EU ACHO …

A TIRANIA DO MÉRITO

Em novo livro, o filósofo Michael J. Sandel demole o engodo do esforço pessoal como razão do sucesso

O novo livro do norte-americano Michael J. Sandel, A Tirania do Mérito, combina linguagem acessível e profundidade analítica. Digo profundidade porque Sandel se aventura nos labirintos das sociedades capitalistas contemporâneas. À porta de entrada do labirinto estão de sentinela os arroubos xenófobos, racistas, intolerantes e racistas daqueles que se consideram abandonados à beira da estrada da vida. “Assim como o triunfo do Brexit no Reino Unido, a eleição de Donald Trump em 2016 foi um veredicto furioso sobre décadas de crescente desigualdade e uma versão da globalização que beneficia aqueles que estão no topo, mas deixa os cidadãos comuns se sentindo descapacitados”, escreve o filósofo. “Foi também uma repreensão para uma abordagem tecnocrática da política que é surda aos ressentimentos das pessoas que sentem a economia e a cultura os deixarem para trás. A dura realidade é que Trump foi eleito batendo em uma fonte de ansiedades, frustrações e queixas legítimas às quais os principais partidos não tinham resposta convincente.”

A partir desse ambiente de frustração e revolta, Sandel vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia e suas contradições. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também – especialmente – quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal.” Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concretados indivíduos-habitantes das sociedades capitalistas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.

A busca pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios, atolada no pântano da sociedade de massa.

Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o consumo dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do endividamento. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete uma fração crescente de sua renda nas encrencas do endividamento. No mundo em que mandamos mercados da riqueza, os vencedores e perdedores dividem-se em duas categorias sociais: na cúspide, os detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza, gozam de “tempo livre” e do “consumo de luxo”. Na base, os dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência.

Sandel reconhece que, em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social, o desemprego estrutural promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários tromba com a igualdade de oportunidades.

A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos -utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade iluminista são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc. Vou buscar o auxílio de Elisabeth Roudinesco para valorizar o livro de Sandel.

Exímia em percorrer os caminhos perigosos da filosofia e da psicanálise, Roudinesco ausculta, na aurora do século XXI, rumores cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas? Classificar, ranquear, calcular, medir, colocar um preço, homogeneizar, este é o nada absoluto das investigações contemporâneas, impondo-se sem limites em nome de uma modernidade falsa que solapa todas as formas de inteligência, a crítica fundamentada na análise da complexidade das coisas e dos indivíduos.

Roudinesco desvela os desencantos da sexualidade pós-moderna. “Nunca a sexualidade foi tão desenfreada, e nunca a ciência avançou tanto na exploração do corpo e do cérebro. No entanto, nunca o sofrimento psicológico foi tão intenso: solidão, uso de drogas que alteram a mente, tédio, fadiga, dieta, obesidade, medicalização de cada segundo da existência. A liberdade do eu, tão necessária, e conquistada à custa de tanta luta durante o século XX, parece ter se transformado em uma demanda por contenção puritana.”

Quanto ao sofrimento social, afirma, é cada vez mais difícil de suportar, porque parece estar constantemente em ascensão, num contexto de desemprego juvenil e trágicos fechamentos de fábricas. O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?” O avanço exasperado da ”quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos. Roudinesco registra o descompasso entre as promessas e as realizações da sociedade competitiva. Quanto mais se promete aos indivíduos felicidade e segurança, mais a sua infelicidade persiste, mais as vítimas das promessas não cumpridas se revoltam contra “aqueles que os traíram”.

OUTROS OLHARES

O PAGAMENTO INSTANTÂNEO

A partir de 15 de novembro, com o PIX, o brasileiro só precisará de um celular para pagar, transferir ou receber dinheiro. A mudança pretende incluir os desbancarizados

A hiperinflação representou um dos períodos mais nefastos da economia nacional, desafiando pessoas e empresas. Mas propiciou que o sistema financeiro brasileiro se tornasse um dos mais avançados do mundo em termos de tecnologia. Há poucos anos, na gestão Ilan Goldfajn, a agenda BC+ do Banco Central previu uma modernização que aproximasse o País das melhores experiências contemporâneas, em especial vindas na China. Em novembro, a chegada do PIX concretizará mais um salto de modernidade. Os bancos como os conhecemos não serão mais os mesmos. O novo sistema de pagamento instantâneo abrirá as portas para uma série de alterações estruturais que vão mudar a forma como compramos, vendemos e negociamos. Ajudará a incluir no sistema os 48 milhões de brasileiros que vivem à margem do sistema bancário — os desbancarizados.

O cadastramento começa no dia 5 de outubro. E o sistema passa a operar dia 16 de novembro. Ele entrará em vigor aos poucos. Em um primeiro momento, começa a substituir as transferências clássicas do tipo DOC ou TED. Tudo passa a ser feito de forma instantânea, tanto para pessoas como empresas, 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias do ano. Além disso, qualquer transferência de dinheiro ou compra pode ser feita pelo celular ou até com um smartwatch. Ou seja, se você sair para caminhar levando apenas seu celular ou relógio e quiser tomar uma água de coco ou comprar pão poderá simplesmente pegar o celular, apontar para um QR Code no balcão e pagar, dispensando uso de cartão, cheque e dinheiro. E o que é melhor: as transações deixam de ter custo para a pessoa física e caem muito para as empresas. Do outro lado do balcão, quem vende vai receber o dinheiro pagando taxas menores e, num futuro próximo, poderá até vender sem precisar alugar as maquininhas. E o melhor, receberá o dinheiro na conta na hora. No curto prazo, o Pix ainda pode realizar um sonho antigo dos brasileiros, acabar com os boletos. Empresas e concessionárias de serviços poderão enviar só um QR Code para o pagamento da fatura. “A agilidade da compensação e a possibilidade de fazer pagamentos em qualquer dia traz uma comodidade nunca antes vivenciada pelo brasileiro”, explica Carolina Sansão, gerente de Inovação e Tecnologia da Febraban.

RISCOS

O Pix leva em conta experiências de sucesso realizadas em países como a China e a Índia — onda compras corriqueiras são feitas facilmente pelo celular, sem dinheiro físico. No entanto, sua arquitetura é considerada mais completa e complexa, segundo o diretor de estratégia de PME e Open Banking do Itaú, Carlos Eduardo Peyse. Há quase dois anos sendo preparado pelo BC, o sistema contou com a participação de 980 instituições, incluindo os varejistas. Eles ajudaram a estabelecer critérios que permitirão incluir os desbancarizados. Nem tudo é vantagem para os players atuais. Os bancos tradicionais terão impacto na receita com a queda das taxas cobradas pelo DOC e a TED, mas acreditam que acabarão ganhando no atacado atendendo mais gente e reduzindo os custos operacionais. As fintechs e os bancos digitais, em especial, podem se beneficiar, fornecendo novas funcionalidades com mais agilidade. As empresas que trabalham na intermediação de compras — as operadoras das “maquininhas” — também correm para se ajustar. “A vantagem do sistema brasileiro é que ele não é fechado e pode agregar funcionalidades, podendo incluir pagamentos parcelados ou pré-datados”, explica Letícia Murakawa, diretora executiva da Capco, consultoria global de gestão e tecnologia de serviços financeiros. Essa é a segunda fase prevista para o PIX. A terceira é permitir transações offline, em regiões sem acesso à internet.

Com o PIX, os dados também ficarão mais protegidos. Cada um terá apenas de solicitar uma chave ao seu banco, que associará seu email ou número de celular à sua conta. Depois é só fornecer esse dado para que a pessoa faça a transferência. Cada conta só pode ter uma chave, ou seja, se a pessoa tem uma conta no banco A poderá associar ao e-mail e se tiver outra conta no banco B poderá associar ao telefone. “Mas cada chave abre só uma porta”, explica Victor Corazza Modena, professor do IBE, conveniada da FGV. Segundo ele, o cenário disruptivo e inovador exigirá cuidados. Os usuários devem continuar atentos a fraudes. Mesmo antes de começar já surgiram sinais de envio de emails que induzem clientes de bancos a inserir seus dados para o cadastramento das chaves em endereços suspeitos. Os bancos alertam que o cadastro só deve ser feito na página ou no aplicativo da instituição. Levará pelo menos dois anos para que as pessoas se adaptem e confiem. Mas isso deve mudar em pouco tempo, especialmente quando o brasileiro perceber que pode gastar menos. “O brasileiro gosta de tecnologia e a pandemia mostrou que tudo pode ser mais fácil no digital”, diz Letícia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE NOVEMBRO

SANTOS NA CASA DE CÉSAR

Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César (Filipenses 4.22).

O apóstolo Paulo estava preso em Roma. Nero, um homem perverso e devasso, ocupava o trono do império romano. Seu palácio era uma casa de intrigas, traições e assassinatos, a síntese de toda a maldade que campeava na capital do império. Paulo, porém, transformou aquele palco de horror em plataforma de evangelismo. Mesmo algemado diariamente a soldados da guarda pretoriana, não cessou de pregar a Cristo. Depois de dois anos, todo o destacamento de dezesseis mil soldados de elite, bem como outros membros do palácio, havia sido evangelizado. Em sua saudação à igreja de Filipos, Paulo escreve: Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César. Esse episódio nos enseja três verdades solenes. Em primeiro lugar, não é o lugar que faz você; é você quem faz o lugar. Podemos florescer como um lírio mesmo num charco de lama. Podemos espargir nossa luz mesmo no meio da escuridão. Podemos ser arautos da justiça mesmo numa casa de intrigas e perversidades. Em segundo lugar, não existem pessoas irrecuperáveis para Deus. Mesmo na casa de César, há gente convertida. Em terceiro lugar, as oportunidades estão à nossa volta. Paulo fez de suas algemas uma plataforma missionária. Era um embaixador em cadeias. Fez da prisão seu campo missionário. As oportunidades de Deus estão à nossa volta. Precisamos de olhos espirituais para vê-las!

GESTÃO E CARREIRA

POR TRÁS DOS RÓTULOS

Mais do que lutar pelo mercado de US$ 30 bilhões no Brasil, marcas investem em produção mais consciente e sustentável

Os últimos anos presenciaram o crescimento da oferta de produtos veganos no mercado brasileiro. Surgiram micros e pequenas empresas especializadas nas prateleiras de supermercados e farmácias foram abastecidas com marcas estrangeiras e nacionais focadas em uma produção mais consciente e sustentável. Players internacionais mantêm seus olhos atentos à oportunidade de investir no Brasil, o quarto colocado no ranking mundial de consumo de HPPC (higiene pessoal, perfumaria e cosméticos), ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão. O Brasil participa com aproximadamente 6,2% no mercado global, com faturamento na casa dos USS30 bilhões.

Diante da ebulição desse setor, é importante entender a diferença entre as denominações dos produtos e não cair no conto do greenwashing (sustentabilidade fake). Os veganos usam ingredientes sintéticos para fugir da exploração animal, mas não significa que são orgânicos (quando 100% dos ingredientes são naturais).

Aproximar o público da experiência e do entendimento do que está por trás da criação dos produtos é o objetivo de Patrícia Lima, criadora da Simple Organic. A publicitária, que trabalhava com moda, decidiu mudar o estilo de vida caótico e workaholic ao engravidar. Do universo das agências até a fundação da Simple, foram três anos de transição, entre pesquisas e prospecção de fornecedores. Hoje, a marca é a primeira brasileira a conquistar os selos Eu Reciclo e Lixo Zero. Além disso, Patrícia revolucionou o conceito das lojas, transformando-as em laboratórios. “Não queria loja com cara de loja. Queria a cliente se sentindo em casa. A ideia evoluiu conforme fizemos encontros e oficinas”, conta a fundadora. “Montamos uma biblioteca de matérias-primas para as pessoas entenderem o que envolve cada passo, cada textura, para que serve cada componente. A curiosidade é muito grande, e trazemos o consumidor para o convívio próximo”.

Seguindo o mesmo caminho de apostar na experiência do consumidor, o salão de cabeleireiros Laces se destaca. Com mais de 32 anos de mercado, o Laces investiu no conceito de hair spa e chegou muito antes da moda do eco-friendly. Tal experiência credenciou Itamar Cechetto, CEO do  Laces, e Cris Dios, fundadora da marca, ao comando das operações dos salões da norte-americana Aveda, no Brasil

“Integrar rentabilidade, sustentabilidade financeira e práticas de comércio justo é um desafio. Durante nossa trajetória, aprendemos que não é interessante ser xiita, mas sim uma empresa que respeita esses conceitos e, em vez de se isolar do mundo convencional, criar canais para dialogar com o público que não tem as mesmas práticas”, explica Itamar, que também é dono do Bioma Salon Aveda.

“Através da marca é possível converter clientes de consumo convencional para o consumo consciente.” Além de usarem produtos veganos e orgânicos, eles afirmam ter compromisso com a questão da sustentabilidade em suas unidades. ”Tecnologia com sustentabilidade custa dinheiro: 30% de toda a matriz energética da loja de Moema [bairro nobre paulistano] é de origem limpa; 33% de todos os recursos da loja da Aveda são provenientes de fontes renováveis e de origem limpa”, garante Itamar.

CUIDADOS COM A PELE

A Biossance é outra marca norte-americana que desembarcou em terras brasileiras nos últimos anos trazendo alternativas para os cuidados com a pele. A empresa nasceu em 2017, em Berkeley (Califórnia), como parte da biotecnológica Amyris.

Os produtos da Biossance são pautados ao uso do esqualano, extraído da cana-de-açúcar como alternativa ao que costumava ser retirado do fígado de tubarões. “Nossa chegada ao Brasil foi marcada por um plano estratégico bem estruturado, garantindo-nos crescimento de 250% em receita em 2019 e projeção de crescimento mínimo de 100% em 2020”. contabiliza Camila Farnezi, diretora da Biossance na América Latina “É um plano agressivo, mas nossa trajetória vem alcançando metas e superando todas as expectativas. Em breve, nossa plataforma digital de conteúdo educativo chegará ao país para ajudar o consumidor a fazer novas escolhas de forma consciente.”

Cinco novos produtos veganos devem ser lançados este ano no Brasil – apenas seis meses após a chegada às prateleiras dos Estados Unidos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SE EU FOSSE VOCÊ

Marido e mulher, afinal, ficam fisicamente parecidos depois de muitos anos de casamento? Segundo a ciência, a resposta é não

Uma máxima conhecida diz que os casamentos duradouros são tão marcantes que, com o passar do tempo, marido e mulher ficam parecidos um com o outro, inclusive fisicamente. Embora a teoria tenha forte apelo ao senso comum, não existe estatística confiável que a comprove ou refute – ou pelo menos não havia até agora. Um grupo de cientistas decidiu avaliar a sério a hipótese, de forma a pôr um ponto-final no assunto. Afinal, a modelo brasileira Gisele Bündchen e o jogador de futebol americano Tom Brady estão mais parecidos depois de tantos anos de casamento? O astro Benedict Cumberbatch e a diretora Sophie Hunter ficaram “a cara de um, focinho do outro”? O estudo publicado pelo periódico Scientific Reports pode ter desvendado a verdade sobre esses e tantos outros casais. Para os apaixonados, contudo, ela é um pouco decepcionante.

O psicólogo Michal Kosinski, especialista em comportamento organizacional da Universidade Stanford (EUA) e líder do trabalho, conduziu sua pesquisa de uma forma relativamente simples: pediu a voluntários que examinassem fotos de casais ao longo do tempo e afirmassem ou negassem que os rostos ficaram parecidos. As mesmas imagens foram submetidas a um software de reconhecimento facial. O objetivo nessa etapa era verificar se a inteligência artificial tinha a mesma opinião dos voluntários humanos.

Foram analisadas fotos públicas de 517 casais: metade tirada dois anos depois do casamento, e a outra metade de vinte a 69 anos após o matrimônio. Coube também aos voluntários escrutinar imagens de uma das partes do casal cercada de seis pessoas. O objetivo era aferir se, de repente, o indivíduo se parecia mais com qualquer figura aleatória do que com seu próprio parceiro. Enquanto isso, um grupo diferente de voluntários foi convidado a adivinhar a probabilidade de uma das seis pessoas ser casada com o homem ou com a mulher em questão. Aqui, buscava-se verificar se a mera semelhança de traços poderia ser suficiente para identificar um casal entre vários rostos na multidão.

Todo o experimento foi replicado com o uso de software de reconhecimento facial. O resultado? Segundo o Kosinski, o software, assim como os voluntários, reconheceu mais similaridades entre os rostos dos casais do que entre as faces de duas pessoas quaisquer. Essa semelhança, contudo, não seria resultado do passar do tempo. Levando em consideração as conclusões dessa pesquisa, o senso comum não teria forte base científica na qual se apoiar.

Mesmo assim, não foi exatamente uma derrota para a crença popular. Uma pesquisa parecida, realizada pela Universidade de Michigan em 1987, não só chegou a uma conclusão diferente como também destacou que o efeito seria mais notável quanto mais feliz fosse o par em questão. É preciso levar em conta, porém, que Michigan não tinha à época os recursos tecnológicos de Stanford. Pin Pin Tea-Makorn, coautora do levantamento mais recente, disse que, mesmo que os resultados de Stanford contradigam os do estudo anterior, isso não significa que um dos dois esteja invalidado.

Conforme o ser humano evolui, os mecanismos psicológicos mudam, trazendo a necessidade de atualizar as pesquisas. Além disso, a equipe de Stanford admite que diversos casais analisados apresentavam de fato similaridade facial, mas ela não havia surgido ao longo do casamento – estava lá desde o princípio. Do ponto de vista evolutivo, faria sentido buscar alguém parecido, já que é uma indicação de compatibilidade genética. Da perspectiva psicológica, as pessoas costumam procurar parceiros fisicamente similares, além daqueles com personalidades e valores semelhantes. Seja como for, casais como Gisele Bündchen e Tom Brady são inegavelmente parecidos – basta espiar a foto que ilustra esta reportagem. Para o resto dos mortais, a semelhança, assim como a beleza, está nos olhos de quem a vê.