EU ACHO …

RAINHAS DO CRIME

Para além de Agatha Christie, conheça boas autoras de thrillers

Já escrevi aqui sobre as manhãs prazerosas que tenho tido ao reler os romances de Agatha Christie. Nesta semana, enquanto arrumava a estante do escritório, decidi criar uma seção dos meus autores favoritos de romance policial, e qual não foi minha surpresa ao perceber que todas, realmente todas, eram mulheres. Entre as clássicas, além de Agatha Christie, estão presentes duas de suas herdeiras diretas: as inglesas P. D. James, criadora do inspetor Dalgliesh, e Ruth Rendell, uma arguia observadora da complexidade humana e da sociedade inglesa contemporânea. Para mim, Rendell escreveu um dos melhores inícios de livro de todos os tempos em Um Assassino entre Nós: ” Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever”. Em uma linha, ela rompe todas as regras do romance policial, entrega o nome do assassino, da vítima e o motivo. Em tese, isso deveria estragar todo o livro, mas, ao contrário, só o torna mais complexo e interessante.

Seguindo entre as autoras principais do gênero, é impossível não mencionar a americana Patrícia Highsmith, mestra do suspense psicológico desde seu primeiro romance Pacto Sinistro, adaptado aos cinemas por Alfred Hitchcock. Para ela, não interessa a solução do crime, mas a mente do criminoso. Em sua obra, Highsmith investigou a figura do herói-criminoso como protagonista e atingiu sua perfeição com Tom Ripley, sociopata presente em cinco romances da autora, começando por O Talentoso Ripley, também adaptado aos cinemas em várias versões.

Atualmente, o subgênero policial da moda é o “noir doméstico”, centrado em figuras femininas realistas, problemáticas, com incômodos e frustrações em seus relacionamentos afetivos, familiares e profissionais. Frequentes nas listas de mais vendidos, são romances escritos em geral por mulheres, como Garota Exemplar, de Gillian Flynn, A Garota no Trem, de Paula Hawkins, e o recente O Segredo de Rose Gold, de Stephanie Wrobel.

Seguindo na linha mais tradicional, duas autoras pouco conhecidas no Brasil merecem destaque. Fred Vargas, considerada a rainha do crime na França, criou o comissário Jean-Baptiste Adamsberg, protagonista de ótimos romances, como O Homem dos Círculos Azuis e O Homem do Avesso. Seus livros têm tramas surreais e personagens esquisitos, e são deliciosos de ler justamente por isso. Não dá para esperar muita verossimilhança, já que os personagens interessam muito mais do que o bordado narrativo em si. No mesmo caminho, segue a norueguesa Karin Fossum. A autora começou a carreira como poetisa, mas fez sucesso internacional com as histórias protagonizadas pelo inspetor Konrad Sejer, como Quem Tem Medo do Lobo e A Vela do Demônio. São romances criminais escritos com linguagem cuidadosa e metáforas que reafirmam sua veia poética. Não é só no estrangeiro que as rainhas do crime imperam. No Brasil, Patrícia Melo construiu uma obra sólida na ficção policial em romances com estilo seco e clima brutal, como O Matador, Ladrão de Cadáveres e o recente Mulheres Empilhadas. Na não ficção, Ilana Casoy participou da investigação de diversos casos reais, interrogou assassinos e escreveu livros sobre serial killers, incluindo os crimes de Nardoni e Richthofen. Vale a pena conhecer essas mulheres geniais e passar algumas noites sem dormir devorando seus romances.

*** RAPHAEL MONTES                

OUTROS OLHARES

COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ

Apesar das restrições sanitárias e dos riscos para a saúde, festas de Réveillon que deverão reunir centenas ou milhares de pessoas estão sendo organizadas em todo o Brasil e devem favorecer a proliferação do coronavírus

Há muita gente agora com uma vontade imensa de extravasar, entrar em 2021 se esbaldando no meio da multidão com a liberdade e a felicidade de estar vivo e dançando enlouquecidamente até o amanhecer. Se por um lado, buscar a festa parece natural depois de um longo período de isolamento, por outro é um risco desnecessário, que só corre quem tem a segurança ilusória de que a pandemia está arrefecendo. Mesmo assim, um número crescente de pessoas age como se não houvesse amanhã e sonha em transformar o próximo Réveillon na festa de suas vidas. Só isso explica que as principais praias e pontos turísticos do Brasil estejam promovendo eventos de grande porte que reunirão de uma centena a alguns milhares de pessoas na última semana do ano. Tudo indica que, apesar da Covid-19, a balada vai pegar.

De um modo geral, as festas programadas prometem seguir as regras da quarentena que envolvem limitação do público, distanciamento mínimo entre as pessoas, exigência de uso de máscara e disponibilidade de álcool nos banheiros. Mas a aglomeração será inevitável. A celebração do Réveillon é uma data marcante em todo mundo e, na maioria das vezes, as pessoas se juntam aos montes, trocam abraços, beijos e apertos de mão, ficam próximas umas das outras e compartilham objetos. Ao chegar o momento de contagem dos dez segundos finais, da passagem de um ano para outro, o pensamento que toma conta das mentes humanas é que, a partir desse instante, a vida que levamos vai sofrer uma alteração generalizada para melhor, os problemas vão se resolver e tudo que está errado vai se acertar. Mas esse desejo de mudança dificilmente se concretiza. E com o coronavírus, a transformação pode ser para pior. A realidade é que o afago, o toque, aquele jeito de demonstrar afeto ficaram no passado e viraram uma ameaça. É imperativo agora usar máscaras.

Muitos ainda desprezam o potencial de destrutivo do coronavírus. As vendas de ingressos para as festanças de Réveillon estão em alta em vários pontos turísticos. O formato é o mesmo do ano passado. Na Bahia, por exemplo, está prevista a realização de um luau a bordo de uma escuna de luxo, com alimentação variada e bebida de todo tipo. Francisco Venet, diretor comercial da empresa Axé Bahia, organizadora do evento, diz que vai realizar a festa mesmo com a pandemia porque, segundo ele, “as coisas já estão praticamente normais”. “Olha, não como agora, mas morrer faz parte da vida”, afirma. Ele conta que a empresa pretende fazer algumas adequações em relação aos seus eventos anteriores. “Vamos disponibilizar álcool gel a todos os participantes”, diz. Segundo Venet, o passeio pela orla de Salvador vai acontecer de forma segura porque haverá uma diminuição na quantidade de ingressos vendidos de 180 para 120.

REGRAS DE SEGURANÇA

No litoral norte de São Paulo, por exemplo, está marcada a vigésima quinta edição da festa Réveillon Baleia e os convites são vendidos a R$ 1500 cada. No local há um campo de futebol e para que os participantes possam se divertir na pista de dança haverá a animação do DJ Milton Chuquer. Mesmo assim, a empresa responsável pela comemoração, a Index, afirma em nota, que vai cumprir os protocolos de segurança contra a Covid-19. O fato, porém, é que a forma de se realizar grandes eventos não mudou, apesar das mais de 161 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. Numa rápida navegação pela internet, descobre-se um anúncio feito pelo hotel Porto Galo, em Angra dos Reis: “Festa de Réveillon com espetacular queima de fogos, banda musical e ceia de confraternização”. Ao manifestar interesse em adquirir o ingresso, a atendente que fala ao telefone resume o caráter do evento: “A festa será do lado de fora, onde fica a piscina”, diz.

REPIQUE DA DOENÇA

“Cuidado”, alerta o médico sanitarista e professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Gilberto Martin. “Só quando tivermos uma vacina teremos segurança”. Ele afirma que festas de Réveillon geram muita aglomeração e, por isso, poderá haver um repique da doença. “Nesses casos fica muita gente junta, o que é um ambiente propício para disseminação viral”, afirma. Ainda segundo o médico, como a Covid-19 tem alta transmissibilidade, mas, em 80% dos casos, as pessoas ficam assintomáticas ou com sintomas leves, há pessoas que não creem no potencial infeccioso da doença. Por isso, vale ressaltar que mesmo uma aglomeração de vinte pessoas pode ser perigosa e existe uma alta probabilidade de transmissão do vírus. “Em qualquer circunstância devemos manter as regras”, pontua Martin. Com isso, ele deixa claro que para algumas pessoas que vão participar desses grandes eventos, pode ser a última vez que comemoram um Réveillon.

Na cidade do Rio de Janeiro, o consagrado Réveillon de Copacabana não vai se realizar no formato conhecido. A saída encontrada para se preservar a festa e a vida das pessoas foi com a montagem de seis palcos espalhados pela cidade, mas sem a presença de público, e com transmissão dos shows em canal aberto e pelas plataformas digitais. O cancelamento das grandes festas públicas gerou um efeito imprevisto, que é a multiplicação de eventos de menor porte. No Rio, esse fenômeno pode ser claramente identificado. Sem a pirotecnia de Copacabana, os cariocas estão apostando em festas privadas e exclusivas. Para lidar com as restrições de espaço, os promotores de evento estão vendendo a ideia da exclusividade, de que haverá menos gente nas festas e mais seleção dos participantes. A subsecretaria de Vigilância Sanitária da cidade informou que não há mais proibição de atividades festivas no município, e que, em relação à realização e fiscalização das festas de Réveillon, os estabelecimentos continuam tendo que cumprir os protocolos sanitários exigidos e obedecer às regras criadas para evitar aglomerações.

A debilidade financeira ocasionada pela pandemia é notória e as festas de Réveillon são uma forma de recuperar tempo e dinheiro perdido. Mas nem todo mundo pretende se arriscar. O DJ Dre Guazzelli, por exemplo, um dos maiores expoentes das confraternizações de fim de ano no Nordeste, principalmente nas praias de Porto Seguro, na Bahia, diz que o impacto econômico da Covid-19 afetou fortemente o seu trabalho e que pretende aproveitar o aprendizado que teve durante o isolamento. “Tive que me reinventar”, diz. O DJ focou no trabalho de estúdio. “Fiz mais de cinquenta músicas”, afirma. Sobre os festejos deste ano, diz que há uma pré-agenda, mas não sabe se vai se concretizar. “Só sei que vai ser como no estúdio, uma live gigante”, explica. Talvez uma saída para esses tempos de pandemia seja a realização de festas virtuais. Pelo menos no Réveillon de 2021.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE NOVEMBRO

A BONDADE TEM RECOMPENSA CERTA

O homem bondoso faz bem a si mesmo, mas o cruel a si mesmo se fere (Provérbios 1 .17).

Quando fazemos o bem aos outros, somos os primeiros beneficiados. O bem que praticamos aos outros retorna para nós mesmos. A Bíblia diz: Certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor… (Efésios 6.8a). Bebemos o refluxo do nosso próprio fluxo. Colhemos com fartura o que semeamos no campo do outro. A prática do bem é o melhor e o mais seguro investimento que podemos fazer na vida. O apóstolo Paulo diz que o marido que ama sua mulher a si mesmo se ama. E Salomão diz que aquele que faz o bem aos outros a si mesmo o faz. Não é essa, porém, a realidade do perverso. O mal que ele intenta fazer contra o próximo cai sobre sua própria cabeça. Ele recebe a paga de sua própria maldade. O homem cruel é como um louco que fere a si mesmo. Ele comete o desatino da autofagia. As flechas envenenadas que lança sobre os outros voltam-se contra si. A crueldade, em vez de destruir seu destinatário, destrói seu remetente. A bondade é um investimento em si mesmo, mas a crueldade é a destruição de si mesmo. Fazer o bem compensa, mas praticar o mal é a mais consumada loucura. O que você tem semeado: o bem ou o mal? A bondade ou a crueldade?

GESTÃO E CARREIRA

SEM CRUZAR FRONTEIRAS

No ano em que o turismo está sofrendo seu maior baque por causa da pandemia, a retomada deve começar pelas viagens domésticas

A pandemia do coronavírus deverá provocar uma redução de 850 milhões a 1,1 bilhão no número de turistas internacionais em 2020 em comparação com o ano passado. A previsão é da Organização Mundial do Turismo, agência das Nações Unidas especializada no setor. O tamanho do tombo dependerá de quando a maioria dos países vai remover as barreiras às viagens internacionais. Nos três cenários traçados pelo órgão (veja quadro abaixo), a receita global com o turismo deverá cair neste ano entre 910 bilhões e 1,2 trilhão de dólares.

Com o cenário ainda nebuloso, uma coisa é certa: a retomada do turismo deve começar pelas viagens domésticas, nas quais há menos restrições sanitárias. Por aqui, a CVC, maior operadora de turismo do Brasil, já detectou essa tendência. A empresa começou a receber consultas de clientes interessados em programar suas viagens de fim de ano. Em 2019, nesta mesma época, as viagens nacionais representavam 70% da procura, ante 30% das viagens internacionais. Hoje, 85% das pessoas estão pesquisando destinos nacionais e apenas 15% pretendem viajar ao exterior. A aposta neste ano são os destinos mais próximos e com ambientes mais abertos, como praia e campo, e com hotéis que ofereçam amplo espaço e segurança para clientes ainda receosos de um repique da pandemia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VETORES DE SOFRIMENTO EMOCIONAL

O filme O Mínimo Para Viver levanta um alerta sobre a anorexia e mexe profundamente com muitos conteúdos relativos aos transtornos alimentares, como autoimagem e autoestima

Roteiro inspirado em vivências da própria Marti Noxon, que o escreveu e discutiu, recebendo colaborações de pessoas que sofreram do quadro de anorexia e outros transtornos alimentares.

Assim como no filme, começamos com um aviso: este texto pode mexer com muitos conteúdos, pois trataremos de questões relativas à autoimagem corporal, transtornos alimentares e autoestima, com cenas muito reais de emagrecimento.

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) determinou que só se identifica como pessoa com anorexia aquela que apresenta um IMC igual ou inferior a 17,5 kg/m2, além de uma série de outros sintomas importantes. Um transtorno predominantemente presente entre mulheres, mas que também pode ser encontrado em homens, embora bem mais raramente, a anorexia nervosa apresenta taxa de mortalidade ao ano bastante alta. Embora mais discutida na atualidade, os primeiros registros da doença datam do século XVII, mais precisamente de 1689, feitos pelo médico inglês Richard Morton.

A produção provocou muito debate, uma parcela elogiando e outra criticando e acusando-a de glamourizar o quadro e de ensinar técnicas de manutenção do comportamento. De qualquer maneira, podemos pensar que assim como o discutido seriado 13 Reasons Why, que abordou o suicídio juvenil, esse filme trazà discussão um tema que é tratado de forma “oculto” e que já traz ganhos tão somente ao popularizar informações, tornando-as mais acessíveis aos que podem estar vivendo muito próximos de alguém operando esse sofrimento sem se dar conta disso, o que é muito frequente.

DIFÍCIL ACEITAÇÃO

Assim como em outros quadros com padrões compulsivos, na anorexia só se pode ter algum benefício no tratamento com a adesão do paciente, que ela ou ele deseje mudar e entenda o que lhe acontece como um sofrimento, um adoecimento, muito próximo daquilo que vemos ser necessário no tratamento de dependentes químicos, principalmente dos que fazem uso de substâncias legais. Primeiro é preciso que vejam que estão doentes.

Somos apresentados a Elie (Lily Collins) e seu grupo de psicoterapia, em um momento de acting clássico de sujeitos atuantes e boicotadores nesses grupos. Ótimo exemplo para a sala de aula nas disciplinas específicas sobre esses temas. Elie vai pra casa e de forma muito sutil percebemos o quanto seu caminho é bombardeado com informações sobre comida. Sua breve passagem de carro mostra o quanto, muitas vezes sem percebermos, somos influenciados no consumo de alimentos nada saudáveis. Sua rotina é igual a de tantas outras pessoas com transtornos alimentares: excesso de exercício e obsessão com controle de calorias. Pais separados e dificuldade de relacionamento com a madrasta Susan, nada diferente de milhões de meninas pelo mundo todo. A madrasta tenta confrontar Ellen, mas sabemos que não é assim que a banda toca. Nós, profissionais psi, sabemos do grande impacto que um prejuízo na autoimagem corporal pode causar no comportamento de um sujeito, especialmente na adolescência. E em como as figuras parentais são importantes nesse longo processo. Boa parte dos transtornos alimentares ocorrem hoje em adolescentes do sexo feminino, que são muito pressionadas por uma indústria da moda e beleza, em uma plataforma de magreza exagerada.

O filme abordará o momento crucial em que Ellie, uma jovem de 20 anos, se submeterá ao tratamento na casa de acolhimento do dr. William Beckham (Keanu Reeves), quando seu peso já está próximo a um risco de morte e após já ter tentado inúmeras outras internações e tratamentos sem alcançar qualquer modificação em seu quadro de anorexia. A família de Elie, que na  verdade se chama Ellen, e modificou seu nome por sugestão do médico, é composta por sua mãe, Judy (Lily Taylor) e sua companheira Olive (Brooke Smith), sua madrasta Susan (Carrie Preston) e filha Kelly (Liana Liberato) e um pai que permanecerá ausente até o fim do filme. Na casa onde receberá o acolhimento para o tratamento, Elie vai encontrar como companheiros de jornada o jovem bailarino Luke (Alex Sharp), Pearl (Maya Eanet), Tracy (CiaraBravo), Karen (Allana Ubach), Cloe (Hanna Hayes) e Kendra (Lindsay McDowell), cada jovem com questões que envolvem transtornos alimentares em suas diversas manifestações.

A sessão com a família já revela a dinâmica que atravessa essa “família tentacular”, que acumula acusações entre seus membros e as une em tomo da angústia que o quadro de Ellie provoca em cada um. A mãe, que assumiu sua homoafetividade quando a filha tinha por volta de 11 anos, parece não conseguir mais lidar com as questões da filha. Sua companheira Olive, com traços duros e pouco afetivos, também não se dispõe a uma escuta mais acolhedora. Restam como figuras que ainda lutam por ela a madrasta Susan e a irmã por afinidade Kelly, que será a figura afetiva que mais se colocará próxima e tocada pelos problemas dela. Como diz o dr. Beckham, a única que não fala somente a partir de seu próprio egoísmo.

AMBIVALÊNCIA

Vemos tanto na chegada de Ellie na casa de seu pai quanto na sua fuga para a casa da mãe que nenhum desses núcleos reserva a ela ainda algum lugar. Na casa do pai é colocada em um quarto cm cima da garagem, que parece mais um depósito de tralhas, e na casa da mãe; em uma barraca fora da casa. Esse é um sutil detalhe na produção, que mostra que a angústia dessa família alcançou um limiar em que o sentimento de excluir o membro doente toma toda a dinâmica. Assistiremos então a luta entre a tentativa de resgatá-la e o impulso de livrar-se daquilo que mobiliza a dor impensável. Essa ambivalência frente ao portador de um grave quadro de adoecimento emocional deve ser muito bem observada e tratada por parte de profissionais que trabalhem com pacientes de diferentes quadros que são levados até esse ponto. Como disse o médico, não é uma questão de julgamento, mas de entender cada vetor desse sofrimento compartilhado e espanto perante o que se apresenta ininteligível.

O filme trouxe polêmica até pelo fato do emagrecimento absurdo da atriz Lily Collins, que, em outro momento de sua vida, havia ela mesma enfrentado um quadro de transtorno alimentar. Ela defende sua participação dizendo que foi todo o tempo acompanhada por nutricionista e outros profissionais. A história do filme também toca no fato de que é um pouco autobiográfico, uma vez que sua diretora e roteirista, Marti Noxon, já enfrentou um transtorno alimentar. Muitos espectadores se preocuparam com o fato de o filme, de certa forma, mostrar um caminho para algumas das manobras que quem sofre de anorexia utiliza para burlar a vigilância dos cuidadores, mas essa alegação ficou um tanto sem sentido ao vermos que abundam nas redes sociais grupos sem qualquer controle, chamados carinhosamente pelos adeptos de “pró-annas”.

A cena em que ela pede à mãe que a alimente é bastante dilacerante, e há relatos em reportagens sobre o filme de meninas que veneram o transtorno e que reconhecem nessa cena algo que estaria presente no desejo de muitas delas. Há um bebê que insiste, e podemos pensar na própria imagem corporal que se procura, evitando com ela todo o processo de crescimento que faz o corpo ir se avolumando e arredondando e também assumindo um aspecto sexual. A conversa entre Luke e Ellie quando se beijam é um ponto a ser sublinhado no filme. A forma como ela descreve olhares invasivos vindo de toda parte, em uma sociedade na qual o corpo feminino é comumente destituído de sua privacidade e respeito. O que se evita ver nesse corpo é a saída da infância, o que se vive com a dinâmica psíquica é o jogo da culpa extrema e o descontrole como impulso. A personagem demonstra isso com muita eficiência, sua relação com o ato de comer é atravessada todo o tempo por um tom de desobediência, como quando sai com Luke e come cuspindo em seguida toda a comida no guardanapo, reiteradamente. Podemos ver aí o manejo de um superego bastante arcaico, com traços de um sadismo de retorno, como identificado com severas críticas oriundas de instâncias que em outros momentos do desenvolvimento representavam os freios e regras. isso pode se dar tanto por ausência, como mesmo por uma extrema rigidez exercida por outrem.

PADRÃO DE BELEZA

Alguns documentaristas e historiadores já tentaram buscar respostas para o aumento desses casos na própria história recente da moda. Há alguns anos, as agências de modelos começaram a usar meninas cada vez mais novas nas passarelas. Garotinhas de 12 e 13 anos foram recrutadas para esse ramo, e, é claro, seu desenvolvimento biológico mal havia iniciado. Assim, o “padrão” “raquítico e esquelético” não se originou de modelos magras e em dieta, mas sim de um modelo de beleza INFANTIL. Ou seja, o “belo e desejado” passou a ser aquele seco, reto, sem curvas, de uma menina ainda não madura sexualmente.

Quando Ellen bebe água antes de conhecer seu novo terapeuta, está utilizando uma técnica ensinada por modelos, especialmente em Milão, que costumam beber muita água antes da pesagem, para burlar legislação que proíbe desfilarem com o IMC muito baixo. Com o estômago cheio de água, aumentam seu peso. Por outro lado, mulheres do mundo inteiro passam a ter como parâmetro de beleza essas meninas, e logicamente que tenderiam a ser como elas, emagrecendo cada vez mais. O efeito em cadeia começa aí. Logo, apresentadoras de TV, atrizes premiadas do cinema, atrizes de seriados, todas queriam então ser magras e disfórmicas, pois somente assim poderiam conseguir os tão almejados papéis nas superproduções hollywoodianas. E por que os estúdios de cinema só escolhiam as atrizes “semi cadavéricas”? Simples. Segundo historiadores de cinema, quanto mais magrela e seca essa atriz fosse, mais “garanhão”, “grande” e “másculo” o galã pareceria nas telas.

Com as modelos, atrizes, apresentadoras de TV, todo mundo com esse padrão de beleza, as adolescentes tenderam a seguir essa ditadura, e é por isso que, desde o final da década de 1990, os distúrbios alimentares estão aparecendo com muito mais frequência nos consultórios.

Vale ressaltar que, em entrevista, Lily Collins disse que quando se preparava para viver a personagem e estava quase cadavérica, uma conhecida da família a abordou na rua para dizer o quanto ela estava “linda”, e queria saber o que estava fazendo para ficar em forma (de anoréxica). Diversas foram as “celebridades” que já declararam publicamente que sofreram com transtornos alimentares, dentre elas Lady Di, Christina Aguilera (com seu videoclipe de Beautiful, Victória Beckham etc.

Existem OUTROS FATORES estimulando esses quadros atuais. Culpar a “indústria da moda” é criar uma relação de causa e efeito que não pode ou deve, ser linear. Numa sociedade na qual TER É SER e SER é TER, abre aspas para COMPULSÕES, e em uma sociedade consumista como a nossa, a tendência é que esses quadros se acentuem mais e mais.

IMAGEM CORPORAL

Embora possamos até concordar com algumas correntes que falam de uma ditadura da magreza, um enaltecimento de uma imagem corporal próxima da anoréxica, compartilhamos da convicção de muitos pesquisadores que somente isso não dá conta de explicar a existência dos transtornos alimentares. Talvez, se quisermos levar isso para um debate da cultura, possamos pensar em incluir a discussão do quanto a compulsividade de maneira geral, tem sua forte marca na atualidade. Somos todo o tempo tentados, como naqueles desenhos animados, a lidar com um anjo que pede contenção e um diabrete que manda se entregar com paixão a todo excesso. Que outra coisa mais tão evidente nos mostram os que sofrem de transtornos alimentares? Ellie, no filme, assim como Luke falam de seus medos de comer e não pararem nunca mais. Quem freia, o que nos faz parar na medida. de uma combinação suave e saudável entre o alimentar e o destruir-se? O jogo pulsional se evidencia de maneiro quase despudorada em quadros assim. Viver ou morrer? Será preciso muita coragem para que se busque a resposta a tão complexa questão que todo organismo vivo carrega ao longo de sua existência. E como apontou sem piedade o médico interpretado pelo querido Keanu Reeves, muitas para se começar a sair dessa espiral de morte é preciso tocar o fundo do poço. Muitas das publicações sobre outros padrões compulsivos sublinham esse ponto, nada fácil de manejar pelo entorno afetivo que se verá levado para a beira de um assustador precipício. O filme, em belas imagens, abordará de maneira bem tocante esse aspecto. Que aos que se angustiam possa servir como um vento de esperança de que há um caminho possível bem ali onde parece que o trágico fim se anuncia, para que se possa prosseguir e acreditar que a vida insistirá.

EDUARDO J. S. HONORATO – épsicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista.

Autores do livro Cinematerapia: Entendo Conflitos. Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre esse tema. Coordenam o Site www.cinematerapia.psc.br