A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

REFLEXÕES EM TORNO DA “CURA GAY”

A única possibilidade de se levar em conta a questão da cura é se nos referirmos à questão terminológica, pois a palavra cura não significa necessariamente a erradicação de um mal. Curar é cuidar

Não há fundamentação psicanalítica para algo que possa ser denominado “cura gay”. Psicanalistas, de posse de uma teoria científica que fundamenta uma prática clínica, voltam-se radicalmente para a singularidade da vida mental de cada sujeito; nossos resultados buscados relacionam-se às verdades de cada um, para serem vividas com autenticidade, liberdade, autonomia e responsabilidade.

Sigmund Freud, com suas observações clínicas, construiu uma teoria e esclareceu desde o início que a sexualidade humana não é natural, está diretamente ligada à fantasia, cada um pode buscar o objeto de satisfação de seu desejo, na obtenção de seu prazer nas formas mais variadas.

Do ponto de vista psicanalítico torna-se difícil engajarmo-nos em propostas normatizadoras no tocante à busca de satisfação sexual, visto que não estamos determinados pela natureza como no instinto que opera nos animais. A vida sexual dos humanos é independente da procriação.

Aos analistas compete esclarecer e compreender as fontes de angústia em cada um de seus pacientes e ajudar a combater forças repressivas que tolhem as buscas de prazer, a liberdade e a criatividade. O controle da moral, dos costumes, do cumprimento da lei compete a outras instâncias de nossas organizações sociais.

Consideremos a questão terminológica: a palavra cura não significa necessariamente, nem em Medicina, a erradicação de um mal, como se costuma empregar. Curar é cuidar, acompanhar uma evolução, como um queijo curado, como um curador de uma exposição, como o “cura”, ou pastor religioso que se ocupa de suas “ovelhas” ou fiéis. É nesse sentido que um psicanalista a emprega. E é nesse sentido que poderíamos falar da cura de alguém que se intitula gay. Mas não há tratamento específico para o que possa estar sendo denominado assim. São gays, se denominam assim ou denominamos assim, em nossa cultura, pessoas, agora mais visíveis e assumidas, que escolhem como parceiros afetivos e sexuais pessoas do mesmo sexo. Uma célebre carta de Freud, datada de 25 de novembro de 1928, dirigida ao pastor e psicanalista Oskar Pfister, termina com esse parágrafo: “Não sei se você adivinhou a relação oculta entre a ‘análise leiga’ e a ‘ilusão’.  Na primeira, quero proteger a análise frente aos médicos, e, na outra, frente aos sacerdotes. Gostaria de entregá-la a um grupo profissional que não existe ainda, o de pastores de almas profanos, que não necessitam ser médicos e não devem ser sacerdotes. Afetuosamente, seu velho Freud” (Freud; Pfister, 1966, p. 121, tradução e itálicos do autor deste texto).

Este pequeno, singelo e claríssimo parágrafo não dá margem a dúvidas por onde deve caminhar e evoluir essa clínica, cujas bases Freud lançou. Para que sejamos dignos da herança freudiana, não devemos estar comprometidos nem com salvação de almas nem com curas. Freud, revolucionariamente, desvincula-se da Medicina, incompatibiliza-se com terapêuticas que visam o alívio somente e o ajustamento, e desinscreve do registro religioso as questões da pessoa, de sua autonomia, liberdade e responsabilidade ética.

EMANCIPADORA

Considero a Psicanálise um instrumento que nos permite ir além de normal e patológico, adequado ou inadequado, numa clínica emancipadora de pessoas, para enxergar e fazer enxergar a vida como ela é. Quer queiramos, quer não, no mundo em que vivemos surgem, visíveis e legalizadas, outras formas de relação entre os sexos, novas modalidades de aliança e filiação. Homoerotismo, homoafetividade e homoparentalidade estão aí e dirigem várias perguntas a nós e a nossos modelos. Pessoas do mesmo sexo podem se casar, e casais homoafetivos podem adotar crianças. O mundo se transforma e se organiza. Como analistas podemos oferecer ajuda e contribuições psicanalíticas às pessoas que nos procuram – pessoas querendo atenção, afeto, consideração pessoal, envolvimento, implicação (demanda psicanalítica) e vivendo escolhas afetivas e eróticas satisfatórias fora do modelo da família conjugal, já legalizadas por providências da sociedade.

Sustentar uma posição psicanalítica não é coisa fácil. Nunca foi. Estar na contracorrente nos é familiar e próprio da Psicanálise desde o seu início. Para Freud, foi fonte de preocupações, de muito trabalho e muita competência e seriedade para permanecer no campo científico com a especificidade própria. Jean Laplanche (2001/2003) chama de “descaminhos” certas apropriações, aplicações e desenvolvimentos que a obra de Freud toma, exigindo de nós analistas que voltemos sempre ao que é fundamental, ao que define primordialmente a Psicanálise e que dá o caráter singular da descoberta freudiana. Vivemos num mundo medicalizado e dominado pelo poder médico.

Constato visões médicas e medicalizadas não apenas nos interessados em Psicanálise originários  de cursos médicos, mas também nos que, vêm de outras áreas e da própria Psicologia, o que me leva a falar em vícios ou “doenças” entre aspas, profissionais: o médico, pelo poder próprio ao saber e às práticas ousadas e heroicas, inadvertidamente pode ser levado à arrogância e à onipotência, caracterizando-se um “complexo  de  superioridade”. Os outros profissionais, submetidos a esse poder, inferiorizam-se, acham que deveriam ser médicos, não valorizam a liberdade e a possibilidade de expansão num campo, criado e proposto por Freud, que pode deixar o organismo de lado, sem ignorá-lo, claro, mas corajosamente confiando na potência das propostas psicanalíticas.

Debruçando-nos sobre a questão da homossexualidade (ou das homossexualidades) na atualidade, constatamos uma mutação: esta forma de viver e se relacionar entre os humanos se torna visível, reivindica direitos e status e, sobretudo, pessoas assim docilmente aproximam-se dos psicanalistas, para serem analisadas e eventualmente querendo se tornar analistas, não considerando sua condição como patológica nem desejando mudá-la. Ao contrário das propostas evangélicas e dos argumentos da Igreja Católica, que não desistem de se apropriar dos conhecimentos psicanalíticos, de desejar o status e a qualificação profissional de psicanalistas e oferecer a famigerada “cura gay·.

Refletindo sobre essas relações, entre Medicina e Psicanálise, faz-se necessário desconstruir a patologização da homossexualidade. Para isso, recorro à Psicanálise – referindo-me basicamente a Freud – e ao que, de posse desse método de investigação, se pode esperar como resultado, sem descuidar do que, como psicanalistas, estamos autorizados a afirmar sobre as pessoas, seus problemas, seus comportamentos, sua vida sexual  e suas escolhas eróticas. A Psicanálise não se interessa pelos fenómenos visíveis da prática sexual, mas pelas suas expressões não aparentes, recalcadas, inconscientes. A escuta do psicanalista é não moralista. Um psicanalista oferece uma oportunidade de alguém ser ouvido e considerado por quem não seja juiz, polícia, pai, mãe, nem médico, e que se implica para perceber o mundo interior do outro e ajudá-lo a conquistar autonomia, liberdade, compromisso com sua verdade interior, autoridade pessoal, emancipação, autenticidade.

DESPATOLOGIZAÇÃO

Considerando a(s) homossexualidade(s), penso que a Psicanálise pode contribuir para sua despatologização e ser fiel a seu campo e sua prática emancipadora através da valorização das singularidades – dificilmente oferecendo convincentes teorias explicativas, etiopatogênicas, como a Medicina tem feito e faz com muito mais propriedade.

Nossa sexualidade, diferentemente da dos animais, não se vincula à reprodução. Não é natural. É aí que Freud se opõe à moral, à religião, ao senso comum e inaugura uma possibilidade de examinar a sexualidade como algo que escapa a qualquer tentativa de normalização. Supostamente, o objetivo seria a procriação, mas nós humanos buscamos o prazer através da sexualidade: subvertemos e pervertemos o objetivo natural.

A relação da Psicanálise com a homossexualidade é mais a de analisar a hostilidade teórica, clínica, contra transferencial e subjetiva provocada por essa escolha de objeto do que a de especular e teorizar sobre sua origem e funcionamento. O que deveríamos focar como patologia e tentar formas de combatê-la é a homofobia.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.