EU ACHO …

LINGUAGEM E PRECONCEITO

Cada vez que alguém fala “de cor”, ouve-se um chicote a riscar de vermelho o preto de uma pele.

Preconceito é como cacoete, é feito tique nervoso, igual a vício: ainda que o preconceituoso negue que o possua ou que viva em um País que estruturalmente deixa os pretos sem ar, o preconceito está lá, sempre lá, interiorizado e à espera de um mínimo de descuido da consciência para mostrar as garras de ato falho, que é o desejo que brota do inconsciente.

Fala-se, aqui, do preconceito racial, mas mudemos um pouco de área a título de bem exemplificar. Houve um tempo em que no interior do Brasil não se pronunciava a palavra câncer — acreditava-se que daria azar, e então dizia-se fulano está com a “doença ruim”. Pouca gente, mas pouca gente mesmo, seguia convivendo com o portador da “doença ruim”, porque a ignorância levava indivíduos a crer que o câncer era transmissível. A mesma coisa ocorreu com o HIV, que recebeu dos ignorantes, no início de sua manifestação pelo mundo, o discriminatório apelido de “peste gay” — e não faltou ser humano (ser humano?) a se negar a dar a mão a soropositivos, acreditando que o vírus podia “saltar” de um corpo para o outro. O que se quer demonstrar é o seguinte: a linguagem pode servir de embute e de embuste a preconceitos.

Pois bem, de volta ao que nos move nesse artigo, que é o racismo, a ignorância citada acima se iguala a fala de quem diz: “eu não tenho nada contra gente de cor”; “O Brasil não é racista, não tem preconceito em relação ao pessoal de cor”. Ao pronunciar essa expressão, “de cor”, corrosiva da alma e da dignidade humanas, a pessoa já está sendo racista no próprio momento em que fala que não carrega o racismo. Sob um olhar psicanalítico e antropológico, essa
é a mesma interiorização (perversa interiorização) dos casos da “peste gay” e da “doença ruim”.

Seja devido à falta de um amplo repertório de conhecimento, seja por carência de entendimento histórico de uma nação, seja por negação identitária, seja por arrogância mesmo, nada disso abranda, não justifica e nem perdoa o racismo. Jamais! Para preconceituosos, de qualquer ordem, não há desculpas nem relativizações — e eles devem ser rigorosamente punidos pela Justiça. O preconceito é a negação da espécie humana. É a negação da vida. É a negação da ciência. É a negação de Deus.

Recentemente, no criminoso episódio em que seguranças brancos do Carrefour massacraram e assassinaram a sangue frio o cidadão negro Beto Freitas, uma autoridade do Brasil, quatro estrelas, valeu-se duas vezes da expressão “de cor”, enquanto dizia que no País não há racismo. É deplorável. O que é de cor é lápis de cor! Preto é gente! Preto é gente que respira quando o deixam respirar! Preto é gente preta!

*** ANTONIO CARLOS PRADO

OUTROS OLHARES

COM QUE ROUPA EU VOU?

A busca pelo consumo consciente, especialmente entre os jovens, a diversidade de produtos e a crise econômica impulsionam as vendas em brechós

O comportamento é um clássico. Roupas que ficam no fundo do guarda-roupa ou na parte de baixo das pilhas dificilmente são a escolha do dia a dia e, sem uso, acabam servindo apenas para abarrotar cabides e prateleiras. Agora, porém, elas podem ter um novo destino – os brechós. Os jovens, especialmente aqueles que fazem parte das gerações Y (nascidos entre 1980 e 1995) e Z (1996 e 2010), têm sido os grandes incentivadores da nova tendência. Preocupados com o consumo sem limites, eles investem cada vez mais em itens que já tiveram um ou mais donos, aumentando o ciclo de vida da produção de uma das indústrias mais poluentes do mundo: a da moda. A crise econômica, que fez sumir milhões de empregos, também foi outro fator decisivo para impulsionar esse tipo de comércio.

Em 2016, meses depois de fechar a clínica de estética Beaux, no Rio de Janeiro, a advogada Flávia Sampaio, namorada do ex-bilionário Eike Batista, apostou no lançamento do Power-Look, um brechó de aluguel de vestidos de festa para a alta renda. O negócio decolou. Além do e-commerce, possui três lojas físicas e desenvolveu um projeto de expansão por meio de franquias. Na plataforma, é possível alugar um Versace por 2.000 reais ou desfilar com um modelo da própria marca por 198 reais. Quem também decidiu apostar no segmento de luxo foi a atriz Fiorella Mattheis, fundadora da Gringa. Em vez de brechó, a agora empresária prefere chamar seu negócio de recommerce (ou revenda de artigos usados). Os acessórios, principalmente as bolsas, são de grifes como Louis Vuitton e Gucci. O modelo da Chanel mais em conta – uma vintage – custa 3.490 reais. “A indústria fashion passa por uma grande revolução e o movimento da moda circular agrega valor a essa mudança”, diz ela.

Uma pesquisa da consultoria internacional Boston Consulting Group (BCG) para a plataforma Vestiaire Collective concluiu que o mercado de peças usadas de luxo representa 2% da receita total do segmento, movimentando de 30 bilhões a 40 bilhões de dólares por ano. Nos próximos cinco anos, o crescimento é estimado entre 15% e 20%. Pela projeção da BCG, em 2023 27% dos guarda-roupas dos consumidores terão um item de segunda mão (atualmente esse número é de 21%). Para 70% dos entrevistados – 7.000 pessoas, em seis países -, o caráter sustentável desse mercado, acentuado durante a pandemia, é a primeira justificativa para a compra. Mas o aspecto econômico, a variedade de itens e a exclusividade também influenciam na decisão.

O novo comportamento tem estimulado investimentos no setor. O e-commerce Enjoei, fundado em 2009, pretende fazer ainda em 2020 uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e captar até 1,8 bilhão de reais. Neste ano, a Redpoint Ventures e a Bossa Nova Investimentos fizeram um aporte de 7,5 milhões de reais no Repassa, o que permitirá à startup multiplicar por dez seu crescimento nos próximos dois anos. O Repassa foi fundado pelo publicitário Tadeu Almeida em 2014. As vendas, segundo ele, têm triplicado a cada ano. No modelo de negócio, quem tem roupa ou acessório para vender recebe em casa uma sacola, que é enviada para o depósito da startup, em São Paulo. Lá, as peças são higienizadas, fotografadas e exibidas no site. O comprador recebe o item em casa e o Repassa fica com uma comissão. Atualmente, o estoque conta com cerca de 150.000 peças – a maioria de moda feminina. “Não queremos ser um personal stylist para nossos clientes, mas sim pegar as peças em bom estado que estão paradas no guarda-roupa e trazer de volta para a economia”, diz Almeida.

O público infantil também está na mira dos investidores. O brechó Cresci e Perdi, focado nesse universo, conta com uma rede de 117 franquias, entre Goiás, Paraná, Minas Gerais e São Paulo. Nos primeiros meses da pandemia, a oferta de roupas caiu porque muitas pessoas preferiram doar o que não servia mais a vender. A solução foi comprar peças novas, de coleções passadas, para manter a oferta nos pontos de venda. O sucesso no mercado brasileiro fez a empresária Elaine Alves, dona do negócio, planejar voos mais altos. A ideia é levar o brechó para Portugal em 2021. “Esse mercado não vai acabar nunca”, diz. As roupas são de segunda mão, mas usá-las é cada vez mais fashion.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE NOVEMBRO

O CORDEIRO SEM DEFEITO

Mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (1Pedro 1.19).

O cordeiro morto na Páscoa precisava ser um cordeiro sem defeito. Isso porque esse cordeiro tipificava Jesus. Todo o ritual apontava para o sacrifício perfeito e cabal realizado por Cristo na cruz. Não há remissão de pecados sem derramamento de sangue. Mas o sangue de cordeiros não pode expiar pecados. Na noite da Páscoa, quando o cordeiro foi sacrificado e seu sangue aspergido nos batentes das portas, aquele sangue apontava para o Cordeiro de Deus, o Cordeiro imaculado, que na cruz morreu pelos nossos pecados e verteu o sangue para que fôssemos remidos da escravidão e purificados de toda impureza. O cordeiro do sacrifício não podia ser doente nem aleijado. Tinha de ser perfeito. Esse cordeiro apontava para Jesus, aquele que não conheceu pecado, mas foi feito pecado por nós. Mesmo tendo sido acusado pelos seus inimigos de beberrão e possesso, sua vida foi absolutamente imaculada. Nunca houve transgressão em seus lábios. Suas palavras foram poderosas, suas obras portentosas e sua vida irretocável. Jesus não morreu pelos próprios pecados; morreu pelos nossos pecados; o Justo pelos injustos. Sua morte foi vicária e substitutiva. Ele sofreu o golpe da lei que deveríamos sofrer. Bebeu o cálice da ira que deveríamos beber. Morreu a nossa morte para nos dar a sua vida.

GESTÃO E CARREIRA

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL: DE QUE FORMA ELA INOVA O JEITO DE TRABALHAR DAS EMPRESAS

O tema transformação digital ganhou força nos últimos anos à medida que novas empresas   muitas delas nascidas no Vale do Silício, viraram parte importante do nosso dia a dia. Hoje vamos de 99 ou Grin para o trabalho, alugamos apartamentos pelo Quinto Andar, mandamos retirar um documento pela Loggi e pagamos tudo isso com nosso cartão Nubank. Muitas grandes empresas e setores como hotéis, bancos, táxis, varejistas e afins, que até pouco tempo atrás viviam em um ambiente competitivo relativamente confortável, agora se veem competindo com empresas muito jovens, com modelos de negócio diferentes, propostas de valor mais diferentes ainda e vantagens competitivas muito menores.

A associação do nosso momento atual em que as grandes empresas têm seu almoço roubado por empresas jovens se dá, em muito, pelo fato de essas empresas serem conhecidas como startups ou empresas “de tecnologia”. O que faz delas empresas “de tecnologia” não é o uso de tecnologias de ponta – ciência de foguetes -, mas, sim, uma soma de fatores. Ao contrário do que muita gente acha, o papel da tecnologia na transformação digital não é adotar tecnologias super sofisticadas, como inteligência artificial, reconhecimento facial, computação quântica etc. O fator crítico envolvido no tema “transformação digital” parece ser muito menos a tecnologia em si, e muito mais o fato de empresas novas entrarem em mercados novos, servirem clientes de maneira superior e, nesse caminho, fazerem da vida de grandes empresas bem estabelecidas um inferno.

Muitas vezes a digitalização da experiência de consumo é justamente o que possibilita essa entrada de novos players em mercados já estabelecidos. O mercado financeiro é um grande exemplo. Se antes era preciso ter uma rede gigantesca de agências para ser um grande banco de varejo, hoje todo mundo quer fazer tudo por apps e websites. Por isso, novas empresas como Nubank e Neon puderam entrar nesse mercado com muito menos capital. A transformação digital como “caixa de ferramentas” e dentro dessa caixa estão novos canais de contato com o cliente, mudança cultural interna nas empresas, maior uso de tecnologias, processos menos burocráticos. Raramente, no entanto, estão cientistas em jalecos brancos e tecnologias super sofisticadas. Quando uma nova startup de tecnologia rouba mercado dos incubentes (empresas já estabelecidas em um dado mercado), o que ocorre é que essas startups atacam um cliente que está servido em alguns aspectos e pouco servido em outros.

Mas se não é a tecnologia que está impedindo as grandes empresas de reagirem a esses movimentos, o que está acontecendo? Ou melhor, o que é a tal “transformação digital” que as empresas precisam para sobreviver? O que as empresas vêmfazendo em suas jornadas de transformação digital?

Algumas criam, por exemplo, cargos relacionados à “inovação”. Geralmente essa turma não tem nenhuma grande incumbência relacionada de fato à inovação, como ingerência sobre os produtos e serviços que a empresa oferece, mas sim muito mais relacionada à transformação digital (inovação e transformação digital são termos muitas vezes usados sem grande clareza e com muita confusão).

Muitas empresas contratam escritórios de arquitetura e remodelam seus espaços de trabalho. Decoram o espaço com pufes coloridos, com paredes grafitadas, com chopeiras, comida grátis, videogames e mesas de pingue-pongue. Algumas empresas mandam alguns dos seus executivos fazer cursos na Singularity University, ou para alguma missão similar ou um tour pelo Vale do Silício (agora a moda é ir para a China). Por algumas dezenas de milhares de reais, esses passam uma semana ouvindo como a inteligência artificial, as organizações exponenciais e o Vale do Silício vão acabar com tudo como conhecemos hoje.  No entanto, muitas delas se frustram com os resultados dessas iniciativas. E isso acontece justamente porque elas são muito superficiais: elas têm pouco impacto na cultura da   empresa e nos seus sistemas de incentivos, que são o que realmente pode causar uma transformação digital.

Na eleição presidencial dos Estados Unidos de 1992, Bill Clinton foi eleito presidente contra George Bush “Pai”. A estratégia de Clinton era muito simples: focar a economia, o impacto de dinheiro no bolso de cada cidadão americano. À essa estratégia de campanha foi dado um nome que serviu de slogan interno: “É a economia, estúpido”. Nosso ponto é que o que realmente importa na jornada de transformação digital é a cultura organizacional e isso é algo muito difícil de se mudar. E a maioria dos esforços de transformação digital tem resultados pequenos, pois a maioria dos seus esforços concentra-se em aspectos muito rasos da cultura organizacional, como a decoração do escritório ou a exposição de um número muito pequeno de executivos a temas relacionados a inovação, tecnologia e afins.

Em resumo, levar colaboradores para conversar com startups é realmente interessante, mas tem pouco impacto cultural. Quando a turma chega de volta à mesa, tudo volta a ser como era. O que realmente muda a cultura organizacional de uma empresa, e a torna mais propensa a inovar e a responder às necessidades dos seus clientes, é seu sistema de incentivos, e isso as torna o que são hoje: grandes empresas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROMES DE WILLIAMS E DO X FRÁGIL

Ambas as síndromes, embora não tão raras, ainda causam estranheza em profissionais da saúde e educação por apresentarem certas particularidades

Trazemos para este artigo o debate de duas síndromes não tão raras – síndrome de Williams e síndrome do X frágil -, mas que ainda causam muita estranheza em profissionais da saúde e educação por apresentarem certas particularidades e peculiaridades que precisam ser observadas para se pensar no sujeito como um todo. A palavra síndrome, de modo geral, pode ser entendida como um conjunto de sintomas, com ou sem uma causa específica, que pode comprometer uma ou uma série de funções no corpo. A síndrome mais comum, ou seja, a que mais se ouve falar, é a síndrome de Down. Entretanto, temos observado muitas outras que têm sido foco de estudos.

O objetivo deste artigo não é mostrar um sujeito medicalizado, mas evidenciar que existem sujeitos com desenvolvimento e características muito distintas que precisam ser observados pelos profissionais que lidam diretamente com tais indivíduos, por entendermos que lidamos cotidianamente com sujeitos únicos em suas existências, mas, por vezes, partilham de características comuns. E essas singularidades, mesmo que comuns, são indicadores de possibilidades de ações mais elaboradas por profissionais da educação, da saúde e de outras áreas.

SÍNDROME DE WILLIAMS

A síndrome de Williams é uma desordem genética rara, a qual nem sempre é diagnosticada. Ela não é geneticamente transmitida e não é causada por fatores médicos ou por influências psicossociais, como mostrado por vários estudos. A síndrome de Williams foi descrita em 1960 por um cardiologista neozelandês, Dr. John Williams, cujo nome foi atribuído ao conjunto de sinais clínicos em homenagem ao feito do médico. Dr. Williams notou que um grupo de pacientes crianças possuía características físicas e clínicas semelhantes: problemas cardiovasculares, atraso mental, características faciais parecidas, dificuldade em ler e escrever, além de problemas com matemática. O médico notou também que algumas crianças possuíam grande talento musical.

Essa síndrome pode afetar várias áreas do desenvolvimento, dentre elas a cognitiva, comportamental e motora, além de poder ocorrer em qualquer gênero, independentemente de origem ou etnia. Estima-se que 1 em cada 25.000 crianças nascem com a síndrome.

Indivíduos com a síndrome de Williams costumam apresentar características faciais típicas, as quais pesquisadores e estudiosos denominam “face de duende”, devido ao nariz pequeno e empinado, cabelo encaracolado, lábios cheios, dentes pequenos e sorriso frequente.

Grande parte das crianças com essa síndrome tem dificuldades de alimentação no primeiro ano de vida, passando a desenvolver um quadro de vómitos, recusa de alimentação, com grande irritação e choro. Tais dificuldades são relatadas por Strebe ao escrever a biografia de sua filha Michelle, que possuía diagnóstico de Williams. Segundo essa autora, a dieta de Michelle foi um grande desafio. Ela comia apenas bananas e cereais adoçados para bebê.

Conforme a Associação Brasileira de Síndrome de Williams – ABSW (2000), de maneira geral, crianças com essa síndrome são muito sociáveis e comunicativas, mesmo de forma não verbal, pois muitas vezes utilizam expressões faciais, contato visual e gestos para se comunicar. Elas começam a falar mais tarde, mas mostram grande variedade no desenvolvimento da linguagem. Segundo a ABSW, esses sujeitos começam a falar palavras simples e pequenas frases por volta dos 18 meses.

Quanto ao desenvolvimento motor, podem levar mais tempo para aprender a sentar e a andar e têm dificuldades em realizar ações como andar de bicicleta, abotoar a roupa, utilizar tesouras e segurar o lápis. Além disso, crianças com SW podem ainda apresentar dificuldades em relação à orientação espaço-temporal.

Crianças com essa síndrome possuem grande facilidade em aprender canções e rimas, o que, segundo a ABSW (2000), mostra uma boa memória auditiva e sensibilidade musical. A ABSW afirma que há ainda outras características de personalidade comuns, dentre elas podem se destacar a grande sociabilidade – sentem-se muito à vontade com estranhos -, sensibilidade com as emoções alheias, pequeno intervalo de atenção, boa memória para pessoas, nomes e locais, sensibilidade aos sons, ansiedade e medo de alturas, escadas e superfícies irregulares como a areia.

Somam-se a isso, ainda, algumas outras características como problemas de sono, problemas para controlar o esfíncter, hipersensibilidade a alguns tipos de sons como palmas, batedeiras e liquidificadores.

Sugayama afirma que normalmente o quadro clínico é suficiente para o diagnóstico, porém este também pode ser feito e confirmado por meio de um exame de sangue, no qual é utilizado o cariótipo dos linfócitos (glóbulos brancos) e uma técnica de hibridação in situ (FISH) para os genes da elastina (ELN) e da LlMquinase. Segundo a autora, este costuma ser positivo em até 96% dos casos. Vale ressaltar que esse exame é altamente especializado e de alto custo e costuma não estar disponível na maioria dos laboratórios.

A síndrome de Williams tem como alguns de seus principais problemas médicos as alterações vasculares, os problemas cardiovasculares e a estenose aórtica supravalvular (ESVA), essa alteração é caracterizada por um estreitamento da região que regula a saída de sangue do coração pela artéria aorta, que leva o sangue para a maior parte do corpo. Segundo Sugayama, a ESVA está presente em 84% nos indivíduos com SW.

De acordo com a literatura, pessoas com essa síndrome possuem grande sensibilidade auditiva e características cognitivas em música. Segundo Vivi, a sensibilidade anormal aos sons talvez tenha como explicação também a falta da proteína elastina, uma vez que esta tem participação na formação do ouvido externo e interno. Essa sensibilidade ao som, ou a alguns tipos de som, é o que a literatura chama de “hiperacusia”, que seria a habilidade de ouvir sons fracos que outras pessoas não conseguem ouvir.

Apesar de características como atraso mental, dificuldades motoras e pouca noção visual-espacial, os indivíduos com SW podem apresentar uma facilidade na aprendizagem de música, exercida por meio da memória musical, apreciação e execução tão boa quanto a de qualquer ser humano. Devido a tal habilidade, é comum que pessoas com essa síndrome tenham como hábito passar mais tempo ouvindo música, reconhecer timbres e associar emoções às músicas que ouvem.

Dessa, lidar com uma criança com SW em sala de aula exige maior conhecimento do professor a fim de que este possa receber maior atenção e atendimento adequados.

Como alternativas de trabalho são sugeridas as atividades em duplas, visto que as crianças com essa síndrome possuem como característica, além da musicalidade, grande sociabilidade. A Associação Brasileira de Síndrome de Williams ressalta, no entanto, que por serem as crianças com SW mais amigas dos adultos e preferirem se relacionar com estes, elas podem ter dificuldade em fazer amizades com seus pares.

Além disso, diante das características até aqui relatadas, a utilização da sensibilidade e memória auditiva a favor do aprendizado dessas crianças é uma das mais importantes alternativas. Uma sugestão para se trabalhar com os alunos dos anos iniciais do ensino fundamental, por exemplo, é estimulá-los a fazer leituras em voz alta, e com os de anos mais avançados pode-se sugerir a apresentação de trabalhos com a criação de paródias e músicas. Outro método é utilizar em aula músicas cujas letras se relacionem com o conteúdo que será estudado.

Além da música, vale também destacar outra opção para trabalhar em sala de aula com indivíduos que possuem a SW. Levando em consideração sua dificuldade motora, aconselha-se reduzir o uso do lápis e utilizar, por exemplo, o computador como ferramenta.

SÍNDROME DO X FRÁGIL

A síndrome do X frágil é uma doença genética ligada ao braço longo do cromossomo X e é a causa mais comum de deficiência cognitiva. Nas mulheres, por terem dois cromossomos X, a síndrome geralmente é em grau leve. Nos homens, como possuem apenas um cromossomo X, a deficiência pode ser de grau moderado.

Essa síndrome, segundo autores, representa a primeira causa de deficiência intelectual / cognitiva herdada, e sua incidência é de cerca de 1: 4000 em homens e 1: 6000 em mulheres, o que pode pressupor que não se caracteriza como uma síndrome rara, ou seja, “é a segunda causa genética de retardo mental, depois da síndrome de Down”.

Essa síndrome é muito mais comum em meninos do que em meninas; uma hipótese para esse fato é que no homem há apenas um cromossomo X, logo se este for afetado não haverá outro sadio que o compense, como ocorre nas mulheres.

Em relação às características físicas dos sujeitos que possuem a síndrome do X frágil, que podem se tornar mais evidentes, podemos citar: face alongada, orelhas grandes e em abano, mandíbula saliente, testículos aumentados. Além dessas, outras características como: diminuição da tonicidade muscular, comprometimento do tecido conjuntivo (tecido do corpo que tem por finalidade encher, sustentar e proteger), pés planos, céu da boca alto, estrabismo, escoliose, calos nas mãos, dentre outras peculiaridades.

Também chama atenção para o fato de que “o diagnóstico dessa síndrome é feito através de exame citogenético (cariótipo)”. Em relação ao tratamento/ trabalho da/ com a síndrome, os autores enfatizam que este pode se dar por meio de terapias especiais, estratégias de ensino que possibilitem às pessoas com essa condição aumentarem o seu desempenho cognitivo, isso pelo fato de que “algumas das suas características podem ser bem aproveitadas: excelente memória, facilidade em identificar logotipos e sinais gráficos, bom vocabulário, habilidade para leitura, uso de jargões e frases de efeito”.

As dificuldades estão principalmente na abstração e na integração das informações: seguem instruções ao pé da letra, podem dar importância a aspectos irrelevantes, fala fora do contexto, fala repetitiva, ecolalia.

Os sujeitos com a síndrome do X frágil podem apresentar algumas alterações de conduta centradas, essencialmente, na hipersensibilidade a estímulos visuais, sonoros e táteis.

É normal uma criança com hiperatividade e déficit de atenção apresentar movimentos estereotipados, principalmente nas mãos, como bater com elas ou mordê-las. Também é usual às crianças com essa síndrome recorrerem à onicofagia, ou seja, ao hábito de roer as unhas. Ainda no domínio sensório-motor, podem verificar-se algumas dificuldades na postura, equilíbrio e tônus muscular, alguma dificuldade na propriocepção, ou seja, a noção espaço-corporal, alguns problemas de planeamento motor, de motricidade fina e da lateralidade, que acabam por ser originados por alguma hipotonicidade e pela hiperextensibilidade das articulações.

Vale salientar que essas peculiaridades não podem ser consideradas como impeditivo para o trabalho pedagógico e educacional desses sujeitos, já que todas as pessoas, independentemente de quaisquer características, podem não aprender tudo o que é ensinado e o processo de aprendizagem e desenvolvimento do ser humano depende de uma série de fatores, que vão muito além das condições biológicas, ou seja, depende de todo um processo macro que envolve o meio sócio, histórico e cultural do indivíduo.