EU ACHO …

“EU OS DEIXO MORRER EM PAZ”

Como funciona o trabalho de uma “doula da morte”, que acompanha um doente terminal com cuidados paliativos até seu momento final

Sou enfermeira de formação e trabalho na área de enfermagem desde 2004, quando comecei como técnica. Durante minha carreira, passei por diversos locais, até sargento do Exército eu fui, e sempre atuei em emergências e UTIs, onde os desfechos – em especial a morte – geralmente não aconteciam de uma maneira que eu considerasse digna. Por exemplo: salvar a vida de um paciente que deveria estar em cuidados paliativos a qualquer preço, com procedimentos invasivos que não trazem qualidade de vida.

Em minha avaliação, esse seria um momento de chamar a família, trabalhar questões emocionais e pessoais, cuidar do ser humano usando recursos para um fim mais acolhedor. Mas a gente (profissional da saúde) acha que é dono de todas as vontades, a gente não pergunta para o paciente se a vontade dele naquele momento é ser entubado, ser ressuscitado, receber procedimentos invasivos. Issonão acontecia e me incomodava muito. Então passei a me questionar se era isso mesmo que eu queria fazer da vida e cheguei a pensar em desistir da profissão.

Mas aí pensei: “O que eu sei fazer de melhor?” – e percebi que cuidar do outro era do que eu mais gostava. Decidi me especializar em gerontologia (estudo do envelhecimento) e cuidado de idosos. Saí do ambiente hospitalar e resolvi empreender oferecendo atendimento de enfermagem domiciliar para idosos e cuidados paliativos no domicilio. Atendendo na casa deles, acredito que posso agir da forma mais adequada para esses pacientes, com foco na humanização do atendimento.

Com o tempo, meus pacientes começaram a falar comigo sobre a morte, sobre a finitude da vida, sobre seus anseios, medos e vontades. Conscientes de que estavam no fim da vida, passaram a tocar nesse assunto e a expor suas questões. Isso se mostrou muito desafiador, porque nossa cultura não tem o hábito de falar sobre a morte. Parece que é algo errado, feio. Se você fala sobre morte dentro de um hospital, as pessoas olham torto, como se ninguém morresse ali. E foi por causa de meus pacientes, que me questionavam sobre a morte deles, que comecei a me informar sobre o assunto e descobri que existia o termo “doula da morte”. Fui me especializar em cuidados paliativos e passei a trazer o assunto “morte” para minha equipe. Muitas de nós trabalhavam com a questão da finitude, mas de uma forma muito tímida. Em dezembro de 2018 surgiu a ideia de organizar a primeira roda de conversas para falar sobre a morte. Fiquei surpresa com a procura, umas 40 pessoas participaram. Havia gente que trabalhava em cemitério, cuidadores, familiares, profissionais da saúde. Foi muito legal. Depois disso, resolvemos criar o primeiro curso de doulas da morte do Brasil, e mais de 60 pessoas se inscreveram, mostrando que o tema é relevante, apesar de pouco falado.

O termo “doula” geralmente é associado ao nascimento, quando uma profissional acompanha a gestante durante toda a gravidez e no momento do parto. Mas o processo da morte é muito antagônico ao nascer e também precisa de um acompanhamento – e é esse o papel da douta da morte. Acompanho pacientes no fim da vida e trago à tona questões muito pessoais, voltadas a suas vontades. Atuo também com os familiares, especialmente agora com a pandemia do coronavírus, quando muitas pessoas perderam seus entes sem conseguir sequer se despedir, velar o corpo. Passei a organizar memoriais e homenagens on-line para ressignificar a dor dessas famílias.

Em 2016, uma experiência que me marcou muito foi a doulagem de um paciente oncológico de 74 anos, extremamente consciente da doença que ele tinha (câncer de pulmão). Ele decidiu que não queria receber nenhum tratamento e queria deixar a vida seguir seu curso natural. Era um senhor muito lúcido, ativo, culto, que gostava muito de ler e de ouvir música clássica. Fui preparando a família, os filhos, a esposa, porque ainda havia muita resistência – fiz uma doulagem voltada à educação em relação à morte. Não é fácil para um familiar bancar a vontade de uma pessoa de querer morrer.

Esse senhor viveu seus dias intensamente e sem tratamento, apenas recebendo os cuidados paliativos, até que chegou um momento em que ele já estava bem ruim e a sua vontade era morrer em casa. Um dos filhos me chamou, disse que respeitava a vontade do pai, mas que não conseguiria deixar o pai morrer em casa.

Aí convenci o paciente a ir para o hospital para atender a uma vontade do filho, mas havia um novo desafio: o de estar no hospital sem receber as intervenções que de não queria.

O paciente não se alimentava mais e não aceitou uma sonda para ser alimentado, apenas recebia medicação para controle da dor e cuidados paliativos de uma equipe multidisciplinar. Ele estava no que chamamos de processo ativo de morte – aquele momento em que o paciente fica um período recluso, num mergulho interno, e de repente vive uma espécie de euforia. Faz seu último desejo, pede uma Coca-Cola, um chocolate, pede para falar com algum parente com quem estava brigado, tenta resolver algumas pendências. Em seus últimos instantes, esse senhor chamou os filhos e a esposa para estarem ao lado dele, passou algumas orientações e “ordens” sobre como gostaria que a vida seguisse em sua ausência e, por fim, pediu: “Agora me deixem morrer em paz”. Foi uma das mortes mais bonitas e conscientes que acompanhei.

Outra situação foi aquela em que não atuei diretamente, mas ajudei a filha a doular a morte da mãe dentro de um hospital. Tivemos muitas conversas sobre morte, e essa filha percebeu exatamente quando a mãe estava partindo. Entreguei a ela um kit que incluía óleos de massagem, velas aromáticas, incensos e uma playlist com as músicas preferidas da paciente. A filha colocou as músicas e se conectou com a mãe, que não conseguia se comunicar mais, por meio do toque na pele. Após a morte, mesmo dentro do hospital, a filha conseguiu fazer a limpeza do corpo da mãe epôde vesti-la para o enterro. Foi tão genuíno e lindo que a funerária a deixou assumir essa função.

Houve um paciente que fez as pazes com o filho no leito de morte, acompanhamos os últimos momentos de uma doula da morte que descobriu uma cirrose hepática fulminante e hoje em dia temos feito muitas doulagens para atender pessoas que perderam algum familiar para a Covid-19. Sempre choro, pois o sentido de tudo que eu faço é este: me envolver com as famílias e ajudá-las a passar pelo luto. As pessoas precisam entender que falar de morte é falar sobre a vida, repensar e redimensionar como será a vida na ausência de alguém.

O mais difícil para mim hoje é que a Tatiana de alguns meses atrás não existe mais, porque me tornei mãe há dois meses e tudo mudou. A Tatiana de antes não tinha medo de nada, mas agora tem um bebê totalmente dependente, e isso pesa um pouco. O medo não é da morte exatamente, mas de morrer. Morreu a mulher para nascer a mãe. Um encerramento de ciclo, assim como a morte.

*** TATIANA BARBIERE SANTANA

OUTROS OLHARES

A ESCALADA DA MISÉRIA

Número de pessoas vivendo no Brasil abaixo da linha de extrema pobreza bate recorde e já equivale ao total da população de países como Grécia e Portugal

A miséria campeia e a base da pirâmide social não para de crescer. Em 2018, o Brasil bateu o recorde de pessoas vivendo abaixo da linha de extrema pobreza, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Agora, são cerca de 13,5 milhões de brasileiros com renda mensal per capita inferior a R$ 145,00, ou com pouco mais de R$ 4,00 por dia — esse é o critério adotado pelo Banco Mundial para definir a linha extrema de pobreza. O número equivale 6,5% dos brasileiros e corresponde à população total de países como Bolívia, Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Essa massa de desvalidos se alimenta do que pode, mora precariamente e não tem perspectivas de melhorar de vida. Boa parte desses brasileiros, mesmo recebendo o Bolsa Família, com uma linha de corte de R$ 89,00, se mantém na zona da pobreza absoluta.

A rede de proteção do Bolsa Família vem perdendo eficiência. Até então o recorde de empobrecimento no País havia sido registrado em 2012, com 5,8% da população vivendo na miséria. De lá para cá a situação só piorou. Entre as regiões brasileiras, o Nordeste é a que registra maior número de pessoas, 7,7 milhões, abaixo da linha de miséria. O Centro-Oeste é a região com a menor população de miseráveis: 467 mil. A pesquisa também traz dados sobre o número de brasileiros abaixo da linha de pobreza, um grau acima da pobreza extrema. São aqueles que vivem com uma renda mensal inferior a R$ 420,00, ou seja, menos da metade de um salário mínimo da época em que o estudo foi feito, que era de R$ 954,00. Em 2018, foram 52,5 milhões de brasileiros classificados nessa condição deplorável, o equivalente a aproximadamente 25% da população: um a cada quatro brasileiros é pobre.

Apesar da tímida melhora no mercado de trabalho e da alta expectativa do governo federal em relação às reformas econômicas, o quadro ainda é triste. Ao lado dos dados da linha de pobreza, o IBGE também mostrou que a renda dos mais pobres diminuiu mais de 3% e a dos ricos subiu mais de 8% em 2018. De acordo com André Simões, gerente da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, a pequena evolução do mercado não chegou às pessoas de baixa renda, apenas atingiu aquelas que estão em uma faixa de renda mais elevada. “É fundamental que esse grupo desfavorecido tenha acesso aos programas sociais e que tenha condições de se inserir no mercado de trabalho para conseguir uma renda que o tire da situação de extrema pobreza”, diz. O Bolsa Família já não basta. “A linha usada para administração do programa está abaixo da linha de pobreza internacional”, afirma Leonardo Athias, que também é coordenador de População e Indicadores Sociais do IBGE.

GÊNERO E COR

O estudo fez recortes por gênero e cor. Em 2018, a pobreza atingiu principalmente a população feminina parda ou preta. Cerca de 27,2 milhões de mulheres negras ficaram abaixo da linha da pobreza, pouco mais da metade do total. Apenas no recorte de cor, as etnias preta ou parda tiveram um rendimento médio domiciliar per capita de R$ 934,00, quase 50% a menos que a população branca — R$ 1.846,00. O estudo mostrou que 56,2% (29,5 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza) não têm acesso à rede de esgoto; 25,8% (13,5 milhões) não possuem abastecimento de água por rede; e 21,1% (11,1 milhões) não conhecem acesso à coleta de lixo. Novamente, nos dados ligados às condições de moradia, os índices de precariedade são maiores para pardos e pretos do que entre brancos, mesmos em relação àqueles que se apresentam com formação fundamental incompleta ou sem instrução nenhuma. Em quatro anos de piora dos indicadores sociais, mais 4,5 milhões de brasileiros caíram na miséria absoluta. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro jura de pés juntos que no Brasil não se passa fome.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE NOVEMBRO

O TRABALHO, O CAMINHO DO SUCESSO

A mão diligente dominará, mas a remissa será sujeita a trabalhos forçados (Provérbios 12.24).

Thomas Alva Edison, um dos maiores cientistas de todos os tempos, disse que as nossas vitórias são resultado de 10% de inspiração e 90% de transpiração. O sucesso é o resultado do esforço diligente e do trabalho abnegado. Aqueles que se dedicam aos estudos, que se esmeram no seu labor, trabalham com diligência e fazem tudo com excelência, esses são conduzidos às posições de liderança em todas as áreas da vida. O sucesso não é uma questão de sorte, mas de diligência. O preguiçoso, que faz corpo mole, que não se empenha nos estudos nem trabalha com dedicação, esse empobrecerá. Na verdade, aqueles cuja mão é lerda e remissa acabam destinados aos trabalhos mais rudes e menos remunerados. Na vida, colhemos o que plantamos. Aqueles que semeiam pouco têm uma safra medíocre; mas aqueles que semeiam com fartura, com abundância ceifarão. Aqueles que cobrem a fronte de suor e trabalham com esmerado esforço terão sua recompensa. Honra e riquezas estão destinadas aos diligentes, mas pobreza e desprezo são a porção dos preguiçosos. O trabalho não é maldição, mas bênção. O trabalho não é um fardo, mas um deleite; o trabalho não mata; ao contrário, nos motiva a viver de forma exponencial!

GESTÃO E CARREIRA

O FUTURO FOI ONTEM

A cada dia está mais difícil obter o conhecimento necessário para lidar com as implementações que se instalam no mercado. O processo de recrutamento é complexo nas duas pontas, para quem deseja contratar e para os candidatos

Muito se diz sobre preparar-se para o futuro e que novidades surgem a cada momento, alterando o padrão do que chamamos de normalidade. A primeira grande mudança percebida foi a abertura de novas posições nas empresas. O universo do marketing digital veio para escalar produtos e serviços numa dimensão jamais imaginada. Aqueles que não entraram nessa corrida já estão pagando um alto preço.

Há disponibilidade de vagas para especialistas de temas jamais imaginados pelos gestores. Muitas equipes de RH ainda estão se submetendo, nesse momento, a treinamentos para entender, entre outros aspectos, uma linguagem mais tecnológica que surge nas entrevistas com os candidatos, assim como as competências nessa área.

Quais são essas habilidades? Qual o melhor perfil para cargos que, por serem novos nas empresas, ainda não possuem histórico de resultados? Desafios emergentes para quem estava se preparando para o futuro que já chegou há algum tempo.

Aqueles que simplesmente se arriscaram a navegar em mares desconhecidos, em tempos passados, agora já se tornaram experts e são capazes de mentorear os iniciantes. Do ponto de vista de quem busca se colocar no mercado de trabalho alguns pontos podem ser destacados:

Adeus ao currículo impresso que era deixado nos departamentos de RH. É certo que algumas empresas ainda recebem currículos dessa forma. Mas o virtual ganhou um espaço tão abrangente que mesmo o modelo antigo será submetido a uma busca on-line nas redes sociais para uma observação geral do candidato.

Asentrevistas por vídeo chegaram com força total – e necessitam de um ensaio ou alguma preparação prévia, embora a naturalidade seja um dos requisitos indispensáveis. Vídeos gravados de apresentação ou vídeo-currículos podem definir a seleção, mesmo que certificações e experiência na área tragam as qualidades pretendidas pela instituição. Saber cuidar da produção desse vídeo é tão importante quanto estar preparado para o cargo.

SABER SE EXPRESSAR É FUNDAMENTAL – responder as perguntas com clareza e objetividade, construir uma conversa de forma linear que tenha coerência e responder a pergunta do entrevistador fazem grande diferença -, pois a comunicação é algo muito valorizado atualmente nas organizações.

ESTAR PREPARADO PARA SER UM ESPECIALISTA GENERALISTA – as empresas querem profissionais que sabem o que estão fazendo, que tenham expertise na sua área de atuação e possam trazer soluções para que a empresa se mantenha ativa no mercado. Contudo, também é desejável que estes profissionais estejam abertos a colaborar com o trabalho amplo e abrangente, que extrapola uma determinada área de conhecimento, mas que facilita o trabalho de todos nas organizações.

SABER TRABALHAR EM EQUIPE – isso sempre foi requerido, mas atualmente este quesito é ainda mais solicitado. É necessário ser educado, respeitoso, colaborativo, focar em objetivos, metas e resultados, com a consciência do impacto do seu trabalho na produção coletiva. Em empresas nas quais o trabalho em equipe é altamente valorizado há também o foco na autonomia, interdependência e espaços para trocas com foco em resultados.

ESTAR DISPOSTO A APRENDER A APRENDER – principalmente no que diz respeito às novas tecnologias, novos formatos de atuação no trabalho, nos novos sistemas operacionais. O mundo está mudando o tempo todo e os profissionais mais antenados, que se disponibilizam a acompanhar as mudanças, tem mais chances de se manter no mercado de trabalho e de fazer a diferença nas empresas.

A AUTOCONFIANÇA É IMPORTANTE NA CONTRATAÇÃO – isso porque aqueles que acreditam na sua capacidade de produção tendem a ter melhores resultados. Por isso seja você mesmo, sem tentar imitar ninguém. Faça uma lista dos seus pontoo fortes, suas qualidades e tenha consciência daqueles pontos que você precisa melhorar, para que possa investir no autoaprimoramento.

VOCÊ É O SEU PRÓPRIO CARTÃO DE VISITAS – então, perceba se a forma como se apresenta condiz com o tipo de cargo que você busca, com os valores do tipo de negócio em que deseja atuar e, principalmente, com seus valores pessoais. A coerência é essencial para que se sinta confortável com a forma como se coloca no mundo.

As empresas estão investindo em treinamentos e capacitações, para que os colaboradores estejam alinhados com suas funções, mas também possam ser promovidos e ocupar cargos mais altos no futuro. Contudo, é essencial que, individualmente, você mesmo possa investir no seu crescimento pessoal e profissional, fazendo cursos e galgando novos degraus, ou aprimorando competências que já possui.

ATITUDE DIFERENCIADA TEM SEU VALOR – uma pessoa com pouca experiência que tem uma atitude de proatividade, de investimento na aprendizagem e no crescimento contínuo, que se relaciona bem com todos, que usa o bom senso, sabe se comunicar e se expressar bem – no momento certo – pode ter mais chances de ser contratada do que uma pessoa com grande experiência, que sabe fazer bem o trabalho, mas tem dificuldade em todos os outros aspectos citados anteriormente.

A ROBÓTICA E A TECNOLOGIA VIERAM PARA FICAR E NÃO ADIANTA LUTAR CONTRA ISSO – é preciso ter a consciência de que algumas profissões já não existem mais. Muitas tarefas foram ultrapassadas. Sendo assim, robôs e máquinas irão ainda trazer muitas novidades para o mundo dos negócios e para a vida humana. Esteja atento para usar isso a seu favor e despertar possibilidades diferentes de habilidades.

O fato é que o ser humano é um manancial de potencial e tem muitas competências diferentes. Por isso vemos tanta inovação e evolução no mundo, em diferentes áreas. Seja você também parte do progresso.

PROF. DR. JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão Relacionamento em Crise; Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas; Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana; Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

REFLEXÕES EM TORNO DA “CURA GAY”

A única possibilidade de se levar em conta a questão da cura é se nos referirmos à questão terminológica, pois a palavra cura não significa necessariamente a erradicação de um mal. Curar é cuidar

Não há fundamentação psicanalítica para algo que possa ser denominado “cura gay”. Psicanalistas, de posse de uma teoria científica que fundamenta uma prática clínica, voltam-se radicalmente para a singularidade da vida mental de cada sujeito; nossos resultados buscados relacionam-se às verdades de cada um, para serem vividas com autenticidade, liberdade, autonomia e responsabilidade.

Sigmund Freud, com suas observações clínicas, construiu uma teoria e esclareceu desde o início que a sexualidade humana não é natural, está diretamente ligada à fantasia, cada um pode buscar o objeto de satisfação de seu desejo, na obtenção de seu prazer nas formas mais variadas.

Do ponto de vista psicanalítico torna-se difícil engajarmo-nos em propostas normatizadoras no tocante à busca de satisfação sexual, visto que não estamos determinados pela natureza como no instinto que opera nos animais. A vida sexual dos humanos é independente da procriação.

Aos analistas compete esclarecer e compreender as fontes de angústia em cada um de seus pacientes e ajudar a combater forças repressivas que tolhem as buscas de prazer, a liberdade e a criatividade. O controle da moral, dos costumes, do cumprimento da lei compete a outras instâncias de nossas organizações sociais.

Consideremos a questão terminológica: a palavra cura não significa necessariamente, nem em Medicina, a erradicação de um mal, como se costuma empregar. Curar é cuidar, acompanhar uma evolução, como um queijo curado, como um curador de uma exposição, como o “cura”, ou pastor religioso que se ocupa de suas “ovelhas” ou fiéis. É nesse sentido que um psicanalista a emprega. E é nesse sentido que poderíamos falar da cura de alguém que se intitula gay. Mas não há tratamento específico para o que possa estar sendo denominado assim. São gays, se denominam assim ou denominamos assim, em nossa cultura, pessoas, agora mais visíveis e assumidas, que escolhem como parceiros afetivos e sexuais pessoas do mesmo sexo. Uma célebre carta de Freud, datada de 25 de novembro de 1928, dirigida ao pastor e psicanalista Oskar Pfister, termina com esse parágrafo: “Não sei se você adivinhou a relação oculta entre a ‘análise leiga’ e a ‘ilusão’.  Na primeira, quero proteger a análise frente aos médicos, e, na outra, frente aos sacerdotes. Gostaria de entregá-la a um grupo profissional que não existe ainda, o de pastores de almas profanos, que não necessitam ser médicos e não devem ser sacerdotes. Afetuosamente, seu velho Freud” (Freud; Pfister, 1966, p. 121, tradução e itálicos do autor deste texto).

Este pequeno, singelo e claríssimo parágrafo não dá margem a dúvidas por onde deve caminhar e evoluir essa clínica, cujas bases Freud lançou. Para que sejamos dignos da herança freudiana, não devemos estar comprometidos nem com salvação de almas nem com curas. Freud, revolucionariamente, desvincula-se da Medicina, incompatibiliza-se com terapêuticas que visam o alívio somente e o ajustamento, e desinscreve do registro religioso as questões da pessoa, de sua autonomia, liberdade e responsabilidade ética.

EMANCIPADORA

Considero a Psicanálise um instrumento que nos permite ir além de normal e patológico, adequado ou inadequado, numa clínica emancipadora de pessoas, para enxergar e fazer enxergar a vida como ela é. Quer queiramos, quer não, no mundo em que vivemos surgem, visíveis e legalizadas, outras formas de relação entre os sexos, novas modalidades de aliança e filiação. Homoerotismo, homoafetividade e homoparentalidade estão aí e dirigem várias perguntas a nós e a nossos modelos. Pessoas do mesmo sexo podem se casar, e casais homoafetivos podem adotar crianças. O mundo se transforma e se organiza. Como analistas podemos oferecer ajuda e contribuições psicanalíticas às pessoas que nos procuram – pessoas querendo atenção, afeto, consideração pessoal, envolvimento, implicação (demanda psicanalítica) e vivendo escolhas afetivas e eróticas satisfatórias fora do modelo da família conjugal, já legalizadas por providências da sociedade.

Sustentar uma posição psicanalítica não é coisa fácil. Nunca foi. Estar na contracorrente nos é familiar e próprio da Psicanálise desde o seu início. Para Freud, foi fonte de preocupações, de muito trabalho e muita competência e seriedade para permanecer no campo científico com a especificidade própria. Jean Laplanche (2001/2003) chama de “descaminhos” certas apropriações, aplicações e desenvolvimentos que a obra de Freud toma, exigindo de nós analistas que voltemos sempre ao que é fundamental, ao que define primordialmente a Psicanálise e que dá o caráter singular da descoberta freudiana. Vivemos num mundo medicalizado e dominado pelo poder médico.

Constato visões médicas e medicalizadas não apenas nos interessados em Psicanálise originários  de cursos médicos, mas também nos que, vêm de outras áreas e da própria Psicologia, o que me leva a falar em vícios ou “doenças” entre aspas, profissionais: o médico, pelo poder próprio ao saber e às práticas ousadas e heroicas, inadvertidamente pode ser levado à arrogância e à onipotência, caracterizando-se um “complexo  de  superioridade”. Os outros profissionais, submetidos a esse poder, inferiorizam-se, acham que deveriam ser médicos, não valorizam a liberdade e a possibilidade de expansão num campo, criado e proposto por Freud, que pode deixar o organismo de lado, sem ignorá-lo, claro, mas corajosamente confiando na potência das propostas psicanalíticas.

Debruçando-nos sobre a questão da homossexualidade (ou das homossexualidades) na atualidade, constatamos uma mutação: esta forma de viver e se relacionar entre os humanos se torna visível, reivindica direitos e status e, sobretudo, pessoas assim docilmente aproximam-se dos psicanalistas, para serem analisadas e eventualmente querendo se tornar analistas, não considerando sua condição como patológica nem desejando mudá-la. Ao contrário das propostas evangélicas e dos argumentos da Igreja Católica, que não desistem de se apropriar dos conhecimentos psicanalíticos, de desejar o status e a qualificação profissional de psicanalistas e oferecer a famigerada “cura gay·.

Refletindo sobre essas relações, entre Medicina e Psicanálise, faz-se necessário desconstruir a patologização da homossexualidade. Para isso, recorro à Psicanálise – referindo-me basicamente a Freud – e ao que, de posse desse método de investigação, se pode esperar como resultado, sem descuidar do que, como psicanalistas, estamos autorizados a afirmar sobre as pessoas, seus problemas, seus comportamentos, sua vida sexual  e suas escolhas eróticas. A Psicanálise não se interessa pelos fenómenos visíveis da prática sexual, mas pelas suas expressões não aparentes, recalcadas, inconscientes. A escuta do psicanalista é não moralista. Um psicanalista oferece uma oportunidade de alguém ser ouvido e considerado por quem não seja juiz, polícia, pai, mãe, nem médico, e que se implica para perceber o mundo interior do outro e ajudá-lo a conquistar autonomia, liberdade, compromisso com sua verdade interior, autoridade pessoal, emancipação, autenticidade.

DESPATOLOGIZAÇÃO

Considerando a(s) homossexualidade(s), penso que a Psicanálise pode contribuir para sua despatologização e ser fiel a seu campo e sua prática emancipadora através da valorização das singularidades – dificilmente oferecendo convincentes teorias explicativas, etiopatogênicas, como a Medicina tem feito e faz com muito mais propriedade.

Nossa sexualidade, diferentemente da dos animais, não se vincula à reprodução. Não é natural. É aí que Freud se opõe à moral, à religião, ao senso comum e inaugura uma possibilidade de examinar a sexualidade como algo que escapa a qualquer tentativa de normalização. Supostamente, o objetivo seria a procriação, mas nós humanos buscamos o prazer através da sexualidade: subvertemos e pervertemos o objetivo natural.

A relação da Psicanálise com a homossexualidade é mais a de analisar a hostilidade teórica, clínica, contra transferencial e subjetiva provocada por essa escolha de objeto do que a de especular e teorizar sobre sua origem e funcionamento. O que deveríamos focar como patologia e tentar formas de combatê-la é a homofobia.