GESTÃO E CARREIRA

CONTROLADOR FORA DE CONTROLE

Saiba se você está sendo um bom administrador ou prejudicando a produtividade por conta do controle excessivo da sua empresa

O que você está fazendo agora? Já começou a tarefa que passei? Você está ocupado? Imagine essas frases ditas por um chefe a todo momento enquanto você desempenha suas funções diárias. Causa estresse e muita pressão, não? É comum que o empreendedor queira estar por dentro de cada detalhe do seu negócio, mas é extremamente importante que saiba delegar, abrir mão do controle total das coisas e, principalmente, confiar em seus colaboradores.

Uma pesquisa chamada ”Confiança e Produtividade no Brasil” , realizada por 16 anos pelos pesquisadores Marco Túlio Zanini e Carmen Migueles, da Ebape/IGV e da Fundação Dom Cabral, mostrou que a queda da produtividade nas empresas está muito mais atrelada a fatores culturais do que, de fato, à educação formal. O excesso de regras e o controle de atividades colaboram para os dados, uma vez que acabam por engessar a atuação dos profissionais.

A palavra controle já nos remete à palavra de posse, o que não tem nada de saudável. Se o administrador precisa desse controle, é porque não confia nos seus liderados. “E, se não confia, precisa fazer uma autoanálise para ver se o problema está na entrega da equipe ou na própria gestão”, destaca a psicóloga Larissa Rizk. Ela é também atriz e diretora de produtos na Toque eXperience, que leva para empresas um trabalho bem embasado sobre como lidar com as mais diversas situações, usando o teatro como ferramenta e a psicologia como base. Ela ainda acrescenta a importância de observar os sinais, porque permitir que o processo siga dessa maneira pode, além dos resultados negativos da produtividade, gerar questões como insegurança e desmotivação na equipe.

Essa diminuição na entrega dos resultados vai impactar os lucros da empresa e a saúde emocional de toda a equipe, tornando-a limitada. “O papel do líder é incentivar a criatividade e a autonomia de acordo com as competências e sempre trazendo desafios para os liderados”, completa Larissa.

A mentora de negócios e líderes Renata Tolotti parece ter entendido o recado desde sempre. Ela é sócia de três empresas de ramos diferentes, formada em arquitetura e também atua como consultora. Para ela, o segredo do equilíbrio está na gestão de projetos.

DELEGUE MAIS, FAÇA MENOS

Renata Tolotti entende que cabem a ela as tomadas de decisão, mas não a execução das tarefas. “Minhas empresas não podem parar ou ficar deficitárias se eu não estou presente. Obviamente que estou constantemente mensurando se o crescimento e as ações estão sendo cumpridos. Já fui micro gerenciadora e isso me acarretou acúmulo de tarefas e estresse. Eu tento buscar promoções internas em primeiro momento, antes de buscar fora da empresa. Isso facilita muito colocar a pessoa certa no lugar certo. Quando é feita a contratação externa, somente é feita por indicação ou investigação da carreira do candidato muito bem­ feita”, explica.

A empresária lembra ainda a importância de saber que uma pessoa não é boa em tudo. Por isso, um gestor deve saber qual o resultado que a empresa quer obter, mas não necessariamente como fazer aquilo.

Além disso, ela acredita que o controle excessivo mata a criatividade e soluções efetivas, incluindo a possibilidade de perder talentos dentro da própria empresa e não desenvolver o potencial da equipe. “Confesso até que demorei muito a aprender a dar autonomia. Não fazer absolutamente tudo, principalmente de ordem gerencial, dava a sensação de que eu não fazia nada pela minha empresa. Trabalhar, para mim, era passar o dia mergulhado em pilhas de papel sobre minha mesa, dando ordens, fiscalizando, tomando para mim tudo que fosse possível. Até que um dia eu descobri que não precisava me comportar como funcionário da empresa, mas sim como o gestor dela”, acrescenta o autor do livro Gestão Fácil e dono da franquia odontológica Odonto Excellence, Oseias Gomes. Ele conta que começou devagar a incentivar colaboradores para assumirem cada vez mais o protagonismo de suas atividades quando percebeu que estava sendo centralizador.

O ponto de descoberta foi justamente quando notou que delegava tarefas, mas não dava autonomia para as pessoas, já que nada poderia chegar ao seu destino final sem passar por ele antes. “Eu era tão centralizador que, analisando hoje a minha vida, muitas vezes fui uma espécie de office boy de luxo da minha empresa. Eu me pegava indo ao banco para pagar contas e duplicatas, ficando horas em filas, voltava para a empresa e conversava horas com o jardineiro sobre as plantas na entrada, fiscalizando lâmpadas queimadas e tapetes limpos e outros. Notei que até estava passando por cima de departamentos da empresa, decidindo por eles o que eu mesmo disse que deveriam fazer”, recorda.

Ao notar isso, o passo seguinte foi ter uma equipe de confiança para realizar as tarefas. Mas é preciso pensar em competência aliada à capacitação, conforme explica. Isso porque nem sempre o seu vínculo de confiança pessoal com o profissional significa que ele está apto a desempenhar uma tarefa corretamente. Mais que confiar, é preciso assegurar que o colaborador tenha o necessário para o cargo.

“Os empresários, de forma geral, devem ser capazes de promover uma visão 360º do negócio, incluindo processos, qualidade, ambiente, controle, igualdade e responsabilidade. Gerir os processos significa gerenciar cuidadosamente toda a relação do negócio com o mercado externo e os fluxos internos de todas as fases pelas quais as informações e os clientes devem passar: começo, meio e fim. Uma gestão de processos eficiente resulta em um sistema fluido no qual, desde o início da relação com o cliente até o departamento final, promove-se uma trajetória alinhada com os objetivos e necessidades de todos, ou seja, com o mínimo de ruídos e travas possíveis no processo de venda e relacionamento em todas as frentes em que a empresa atua”, completa.

EMPRESA SAUDÁVEL

Larissa concorda com Oseias. Para ela, a questão principal está nos processos e nos fluxos bem definidos. “O líder deve participar de tomadas de decisões, sim, mas que esteja bem definido até onde a equipe pode chegar “sozinha”, explica.

É claro que nem tudo é tão simples de resolver. Às vezes, o empreendedor pode detectar que está passando dos limites no quesito controle e realizar as mudanças necessárias, mas, mesmo assim, seguir ansioso pela resolução dos processos.

A psicóloga destaca que a ansiedade vem de insegurança, do desejo de controle para que as coisas fluam de acordo com a sua visão, do seu jeito. Quando esse controle foge às mãos do profissional, acaba gerando a ansiedade. “Ou seja, é necessário trabalhar com as questões internas ligadas ao controle e à confiança. Entender que é possível que as coisas aconteçam e tragam resultados positivos com a atuação do outro. Um exemplo que vivi na minha empresa são as altas demandas para experiências vivenciais para humanização, quer dizer, exercícios com técnicas teatrais para unir a equipe, enxergar o melhor do outro, empatia, entre outros benefícios”, sugere.

Em resumo, saudável é tudo aquilo que flui e deixa fluir, que acredita nas competências e potenciais de cada um, na diversidade, e incentiva para que todos cresçam e se desenvolvam. Assim, o negócio também será próspero – além da vontade de aprender sempre.

POR ONDE COMEÇAR

No início, concentre-se em vendas e como fazer seu produto ou serviço melhor que os dos concorrentes. O empreendedor no início não tem muitos indicadores, processos e muito menos planejamento estratégico muito bem definido, pois está em um processo de aprendizagem. Por isso, é fundamental ter a certeza de que o mercado quer o que ele tem a oferecer. “Procure aumentar e controlar as vendas!”, aconselha Renata. Ela lembra ainda que confiança é uma característica conquistada com o tempo, por isso, para ter baixa rotatividade e aumentar a produtividade, ela utiliza ferramentas de análise comportamental, valores pessoais e motivadores.

Usar o perfil mais assertivo para as atribuições da vaga ajuda a encontrar a pessoa certa para a vaga. “O mercado tem uma tendência em contratar pessoas baratas e com pouca experiência e exigirem alta performance. A contratação de pessoas mais preparadas faz com que as empresas precisem de um quadro menor para os mesmos resultados, além de essas pessoas precisarem de menos intervenções nas tarefas, pois estão mais preparadas”, adverte.

É importante lembrar que pessoas felizes trazem melhores resultados, mas que isso não significa um ambiente sem metas claras ou regras de conduta, mas sim processos menos burocráticos e engessados, que não limitem tanto as ações do colaborador.

Mas, no fim das contas, o que mais pode gerar esse tipo de comportamento controlador por parte do empreendedor? “Vaidade. Digo isso porque também fui assim. Foi a vaidade que não me permitiu por muito tempo ver que não é preciso unicamente confiança para lidar com alguém no mundo empresarial, para me sentir confortável com minhas próprias decisões, que não havia necessidade de ser sozinho e fazer tudo sozinho, muito menos achar que só eu estava altamente preparado para o trabalho e que eu não precisava mudar também para continuar trabalhando”, declara Oseias.

Segundo ele, foi preciso despir­ se da vaidade e parar de pensar que apenas ele sabia o que estava fazendo. Era isso que gerava tanta angústia no seu caminho profissional, e essa angústia também encontrou nos líderes de sucesso. Por isso, considera que é necessário abandonarmos todos os estereótipos do passado que geraram as vaidades em nós. “Uma coisa é certa: o poder está fora de moda. Não são as jornadas de trabalho de 15 horas que trarão o sucesso. Por isso, é a visão estratégica que fará do novo empreendedor um líder que realmente importa para os colaboradores, alguém que ‘desempata’ uma situação difícil e sabe o melhor caminho a seguir. Não é o controle obsessivo sobre as planilhas ou sobre a meta de vendas”, finaliza.

MONTE SUA EQUIPE, DELEGUE O TRABALHO

MONTE UMA EQUIPE DE CONFIANÇA: o processo de seleção precisa ser bem embasado nas necessidades do líder e da empresa. É necessária uma proximidade entre eles, que o líder tenha a percepção de quando e o que pode delegar para que juntos construam a relação de confiança e o líder entender que pode delegar cada vez mais. A diversidade é um dos temas mais citados hoje em dia nas empresas, porque as pessoas e os líderes precisam entender que, quanto mais diversa for a equipe, melhores os resultados. Junto com a diversidade vem a soma de competências.

LIDE COM A EQUIPE: conversas. Muitas conversas. Todo bom relacionamento precisa de conversas, onde cada um alinha as suas expectativas. Entender o ponto de vista do outro nos coloca em uma posição de empatia. A empatia não está só ligada a se colocar no lugar do outro e agir como EU gostaria de ser tratado, e sim tratar e agir da forma como o OUTRO gostaria de ser tratado.

TIRO NO PÉ: se o líder não aprender verdadeiramente a delegar, entender e respeitar o outro e expor as suas ansiedades para que juntos construam a relação de confiança, ele não está preparado para ser um líder.

Nas empresas, as competências não estão somente ligadas às competências técnicas dos negócios, mas também às competências emocionais e de relacionamentos.

FONTE: Larissa Rizk, psicóloga e diretora de produtos na Toque Experience.

VOCÊ É CONTROLADOR QUANDO…

•  Quer tomar todas as decisões do negócio sozinho.

•  Não incentiva a análise e a autonomia.

•  Não toma decisões com base em fatos, mas sim relações pessoais.

• Acha que chamar a atenção de um colaborador é o suficiente, sem mostrar as diretrizes do trabalho e ter mais conversas, estabelecendo uma troca.

•  Não está aberto verdadeiramente às ideias e soluções externas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.