EU ACHO …

ÓDIO MOBILIZADOR

Ao contrário do que pode parecer, o ódio não impede a felicidade. De fato, pode até mesmo contribuir com ela, sobretudo o ódio 2.0

No meu curso de Psicologia, havia uma aluna que acabou virando a “mascote” da nossa turma. Isso porque ela, na faixa doa seus 50 e poucos anos, era a maia velha da classe. Sua sabedoria (sobretudo contrastada com a vasta experiência de uma média etária de 20 anos) saltava aos olhos. Lembro com carinho de muitas de suas frases, mas de uma delas em especial:         “As pessoas pensam que o que move o mundo é o amor. Mas não é o amor, é o ódio!”.

Na época, achei aquilo engraçado. Acho que tomei a frase como uma piada porque a compreendi de maneira errada. Atribui a ela uma conotação pessimista diante da condição humana que, uma vez que não encontrava correspondência com a personalidade da autora, só poderia tratar-se de uma brincadeira dela.

Foram necessários muitos anos (necessário talvez que eu também chegasse aos 60) para compreendê-la. Foi ainda preciso que eu me propusesse a escrever sobre o caráter prático da Psicologia Positiva 2.0 para que a lembrança de tudo isso me viesse à tona.

O fato é que a emoção do ódio (raiva e todos os seus derivados) não é tão negativa quanto se haveria de supor. Minha amiga talvez tenha exagerado um pouco ao colocar tal emoção como a única a mover o mundo. Por outro lado, a capacidade mobilizadora do ódio é inegável. E é aí justamente que entra a necessidade da Psicologia Positiva. Toda mobilidade envolve uma direção, de forma que, mobilizados pelo ódio ou pela raiva, podemos tomar diferentes caminhos que, basicamente, se resumem a dois tipos: destrutivo ou construtivo. Observe que negativa, nesse caso, é muito maia a direção pela qual nos deixamos conduzir do que a emoção que estamos sentindo.

O caminho destrutivo da raiva (e utilizo “raiva” ao invés de “ódio” a fim de facilitar que você, leitor, se identifique maia facilmente com os exemplos) é bem conhecido por todos nós: brigas inúteis, agressões desnecessárias, pessoas que metem os pés pelos mãos e que, invariavelmente, acabam prejudicando a si mesmas, mais até do que os outros. Isso sem falar nos relacionamentos desgastados e perdas afetivas muitas vezes deles decorrentes.

Já o cominho construtivo da raiva ou ódio, ou aquilo que aqui estou chamando simplesmente de ódio 2.0, é bem diferente. Em primeiro lugar, ele nos mobiliza à ação. Importante esclarecer, contudo, que não me refiro aqui a uma ação de vingança ou desforra, já que isso fugiria ao aspecto construtivo do referido trajeto. Nesse sentido vale dizer que o uso construtivo do ódio torna-se construtivo na medida cm que nos leva ao desenvolvimento.

Podemos, por exemplo, movidos pela raiva, nos dedicarmos mais intensamente à conquista de uma meta: “Me largou por outra pessoa? Pois ele (a) vai ver que não preciso dele (a) pra viver!”. Além disso, a raiva também serve para testar nosso autocontrole. E a cada vez que conseguimos modular nossa resposta a ela, esforçando-nos a tomar um caminho construtivo diante dessa emoção, é como se colocássemos mais um “tijolinho” na nossa capacidade de nos controlarmos diante doa impulsos. Em outras palavras, se não sentíssemos raiva (e também frustração, e uma série de emoções negativas) não teríamos oportunidade de desenvolver nosso autocontrole.

Isso significa que é também por causa da raiva que nos tornamos seres humanos melhores, o  que, sem dúvida, pode parecer um tremendo paradoxo, mas que, de fato, nada mais é do que um exemplo claro da complexidade das emoções e, sobretudo, das limitações em classificá-las cartesianamente como positivas ou negativas.

Por fim, gostaria de compartilhar com você, leitor, que hoje tive um dia difícil. Basicamente, e como provavelmente já aconteceu também com você, fui vítima de uma certa “sacanagem” que, por diversas circunstâncias que obviamente não vêm ao caso, como agravante me impediu qualquer tipo de resposta (o que acabou por elevar sobremaneira o nível da minha raiva, é claro!). Impedida de dormir (experimente tentar dormir com raiva!) e de tomar uma atitude direta em relação ao fato, levantei às duas horas da manhã e fui escrever esta coluna e… bingo! Descobri que araiva pode também nos tornar mais produtivos!

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pela VIA Institute on Charater, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

A VOZ DA LIBERDADE

Publicado em 1861, relato de ex-cativa americana que virou cânone do movimento feminista negro mais de um século depois ganha a primeira tradução em português

Os leitores podem ter certeza de que esta narrativa não é ficção. Estou ciente de que algumas das minhas aventuras podem parecer inacreditáveis, mas são, ainda assim, absolutamente verdadeiras. Não exagerei as injustiças infligidas pela escravidão; ao contrário, minhas descrições não fazem jus aos fatos. Encobri a denominação dos lugares e dei nomes fictícios às pessoas. Não tinha por que manter segredo em relação a mim, mas achei que seria gentil e atencioso assim proceder em relação aos demais.

Gostaria de ser mais competente na tarefa que assumi. Acredito, porém, que os lei­ tores vão perdoar as deficiências, considerando as circunstâncias. Nasci e cresci na escravidão, permaneci em estado de escravatura por 27 anos. Desde que cheguei ao Norte, precisei trabalhar com afinco para me sus­ tentar e dar educação aos meus filhos. Isso não me deixou muito tempo livre para com­ pensar a falta de oportunidade de me aprimorar na juventude, e precisei escrever estas páginas em intervalos irregulares, sempre que podia me afastar por alguns momentos das funções domésticas.

Quando cheguei à Filadélfia, o bispo Paine me aconselhou a publicar um esboço da minha vida; eu disse a ele que não tinha nenhuma competência para tal empreitada. Apesar de ter melhorado um pouco minhas ideias desde aquele tempo, continuo com a mesma opinião, mas acredito que minha motivação vai desculpar aquilo que, de outro modo, poderia parecer pretensão. Não escrevi minhas experiências para chamar a atenção para mim mesma; ao contrário, teria sido mais agradável permanecer em silêncio a respeito da minha própria história. Também não pretendo despertar comiseração pelos meus sofrimentos. Mas, sinceramente, desejo despertar nas mulheres do Norte a consciência da condição de 2 milhões de mulheres no Sul, ainda em cativeiro, sofrendo o que eu sofri – a maior parte delas sofre muito mais. Quero somar meu relato ao de escritores mais capazes para convencer as pessoas dos Estados Livres sobre o que a escravidão de fato é. Apenas por meio da experiência é possível perceber a profundeza, a escuridão e o fedor daquele poço de abominações. Que as bênçãos de Deus recaiam sobre esta iniciativa imperfeita em nome do meu povo perseguido!

Durante meus primeiros anos de serviço para a família do doutor Flint, eu me acostumei a compartilhar de alguns agrados com os filhos da minha senhora. Apesar de aquilo me parecer mais do que certo, eu me sentia agradecida e tentei merecer a gentileza com o cumprimento fiel das minhas obrigações. Mas agora eu iria completar quinze anos – uma época triste na vida de uma menina escrava. Meu senhor começou a sussurrar palavras obscenas no meu ouvido. Jovem como era, eu não podia permanecer ignorante a respeito do peso que elas tinham. Tentei tratá-las com indiferença ou desprezo. A idade do senhor, minha juventude extrema e o medo de que sua conduta fosse relatada à minha avó me fizeram aguentar esse tratamento durante muitos meses. Ele era um homem ardiloso e recorria a vários meios para atingir seus objetivos. Às vezes agia de maneira tempestuosa e aterrorizante, a ponto de suas vítimas tremerem; às vezes demonstrava uma gentileza que, em sua cabeça, com certeza serviria para fazer a vítima ceder. Entre os dois, preferia seu humor tempestuoso, apesar de me fazer tremer. Ele tentou de tudo para corromper os princípios puros que minha avó havia imbuído em mim. Ele encheu minha jovem mente com imagens sujas, do tipo que só poderia sair da cabeça de um monstro vil. Eu lhe dava as costas com nojo e ódio. Mas ele era meu senhor. Eu era obrigada a viver sob o mesmo teto que ele – onde eu via um homem quarenta anos mais velho do que eu todos os dias desrespeitando os mandamentos mais sagrados da natureza. Ele disse que eu era propriedade dele, que tinha de me submeter à sua vontade em todas as coisas. Minha alma se rebelava contra aquela tirania mesquinha. Mas aonde eu podia ir para me proteger? Não fazia diferença se a menina escrava fosse tão negra quanto o ébano ou tão clara quanto sua senhora. Em qualquer situação, não há sombra de lei para protegê-la de insultos, violência ou até mesmo da morte; tudo isso é infligido pelos inimigos que tomam a forma de homens. A senhora, que deveria proteger a vítima indefesa, não tem nenhum sentimento em relação a ela que não seja ciúme ou raiva. A degradação, as injustiças e os vícios que advêm da escravidão são mais do que eu sou capaz de descrever. São maiores do que vocês estariam dispostos a acreditar. Com certeza, se metade das verdades contadas a respeito dos milhões de pessoas indefesas que sofrem desse cativeiro cruel fosse levada em consideração, vocês no Norte não iriam ajudar a engrossar o caldo. Decerto se recusariam a prestar ao senhor, em seu próprio solo, o trabalho mesquinho e cruel que cães de caça treinados e a classe mais baixa de brancos prestam a ele no Sul.

Em todo lugar, os anos trazem a todos bastante pecado e arrependimento, mas na escravidão já o próprio despertar da vida é obscurecido por essas sombras. Até mesmo uma criança pequena, acostumada a servir à sua senhora e aos seus filhos, vai aprender, antes de chegar aos doze anos, por que a senhora dela odeia esta e aquela entre as escravas. Talvez a própria mãe da criança esteja entre as escravas odiadas. Ela assiste a ataques violentos de ciúme passional e não tem como não entender qual é a causa. Ela se tornará prematuramente ciente das coisas malignas. Logo vai aprender a tremer quando escutar os passos de seu senhor. Será compelida a se dar conta de que não é mais criança. Se Deus a dotou de beleza, isso vai se revelar como sua pior maldição. Aquilo que desperta admiração nas mulheres brancas só serve para aumentar a degradação de uma escrava. Sei que algumas são tão brutalizadas pela escravidão que não são capazes de sentir a humilhação da sua posição, mas muitas escravas a sentem de maneira aguda e se encolhem só com a lembrança. Nem posso dizer o quanto sofri na presença dessas injustiças, nem quanto ainda me dói pensar em retrospecto. Meu senhor vinha ao meu encontro a cada passo, me fazendo lembrar que eu lhe pertencia e jurando pelo céu e pela terra que iria me convencer a me submeter a ele. Se saísse para tomar um pouco de ar fresco de­ pois de um dia de labuta incansável, os passos dele me seguiam. Se me ajoelhasse ao lado do túmulo da minha mãe, a sombra escura dele caía sobre mim até mesmo ali. O coração leve que me tinha sido concedido pela natureza ficou pesado com presságios tristes. As outras escravas da casa repararam na mudança. Muitas ficaram com pena de mim, mas nenhuma ousou perguntar o motivo. Não precisavam indagar. Elas conheciam muito bem as práticas deploráveis sob aquele teto e sabiam que falar delas era uma ofensa que nunca passava sem ser castigada. Como eu desejava ter alguém a quem fazer confidências. Teria dado o mundo para deitar a cabeça no peito fiel da minha avó e contar todos os meus problemas. Mas o doutor Flint jurou que iria me matar se eu não ficasse muda como uma tumba. Então, apesar de minha avó ser tudo para mim, eu a temia e a amava ao mesmo tempo. Me acostumara a olhar para ela com um respeito que beirava a reverência. Eu era muito nova e tinha vergonha de lhe contar coisas tão impuras, sobretudo porque sabia de sua severidade em relação a tais assuntos. Além do mais, minha avó era uma mulher de espírito elevado. Ela quase sempre era muito tranquila em seu comporta­ mento, mas, se sua indignação fosse atiçada, não era fácil apaziguá-la. Tinham me contado que certa vez ela havia corrido atrás de um cavalheiro com um revólver carregado porque ele insultara uma de suas filhas. Eu morria de medo das consequências de um ataque violento, e tanto o orgulho quanto o medo me mantinham em silêncio. Mas, apesar de não me abrir para a minha avó e até evitar sua vigilância precavida e suas perguntas, a presença dela nas redondezas representava alguma proteção para mim. Apesar de ela ter sido escrava, o doutor Flint tinha medo dela. Temia seus sermões ferinos. Além do mais, ela era conhecida e apoiada por muita gente, e ele não queria que sua própria sordidez se tornasse pública. Minha sorte era não viver em alguma fazenda distante, mas numa cidadezinha não tão grande a ponto de os moradores ignorarem as questões uns dos outros. Por mais que as leis e os costumes de uma comunidade escravagista fossem ruins, o médico, como homem profissional, achava prudente manter certa aparência externa de decência.

Ah, quantos dias e noites de medo e angústia aquele homem me causou! Não é para suscitar solidariedade que conto a verdade sobre o que sofri na escravidão. Faço isso para acender uma chama de compaixão nos leito­ res pelas minhas irmãs que continuam cativas, sofrendo como eu sofri no passado.

Certa vez, vi duas crianças lindas brincando juntas. Uma era branca bem clara, a outra era escrava dela e também sua irmã. Quando vi as duas se abraçando e ouvi sua risada alegre, virei as costas com tristeza para aquela visão adorável. Previ a desdita que iria recair sobre o coração da pequena escrava. Sabia que em breve sua risada se transformaria em suspiros. A criança clara cresceu e se tornou uma mulher ainda mais clara. Da infância à vida adulta, seu caminho estava forrado de flores e iluminado por um céu ensolarado. Quando o sol se ergueu na manhã feliz de suas núpcias, um dia da sua vida, se tanto, tinha sido anuviado.

Como todos aqueles anos tinham tratado a sua pequena irmã escrava, a companheira de brincadeiras da sua infância? Ela também era muito bonita, mas as flores e o sol do amor não eram para ela. A escrava bebeu do copo do pecado, da vergonha e da tristeza – aquele de que sua raça perseguida é obrigada a beber. Tendo em vista essas coisas, por que vocês, homens e mulheres livres do Norte, es­ tão em silêncio? Por que suas línguas falham para assegurar o que é correto? Eu gostaria tanto de ter mais capacidade! Mas meu coração está tão carregado, e minha palavra é tão fraca! Existem homens e mulheres nobres que nos defendem, lutando para ajudar aqueles que não podem ajudar a si mesmos. Que Deus os abençoe! Que Deus lhes dê força e coragem para seguir em frente! Que Deus abençoe aqueles, em todos os lugares, que trabalham em prol do avanço da causa da humanidade!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE NOVEMBRO

CORRUPÇÃO, UMA TRAGÉDIA NACIONAL

Ouvi, agora, isto, vós, cabeças de Jacó, e vós, chefes da casa de Israel, que abominais o juízo, e perverteis tudo o que é direito (Miqueias 3.9).

A corrupção no Brasil é aguda, agônica, endêmica e sistêmica. Está presente em nossa nação desde os seus primórdios. Nossos poderes constituídos estão levedados por esse fermento maldito. Nossos políticos, com escassas e honrosas exceções, abastecem-se do poder, em vez de servir ao povo. Nossos partidos políticos são cabides para dependurar interesses de corporações poderosas. Somos a sexta economia do mundo, mas temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Nossos governantes e legisladores vivem nababescamente, enquanto o povo geme sob o peso de pesados impostos, desassistido de esperança. As riquezas da nação caem no ralo da corrupção. Verbas vultosas, arrancadas das mãos calejadas dos trabalhadores, são desviadas para rechonchudas contas bancárias em paraísos fiscais. O dinheiro destinado a educação, saúde e segurança é desviado por gestores inescrupulosos. Temos uma nação rica, mas uma maioria vivendo na pobreza. As promessas de campanha política já não acendem mais a chama da esperança na alma do povo. Nosso povo perdeu a crença nos seus líderes políticos. Entra governo e sai governo, partidos sobem ao poder e descem do poder, e a corrupção continua desfilando garbosamente na passarela. Assistimos passivos a esse desfile de imoralidade. A corrupção, de fato, é uma tragédia nacional. Que Deus nos ajude a não nos conformarmos com essa tragédia.

GESTÃO E CARREIRA

O NOVO NEGÓCIO DO LIXO

Para onde estão indo os produtos recicláveis e os negócios circulares?

Bancos de carros velhos. Pontas de cigarro. Lentes de contato usadas. Para a maioria das pessoas esse tipo de detrito é lixo, mas para tom szaky tudo isso e muito mais é material reciclável. Ele é CEO e fundador da TerraCycle e de sua mais nova iniciativa, a Loop. As duas são soluções de economia circular que preenchem os gaps entre consumidores, corporações e resíduos. A TerraCycle, fundada em 2001, é empresa de reciclagem especializada em capturar e reaproveitar itens difíceis de reciclar, em parceria com corporações e governos. A Loop, que se tornou empresa de capital aberto em meados de 2019, concentra-se nos problemas de reaproveitamento de resíduos trabalhando com diversas marcas para fornecer embalagens reutilizáveis de produtos de consumo comuns — por exemplo, o Tide, detergente para lavagem de roupa, e o sorvete Häagen-Dazs.

A HBR perguntou a Szaky, líder global em redução de resíduos, se os consumidores, empresas e governos estão — ou não — ajudando a reduzir as quantidades absurdas descartadas diariamente pelas pessoas. Em sua entrevista editada, ele aconselha líderes de empresas interessados em seguir modelos circulares.

*** Você ocupa uma posição única entre as marcas e os consumidores. Que tipo de conversa você mantém com cada lado? E qual é o lado mais resistente à questão da sustentabilidade?

Nos últimos dois anos eu observei uma grande mudança na forma como os consumidores consideram os resíduos. Eles despertaram para todos os aspectos negativos do lixo e começaram a vê-los como uma crise. Por isso, os consumidores ainda estão “votando” com seus dólares em aspectos que os beneficiem pessoalmente, como conveniência, desempenho e preço final. Eles falam muito, mas não estão necessariamente mudando sua forma de comprar.

No entanto, somente manifestação de consumidor não cria nada empolgante: as marcas estão despertando para essa tendência. E com mais razão ainda os legisladores estão aprovando leis que afetam empresas de produtos de consumo, como banir sacolas plásticas e canudinhos. Na França, em poucos anos, os pratos, copos e talheres plásticos não serão mais usados nos restaurantes. Essas leis estão ecoando por toda a indústria de produtos de consumo.

*** Você acredita que os governos estão preenchendo os gaps deixados pelas empresas? Ou eles estão arrastando os consumidores encorajando-os a praticar ações que eles declaram apoiar?

Esta pergunta é mais difícil do que parece. Os canudos de plástico não eram considerados um problema até dois anos atrás. Depois se tonaram símbolo do que há de errado com o plástico e com seu descarte. Depois de um enorme clamor público, os políticos começaram a aprovar leis para bani-los. Então, as empresas proativamente baniram os canudinhos antes mesmo de mais leis entra- rem em vigor. Por isso, um movimento dos consumidores levou os políticos a tomar uma atitude, e depois as corporações aderiram. O canudinho de plástico está efetivamente com os dias contados. Mas foi preciso que corporações, consumidores e governos se manifestassem.

*** Fale um pouco do tipo de conversa que você mantém com os investidores e outros stakeholders na condição de fundador e líder de duas empresas. Como é estar na esfera da sustentabilidade, principalmente com nova startup?

Faz só dois anos que começamos a desenvolver o conceito para a Loop, o que a torna, sem dúvida, uma startup. A TerraCycle tem 16 anos e pode ser considerada empresa em crescimento. Por isso, minhas perspectivas são diferentes.

A TerraCycle vem crescendo ano após ano desde o começo, mas nos dois últimos anos ela cresceu exponencialmente. Corporações que antes não trabalhavam conosco agora estão trabalhando. E as corporações que trabalhavam estão aprofundando seu envolvimento. Nossa receita aumentou 30% organicamente em 2019, em comparação com 2018, e esperamos o mesmo em 2020. Isso ocorre basicamente porque tudo se movimenta mais rápido e as empresas que querem se aprofundar mais versus as grandes novas surpresas ou novas indústrias que estavam adormecidas agora despertaram.

Paralelamente, captamos recursos da ordem de US$ 20 milhões para a Loop Global e de cerca de US$ 20 milhões para a TerraCycle EUA. A principal mudança foi que os investidores estão muito mais interessados em investi- mentos de verdadeiro impacto. Isso está intimamente relacionado ao fato de o lixo ter se tornado uma crise.

Não creio que a Loop tivesse existido há cinco anos. Essencialmente, estamos pedindo às empresas de bens de consumo embalados (CPG, na sigla em inglês) e aos varejistas que basicamente reprojetem suas embalagens e abracem grandes mudanças para a economia na entrega de produtos embalados — em outras palavras, que tratem a embalagem como um ativo, não como custo. Por causa das diferentes formas de ver o lixo, as empresas têm cada vez mais vontade de aderir à ideia. Então, o que está acontecendo agora no mundo das startups como a Loop é que ideias mais audaciosas para resolver essas questões estão sendo discutidas.

*** Você acredita que as empresas já existentes serão capazes de fazer a mudança? Ou serão as novas empresas que estão entrando no mercado?

As duas. Acredito que veremos algumas organizações morrerem por causa disso. Outras pivotarão. E as novas empresas manterão o equilíbrio, como sempre acontece com qualquer mudança. Veja o setor tecnológico, por exemplo. Quantos varejistas sobreviveram a ela? Algumas fizeram excelente trabalho, certo? E algumas, como as varejistas especializadas em caixas grandes — Toys “R” Us, Linens’n Things, Staples na Europa — morreram no processo. O mais importante nessas situações é pivotar e reinventar a organização, lembrando que falar é fácil — fazer é que é difícil, pois exige enormes sacrifícios de curto prazo.

Acredito que não serão indústrias ou setores que terão de pivotar ou morrer, mas as empresas individualmente. Algumas organizações como Nestlé, Unilever e P&G consideram seriamente essas questões e tomam decisões difíceis que podem impactar negativamente no curto prazo, mas criam o alicerce para serem relevantes no longo prazo. Inversamente, muitas organizações — como grandes empresas de alimentação nos Estados Unidos — não estão enxergando o que está por vir e provavelmente serão superadas por startups que estão construindo seus modelos de negócio dentro da nova realidade que está surgindo.

*** Quando você conversa com investidores da TerraCycle ou da Loop, que tipo de preocupação eles demonstram? O que eles querem saber?

De repente surgiu na comunidade de investimentos um interesse muito maior neste tópico. Acredito que os investidores lhe dirão que a sustentabilidade é quase uma necessidade para o futuro. Há 15 anos, quando captávamos recursos para a TerraCycle, as pessoas investiam por causa do impacto e do propósito. Era como se elas estivessem doando a uma ONG. Hoje, os investidores lhe diriam que acreditam de fato que a sustentabilidade é uma exigência para o futuro.

Eles estão analisando os índices de sustentabilidade não apenas do ponto de vista financeiro — “ah, estou satisfeito com o lugar onde coloco meu dinheiro”. Hoje a sustentabilidade é considerada um fator crítico para a longevidade das empresas.

*** Grandes corporações comercializam a sustentabilidade na caixa do “propósito”, e não na dos “negócios”, com promessas e outros compromissos de alta visibilidade. Isso está mudando? As grandes corporações são capazes de mudar da caixa emocional para a caixa dos negócios da mesma forma que os investidores?

A mais famosa das promessas é a da Fundação Ellen MacArthur, assinada por mais de 400 empresas e organizações, sinalizando sua intenção de eliminar a utilização de novos plásticos. Elas basicamente afirmam que em 2025 seus produtos serão compostáveis, recicláveis e reutilizáveis. E que nessa data aumentarão significativamente o uso de recipientes recicláveis.

Agora, sejamos francos sobre o porquê dessas promessas. Desde que os resíduos se tornaram uma crise nos últimos dois anos, muitas empresas chegaram ao ponto em que precisam resolver o problema, ou a legislação as excluirá. A melhor forma de assumir a liderança é fazer promessas, até porque de hoje até o dia prometido você não precisa fazer nada, não é mesmo? Se todos prometem que em 2025 haverá todas essas coisas maravilhosas, eles deixam de ser responsáveis no presente.

Eu conversei com diretores de sustentabilidade de algumas das maiores empresas CPG do mundo que honestamente não têm a menor ideia do que deve ser feito: “A indústria vai descobrir”, dizem eles. É assustador.

Eis o que eu penso que vai acontecer em 2025 com essa promessa em particular. Há uma diferença entre a promessa de ser “reciclável” e ser produzido com “material reciclado”. Em outras palavras, a maioria das empresas, via Fundação Ellen MacArthur, prometeu que em 2025 seus produtos serão 100% recicláveis e produzidos com alta porcentagem (geralmente 25%) de material reciclado. Acredito que a maioria das empresas dirá que elas produziram embalagens “tecnicamente recicláveis”, mas que a indústria da reciclagem é culpada por “não reciclá-las”. Talvez 90% das empresas que fazem essas promessas venham a fracassar e depois dirão “ah, fizemos as nossas embalagens recicláveis, mas os sistemas atuais de reciclagem não têm capacidade de reciclá-las”.

Isso haverá de criar um grande ajuste de contas que irritará ainda mais os consumidores, que provavelmente se insurgirão contra as marcas.

*** E as 10% que foram bem-sucedidas, como conseguiram?

Elas simplesmente estão assumindo a dianteira. Veja um exemplo: atualmente, algumas empresas estão comprando futuros em plástico reciclável para garantir que terão o volume necessário, o que é algo sem precedentes em precificação de plásticos. Um bom exemplo é a Nestlé. Sua principal fala num recente comunicado à imprensa é: “Para criar um mercado, a Nestlé está comprometida em fornecer até 2 milhões de toneladas de plástico reciclado para seus produtos alimentícios e em alocar mais de 1,5 bilhão de francos suíços para pagar ágio por esse material até 2025”.

*** Uma coisa que me intriga é como você consegue colaborar com tantas empresas. É muito difícil? Você faz tudo sozinho?

É absolutamente necessário colaborar. São problemas sistêmicos, e para resolver o sistema você precisa da colaboração de multi-stakeholders. Só foi possível criar a Loop graças à colaboração de multi-stakeholders. Não havia outra forma de fazê-la decolar. E acredito que cada vez mais precisamos desse tipo de colaboração.

*** O que faz uma colaboração como essas funcionar?

Grupos comerciais e consórcios não funcionam. O problema com grupos industriais, pelo menos na minha experiência, é mantê-los unidos para que possam dizer publicamente que existe uma discussão entre multi-stakeholders. Mas os resultados em geral são nulos. Então, como criar uma mudança de sistemas realmente multi-stakeholders? Se você pretende mudar o sistema, é preciso que todos os stakeholders estejam de acordo.

Com a Loop nós, conscientemente, tentamos criar uma colaboração multi-stakeholder. E ver o que acontecia: está dando certo. Estamos adicionando uma marca a cada dois dias, e desde que a lançamos a maioria das grandes empresas multinacionais de CPG se associaram a nós: Procter & Gamble, Unilever, Mars, Nestlé, PepsiCo, Coca-Cola etc. E nós adicionamos um varejista a cada três semanas desde o lançamento, do mundo todo. A Loop opera na França (via Carrefour) e nos EUA (via Kroger e Walgreens), via comércio eletrônico; está expandindo com lojas físicas, nos dois países, ainda este ano. Ela será lançada também no Canadá (via Loblaw), Reino Unido (via Tesco), Alemanha (via varejistas que serão anunciados em breve) e no Japão (via AEON), todas este ano. E finalmente, recebemos insights extremamente positivos dos consumidores — as pessoas querem a Loop, e gostam da experiência quando têm acesso a ela.

Ainda não vejo muitas empresas com modelos semelhantes por aí. A Loop representa uma grande mudança de sistemas que requerem grande coalizão de multi-stakeholders. Ou seja, nenhuma empresa sozinha consegue fazer a mudança — todos precisam agir juntos. Muitos grupos nos telefonam para perguntar o que fizemos para que a Loop desse certo e de que forma podem aplicar esse tipo de sistema ou processo. Eles fazem tais perguntas porque normalmente as colaborações de multi-stakeholders são lentas, e é difícil obter resultados.

*** O que você responde?

Eu lhes digo que uma plataforma como essa não pode ser operada por comitês. Ela precisa ter um “presidente” que tome as decisões, mesmo impopulares, e garanta que tudo avance rápido. Você também fixa prazos públicos com os quais todos possam concordar. Foi por isso, por exemplo, que a lançamos no Fórum Econômico Mundial do ano passado — foi um prazo que permitiu que todos se alinhassem.

TOM SZAKY é fundador e CEO da TerraCycle, que começou como empresa sustentável de fertilizantes em 2003 e expandiu a ponto de se tornar um sistema líder de soluções de reciclagem. Em 2019, a empresa lançou a Loop, que tem por objetivo desbaratar a indústria da reciclagem por meio da transição, nas empresas e varejistas de produtos de consumo, das embalagens atuais para as embalagens reutilizáveis.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MORTE SÚBITA NA JUVENTUDE

Por que cresce o número de jovens que estão em boas condições físicas e morrem repentinamente? A resposta envolve desde causas endógenas e hereditárias até fatores comportamentais

Os corações jovens são mais vulneráveis aos doces encantos do amor — e ao infarto fulminante. A primeira parte dessa frase é pura poesia; a segunda, pura ciência. E é a ciência que investiga, cada vez com maiores recursos tecnológicos, as causas que estão levando de forma crescente pessoas novas à morte súbita (triste e preocupante aumento de 10% ao ano), atingindo até mesmo donos de corpos forjados na saúde do esporte, como foi o caso da ex- ginasta Ana Paula Sheffer — que, lembremos, adorava poesia. Aos 31 anos e medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, ela foi encontrada morta em sua casa, na cidade paranaense de Toledo. Em média, trezentas e vinte mil pessoas, de todas as faixas etárias, falecem anualmente no Brasil de morte súbita. E há uma questão que a todos se coloca: por que o maquinário do coração novo é mais propício a deixar de bater de uma hora para outra, e, na maioria das vezes, de forma fatal? A resposta clínica e endógena, quem dá, são os corações envelhecidos e vividos: o sistema cardiovascular, com o correr do tempo, cria ramificações que espalham melhor o fluxo sanguíneo, podendo dessa forma evitar bruscas paradas cardíacas. O sistema circulatório dos corações novos ainda não possuem tais ramificações.

Há também motivos advindos do ambiente social. “Os jovens apresentam muito mais fatores de risco comportamentais”, diz Sérgio Timerman, cardiologista, diretor do Centro de Treinamento do Instituto do Coração e professor da Universidade de São Paulo. Ele explica que pessoas com pouca idade podem ser mais suscetíveis à morte súbita devido aos excessos que são naturais nessa etapa da vida — e há coisas tão perniciosas usadas por alguns indivíduos que, muitas vezes, se traduzem em infarto. É o caso, por exemplo, do consumo de cocaína: estima-se que 30% dos infartos na juventude são provocados pela dependência química dessa substância psicoativa. Juntemos a isso o hábito da nicotina e de bebidas alcoólicas. “Essa é uma tríade exemplar para a morte súbita”, afirma Timerman. Ao falarmos sobre pessoas acima de 50 anos, a percepção é de que esses riscos diminuem. E um fato é inconteste: cinquentões costumam verificar com mais frequência junto ao médico como anda a saúde do coração.

MÉDICOS NA PLATEIA

Há um destino traçado para todos os seres humanos e, dele, jovens e não jovens jamais conseguem fugir: a genética e a hereditariedade. Ou seja: antecedentes familiares funcionam como sinalizadores daquilo que pode ocorrer. Quando parentes próximos sofreram ataque cardíaco antes dos 50 anos, isso é um fator preocupante para os moços. Sabendo de tal situação, eles vão sempre ao cardiologista? Claro… que não! Some-se agora, aos fatores hereditários, episódios exacerbados de estresse, cada vez mais frequentes entre os jovens devido às altas expectativas que hoje a sociedade e a família neles depositam. O estresse é perigoso caminho que pode desembocar na morte repentina.

O ex-campeão mundial de natação Ricardo Prado, antes de completar 40 anos, teve de se submeter a uma cirurgia cardiovascular de emergência para não morrer: “Perguntei para o médico se era possível esperarmos o período de férias, mas ele me deu uma semana para realizar o procedimento”. Em seu caso, o pai havia tido um infarto logo após completar 60 anos. A imprevisibilidade desse tipo de evento também se verifica na história do atleta amador Carlos Fujii. No ano passado, durante um período de treinos, ele se sentiu mal: “apaguei, parece que me tiraram da tomada”. A sua fala é ótima e espirituosa, mas vamos ao fenômeno clínico: uma pequena placa de gordura se desprendera na corrente sanguínea e obstruíra uma artéria do coração. Seus companheiros de corrida o socorreram. Depois de um mês, estava recuperado.

Deixemos agora os jovens de lado e vamos aos que já atravessaram com saúde grande parte da vida e, repentinamente, são pegos pelo infarto. “Eu morri subitamente e voltei à vida graças ao atendimento médico rápido”, conta Fellippo Danello, 77 anos, cantor italiano radicado no Brasil. No momento em que interpretava a décima música de seu repertório, em um show no clube poliesportivo Paulistano, em São Paulo, Danello passou muito mal. Apesar disso, a sorte lhe foi madrinha: ele se apresentava para uma plateia de médicos: “Quando abri os olhos vi o rosto da minha cardiologista”. Na semana passada, a American Heart Association divulgou as novas diretrizes de ressuscitação e emergências cardiovasculares, decididas por convenção internacional. Agora são 491 recomendações para tentar salvar vidas, quando elas se tornam ameaçadas pela morte súbita.