A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VETORES DE SOFRIMENTO EMOCIONAL

O filme O Mínimo Para Viver levanta um alerta sobre a anorexia e mexe profundamente com muitos conteúdos relativos aos transtornos alimentares, como autoimagem e autoestima

Roteiro inspirado em vivências da própria Marti Noxon, que o escreveu e discutiu, recebendo colaborações de pessoas que sofreram do quadro de anorexia e outros transtornos alimentares.

Assim como no filme, começamos com um aviso: este texto pode mexer com muitos conteúdos, pois trataremos de questões relativas à autoimagem corporal, transtornos alimentares e autoestima, com cenas muito reais de emagrecimento.

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) determinou que só se identifica como pessoa com anorexia aquela que apresenta um IMC igual ou inferior a 17,5 kg/m2, além de uma série de outros sintomas importantes. Um transtorno predominantemente presente entre mulheres, mas que também pode ser encontrado em homens, embora bem mais raramente, a anorexia nervosa apresenta taxa de mortalidade ao ano bastante alta. Embora mais discutida na atualidade, os primeiros registros da doença datam do século XVII, mais precisamente de 1689, feitos pelo médico inglês Richard Morton.

A produção provocou muito debate, uma parcela elogiando e outra criticando e acusando-a de glamourizar o quadro e de ensinar técnicas de manutenção do comportamento. De qualquer maneira, podemos pensar que assim como o discutido seriado 13 Reasons Why, que abordou o suicídio juvenil, esse filme trazà discussão um tema que é tratado de forma “oculto” e que já traz ganhos tão somente ao popularizar informações, tornando-as mais acessíveis aos que podem estar vivendo muito próximos de alguém operando esse sofrimento sem se dar conta disso, o que é muito frequente.

DIFÍCIL ACEITAÇÃO

Assim como em outros quadros com padrões compulsivos, na anorexia só se pode ter algum benefício no tratamento com a adesão do paciente, que ela ou ele deseje mudar e entenda o que lhe acontece como um sofrimento, um adoecimento, muito próximo daquilo que vemos ser necessário no tratamento de dependentes químicos, principalmente dos que fazem uso de substâncias legais. Primeiro é preciso que vejam que estão doentes.

Somos apresentados a Elie (Lily Collins) e seu grupo de psicoterapia, em um momento de acting clássico de sujeitos atuantes e boicotadores nesses grupos. Ótimo exemplo para a sala de aula nas disciplinas específicas sobre esses temas. Elie vai pra casa e de forma muito sutil percebemos o quanto seu caminho é bombardeado com informações sobre comida. Sua breve passagem de carro mostra o quanto, muitas vezes sem percebermos, somos influenciados no consumo de alimentos nada saudáveis. Sua rotina é igual a de tantas outras pessoas com transtornos alimentares: excesso de exercício e obsessão com controle de calorias. Pais separados e dificuldade de relacionamento com a madrasta Susan, nada diferente de milhões de meninas pelo mundo todo. A madrasta tenta confrontar Ellen, mas sabemos que não é assim que a banda toca. Nós, profissionais psi, sabemos do grande impacto que um prejuízo na autoimagem corporal pode causar no comportamento de um sujeito, especialmente na adolescência. E em como as figuras parentais são importantes nesse longo processo. Boa parte dos transtornos alimentares ocorrem hoje em adolescentes do sexo feminino, que são muito pressionadas por uma indústria da moda e beleza, em uma plataforma de magreza exagerada.

O filme abordará o momento crucial em que Ellie, uma jovem de 20 anos, se submeterá ao tratamento na casa de acolhimento do dr. William Beckham (Keanu Reeves), quando seu peso já está próximo a um risco de morte e após já ter tentado inúmeras outras internações e tratamentos sem alcançar qualquer modificação em seu quadro de anorexia. A família de Elie, que na  verdade se chama Ellen, e modificou seu nome por sugestão do médico, é composta por sua mãe, Judy (Lily Taylor) e sua companheira Olive (Brooke Smith), sua madrasta Susan (Carrie Preston) e filha Kelly (Liana Liberato) e um pai que permanecerá ausente até o fim do filme. Na casa onde receberá o acolhimento para o tratamento, Elie vai encontrar como companheiros de jornada o jovem bailarino Luke (Alex Sharp), Pearl (Maya Eanet), Tracy (CiaraBravo), Karen (Allana Ubach), Cloe (Hanna Hayes) e Kendra (Lindsay McDowell), cada jovem com questões que envolvem transtornos alimentares em suas diversas manifestações.

A sessão com a família já revela a dinâmica que atravessa essa “família tentacular”, que acumula acusações entre seus membros e as une em tomo da angústia que o quadro de Ellie provoca em cada um. A mãe, que assumiu sua homoafetividade quando a filha tinha por volta de 11 anos, parece não conseguir mais lidar com as questões da filha. Sua companheira Olive, com traços duros e pouco afetivos, também não se dispõe a uma escuta mais acolhedora. Restam como figuras que ainda lutam por ela a madrasta Susan e a irmã por afinidade Kelly, que será a figura afetiva que mais se colocará próxima e tocada pelos problemas dela. Como diz o dr. Beckham, a única que não fala somente a partir de seu próprio egoísmo.

AMBIVALÊNCIA

Vemos tanto na chegada de Ellie na casa de seu pai quanto na sua fuga para a casa da mãe que nenhum desses núcleos reserva a ela ainda algum lugar. Na casa do pai é colocada em um quarto cm cima da garagem, que parece mais um depósito de tralhas, e na casa da mãe; em uma barraca fora da casa. Esse é um sutil detalhe na produção, que mostra que a angústia dessa família alcançou um limiar em que o sentimento de excluir o membro doente toma toda a dinâmica. Assistiremos então a luta entre a tentativa de resgatá-la e o impulso de livrar-se daquilo que mobiliza a dor impensável. Essa ambivalência frente ao portador de um grave quadro de adoecimento emocional deve ser muito bem observada e tratada por parte de profissionais que trabalhem com pacientes de diferentes quadros que são levados até esse ponto. Como disse o médico, não é uma questão de julgamento, mas de entender cada vetor desse sofrimento compartilhado e espanto perante o que se apresenta ininteligível.

O filme trouxe polêmica até pelo fato do emagrecimento absurdo da atriz Lily Collins, que, em outro momento de sua vida, havia ela mesma enfrentado um quadro de transtorno alimentar. Ela defende sua participação dizendo que foi todo o tempo acompanhada por nutricionista e outros profissionais. A história do filme também toca no fato de que é um pouco autobiográfico, uma vez que sua diretora e roteirista, Marti Noxon, já enfrentou um transtorno alimentar. Muitos espectadores se preocuparam com o fato de o filme, de certa forma, mostrar um caminho para algumas das manobras que quem sofre de anorexia utiliza para burlar a vigilância dos cuidadores, mas essa alegação ficou um tanto sem sentido ao vermos que abundam nas redes sociais grupos sem qualquer controle, chamados carinhosamente pelos adeptos de “pró-annas”.

A cena em que ela pede à mãe que a alimente é bastante dilacerante, e há relatos em reportagens sobre o filme de meninas que veneram o transtorno e que reconhecem nessa cena algo que estaria presente no desejo de muitas delas. Há um bebê que insiste, e podemos pensar na própria imagem corporal que se procura, evitando com ela todo o processo de crescimento que faz o corpo ir se avolumando e arredondando e também assumindo um aspecto sexual. A conversa entre Luke e Ellie quando se beijam é um ponto a ser sublinhado no filme. A forma como ela descreve olhares invasivos vindo de toda parte, em uma sociedade na qual o corpo feminino é comumente destituído de sua privacidade e respeito. O que se evita ver nesse corpo é a saída da infância, o que se vive com a dinâmica psíquica é o jogo da culpa extrema e o descontrole como impulso. A personagem demonstra isso com muita eficiência, sua relação com o ato de comer é atravessada todo o tempo por um tom de desobediência, como quando sai com Luke e come cuspindo em seguida toda a comida no guardanapo, reiteradamente. Podemos ver aí o manejo de um superego bastante arcaico, com traços de um sadismo de retorno, como identificado com severas críticas oriundas de instâncias que em outros momentos do desenvolvimento representavam os freios e regras. isso pode se dar tanto por ausência, como mesmo por uma extrema rigidez exercida por outrem.

PADRÃO DE BELEZA

Alguns documentaristas e historiadores já tentaram buscar respostas para o aumento desses casos na própria história recente da moda. Há alguns anos, as agências de modelos começaram a usar meninas cada vez mais novas nas passarelas. Garotinhas de 12 e 13 anos foram recrutadas para esse ramo, e, é claro, seu desenvolvimento biológico mal havia iniciado. Assim, o “padrão” “raquítico e esquelético” não se originou de modelos magras e em dieta, mas sim de um modelo de beleza INFANTIL. Ou seja, o “belo e desejado” passou a ser aquele seco, reto, sem curvas, de uma menina ainda não madura sexualmente.

Quando Ellen bebe água antes de conhecer seu novo terapeuta, está utilizando uma técnica ensinada por modelos, especialmente em Milão, que costumam beber muita água antes da pesagem, para burlar legislação que proíbe desfilarem com o IMC muito baixo. Com o estômago cheio de água, aumentam seu peso. Por outro lado, mulheres do mundo inteiro passam a ter como parâmetro de beleza essas meninas, e logicamente que tenderiam a ser como elas, emagrecendo cada vez mais. O efeito em cadeia começa aí. Logo, apresentadoras de TV, atrizes premiadas do cinema, atrizes de seriados, todas queriam então ser magras e disfórmicas, pois somente assim poderiam conseguir os tão almejados papéis nas superproduções hollywoodianas. E por que os estúdios de cinema só escolhiam as atrizes “semi cadavéricas”? Simples. Segundo historiadores de cinema, quanto mais magrela e seca essa atriz fosse, mais “garanhão”, “grande” e “másculo” o galã pareceria nas telas.

Com as modelos, atrizes, apresentadoras de TV, todo mundo com esse padrão de beleza, as adolescentes tenderam a seguir essa ditadura, e é por isso que, desde o final da década de 1990, os distúrbios alimentares estão aparecendo com muito mais frequência nos consultórios.

Vale ressaltar que, em entrevista, Lily Collins disse que quando se preparava para viver a personagem e estava quase cadavérica, uma conhecida da família a abordou na rua para dizer o quanto ela estava “linda”, e queria saber o que estava fazendo para ficar em forma (de anoréxica). Diversas foram as “celebridades” que já declararam publicamente que sofreram com transtornos alimentares, dentre elas Lady Di, Christina Aguilera (com seu videoclipe de Beautiful, Victória Beckham etc.

Existem OUTROS FATORES estimulando esses quadros atuais. Culpar a “indústria da moda” é criar uma relação de causa e efeito que não pode ou deve, ser linear. Numa sociedade na qual TER É SER e SER é TER, abre aspas para COMPULSÕES, e em uma sociedade consumista como a nossa, a tendência é que esses quadros se acentuem mais e mais.

IMAGEM CORPORAL

Embora possamos até concordar com algumas correntes que falam de uma ditadura da magreza, um enaltecimento de uma imagem corporal próxima da anoréxica, compartilhamos da convicção de muitos pesquisadores que somente isso não dá conta de explicar a existência dos transtornos alimentares. Talvez, se quisermos levar isso para um debate da cultura, possamos pensar em incluir a discussão do quanto a compulsividade de maneira geral, tem sua forte marca na atualidade. Somos todo o tempo tentados, como naqueles desenhos animados, a lidar com um anjo que pede contenção e um diabrete que manda se entregar com paixão a todo excesso. Que outra coisa mais tão evidente nos mostram os que sofrem de transtornos alimentares? Ellie, no filme, assim como Luke falam de seus medos de comer e não pararem nunca mais. Quem freia, o que nos faz parar na medida. de uma combinação suave e saudável entre o alimentar e o destruir-se? O jogo pulsional se evidencia de maneiro quase despudorada em quadros assim. Viver ou morrer? Será preciso muita coragem para que se busque a resposta a tão complexa questão que todo organismo vivo carrega ao longo de sua existência. E como apontou sem piedade o médico interpretado pelo querido Keanu Reeves, muitas para se começar a sair dessa espiral de morte é preciso tocar o fundo do poço. Muitas das publicações sobre outros padrões compulsivos sublinham esse ponto, nada fácil de manejar pelo entorno afetivo que se verá levado para a beira de um assustador precipício. O filme, em belas imagens, abordará de maneira bem tocante esse aspecto. Que aos que se angustiam possa servir como um vento de esperança de que há um caminho possível bem ali onde parece que o trágico fim se anuncia, para que se possa prosseguir e acreditar que a vida insistirá.

EDUARDO J. S. HONORATO – épsicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista.

Autores do livro Cinematerapia: Entendo Conflitos. Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre esse tema. Coordenam o Site www.cinematerapia.psc.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.