EU ACHO …

UMA LEI PARA O DILEMA DAS REDES

A nova regulação de proteção de dados prevê maior controle das pessoas sobre suas informações, o que deve ter impacto direto sobre a forma como as redes sociais atuam no país

Uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet de 2020 mostra que, atualmente, mais de 70¾ dos domicílios brasileiros têm acesso à internet. Embora a conexão à rede traga inúmeras vantagens –   como redução de distâncias, acesso à informação e liberdade para a publicação de ideias -, há algumas preocupações pertinentes por parte dos usuários. Especialmente no, Brasil, a apreensão em relação à segurança de dados está acima da média mundial, de acordo com o Unisys Security Index 2020 – o que sinaliza o fato de o país ser um dos maiores alvos de fraudes como phishing (golpe de envios de e-mails ou mensagens com promoções ou informações falsas com o intuito de roubar dados) e ransomware (quando um software “mal-intencionado” bloqueia acessos e pede resgate para as vítimas, uma forma de extorsão virtual). Mas não são só os ataques cibernéticos que geram angústia em relação à proteção de informações pessoais: a pesquisa Global Weblndex coloca o país como o segundo mais conectado às redes sociais, as quais, infelizmente, vinham permitindo de forma indiscriminada o uso de dados – de usuários para estratégias publicitárias ou,  políticas.

Preocupações como essas foram amplificadas pelo escândalo do vazamento de dados do Facebook para a empresa Cambridge Analytica, que coletou indevidamente informações de 87 milhões de usuários por meio de testes de personalidade na rede social. Esses dados foram usados para influenciar a opinião de eleitores em vários países. O episódio foi o pontapé para que autoridades europeias criassem o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), que vigora desde 2018, estabelecendo regras para o uso de informações pessoais. Na mesma linha, foi aprovada no Brasil a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que, após muito vaivém político, finalmente entrou em vigor em setembro e passou a fazer parte do dia a dia dos brasileiros – sejam eles empresas ou consumidores com diferentes níveis de uso da internet. Tanto o GDPR quanto a LGPD visam a centralizar o ambiente regulatório, além de fornecer aos usuários o controle sobre seus dados pessoais e privacidade em meios de comunicação, caso assim desejado.

As empresas brasileiras precisam estar aptas a responder a perguntas de cidadãos sobre suas informações. Algumas delas: Quais são os dados que possui das pessoas? Para que são utilizados? Qual a justificativa para ter cada um deles? As informações são ou foram transferidas para outras empresas? Qual é o grau de segurança em que elas são mantidas? O efeito da nova lei nas redes sociais, utilizadas massivamente no país e grande fonte para se encontrar detalhes pessoais, será sentido de forma significativa. Informações cujo processamento não foi ativamente consentido não poderão ser usadas. As empresas deverão ter urna base legal para obter informações de clientes, assim como para justificar a não exclusão de dados. Isso porque, apesar de a LGPD não especificar o direito ao esquecimento, como ocorre na lei europeia, ela tem como princípio o uso dos dados pessoais apenas enquanto eles forem necessários à empresa, de forma legalmente justificada, o que gera brechas para pedidos de exclusão.

É esperado que a LGPD resulte em estratégias de vendas mais responsáveis por parte das empresas, especialmente as que dependem das redes sociais para monitorar informações de potenciais clientes e desenvolver uma segmentação automatizada. Isso também vale para aquelas que compram dados cadastrais para envio de spam. O que ocorre é que, com a nova lei, os modelos automáticos de classificação via algoritmos das estratégias de venda fiam sob o escrutínio público, pois a lei especifica que os usuários podem pedir detalhes sobre os critérios e procedimentos utilizados em modelagens, ficando passíveis à auditoria pública sobre potenciais aspectos discriminatórios. Por exemplo, deve haver salvaguardas robustas para o uso de informações relacionadas a orientação sexual, raça, saúde, política e crenças religiosas.

Outro aspecto resultante da implantação da LGPD pode ser a redução na disseminação de fake news, tendo em vista que ficará mais controlado o acesso a dados que permitam identificar determinados grupos de pessoas ou eleitores. Dessa forma, campanhas de ódio, assédio e exposição da intimidade alheia usando a internet como meio de divulgação seriam situações menos corriqueiras na vida dos usuários de redes sociais.

Ainda que, no Brasil, a LGPD seja uma novidade, a experiência do GDPR já trouxe aprendizados e modificações importantes nas redes sociais. Mudanças como novas dinâmicas de desindexação nas plataformas de busca para atender a pedidos de exclusão de dados começaram a acontecer. Também passou a existir a exigência de que os anunciantes de públicos personalizados atestem o consentimento desse mesmo público. A regulação instituiu ainda a exigência de autorização para uso de cookies (histórico detalhado de acesso) em anúncios direcionados. Em suma, está havendo maior cuidado com dados pessoais trocados em mensagens públicas de redes sociais (que não são propriedade da plataforma).

Por meio desses novos processos, os usuários podem garantir mais privacidade, segurança sobre o uso de dados pessoais e controle sobre experiências de compra. À medida que os consumidores estão mais vigilantes sobre o tratamento de dados, a responsabilidade e a transparência com que cada empresa tratar o público tendem a estimular a confiança em suas marcas, algo que tem valor inestimável.

*** FERNANDA BARROSO é diretora-geral da Kroll no Brasil

OUTROS OLHARES

UM IMPOSTOR ENTRE NÓS

O game Among Us se tornou o mais badalado de 2020, o ano da pandemia – e passou até a ser usado como ferramenta política para atrair eleitores jovens

Um jogo simples e sem programação gráfica moderna, quase tosco, é um dos campeões de popularidade em 2020, o ano da pandemia. Lançado sem muito alarde em 2018, o Among Us (entre nós, em português) alcançou no terceiro trimestre a marca de mais de 100 milhões de downloads. Só mesmo quem não tem um smartphone, andou um tempo em Marte ou foi procurar água na Lua é que passou ao largo da brincadeira. Mesmo na opção paga (e mais completa), o sucesso é estrondoso. O game é o quarto na lista dos mais comprados pela plataforma de jogos Steam e o terceiro em tempo jogado nos últimos trinta dias, com quase 140 milhões de horas – atrás apenas dos imbatíveis Counter-Strike: Globa Offensive (CS:GO) e Dota 2, e à frente de clássicos como o Grand Theft Auto V (GTA V). A diversão recupera um passatempo da criançada da era analógica – o Máfia, também conhecido pelos nomes Assassino ou Cidade Dorme. A versão clássica poderia ser feita com um baralho de cartas ou até mesmo com sorteio, sem nada às mãos, para definir os papéis de cada participante. Os “mafiosos” ou “assassinos” eram responsáveis por matar os “cidadãos”. Estes, por sua vez, faziam uma votação ao final de cada rodada para tentar descobrir os vilões da partida. Em Among Us, tudo se dá em algum canto do espaço sideral, com naves à espreita. O objetivo dos tripulantes é identificar impostores e completar a tarefa ao redor de um mapa. Já os impostores precisam eliminar os outros, simples assim. Com um detalhe: toda a movimentação de votos, a definição de quem é quem, culpado ou inocente, se dá em forma de chat por mensagens de texto. Ou seja: há distração “dentro” e “fora” do ambiente de disputa.

As cifras de Among Us eram tímidas até agosto. Ganhou extraordinária visibilidade quando alguns famosos, em exercício de autoestima, passaram a transmitir as partidas por meio de plataformas de vídeo como o Twitch e o onipresente YouTube. Neymar, é claro, deu as caras entre um treino e outro. O maior youtuber individual do mundo, o sueco PewDiePie, com 107 milhões de inscritos em seu canal, entrou firme na farra. O brasileiro Felipe Neto (palpiteiro em assuntos que vão da economia ao esporte) pegou carona – e então deu-se a disseminação irreversível, até que desponte outra mania no horizonte. Há de se reafirmar, para não perder o fio da meada, o papel decisivo da quarentena. No isolamento social imposto pela Covid-19, dentro de casa, um quarto da população mundial adotou videogames como entretenimento, o que significou uma disparada de 43% ante o mesmo período de 2019, em um processo de massificação sem precedentes. Os fabricantes dobraram os lucros em relação ao ano passado.

A lição que fica com o salto do Among Us: a simplicidade também é vencedora e nem sempre é preciso recursos complexos, digitalmente rebuscados para que um divertimento caia no gosto do mundo globalizado. “E um jogo muito fácil, que prende você”, resume Julia Quintas, atriz de 21 anos que joga com os amigos que fez na faculdade de teatro, virtualmente. Julia está entre os 60 milhões de pessoas do planeta que passam horas entretidos com o enredo diariamente. “O mais legal é jogar nas salas privadas com os amigos. Ele pede muita conversa e debate para enfrentar os desafios, e acabamos rindo ainda mais.”

Among Us, no entanto, tem uma peculiaridade que o leva para além da singeleza e do fenômeno passageiro. O fato de ser atraído por jovens eleitores (e não só crianças) fez com que se tornasse ferramenta política, em ano de eleições nos Estados Unidos e no Brasil. A deputada americana Alexandria Ocasio-Cortez protagonizou uma das lives com maior audiência na história do Twitch, com mais de 5 milhões de visualizações, jogando Among Us. A estratégia da congressista do Partido Democrata era se aproximar do público jovem e engajá-lo a votar na legenda no próximo pleito do país. Guilherme Boulos (PSOL) e Arthur do Val (Patriota), candidatos à prefeitura de São Paulo de lados ideológicos opostos, também aderiram à onda, em lives que chamaram mais atenção pelo mau gosto nas ofensas aos adversários políticos do que pelo entretenimento. No game e na vida real, não é fácil descobrir quem é quem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE NOVEMBRO

COELHO OU CORDEIRO?

… Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado (1Coríntios 5.7b).

A sociedade secularizada mudou o símbolo da Páscoa, transformando-a numa mera festa do consumismo. O coelho destronou o cordeiro, e o chocolate substituiu o sangue. O que tem o coelho que ver com a Páscoa? Absolutamente nada! Não há nenhuma conexão entre a Páscoa e o coelho. Este é um intruso, um instrumento sutil para desviar o foco do verdadeiro sentido da Páscoa, afastando assim as pessoas de uma reflexão honesta acerca do livramento que Deus providenciou para seu povo por intermédio da morte de seu Filho. A Páscoa tem que ver com a libertação do cativeiro. A salvação dos judeus aconteceu mediante a morte de um cordeiro e a aspersão de seu sangue nos batentes das portas. Os israelitas não foram poupados da morte porque eram melhores que os egípcios. Não foram libertos por suas virtudes nem por suas obras. Foram salvos pelo sangue do cordeiro. Quando o anjo de Deus passou pela terra do Egito, naquela fatídica noite, viu o sangue. O sangue era o sinal e a senha da libertação. Os israelitas não foram salvos da morte porque eram monoteístas e os egípcios, politeístas. Foram salvos pelo sangue do cordeiro. Assim, também, somos salvos do pecado pelo sangue de Jesus. Não é o que fazemos para Deus que nos abre a porta de libertação, mas o que Deus fez por nós em Cristo!

GESTÃO E CARREIRA

O FIM DO RELÓGIO DE PONTO

Não é o tempo que você passa na empresa que importa e sim o resultado que você entrega

A produtividade humana não é um elemento padronizado que podemos organizar no horário comercial. Tem dias que não estamos com cabeça para produzir entre as 8h e 18h e mesmo assim temos que cumpri-lo. Precisamos mudar essa dinâmica. Um profissional precisa ter parte da decisão sobre o seu melhor horário de trabalho e ser cobrado somente pelo seu resultado. Pra mim, esse é o futuro. Quantas vezes já fomos para os nossos postos de trabalho cheios de preocupações com outros assuntos? Estudos, necessidades pessoais, saúde, entre outros. Ou quantas coisas perdemos porque precisávamos bater o ponto necessariamente às 8h? (Não vou nem citar quantos momentos importantes muitos pais e mães não conseguem participar na vida de seus filhos). É uma mecânica que não é boa para ninguém. Para a empresa não é a melhor porque não pensa no funcionário como gente. Como uma pessoa com necessidades, preocupações e vida além do trabalho. E não é boa para o funcionário, porque ele não consegue entregar o seu melhor. Não acredito

nessas frases de efeito que falam que temos que aprender a separar o pessoal do profissional. Que no ambiente de trabalho temos que ser profissionais e esquecer todo o resto. Quero ver se você, sabendo que está perdendo um momento importante de quem você ama, ficaria super bem no trabalho. É impossível, somos humanos. A questão que eu levanto é que precisamos de mais flexibilidade nas nossas relações de trabalho. O tempo que eu passo na empresa não é diretamente proporcional à minha produção. Precisamos tratar mais as pessoas como pessoas. Eu acredito muito em meritocracia. Quer sair mais cedo? Precisa ir no médico? Quer ver o jogo do filho? Não tem problemas. Não estamos contratando profissionais para esquentar cadeira. Estamos contratando resultados. E as pessoas dão mais resultados onde são valorizadas.

PAULO GABRIEL JR – é professor de marketing, relações públicas, especialista em marketing digital, gestão de projetos e em inovação e empreendedorismo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A POSITIVIDADE TÓXICA

Os tempos pandêmicos acentuaram um paradoxo das redes: ao alardearem o lado ensolarado da vida, elas podem desencadear um ciclo de tristeza

Mal a pessoa acordou, a mão estica para o celular, abre o aplicativo e não tem escapatória: depara com a primeira mensagem motivacional. Seja o indefectível “bom dia, dia”, seja uma sequência de carinhas amarelas e sorridentes, seja na forma de verso, meme, figuras variadas, stickers e até correntes, uma avalanche de otimismo escorre da tela e se esparrama pela humanidade, passando a impressão de que, com tantas coisas boas ao redor, só não é feliz quem não quer. A insistência na tecla de que a vida é bela – ampliada no Twitter, Instagram e Facebook pela onipresente #gratidão, por exemplo – já vinha mostrando sua face menos rósea, mesmo antes da pandemia. Mas, no cenário de isolamento social e preocupações ampliadas, o incômodo com os recados ensolarados se intensificou, a ponto de o nome dado ao fenômeno ter se popularizado:  positividade tóxica, que vem a ser aquela imposição de euforia e animação que acaba fazendo mal às pessoas – literalmente.

A expressão foi cunhada nas buscas do Google em 2019, mas sua procura teve um salto, de 85% este ano (376% na versão em inglês, toxic positivity). “Existe o mito de que basta pensar positivo para tudo dar certo. A ideia termina por ser prejudicial, porque não nos prepara para as frustrações”, diz Guilherme Spadin, diretor de psicoterapia da The School of Life em São Paulo. O conceito está relacionado ao que o psicanalista Sigmund Freud chamava de “afeto estrangulado” – a tentativa de reprimir emoções negativas apelando para a demonstração de felicidade e otimismo em toda e qualquer situação, inclusive nas mais adversas.

Uma enquete entre quem posta e quem lê mensagens motivacionais realizada pela pesquisadora comportamental Vanessa Van Edwards, fundadora do portal americano Science of People, indicou efeitos, com o perdão da palavra; negativos em ambos os casos. Mais de 75% dos entrevistados admitiram que, ao mostrar alegria constante, estão ignorando suas reais emoções. Do outro lado, 68% relataram episódios de ansiedade e pânico diante de tanta imagem maravilhosa que eles mesmos não conseguiam reproduzir em sua vida. “Minha turma nas redes dizia em peso que estava fazendo exercícios em casa, aprendendo outros idiomas e até começando a namorar. Enquanto isso, eu engordei e voltei a ter crises de ansiedade”, conta a estudante de publicidade Pamela Dias, de 23 anos. Moradora de Campinas, interior de São Paulo, ela sentia culpa por não encontrar o tal “lado bom da pandemia”. A saída foi desinstalar os aplicativos e se afastar do mundo perfeito das mensagens fofinhas e das famílias lindas que vivem em casas maravilhosas. “Como animal social que somos, temos a tendência a nos comparar com quem aparenta estar melhor ou ter mais. Mas a comparação desmedida é justamente o que atrapalha a pessoa ser, de fato, feliz”, afirma Luiz Gaziri, autor do livro A Ciência da Felicidade.

Outro estudo, este da psicóloga alemã Gabriele Oettingen, da Universidade Nova York, revela que os indivíduos que pensam positivo o tempo inteiro raramente atingem as suas metas porque, quando seu cérebro registra o prazer das satisfações ilusórias, a pressão arterial cai e, junto com ela, reduz-se a motivação que faz o ser humano progredir. Em relação à saúde mental, a impossibilidade de perceber tantas coisas boas, como aconteceu com Pamela, resulta em sentimentos como culpa e tristeza, que podem desencadear ou agravar doenças como depressão e distúrbios do sono. “A toxicidade está em não querer enfrentar as dificuldades ou aceitar as frustrações. Ser positivo não significa ignorar que angústia, fracasso e tristeza fazem parte da natureza humana”, explica a neuropsicóloga Adriana Fóz.

Nada disso quer dizer que quem manda carinhas felizes logo cedo está sendo maldoso – pelo contrário, pensar e receber palavras boas ativa o núcleo accumbens, a área do prazer do cérebro, e não há mal algum em querer ajudar o outro a se sentir melhor diante de situações difíceis. A designer Andrielli Aguilera, de 28 anos, acumula quase 100.000 seguidores no Instagram produzindo ilustrações no melhor estilo good vibes only (só boas vibrações) e tem certeza de que o otimismo é o motor de sua audiência. “As pessoas querem apreciar o que elas não têm e sonhar com a vida que desejam”, ensina. Sem problema – desde que a positividade traga, verdadeiramente, efeitos bons e saudáveis para o dia de cada um.