dos principais problemas enfrentados por grupos como afrodescendentes, mulheres, pessoas com deficiência e o público LGBTI+. “Já houve avanços de inclusão de mulheres e negros, mas com predominância em cargos mais baixos”, diz Magri. Publicado em 2016, o estudo indicou que só havia um conselheiro afrodescendente entre as 500 companhias pesquisadas, enquanto a população brasileira é composta por 54% de negros. “A diversidade da população não se expressa nas empresas”.

CEO da Consultoria de Sustentabilidade e Diversidade Gestão Kairós, Liliane Rocha destaca que as companhias evoluíram muito na comunicação sobre o tema, mostrando seu posicionamento, fazendo palestras e envolvendo as comunidades. Entretanto, ainda têm muito a avançar em seus programas de diversidade. “É necessário construir metas e indicadores a curto, médio e longo prazos para a contratação, retenção e promoção dessas pessoas. Há muitas empresas bem posicionadas e com boas práticas, mas que não apresentam crescimento nos números de mulheres, negros e LGBTI+”, diz. Segundo ela, para que este crescimento ocorra, é necessário fazer censos demográficos internos, criar e escutar os canais de denúncia e colocar metas e indicadores para estabelecer uma curva ascendente. “Esse trabalho não pode parar”.

DIVERSIDADE E INCLUSÃO

Embora as previsões para o período pós-pandemia não sejam animadoras, algumas companhias têm se esforçado para colocar em prática a política de inclusão. Uma delas é a Sodexo, que atua na área de serviços de qualidade de vida e montou uma estratégia que engloba cinco áreas: Gênero, Cultura e Origens, Pessoas com Deficiência, Orientação Sexual e Identidade de Gênero e Gerações. Presidente da empresa no Brasil, Andreia Dutra afirma que diversidade e inclusão fazem parte do negócio e que isso influencia no crescimento sustentável. “Equipes diversas são mais engajadas, inovadoras, criativas e têm melhor desempenho”, declara. “Trabalhamos para criar uma cultura que englobe as diferenças e celebre ideias, perspectivas e experiências únicas em tudo o que fazemos.” Segundo ela, esses movimentos ajudam a criar uma cultura inclusiva dentro e fora da empresa para que, no futuro, não sejam necessárias políticas afirmativas para garantir a inclusão e a diversidade no mercado de trabalho.

Na Gerdau, o presidente, Gustavo Werneck, declara-se apaixonado pelo tema diversidade. “O Brasil é muito atrasada e preconceituosa”, afirma. Para ajudar a romper as barreiras em relação ao assunto, ele participa de reuniões com outros executivos, para abordar a questão dentro do programa CEO’s Legacy, da Fundação Dom Cabral, iniciativa que reúne executivos orientados para a construção de legados relevantes e sustentáveis. “Queremos influenciar companhias a criar planos de inclusão. O ideal é que fornecedores e clientes também avancem neste tema”, diz Werneck.

Ele considera que o setor de serviços tem evoluído no assunto. Já o segmento industrial, mais conservador e machista, ainda está muito aquém. “Qualquer empresa que disser que tem dificuldades para evoluir com a questão da diversidade está buscando desculpas para não avançar”. A Cisco é outra companhia que trata do assunto com a importância que ele merece. “Temos trabalhado muito o ambiente, o respeito e a inclusão”, diz o presidente, Laércio Albuquerque. Segundo ele, globalmente, 62% dos executivos da empresa fazem parte de grupos que se enquadram nas políticas de diversidade. “Quando se cria um ambiente genuíno de inclusão dentro da empresa, todos os funcionários ficam felizes e o ambiente de respeito aflora.” Esse conceito é ótimo e parece evidente. Só precisa ser adotado por mais empresas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – XI

PROMOVA O SEU BEM-ESTAR

Saiba como algumas estratégias rotineiras e mudanças alimentares podem ajudar você a vencer o pânico

Uma das características da síndrome do pânico é a forma repentina como se apresenta, causando sofrimento e desespero, muitas vezes, pelo fato de a pessoa não saber o que fazer. Assim, é importante que o paciente colabore com si mesmo com a tomada de atitudes benéficas para o tratamento.

Sem contar que, se todos os alimentos que consumimos causam algum impacto (tanto positivo quanto negativo) em nosso organismo e no dia a dia, isso vale também para o transtorne do pânico. Afinal, uma alimentação equilibrada é importante em diversos aspectos de nosso bem-estar, o que também se aplica à saúde mental.

Sendo assim, a seguir, você encontra algumas dicas das psicólogas Milena Carbonari e Jaqueline Muros que podem ser úteis nos momentos de crise e para o dia a dia do paciente, além de alimentos para incluir ou eliminar da dieta.

5 DICAS PARA AMENIZAR OS PICOS DE PÂNICO

PROCURE ENTRAR EM CONTATO CONSIGO MESMO

Quando um pensamento ansioso ficar muito intenso, causando a impressão de “vou morrer”, é importante respirar fundo e se lembrar de direcionar suas emoções e pensamentos. “Muitas vezes, estamos fora de nós mesmos quando alguns pensamentos negativos nos invadem.

Aprenda, com treino e, sobretudo, com paciência, a tomar as rédeas de si e direcionar a mente para onde, quando e o que desejar”, lembra Milena.

O AUTOCUIDADO É IMPORTANTE

Cuide-se! Não se esqueça de que é preciso atender às suas necessidades de lazer e descanso. “Fazer passeios simples ou grandes viagens, passar um tempo com pessoas que lhe fazem bem ou assistir a um bom filme são necessidades básicas que muitas vezes negligenciamos”, aponta Milena.

RITUAL PARA DORMIR

Preserve um ritual para esse momento. A televisão ligada durante toda a noite é um dos fatores que, geralmente, afeta o sono. Além disso, nesse período do dia, é indicado que as refeições sejam mais leves para que se tenha uma noite tranquila.

EXERCITAR-SE FAZ BEM

Insira práticas físicas adequadas ao seu dia a dia e consulte um médico para indicar os tipos ideais para suas necessidades. “Atividades físicas podem ajudar no reequilíbrio dos hormônios que provocam relaxamento e bem-estar”, comenta Milena.

A ROTINA PODE COLABORAR

Ter horários delimitados para determinadas atividades é importante tanto para o cotidiano quanto para as noites de sono. “Crie uma rotina de tarefas durante o dia e evite cochilos fora de hora”, lembra Jaqueline.

COLOQUE NO PRATO

CHOCOLATE

Aqui vale uma ressalva: os tipos mais recomendados são aqueles com 70% de teor de cacau ou mais. Isso porque estão presentes em maior quantidade substâncias importantes, como a tirosina (que estimula a produção de serotonina), além de minerais importantes como cobre, manganês e magnésio.

BRÓCOLIS

Esse vegetal é rico em ácido fálico, essencial para a liberação da serotonina.

ESPINAFRE E FOLHAS VERDE-ESCURAS

Aposte nos vegetais folhosos com essa cor. Eles possuem quantidades generosas de magnésio, nutriente que atua na produção de energia. Além disso, apresentam potássio e vitaminas A, C e do complexo B, que ajudam a manter o sistema nervoso tranquilo.

ALFACE

É uma importante aliada para controlar crises de ansiedade e pânico por conter lactucina, substância com propriedades calmantes.

FRUTAS OLEAGINOSAS

Nozes, castanhas, amêndoas e, principalmente, a castanha-do-pará são ricas em selênio, um antioxidante que auxilia na diminuição do estresse.

LARANJA, MARACUJÁ E JABUTICABA

Frutas ricas em vitamina C ajudam a prevenir o cansaço, combatem o estresse e dão aquele reforço no sistema imunológico. A jabuticaba também é rica em vitaminas do complexo B.

PEIXES E FRUTOS DO MAR

Algumas espécies de peixe, como salmão, sardinha, arenque e atum, além de camarões e lagostas, frutos do mar bastante consumidos, são ricos em ômega-3, um ácido graxo com diversos benefícios para o organismo.

PIMENTA

A capsaicina é a substância presente na pimenta que gera a sensação de ardência tão característica. Ela também faz com que o nosso cérebro produza mais endorfina, o neurotransmissor responsável pela sensação de euforia. As mais recomendadas, nesse caso, são a pimenta-de-cheiro, a vermelha e a malagueta.

EVITE CONSUMIR

CAFÉ

A cafeína presente no café (e também em bebidas como refrigerantes de cola e chás) excita os mecanismos do organismo, já que a substância age diretamente no sistema nervoso. Isso pode provocar uma descarga de hormônios do estresse, além de intensificar os sintomas de nervosismo e agitação. “O ideal é reduzir o consumo a uma xícara de café por dia e evitar outros alimentos que contenham a substância”, recomenda Fernanda Martins.

AÇÚCAR

Quando uma pessoa consome um alimento cheio de açúcar, ela “pode se sentir inicialmente eufórica, mas depois perceber um rápido choque e uma redução profunda em seu nível de energia, podendo levar à tontura e à dor de cabeça”, reforça Fernanda Marques.

ÁLCOOL

“Assim como o açúcar, o álcool é rapidamente absorvido pelo organismo e, da mesma forma, aumenta os sintomas de hipoglicemia após seu consumo”, explica Fernanda. Por isso, é importante consumi-lo com moderação, já que seu excesso pode aumentar a ansiedade e as oscilações de humor.

EU ACHO …

POR QUE OS PAÍSES ASIÁTICOS SE SAIRAM MELHOR NA PANDEMIA?

Oriente e Ocidente reagiram à pandemia como antípodas. Enquanto a China, a Coreia do Sul, o Vietnã ou o Japão têm tido sucesso no combate ao novo coronavírus, é eloquente o fracasso da Europa e das Américas – com destaque para os Estados Unidos de Donald Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. “A crise deixou o Ocidente mais fraco e a Ásia mais forte”, escrevem os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge em The wake-up call (Toque de despertar). “O Ocidente falhou miseravelmente no teste da Covid.” O que, perguntam, levou ao sucesso asiático? A tradição de Confúcio? A experiência com a Sars? Avanço científico e tecnológico? “Ou foi só porque conseguem gerir melhor um Estado moderno?”

A explicação mais comum para o contraste entre chineses e americanos diante do vírus é afirmar que “autocracias esclarecidas lidam melhor com problemas que democracias caóticas”. Não só por serem mais organizadas, mas por não terem pruridos em “aliar o punho cerrado à luva cirúrgica, adotando métodos a que as democracias resistem”. É uma explicação previsível, sedutora – e errada. O fato de os Estados Unidos terem se saído pior que a China nada prova. “Na batalha contra o vírus, houve democracias de alto desempenho, assim como autocracias de baixo desempenho. Por que não comparar a China a Coreia do Sul, Japão ou Taiwan? Ou Alemanha, Suíça e Nova Zelândia?”, questionam Micklethwait e Wooldridge.

A segunda explicação é atribuir o fracasso ocidental a líderes ineptos. É o caso de Trump recomendando injetar água sanitária para matar o vírus ou de Bolsonaro insistindo no besteirol do “tratamento precoce” à base de cloroquina e vermífugos. Não é uma explicação incorreta.

Um país governado por incompetentes desse jaez evidentemente tem menos chance de vencer uma pandemia do que aquele cujo vice-presidente é um epidemiologista, caso de Taiwan.

Mas é uma explicação incompleta. “Independentemente de quem estivesse no Salão Oval da Casa Branca, a crise da Covid-19 teria exposto as desvantagens dos sistemas americanos de saúde e de bem-estar.” No Brasil, a desigualdade de condições de saúde e habitação traria dificuldades ao mais iluminado ministro da Saúde.

Uma terceira explicação, frequente tanto na esquerda socialista quanto na direita nacionalista, é ver no combate ao vírus a demonstração de que é preciso aumentar o tamanho do Estado. Ideias antes desacreditadas, como política industrial (para garantir suprimentos médicos) ou renda mínima (para combater a pobreza), ganham mais e mais adeptos. Trata-se, naturalmente, de uma miragem, propagada por aqueles “que se divertem encaixando suas políticas preferidas na Covid-19 como se fossem enfeites numa árvore de Natal”. Para Micklethwait e Wooldridge, as “fantasias sobre renda básica não sobreviverão a uma era pós-pandêmica de cintos apertados”. A principal lição da pandemia, segundo os dois, diz respeito não ao tamanho, mas à qualidade do Estado.

“A principal característica dos países que lidaram bem com a Covid é simplesmente terem levado o governo a sério. Estudaram a arte de governar e modernizaram seus Estados”, afirmam. “Nossa esperança é que a pandemia, ao expor tantas fraquezas, forçará os governos ocidentais a embarcar num período de reformas.” É preciso trazer eficiência e talentos de volta ao setor público, com remuneração melhor e atrelada ao mérito, além de concentrar-se no que governos fazem bem. É preciso copiar o setor privado ou países onde o Estado funciona, como Cingapura, Nova Zelândia ou Dinamarca. É preciso que autoridades aprendam a levar uma vida frugal, sem mordomias. “É preciso dar aos funcionários públicos empregos vitalícios?”, perguntam. “Limitar o acesso à docência apenas a professores diplomados? Por que o governo precisa pagar pelas universidades, se os ganhos da educação se destinam predominantemente aos privilegiados?” As respostas são óbvias e já eram conhecidas antes da pandemia. O vírus apenas expôs a necessidade urgente de reformas no Estado, sobretudo nos países em que ele não funciona, como o Brasil.

John Micklethwait e Adrian Wooldridge, HarperVia 2020 – 176 páginas – US$18

HELIO GUROVITZ – é jornalista, editor de opinião do jornal O Globo

OUTROS OLHARES

A VOLTA DOS ANOS 70

Como acontece de tempos em tempos no universo fashion, as tendências do passado acabam voltando à tona: a moda agora são os anos 1970

Tudo começou com o retorno das calças boca de sino – agora chamadas de “Flare”. Daí vieram as estampas psicodélicas, os tamancos e os ternos com caimento mais folgado. A última coleção da grife italiana Gucci, uma das mais copiadas e desejadas do mundo, usa até filtros fotográficos para remeter à época de Woodstock. “O período de maior libertação que vivi aconteceu quando eu era criança, na década de 1970”, afirma o estilista Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci. “Continuo a recorrer a esses anos dourados porque, para mim, pessoalmente, simbolizam as reais sementes da mudança.” O fenômeno pode ser visto em outras marcas francesas consideradas mais conservadoras: a Louis Vuitton encheu suas bolsas de corações e a Dior adotou o crochê e os lenços na cabeça.

A volta ao estilo “paz e amor” também está nos vestidos floridos com recortes simples, bolsas de camurça ou de palha e fitas. Até a temática da época parece ter renascido – basta lembrar das letras anti-sistema de Bob Dylan ou da afirmação cultural negra dos penteados “Black Power”. A canção “Dreams” (“Sonhos”), hino geracional da banda setentista Fleetwood Mac, acaba de voltar às paradas mundiais. A razão é menos nobre do que se imagina: ela foi usada em muitos vídeos do aplicativo chinês TikTok, febre dos adolescentes globais. O hippie pode ter voltado a ser chique, mas sonhar não tem época, nem idade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE DEZEMBRO

SOLIDÃO, UM VAZIO NO MEIO DA MULTIDÃO

Volta-te para mim e tem piedade de mim… (Salmos 1 9.132a).

A solidão é um sentimento que tortura milhões de pessoas. No século da comunicação virtual, da internet e do telefone celular, quando tocamos o mundo com a ponta dos nossos dedos, somos assolados pelo drama da solidão. Entabulamos uma animada conversa virtual de uma hora via mensageiros instantâneos, porém não conseguimos mais sentar ao redor de uma mesa para um bate-papo de cinco minutos. Enfrentamos ruas congestionadas e somos acotovelados por uma multidão nas calçadas, no ônibus e no metrô, mas caminhamos entre essa multidão pela estrada da solidão. Pior que não saber conviver com o outro é não saber lidar consigo mesmo. Pior que não abraçar o outro, é não se sentir confortável na presença daquele que vemos no espelho. Gente precisa de Deus, mas gente precisa de gente. Você precisa de amigos. Você precisa de alguém com quem abrir o coração. Você precisa de um ombro amigo. Vale também dizer que o vazio da alma só pode ser preenchido por Deus. Nem mesmo as pessoas podem preencher essa brecha. O apóstolo Paulo estava numa masmorra romana, no corredor da morte, mas mesmo curtindo a dor da solidão e sofrendo o desamparo dos homens, tinha paz na alma por causa da assistência de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

RÁPIDOS E NADA FURIOSOS

Com a transformação digital em curso nas empresas, profissionais que atuam com metodologia ágil ganham espaço – e a área se torna cada vez mais promissora para o trabalho do futuro

Mantendo sua tradição em tentar prever (ou moldar) o futuro da economia e dos negócios, o Fórum Econômico Mundial publicou em janeiro deste ano o relatório Jobs of Tomorrow (“Empregos do amanhã”, numa tradução livre). Elaborado por cientistas de dados das empresas LinkedIn, Comsera e BurningGlass Technologies, o documento elenca as 96 profissões que elevem ganhar relevância nos próximos dois anos. As carreiras do futuro estão espalhadas em sete macrogrupos: vendas, marketing e conteúdo; saúde; dados e inteligência artificial; engenharia e computação em nuvem; desenvolvimento de produtos; economia verde; e pessoas e cultura.

Salta aos olhos a demanda por profissionais que tenham entre suas competências familiaridade com as metodologias ágeis. “Com a consolidação da Indústria 4.0, a adoção das metodologias ágeis será algo irreversível”, afirma Luciana Lima, professora de gestão de negócios e pessoas no lnsper. Ela avalia ainda que a adoção de tais procedimentos ágeis irá acontecer em todos os setores – as empresas se tornarão mais flexíveis para sobreviver e se adaptar às mudanças.

Baseado em uma série de valores e princípios, o Manifesto para Desenvolvimento Ágil de Software, feito por um grupo ele programadores americanos em 2001, é um dos documentos fundadores do movimento agile. No texto, os autores pregam protocolos mais flexíveis para fazer as entregas. “Hoje, tudo o que usa tecnologia é agile. Há gestão ágil em empresas de finanças, mídia, educação, saúde, logística, indústrias, varejo e até em governos”, afirma Luciana Lutaif, diretora de práticas e talentos da consultoria Accenture.

FACILITADORES

Dentre as carreiras elencadas pelo Fórum Econômico Mundial na categoria “desenvolvimento de produtos”, três estão diretamente relacionadas com as metodologias ágeis: product owner (em primeiro lugar da lista), agile coach (em terceiro) e scrum master (em sexto). De maneira sucinta, o product owner coordena uma equipe de desenvolvedores e tem a responsabilidade de construir e entregar o produto ou serviço mais adequado para as necessidades dos clientes. O scrum master é a pessoa que atua acima do product owner e tem a missão de ajudar todos a compreender os valores, princípios e práticas ágeis para melhorar a realização do trabalho. Já o agile coach, função mais conhecida, é o guia que orienta, nos diferentes níveis hierárquicos, todas as equipes durante o processo de implementação dos processos ágeis, incentivando funcionários e líderes na adoção de novas práticas e comportamentos. Todos funcionam como uma rede de apoio numa organização que aplique as metodologias ágeis.

Ainda que em diferentes contextos, essas funções têm algo em comum: precisam mediar e resolver os conflitos que surgem durante o desenvolvimento de um novo serviço ou produto. E esses embates podem ocorrer dentro dos times ou fora, caso existam clientes externos envolvidos no projeto. “Eles são facilitadores, aproximam pessoas que nunca trabalharam juntas, unindo-as com um objetivo comum e específico”, explica Luciana Lutaif, da Accenture. Para isso, habilidades socioemocionais – tais como facilidade de trabalhar em equipe, de criar e manter boas relações interpessoais, de escutar e mediar conflitos, entre outras – são essenciais.

“É curioso, mas a palavra ‘ágil’ não é a que melhor define o agile. ‘Maleabilidade’ é a melhor palavra para as metodologias ágeis”, diz Marcos Mattioli, especialista da consultoria Deloitte e responsável por implementar agilidade na companhia. Marcos, que está à frente de um time multidisciplinar composto de 13 pessoas, conta que até pouco tempo atrás os projetos eram grandes e dificílimos de ser moldados. Entre o pedido inicial e a entrega, passava-se tanto tempo que, quando saía do papel, o produto ou serviço já estava defasado em relação aos concorrentes ou às necessidades dos clientes. Ao usar métodos ágeis, com validações mais rápidas e pequenas entregas (os famosos sprints), o ciclo é acelerado e os ajustes são feitos com velocidade. “Não corremos mais o risco de sair do caminho das indicações iniciais. Tentamos mais, erramos mais, corrigimos rápido, aprendemos e entregamos mais”, diz Marcos.

EM ALTA

Numa pesquisa feita no LinkedIn em abril, havia 146 vagas para agile coach, 255 para product owner e 208 para scrum master. Juntas, as carreiras geravam mais de 600 oportunidades no período – lembrando que, em abril, o Brasil já enfrentava a crise econômica ocasionada pelo coronavírus. Essa demanda, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, tem forte tendência ao crescimento no país, exatamente como aponta o relatório do Fórum Econômico Mundial.

O problema é que o Brasil está diante de um paradoxo: há vagas, mas pouquíssimas pessoas com experiência prática nessas metodologias. “Não basta ter feito um curso, é preciso ter cicatrizes de guerra, ter atravessado problemas e conquistado resultados com as metodologias”, diz Luciana Lutaif.

A alta demanda se explica tanto pela adoção em massa das metodologias nas áreas tecnológicas de empresas como pelo uso delas em outros departamentos. Hoje o mercado já fala em organizações ágeis, com entregas mais curta e flexibilidade. “Há um movimento de disseminar a cultura ágil por toda a estrutura organizacional para eliminar barreiras, conectar pessoas de áreas distintas que possam resolver problemas, ter mais contato e cumplicidade com os clientes”, explica Luciana Lima, do lnsper. Uma das empresas que passa por essa transformação é a varejista Magazine Luiza, que está levando o processo tão a sério que foi até a Suécia recrutar o brasileiro Henrique Imberti, atual diretor de agilidade da companhia, que começou a se especializar no tema em 2004. Depois de algumas experiências como agile coach no Brasil, Henrique foi contratado pelo Spotify para atuar na mesma função, mas em Estocolmo, capital sueca. Ficou por lá de 2014 a 2017. “A temporada serviu para eu consolidar algumas certezas e derreter outras”, diz. No Magazine Luiza, seu objetivo (ao lado de um time de nove pessoas) é ajudar a mudar a mentalidade dos mais de 35.000 funcionários – e isso tem apoio do CEO da empresa, Frederico Trajano. “Agite coach, agile master, product owner, scrum master e qualquer variação possível não são super-heróis. Se não têm apoio interno, não fazem nada, falam para as paredes”, diz Henrique.

A equipe de agilidade do Magalu já colhe alguns frutos. O planejamento estratégico, por exemplo, não é mais anual, mas quadrimestral e ancorado em indicadores modernos, como número de usuários ativos no e-commerce e NPS (net promoter score, que mede a satisfação dos clientes). “Times e projetos mudam rápido, em semanas, mas mudar uma empresa desse tamanho é manobrar um transatlântico; demora um tempo, e é normal que seja assim”, diz o diretor. E ele completa: “Ser ágil é ter mais autonomia, é aprender com os erros para mudar rápido.”

PROFISSÕES DO AMANHÃ

Veja as atividades mais promissoras, de acordo com o relatório Jobs of Tomorrow, do Fórum Econômico Mundial

DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS

CARREIRAS

1. Product Owner

2. Analista de Qualidade

3. Agile Coach

4. Engenheiro de Qualidade de Software

5. Analista de Produto

6. Engenheiro de Qualidade

6. *Scrum Master

* Empatadas em sexto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Testagem de Software

2. Software Development Life Cycle (SOLC)

3. Ferramentas de Programação

4. Gestão de Projetos

5. Gestão de Negócios

6. Tecnologias de Armazenamento de Dados

7. Desenvolvimento de Web

8. Operações de Fabricação

9. Destreza Digital

10. Liderança

VENDAS, MARKETING E CONTEÚDO

CARREIRAS

1. Analista de Redes Sociais (conteúdo)

2. Growthhacker (Marketing)

3. Especialista em Customer Success (Vendas)

4. Coordenador de Redes Sociais (Conteúdo)

5. Growth Manager (Marketing)

5. *Representante Comercial (Vendas)

*Empatadas em quinto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Marketing Digital

2. Redes Sociais

3. Gestão de Negócios

4. Destreza Digital

5. Propaganda

6. Marketing de Produto

7. Vídeo

8. Design Gráfico

9. Liderança

10. Escrita

DADOS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

CARREIRAS

1. Especialista em Inteligência Artificial

2. Cientista de Dados

3. Engenheiro de Dados

4. Desenvolvedor de Big Data

5. Analista de Dados

6. Especialista em Analytics

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Ciência de Dados

2. Tecnologias de Armazenamento de Dados

3. Ferramentas de Programação

4. Inteligência Artificial

5. Software Development Life Cycle (SDLC)

6. Consultoria

7. Desenvolvimento Web

8. Destreza Digital

9. Computação Científica

10. Rede de Dados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – X

COM A PALAVRA, QUEM MAIS SOFRE

Confira os depoimentos de pessoas que enfrentaram e ainda enfrentam as dificuldades impostas pela síndrome do pânico.

ANDREIA ALVES, 37 anos (SANTO ANDRÉ-SP)

“Não tenho lembrança da minha primeira crise. Na verdade, analisando diversas situações passadas, posso dizer que sofro com o transtorno de pânico desde a infância. Inclusive, perdi um ano na escola, na quarta série. Sentia-me desesperada ao ver minha mãe indo embora e os portões se fechando. No ensino médio, a síndrome do pânico veio à tona com mais força. Comecei a ter crises no ônibus, ao ir e voltar da escola. O sintoma predominante era a falta de ar. Depois o coração começava a acelerar, as mãos ficavam suadas e dormentes. Era uma sensação iminente de morte. Essa é a melhor descrição. Nessa época procurei especialistas, fiz tratamento com psiquiatra e psicólogo e foi quando obtive o diagnóstico. A partir de então, adotei o péssimo costume de procrastinar o tratamento sempre que tinha alguma melhora. Anos depois tive novas crises… precisei me afastar pela previdência social. Fiz prova do vestibular em plena crise. Virou rotina passar mal nos trens, nos ônibus, na faculdade. Virou rotina ser socorrida de ambulância e, ao chegar no hospital, os médicos diziam que eu estava bem. Minha vida social acabou. Profissão. Planos. Projetos… Sempre me tratei com sertralina e o rivotril foi minha muleta para me socorrer em meio a uma crise.

Um grande erro é abandonar o tratamento, como agora, por exemplo. Por outro lado, sempre fui de encarar a doença e enfrentá-la. Não fosse isso, viveria enclausurada. Não desejo a ninguém. A síndrome paralisa e a tendência é, cada vez mais, afastar-se das outras pessoas, de uma vida social”.

NEUSA CARMO, 56 anos (SÃO PAULO-SP)

Neusa é dona da página “Síndrome do Pânico” no Facebook. Hoje, o espaço conta com mais de 311 mil seguidores que trocam experiências e tiram dúvidas. A proposta começou em 2004, ainda no extinto Orkut, e ajuda as pessoas a entenderem melhor sobre as crises e os inúmeros sintomas causados pelo transtorno.

“Descobri a doença em 2001. Nessa época, ela ainda era pouco conhecida por médicos de pronto-socorro, lugar para onde, normalmente, corremos por achar que estamos enfartando. Depois de muitas consultas, encontrei um médico chinês que, mesmo me pedindo vários exames, me encaminhou para um psiquiatra. Ele me diagnosticou com síndrome do pânico e iniciei o tratamento com antidepressivos e ansiolíticos. Porém, as coisas não são tão simples. Mesmo em tratamento, tive que mudar várias vezes de medicamentos. Não existe nada eficiente quando se está no auge das crises, pois nunca sabemos quando ela irá acontecer. É tudo muito inesperado e independe de situações, pois já tive muitas crises dormindo, acordando de madrugada com elas. Isso me deixava muito perturbada, porque, se eu estava dormindo, logo imaginava que estava relaxada e isso não fazia sentindo. Eram rotineiras as crises noturnas, mesmo estando medicada.

Com o passar do tempo, aprendi a respirar melhor com ajuda da prática de ioga – a respiração diafragmática me auxiliou muito e ajuda até hoje em momentos de muita ansiedade.

Lembro que os maiores e piores desafios diários impostos pela síndrome do pânico são: primeiro, não saber quando a crise vai te atacar. É como se você vivesse numa selva, com medo do ataque de um animal feroz, na qual você precisasse lutar contra ele. Porém, sabe que ele vai te devorar. Segundo, sair de casa. A agorafobia está presente o tempo todo e fazer tarefas simples, como ir ao supermercado, trabalhar, pegar um ônibus, metrô, torna-se algo extremamente desafiador e assustador.

A síndrome do pânico normalmente está acompanhada de depressão, hipocondria, TOC, existindo graus de pessoa para pessoa, o que faz tudo muito mais difícil.

A compreensão familiar é mínima. Ninguém entende doença mental. Normalmente, as pessoas não estão dispostas a compreender que uma pessoa visivelmente saudável pode estar mentalmente muito doente. E a cobrança de maneira errada machuca, destrói, pois ninguém que sofre com essa doença escolheu estar assim. Acham que melhorar depende da gente, que temos que nos esforçar. Mas o pouco que fazemos já nos custa muito empenho”.

SÍLVIA PORTO, 54 anos (RIO DE JANEIRO-RJ)

“Eu estava dormindo, mas acordei com dificuldade de respirar e tremores. Permaneci deitada prestando atenção no que eu estava sentindo. Comecei a ter dor no peito e fui ficando com o corpo dormente. Meu desespero já estava atingindo o nível máximo. Pensava desesperadamente como eu ia fazer pra conseguir socorro. Senti que estava morrendo. Meu coração estava muito acelerado e eu não conseguia respirar fundo.

Comecei a suar muito. Levantei com muito custo pra pegar água e comecei a sentir que ia desmaiar. Perdi as forças e minha vista escureceu. Deitei no chão da cozinha e senti que morreria ali mesmo, sozinha. Puxei o ar e fui engatinhando até o celular. Liguei para meu vizinho e pedi socorro. Disse a ele que estava desmaiando e pedi pra que me ajudasse rapidamente.

Ele veio e eu saí com a roupa do corpo. A sensação de morte iminente é assustadora. Ele me colocou no carro e me levou pra emergência mais próxima. Eu, deitada no banco de trás, com muita taquicardia e falta de ar, gritava: ‘corre que estou morrendo!’

Cheguei à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) gritando que estava morrendo e implorando socorro. Tremia bastante. A enfermeira verificou minha pressão, meu índice glicêmico e a taxa de oxigenação: todos estavam normais. Fui me acalmando. Os sintomas começaram a desaparecer. O médico que me atendeu disse que eu estava tendo uma crise de ansiedade e que iria me prescrever uma injeção de diazepam pra eu relaxar. Eu já estava bem. Dispensei o diazepam e fui pra casa. Lá, chorei bastante.

É muito difícil conviver com síndrome do pânico porque a qualquer momento você pode ter uma crise. Relatando esse episódio, não dá para descrever o pavor que ela é. Nunca vai dar… é indescritível”.

EU ACHO …

LITERATURA OU ENTRETENIMENTO?

Menosprezar os romances de sucesso é elitista – e descabido

No início do ano, o tradicional Prêmio Jabuti causou polêmica ao divulgar a criação de uma nova categoria no segmento romance: o romance de entretenimento. Na época, recebi convites para tratar do assunto, mas preferi ficar em silêncio por duas razões: (1) eu queria acompanhar as discussões que daí surgiram e (2) eu tinha um romance recém-publicado, poderia concorrer e, assim, qualquer texto poderia ser mal interpretado. No fim de novembro, os resultados foram divulgados e meu livro mais recente, Uma Mulher no Escuro, acabou vencendo a categoria “romance de entretenimento”. Agora, me sinto à vontade para opinar.

Não é de hoje que críticos, curadores, escritores e leitores fazem a divisão entre “literatura” e “entretenimento”. A mim, a separação sempre soou descabida. Digo isso porque, se de um lado temos o “romance de entretenimento”, é de se supor quena outra categoria disputem os “romances de aborrecimento”, aqueles dedicados a arrancar bocejos do leitor, deixá-lo impaciente ou de saco cheio.

Em sentido oposto, se consideramos a categoria “romance literário”, temos a clara impressão de que os romances que entretêm não são (nem podem ser) literatura. Sem dúvida, um impasse desagradável. Afinal, o bom romance deve ser literatura e entretenimento. São os autores nesse “meio do caminho” que me encantam: aqueles que usam os jogos de linguagem, a potência das palavras, a forma e a estética para narrar boas histórias, para criar personagens complexos e tramas inesperadas. Em um país ideal, a distinção entre literatura e entretenimento em um prêmio do segmento seria desnecessária.

Mas sejamos realistas: vivemos num meio literário esnobe, distante de seu público, que abomina best-sellers e filas de leitores. A célebre frase cunhada por Tom Jobim nunca fez tanto sentido: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pega mal entreter, pega mal ser lido. Autores como Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca foram vistos por anos com maus olhos justamente porque, mesmo com o apuro de linguagem, faziam genuíno entretenimento, eram populares. Em anos de prêmios e festivais literários, romances e autores de gênero raramente foram contemplados, pois são escolhidos por um corpo de jurados elitista, que revira os olhos diante de uma narrativa policial, de terror, de humor, de ficção científica ou de fantasia.

Por isso, mesmo não sendo ideal, é inegável a urgência de uma categoria como essa no Prêmio Jabuti. Como leitor e apaixonado por romances policiais, sempre lamentei a ausência de prêmios dedicados ao gênero, como existem em países como Estados Unidos (Edgar Allan Poe Awards), França (Grand Prix de Littérature Policiere) e Alemanha (Deutscher Krimi Preis). Torço para que mais prêmios passem a levar em conta a grande e valiosa produção de romances de gênero que vem sendo feita no Brasil. Quem sabe assim nossa literatura brasileira contemporânea conquiste seu público e seja amplamente estudada nos cursos de letras. Tenho muito orgulho de ser o primeiro ganhador da categoria “romance de entretenimento”. Uma Mulher no Escuro é entretenimento. E é literatura.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

APERTEM OS CINTOS

Sucesso de vendas, o 737 Max foi suspenso por vinte meses depois de dois acidentes. Agora ele está de volta no mais turbulento momento da aviação comercial

O risco de um passageiro ser morto em um acidente de carro no caminho para o aeroporto é, estatisticamente, dezenas de vezes maior do que no voo em que ele embarcará. Desastres aéreos são raros e, quando acontecem, têm como causa fatores que não se repetem, pois tudo que se aprende com a queda de uma aeronave é usado para evitar outra tragédia igual. Aviões não caem, alegam os engenheiros: são derrubados. E, no caso do Boeing 737 Max, essa afirmação retórica é verdadeira. Em um intervalo de quatro meses, duas unidades do modelo foram abatidas pelo sistema de segurança que deveria protegê-las, matando 189 pessoas no mar da Indonésia e 157 na Etiópia, respectivamente em outubro de 2018 e março de 2019. Poucos dias após a segunda queda, todas as 387 aeronaves em operação em 59 países, incluindo o Brasil, ficaram proibidas de voar na mais longa paralisação da história da aviação, só encerrada em 18 de novembro.

No primeiro acidente com o 737 Max da Lion Air, já havia indícios de que os pilotos tinham perdido o controle devido à ação de um software chamado Mcas. O sistema impede que o jato aumente seu ângulo de ataque – ou seja, que levante o nariz – a ponto de perder sustentação. No voo fatídico, o Mcas aparentemente continuou a forçar o avião para baixo, contra as ordens dos pilotos, até despencar. Já suspeitando disso, os reguladores deveriam ter expedido a ordem de grounding (termo que significa “ficar em terra”), mas precisou ocorrer mais um desastre, desta vez com a Ethiopian Airlines, para segurar no chão o pássaro da Boeing. A centenária fabricante se viu então no meio de uma tempestade, sacudindo por tabela a economia dos Estados Unidos.

A Boeing é a maior exportadora industrial em solo americano, emprega 130.000 pessoas e contrata milhares de fornecedores. O 737, em serviço desde 1968, é seu principal produto. Ideal para curtas e médias distâncias, trata-se do jato comercial mais vendido de todos os tempos. As duas tragédias, entretanto, puseram a companhia na berlinda, principalmente depois da suspeita de que seu presidente, Dennis Muilenburg, estaria pressionando a FAA (a agência americana reguladora) a retirar a ordem de grounding. Muilenburg acabou demitido em dezembro do ano passado.

A investigação que se seguiu expôs a cultura corporativa da Boeing. Mensagens internas mostram um alarmante desprezo dos profissionais mais graduados por colegas, clientes e fiscais. Expressões como “esse avião é uma piada”, ”não confio em algumas pessoas daqui” e “não sei se a FAA entende o que está aprovando ou reprovando” aparecem em um compilado divulgado pelo jornal The New York Times. Acrise acabou refletindo até na Embraer: a Boeing cancelou a aquisição de 80% da divisão de aviões comerciais da empresa brasileira – uma transação de 4,2 bilhões de dólares. Não se sabe ao certo o que teria motivado tal decisão, mas aparentemente o desgaste provocado pelo 737 Max, associado à troca de gestão, mudou os ventos da negociação, deixando a Embraer largada na turbulência.

A punição ao Max durou vinte meses, mas todas as unidades serão autorizadas a voar assim que as mudanças forem concluídas. Além da FAA, participaram da recertificação outras agências reguladoras, incluindo a brasileira Anac. O software de proteção foi corrigido, a extensa fiação trocada e os pilotos passarão por treinamento em simuladores específicos. Em vídeo, o diretor da FAA, Stephen Dickson, declarou que o avião é seguro: “Eu colocaria minha família dentro dele”, afiançou. A American Airlines quer sua frota pronta para voar em 2021. O mesmo deseja a Gol, única linha aérea brasileira a usar o 737Max, com sete unidades em operação e 95 encomendadas.

A questão que se levanta é se o público costuma boicotar uma aeronave por seu histórico. Normalmente, isso não ocorre. Ao comprar um pacote, o passageiro quer saber se o voo é direto, a hora de partida e chegada e quanta bagagem pode levar. “É raro perguntarem qual o modelo da aeronave”, diz Nádia Botsaris, da Kauai Turismo. Ela esclarece que a maior preocupação do setor no momento é com a retomada das viagens e hospedagens na pandemia. A maioria das pessoas compartilha o sentimento de que voar é seguro. Já em relação às medidas tomadas contra a Covid-19, parece não haver ainda a mesma confiança.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERAR NA TENSÃO

Adaptar o estilo de gestão ao cenário externo mantém as equipes engajadas. Quem faz isso aplica a liderança situacional, importante durante a crise do coronavírus

Os tempos de pandemia que estamos vivendo são marcantemente caracterizados pelo ineditismo, pela imprevisibilidade e pela desconfiança. Assim, torna-se vital que as lideranças – tanto públicas quanto privadas – ajam com a maior efetividade possível. Isso é importante porque, em momentos como este, as pessoas entram em um nível de estresse elevado e exigem um estilo de liderança especialmente cuidadoso e adequado.

Mas qual é esse estilo? Para explicar, vou usar o que aprendi, anos atrás, em um curso ministrado pelo extraordinário professor Paul Hersey, que criou o conceito de liderança situacional. Ele defendia que o estilo de liderar deve se alterar de acordo com o momento – o que exige dos líderes uma grande capacidade de adaptação e de leitura do ambiente. E esse modelo faz muito sentido em momentos de alta pressão porque, nessas situações, as pessoas mudam rapidamente seu comportamento e precisam de líderes que compreendam isso e se adequem ao novo cenário.

Hoje, toda esta incerteza, insegurança e desconfiança sobre as autoridades públicas e a ciência modificam o estágio de maturidade das pessoas. Importante destacar que a maturidade não é estável. Todos nós, adultos, vivemos num chamado “continuum da maturidade”, o que significa que, num mesmo dia, podemos ter comportamentos maduros e imaturos, dependendo do contexto e das pessoas envolvidas conosco. Mas tudo dentro da normalidade social.

O problema é que, sob estresse, o comportamento humano é levado para o lado da imaturidade – exatamente por causa do medo, da insegurança e da desconfiança. Por isso, nessas situações, o líder deve dar orientações que sejam muito bem estruturadas. É preciso fugir de ordens genéricas proferidas sob a égide do “vocês são adultos, vão entender as ordens”. Sob estresse, não reagimos como adultos e precisamos de caminhos claros.

Não adianta, por exemplo, dizer que a partir de amanhã todos vão trabalhar de casa e achar que isso vai funcionar por si só. É preciso explicar como serão as regras de horários de expediente e intervalos e quais serão os processos e tecnologias usados, por exemplo. Não detalhar e partir do princípio de que todos vão entender costuma dar errado.

Orientar e criar uma estrutura é importante para que as pessoas, gradativamente, retornem seu estado normal de maturidade. Então, o grande conselho que dou para quem precisa chefiar nesse cenário é: respeite o estágio temporariamente imaturo dos profissionais e guie os times de maneira didática, compreensível e factível.

É desse tipo de gestão que precisamos agora – é o que a situação pede. Por isso, deixe-se levar pela liderança situacional, pois ela engrandece o líder, aumenta o respeito dos times e conquista resultados.

LUIZ CARLOS CABRERA – é presidente da L Cabrera consultores e professor na FGV-EAESP

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – IX

ALÉM DO BICHO-PAPÃO

Até as crianças podem desenvolver o medo e a ansiedade característicos da síndrome do pânico

É comum entre os adultos aquele pensamento saudoso do tempo em que eram apenas crianças, quando os compromissos, as contas e o estresse diário ainda não haviam dado as caras.

A infância remete a uma sensação de pureza e tranquilidade, mas quem disse que os pequenos não têm preocupações além do bicho-papão? Essa fase da vida é um momento de intenso aprendizado e pressões. Sendo assim, o medo e a ansiedade podem surgir nesse período. O limite da normalidade desses sentimentos fica por conta da intensidade das consequências na rotina e na vida da criança. “Cada vez mais queremos que os pequenos acompanhem o ritmo dos adultos, tanto nas questões diárias como acordar, tomar um café e almoçar com pressa, quanto na questão da quantidade dos compromissos e atividades que eles devem cumprir, somados à exigência de notas boas, à carga excessiva de lições e à cobrança para que correspondam às nossas altas expectativas”, ressalta Alessandra da Silva Ferreira, psicóloga infantil.

Mudanças significativas, situações traumáticas, falecimento de um ente querido e outras questões possibilitam que o mal da síndrome do pânico acabe atingindo a sociedade cada vez mais cedo. “Estudos têm demonstrado uma ligação entre adversidades afetivas na infância (consideradas como estressoras) com a síndrome do pânico. Além disso, as crianças que estão mais expostas a eventos estressantes, em que o contexto social e a família exercem grande pressão, também estão mais propensas a desenvolver a doença”, afirma a psicóloga clínica infantil e psicopedagoga Fátima Hemétrio.

QUANDO PASSA DA MANHA…

Birra, dengo e teimosia são todos sinônimos de uma atitude característica do universo infantil. Os pais estão mais do que acostumados a lidar com os choros e berros provenientes disso. Mas, em alguns casos, o que ocorre é a confusão em relação a um quadro de pânico com a manha da criança. “O diagnóstico pode ser difícil. O primeiro passo é reconhecer e aceitar que algo está errado e procurar ajuda. Quando os pais observam que o problema está afetando a vida social e escolar da criança, é hora de buscar ajuda”, explica Fátima.

Para ajudar a detectar sinais de pânico, é importante notar sintomas físicos que não fazem parte da rotina infantil, como: suor excessivo, palpitações, dores constantes de barriga sem explicação, dores no peito, tremores, apreensão elevada e medos excessivos de morrer ou de perder o controle. “Quando falamos em criança, o primeiro especialista que vai ter contato com o relato destes sintomas é o pediatra, que pode fazer o diagnóstico se tiver o conhecimento sobre isto e encaminhar para um psiquiatra e psicólogo infantil”, ressalta Alessandra.

CUIDANDO COM TRANQUILIDADE

O acometimento do pânico pode comprometer a rotina da criança, bem como suas relações sociais e rendimentos escolares. De acordo com Alessandra, durante esse período, algumas crianças podem se isolar e evitar eventos e festas infantis com medo de sofrer com os sintomas das crises. Entretanto, assim como acontece com os adultos, para as crianças a síndrome do pânico tem tratamento e necessita de orientação e acompanhamento profissional para ser eficiente. “A psicoterapia infantil, que utiliza exercícios lúdicos de respiração e pintura, brincadeiras que auxiliam a criança viver o momento presente e a orientação aos pais são fundamentais no processo”, afirma a psicóloga infantil.

Ainda é relevante que o ambiente familiar seja de calma e tranquilidade. Durante o tratamento, a criança demanda um cuidado diferente em relação a exigências e ao ritmo de atividades cotidianas. “Caso a criança sofra um trauma por conta de perdas e separações, os adultos devem ajudar no entendimento destas questões para ampará-la emocionalmente”, lembra Fátima.

ATENÇÃO AOS SINAIS

De acordo com o psicólogo Diogo Bonioli, existem algumas atitudes que podem ser de grande valia para perceber que há algo de errado com a criança. “Se três destes sintomas aparecerem, procure imediatamente um profissional de saúde mental”, aconselha o psicólogo.

• Práticas destrutivas e antissociais;

• Sensação de rejeição;

• Sentimento de culpa e frustração constante e sem motivos graves;

• Fadiga e cansaço;

• Perda de peso e de apetite;

• Insônia ou excesso de sono;

• Agitação e irritabilidade;

• Sentimento de infelicidade e tristeza;

• Desinteresse por atividades comuns;

• Rejeição de interação com os amigos;

• Queda no rendimento escolar.

EU ACHO …

NA PONTA DA LÍNGUA

Por que sofremos lapsos de memória – e como evitá-los

Você cruza com um conhecido de longa data e, depois do saquinho ou da cotovelada protocolar destes tempos, a etiqueta manda apresentá-lo ao seu acompanhante. Só tem um problema: o nome dele, tão familiar, de repente lhe fugiu da cabeça. Nessas horas precisamos contar com o traquejo social do outro, que, ao perceber o constrangimento, se antecipa e diz o próprio nome.

Quantas vezes passamos por situações assim! Às vezes o que nos escapa é o nome de algo corriqueiro. A palavra exata brinca de esconde-esconde, e só aparece, num estalo da memória, quando, passado o momento de necessidade, deixamos de tentar procurá-la.

Costumamos dizer que o nome arredio estava na “ponta da língua! O inglês tem a mesma expressão: tip of the tongue. Como o inglês é mais influente do que o português, a sigla que se refere a esse tipo de lapso de memória não é PL, mas TOT. Pesquisadores ao redor do mundo têm se debruçado sobre o fenômeno, tentando compreender suas causas e descobrir meios de evitá-lo.

De acordo com o estereótipo, conforme envelhecemos passamos a esquecer com mais facilidade. Os especialistas, no entanto, mostram que não é bem assim. Embora a idade contribua, de fato, para o aumento dos episódios de esquecimento, estudos na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, mostram que isso tem mais a ver com conhecimento acumulado do que com faixa etária.

Alguém com repertório extenso – que conhece mais pessoas, assistiu a mais filmes, leu mais livros, ouviu mais músicas – terá naturalmente mais dificuldade para lembrar de vez em quando de uma ou outra coisa que absorveu ao longo do tempo. Afinal, seu arquivo mental é maior. Além disso, pessoas com mais idade costumam ter muita informação na chamada memória de longo prazo, que nem sempre é prontamente acessível. Mas o que é mais importante recordar: um momento marcante do passado, uma lição valiosa que a vida nos ensinou, ou um simples nome? E, cá entre nós, nem tudo vale a pena ser lembrado. Tem coisas que merecem ser esquecidas: aquele presentinho de gosto duvidoso no Natal, a relação que não deixou saudade, a série que não engrenou. Aquilo que esquecemos também ajuda a formar quem somos. Essa, aliás, é uma lição especialmente valiosa neste ano estranho de 2020, cheio de momentos que preferiríamos não lembrar.

Mesmo assim, ninguém gosta de ficar com uma expressão na ponta da língua. É possível diminuir a frequência desse tipo de situação? De acordo com os especialistas, sim. O segredo é praticar mais atividades físicas. Um estudo publicado na prestigiosa revista britânica Nature constatou que os adultos, sobretudo os mais velhos, passam por menos episódios TOT quando fazem exercícios aeróbicos – aqueles que elevam os batimentos cardíacos e oxigenam a musculatura, como corrida, natação ou ciclismo.

Por isso, na próxima vez em que ficar com uma palavra na ponta da língua, não se irrite. Dê uma volta no quarteirão, passeie de bicicleta, corra na esteira, o que preferir. Relaxado, imerso em seus pensamentos, você pode até acabar encontrando a palavra que tanto queria.

*** LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

AS NOVAS MISSÕES DOS DRONES

Os equipamentos voadores ampliam sua atuação e se consolidam como um novo sistema de transporte essencial para negócios, governos e até a preservação do meio ambiente

A evolução tecnológica das naves não tripuladas leva aos céus, cada vez mais, cenários que parecem tirados de filmes de ficção científica. Criadas como objeto de diversão, os drones passaram a executar novas missões, bem mais amplas e estratégicas. Sempre que uma visão aérea ou um voo rápido são necessários, essas máquinas incríveis são acionadas: da vigilância de florestas à fiscalização das eleições, passando pelo transporte de órgãos humanos para transplantes ou objetivos militares, a atuação dos drones apresenta possibilidades quase infinitas.

No Brasil, o setor de logística está em fase de testes para que, em breve, ocorra o transporte de pequenos objetos e alimentos. Empresas de entregas e grandes lojas de departamentos esperam ansiosas pela agilidade do serviço e baixo custo da operação. O piloto de avião e instrutor de voo de drones, Wagner Delbaje, explica que as viagens em naves não tripuladas são muito seguras. “A grande questão é a responsabilidade no monitoramento. É muito fácil pilotar um drone”, afirma Delbaje. Segundo o piloto, há modelos customizados para tarefas específicas e complexas, mas é possível comprar equipamentos profissionais também para uso recreativo, como fotografias e filmagens, por cerca de R$ 10 mil.

O meio ambiente é um dos beneficiados imediatos com as inovações. Cientistas da USP, em parceria com a Universidade da Pensilvânia, desenvolveram um modelo autônomo que é capaz de desviar das árvores e mapear 400 mil metros quadrados em apenas 30 minutos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também utiliza os recursos das naves não tripuladas para sobrevoar áreas remotas e identificar populações isoladas. Foi assim que, em 2018, divulgou imagens de uma tribo no Vale do Javari, próximo ao Peru. A organização governamental WWF-Brasil, que tem como foco a defesa ambiental, investiu cerca de R$ 300 mil na compra de novos aparelhos. As naves foram doadas para entidades ligadas aos índios e têm como objetivo monitorar ameaças de fogo e desmatamento na Amazônia. Os próprios índios manuseiam os equipamentos.

Drones já são usados na agricultura há um bom tempo. A novidade é que hoje eles estão cada vez mais poderosos. São capazes de mapear as pragas e aplicar defensivos agrícolas especificamente nas áreas afetadas. A gerente comercial da XMobots, empresa especializada em equipamentos para o setor, Thatiana Miloso, conta que o investimento inicial para aparelhos adaptados para a agricultura é de cerca de R$ 70 mil. O retorno, segundo ela, é imediato. “O drone vingou no agronegócio porque consegue resultados altamente precisos. A câmera vê a planta de uma forma diferente, com infravermelho próprio, e tem a capacidade de separar o que está saudável. A eficiência e rapidez trazem grandes vantagens para o produtor”, diz Thatiana.

PRISÃO NAS ELEIÇÕES

As eleições municipais também contaram com o auxílio desses vigilantes voadores. “A melhor forma de se prevenir é ser transparente com a sociedade. Hoje temos instrumentos tecnológicos que permitem a detecção de propaganda irregular”, disse o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. Nas diligências executadas pela Polícia Federal, foram “operados 100 equipamentos”, conforme informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um candidato a vereador foi preso em São Vicente, depois de ser flagrado pela câmera de um drone fazendo boca de urna.

Os americanos já usam a tecnologia dos drones em conflitos militares. Segundo a ONG inglesa Bureau of Investigative Journalism, o governo dos EUA promoveram, desde 2001, ao menos 13.654 ataques ao Iêmen, Afeganistão, Somália e Paquistão. A precisão dos drones é mortal e não expõe os soldados a reações inimigas.

A agilidade dos drones também é um importante instrumento de logística para a área da saúde. Em Nevada (EUA), a empresa de logística MissionGO bateu recorde ao transportar órgãos por 16,5 km em apenas 25 minutos. Em Ruanda, a companhia Zipline integra o sistema de saúde local com transporte de suprimentos médicos por drone. Os equipamentos utilizados também são capazes de monitorar a temperatura dos órgãos e diminui o número de pessoas envolvidas na operação. A multifuncionalidade das naves sugere uma revolução no transporte, com mais segurança e agilidade. As novas missões têm em comum um ganho de eficácia e diminuição de custos — o segredo do sucesso.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE DEZEMBRO

A ESCOLHA ENTRE A VIDA E A MORTE

Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal (Deuteronômio 30.15).

A vida é feita de escolhas. Somos escravos da nossa liberdade. Não podemos deixar de decidir. Até a indecisão é uma decisão, a decisão de não decidir. Quem não é por Cristo, é contra Cristo. Quem com ele não ajunta, espalha. Moisés, o grande libertador de Israel, fez no final de sua vida um desafio solene ao povo, no limiar da terra prometida: Os céus e a terra tomo hoje, por testemunhas, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (v. 19). A vida é feita de escolhas. Não podemos ficar neutros nem em cima do muro. Somos escravos da nossa liberdade. A própria indecisão é uma decisão, a decisão de não decidir. Quem não se decide pela vida decide-se pela morte. Estamos nessa encruzilhada. Colocaremos nossos pés no caminho da vida e da bênção, ou no atalho da morte e da maldição. Andaremos pelo caminho largo que conduz à perdição, ou pelo caminho estreito que conduz à vida. Entraremos pela porta larga da condenação, ou pela porta estreita da absolvição. Qual é a sua escolha? Qual é a sua decisão? Hoje é o dia da decisão. Agora é o tempo oportuno. A vida e a morte estão diante de você. Escolha a vida, para que você e sua descendência possam viver uma vida plena, abundante e eterna.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE DEZEMBRO

A ESPOSA DO CORDEIRO

… Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro (Apocalipse 21.9b).

O apóstolo João é chamado para ter duas visões: a queda da grande meretriz, que se embriagou com o sangue dos mártires; e a glória da noiva, a esposa amada do Cordeiro de Deus. A igreja glorificada é apresentada como a noiva de Cristo. Quando João contempla a noiva, vê nela a glória de Deus. Todo o esplendor dos atributos de Deus enfeitava a noiva. Ela era gloriosa. A igreja é a escrava resgatada. Estava cativa e foi liberta. Cristo amou a igreja e se entregou por ela. Cristo santificou a igreja e a purificou por meio da lavagem de água pela palavra. Cristo adornou a igreja para apresentá-la a si mesmo gloriosa, sem mácula, nem ruga, santa e sem defeito. Cristo alimenta a igreja e dela cuida. Seu amor pela igreja é perseverante, sacrificial e santificador. Como o noivo se alegra da noiva, assim Cristo se alegra da sua igreja. A igreja, a noiva do Cordeiro, está sendo preparada, ataviada e santificada para o grande encontro com o seu noivo. Aquele será o dia glorioso, em que Jesus virá com grande poder e glória para buscar sua noiva. Os remidos serão recolhidos dos quatro cantos da terra. A igreja entrará para o banquete da salvação. Então, celebrar-se-ão as bodas do Cordeiro numa festa que nunca terminará. Essa festa será no melhor lugar, com as melhores companhias, a melhor música e as melhores iguarias. Será uma festa preparada para pessoas preparadas. Só entrarão nessa festa nupcial aqueles cujas vestiduras foram lavadas no sangue do Cordeiro!

GESTÃO E CARREIRA

O LADO B DA GIG ECONOMY

A precarização das condições de trabalho dos profissionais de aplicativos e a concorrência desleal que derruba alguns microempreendedores trazem à tona a necessidade de regulamentar a economia dos bicos

No mundo do jazz, o termo “gig” significa apresentação musical única. Nos últimos anos, esse vocábulo saiu dos palcos para ganhar o mercado e definir um estilo de trabalho que está se tornando típico nos nossos tempos: a economia dos bicos, ou gig economy, em inglês. Esse modelo de trabalho se caracteriza por um arranjo alternativo de emprego, seja pontual, seja temporário, e pela falta de vínculo com um empregador único. Tal modalidade não é nova, mas vem sendo alavancada devido às flexibilizações das leis trabalhistas e,principalmente, aos avanços tecnológicos que possibilitam a criação de plataformas que conectam trabalhadores autônomos a empresas ou pessoas que necessitam de sua expertise ou serviço.

Por um lado, essa dinâmica acomoda uma mão de obra que estava desempregada, ou serve como complemento de renda. Por outro, ela causa impactos negativos, como a precarização das relações de trabalho e o monopólio de mercados. Por isso, começa a haver uma discussão sobre a regulamentação da modalidade.

O MAIOR EMPREGADOR DO BRASIL

No ano passado, segundo levantamento feito pela consultoria McKinsey, a gig economy já representava um terço da força de trabalho dos Estados Unidos e, neste ano, deve chegar a 43% dos trabalhadores. No Brasil, em 2019, impulsionado pelos altos índices de desemprego, o trabalho informal avançou para 41% da população ocupada, um nível recorder de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda segundo o instituto, 17% dos 3,8 milhões de trabalhadores na informalidade atuam nas plataformas digitais, como Uber, iFood e Rappi. Essas empresas são, juntas, a maior “empregadora” do país, acomodando 4 milhões de autônomos.

Tornando o exemplo mais explícito: se reuníssemos quem atua nessas plataformas em uma única folha de pagamentos, ela seria 35 vezes mais longa do que a dos Correios – a maior empresa do país, com 109.000 funcionários. “No contexto de estagnação econômica, o mercado informal cresce porque um trabalhador formal custa caro. As empresas querem continuar produzindo, mas sem os encargos da mão de obra. Por isso, abrem oportunidades informais por projeto ou por tempo parcial”, afirma Juliana Inhasz, coordenadora da graduação em economia do lnsper. “Para aqueles que não têm uma profissão ou qualificação e estão desempregados, as plataformas se tornam uma oportunidade.”

De forma geral, é possível dividir o grupo de profissionais dessa categoria em dois. O primeiro é composto de pessoas com formação e que querem atuar em sua área como freelancer, numa tentativa de trabalhar com mais flexibilidade. No segundo grupo estão as pessoas que não encontram opções de emprego e têm na economia dos bicos a principal ocupação e fonte de renda. Mas o modelo tem uma característica central para todos os tipos de profissionais: as empresas não se responsabilizam nem pelo serviço, nem pelo trabalhador; funcionam apenas como intermediárias, deixando as pessoas desamparadas.

FIM DO ROMANCE

A falta de amarras da gestão tradicional já foi vista como algo muito positivo nessa nova economia. Mas agora isso está sendo apontado como uma das grandes fragilidades do sistema, pois tem deixado os trabalhadores mais inseguros. Quem trabalha na gig economy tem mais preocupações com instabilidade financeira, escassez de trabalho, falta de seguro de saúde e imprevisibilidade de agenda, o que pode resultar em prejuízos na vida social e familiar. “As pessoas romantizam. Você tem um emprego? Tem, mas de baixa qualidade, sem FGTS, INSS nem os demais direitos trabalhistas”, diz Bruna de Sá Araújo, advogada especialista em direito do trabalho e membro do Instituto de Estudos Avançados em Direito (lead). “Isso é muito ruim no longo prazo, pois como esse trabalhador vai se aposentar? Como ele fica se acontece um acidente que o impossibilite de trabalhar?”

Fica sem renda e sem seguro. A Justiça brasileira entende que não há vínculo empregatício entre os trabalhadores das plataformas digitais e as empresas que administram as ferramentas. A fragilidade do modelo de trabalho ficou bastante evidente quando, em 2019, um entregador da Rappi faleceu durante uma entrega e a empresa (que havia sido procurada enquanto o trabalhador passava mal) se isentou de qualquer responsabilidade. Após ser acionada pelo Procon, a Rappi reiterou que não se sentia responsável porque não há relação de subordinação com os entregadores. A plataforma afirmou que não contrata os entregadores, pelo contrário: são eles que contratam a ferramenta para alavancar seus negócios. O Superior Tribunal de Justiça também criou uma jurisprudência ao dar ganho de causa à Uber em uma disputa entre um trabalhador e a empresa levada à Justiça de Minas Gerais. Portanto, ficou definido que motoristas de Uber não têm vínculo trabalhista com a empresa.

MAIS FRAGILIDADE NAS CRISES

Em momentos como o atual, em que o novo coronavírus colocou as pessoas em quarentena impedidas de sair de casa, alguns informais (como os motoristas de aplicativo) veem sua renda diminuir brutalmente. E esse é mais um ponto de atenção da gig cconomy. “Na Justiça do Trabalho existe a premissa da irredutibilidade do salário, mas, no caso do motorista ou entregador autônomo, por exemplo, que fica por qualquer motivo impedido de trabalhar, ele recebe menos ou nada, e sem nenhum resguardo”, afirma Bruna de Sá Araújo.

A brasileira líder em entrega de comida iFood, avaliada em 1 bilhão de dólares, que recebeu em 2018 a maior rodada de investimentos da história em toda a América Latina (cerca de 2 bilhões de reais), com operações também no México e na Colômbia, e que faz 18 milhões de entregas por mês, assumiu certa responsabilidade durante a pandemia. A empresa criou um fundo solidário no valor de 1 milhão de reais para dar apoio àqueles que contraírem a covid-19 e necessitarem permanecer em casa sem trabalhar.

Além de ficar à mercê do mercado, outro ponto que pode ser problemático é o excesso de trabalho. “A ausência de subordinação permite que você faça seu próprio horário; no entanto, você ganha proporcionalmente ao que produz. Então, quanto mais trabalha, mais ganha. E, para ter uma renda decente, esses profissionais têm de manter longas jornadas”, diz a advogada Bruna. A Uber, inclusive, já olhou para essa questão. Como muitos de seus motoristas trabalhavam mais de 12 horas por dia, colocando a si mesmos e aos passageiros em risco, a empresa passou a limitar o tempo que o trabalhador fica online. Ao atingir 12 horas, a ferramenta desconecta o motorista, que fica impossibilitado de pegar mais clientes.

OS QUALIFICADOS TAMBÉM SENTEM

Os profissionais com nível superior e que escolheram atuar como freelancer por causa da flexibilidade ou da possibilidade de tirar um sonho do papel também têm suas críticas. É o caso da publicitária Bruna Cosenza, de 26 anos, que escolheu se tornar autônoma depois de algumas passagens por grandes agências, como Thompson e DM9. “Eu queria encontrar um propósito em meu trabalho e também percebi que um modelo com horário mais flexível me faria mais feliz”, diz. Preparando-se para pedir demissão, ela se inscreveu em algumas plataformas de freelance e seguiu com as duas atuações. Quando sua renda como autônoma alcançou a formal, ela fez a transição. “Nesse meio tempo, conversei com mentores e ex-chefes e fiz cursos de escrita criativa e SEO. Montei um portfólio em um site bacana e passei a trabalhar minha imagem no LinkedIn, postando bastante conteúdo”, explica.

Foram seis meses de preparação e o retorno veio: Bruna tornou-se Top Voice no LinkedIn caracterizando-se como influenciadora em sua área.No início, sentiu que a produção de conteúdo não estava sendo bem remunerada. “Nessas ferramentas, quem consegue o trabalho é o profissional que oferece o menor valor”, diz Bruna. Outro ponto negativo, para ela, é a prospecção de clientes, já que a maioria dos trabalhadores autônomos tem de sair em busca de novos contratos, sendo, ao mesmo tempo, quem vende, produz e cobra – os pagamentos, aliás, às vezes demoram demais, por se tratar de um trabalho freelancer. Embora já consolidada, Bruna está sentindo o baque da crise da covid-19: um de seus clientes fixos cancelou o serviço, e a renda dela caiu 40%. “Por outro lado, estou lançando meu segundo livro, que só tirei do papel graças à flexibilidade. E também criei cursos online para novos escritores, o que mantém a minha renda”, diz Bruna, que já é autora do livro Lola & Benjamin

E A CONCORRÊNCIA?

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei) expõe uma preocupação importante em relação às plataformas de entrega de alimentos: a diminuição drástica, chegando a zerar em alguns casos, da margem de lucro dos pequenos restaurantes parceiros. Além disso, o investimento em dark kitchens, ou cozinhas fantasmas (restaurantes criados apenas para vender delivery por meio de aplicativos), sem exigir licenças específicas, causa uma concorrência desleal que pode, no limite, provocar a falência de pequenos negócios.

Quem sentiu um pouco desses problemas foi Ana Carolina de Oliveira, de 46 anos, proprietária do Marilyn Restaurante, localizado em uma região com muitas empresas no bairro do Tatuapé, em São Paulo. Ex-consultora de pequenos e médios empreendimentos, ela focou seu negócio na venda de refeições executivas saudáveis feitas na hora. Desde a abertura de seu comércio, firmou parceria com o iFood, mas isso não foi vantajoso para ela. “A empresa cobra uma taxa de 27% sobre o valor da venda para utilizar o entregador deles. Isso consome toda a nossa margem, mas entendi que seria um custo de divulgação e fomos testar o processo”, afirma.

Mas a experiência não foi boa. Segundo Ana Carolina, a empresa mobiliza os entregadores para a região com maior demanda e reduz a área de delivery do restaurante onde há menos entregadores disponíveis. “Muitas vezes, a ferramenta limitava meu alcance de entrega a menos de 3 quilômetros. Outras vezes, quando não havia nenhum entregador, eu era bloqueada sem saber, como se meu restaurante estivesse fechado”, lembra. Já aconteceu também de entregadores ficarem com a comida e não entregarem. “Nem nós, nem o iFood temos controle sobre a qualidade dos profissionais”, afirma Ana Carolina. “Além disso, os restaurantes que entram nas superpromoções que o aplicativo sugere não estão ganhando dinheiro e não conseguem sobreviver por muito tempo.” Como alternativa ao modelo, a empresária já propôs pagar 9 reais para profissionais que fazem entregas de bicicleta, os bikers, que ganham em média 3 reais por serviço nos aplicativos, mas eles não toparam. “Os brasileiros não são ensinados a empreender. Esses trabalhadores têm a falsa sensação de que precisam de alguém para intermediá-los e fazer com que ganhem dinheiro. É isso que essas pessoas veem nessas ferramentas”, diz Ana Carolina. Em um ano, foram vendidas apenas 12 refeições do Marilyn via iFood, e a empreendedora decidiu sair da plataforma.

REGULAÇÃO DO SETOR

Está em tramitação na Assembleia Legislativa da Califórnia, nos Estados Unidos, urna lei que obriga as empresas de aplicativo Uber e Lyft a contratar seus motoristas como empregados. Se aprovada, a lei passará a valer naquele estado para todas as companhias que fazem parte da economia dos bicos. Com a contratação, os motoristas terão benefícios como seguro-desemprego, plano de saúde, salário mínimo, licença-maternidade e paternidade e pagamento de hora extra.

“Infelizmente, aqui no Brasil a jurisprudência aponta para a ausência de vínculo entre essas empresas e seus trabalhadores, e eu acredito que essa regulamentação, embora necessária, esteja longe de acontecer”, diz a advogada Bruna de Sá Araújo. “Eu usaria a Constituição Federal como parâmetro, estabelecendo limite de jornada, patamar mínimo salarial e resguardo do empregado em caso de acidente ou doença. Precisamos pensar em uma forma de esse empregado começar a contribuir com a Previdência.”

Para as especialistas, é papel dos governos proteger esses trabalhadores. “Em mercados que começam a crescer e a gerar distorções nas relações de trabalho, o Estado tem de entrar para garantir melhores condições aos profissionais, longe da exploração, só que sem deixar a flexibilidade se perder”, diz Juliana, do lnsper. Essa equação não é simples de resolver.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – VIII

REDES QUE SALVAM

Amigos e familiares também são uma importante ferramenta na luta contra a síndrome do pânico. Saiba como eles podem ajudar

Conviver com transtornos de ansiedade é extremamente cansativo emocionalmente. As crises de pânico trazem consigo intensas explosões de sentimentos ruins que tomam a mente em momentos delicados – reuniões de trabalho que parecem verdadeiros turbilhões de medo, encontros amorosos repletos de anseio, horas de convívio que se tornam verdadeiros prolongamentos de angústia e solidão. Todos esses quadros podem desenvolver a agorafobia (medo da crise) e, com isso, a pessoa acaba se fechando às vivências, deixa de sair de casa e levar uma vida saudável com medo da próxima crise. Esse isolamento aliado ao estresse emocional causado pelos sentimentos produzidos pela crise faz os amigos e familiares se afastarem e, assim, o transtorno tende a se agravar.

RECONSTRUINDO A SEGURANÇA

Em meio a essa situação de fragilidade e insegurança, é importante manter o convívio social para que os laços emocionais estejam saudáveis. Dessa forma, a pessoa poderá progredir no tratamento e na convivência com o transtorno. Como forma de ajudar quem tem síndrome do pânico a se reconectar com o sentimento de pertencimento, com as pessoas próximas e todas as formas de convívio social, além de fornecer ferramentas de autoconhecimento importantes para identificar medos e gatilhos emocionais, existem os grupos de apoio. É dessa forma que será possível compartilhar suas experiências, trocar conhecimentos e criar uma rede de ajuda mútua.

A participação dos amigos e familiares também é muito importante para a pessoa em crise. Os laços afetivos da família, se forem saudáveis, podem fornecer elementos importantes para reestabelecer a segurança de quem possui a síndrome, como o respeito, o acolhimento e a escuta. Além disso, o apoio das pessoas próximas é de grande ajuda para que quem que enfrenta o transtorno possa ter motivações para buscar ajuda de psicólogos e se manter no tratamento.

A rotina de interação social saudável contribui para a autoestima e possibilita os primeiros passos para sair do isolamento, recobrar o cotidiano e inserir atividades prazerosas no dia a dia – são ações que contribuem para o tratamento. O psicólogo Roberto Debski comenta os benefícios de compartilhar os problemas enfrentados: “Toda rede de suporte social é importante quando nos encontramos doentes ou com problemas. Sozinhos, o peso é muito grande, porém quando dividimos com aqueles que amamos, o fardo se torna suportável e mais fácil de superar”.

SEJA UM BOM AMIGO

Ainda é muito comum que transtornos psicológicos sejam menosprezados no meio social. Não é raro que portadores desses distúrbios ouçam comentários como “isso é coisa da sua cabeça”, “é só frescura” ou “isso é normal, todo mundo sente medo, é só você se esforçar”. Esse tipo de agressão diminui a autoestima de quem apresenta a síndrome e contribui para o agravamento da situação de crise. Sempre que tiver que lidar com pessoas que enfrentam a síndrome do pânico ou demais transtornos, é importante ter em mente que também podemos contribuir para a melhora desse indivíduo com respeito ao sofrimento. Afinal são distúrbios sérios que superam sentimento de medo ou angústia comuns e exigem tratamento. Se você é uma pessoa com síndrome do pânico, procure estar perto de quem entende sua situação e que te respeite. Mantenha bons laços afetivos para que você possa se sentir seguro (a) para progredir no tratamento.

AJUDA EM GRUPO

Se você sente que precisa de um auxílio com seu tratamento e gostaria de ter com quem compartilhar sua vivência ou conhece alguém nessa situação, os grupos de apoio são uma opção de ajuda. Na internet, é possível encontrar grupos em sites e redes sociais. Dentre eles, o Grupo Apoiar tem um portal com mapas de localidades dos diversos grupos espalhados pelo Brasil. Confira em: www.apoiar.org.br/grupospelobrasil.asp

EU ACHO …

DA JABUTICABA À BLACK FRIDAY

Duas décadas atrás, ninguém acreditava que uma empresa que vende quase de tudo pela internet poderia ser viável. Agora, o comércio eletrônico é cada vez mais onipresente

O plano de negócios do Mercado Livre, lançado em 1999, foi recebido com certa desconfiança. Quando Marcos Galperin e eu apresentamos a ideia aos nossos colegas na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ouvimos que o consumidor latino-americano não aceitaria comprar um produto sem antes vê-lo e tocá-lo. Ouvi comentários semelhantes de outros colegas de um dos bancos onde trabalhei no fim dos anos 1990. Eles se mostraram curiosos, mas bastante céticos em relação ao investimento em um negócio de comércio eletrônico no Brasil. Eu me lembro, naquela época, de um almoço que tive com essa turma em um restaurante em São Paulo. Na ocasião, ouvi também a respeito das dificuldades de empreender no Brasil em meio a tantas jabuticabas e desafios macroeconômicos recorrentes no país.

No entanto, nunca duvidei do potencial do negócio. Sabia que o consumidor brasileiro em particular, e o latino-americano de uma maneira geral, não divergia em sua essência do consumidor americano ou de outras regiões do mundo mais desenvolvidas. Eu e meus sócios queríamos (e ainda queremos) excelência na experiência de compra: sortimento, bom custo-benefício e acesso mais imediato possível ao produto desejado. Sabíamos que o advento da internet transformaria, em escala e proporção, o princípio básico de oferta e procura.

No ano 2000, tínhamos algumas dezenas de tipos de produtos disponíveis na plataforma, como o “telefoninho”, um gadget que permitia fazer ligações telefônicas e que era o grande objeto de desejo do e-commerce à época. Saltando 21 anos, depois de enfrentar diversas crises políticas e econômicas, tanto globais quanto locais, e engolindo jabuticabas mais ou menos azedas, seguimos mais confiantes do que nunca. Atualmente, com mais de 300 milhões de anúncios, 76 milhões de usuários ativos e 12 milhões de vendedores únicos, o Mercado Livre é o espelho do sucesso de todo o setor de tecnologia para o e-commerce e os serviços financeiros da América Latina não apenas pelo valor de mercado da companhia na bolsa americana Nasdaq, mas por toda a cadeia de milhões de empreendedores, pequenos comércios, grandes redes varejistas e empresas de logística que impactamos positivamente.

Mesmo no cenário adverso da pandemia, dados da empresa de inteligência de mercado Compre & Confie mostram que, no terceiro trimestre de 2020, o e-commerce já ultrapassou toda a receita do ano passado. Segundo análise do banco Goldman Sachs, o comércio eletrônico deverá representar uma alta de pelo menos 40% em relação ao mesmo trimestre de 2019 – no mesmo período, as vendas do Mercado Livre avançaram 74% no Brasil. Não é só. Estima-se também que a penetração do e-commerce no varejo deverá saltar para 11% até o fim do ano, o que representa entre 5 e 6 pontos porcentuais acima do que registrávamos antes da pandemia.

As mesmas pessoas que buscaram o e-commerce em março e abril, no auge da pandemia, para se abastecer de produtos essenciais agora compram de tudo e com mais frequência: de alimentos a eletroeletrônicos, de itens de maquiagem a automóveis. Acredito que, tanto para o Mercado Livre, que dobrou sua operação neste ano, quanto para os seus concorrentes, a tendência é que o mercado continuará se expandindo em ritmo veloz.

Observo esse futuro se materializando nesta Black Friday. No evento, o e-commerce como um todo entregou volumes maiores, em geografias mais afastadas dos centros comerciais e com mais celeridade doque já havia feito em duas décadas. De nosso lado, reforçamos os investimentos em logística e tecnologia, com uma frota aérea e viária e novos centros de distribuição. Tudo isso para a Black Friday de 2020? Não apenas. Pensando no longo prazo, acredito que o sucesso do e-commerce daqui pra frente será medido justamente pela capacidade das plataformas de varejo digital e marketplaces de unir bits e bytes com o mundo dos átomos, ou seja, tecnologia e logística, facilitando sempre a navegação na plataforma, ampliando o sortimento de produtos, oferecendo um atendimento de pós-venda para auxiliar o comprador e o vendedor, dando-lhes acesso a bons negócios, pagamentos instantâneos e serviços financeiros e de crédito.

Mesmo assim, esse ainda não é o auge. Quando reflito sobre tudo o que ainda temos de conquistar, penso em mangas-rosas. Afinal, quando é que vou conseguir comprar minhas frutas favoritas – quiçá até jabuticabas – com a mesma celeridade e escala com que consigo obter quase tudo não perecível no Mercado Livre? Já temos alguns exemplos de redes de supermercado com e-commerces eficientes e algumas plataformas concorrentes com parcerias para entregas rápidas de alimentos. No entanto, ainda não chegamos a um modelo de logística específico, eficiente e rentável para o e-commerce que garanta entregas de não perecíveis no mesmo dia, em horas, para todo o Brasil.

Tenho certeza deque chegaremos lá. Ao avançar em categorias desafiadoras como as de supermercado, setor automotivo e moda, o e-commerce tende a fomentar ainda mais o ciclo virtuoso que move de pequenos produtores e microempresas de entrega a grandes marcas e distribuidores logísticos de escala nacional, conectando todos ao público consumidor. É com essa perspectiva que sigo otimista e confiante de que sairemos mais fortes da pandemia do coronavírus, com aprendizados que vão gerar frutos saborosos para quem compra e quem vende no Brasil e na América Latina.

*** STELLEO TOLDA – é cofundador do Mercado Livre, empresa líder em tecnologia para e-commerce e serviços financeiros da América Latina

OUTROS OLHARES

QUESTÃO DE PELE

A pandemia desperta a atenção da Dinamarca para a indústria de casacos de pele, um negócio bilionário que encobre o sofrimento de animais e ainda sobrevive no país

Há algo de podre no reino da Dinamarca, segundo disse o personagem Marcellu, em Hamlet, peça escrita por Shakespeare quatro séculos a trás. Pelo que foi revelado nas últimas semanas, continua havendo. Ao identificar uma possível mutação do Sars-CoV-2, o vírus da Covid-19, em um pequeno mamífero de pelo macio, o governo determinou que todos os 17 milhões existentes no país fossem abatidos. O animal em questão é o vison, também chamado de mink, cuja criação se dá basicamente para suprir o mercado de peles. Quando uma cepa do vírus relacionada ao bicho foi detectada em doze moradores do interior da Dinamarca, as autoridades sanitárias, com o apoio da polícia e das Forças Armadas, entraram nas fazendas e deram início ao abate.

Na primeira semana de novembro, quase 3 milhões de animais tinham sido sacrificados e incinerados, informou a rede BBC. O serviço dantesco já estava concluído em 116 fazendas, de uma cooperativa de 1.500, quando a primeira-ministra Mette Frederiksen admitiu que a decisão fora apressada e que não havia base legal para matar os animais que estavam saudáveis. Ainda assim, o governo está encorajando os fazendeiros a prosseguir com o abate, prometendo compensações financeiras aos mais de 3.500 trabalhadores do setor. Emma Hodcroft, geneticista da Universidade da Basileia, na Suíça, explica que a forma insalubre como os animais são criados, amontoados em espaços superlotados, compromete seu sistema imunológico e facilita a mutação e propagação do vírus. “A decisão rígida de abatê-los não se baseia apenas nas possíveis mutações, mas também na contenção da transmissão”, explica a cientista.

Há poucos dias, o governo se reuniu com membros da oposição para rediscutir o tema. Ficou pré-acordado que os fazendeiros terão de extinguir a criação de visons até o fim de 2021. Já aqueles que concordassem com o abate imediato receberiam, além da reparação pelo prejuízo comercial, um bônus de 30 coroas dinamarquesas (cerca de 25 reais) por unidade. A medida drástica é justificada pelo temor de que mutações em outras espécies possam ampliar a letalidade do novo coronavírus, como ocorreu com a chamada gripe suína em 2009. O que não encontra justificativa é um país nórdico desenvolvido ainda dar suporte a uma indústria há anos banida da maioria dos países da Europa, incluindo o Reino Unido.

O vison não é domesticável como seu parente próximo, o furão, mas ainda é mantido em cativeiro apenas para servir à indústria de moda e beleza – recentemente, cílios postiços feitos de sua pelagem ganharam popularidade. Com apenas 40 centímetros de comprimento, são necessários sessenta deles para fazer um só casaco. Há anos, organizações que lutam pelos direitos dos animais denunciam os maus-tratos contra os visons, mantidos em gaiolas minúsculas. A morte, quando não se dá por pancada na cabeça, pode ser feita por afogamento. Há relatos de capturas realizadas em armadilhas que quebram os ossos sem danificar a pelagem. Dessa forma, até mesmo a Animal Protection Denmark, grupo de proteção animal dinamarquês, acredita que a solução das autoridades, forçada pela pandemia, não seja pior do que o sofrimento infligido à espécie.

No passado, roupas de pele eram vistas como símbolo máximo de elegância, mas o glamour está em constante declínio. Muitas marcas de luxo reconheceram os evidentes conflitos éticos e se comprometeram a não mais produzir roupas de vison, chinchila, guaxinins e coelhos. Até mesmo a rainha Elizabeth II renunciou aos modelitos felpudos. Nas bolsas de mercadorias, o valor da pele de vison despencou 67% em sete anos. Ainda assim, mesmo com a desvalorização, se o pré-acordo escandinavo prevalecer, o baque econômico não será desprezível: líder mundial no setor, com uma fatia de 40%, a Dinamarca faturou com exportação, somente no ano passado, o equivalente a 4,2 bilhões de reais. Como a demanda segue em alta no mercado chinês, é bem possível que o país da Muralha aproveite o vácuo e abra em seu território fazendas que hoje se encontram na Europa. Graças às vacinas em andamento, a Covid-19 talvez esteja com seus dias contados. Mas o sofrimento do vison, apenas para satisfazer o capricho do homem, ainda está longe do fim.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE DEZEMBRO

O BOM NOME VALE MAIS DO QUE DINHEIRO

Mais vale o bom nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a prata e o ouro (Provérbios 22.1).

Numa sociedade que supervaloriza o poder econômico e atribui mais importância ao ter que ao ser, Salomão, que podia falar “de cadeira”, pois era o homem mais rico do seu tempo, é categórico em afirmar que há coisas mais preciosas que as riquezas materiais. O bom nome vale mais que muitas riquezas, e ser estimado é melhor que ouro e prata. Note que Salomão não apenas afirma que o bom nome é melhor que riquezas, mas que é melhor que muitas riquezas. É melhor ter uma boa reputação que ser um ricaço. É melhor ter o nome limpo na praça que ter o bolso cheio de dinheiro sujo. É melhor andar de cabeça erguida, com dignidade, que viver em berço de ouro, mas maculado pela desonra. A honestidade é um tesouro mais precioso que os bens materiais. Transigir com a consciência e vender a alma ao diabo para ficar rico é uma consumada loucura, pois aquele que usa de expedientes escusos para enriquecer, subtraindo o que pertence  ao próximo, em vez de ser estimado, passa a ser odiado na terra. A riqueza é uma bênção quando provém do trabalho e da expressão da generosidade divina. Mas perder o nome e a estima para ganhar dinheiro é tolice, pois o bom o nome e a estima valem mais que as muitas riquezas.

GESTÃO E CARREIRA

MOMENTO DE REFLETIR

Períodos de crise podem exacerbar nossas insatisfações com os rumos profissionais. Aprenda a estruturar uma reflexão sobre seu momento de vida

Nos últimos meses, a rotina de milhares de pessoas mudou drasticamente. A pandemia causada pelo novo coronavírus colocou estados e municípios inteiros em quarentena, levando a demissões em massa, suspensão de contratos de trabalho, redução de salários e de cargas horárias, causando pausas forçadas na carreira de muitos profissionais. Os tempos são difíceis, mas essa pausa involuntária das atividades pode ser usada para algo positivo: repensar as escolhas de carreira. “Nem tudo é negativo em meio ao caos. Surgem oportunidades para rever hábitos, valores, mudar de rotina, e quem sabe escolher um novo caminho”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de neurociência organizacional. Tais reflexões, entretanto, precisam ser feitas com cuidado. Superar o desânimo e tomar as rédeas da situação não é algo simples. “Mesmo quem manteve o emprego está passando por momentos de insegurança. Essa falta de controle deixa evidente uma resposta de estresse natural, e não deve existir a obrigação de achar que está tudo lindo”, explica Ana Carolina. A solução é ir com calma e começar se permitindo viver um pouco o estado de inércia – aquele período em que não conseguimos vislumbrar nada por estarmos muito imersos numa situação complicada. Quando a poeira baixar um pouco, será hora de começar a refletir sobre o que já foi conquistado e o que se quer alcançar.

TENTE DESACELERAR

Não é incomum que, na rotina habitual, as pessoas passem o tempo todo resolvendo questões práticas, trabalhando ou pensando no emprego. Nesse dia a dia cheio de tarefas, não sobra tempo – nem cérebro – para refletir. Por isso, uma das atitudes mais importantes é criar momentos de conexão consigo próprio. Só assim é possível começar a raciocinar sobre o que está bom e o que está ruim na carreira. “O ócio favorece o desenvolvimento do autoconhecimento e também da criatividade, duas habilidades valorizadas no mercado de trabalho e cruciais para a determinação do que se deseja para o futuro”, diz Ana Carolina.

Fazer essa pausa é fundamental, porque processos mentais importantes (como o da criatividade) precisam de inatividade para renovar os reservatórios de energia física e psíquica. Marcia Vazquez, consultora de carreira, coach e psicóloga, explica que, no momento em que há silêncio e inatividade, alguns questionamentos devem nortear as reflexões sobre uma mudança. “O que eu gosto de fazer? O que faço melhor? Quais são as prioridades da minha vida? Essas são perguntas que levam a entender as possibilidades de emprego dentro da personalidade de cada um”, explica a especialista.

DO PENSAMENTO PARA A AÇÃO

Um caminho para a reflexão pode ser a busca por ajuda profissional (como um coach ou uma consultoria de transição de carreira). Mas, quando não é possível investir nisso, uma maneira de pensar sobre os próprios passos é conversar com amigos, colegas ou parentes que o conheçam e tenham maturidade para opinar com objetividade e isenção. “Essa pessoa pode validar características e ideias que formamos sobre nós mesmos, além de agregar informações que sozinhos não teríamos”, diz a neurocientista Ana Carolina.

Caso a decisão seja mudar de área, interagir com pessoas que trabalhem nesse novo setor pode trazer reflexões profundas. “Nem sempre as informações da internet são capazes de dar um panorama completo sobre a profissão. Somente as pessoas que já atuam podem falar com propriedade a respeito do cenário atual e das expectativas para quem quer ingressar”, diz Lucas Papa, gerente da Michael Page, consultoria de recrutamento.

O especialista afirma que esse movimento de pensar sobre a profissão é muito rico para os trabalhadores. “Para quem deseja ser dono da própria carreira, o tempo para essa reflexão é muito precioso. Ter na mente definido o que se quer permite a inversão de papéis, que é se colocar na posição de entrevistar a empresa no momento em que é entrevistado. Passa a ser uma decisão para ambos os lados”, diz Lucas. Mas ele faz uma ponderação: “As pessoas não podem se deixar levar pela ideia de que se reinventar completamente e mudar de carreira será a solução para tudo. O passo a passo dessa reflexão é importante e deve ser feito com profundidade”. Cuidado para não cair nessa armadilha.

COMO ENCONTRAR TEMPO

É possível analisar sua carreira, mesmo dentro da rotina corrida. Veja algumas dicas

1 – PRIORIZE:

Delimitar quais são os compromissos prioritários e avaliar em que você está gastando tempo demais são os primeiros passos. Assim, você vai conseguir encontrar algumas brechas que podem ser realocadas em sua reflexão.

2 – TENHA PACIÊNCIA:

A reflexão pode ser um processo lento, então, não se cobre demais para encontrar respostas nos primeiros dias. Dê tempo ao tempo para amadurecer as ideias.

3 – PENSE DUAS VEZES:

Pontue se é possível fazer algo que tenha a ver com sua carreira atual. Mesmo que seja preciso fazer alguns cursos, esse tipo de transição costuma ser menos complexo.

GUIA DA PONDERAÇÃO

O passo a passo abaixo, dividido em duas partes, ajuda a pensar sobre suas conquistas e as metas que você quer atingir

PARTE 1 – PERSPECTIVAS

As respostas às perguntas a seguir geram insights sobre sua personalidade, suas competências e as áreas em que pode vir a atuar

O QUE JÁ FIZ E APRENDI NA FUNÇÃO QUE EXERÇO ATUALMENTE?

Pense tanto nas habilidades que desenvolveu como nas aptidões pessoais. Aqui você deve definir o que vale a pena preservar e o que pode ser eliminado em um novo caminho.

O QUE MAIS GOSTO DE FAZER E O QUE FAÇO MELHOR?

Mapeie seus interesses, seus valores, o que é mais e menos importante em sua vida. Classifique seus conhecimentos, talentos, experiências e trace pontos em comum que possam resultar em uma profissão.

QUAIS SÃO AS PRIORIDADES DA MINHA VIDA?

Entenda seu estilo de vida: O que vê como uma carreira bem-sucedida? O que deseja construir para o futuro? O que espera de uma mudança profissional?

PARTE 2 – PRESENTE E FUTURO

Num segundo momento, a ideia é entender onde você está e o que deve fazer para chegar aonde quer

QUAIS SÃO AS VANTAGENS E AS DESVANTAGENS DE UMA MUDANÇA?

Faça uma lista e pense em todo o processo: A transição demandará gastos financeiros? Em quanto tempo você estaria preparado para mudar? O que essa mudança transformaria em sua vida? Que custo emocional haveria?

O QUE ESTÁ EM MINHA MENTE?

Converse com pessoas próximas e peça opiniões sinceras sobre seus planos. Além disso, amplie sua rede de contatos para falar com profissionais da nova área ­ pergunte quais são as dores e as alegrias e o que foi preciso para chegar até ali.

QUAL É MEU PLANO?

É importante traçar um planejamento formal para não se perder. Crie metas de estudos, de networking e de despesas financeiras. Lembre-se de que os objetivos devem ser realistas e são apenas um guia.

SUPERANDO A INSEGURANÇA

Os pensamentos sobre o rumo profissional vieram à tona quando Renata Barretto, de 38 anos, ficou desempregada. Com 13 anos de carreira na área de tesouraria, ela estava confortável, mas tinha vontade de trabalhar com investimentos. Em 2015, quando foi desligada da companhia em que trabalhava, ela se viu em casa e compreendeu que era hora de se renovar. No começo não foi fácil. Renata não sabia como definir seu caminho profissional dali para a frente. Pensou nas habilidades que já possuía e nas que teria de aprender se fosse mudar de profissão. Por um momento, sentiu-se insegura e resolveu manter tudo como estava. Na sua cabeça, os dez anos de carreira na área e o investimento de tempo e dinheiro para se reinventar eram impeditivos para encontrar um novo caminho. Tudo mudou quando ela começou a ser entrevistada para vagas de tesouraria. “Depois de várias negativas, me enchi de coragem e decidi mudar: queria mesmo era trabalhar com investimentos”, diz. Renata compreendeu que a dificuldade já existia de toda maneira, então, era melhor lutar por aquilo que parecia fazer mais sentido. Com uma reserva financeira de 4.000 reais, ela conseguiu parar por um tempo para investir em educação. “Busquei por cursos com certificação, pagos e gratuitos, presenciais e online, li muitos Livros.

Foram meses dedicados a aprender tudo o que eu precisava para me qualificar”, diz. Em dezembro de 2016, ela viu seu esforço ser recompensado. Renata foi contratada como planejadora na Kl Capital Humano, empresa de planejamento financeiro. Dois anos depois, o bom trabalho prestado a levou a se tornar sócia adjunta da empresa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – VII

OS ALIADOS DA CURA

Junto com o acompanhamento psicológico, os medicamentos são essenciais para quem luta contra o transtorno do pânico

Pessoas com síndrome do pânico são frequentemente usuários dos serviços de atenção básica de saúde. Porém, muitos deles não são diagnosticados e tratados de maneira correta. Possivelmente, a presença de outros distúrbios, como a depressão, pode estar ou não relacionada com os transtornos. A falta de consciência e informação pelos próprios pacientes e profissionais e a pouca credibilidade em relação ao tratamento são fatores que, recorrentemente, causam desordens clínicas.

“A evolução do quadro, se não tratado, pode ser a pior possível, pois o transtorno do pânico costuma vir acompanhado de outras comorbidades. Quando se busca o tratamento para esse problema, pode-se descobrir outros que também serão tratados”, explica a psicoterapeuta Fátima Dutra. Os tratamentos indicados para os transtornos de ansiedade são baseados no paciente – na severidade da doença, nas doenças concomitantes, nas possíveis complicações, no histórico de tratamentos anteriores, nas questões de custo e em suas preferências.

A BASE DO TRATAMENTO

“Existe uma diferença entre episódios de pânico, que podem acontecer esporadicamente, e o transtorno do pânico, que tem uma frequência elevada, acontecendo até mais de uma vez no mesmo mês. É a partir desse momento que os remédios devem ser utilizados”, esclarece a psicoterapeuta. Entre as variações de tratamentos, o mais indicado pelos psicólogos é a combinação entre as técnicas da psicoterapia e a boa administração de medicamentos. “É por meio dela (psicoterapia) que a pessoa pode conversar sobre suas questões, medos, preconceitos, as dificuldades com a família que não aceita a doença e, assim, ficar livre dos sintomas o mais rápido possível”, conclui.

Preocupações e preconceitos em relação aos tratamentos podem impedir sua eficiência, em especial, quando o assunto são os remédios. Existe a crença de que causam mal à saúde ou que irão gerar a dependência. Outra atitude dos pacientes que pode atrapalhar é a vergonha de ter uma “doença na cabeça”, considerando-se incapazes e fracos. “Geralmente, eles se comparam a outras pessoas, que têm muitos compromissos, filhos, trabalham, moram distante do serviço, cuidam da casa, fazem cursos e conseguem lidar com todas essas coisas. Aí vem a pergunta: “Como que ela consegue fazer isso tudo e eu não consigo entrar numa farmácia?”, explica a psicoterapeuta.

OS EFEITOS POSITIVOS E NEGATIVOS

O portal online da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apresenta uma tabela com os efeitos positivos e negativos dos medicamentos mais utilizados no tratamento do transtorno do pânico:

ISRS

• POSITIVOS: baixo risco de mortalidade, são bem tolerados e tratam a depressão caso esteja associado.

• NEGATIVOS: Efeito demorado (4-12 semanas) e podem piorar os sintomas no início.

BZD (BENZODIAZEPÍNICOS)

• POSITIVOS: início de efeito rápido e bem tolerado.

• NEGATIVOS: alta sedação e risco de dependência.

TRICÍCLICOS

• POSITIVOS: tratam a depressão associada.

• NEGATIVOS: risco de overdose e efeitos anticolinérgicos (inibem a produção de acetilcolina).

IMAO (INIBIDORES DA MONOAMINOOXIDASE)

• POSITIVOS: tratam a depressão associada.

• NEGATIVOS: há um forte risco de crises hipertensivas.

RIMA (INIBIDOR REVERSÍVEL DA MONOAMINOOXIDASE TIPO A)

• POSITIVOS: reduz as restrições na dieta.

• NEGATIVOS: Menos efetivo do que as IMAO’s.

ANTICONVULSIVANTES

• POSITIVOS: rápido efeito inicial.

• NEGATIVOS: baixo nível de evidência, podem causar dependência e sedação.

POR DENTRO DOS MEDICAMENTOS

O cérebro do paciente não sabe diferenciar a realidade da imaginação. Isso ocorre porque a produção de serotonina no órgão é menor, o que contribui para que a pessoa crie uma nova realidade para sua vida e passe a acreditar nela como verdade absoluta.

A medicação é muito relativa, pois depende do perfil do paciente e do diagnóstico de cada caso. A princípio, os medicamentos mais indicados são exatamente os antidepressivos, que geralmente causam algum efeito colateral. Os remédios mais indicados são os chamados ISRS (Inibidores Seletivos dos Recaptadores da Serotonina). Eles são responsáveis pela operação dentro da fenda sináptica, que existe entre os terminais dos neurônios, chamados de botões sinápticos.

Pelos efeitos calmantes, a sertralina seria o remédio mais indicado, segundo a psicoterapeuta Fátima Dutra. Também são utilizados o relapax, o clonazepam, o lorazepam, o rivotril, o bromazepam, o lorax, o lexotam e o frontal. Em alguns casos, o uso de um ansiolítico para ‘abortar’ as crises é o recomendado.

INFLUÊNCIA NA DECISÃO

As medicações utilizadas no tratamento da síndrome do pânico são as mesmas prescritas para a depressão. Os antidepressivos utilizados têm uma função importante na melhora da condição neuronal, atuando como uma “vitamina” para o cérebro.

Esses remédios possuem a função de recuperar a serotonina para que, ao invés do pânico, a pessoa apresente bom humor mesmo diante de situações difíceis, acorde bem pela manhã e leve o dia com disposição e pensamentos positivos, ao contrário de causar a depressão.

A VIDA COM REMÉDIOS

O transtorno do pânico, em sua maioria, nunca está sozinho. Em muitos casos, pode estar associado a outras patologias como a bipolaridade, por exemplo. Dessa maneira, o tratamento é longo, e, em alguns casos, para a vida inteira. Para ter uma boa recuperação e eficácia nos resultados, o psiquiatra Mário Louzã explica ser necessário o uso da medicação por, no mínimo, um ano após o controle total dos ataques de pânico.

CIÊNCIA DO FUTURO

Um estudo dirigido por um grupo de pesquisadores brasileiros do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e do Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Neurociências Aplicados da Universidade de São Paulo (USP), foi publicado pelo The lnternational Journal of Neuropsychopharmacology. Nele. foram descobertos os benefícios do tratamento para a síndrome do pânico com o uso dos canabinoides, substâncias presentes na maconha. A pesquisa investigou os efeitos dos canabinoides naturais sobre as mudanças comportamentais induzidas em ratos na presença de um predador – um gato vivo -, simulando modelos de respostas diante de uma crise de pânico. A conclusão sugere que o segredo é o tratamento à base do sistema endocanabinoide, trazendo a sensação de “paz” e tranquilidade para o paciente, após algumas baforadas. Novos estudos estão sendo feitos para comprovar ainda mais a utilidade dessa propriedade terapêutica da erva.

EU ACHO …

INSEGURANÇA JURÍDICA

Há que incentivar o ensino de economia nas escolas de direito

Em sua obra A Riqueza das Nações (1776,) Adam Smith mostrou o papel da segurança jurídica na prosperidade. No passado, disse ele, reis confiscavam bens, levando as famílias a se proteger do esbulho enterrando o patrimônio. Com a independência do Judiciário, as poupanças passaram a ser depositadas em bancos, de forma segura. Hoje, cabe aos juízes garantir respeito aos contratos e aos direitos de propriedade, o que assegura as condições para o investimento e a assunção de risco. Incentiva-se, assim, a geração de emprego, renda e riqueza.

Nem sempre, todavia, o nosso Judiciário exerce bem esse papel. Juízes, que por vezes não entendem corretamente como funciona economia, emitem sentenças que espalham incertezas e turvam o ambiente de negócios. Na mesma linha, membros do Ministério Público (MP) interferem negativamente na atividade econômica. No afã de exercer a missão de “defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”, a eles atribuída pela Constituição, procuradores tomam decisões equivocadas e viram fonte de insegurança jurídica.

Por exemplo, um procurador deu prazo de trinta dias úteis ao governo de Goiás para que estudasse tributar a exportação de grãos, a pedido da Federação das Indústrias. O respectivo imposto é de competência federal, além de ser atualmente inaplicável. Pela regra universal, incorporada ao direito brasileiro, não se oneram vendas ao exterior, dado que haverá tributação no país de destino. A dupla tributação prejudicaria os agricultores.

Decisão do Superior Tribunal de Justiça, corroborada em liminar do Supremo Tribunal Federal, manteve a retomada da concessão da Linha Amarela pela prefeitura do Rio de Janeiro. Autorizado o cancelamento pela Assembleia Legislativa, o prefeito usou retroescavadeiras para destruir cancelas e cabines de cobrança de pedágio. Por muito tempo, isso inibirá a participação de empresas privadas em leilões de concessões no Rio.

No apagão de energia elétrica do Amapá, houve lamentáveis intervenções do Judiciário. Um juiz federal determinou que os prejudicados teriam direito a receber mais duas parcelas do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso. O magistrado não se ateve ao fato de que existe limite à expansão do gasto público.

Menos de uma semana depois, o mesmo juiz suspendeu, por um mês, as diretorias da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Não percebeu que as instituições atuam em outros estados nem os riscos da acefalia no sistema elétrico nacional provocados por sua decisão.

Casos como esses realçam a necessidade de rever os currículos das escolas de direito. É preciso acelerar o trabalho de algumas delas na preparação de seus alunos para entender conceitos econômicos fundamentais. Isso já é norma há várias décadas nos Estados Unidos. A disciplina direito e economia precisa integrar a grade das faculdades que bem preparam futuros operadores do direito.

*** MAILSON DA NÓBREGA        

OUTROS OLHARES

AS MULHERES E O VINHO

A atividade de sommellére no Brasil é marcada por profissionais em grandes restaurantes e distribuidoras do País. As poucas mulheres que chegam ao topo da profissão, no entanto, enfrentam diariamente os fantasmas do machismo

“Você vem junto com a garrafa?” A cantada direcionada a quem trabalha profissionalmente com vinhos é barata – ou seja, inversamente proporcional ao preço das bebidas em questão. É também apenas uma das frases mais ouvidas pelas mulheres que atuam como sommeliéres – responsáveis pela carta de vinhos de um estabelecimento ou sugestão de harmonização para um cliente. “Nós não estamos sempre bêbadas ou bebemos o dia inteiro em uma festa infinita. como alguns imaginam”, explica Cibele Siqueira sommeliere da Wine, clube de assinaturas de vinhos. O trabalho é sério, mas ainda dominado pelos homens em todo o mundo.

No Brasil, foi no final da década de 1990 que as mulheres começaram a surgir e se destacar nesse mercado. A demora é decorrência da complexidade do cargo – e do investimento em tempo de estudo e alto custo da preparação. “Os cursos e as certificações são caros. Quando comecei, precisei me mudar para São Paulo para estudar”, afirma a curitibana Debora Breginski, sommeliere que começou a carreira aos 18 anos no restaurante Fasano. Uma das pioneiras no País, ela foi diretamente guiada pelo maior profissional brasileiro e um dos melhores do mundo, o sommelier Manoel Beato.

Debora conta que tem um paladar aguçado desde pequena. “Quando a avó pedia para buscar temperos na horta da família, reconhecia as plantas somente pelo olfato. No começo pensei em ser perfumista, mas só existiam cursos na França. Daí um amigo disse que existia a profissão de sommelier”, diz. Ela conta que teve uma educação bastante feminista e não pensou que a escolha da profissão seria um problema, mas a primeira barreira veio do pai, que não queria bancar aquele tipo de educação. Já em São Paulo, não conseguiu se inscrever em um curso de formação da Associação Brasileira de Sommeliers do estado e recebeu uma dica: “Se você estiver trabalhando em algum restaurante e for recomendada, quem sabe conseguimos te incluir na turma”, relembra.

CANTADAS

Foi assim que ela apareceu na porta do restaurante Fasano em São Paulo e deu de cara com o sommelier Manoel Beato. Contou sobre o seu olfato apurado e sobre esse sonho. “Acho que ele ficou chocado com essa abordagem Eu havia acabado de completar 18 anos e não tinha nenhuma formação”, lembra. Com a conquista do estágio garantido, passou a trabalhar de smoking, peça que conseguiu em uma alfaiataria após adaptar uma peça infantil masculina. Demorou até poder usar vestido no trabalho. Ouviu piadinhas e sofreu com as cantadas. “Eu era uma menina na época, não tinha maturidade ou jogo de cintura”, diz. A paciência chegou ao limite quando um cliente a chamou de “fogosa”. “Quero que você guarde essa garrafa aqui no restaurante, porque a sua temperatura deve ser mais alta do que a minha”, teria dito o homem.

Quando é convidada para realizar um trabalho, sua expertise é sempre comparada à de homens com menos experiência e estudo. Com mais de vinte anos de Fasano, centenas de certificados, vivências no exterior e o cargo de professora no Centro Europeu, Debora diz que pode se dar ao luxo de recusar trabalhos, mas não é isso que acontece com profissionais que estão começando. É o caso de Ana Carla Wingert de Morais, advogada que começou a falar de vinhos nas redes sociais por hobby há cerca de quatro anos. Hoje, como sommeliere, decidiu lançar um espumante próprio. Jovem e atraente, ela evita publicar fotos de si mesma no Instagram e foca nos rótulos das garrafas para evitar o assédio. “Tenho medo de perder o controle sobre a minha marca”, diz. Ela conta que com uma profissão graças a uma confraria de vinhos só para mulheres, mas nem a exclusão do sexo oposto foi sinónimo de liberdade. Seu namorado na época tinha ciúmes e dizia que os outros homens não estariam interessados em ouvi-la sobre vinhos, e que iriam ao seu local de trabalho apenas para seduzi-la. As mulheres que participavam do grupo também tinham que ser “autorizadas” por seus maridos a frequentá-lo. “Achei estranho porque quando comecei a fazer eventos para ambos os sexos, o grupo feminino não compareceu”, explica.

A grande preocupação das profissionais é sofrer algum tipo de represália ou divulgar o assédio dando nome aos seus agressores – uma grande parte é de profissionais que as empregam. Uma das mais famosas e importantes sommeliéres do País, Alexandra Corvo, revela que já sofreu diversos tipos de assédio. tanto moral como sexualde “praticamente todos os locais em que trabalhei” e ouvia sempre a frase: “Concordo com você porque você é bonitinha”. A invalidação da profissional é frequente. Já Gabriela Monteleone, responsável pelas bebidas do Grupo DOM, diz que a dúvida sobre sua capacidade profissional vemde homens e mulheres, mas que acontece pouco e não é explícita. ”Sei que acontece, mas nunca aconteceu comigo”, afirmou. Para Debora Breginski, a falta de apoio entre as próprias profissionais também é um problema. “Percebo que há uma rixa entre as mulheres”, diz. Cibele Serqueira defende ainda união para defender a categoria. Ela diz que não é “normal” passar por esse tipo de situação e que é preciso denunciar os culpados. “As coisas mudaram, agora nós podemos falar”,diz. Um brinde a essas mulheres cada vez mais poderosas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE DE RESTAURAR RELACIONAMENTOS

Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mateus 5.9).

A paz é sonho de consumo em um mundo encharcado de conflitos. No final de cada guerra, erguemos um monumento à paz, mas já começamos os novos investimentos para o próximo embate. O mundo fala sobre paz, mas gasta bilhões de dólares em arsenal nuclear. Vivemos numa sociedade marcada pela guerra entre as nações e pelos conflitos dentro das famílias. Escasseia-se a paz e agigantam-se as tensões. A violência tomou conta das ruas, e as agressões são constantes até dentro dos lares. Vemos, com profunda tristeza, pais lutando contra os filhos e filhos matando os pais. Nessa sociedade que cava cada vez mais abismos nos relacionamentos, somos chamados a construir pontes de aproximação. Jesus disse que bem-aventurados são os pacificadores porque eles são chamados filhos de Deus. Recebemos de Deus o ministério da reconciliação. Em vez de semear contendas, devemos lutar pelo fim dos conflitos. Em vez de jogar uma pessoa contra a outra, devemos aproximá-las. Em vez de semear a discórdia, devemos trabalhar pela cura dos relacionamentos. É quando somos agentes da paz que encontramos a felicidade. É quando agimos como pacificadores que somos reconhecidos como filhos de Deus. O monumento da felicidade não é erguido com ódio, mas levantado com a argamassa do amor.

GESTÃO E CARREIRA

SESSÃO DE TERAPIA

Empresas turbinam iniciativas de saúde mental e bem-estar para os colaboradores

O clássico Feitiço do Tempo, de 1993, transformou em ícone o repórter de TV Phil Connors, personagem interpretado pelo não menos cultuado Bill Murray. No longa, o “homem do tempo” viaja para o distrito de Punxsutawney, na Pensilvânia, para a cobertura do Dia da Marmota, um festival típico dos Estados Unidos e do Canadá celebrado anualmente em 2 de fevereiro. Mas ele se vê preso em uma armadilha temporal, condenado a viver o mesmo dia em uma espécie de loop, infinitamente – ou até que se dê conta de que é preciso dar um basta às suas atitudes arrogantes.

O Dia da Marmota virou sinônimo de dias rotineiros e repetitivos, uma situação que, para milhares de pessoas, reflete com exatidão esses tempos de pandemia. Cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU) de meados de abril indicavam que 4,5 bilhões de pessoas estavam obrigadas – ou seguiam recomendação – a ficar confinadas em suas casas.

Esse cenário cobra um preço: aumento de casos de depressão e ansiedade, sofrimento com a solidão ou o excesso de convivência familiar, medo excessivo de perder o emprego ou contrair a covid-19, dificuldades para dormir ou conciliar trabalho com os cuidados da casa e dos filhos pequenos tornam-se realidade comum. E, claro, dias que serepetem sem previsão de mudança no horizonte – ainda mais no caso do Brasil. “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante”, afirmou em 14 de maio Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Um estudo do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) com 1.460 brasileiros apontou, com base em duas pesquisas realizadas em março e abril, que o percentual de pessoas com estresse agudo passou de 6,9% para 9,7%; com depressão, de 4,2%, para 8%; enquanto para os quadros de ansiedade aguda o índice subiu de 8,7% para 14,9%. Em situações normais, a ansiedade e a depressão já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, segundo dados do instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

No Brasil, as empresas ligaram o sinal de alerta. Os cuidados com a saúde mental e o bem-estar dos colaboradores já eram uma tendência que ganhava corpo em anos recentes, com políticas estruturadas pelos departamentos de Recursos Humanos. ”Com a pandemia, isso se intensificou. Várias empresas montaram equipes de gerenciamento de risco que incluem iniciativas nesse sentido. A qualidade de vida dos colaboradores entrou de vez na pauta”, avalia o sócio-diretor da consultoria Fox Human Capital, Sócrates Melo. A face mais evidente dessas iniciativas são os serviços de apoio psicológico, que em tempos de crise sanitária migraram para o ambiente virtual. A empresa de energia Engie Brasil, por exemplo, implantou o Programa de Apoio Pessoal logo no início da pandemia, que inclui atendimentos jurídico, financeiro e psicológico, dentro do esforço para levar o bem-estar aos 3,5 mil colaboradores e familiares. Em abril, foram 373 atendimentos, sendo a metade para orientação psicológica.

Em pesquisas de acompanhamento do estado emocional dos funcionários, as mulheres se mostraram mais vulneráveis, com índices de estresse elevados. “Os dados nos levaram a fazer mais acompanhamentos individualizados e reforçar com os líderes a necessidade de interações mais próximas com as equipes”, diz a diretora de Pessoas e Cultura Simone Barbieri. A importância dos programas corporativos voltados aos cuidados emocionais dos funcionários é crescente e pode ser medida pela proliferação das plataformas online de terapia, como Zenklub e Vittude – ambas com braços corporativos em franco crescimento.

A prevenção é o melhor remédio e isso se reflete também em iniciativas diversas, que vão além de sessões de terapia com profissionais. As ações variam em forma e conteúdo. Muitas empresas apostaram na montagem de cartilhas para orientar os funcionários sobre atitudes que podem parecer simples, mas que ajudam na melhora da qualidade de vida na quarentena: como montar uma rotina em casa, como conciliar trabalho com afazeres domésticos e até mesmo a importância dos momentos de lazer.

É o caso do Nubank, que colocou os mil funcionários em home office em 12 de março e enviou todo o equipamento necessário (computadores, monitores e cadeiras) para que eles trabalhem com mais conforto. A adoção de jornadas flexíveis é outra aposta, como mostra a startup Pipefy, que anunciou que vai aderir ao home office até o final do ano e os funcionários terão liberdade para optar se querem trabalhar de casa ou do escritório. Happy hours virtuais. aulas de yoga e meditação, cursos de culinária e competições internas também fazem parte do rol de ações que vêm fazendo sucesso entre os colaboradores de diversas empresas na pandemia.

As medidas. entretanto, podem se tornar inócuas sem o envolvimento das lideranças. Com incertezas sobre o rumo da crise sanitária, da economia e dos impactos na própria empresa onde trabalham, os colaboradores estão mais ansiosos e é necessária a presença ativa dos gestores para tranquilizar a equipe. “O gestor precisa estar mais próximo do que nunca da equipe para entender como cada um está lidando com essa situação. As realidades são diferentes: há os solteiros, os casados com filhos, aqueles com pais idosos. Cada um precisará de um suporte diferente”, diz Melo.

Ao aportar R$ 4,5 milhões na Vittude, em novembro de 2019, o fundo Redpoint eventures já vislumbrava a importância crescente dos cuidados com a saúde mental nos próximos anos, com a tese de que a empresa poderia ser tornar a Gympass da terapia corporativa – em um modelo semelhante no dessa startup de “assinatura de academias”, em que as empresas contratam o serviço como benefício aos colaboradores. Isso mostra que o combo “saúde mental, bem-estar e qualidade de vida” dos colaboradores veio para ficar – a pandemia só intensificou essa tendência. Nesta reportagem, reunimos algumas iniciativas que já vinham sendo adotadas, mas foram digitalizadas nesse tempo de trabalho remoto, e outras tantas que foram desenhadas para aliviar as aflições dos colaboradores emtempos de covid-19. “O período é difícil. As pessoas sentem falta do convívio no escritório e os dias são muito parecidos. Parece, de fato, o Dia da Marmota”, diz o número 2 do LinkedIn na América Latina, Milton Beck, uma das empresas que ilustram esta reportagem.

BRK AMBIENTAL:

GRUPOS CUSTOMIZADOS AMPLIAM CONEXÕES

Ao acionar o comitê de crise da BR.K Ambiental, no início de março, a CEO Teresa Vernaglia, 55 anos, tinha duas preocupações em mente: garantir a continuidade dos serviços de coleta e tratamento de esgoto e abastecimento de água dessa que é uma das maiores empresas privadas de saneamento do pais, sem esquecer da segurança e do bem-estar dos colaboradores em meio à pandemia. Os desafios eram grandes. Pela própria natureza do negócio, apenas 1,7 mil dos 5 mil funcionários foram colocados em home office. Em meio a um turbilhão de notícias – e fake news sobre a covid-19 -, a comunicação tem sido peça fundamental para ajudar os funcionários a lidar com o que Teresa chama de “caldeirão de emoções e incertezas”. “Nos pautamos pelas diretrizes da OMS e do Ministério da Saúde e apostamos em uma comunicação oficial e qualificada para tranquilizar os funcionários. Envio áudios semanais para toda a companhia por WhatsApp”, diz. A empresa contratou a psicóloga Gisela Castanho, ainda no início da pandemia, para um encontro com 15 gestores, para explicar aspectos da liderança remota e do impacto emocional do confinamento nos funcionários. “Nas conversas, percebemos que o ser humano até se adapta a novas situações. Mas as pessoas deixaram escapar que tinham problemas em casa”, diz a gerente de RH Lia Mors, 40 anos. Para ajudar os colaboradores a desabafar sobre os temas que mais os afligem nesse período, a BRK apostou em sessões de apoio emocional virtuais e customizadas com a psicóloga. Os funcionários são divididos em grupos, trocam experiências e recebem orientações da especialista. Já houve encontros apenas com pais e mães com crianças de O a 7 anos e de 8 a 12 anos, com aqueles que moram sozinhos, com casais e com mães solteiras – os grupos são sugeridos pelos próprios funcionários. Já foram organizados 14 grupos temáticos, e os encontros virtuais reúnem, em média, 25 pessoas. Além do apoio psicológico e da troca de experiências os encontros geram redes de apoio a conexão entre os funcionários. Os solteiros já criaram um grupo de WhatsApp e organizaram happy hours virtuais por conta própria. “O próximo grupo tratará de depressão, que é um tema que começa a surgir”, diz Lia. A BRK também criou a iniciativa Viva Bem, estendida a família dos colaboradores, onde é possível acessar orientação financeira, psicológica, dicas de nutrição etc. A CEO Teresa Vernaglia ainda não participou das seções. “Limpar a casa tem sido uma boa terapia. Minha meta de produtividade é limpar o banhe iro em menos tempo e com a mesma qualidade”, brinca. A jornada de trabalho de 10 ou 12 horas se manteve intacta, somada a novas tarefas, como cozinhar, assistir a seriados e ajudar o filho Gabriel, de 13 anos, com o ensino à distância. “Eu também trouxe meu pai, que tem 85 anos, para ficar conosco nesse período. Fazia anos que não me sentava à mesa para tomar café, almoçar e jantar com marido, filho e pai. Tem sido ótimo”, finaliza.

OLX:

DA ERGONOMIA AO CONTROLE DO ESTRESSE

Dias depois de fechar as portas dos escritórios de São Paulo e do Rio de Janeiro, em 13 de março, a plataforma de compra e venda OLX realizou uma pesquisa interna com seus 750 colaboradores no Brasil, com o intuito de detectar quais eram os principais desafios do trabalho remoto. Embora o home fosse uma realidade na empresa, a modalidade se restringia a ou dois dias da semana e para algumas equipes. O levantamento mostrou que os dois principais problemas estavam relacionados a temas ligados a bem-estar e saúde mental: a falta de uma estação de trabalho adequada e a gestão da ansiedade e do estresse. A partir da descoberta, a empresa adotou uma série de ações. Embora todo o material de trabalho (como notebook, celular, acessórios de TI, modem de internet) já tivesse sido disponibilizado nos dias pré-quarentena, muitos colaboradores se queixavam de trabalhar em cadeiras inadequadas. “O que fizemos foi emprestar 270 cadeiras do escritório, para melhorar o conforto e as condições de trabalho”, diz o CEO da OLX Brasil, Andries Oudsboorn, 43 anos. A empresa também apostou em uma série de iniciativas de bem-estar para ajudar a equipe a manter a cabeça no lugar nesse período. De um lado, organizou workshops virtuais com temas como produtividade no trabalho remoto e inteligência emocional. De outro, disponibilizou sessões de terapia gratuitas, individuais e em grupo, para os funcionários mais impactados no período de isolamento. Aulas de yoga, ginástica laboral e meditação e encontros virtuais entre os colaboradores, que incluem apresentações musicais dos funcionários que se arriscam nos instrumentos completam esse menu. Em quarentena no Rio de Janeiro, com os dois filhos, de 8 e 11 anos, Oudsboorn se adaptou bem à rotina de trabalho em casa, com o qual não estava acostumado. Para aliviar o estresse, intensificou o consumo de audiobooks e manteve a rotina de exercícios. “Montei uma academia em casa para treinar pela manhã. Comprei os equipamentos pela OLX”, brinca. A rotina de mais de dez horas de viagens semanais ficou para trás, mas os contatos com outras empresas, investidores e os familiares na Holanda, seu país de origem, se mantém por videoconferência. Épor meio desse tipo de ferramenta que ele se comunica, também com os 750 colaboradores, uma vez por semana, para esclarecer dúvidas e atualizar sobre o momento da empresa – em tempos normais, essa comunicação ocorre uma vez por mês. “Tem sido um momento de adaptação e dificuldade para todo mundo, com muitos fatores de estresse. Foi preciso investir mais em comunicação com a equipe”, diz. “Tivemos a conscientização de explicar para os gestores que não se trata de uma realidade normal. Eles precisam estar mais próximos dos funcionários e identificar se alguém tem um problema”.

LINKEDIN

CADA COLABORADOR É UM COLABORADOR

Permitir que o colaborador leve as crianças para o escritório em uma ou duas datas anuais já é uma tradição de diversas empresas brasileiras. No último dia 15 de maio, o LinkedIn resolveu inovar. No lugar dos pequenos, 140 pais e mães dos funcionários da filial brasileira dessa rede social puderam conhecer um pouco mais sobre a empresa e conversar com o diretor-executivo para a América Latina, Milton Beck, 57 anos. Tudo como manda o figurino atual: por videoconferência. “É muito comum que os pais dos funcionários não entendam exatamente o trabalho dos filhos no LinkedIn ou como ganhamos dinheiro. Passei urna hora e 40 minutos explicando um pouco sobre tudo isso. Mas o objetivo principal era trazer um pouco de leveza para esses tempos tão difíceis”, diz Beck. Esse tipo de iniciativa de “descompressão” se tornou um mantra para o LinkedIn nos mais de dois meses de quarentena. Os 300 funcionários trabalham de casa desde 12 de março, e as estratégias da empresa para tornar os dias menos difíceis tentam abranger as mais diferentes necessidades dos colaboradores. A pandemia, pontua Milton, escancarou realidades distintas: há solteiros sofrendo de solidão, pais com crianças pequenas que não conseguem manter a produtividade, colaboradores fazendo malabarismo para conciliar trabalho com cuidados a parentes idosos, e outros tantos ansiosos com a falta de perspectiva de um retorno à normalidade. “Não adianta ter um programa de bem-estar e saúde mental restrito, é preciso urna abordagem individual. Há problemas de solidão, ansiedade, vontade de voltar ao escritório. As pessoas reagem de modo diferente. Está pesado para muita gente”, diz. Para ajudar os funcionários a gerenciar o estresse e a ansiedade, a empresa reforçou o aconselhamento com psicólogos e terapeutas com atendimento online e 24 horas. Pais com filhos menores de 13 anos –   ou colaboradores com pais idosos e que não têm acesso a casas de apoio – podem optar por trabalhar em horários flexíveis, reduzir a carga de trabalho ou simplesmente tirar uma licença remunerada de um mês. “Fica a critério do colaborador escolher o que melhor se encaixa à sua realidade”, diz. Happy hours e bingo virtuais, reuniões temáticas (onde todos usam chapéu, uma camiseta da mesma cor ou levam um brinquedo) e até aulas de culinária com o time da copa estão no rol de atividades oferecidas no período. As reuniões com a liderança fazem sucesso. A cada 15 dias, o CEO global, Jeff Weiner, conduz apresentações para toda a organização – algumas já reuniram 10 mil pessoas. Milton ajustou a própria rotina. As caminhadas pelo bairro paulistano da Vila Madalena, onde mora, se restringem agora a visitas à padaria, e a academia foi substituída por uma bicicleta ergométrica recém-adquirida. O executivo tentou emular a rotina do escritório, com jornadas diárias de trabalho das 8h às 18h30. “Moro em um apartamento pequeno, com minha esposa e dois filhos adultos. Há uma briga por espaço – eu trabalho da mesa da sala e o maior problema é a banda larga. Se eu tenho uma videoconferência, ninguém pode assistir a filmes online”, completa. Os finais de semana são reservados para o lazer: um filme na Netflix, um jogo de cartas ou xadrez com os filhos.

TRANSFERWISE:

DE CLUBE DO LIVRO A AULAS DE CULINÁRIA

Antes mesmo do início da quarentena no estado de São Paulo, em 24 de março, a executiva Heloisa Sirotá, 36 anos, já comandava o time de dez pessoas da operação brasileira da empresa de meios de pagamento TransferWise de seu apartamento no bairro paulistano da Mooca. Em 13 de março, a empresa, com sede em Londres e escritórios em 14 países, determinou que os cerca de 2,2 mil funcionários globais passassem a trabalhar remotamente. Em quarentena com a filha Rebeca, de 5 anos, a general manager no Brasil teve de se ajustar a uma nova rotina, em que viagens a trabalho e a ida ao escritório deram lugar a videoconferências e ajuda com tarefas escolares. “Acordamos cedo, tomamos café juntas, e já começo a trabalhar, com reuniões diárias com as equipes de Londres e da Estônia. Tive de liberar mais TV e iPad para ela”, conta. Com um tempo dedicado a ajudar a filha nas tarefas escolares, Heloisa retoma o trabalho na parte da tarde, muitas vezes estendendo para depois do jantar, sobretudo atividades que exigem maior concentração. “Para relaxar, voltei a ler e arrisquei receitas na cozinha”, diz. A escolha pela culinária não acontece à toa. Essa é apenas uma das atividades de lazer oferecidas pela TransferWise para tornar menos difíceis os dias de confinamento das equipes espalhadas pelo mundo – mais de 70 nacionalidades compõem o time. Por meio da ferramenta Slack, os funcionários organizaram canais temáticos que reúnem praticantes de yoga, amantes de literatura e chefs amadores. Uma competição semanal de curtas-metragens de um minuto está entre as salas de maior sucesso na pandemia. Outra é um canal dedicado a pais e mães que trocam experiências sobre os desafios de conciliar trabalho e cuidados com os pequenos. “Houve desde o início uma preocupação efetiva da liderança em criar momentos de descontração, algo para quebrar a rotina e tirar o foco do trabalho. Era preciso garantir que a saúde mental estivesse em dia”, diz Catarina Cicarelli, 31 anos, responsável pela comunicação da TransferWise na América Latina. Mesmo antes da pandemia, a empresa organizava semanalmente o “fika”, uma tradição de origem sueca que nada mais é do que uma pausa para um café e para jogar conversa fora. No Brasil, a iniciativa foi tropicalizada para “Açaí Wednesday” e adaptada aos tempos de pandemia –   todas as quartas-feiras, a equipe pede açaí por delivery e conversa pelo Zoom. A única regra é não falar sobre trabalho.” Em um momento em que a gente não consegue ter atividades fora do escritório, é importante ter espaço para descontração, ter esses momentos de leveza, criar atividades em que a gente não fala só de trabalho”, diz Bruna Sandrini, 32 anos, responsável pela ouvidoria. A aposta no bem-estar dos funcionários também inclui um profissional de saúde mental à disposição para conversas telefônicas, onde os colaboradores podem desabafar sobre a ansiedade do confinamento. ”A ordem da liderança é dar o maior suporte possível e apostar em ações de bem-estar para que situações de estresse ou ansiedade não saiam do controle”, diz Heloisa.

BRQ DIGITAL SOLLJTIONS:

 LIDERANÇA NA LINHA DE FRENTE

A empresa sofrerá com a crise? O senhor prevê recessão? Será preciso demitir em algum momento? Os exemplos acima são alguns dos questionamentos recebidos pelo CEO da BRQ Digital Solutions, Benjamin Quadros, 52 anos, durante as lives quinzenais que reúnem até 600 colaboradores e que servem para “dar a temperatura” de como a empresa tem enfrentado a tormenta. Nosso setor não está sofrendo com a crise, estamos até contratando, mas percebemos um aumento ansiedade, com pessoas diretamente afetadas pela covid-19, pessimistas com a economia, preocupadas em perder o emprego”, diz. Colocar um time de 2,5 mil funcionários em trabalho remoto espalhados por cinco cidades não foi desafiador do ponto de vista operacional para essa empresa de serviços de transformação digital com 26 anos de mercado – muitos dos funcionários já faziam home office uma ou duas vezes por semana. Mas, para dar conta do que chama de “psicologia do confinamento”, a BRQ criou ou digitalizou uma série de iniciativas de saúde mental e bem-estar. Um comitê multidisciplinar com 30 pessoas foi montado para organizar ações e compartilhar resultados. Além de um canal de atendimento psicológico 24 horas, a empresa estruturou o “Coffee Time”, encontro virtual em que os líderes se reúnem com o time para conversar sobre a vida, a rotina em casa, a convivência com a família – em suma, temas que não sejam o trabalho. ”Dentro dessas conversas identificamos possíveis comportamentos depressivos ou ansiosos, e acionamos a área médica. As pessoas se sentem confortáveis para falar”, relata a gerente de endomarketing Lígia Marcondes. Treinamentos online ensinam o colaborador a ser mais produtivo na quarentena, controlar as finanças e manter a saúde mental ao isolamento. Na seara de saúde física, a empresa adotou serviços de telemedicina para todo o time, organizou uma campanha de vacinação contra a gripe e ofereceu aulas de ginástica ao vivo, o que inclui até um desafio fitness, estendido aos familiares. Para ampliar o bem-estar, criou o #juntosdigltalmente, um encontro de lazer semanal via Zoom com temas variados e que já contou com shows de integrantes do CPM22 e do Charlie Brown Jr. Os resultados são positivos. O engajamento dos colaboradores às diferentes iniciativas passou de 80%, no período pré-pandemia, para 96%. “Uma pesquisa interna de clima mostra que 50% dos funcionários reportam aumento de produtividade, e 45%, manutenção. Para 72%, houve melhora na qualidade de vida”, diz Quadros. A rotina do executivo também foi ajustada a essa realidade. O apartamento em São Paulo onde mora com a esposa e as duas filhas adolescentes ganhou um escritório e, para descontrair, aumentou o consumo de audiobooks (“sou um beavy user”) e das horas gastas na cozinha. ”A interação com a família melhorou muito. Mas também estou trabalhando sete dias por semana. Nunca fui muito regrado em horários, mas depois que decidimos abrir todas as reuniões de trabalho online para quem desejar participar aumentei muito a interação”, diz. “Na relação com a companhia, me sinto mais próximo do que nunca.”

NESTLÉ BRASIL:

EM BUSCA DO EQUILÍBRIO FISICO E MENTAL

Lançado em outubro de 2019, o Programa Especializado de Apoio ao Colaborador (PEAC) foi criado para prestar auxílio gratuito aos 30 mil funcionários da Nestlé Brasil com especialistas nas áreas jurídica, financeira, além de apoio psicológico para ajudar o time a li dar com problemas como estresse e ansiedade. Antes da pandemia, a média de atendimentos era de cerca de 50 por mês. De março para cá, entretanto, a demanda cresceu drasticamente com mais de 5 mil atendimentos e a inclusão de um canal aberto em que o funcionário e os familiares podem tirar dúvidas sobre a covid-19. O programa é apenas um exemplo de ação de suporte à saúde mental e ao bem-estar da indústria de alimentos em tempos de pandemia. “As mudanças nas vidas profissional e pessoal demandaram o uso da tecnologia como aliada para atravessar o atual momento. O que normalmente fazemos em seis meses ou um ano foi reduzido para poucos dias, na agilidade necessária para que as iniciativas fossem ampliadas e estendidas a todos os colaboradores”, diz o CEO, Marcelo Melchior, 53 anos. Nessa seara, a Nestlé Brasil adotou uma série de iniciativas digitais e serviços remotos para apoio aos colaboradores, com algumas estendidas aos familiares. Desde março, os funcionários – cerca de 20% hoje em home office – têm acesso a psicólogo e nutricionista via e-mail, WhatsApp ou Skype. Até então, os atendimentos eram presenciais. “De forma geral, as maiores preocupações são com a questão da ansiedade e sobre como lidar com esse período de imprevisibilidade e incertezas”, diz o vice-presidente de Recursos Humanos da empresa, o colombiano Enrique Rueda, 50 anos. Desde o início da pandemia, também está em curso o programa “Emoções Conectadas”, que envolve reuniões em grupos das lideranças, com a consultoria de psicólogos, par a ajudar os gestores a lidar melhor com esse momento de imprevisibilidade e incertezas e liderar os times à distância. Já foram capacitados 500 líderes, e a perspectiva é trinar mais 500 nos próximos dois meses. Com o app proprietário Meu Treino, a empresa incentiva uma rotina de atividades físicas e ginástica laboral por videoaulas. Há também aula de yoga online uma vez por semana, e-books que ensinam jogos para as crianças e o programa Mais Imunidade, que faz consultoria remota com nutricionistas sobre alimentação equilibrada e reforço imunológico. O programa já conta com mais de 900 participantes. Do home office em São Paulo (SP), onde mora, Melchior reorganizou a rotina para essa nova realidade. As manhãs são reservadas para os temas mais urgentes da operação, com uma reunião com os vice-presidentes e diretores para a tomada de decisões rápidas. As tardes são dedicadas para “pensar e trabalhar” com os times multidisciplinares em questões mais estratégicas, “olhando para o futuro”. “Além disso, faço exercícios diariamente, o que ajuda a manter o equilíbrio, e mantenho uma alimentação saudável. Conciliar alimentação equilibrada, atividade física e equilíbrio mental é importante nesse momento”, diz.

OUTRAS PRESSÕES E ANGÚSTIAS

THOMAS CARLSEN

COO & Founder da startup My Work

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL..

“Estou sempre tentando fazer reuniões online com os meus amigos. Toda semana tem uma reuniãozinha online. Passamos horas conversando. Isso ajuda bastante. O que ajuda também é que faço bastante exercício. Eu gostava muito decorrer no lbirapuera e ir à academia e tento manter essa rotina em casa.”

…E A DA EQUIPE

“As pessoas ficam nervosas quando veem outras pessoas sendo demitidas. Nós temos conseguido passar uma tranquilidade nesse sentido. Temos a sorte de esta, num setor que não está sendo tão afetado. Não haverá demissões. Ao contrário. Nosso plano é contratar”.

RODRIGO PIMENTEL

Diretor de e-commerce alimentar do GPA

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“Eu tenho lido sobre assuntos fora do meu escopo de trabalho. Também tenho visto séries na Netflix com a minha família, como This Is Us. Tento fazer coisas que me desconectem um pouco. Eu também adoro corrida. Já participei de duas maratonas em Nova York e várias outras provas de corrida pedestre em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então, durante o Isolamento social, tenho praticado corrida no condomínio onde eu moro, que é uma área grande, para manter minhas atividades físicas e desestressar.”

…E A DA EQUIPE

“No home office, a gente acaba perdendo o controle de quando parar de trabalhar. São muitas mensagens, e-mails, videoconferências…Eu tenho falado para o meu time sobre a importância do equilíbrio, de parar para almoçar, tomar um café, curtir a família ou passear com o pet. Eu acho que só de falarmos sobre esse assunto como nosso time já traz um certo alívio. Um dia desses, cancelei uma de nossas reuniões semanais. Para nós, são reuniões muito importantes, pois envolvem todo o time. A equipe ficou espantada, mas depois eles admitiram que isso permitiu que todos respirassem um pouco e fez muito bem. O que eu tenho feito é liderar pelo exemplo,”

ANNETTE DE CASTRO

CEO da Mallory

COMO ELA CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“Para mim, o home office tem sido excepcional. Tenho sorte de ser privilegiada. Moro em uma casa grande, uma chácara, e os meus filhos voltaram para casa. Estou no céu, não posso negar. Agradeço todo santo dia. Para todos, tem sido mais complexo. Obviamente, funcionamos em um home office não estruturado, mas forçado. Sem estruturas, sem disciplina, sem treinamento. Não é fácil, exige disciplina, exige fisicamente estruturas que muitos não tem em casa. Todos nós vamos ter de nos adaptar. Estou trabalhando muito mais do que antes. O home office veio para ficar. Mas a gente vai ter de se organizar ao longo do tempo. Temos cursos de home office, estamos adaptando cadeiras, problemas de internet sendo resolvidos. Não creio que vá substituir, mas veio para ficar.”

…E A DA EQUIPE

“A minha primeira preocupação é a saúde. E não é só a saúde física das pessoas afetadas pelo coronavírus, mas a psicológica. De repente, somos confrontados por um mundo em incógnita. Durante esse período, ampliamos férias coletivas para mantê-las em casa. Ficamos 51 dias com fábricas fechadas. Reabrimos com 50% da força de trabalho. A minha função foi passar tranquilidade. Fizemos lives, mantivemos o contato de comunicação em todos os níveis de uma forma muito mais ampla do que em qualquer outro momento da nossa história.”

AGENOR LEÃO

V.P. da Plataforma de Negócios da Natura

COMO ELE CUIDA DA PRÓPRIA SAÚDE MENTAL…

“A pandemia gera primeiro um medo, e depois dá um prejuízo na sensação do tempo. A frequência teajuda muito. Essa é uma dica que tenho usado para mim. Então. manter uma rotina de acordar, me trocar e trabalhar. Acho que isso ajuda muito no processo de sanidade. Continuar com um ritmo na sua vida. A marcação do tempo é urna medida imprescindível para passar por um processo como esse. Cada Indivíduo vai viver isso de uma forma – o seu medo, a sua precaução e a sua rotina vão te ajudar nisso. Para mim, o engajamento com o trabalho, o propósito de manter ativo o negócio, é uma responsabilidade muito grande. Isso me motiva e mantém meu engajamento.”

…E A DA EQUIPE

“A meditação é uma das ações adotadas por mim e por muitas pessoas da Natura. Temos um serviço de meditação dentro do aplicativo das consultoras. levamos para países de língua hispânica e inglesa. Acreditamos que essa é uma ferramenta poderosa de bem-estar. Também criamos novas ações em parceria com startups que promovem serviços de atendimento psicológico por meio de telemedicina para os colaboradores. Tem uma questão bacana e importante nesse momento: o nosso negócio é um negócio de relação, e as relações precisam se manter frequentes pelos meios digitais.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – VI

COMO DOMINAR O PÂNICO

A combinação entre tratamento medicamentoso, acompanhamento profissional adequado e métodos terapêuticos alternativos é essencial na redução dos sintomas e tratamento do transtorno, proporcionando melhor qualidade de vida aos pacientes

Caracterizada por episódios de medo intenso que acarretam diversas reações físicas graves quando não existem motivos reais ou aparentes, a síndrome gera insegurança e prejuízos para o organismo, causando sensações como perda de controle diante das situações, ataques cardíacos e, até mesmo, sentir que está morrendo.

“Comecei a ter crises no ônibus, ao ir e voltar da escola. O sintoma predominante era a falta de ar. Depois, o coração começava a acelerar, as mãos ficavam suadas e dormentes. Sentia uma sensação iminente de morte”, conta Andreia Alves, de 37 anos, diagnosticada com a síndrome desde o ensino médio.

Embora não cause risco de morte, o transtorno afeta negativamente qualidade de vida dos pacientes, podendo chegar a casos extremos de agorafobia, que consiste no medo de sair de casa ou estar em público.

Dessa forma, afim de reduzir ou vencer as crises, aliar terapias alternativa e acompanhamento profissional, com diferentes técnicas e tratamentos, essencial para quem sofre com o transtorno do pânico. “Nada melhor do que um acompanhamento psicoterapêutico para que a pessoa entre mais em contato consigo e com sua história de vida e, assim, possa identificar padrões nocivos de comportamento que resultariam em doenças de ordem psíquica”, afirma a psicóloga Milena Carbonari.

CONTROLE A MENTE COM A MEDITAÇÃO

Praticar meditação diariamente faz com que o indivíduo se conecte com seu estado mental, além de focar no momento presente. A técnica do Mindfullness, que, segundo o palestrante motivacional e instrutor espiritual em yoga Giridhari Das, significa “estar consciente e ser capaz de experimentar um pensamento, sensação ou ação externa plenamente, com toda a atenção”, pode ser uma aliada durante as crises. Quando a mente está no futuro, desejando resultados por vir, ansiedades em relação às consequências são inevitáveis. “Essas ansiedades se acumulam e viram medo. O medo se acumula e vira pânico. Aprender a controlar a mente, em especial, focar no aqui e agora, é uma das chaves para gradualmente desativar possíveis crises de síndrome do pânico”, explica Giridhari.

Meditar ativa a região cerebral chamada córtex pré-frontal, associada ao comportamento e raciocínios mais complexos. Dessa forma, o desempenho do cérebro é elevado, fazendo com que o indivíduo

passe a ter mais foco e racionalidade para assumir o controle de pensamentos e ações em diversas situações do dia a dia.

“Ao se deparar com uma situação sem risco físico verdadeiro, é necessário respirar e relaxar seus músculos, ter consciência de que você pode e deve estar em completo controle de suas faculdades como batimento cardíacos respiração e pressão sanguínea. Deixe seu corpo se acalmar. Essa pode se a chave para superar muitos momentos de ira, medo, preocupação e ansiedade, estados mentais desprazerosos e perturbadores”, aponta Giridhari.

AJUDA DA PSICOTERAPIA

Segundo o psiquiatra Rafael Lourenço, as sessões de psicoterapia podem ser realizadas por psicólogos ou psiquiatras, preferencialmente com formação em psicoterapia cognitiva comportamental (TCC), modalidade psicoterápica que possui mais evidências científicas de sucesso clínico. Estudos demonstram que cerca de seis sessões já começam a trazer benefícios para o paciente.

“Os atendimentos costumam ocorrer com ambos sentados de frente, em mesa, ou poltrona, o que favorece pacientes ansiosos. Os objetivos são práticos, baseados em tarefas, e tanto o terapeuta quanto o paciente têm papel ativo”, explica o profissional.

As sessões ocorrem norteando o entendimento de que o transtorno do pânico tem como sintoma principal uma desregulação nos sistemas de alerta humano, ou seja, que existe uma interpretação catastrófica dos sintomas corporais relativos à ansiedade e medos condicionados. O objetivo da terapia é reduzir a hipervigilância dos sintomas e novas crises, compreender e corrigir a causa das interpretações distorcidas e, caso exista, a eliminação da agorafobia. Para isso, determinadas técnicas podem ser utilizadas durante as sessões. Segundo Rafael, algumas delas são:

*** PSICOEDUCAÇÃO: essa abordagem busca privilegiar a pessoa em vez do problema. “Neste momento, explicam-se as características do transtorno do pânico”, diz o psiquiatra. Com isso, tem-se a melhor assimilação dos comportamentos positivos e extinção dos não desejados, ressaltando orientações sobre atitudes eficazes a se adquirir para evitar o impacto da síndrome no ânimo e na qualidade de vida do paciente.

*** TÉCNICAS CORPORAIS: o objetivo é abreviar as crises. Dessa forma, técnicas de respiração diafragmática e de relaxamento muscular são ensinadas para controlar a respiração, tentando aliviar a tensão dos músculos, o que pode diminuir a ansiedade durante a crise.

*** TÉCNICAS COGNITIVAS: “elas buscam identificar e reestruturar pensamentos negativos automáticos que aumentam a ansiedade, como as sensações de medo, pensamentos catastróficos quanto aos sintomas físicos, desesperança e incapacidade de lidar com o pânico, por exemplo”, aponta o especialista.

*** TÉCNICAS COMPORTAMENTAIS: são as terapias de exposição que possuem fases. “Primeiramente, a interoceptiva, que consiste em provocar sintomas por meio de exercício físico (coração acelerado e falta de ar, por exemplo), estimulando o paciente a manter-se sem ansiedade”, explica o psiquiatra. Depois, parte-se para a exposição in vivo, na qual o paciente faz uma lista de locais que deixou de ir e coisas que deixou de fazer, além dos pensamentos automáticos e sintomas ansiosos que teve em experiências anteriores (ou mesmo somente ao pensar em frequentá-los). “O último passo é começar a visitar lugares que produzem ansiedade, ficando um tempo mínimo e, após um determinado período, aumentando-se o tempo. Por último, estimula-se a retornada completa dos locais frequentados”, descreve Rafael.

*** REDUÇÃO DA DE PENDÊNCIA FAMILIAR: é comum os pacientes passarem a sair apenas acompanhados. “O objetivo é que ele consiga voltar a sair sozinho, mesmo que por um tempo mínimo. Isso faz com que aumente a autoestima e restaure a autonomia do paciente”, finaliza o psiquiatra.

IOGA: CORPO EMENTE EM EQUILÍBRIO

Apesar de não ser um tratamento, terapia ou sistema de cura, praticar ioga traz efeitos benéficos para equilibrar o corpo e a mente. Durante uma crise de pânico, sintomas como falta de ar e taquicardia são comuns e a atividade trabalha exatamente fatores como esses, utilizando técnicas de respiração para que o nervosismo, o estresse e os pensamentos negativos sejam reduzidos.

FAMOSOS QUE POSSUEM O TRANSTORNO EM SUA HISTÓRIA DE VIDA

*** THAMMY MIRANDA, ator

Apesar de já ter superado a doença, ele já teve síndrome do pânico: “no meio de um jantar, eu tive certeza que ia morrer naquela hora, minha sensação era de desmaio. A partir daquele momento, fiquei com medo de sentir aquele medo outra vez. Passei três meses sem sair de casa. Eu não ia ao banheiro sozinho, uma empregada ia comigo e ficava do lado de fora enquanto eu tomava banho. Eu ficava com raiva de estar sentindo aquilo”, contou em entrevista para o programa Encontro, da rede Globo.

*** OPRAH WINFREY, atriz, apresentadora e empresária

“Durante um período conturbado de trabalho em 2013, Oprah Winfrey teve um ataque de pânico. Ela estava filmando O Mordomo da Casa Branca e fazendo diversas entrevistas com celebridades. “No começo, só me senti acelerada e meio adormecida, pulando de uma coisa para a outra e para a outra”, disse ela ao programa de notícias americano Access Hollywood. “Quando percebi (que estava tendo um ataque de pânico), pensei: “OK, se não me acalmar, vou ter um problema sério. “Estava no meio das dublagens. Lembro de fechar os olhos cada vez que virava a página, porque olhar para a página e para o texto ao mesmo tempo era estímulo demais para meu cérebro”.

*** MADONNA, cantora

A rainha do pop também declarou sofrer com as crises. Ela contou em uma entrevista que, mesmo após mais de 30 anos de carreira, sofre de ataques de pânico antes de subir no palco, por medo de decepcionar o público.

*** LUCAS LUCCO, cantor e ator

No ano de 2016, o cantor enfrentou a síndrome por alguns meses. Durante uma participação no programa Encontro, da rede Globo, Lucas desabafou sobreo transtorno que fez com que ele perdesse compromissos profissionais porque não conseguia mais sair de casa. “As coisas foram acontecendo e, quando eu vi, já estava desse jeito. Comecei a não conseguir ir aos shows e faltar às gravações da novela. Tinha medo. É uma doença, uma ferida que ninguém pode enxergar. As pessoas te olham e não conseguem ver nada além de um rosto triste. É difícil de expor, explicar. Parece que ninguém te entende. Por mais que as pessoas tentem definir o que está acontecendo com você, é muito pior do que acham. Hoje, estou muito bem”.

EU ACHO …

PERDIDO NAS SENHAS

Eu tenho umas duas dezenas – e tudo tem de estar na cabeça

Senhas! Tantas, tantas! Suponho que as empresas perdem milhões por causa delas. Não digo que é culpa dos hackers. Simplesmente porque a gente perde a paciência e desiste da compra on-line – já que senhas não reconhecidas tornaram-se parte da vida. É meu caso com a Amazon Brasil. Cada vez que entro no site e vou pagar, recebo um aviso que a senha não é válida. Só que está certa. Mesmo assim, sou obrigado a redefini-la. Enviam um código para meu e-mail, e perco uns vinte minutos no mínimo para criar a nova. É um inferno, porque cada vez exigem senhas mais complexas. E menos duradouras. Um amigo acaba de receber um aviso da faculdade dizendo que sua senha expirou. Como assim, expirou? Ele não sabe se é tentativa de golpe ou pedido da faculdade mesmo. Dá medo, porque há quadrilhas especializadas em roubar senhas. Em razão disso, cada vez mais aumentam as exigências para a criação de senhas seguras. Surgiram sites de gerenciamento de senhas, como o Lumiun. Esses sites exigem misturas de números e letras, às vezes uma maiúscula. O ideal é usar no mínimo catorze caracteres. Advertência: jamais utilizar nomes, palavras reais, datas importantes, número de documentos… Sugere alterá-las a cada noventa dias. Pior. Ninguém usa uma só para tudo, é arriscado. Eu tenho umas duas dezenas. Apple Store, TVs por streaming, meu próprio computador, banco, cartões… Tudo tem de estar na minha cabeça! Suspeito que hospitais psiquiátricos já reservam vagas para pacientes com stress causado pelo excesso e complicação das senhas.

Horror: se dá algum problema, não há para quem ligar. Tudo é digital. Fui fazer compras on-line e descobri que alguém havia cadastrado meu CPF em outro e-mail. É impossível resolver porque enviavam códigos de segurança para um e-mail desconhecido. Algumas empresas, como o Magalu, responderam à reclamação, verificaram e tudo o.k. Outras, como a Nike, igualam-se a paredes de concreto.

São tão preciosas que quadrilhas se especializaram em roubá-las. Outro dia o Instagram de meu irmão foi invadido e virou um site de prostitutas russas! Alguém entrou no meu Face e fica pedindo a senha. Não boto. E o Face trava! Recebo também supostos avisos do Instagram para confirmar meu cadastro. Uma amiga botou os dados e roubaram seu Insta. Foi um custo recuperar! É tenso. Em alguns lugares, errou a senha três vezes, perde o cartão! Mas, como eu disse, são tantas! É fácil confundi-las! Ainda mais porque sempre sou obrigado a mudar alguma. Arrumei uma caderneta de papel, típica dos tempos analógicos. Iguais às que se usava uns trinta, quarenta anos atrás para telefones, aniversários… Anotei todas as minhas senhas, devidamente identificadas. Se troco, rabisco em cima e boto a nova do lado. É uma solução antiga. Mas se eu anotasse no celular, ou no computador, precisaria de senha para abrir. E se esquecesse?

Na caderneta, encontro todas as senhas importantes. Tão mais simples! Sei que estou ficando velho. Mas às vezes sinto saudade do tempo da caneta e do papel…

*** WALCYR CARRASCO          

OUTROS OLHARES

CINQUENTA TONS DE PRETO

Grifes de relevância começam a reagir a uma lacuna inaceitável – a escassa oferta de maquiagem para peles escuras

Desde o Egito antigo a maquiagem é um manifesto de autoestima e de libertação femininas. É um modo de comunicação que, associado aos avanços dos cuidados com a saúde, ganhou nos últimos anos versões com tecnologia de ponta, afeitas a evitar danos para a tez. Houve saltos extraordinários – à exceção de itens adequados às peles pretas e pardas, deixadas à deriva. Para elas, foi sempre difícil encontrar uma base, pó ou corretivo racial no tom certo, sem diferenças bruscas em relação à tonalidade original do rosto. Há, finalmente, boas mudanças – de 2019 para cá, o mercado atrelado a esse tipo de necessidade cresceu 40%. Deu-se o gatilho com uma coleção de produtos lançados em 2017 pela cantora e empresária Rihanna, com a marca Fenty Beauty, que chegou neste ano ao Brasil. São cinquenta cores de corretivos, metade em versões medianas e escuras, em que há a maior lacuna de oferta. Há menos deum mês, a gigante Avon anunciou que oferecerá, até 2021, 53 novos produtos dedicados aos rostos escuros, entre bases, iluminadores e blushes. Grifes como Dior e Lancôme começam a reagir, e já apostam na diversidade. “A situação era tão ruim que as consumidoras de pele negra desistiam da compra por falta de opção”, diz a vice-presidente de marketing da Avon, Danielle Bibas. Deu-se, agora, uma pequena revolução.

E, como quase tudo no mundo hoje, os primeiros ecos nasceram nas redes sociais. Postagens no Instagram e no YouTube deram um bom empurrão para o avanço no setor, ao escancarar meninas ávidas por novidades em maquiagem reclamando em alto e bom som quando uma nova linha de beleza não atendia às suas demandas. Elas eram obrigadas a misturar vários produtos para chegar a uma tonalidade que não deixasse a pele manchada e artificial. “É preciso ainda haver mudanças em muitos itens, mas conquistamos um relevante espaço”, diz Maria Lima, maquiadora carioca especialista em beleza negra. Pode-se dizer, parafraseando o ruidoso lema de 2020: vidas (e peles) pretas importam.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE DEZEMBRO

NÃO PERCA A ESPERANÇA, SUA CURA PODE BROTAR

O espírito firme sustém o homem na sua doença, mas o espírito abatido quem o pode suportar? (Provérbios 18.14).

Nossa atitude diante dos dramas da vida tem uma conexão muito estreita com nossa saúde física. A vontade de viver mantém a vida de um doente; mas, se ele desanima, não existe mais esperança. Quem entrega os pontos e joga a toalha, quem perde a esperança e não luta mais para sobreviver, é vencido pela enfermidade. Nossas emoções têm um peso decisivo quando se trata de enfrentar a doença. Não basta recorrer a recursos medicamentosos. Precisamos alimentar nossa alma com o tônico da esperança. Precisamos tirar os nossos olhos das circunstâncias e colocá-los naquele que está no controle das circunstâncias. Nossos pés podem estar no vale, mas nosso coração deve estar no plano. Mesmo passando por vales áridos, Deus pode transformá-los em mananciais. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. Aqueles que se entregam ao desânimo, porém, fazem do lamento a sinfonia da vida. Perdem as forças, atrofiam-se emocionalmente e são dominados por sentimentos irremediáveis de fracasso. Na doença precisamos colocar nossos olhos em Deus, pois a última palavra não é da ciência, mas daquele que nos criou, nos sustenta e pode intervir em nossa vida, redimindo-nos da cova da morte.

GESTÃO E CARREIRA

PEGUE LEVE

Por que a autocompaixão é uma boa ferramenta para avaliar seus sentimentos e ajudar você a tentar novamente depois de falhar

Por muito tempo a sociedade nos convenceu a ser perfeitos. A querer alcançar sempre mais, vencer todos os desafios, trabalhar muito e ser os melhores. Claro que não há nada de errado em ter um objetivo na vida e sonhar grande. No entanto, para alcançar esse ideal – que muitas vezes parece inatingível -, algumas pessoas tendem a se criticar com dureza, se culpar quando algo dá errado ou experimentar sentimentos de vergonha ou medo. Pesquisas psicológicas indicam que esse efeito desmoralizador não é bom, pois, em vezde servir de estímulo, atrapalha os resultados no longo prazo. A ciência sugere que se tratar com mais gentileza e ser autocompassivo é mais efetivo.

Precursora nos estudos sobre autocompaixão, Kristin Neff, que leciona psicologia educacional na Universidade do Texas, afirma que se tratar com delicadeza em um momento difícil é uma questão pragmática. “A vida e suas circunstâncias são muito complicadas para controlarmos todos os fatores externos e, além disso, as nossas reações a esses fatores”, afirma em seu Iivro Autocompaixão Pare de se torturar e deixe a insegurança para trás.

UMA NOVA POSTURA

O curioso é que costumamos enxergar a compaixão como algo positivo apenas em relação aos outros – ser sensível quando alguém está passando por uma situação difícil é sempre bem-visto. Mas, quando uma pessoa tem essa atitude consigo própria, o olhar muda. Parece que temos de ser nosso juiz mais cruel. Podemos exemplificar isso com uma cena cotidiana no mundo do trabalho.

É fim de uma reunião mensal de novos projetos de sua empresa, e um colega teve sua proposta rejeitada depois de trabalhar nela por meses. Você percebe sua tristeza e vai até lá falar com ele. Na situação hipotética, você diz que ele é um desastre e que mereceu isso por não se dedicar o suficiente? Ou o abraça e o consola com palavras de encorajamento e conforto? Se a segunda atitude é a mais provável, por que quando você vai mal na reunião sua postura consigo próprio é a primeira? “Existe um consenso social em tratar o outro bem, o que torna a compaixão uma habilidade comum ao convívio humano. Mas, quando envolve a nós mesmos, não é natural, não é algo ensinado em nossa cultura”, explica Karen Vogel, psicóloga e professora na instituição The School of Life.

O problema pode estar no excesso de autocrítica. A característica, por si só, é positiva, já que a usamos para corrigir falhas. Mas ela se torna urna questão quando os pensamentos depreciativos entram em espiral e viram uma ruminação constante na mente. “Essa voz crítica em nossa mente não é de todo deletéria. Há momentos em que é importante uma chamada de atenção própria para nos colocar no eixo novamente. Porém, é preciso reconhecer os padrões mentais, analisar quanto tempo perdemos nesses julgamentos e, de maneira afetiva, reinterpretá-los”, diz Marcelo Demarzo, coordenador do curso de mindfulness da Unifesp e fundador do Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde.

Segundo Kristin, a maneira mais fácil de praticar a autocompaixão é tratar-se com o mesmo carinho que ofereceria a um amigo próximo.Pode parecer urna abordagem simples, porém é mais revolucionária do que aparenta – a prova está numa pesquisa da Universidade Nacional Australiana. Os estudiosos selecionaram 186 participantes e os dividira m em dois grupos. Eles precisavam escrever sobre uma experiência negativa. A primeira turma foi orientada a fazer a carta adotando uma postura autocompassiva – e isso fez com que as pessoas ficassem com o humor mais leve e conseguissem superar as emoções negativas. A segunda turma podia escrever livremente sobre o assunto – o que levou os participantes a uma piora no humor e a ruminar os pensamentos. Segundo Natasha Odou e Jay Brinker, psicólogos autores do estudo, esses resultados surgiram porque a autocompaixão ajuda na compreensão dos sentimentos, enquanto a autocrítica excessiva se transforma numa espécie de fuga emocional que impede o processamento dos sentimentos. E os pesquisadores ainda descobriram mais uma coisa: com apenas 10 minutos de gentileza, o primeiro grupo já estava menos angustiado.

FIM DOS MITOS

As pessoas se autoenganam quando acreditam que podem ser compassivas com os outros, mas não consigo mesmas. Essas características costumam ser levadas para todos os campos da vida: se você é muito exigente e autocrítico, inevitavelmente agirá assim com os outros. E isso, é claro, pode ser visto no ambiente de trabalho. “O estilo de comando de uma equipe influencia a todos. Se você tem uma postura autocompassiva, as discussões não se tornam conflitos pessoais e o clima de estresse é mais ameno, porém o contrário também é verdadeiro”, diz Marcelo.

Numa cultura em que se prega a lógica de que, ao ser amável consigo, existe o risco de cair na permissividade, na autocomplacência e, no limite, de tornar-se um fracasso, é compreensível que as pessoas evitem o tema. Mas autocompaixão não tem nada a ver com se permitir ser uma pessoa preguiçosa. ”Ser autocompassivo exige o reconhecimento da presença de um sofrimento, o que nos leva à necessidade de uma ação. Se eu apenas reconheço a angústia, minha ou do outro, e não faço nada a respeito, o nome dessa emoção é dó”, diz Karen.

Um dos maiores obstáculos à autocompaixão é a crença de que uma postura gentil prejudicará a motivação e diminuirá o esforço em fazer o melhor, mas isso, na verdade, é ser sabotador. “É usar uma desculpa, uma saída pela tangente para se enganar”, afirma Karen. A autocompaixão, na realidade, pode aumentar a motivação para dar a volta por cima. “Se você é muito crítico, num momento de falha será duro consigo mesmo, e isso dificultará uma nova tentativa, porque estará ansioso e com medo de falhar novamente”, diz Kristin. Numa postura autocompassiva o pensamento é outro: ”Eu falhei, mas tudo bem. O que posso aprender com isso?”. “E então você estará realmente mais motivado, pois terá aprendido algo com aquilo e poderá tentar novamente quando se sentir preparado”, afirma.

GENTILEZA GERA GENTILEZA

São três os componentes da autocompaixão: a autobondade (substituição da autocrítica por palavras mais gentis); a humanidade comum (reconhecimento de que o sofrimento e o fracasso pessoal são experiências universais); e a atenção plena (estar presente no aqui e agora, observando as emoções negativas sem focá-las nem suprimi-las). “Basicamente, se desenvolvemos um dos componentes, os outros tendem a evoluir sozinhos”, explica Kristin.

A prática de mindfulness ajuda no progresso dos três componentes. Isso porque, nesse tipo de meditação, o foco é o pensamento, que flutua e volta para o presente. “Isso traz uma nova consideração a respeito da autocrítica, sem focar ou rejeitar. Apenas a deixamos ir com um novo pensamento”, diz Karen. Já a indicação de Marcelo é trabalhar a autobondade. “Devemos trocar a voz crítica por uma compassiva. Para isso podemos usar frases como ‘que eu esteja bem’, ‘que eu esteja feliz’, ‘que eu esteja em paz’ em qualquer momento do dia. Elas alteram áreas de nosso cérebro relacionadas ao estresse e as deixam ativadas positivamente, permitindo uma atitude mais bondosa conosco”, diz.

O mais importante é ter em mente que a autocompaixão sempre vai estar relacionada a uma ação de autocuidado. “Pode ser exercícios de mindfulness, ir à academia, passar um tempo de qualidade com a família. Seja o que for, a autocompaixão não pode estar restrita ao nível do conhecimento. É necessário prática.” E se os resultados podem começar a ser alcançados em 10 minutos, como mostraram os pesquisadores australianos, não há motivos para não começar agora. Que tal tentar?

PILARES DA AUTOCOMPAIXÃO

Veja alguns comportamentos fundamentais para uma postura autocompassiva, segundo Kristin Neff, professora na Universidade do Texas e precursora nos estudos sobre o tema

AUTOBONDADE X AUTOJULGAMENTO

Autocompaixão envolve sermos gentis com nós mesmos quando algo dá errado ou notamos algo sobre nós de que não gostamos, em vez de sermos frios ou severamente autocríticos.

COMO EXERCITAR: Use frases compassivas, em que trocamos um julgamento por uma gentileza

HUMANIDADE COMUM X ISOLAMENTO

Reconhece que a condição humana é imperfeita e cheia de falhas. Assim, nos sentimos conectados aos outros quando erramos ou sofremos, em vez de nos sentirmos separados ou isolados em defeitos

COMO EXERCITAR: Aplique o “assim como eu”, de Gonzalo Brito, psicólogo e especialista em mindfulness – use frases como “assim como eu, essa pessoa tem dificuldades para se entender com a família”; “assim como eu, ele tem aspirações em seu trabalho”; “assim como eu, sua saúde e a de um ente querido o preocupam”. isso aumenta a noção de solidariedade

ATENÇÃO PLENA X SUPERIDENTIFICAÇÃO

Sugere a aceitação das emoções dolorosas em vez de suprimi-las ou torná-las um drama pessoal exagerado. A situação é vista claramente, dentro da realidade de cada um.

COMO EXERCITAR: não foque os pensamentos críticos. deixe-os ir por meio de práticas de mindfulness ou meditação guiada

VOCÊ É AUTOCOMPASSIVO?

A escala de autocompaixão foi criada pela professora Kristin Neff para aprofundar suas pesquisas. O questionário original é composto de 26 perguntas que avaliam seis aspectos do tema: autobondade, autojulgamento, senso de humanidade, isolamento, atenção plena e superidentificação. Em sua versão resumida, adaptada, a escala tem 13 questões, com foco nos pontos de autojulgamento, isolamento e superidentificação

Responda a cada uma das afirmações abaixo utilizando indicadores de 1 a 5. A escala é a seguinte:

1 – Quase nunca;

2 – Ocasionalmente;

3 – Metade das vezes

4 – Frequentemente;

5 – Quase sempre

Ao fim, some suas respostas e divida por 13 para identificar seu resultado

1.  Sou realmente crítico e julgo meus próprios erros e defeitos.

2. Quando estou abatido, fico obsessivo e me fixo em tudo que está errado em minha vida.

3. Quando penso em meus defeitos, me sinto isolado do restante do mundo.

4. Quando falho em algo importante para mim, fico consumido por sentimentos de incompetência.

5. Em momentos difíceis, sou duro comigo mesmo.

6. Sou intolerante e impaciente com os aspectos de que não gosto de minha personalidade.

7. Quando estou desanimado, sinto que a maioria das pessoas é mais feliz do que eu.

8. Quando noto aspectos em mim que não aprecio, tendo a ser duro comigo mesmo.

9. Quando passo por dificuldades emocionais, costumo pensar que as coisas são mais fáceis para as outras pessoas.

10. Quando algo me incomoda, sou tomado por sentimentos negativos.

11. Sou insensível comigo quando estou sofrendo.

12. Quando algo doloroso acontece comigo, costumo reagir de forma exagerada.

13. Quando falho em algo importante para mim, me sinto muito sozinho nessa situação.

RESULTADOS

Entre 1 e 2,5: sua autocompaixão é baixa

Entre 2,5 e 3,5: sua autocompaixão está na média

Entre 3,5 e 5: sua autocompaixão é alta

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – V

MOMENTOS DE TERROR

As crises causadas pela síndrome dão a sensação de morte certa e iminente, deixando o paciente em completo desespero

As sensações de medo e ansiedade são naturais e necessárias na vida de qualquer pessoa, afinal, o cérebro as usa como alerta para o nosso corpo reagir em uma situação de risco. Porém, pessoas com a síndrome do pânico passam por uma experiência psicológica de quase morte que transparece em sintomas físicos, sem de fato estarem em perigo eminente, causando estresse, fadiga e um medo que se prolonga além do momento da crise, temendo a sua volta.

Entender as crises, os gatilhos e os sintomas pode ajudar o paciente a passar por ela com menos sofrimento. Além disso, uma pessoa que não tem essa síndrome pode conhecer mais sobre o assunto para auxiliar um amigo ou parente, já que esse apoio é de extrema importância

EM MEIO À CRISE

As crises de pânico são decorrência de uma ansiedade aguda e, segundo o psicólogo Roberto Debski, são “repentinas e sem causa aparente. Os pacientes apresentam intensa angústia, medo da morte e de perda de controle sobre si mesmo. Há, também, sintomas físicos e emocionais fortes, simulando um infarto cardíaco, um processo que dura entre 10 a 20 minutos”.

As crises levam a pessoa pedir ajuda nos serviços de emergência, já que algumas manifestações psicológicas são a angústia pela morte iminente, medo de enlouquecer, além de dores no corpo, falta de ar, sudorese, náuseas e palpitações. “Esses sintomas o levam ao desespero e podem impedir que viva sua rotina normal devido ao temor de desencadear uma crise aguda”, explica o psicólogo.

O ESTOPIM

Não existe um aviso prévio da crise, ela pode surgir a qualquer momento e em qualquer lugar. Contudo, sua origem pode ser identificada possibilitando que o paciente lide melhor com o problema. “O transtorno pode ser originalmente desencadeado após uma experiência inicial de estresse pós traumático ou perda, e também uso de estimulantes ou medicamentos como anfetamínicos, álcool, drogas como a cocaína ou até mesmo predisposição genética”, explica o psicólogo Roberto Debski.

Os gatilhos acontecem nos locais em que a pessoa com a síndrome do pânico se sente mais ansiosa e pode ser em qualquer ambiente. Entretanto, as áreas mais comuns que desencadeiam uma crise são lugares abertos com multidões ou lugares fechados. Roberto Debski explica que, geralmente, são espaços em que a pessoa tem maior dificuldade de sair.

ALIVIANDO O DESESPERO

É recorrente os pacientes da síndrome do pânico procurarem, primeiramente, especialistas achando que as crises são indícios de problemas cardíacos. Após diversos exames, e essas suspeitas descartadas, o melhor a se fazer é procurar um psicólogo.

A pessoa que está passando por uma crise não consegue raciocinar direito, muitas vezes, não conseguem nem falar, por causa do pânico súbito. Ter apoio da família, amigos ou de uma pessoa de confiança nessa hora é válido, mas, muitas vezes, o indivíduo pode entrar em crise quando sozinha. Desse modo, alguns exercícios podem ser cruciais para amenizar as dores.

A respiração é de extrema importância durante uma crise, mais especificamente a respiração profunda ou diafragmática – a qual, com o movimento da membrana abaixo do tórax, proporciona maior entrada de ar. Além disso, a percepção do aqui e do agora ajuda a trazer a consciência para o mundo exterior, acalmando a sensação de pânico e ansiedade.

TÉCNICA DO AQUI E AGORA

Essa técnica consiste em olhar para o ambiente em que está e contar mentalmente de cinco a um, como mostrado abaixo. Dessa maneira, a pessoa que sente a crise pode ter maior noção dos sentidos e não perder o controle de si, indicado como um dos sintomas.

*** Cinco coisas que você pode ver;

*** Quatro coisas que você pode tocar;

*** Três coisas que você pode ouvir;

*** Duas coisas que você pode cheirar;

*** Uma coisa que você pode sentir o gosto.

EU ACHO …

AS LIÇÕES DA PANDEMIA

Se há algo de positivo a ser extraído da maior tragédia sanitária dos últimos 100 anos, é a certeza de que é no meio do furacão que se escancaram também as oportunidades de correções imediatas

Os sistemas de saúde do mundo nunca foram testados ao limite como agora, durante a pandemia de Covid-19. Se há algo de positivo, porém, a ser extraído da maior tragédia sanitária do último século, é a crença de que, conforme ensina a história, é justamente no meio do furacão que se escancaram as fragilidades e as possibilidades de correções. Dez meses após a chegada do novo coronavírus ao Brasil, estão evidentes os gargalos e as saídas para que o país aprimore as estruturas de assistência médica de forma a oferecer a seus cidadãos saúde de melhor qualidade. Não que eles fossem desconhecidos – muito longe disso -, mas a urgência por soluções diante da catástrofe atual funcionou como um holofote que jogou luz sobre os obstáculos que impedem ou prejudicam o atendimento.

Meu temor é o de que, apesar da maior visibilidade dos problemas e do discurso de mudanças repetido especialmente nos momentos mais agudos da pandemia, o Brasil esteja perdendo a janela de oportunidade de promover efetivamente as transformações necessárias para uma organização de saúde mais eficiente, segura e financeiramente sustentável. E as portas que foram abertas se fecharão se não tivermos voz ativa, se não promovermos um chamamento constante.

Os sinais de que as aberturas para as mudanças necessárias trazidas à tona pela Covid-19 podem estar se fechando vêm de lados distintos. Ninguém pode discordar da relevância do SUS para a população brasileira, tampouco negar o papel fundamental que o sistema desempenha durante a pandemia. Sete em cada dez brasileiros têm no SUS a única possibilidade de atendimento à doença e a todas as outras enfermidades que podem acometê-los. E, apesar das deficiências historicamente conhecidas, a estrutura demonstra extrema resiliência nesses meses sob o coronavírus. Além disso, o SUS empreende o trabalho de atenção primária à saúde e de medicina de família, cuja base é a prevenção de doenças, máxima que deve ser o objetivo de todo sistema de saúde. No entanto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2021 prevê a destinação de cerca de 40 bilhões de reais a menos para o SUS do que o alocado em 2020. Mesmo depois da clara demonstração da importância do SUS, vamos perder a chance?

A questão leva a outra pergunta: a pandemia ensinou o verdadeiro significado de valor quando se trata de saúde? Temo que ainda não. Embora tudo seja muito bonito no papel, muitas empresas do segmento contratam e mudam suas estratégias conforme o vento sopra e o que sai mais barato. A tônica do debate atual é a necessidade da ampliação de ações de prevenção. O envelhecimento da população, somado a hábitos de vida que elevam o risco para doenças cardiovasculares, por exemplo, coloca o desafio de frear a escalada de casos por meio de medidas preventivas. De outra forma, a roda continuará girando no sentido da indústria da doença e não da saúde. Entretanto, demasiadas vezes o raciocínio do responsável pelo financiamento é: se você investe em gerar saúde, daqui a um ano o paciente pode não ser mais seu. Você planta saúde para o paciente do outro. Portanto, não vale a pena. Infelizmente, por muito pouco as posições em favor da atenção primária andam para trás.

A mesma coisa acontece quando falamos da troca da remuneração por serviço pela remuneração por valor. O pagamento por serviços executados estimula a realização de exames e procedimentos. Quanto mais numerosos eles forem, mais se lucrará. Esse modelo está na base da indústria da doença. O pagamento por valor, no entanto, prevê a remuneração baseada em programas de qualidade, segurança e prevenção, aquilo que agrega valor. Basta, porém, uma crise para muitas organizações repensarem o novo modelo e desejarem voltar a fazer exames de ressonância magnética sem uma indicação precisa.

É preocupante que o conceito do valor em saúde ainda esteja tão volátil. Propostas de novas operações na área continuam a ter como meta somente o ganho financeiro e não o que a iniciativa entregará de benefício verdadeiro ao paciente. Qual o propósito, por exemplo, de criar formas de uberização de laboratórios em busca de exames mais baratos? De que maneira isso agrega valor à saúde? O que é preciso é evitar o uso desnecessário de exames, algo que, no fim, pode prejudicar somente o paciente. Ele é quem fica sujeito a desconfortos e exposto à radiação sem precisar. Além disso, o excesso de testes encarece o custo das operadoras e quem pagará o preço será o paciente, no momento do reajuste.

Da mesma forma, deve-se questionar a procedência de empreendimentos cujo apelo é o de financiar procedimentos cirúrgicos. Será que aquele paciente precisa mesmo da cirurgia? A experiência mostra que, em geral, o número de casos que necessitam de cirurgia é menor do que o de procedimentos realizados. Em um programa de segunda opinião para correções cirúrgicas para dor nas costas instituído no Hospital Israelita Albert Einstein, concluiu-se que 61% das indicações eram desnecessárias. A quem o financiamento de cirurgias vai de fato beneficiar? Porque não criar e investir em sistemas de prevenção por meio do estimulo à prática de exercícios físicos, do combate à obesidade e do controle do stress, clássicos fatores de risco para boa parte das enfermidades associadas ao estilo de vida? É preciso refletir a respeito do valor que a organização entrega ao paciente e à sociedade. O paciente pode recorrer a ela para um exame ou uma cirurgia, mas, se os procedimentos não tiverem indicação médica verdadeira, a instituição estará prestando um péssimo serviço para a saúde.

Não podemos perder a oportunidade que a pandemia nos trouxe de reformular a cadeia de assistência médica no país. É uma chance de preparar o Brasil para os desafios do futuro, que exigirão sistemas voltados à prevenção e ao uso racional de tecnologia, e tendo o paciente no centro de tudo. É a chance de focarmos a melhoria da indústria de insumos, a melhor gestão do SUS, o estabelecimento de uma rede de meta genômica para estudo e acompanhamento da evolução de vírus em nosso país – que seria fruto da parceria público-privada que se fez notável durante a pandemia. Porém, será que daqui a seis meses, como é comum no Brasil, teremos nos esquecido de tudo e estaremos discutindo mais uma vez o preço de um equipamento sem considerar alguns dos princípios básicos que os meses sob o coronavírus nos mostraram, como o de aferir o valor em saúde que a tecnologia proporcionará? Será que teremos novamente colocado na gaveta os projetos e programas de atenção primária? Será que os discursos eram só discursos? Fazendo uma analogia com o momento mais decisivo do futebol, quando a bola está na marca do pênalti à espera do artilheiro, o Brasil tem condições de fazer um golaço na saúde se mostrar que as lições da Covid-19 foram aprendidas. Caso contrário, a vitória nos escapará dos pés.

*** SIDNEY KLAJNER – é presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein

OUTROS OLHARES

EXPERIMENTEI, GOSTEI, FIQUEI

Com as universidades fechadas, alunos foram obrigados a estudar a distância e descobriram aí uma modalidade da qual não querem mais abrir mão

Ensino on-line virou uma das palavras-chave deste 2020. Primeiro, teve conotação negativa, quase que sinônimo de caos, já que os alunos precisaram engatar a jato nas aulas a distância sem nenhum preparo para encarar tamanha sacudida. Quem mais sentiu o baque foram os menores, que estão aprendendo aos poucos a se virar e a ganhar independência. Já os universitários fizeram a passagem para o estudo remoto com maior suavidade, como era mesmo esperado: a maturidade é componente essencial para manter disciplina e foco e conseguir lidar sozinho com aqueles momentos de aspereza acadêmica. A boa experiência está agora levando uma parte da turma a dar caráter permanente a algo que se supunha provisório, em trilha semelhante à que percorrem jovens de outros países. Muita gente testou, gostou e está resolvendo ficar na modalidade conhecida oficialmente pela sigla EAD – a do ensino universitário a distância. A desconfiança sobre as faculdades on-line já vinha se dissipando no Brasil, onde elas estrearam há pouco mais de duas décadas e por um bom tempo foram vistas como “graduação de segunda classe”. O avanço na qualidade dos cursos, aliado à assimilação deles pelo mercado de trabalho, lhes conferiu credibilidade. E assim a demanda escalou a ponto de, há um ano, se dar um marco histórico: pela primeira vez, o número de calouros se concentrou mais na modalidade a distância do que na presencial, cravando 2,5 milhões de jovens. No balaio universitário brasileiro, eles já representam um terço do total. Pois nestes últimos meses o fechamento dos portões universitários acabou por dar novo empurrão a esse nicho tão em alta mundo afora, atraindo gente que, antes, nunca consideraria estudar de casa. A paulista Thabata Cipriano, 24 anos, planejava iniciar a graduação em administração de empresas em uma sala de aula com lousa e professor do lado, até que assistiu às lições remotas de direito da cunhada e resolveu dar uma chance ao EAD, sem convicção. “É uma vantagem poder definir hora e lugar para estudar, além de assistir ao conteúdo quantas vezes quiser. Não volto para o presencial”, decreta.

A presença desse público vem deixando mais heterogêneo o perfil dos frequentadores das aulas virtuais – tipicamente mais velhos, em busca de mensalidades mais baratas e embalados em algum emprego. “O rol dos alunos de EAD já estava mais abrangente e diversificado, e isso se acentua neste momento em ritmo veloz”, pontua Sólon Caldas, diretor-executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior. Uma ala dos novatos nesse grupo é formada por um pelotão que, às voltas com o home office, avaliou ser boa hora para encaixar os estudos à rotina e regressou às carteiras sem sair de casa. Aos 41 anos, o advogado Benedicto Patrão arranjou um tempinho para realizar o sonho de cursar filosofia. “Venci meus preconceitos e estou adorando”, afirma ele, que se reveza entre dois escritórios e ainda leciona. Outra turma de recém-chegados ao EAD experimentou e decidiu migrar de vez para a modalidade depois de considerar as incertezas sobre quando sua universidade reabriria, além do preço. “Nesses dias difíceis, economizei 600 reais por mês e não sinto que tenha perdido no aprendizado”, diz o paulista Victor Gabriel, 20 anos, que estuda design.

O reflexo desse movimento se traduz nos números captados em um recente levantamento que analisou as idas e vindas dos grupos de ensino listados na bolsa, como Cogna e Yduqs, entre julho e setembro deste ano. O estudo, do banco Santander, conclui que, após o declive dos primeiros tempos pandêmicos, o EAD é hoje o que os faz crescer – enquanto os ingressantes no ensino presencial recuaram até 37%, nos cursos à distância a subida chegou a 54%.  “Estamos em plena segunda fase do avanço da universidade on-line”, define João Vianney, da consultoria Hoper. Escolados nesse terreno, professores e alunos alertam sobre a necessidade de escolher o curso de forma criteriosa, informar-se de quão interativa será a experiência e se organizar em casa. “A distância exige empenho extra, mas a flexibilidade me conquistou”, resume a fotógrafa carioca Gleice Medeiros, hoje aluna de ciências biológicas. Flexibilidade, aliás, é outro dos vocábulos em alta nestes tempos de tanta transformação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE DEZEMBRO

O CASTELO SEGURO DA ALMA

Torre forte é o nome do SENHOR, à qual o justo se acolhe e está seguro (Provérbios 18.10).

Muitos refúgios não podem proteger-nos na hora da tempestade. Muitos pensam que o dinheiro é um abrigo invulnerável no dia da calamidade. Mas isso é um completo engano. O dinheiro pode dar-nos um carro blindado e escoltas, uma casa espaçosa e muito conforto, viagens extravagantes e cardápios saborosos, mas o dinheiro não traz paz. O dinheiro não oferece segurança nem felicidade. Outros pensam que o poder político é um refúgio. Mas o prestígio diante dos homens não nos garante proteção diante dos revezes da vida. Há aqueles que julgam que a força da juventude ou a beleza física sejam escudos suficientemente fortes para livrá-los dos esbarros da caminhada. Muitos chegam a pensar que o sucesso e o estrelato são abrigos resistentes o bastante para guardá-los dos vendavais da vida. Mas a verdade é que somente o nome do Senhor é torre forte. Somente no Senhor podemos estar seguros. Somente Deus é o castelo seguro da nossa alma. Porém, somente os justos, aqueles que se reconhecem pecadores, é que buscam o perdão divino e procuram abrigo no nome do Senhor. Aqueles que confiam em si mesmos jamais correrão para essa torre forte. Por isso, quando chegar a tempestade, serão atingidos por uma irremediável calamidade. Faça do Senhor o seu alto refúgio, o seu verdadeiro refúgio!

GESTÃO E CARREIRA

REAL E VIRTUAL

Enquanto a imunização em massa não ocorre, empresas de eventos, setor fortemente abalado pela crise, sobrevivem com modelos digitais e híbridos

Os negócios que dependem da presença física de pessoas são os mais prejudicados pela pandemia. Não por acaso, no topo do rol de setores abalados está o mercado de feiras e eventos. Se meses atrás ele encontrou certo alívio com a parcial reabertura, agora as perspectivas voltaram a ficar sombrias. Pesquisas recentes mostram que 61% da força de trabalho do setor está desocupada e que 31% das empresas fecharam as portas, de forma temporária ou definitiva – um dado extremamente preocupante. O novo coronavírus atingiu o coração de uma indústria de 250 bilhões de reais de faturamento anual, que emprega 6 milhões de pessoas direta e indiretamente e que representa 4,5% do produto interno bruto. Enquanto a crise persistir, só resta aos sobreviventes se adaptar.

Adaptação, na prática, significa realizar shows, eventos e feiras de forma digital ou híbrida, mesclando vídeo com plateia reduzida. Brenda Valansi, presidente da produtora de eventos culturais ArtRio (realizada também presencialmente em outubro), define assim o desafio: “A agilidade é um fator decisivo. Ser digital não é copiar o modelo presencial. Trata-se de um ambiente novo, com um novo tipo de conexão que demanda outra linguagem”, diz ela, cujo evento recebeu 8.100 pessoas nos doze dias de realização, com todas as prevenções para evitar a propagação do vírus. Embora existam exemplos positivos, não é (definitivamente) um momento fácil – e os números mostram isso. Somente o cancelamento de feiras, congressos e eventos corporativos resultou em perdas de mais de 80 bilhões de reais. Pior. Segundo Jamil Abdala, presidente da União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios, antes que a situação se normalize, a queda da arrecadação bruta será três ou quatro vezes maior.

No esforço para conter os danos, eventos on-line cresceram consideravelmente. Com isso, empresas que já estavam inseridas na estratégia tiveram mais sucesso do que outras. É o caso da Atmo, que realiza transmissões ao vivo há quinze anos. Nos últimos meses, o serviço cresceu 400% e as receitas dobraram. Mais do que uma medida emergencial, a tecnologia demonstrou ser capaz de impulsionar o setor de formas pouco exploradas. Sabendo ser impossível fazer o show presencial com o cantor Daniel e o grupo Roupa Nova, a Opus Entretenimento organizou uma live comos artistas para promover o espetáculo, que será realizado no ano que vem. Resultado: a ação virtual atiçou as expectativas dos fãs e resultou na venda de 60% dos ingressos.

Outro ajuste viável é o modelo híbrido, que combina a presença física com a transmissão de vídeos. Em São Paulo, em outubro passado, ocorreu a Expo Retomada, basicamente um evento para apontar o paradigma de futuros eventos. Foram reunidos expositores e clientes em potencial, com visitas escalonadas e live streaming (exibição pela internet). A oportunidade, porém, não é uma panaceia para todos os problemas do setor. De acordo com Milena Palumbo, diretora-geral da GL Events Brasil, que administra o São Paulo Expo e outros espaços de exposição, o problema dos eventos híbridos é que eles ainda não geram tanta receita: “Apenas 5% deles conseguem se monetizar com a mesma envergadura dos físicos”.

Notícias conflitantes sobre a possibilidade de novas restrições em São Paulo e outras capitais brasileiras esfriaram os ânimos dos mais otimistas quanto à retomada. A regressão traz instabilidade a todo o mercado, que está ávido por eventos e negócios. Ainda assim, mesmo que tudo volte à normalidade nos próximos meses, o setor deve levar de dois a três anos apenas para recuperar as perdas de 2020. O fato é que as empresas que têm conseguido se manter em pé são aquelas com maior fluxo de caixa, sem o qual não é possível preservar o negócio ou se adaptar. As muito endividadas ficaram pelo caminho, inclusive provocando o desmantelamento de uma cadeia de mão de obra especializada. Marcelo Bohrer, coordenador do Fórum de Turismo da Grande Florianópolis, afirma que mais de50% das prestadoras de serviço perderam as condições de atuar, o que levou a um fechamento precoce e ocasionou demissões. “Isso significa um retrocesso de cerca de dez anos na formação e especialização de empresas do setor”, conclui Bohrer.

Nem todos, porém, estão tão pessimistas. Paulo Ventura, diretor superintendente do Expo Center Norte, um dos maiores espaços para eventos de São Paulo, acredita que o mercado deve voltar mais forte do que nunca no ano que vem, a depender da retomada das atividades. “Dificilmente as pessoas deixarão de comparecer a feiras, congressos e convenções”, diz. Brenda Valansi, que advoga a importância da adaptação, acha que o primeiro semestre de 2021 ainda será bastante desafiador, principalmente para exposições que demandam grande público. A opinião de Valansi está alinhada com a da maioria dos profissionais entrevistados, que concordam ser praticamente impossível realizar eventos com aglomeração até que a população tenha sido imunizada pelas vacinas que estão em desenvolvimento. Trata-se de uma corrida contra o tempo. Felizmente, organizadores e público têm boas chances de vencê-la.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – IV

É SÍNDROME DO PÂNICO?

Faça o teste e respondas às perguntas que podem ajudar você a identificar o distúrbio

“A sensação é de morte iminente – essa é a melhor descrição”, afirma Andreia, de 37 anos, diagnosticada com síndrome do pânico. Os relatos de quem vive essa realidade são intensos e impactantes. Por isso, identificar os sintomas do quadro em si mesmo é essencial para procurar um médico e, com o diagnóstico confirmado, ser encaminhado aos mais diversos caminhos para o tratamento.

É muito importante essa reflexão porque a síndrome do pânico não distingue gênero – apesar da maior incidência em mulheres -, classe social, idade, profissão ou localidade: qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo está sujeita a desenvolvê-la. “Nunca havia passado pela minha cabeça que poderia acontecer comigo, e os meus amigos não acreditam. O difícil é transparecer para as pessoas que está tudo bem mesmo não estando, além de não achar graça de absolutamente nada. Minha mãe e pouquíssimos amigos estão me dando total apoio, e isso é muito importante”, afirma Gustavo Antônio, de 25 anos, que está se tratando para vencer o transtorno.

Além disso, ter consciência da seriedade da síndrome é um dos passos para procurar ajuda especializada, mas também para que os familiares e pessoas próximas possam entender melhor e tratar o outro com o respeito devido e oferecer o suporte necessário.

TESTE

O questionário a seguir foi proposto pela psicóloga Márcia Mathias. Responda pensando em sua rotina.

1- VOCÊ SENTE COM FREQUÊNCIA UMA SENSAÇÃO DE PERIGO EMINENTE?

Esse sentimento pode ocorrer pelo medo desregulado – e, muitas vezes, sem razão -, o que desencadeia crises.

2- VOCÊ TEM MEDO DE PERDER O CONTROLE EM MOMENTOS DE ANSIEDADE?

O “medo de sentir medo” é recorrente em quem possui síndrome do pânico pela forma inesperada como os acessos ocorrem.

3- APRESENTA DORES NO PEITO, MESMO TENDO IDO AO MÉDICO E SENDO INFORMADO QUE VOCÊ TEM UMA SAÚDE ÓTIMA?

O sintoma mais comum do quadro são as palpitações. Sendo assim, se elas não tiverem origem orgânica, pode ser um sinal de que é um sinal produzido pelo transtorno, assim como acontece com outros sintomas, como dormência em partes do corpo e tremores. “É preciso procurar um médico clínico geral para descartar algumas patologias orgânicas que simulam esse quadro psicossomático, como repercussão cardíaca, angina, enfarte e etc.”, pontua o médico Antônio José Marques.

4- PASSOU POR ALGUMA SITUAÇÃO TRAUMÁTICA ATÉ UM ANO ANTES DE APRESENTAR A PRIMEIRA CRISE DE PÂNICO?

Apesar de poder ser desencadeada por medicamentos ou ter raízes genéticas, os traumas são responsáveis por muitos dos casos de síndrome do pânico.

5- SENTE-SE ANSIOSO POR ESTAR LONGE DO LUGAR QUE CONSIDERA SEGURO, POR EXEMPLO, A SUA CASA?

A agorafobia, medo de lugares que possam causar crises, é muito associada ao pânico. Isso porque a insegurança de estar sozinho é muito grande.

DE OLHO NO DIAGNÓSTICO

A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) é um material de referência para profissionais da área da saúde. Nessa publicação, o transtorno é descrito como ataques de pânico inesperados recorrentes. “Um ataque de pânico é um surto abrupto de medo ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos e durante o qual ocorrem quatro ou mais de uma lista de 13 sintomas físicos e cognitivos”. Dessa forma, o manual explica que o termo “recorrente” significa literalmente mais de um ataque de pânico inesperado.

Já o termo “inesperado” se refere a um ataque de pânico para o qual não existe um indício ou desencadeante óbvio no momento da ocorrência – ou seja, o ataque parece vir do nada, como quando o indivíduo está relaxando ou emergindo do sono (ataque de pânico noturno). A lista de 13 sintomas para se atentar são:

1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia.

2. Sudorese.

3. Tremores ou abalos.

4. Sensações de falta de ar ou sufocamento.

5. Sensações de asfixia.

6. Dor ou desconforto torácico.

7. Náusea ou desconforto abdominal.

8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio.

9. Calafrios ou ondas de calor.

10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).

11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo).

12. Medo de perder o controle ou “enlouquecer”.

13. Medo de morrer.

EU ACHO …

ASSASSINATO CIRÚRGICO PODE?

O contexto faz uma tremenda diferença

Quem tem o direito de mandar matar um inimigo em outro país em nome da segurança nacional? Em princípio, se as regras da ONU fossem seguidas ao pé da letra, ninguém. O artigo 51 da Carta da ONU foi traçado na época das guerras convencionais e permite apenas atos de autodefesa até que o Conselho de Segurança se reúna e intervenha em caso de conflito entre duas nações. Nada de assassinatos cirúrgicos, uma tática que se tornou padrão na guerra assimétrica contra organizações terroristas como a AI Qaeda e o Estado Islâmico.

É também um recurso usado sistematicamente, embora de maneira contida, em termos relativos, por Israel, em geral contra líderes do Hamas e do Hezbollah. O assunto voltou espetacularmente à cena com o assassinato do cientista-chefe que tocou o projeto nuclear secreto do Irã, Mohsen Fakhrizadeh. Ele foi emboscado numa estrada por dois utilitários cheios de comandos especiais que neutralizaram os seguranças e chegaram a tirar o físico nuclear de seu carro para ter certeza, via rajada de balas, de que a missão estava cumprida – a versão de que foi tudo feito por veículos e armamentos manejados remotamente é muito fantasiosa até para os padrões do Mossad.

Qual a diferença entre a morte de Fakhrizadeh e os atentados praticados por agentes do regime iraniano? Tecnicamente, nenhuma. Mas entra aí o contexto – e faz uma tremenda diferença. O Irã representa uma ameaça existencial a Israel de uma forma que não tem a contrapartida oposta. Israel não ameaça varrer o Irã do mapa e nem provê dinheiro, armas e ideologia a organizações poderosas corno o Hezbollah, hoje a força político-militar dominante no Líbano, cuja própria razão de ser é a destruição de Israel.

O Oriente Médio não é um ambiente que dê espaço a ingênuos, e Israel sabe muito bem que a eliminação de Fakhrizadeh, já aposentado, não muda em nada o programa nuclear iraniano, sempre a uma curta distância de transitar para a bomba atômica. A tática foi usada na última década, combinando assassinatos cirúrgicos contra cientistas nucleares e ataques cibernéticos com o vírus Stuxnet, conseguindo no máximo atrasar o projeto. Talvez o aspecto mais relevante do assassinato do físico iraniano tenha sido o timing na transição do governo de Donald Trump para ode Joe Biden, com a certeza de que o novo presidente será muito mais condescendente com o Irã e menos flexível com Israel. Estaria Benjamin Netanyahu tentando criar um fato consumado, uma reação armada iraniana que explodisse no colo de Biden antes mesmo de sua posse? Os iranianos não seriam bobos de cair nesse tipo de armadilha. Todos os envolvidos entendem que haverá retaliação, mas não aleatória ou irracional. Aliás, no acerto de contas do Irã, ocupa o primeiríssimo lugar o poderoso general Qassem Soleimani, explodido num bombardeio cirúrgico feito por drones americanos no aeroporto de Bagdá. A eliminação de Soleimani, que tinha o sangue de americanos nas mãos, não provocou o tipo de conflito generalizado sobre o qual se voltou a falar agora, mas com certeza será vingada. O direito de matar, legítima ou ilegitimamente, sempre vem com a etiqueta de preço.

*** VILMA GRYZINSKI          

OUTROS OLHARES

À BEIRA DA EXTINÇÃO

Locais sagrados do universo literário em Paris, Nova York e São Paulo intensificam a luta para manter a relevância e as portas abertas em uma crise sem precedentes

A livraria mais famosa do mundo fica no coração de Paris — por enquanto. Isso porque a Shakespeare and Company fez no dia primeiro um pedido inusitado aos seus clientes: “Comprem livros ou fecharemos as portas”. A mensagem, enviada por ninguém menos que a proprietária Sylvia Whitman, surpreendeu por não ser um simples golpe de marketing e apresentar a realidade nua e crua do setor. Se antes da pandemia o modelo de negócio já estava em crise, com as portas fechadas e a baixa circulação de pedestres, até os endereços mais icônicos e charmosos da literatura anunciaram o perigo. O resultado é uma discussão global: as livrarias fazem parte do “serviço essencial” ao cidadão durante uma crise sanitária? A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, disse que sim e foi mais longe. Pediu à população para que não comprasse livros na Amazon e valorizasse as livrarias alternativas da cidade.

Apesar da atenção recebida, ainda é cedo para cravar um final feliz ao pequeno – mas poderoso – endereço na margem esquerda do Rio Sena. Com vendas em queda, a livraria de língua inglesa que leva o nome de William Shakespeare é tão relevante quanto o museu do Louvre ou a Torre Eiffel, por exemplo. O local faz parte da vida de escritores renomados há mais de um século e, por isso, a grande repercussão do pedido de socorro. “Como muitas empresas independentes, estamos lutando, buscando um caminho para sobreviver nesse momento em que operamos com prejuízo”, informou Sylvia Whitman, em um e-mail enviado aos clientes. Fundada em novembro de 1919, a Shakespeare and Company ganhou fama inicialmente entre os escritores ao abrigar o lançamento de “Ulysses”, obra máxima de James Joyce, em 1922. Foi a partir daí que o local virou motivo de peregrinação entre os amantes das letras.

A crise do setor é generalizada e se manifesta em vários países. Para o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov, um dos problemas é a compra de livros pela internet, que vem substituindo o comércio presencial. “Ir a uma livraria é como ir a um bom restaurante em vez de comer em casa”, diz. Ele lembra ainda da semelhança da livraria parisiense com a Livraria Cultura, cuja loja na Avenida Paulista é um ponto turístico de São Paulo. Em recuperação judicial, a Cultura também possui um futuro incerto. “O contato do leitor com o livreiro é muito importante e as novas gerações já não têm muito interesse nisso,“ explica Gurbanov. Para ele, o segredo da Shakespeare and Company é a “bagunça organizada” dos livros. É preciso estar presente para encontrar, acidentalmente, um bom exemplar. Em Nova York, quem está com o futuro ameaçado é a Strand Book Store, fundada em 1927 e um cartão postal da cidade. Assim como a Shakespeare e a Cultura, a Strand, uma das maiores livrarias de livros novos e usados do planeta, corre o risco de sumir do mapa. A Strand é um dos locais que definem a imagem clássica do negócio livreiro: iluminação controlada, chão de madeira e ares de biblioteca. Mas sua clientela diminuiu drasticamente.