EU ACHO …

O MITO DA COBIÇA NA AMAZÔNIA

Essa visão pertence aos tempos imperiais, que já passaram

Muitos ainda acreditam que a Amazônia é cobiçada por grandes potências. Trata-se, na verdade, de mito do qual se tem ocupado o presidente Jair Bolsonaro, enquanto os exportadores brasileiros são prejudicados pela péssima imagem da política ambiental do governo.

O mito alcançara o auge no início dos anos 1970, quando o matemático e futurólogo americano Herman Kahn propôs construir um gigantesco lago na bacia amazônica. Ele dizia que isso facilitaria o sistema de transporte e desenvolveria o comércio com outros países, mas imaginou-se que seu objetivo era internacionalizar a região.

Tal cobiça poderia até ter existido muitos séculos atrás, nos tempos imperiais do hard power (poder armado). Nesse período, o progresso era associado à capacidade de mobilizar recursos humanos e materiais para invadir, ocupar e explorar outros territórios. O Egito, feito colônia pela Roma antiga, passou a assegurar o seu suprimento de trigo.

Na era colonialista – do século XVI aos anos 1960 -, potências europeias e o Japão buscaram tanto a expansão territorial quanto criar mercados para suas manufaturas. Impuseram seus regimes legais com vistas a garantir segurança jurídica para as atividades de suas empresas em terras estrangeiras. Adolf Hitler, o último líder a guiar-se por essa estratégia, reivindicava um “espaço vital” para a Alemanha.

No século XX, mostrou-se que a produtividade – não a conquista – era a fonte da prosperidade. Segundo o historiador escocês Niall Ferguson, as colônias pouco contribuíram para o Império Britânico. A descolonização, iniciada no pós-guerra, se intensificou com o comitê criado pelas Nações Unidas (1962). A anexação recente da Crimeia pela Rússia (2014) – que antes lhe pertencera – não visou à expansão geopolítica.

Hoje, com as mudanças globais e a obsolescência do hard power como instrumento de dominação, surgiu o soft power (poder brando), conceito desenvolvido pelo cientista político americano Joseph Nye. Em vez de força, recorre-se a ações para influenciar indiretamente comportamentos ou interesses por meios culturais ou ideológicos.

Para o cientista político Sérgio Abranches, os recursos de poder mais importantes passaram a ser ciência, tecnologia, conhecimento, influência cultural e habilidade diplomática. O soft power, diz, é uma forma mais sutil de poder baseada na reputação construída mediante ascendência intelectual em um mundo globalizado.

As invasões como instrumento de poder e dominação ficaram para trás. Guerras de que atualmente participam grandes potências visam a derrubar ditadores que apoiam grupos terroristas capazes de ameaçar sua segurança interna – caso das guerras do Iraque, do Afeganistão e da Síria – ou por razões humanitárias, como ocorreu no conflito dos Bálcãs. Se houver cobiça sobre a Amazônia, estará presente em grupos que agem à margem da lei: madeireiros, grileiros e garimpeiros. O governo precisa atualizar-se.

*** MAILSON DA NÓBREGA

OUTROS OLHARES

UMA PROVA DE FOGO

Parte das universidades decidiu adotar o vestibular eletrônico, mas risco de fraudes preocupa os candidatos que enfrentarão o processo seletivo

Se em 2021 as universidades brasileiras terão um ano normal, é uma pergunta ainda a ser respondida. O certo é que elas não podem – ou pelo menos não deveriam – cancelar seus processos seletivos, pois o ano letivo não vai simplesmente desaparecer do calendário e, havendo consenso, as aulas serão retomadas em todo o pais, seja na forma presencial, seja a distância ou no modelo misto. Até chegar a esse ponto, entretanto, instituições públicas e privadas precisam decidir como avaliar os estudantes que pretendem ingressar no ensino superior. O vestibular eletrônico (ou e-vestibular) poderá ser, para muitos, a única opção.

Como aglomerar é desaconselhável, algumas faculdades optaram por realizar provas no modo on-line, de forma que cada vestibulando possa fazê-las sem sair de casa. A Escola Superior de Propaganda e Marketing, por exemplo, exigirá do candidato apenas uma entrevista virtual, seguida de redação. Nesse caso, a ESPM acredita ser melhor condensar todo o processo. Outras instituições, porém, não quiseram abrir mão de questões objetivas e até mesmo dissertativas.

Diante de tal cenário, a grande questão que se coloca é como manter a lisura em uma prova a distância. É possível garantir que o indivíduo não lançará mão do Google para responder às questões? Pensando nisso, algumas faculdades investiram na tecnologia para assegurar um exame justo. Devem seguir com o e-vestibular, entre outras, a Universidade Positivo, a Fundação Getúlio Vargas, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Unifacs da Bahia. Segundo o diretor da Associação Brasileira de Educação, Pedro Flexa Ribeiro, a prática de atividades on-line vai se delineando como tendência universal. Na realidade brasileira, o maior desafio é a equidade das condições de acesso”, afirma ele.

Nem todos pensam dessa forma, incluindo aqueles que fazem a prova. Nicoli Boaretto, paulista de 18 anos, fez a prova virtual para a faculdade de direito da Fundação Getúlio Vargas. Ela aguarda o resultado e diz preferir o modelo presencial: “Acho que evita que um concorrente tenha vantagem sobre o outro em relação ao computador, à estabilidade de conexão ou ao ambiente da prova”. Entretanto, Nicoli faz questão de destacar que, no seu caso específico, a instituição explicou bem o funcionamento do vestibular, cumpriu o que prometeu e ofereceu plataforma de qualidade.

De forma geral, o e-vestibular é simples de ser descrito: a faculdade cria um browser próprio, capaz de impedir que sejam abertas outras abas para a consulta de sites durante a prova. Além disso, a imagem do candidato é monitorada , como forma de assegurar que ele não acesse outros dispositivos e que esteja ele mesmo, sem ajuda alheia, respondendo às perguntas. Para participar, o estudante precisa de um computador com webcam.

Na tentativa de garantir mais transparência ao processo, algumas universidades implementarão mecanismos adicionais. A PUC do Paraná conta com um software que grava não apenas as imagens, mas também os sons emitidos ao redor do candidato. Ele tem como detectar vozes e olhares desviados da tela do computador. “O algoritmo marcará os casos suspeitos e essas gravações serão revistas pelos fiscais”, explica Vidal Martins, vice-reitor da universidade paranaense. Martins afirma ainda que as gravações serão apagadas eventualmente, mas não especifica data.

O e-vestibular, evidentemente, não é unanimidade. O risco de fraude fez com que o Ministério Público Federal entrasse com pedido para anular o processo seletivo da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. O exame, constituído de etapa única de redação, seria passível de falsificação, e a Justiça, por esse motivo, acolheu o pedido. Fraudes, entretanto, não constituem a única preocupação. Paira ainda a dúvida de como tratar de forma justa o candidato que perder a prova por falha na conexão, algo corriqueiro em um país com deficiências de infraestrutura tecnológica como o Brasil.

Apesar das eventuais desvantagens, os benefícios existem. Aqueles que residem fora do município onde fariam a prova presencial teriam a vida facilitada. Além disso, há sempre os ganhos residuais para a universidade, como a redução de custos operacionais, incluindo logística, segurança e até mesmo consumo de papel. Aos candidatos que não aprovam a ideia, restará se conformar com o novo formato, se for a única opção para entrar na faculdade desejada. Ao vivo ou pelo computador, o vestibular continuará a ser uma prova de fogo para milhões de brasileiros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE NOVEMBRO

CONTINUIDADE E DESCONTINUIDADE

E, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser… (1Coríntios 15.37a).

O apóstolo Paulo diz que na ressurreição haverá continuidade e descontinuidade. Continuidade porque a pessoa que morre é a mesma que ressuscitará; descontinuidade porque o corpo que será semeado no túmulo não é o mesmo ressuscitado. Paulo acrescenta que o corpo é semeado na corrupção e ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita-se em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita-se em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita-se corpo espiritual. O corpo da ressurreição será belo, perfeito e poderoso, semelhante ao corpo da glória de Cristo. O profeta Daniel diz que os que forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça serão como as estrelas, sempre e eternamente. O corpo é pó e ao pó voltará. Voltará ao pó como uma semente. O que semeia não nasce se primeiro não morrer. E, quando se semeia, não se semeia o corpo que há de ser. Quando Jesus voltar em sua majestade e glória, os mortos ressuscitarão: uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo.  Naquele grande dia, o corpo corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o corpo mortal se revestirá de imortalidade. A morte, o último inimigo a ser vencido, cobrirá sua cara de vergonha e será lançada no lago de fogo; e nós, triunfantes, estaremos para sempre com o Senhor, desfrutando da bem-aventurança eterna que ele preparou para aqueles que o amam.

GESTÃO E CARREIRA

START DA CANNABIS

Um inédito evento em São Paulo revela projetos de 13 novas empresas que pretendem oferecer produtos e serviços medicinais a partir da maconha. O mercado é estimado em RS 4,7 bilhões no país

Aos poucos o mercado da Cannabis medicinal sai do obscurantismo e ganha espaço no Brasil. Bem aos poucos. Apenas em dezembro a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a venda de produtos à base da planta em farmácias, mas veta seu cultivo, inclusive a empresas interessadas em desenvolver medicamentos. No Canadá, o uso medicinal existe há 19 anos. Esse tipo de gap pode significar ao País dois dramas. Postergar e encarecer os remédios para que pacientes crônicos sejam melhor tratados é o primeiro. O outro é deixar de injetar alguns bilhões à economia. Relatório da empresa internacional de consultoria New Frontier Data aponta que o mercado brasileiro pode movimentar R$ 4,7 bilhões ao ano com a liberação para fins medicinais. Nos Estados Unidos, ele girou USS13,6 bilhões em 2019 (cerca de R$ 68 bilhões), de acordo com dados do National Institute for Cannabis Investors.

Ainda que lentas, as engrenagens começam a se mover. A aceleradora de startups The Green Hub reuniu, em um evento em São Paulo, uma centena de pessoas, entre especialistas, investidores e curiosos, além de 13 startups. A importância do encontro não se limita ao surgimento de novas empresas. Trata-se também do bem­ estar e da saúde de cerca de 3 milhões de brasileiros que sofrem com dor crônica, transtornos de ansiedade, câncer, autismo, Alzheimer, Parkinson, artrite e epilepsia, por exemplo. Nessas situações há farta literatura médica que recomenda tratamento à base de canabidiol (CBD) para aliviar os piores sintomas. A substância, extraída da maconha, não tem propriedades psicoativas.

Pelo fato de a maconha não ser legalizada no Brasil, os eventos anteriores se limitavam a palestras informativas, pois não havia muito o que mostrar. Desta vez foi diferente porque funcionou como uma verdadeira rede de contatos. No primeiro dia assistiram a palestras sobre o setor durante o Cannabis Thinking. A continuação recebeu o nome de Demo Day, cujo objetivo foi reunir as startups. Seus representantes fizeram rápida explanação sobre produtos e serviços que desenvolveram para operar no promissor mercado de Cannabis. A abertura teve o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, considerado um ator importante na luta para liberação mais ampla da maconha no País.

“Temos de acabar com a ideia equivocada de que estamos disseminando o mal”, disse Fernando Henrique. “É preciso educar as pessoas e convencer o governo de que a regulamentação tornará melhor a vida de muita gente com doenças crônicas, tratáveis a partir de substâncias extraídas da Cannabis.”

Talvez não seja exagero lembrar que todo medicamento é uma droga e saber olhar para seus benefícios fez já cerca de 50 países legalizarem a Cannabis medicinal. Em quatro deles, o uso recreativo é permitido: Canadá, Uruguai (proibida a estrangeiros), África do Sul e Geórgia (nos dois últimos a venda é proibida, o usuário pode cultivar e consumir). Nos Estados Unidos, cada um dos 50 estados goza de autonomia para decidir. Em 11 deles o uso medicinal e recreativo é permitido. O maior de todos, a Califórnia, com 39 milhões de habitantes, é um. Em outros 22 somente o uso medicinal é legal – Nova York está nesse grupo. Outros nove estados decidirão neste ano sobrea legalização.

US$30 BILHÕES

O mercado investidor vê 2020 como ano chave. Segundo a New Frontier Data, nos estados americanos onde a maconha está legalizada foram movimentados US$6 bilhões com produtos medicinais e outros US$7,6 bilhões com outras linhas de produtos relacionadas ao segmento, em 2019. A expectativa é de que este valor chegue, respectivamente, a US$13,1 bilhões e US$16,6 bilhões em 2025 – perto de US$30 bilhões, no total. Por isso estados pressionam para a aprovação de legislação sobre o tema.

Os resultados para a saúde pública também são altamente positivos. No estado do Colorado, 93% dos pacientes com dor crônica em tratamento e que usam medicamento com princípios ativos da Cannabis aprovaram os resultados obtidos. No Oregon a aprovação é de 89% e em Nevada 88%. Na média, envolvendo outros entes da federação, a aprovação é de 73%. No Brasil as discussões foram acaloradas. Há quem tema que a autorização para uso medicinal sirva como porta de entrada para a legalização do plantio, como dizia o então ministro da Cidadania, Osmar Terra. Do outro lado, o medo era de que o governo atuava de acordo com os interesses da grande indústria farmacêutica. O fato é que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou duas resoluções (a 327, de dezembro de 2019, e a 335, de janeiro de 2020) que deram um norte ao segmento. A RDC de 2019 criou a categoria de “produtos à base de Cannabis”, o que facilita o registro. A de 2020 torna o processo de importação mais ágil e começou a valer neste mês. Antes, a importação só podia ser feita pelo paciente. Agora, empresas também podem trazer e as farmácias (menos as de manipulação) poderão oferecer os remédios em suas prateleiras.

“Essas resoluções definem as substâncias autorizadas e suas proporções, além de abrir o mercado às empresas que vão trazer medicamentos em maior volume. Isso tornará o produto mais acessível”, afirma Marcelo de Vita Grecco, cofundador e CEO do The Green Hub. Antes das resoluções, apenas 7,8 mil pacientes tinham autorização para importar tais medicamentos e no País todo cerca de 11 mil médicos (psiquiatras, neurologistas e neurocirurgiões) estavam autorizados a prescrever receitas.

O fato de o plantio da maconha ainda ser proibido no Brasil dificulta um pouco a formatação dos empreendimentos. A estratégia é pensar em serviços e produtos que possam se disseminar globalmente. Um exemplo é a Tria, do Rio de Janeiro, que desenvolveu uma plataforma para auxiliar pacientes com doenças crônicas a organizar e acompanhar todo o tratamento de forma a não depender única e exclusivamente das informações constantes na ficha que fica em poder do médico ou da clínica. A diretora executiva da Tria, Annalídia de Moraes, explica que o software pode ser comercializado para clínicas e pacientes, e possibilita compartilhar as informações do prontuário automaticamente. Para clinicas o programa instalado custa R$ 51 mil, mais R$0,70 por arquivo inserido e R$700 de mensalidade. Para os pacientes não há custo inicial. Eles terão espaço de 100 Mb gratuitamente. Se for necessário mais espaço na nuvem, há dois planos: um ao custo de R$9,15 por mês e outro familiar, a R$14,65. “Temos quatro clínicas como clientes, mas queremos focar nos pacientes. Nossa meta é obter 50 mil downloads até o final de 2020”, afirma Annalídia.

O Centro de Excelência Canabinoide (CEC) tem tanto a finalidade de atendimento clínico de pacientes como a de funcionar também como centro de informação e treinamento. Tem uma clínica, em São Paulo, equipe médica especializada e plataforma com cursos on­line para médicos e pessoas em tratamento. O CEC também oferece serviços gratuitos a entidades parceiras. O diretor de marketing da empresa, Marcelo Sarro, disse que o empreendimento iniciou com investimento de R$300 mil e mais recentemente recebeu aporte de R$2milhões.”Nossa agenda está lotada. Para se ter ideia, temos vaga só para maio”. Sarro falou que o custo do tratamento ainda é alto no Brasil pelo fato de tudo ser importado. “A medicação fica em torno de RS1,5 mil para três meses de uso, mas ainda há custos com consultas, deslocamentos.”

CIÊNCIA A FRENTE

A medicina tem sido a maior fomentadora do mercado da maconha. Isso porque saúde e qualidade de vidadas pessoas têm o apelo necessário para que a sociedade deixe de ver a Cannabis apenas como uma planta narcótica e passe a enxergar toda a sua utilidade e versatilidade. Com isso, surgem oportunidades em outros segmentos, não só da área de saúde. “A maconha oferece oportunidades multisetoriais. Com ela é possível fabricar roupas, xampus, cosméticos, medicamentos”, afirma Marcelo Vita Grecco. A austríaca Hempions, representada no evento pelo sócio brasileiro, Jeferson Araújo Rodrigues, foi criada há três anos, tem dez funcionários e atua no ramo têxtil. Os planos para o Brasil são obter cerca de US$100 mil por meio de crowdfunding e vender camisetas (R$180) e relógios (R$ 350) feitos com fibra de cânhamo, uma espécie de cannabis. “As camisetas e os relógios já estão sendo fabricados no Brasil por trabalhadores da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que estavam desempregados”, diz Rodrigues. Parte da receita será usada para ampliar a produção, hoje artesanal e investir em marketing para ganhar espaço no mercado nacional a partir de 2021. Anote para não esquecer: Cannabis é o negócio da vez.

MERCADO POTENCIAL

Segmento bomba a economia e dá um tapa na saúde pública

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NECESSIDADES PSICOLÓGICAS E EMOCIONAIS NA GESTAÇÃO

A mãe, ao conceber um filho, é totalmente arrebatada por uma série de sentimentos; eles têm início já durante o planejamento da gravidez e vão até meses depois do parto

PROJETO MAMÃE

Antes da concepção do bebê, normalmente uma série de dúvidas e questionamentos toma conta da mente e da vida não só das futuras mães como do casal. Por isso é preciso muita tranquilidade na gestação.

Antes mesmo da concepção do bebê, as dúvidas e incertezas já começam. Será que é o momento certo? Será que poderei proporcionar tudo o que sonhei para o meu filho? Será que preciso me capitalizar mais para a sua chegada? Vou dar conta de abrir mão de tantas coisas que gosto em função dele? Não seria melhor trocar o carro antes de engravidar? Afinal, não temos ideia de quando poderemos trocar novamente. A casa não está pequena para a chegada da criança e todos os apetrechos necessários? Essas e muitas outras dúvidas permeiam a mente e a vida do casal.

Talvez, se esperarmos satisfazer todas as exigências imaginadas para alcançar a perfeita condição para trazer um filho ao mundo, esse filho nunca venha. Sempre precisaremos de mais alguma coisa para que o futuro bebê chegue ao “ambiente ideal” imaginado pela futura mamãe como fundamental para proporcionar uma infância feliz, segura e tranquila. Poucas são as vezes em que a vida oferece todos esses requisitos e as futuras mamães precisam rearranjar esse planejamento e aceitar, às vezes com algum sofrimento, fazer o melhor possível para a chegada do seu filho.

Esta é uma situação bem comum na preparação para a primeira gravidez. E, no caso, a inexperiência, as crenças e as inseguranças da futura mamãe podem tumultuar ainda mais esse momento, causando sofrimento, “fantasmas” e estresse desnecessários. Issofaz com que a mamãe de primeira viagem precise de aconselhamento de alguém mais experiente e maduro e de um apoio mais próximo, a fim de ajudá-la a distinguir o que será, realmente, necessário para que o bebê possa chegar e ter seus primeiros anos de vida felizes e tranquilos. Será que um bebê feliz é aquele que tem o carrinho de última geração, o quarto bem decorado e cheio de apetrechos caros, iluminados e sonoros, um lindo e gigantesco apartamento de frente para o mar? Ou um bebê feliz é aquele que tem uma mãe tranquila e presente, dando o que ele necessita para se sentir satisfeito e confortável (leite, banho, agasalho, afeto) num ambiente tranquilo e calmo? E quando falo em ambiente tranquilo e calmo, refiro-me a uma mãe tranquila, que se cuide se alimentando, tomando seu banho e deitando para descansar sempre que possível. Mas isso envolverá muitas vezes uma casa bagunçada, as roupas do bebê acumuladas para lavar e até mesmo o choro dele nos momentos em que a mãe necessita ir ao banheiro ou tomar o seu banho. Não é fácil saber, a princípio, o que de fato é ser uma boa mãe.

Se a mãe não se policiar, acaba se auto exigindo para dar conta e ser “boa”‘ em tudo. É humanamente impossível, nessa fase, dar conta de tudo como fazia antes do bebê e estar linda, cheirosa, bem-humorada e descansada quando o marido chega em casa.

A mãe precisa saber que, passados os primeiros dias em que ela, geralmente, tem a ajuda do marido e/ ou de mais algum familiar, precisará se cuidar, se nutrir e se amar, também, porque o bebê precisa de uma mãe tranquila e abastecida. Ele não precisa de uma casa arrumada, de comidas elaboradas para o jantar, das suas roupas engomadas e impecáveis. Precisa sim de uma mãe que tenha inteligência emocional e se dê a si mesma e ao bebê. Deitando e descansando sempre que ele dorme, abrindo mão de ser “perfeita” em todos os outros quesitos, ela se permitirá ser mãe durante aquele período.

É natural que a mãe de primeira viagem sinta-se só ou se queixe de sua vida paralisada. Essa pode ser a sensação da mãe nos primeiros meses de vida do bebê, já que passadas algumas semanas todos retornam à sua rotina e ela fica realmente sozinha com todos os afazeres relacionados ao bebê. Os cuidados pessoais como banho, roupa, alimentação, consultas médicas, tentativas de adivinhar o motivo do choro ininterrupto e resolver o problema, sem tempo para falar com amigas, parentes e às vezes até com o marido. A privação do sono costuma deixar a mãe mais irritada, sensível e pode ocasionar ataques de choro, discussões, tristeza e/ou estresse.

MUDANDO OS PAPÉIS

Essa fase de preparação de uma mulher, que, até então, foi habituada a desempenhar vários outros papéis (como o papel de filha, neta, sobrinha, esposa, irmã etc.) e, finalmente, começa a se preparar para um papel totalmente novo e desconhecido em sua vida, que é o papel de mãe, nem sempre é uma fase tranquila e feliz.

Realmente, essa pode ser uma fase bastante delicada, na qual a mulher passa por um processo de despersonalização, deixando de ser vista como sempre foi para se tornar a mãe da fulaninha ou do fulaninho. Em muitos casos, devido à sensibilidade em que se encontram nesse período, futuras mães sentem-se reduzidas a uma barriga ou à mãe do astro principal. Podem apresentar sinais de menos-valia e depressão e sofrerem com isso. Algumas sofrem, inclusive por isso, uma culpabilização, julgando-se péssimas mães por não estarem felizes e radiantes com a gestação, como a sociedade espera que seja, e por toda a atenção recebida por sua barriga.

Essa transição envolve questões complexas, como a mudança total do foco de atenção para o bebê e a desconsideração da mãe em função dele. Além dos circundantes, até mesmo as futuras mães deixam de se preocupar com gostos, interesses e necessidades próprias e passam a priorizar as necessidades e interesses do bebê que está a caminho.

Algumas dessas mães costumam se queixar dos familiares, que passam a cobrar delas novos hábitos alimentares, que por vezes lhes são desagradáveis, porém necessários para o desenvolvimento sadio e/ ou seguro do bebê que ela está gerando.

E é isso mesmo! Por estar gerando esse bebê tão esperado por todos, cai sobre a mãe toda a responsabilidade de se alimentar adequadamente, cuidar para que nenhum excesso ou esforço físico ocorram, evitar traumas e choques para o bebê, além de ter que continuar dando conta de seus afazeres diários e de todo o planejamento para a chegada dele, como mudanças necessárias na casa, para a recepção do mais novo membro da família, compra do enxoval, realização de exames e do acompanhamento da gestação e, muitas vezes, das necessidades adicionais do(s) filho(s) mais velho(s) e marido, diante da expectativa da chegada de mais um membro da família.

Isso,se pensarmos numa gravidez sadia, sem qualquer tipo de problema ou trauma envolvido. Pois se pensarmos no caso de uma primeira gravidez, na qual os pais estão cheios de medo, ânsia e expectativas, ou no caso de uma gravidez de risco, uma gravidez indesejada ou até mesmo no acompanhamento da gestação para o processo de adoção de uma criança, essa fase pode se tornar ainda mais delicada e sofrida.

VIAJANTES NO TEMPO

Um movimento natural da futura mãe é dificilmente se manter no momento presente. Talvez por isso muitas mães se queixem de uma dificuldade de memória e concentração desde o início da gestação.

Elas se tornam grandes viajantes do tempo durante a gravidez. E, nessas viagens, é comum notá-las regressando a sua infância, avaliando o tipo de criação em que foi pautada e toda a base da educação dada por seuspais. E, então, começam a avaliar e decidir o que, a princípio, elas irão “copiar” do seu modelo de criação e o que vão procurar modificar. Começam a separar o que julgam servir ou não para a criação de um “bom filho”. E nos meses de gestação se pegam relembrando e repassando momentos bons e ruins pelos quais passaram até ali.

Isso pode causar alguns transtornos ou perturbações emocionais, já que a futura mamãe está fragilizada e sensível, devido a toda alteração hormonal a que está submetida, e devido, também, a essa alternância de papéis. Pois agora ela não relembra esses fatos do lugar de filha e sim do lugar de futura mamãe, julgando e avaliando tudo que, a seu ver, pode afetar ou ajudar o desenvolvimento sadio de seu bebê.

E já começa a busca por estudos e leitura sobre todos os assuntos! Desde tipos de parto e os prós e contras de cada um, a possibilidade de congelar um pedaço do cordão umbilical a fim de combater doenças futuras, decoração do quarto, modelos de ensino e por aí vai. Muitos são os blogs, artigos e livros escritos por e para as futuras mamães. E neles elas se apoiam, se orientam e deles se utilizam para decidir o que julgam ser o melhor caminho para seu filho. E enquanto a futura mamãe se distrai com tantas coisas aqui fora, lá dentro de sua barriga um verdadeiro milagre acontece diariamente na formação e nutrição do bebê, sem que ela se dê conta disso, muitas vezes.

Nos momentos em que o bebê já está bem crescido e chuta e se movimenta na barriga da mãe, como nos exames de imagem durante a gestação, ela pode estar realmente presente. Conectada a ele. Sentindo-o, comunicando-se com ele e estando grávida naquele momento, habitada por um novo ser que já, já dará o ar da graça.

Outra maneira que a futura mamãe pode buscar para se manter no momento presente, aproveitando-o, é buscar a prática de atividades destinadas a gestantes. Temos, por exemplo, grupos de meditação, yoga, pilates, hidroginástica. E se as mães se percebem em sofrimento, ou de alguma forma não conseguem curtir e aproveitar com alegria e tranquilidade esse momento, devem procurar algum tipo de ajuda terapêutica. Pois esses são momentos preciosos, que marcarão para sempre a vida da família, e merecem ser aproveitados.

CRIAÇÃO DE FANTASMAS

Paralelamente a tudo isso, a gestação é um período em que a mãe tende a enfrentar diversos medos e dúvidas. E isso envolve muitas questões. Tipo de parto mais indicado, anestesia, amamentação, sua capacidade de cuidar daquele bebê e até o medo da morte costumam rondar a futura mamãe, que se vê agora gerando alguém que passará a depender dela para crescer e se desenvolver.

Muitos podem ser os fantasmas presentes nesse momento. E a existência de familiares que se disponham a acompanhar, ajudar e, principalmente, ouvir a gestante nesse momento ajuda a tranquilizá-la e dá segurança. Em muitos casos, ela precisa apenas se sentir acompanhada e ser ouvida!

Emitir muitas opiniões, conselhos e contar casos em que ocorreram desgraças em relação à maternidade acaba atrapalhando. Mesmo que a intenção seja a melhor possível, o resultado disso costuma ser desastroso para os envolvidos. Esse excesso de informação pode gerar ou intensificar inseguranças, dúvidas e ansiedade na mãe, que já está num momento de pressão grande e muito fragilizada e sensível devido às alterações hormonais do período.

Cabe ao futuro papai a tarefa de filtrar e proteger a futura mamãe do excesso de “invasão” sobre as decisões e cuidados a serem tomados com a criança, a fim de evitar o disparo de quadros psicopatológicos, inclusive, como transtornos de ansiedade e de humor, por exemplo, que ao surgirem tendem a prejudicar essa fase, que deveria ser aproveitada.

Não temos receita para lidar com uma gestante. Mas se soubermos observar e sentir o estado dela e tivermos bom senso, saberemos acompanhar e nutrir na medida certa, a fim de obter uma gestação tranquila e saudável para a mãe e o bebê.