EU ACHO …

ESCUTAR É PRECISO

É impossível resistir aos novos podcasts nacionais sobre crimes

A onda de podcasts chegou há alguns anos ao Brasil, mas demorei a embarcar nela. Para mim, não fazia sentido passar horas “escutando” narrativas, quando minha pilha de livros continuava tão alta e minha lista de filmes e séries pendentes não parava de crescer. Então, no início do ano, muitas pessoas me recomendaram o podcast Projeto Humanos sobre o Caso Evandro, feito por Ivan Mizanzuk. Sem expectativas; comecei a escutar e, quando percebi, não conseguia mais parar.

Ao longo dos episódios, somos apresentados a um chocante caso real ocorrido em 1992: o sequestro e o macabro assassinato, do menino Evandro em Guaratuba, no litoral do Paraná. Na época, o fato ficou conhecido como “As bruxas de Guaratuba”, já que as duas principais suspeitas eram Celina e Beatriz Abagge, esposa e filha do prefeito. Segundo a tese policial, as duas haviam feito um ritual de magia com o corpo. Em um roteiro primoroso, Mizanzuk destrincha o caso de modo didático e viciante, com ganchos fortes, jogando com a curiosidade do ouvinte: afinal, as rés são culpadas ou inocentes? Quem são os outros envolvidos? Qual é o papel da imprensa e da polícia nessa investigação repleta de erros grosseiros?

Mesmo sendo autor de histórias policiais, o crime real nunca me fascinou muito. Em geral, a violência é brutal, vulgar e ilógica. Para mim, só faz sentido mergulhar em histórias de crimes reais quando essas narrativas ajudam a discutir temas e lançar reflexões. Sem dúvida, esse é o maior mérito de O Caso Evandro: mais que um bom mistério, Mizanzuk faz uma crônica de costumes da sociedade paranaense, além de crítica brutal à força policial e à imprensa sedenta por sangue a qualquer custo.

No mesmo sentido, vale mencionar Praia dos Ossos, meu vício mais recente. Produzido pela rádio Novela e apresentado por Branca Vianna, o podcast revisita o conhecido Caso Doca Street, ocorrido em 1976. Ângela Diniz, socialite mineira de 32 anos, foi assassinada pelo então namorado, Doca, em Búzios. Mais tarde, Doca usou no tribunal o argumento da legítima defesa da honra para escapar da condenação. Afinal, para que voltar a esse caso mais de quatro décadas depois? O segredo está na abordagem: tendo o crime como ponto de partida, o podcast discute machismo, feminicídio e traz um mosaico potente da sociedade mineira. É chocante acompanhar o jogo argumentativo no Tribunal do Júri, no qual o advogado de defesa (Evandro Lins e Silva) constrói uma narrativa em que Doca é a vítima e Ângela é a “culpada” pela própria morte. Mais atual, impossível.

Na esteira de podcasts brasileiros sobre crimes reais, vale também conferir o Modus Operandi de Carol Moreira e Marina Boa-fé; o Que Crime Foi Esse? de Anna Lívia Marques e Fernanda Renton; o Café com Crime; e o 1001 Crimes. A experiência de ouvir um programa do tipo fica no meio do caminho entre a literatura e o audiovisual. Do cinema, traz o uso do som, da montagem e da trilha. Da literatura, a figura do narrador, que cria cumplicidade. A imersão se aproxima mais daquela de quem devora um livro. Com um bom podcast para escutar, lavar a louça, correr na esteira ou arrumar a casa pode ser mais divertido do que você imagina.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

OS DIAMANTES SÃO ETERNOS

O mais famoso biquíni de todos os tempos, celebrizado pela primeira Bond girl, Ursula Andress, vai a leilão e pode ser arrematado por 2.8 milhões de reais

O novo filme de James Bond, Sem Tempo para Morrer, capítulo final do ator Daniel Craig na pele do agente secreto a serviço de Sua Majestade, foi adiado pela segunda vez nesta temporada. Originalmente programado para chegar aos cinemas em abril, precisou ser postergado para novembro por causa da pandemia e, em uma decisão que paralisou de vez o mercado exibidor, acabou empurrado para abril de 2021, completando o ciclo de um ano de atraso. Apesar disso, no rastro da expectativa da estreia – tem potencial para arrecadar 1 bilhão de dólares -, os negócios que cercam o filme continuam em andamento, inclusive o leilão de itens que foram usados na produção das 24 aventuras anteriores do agente 007.

Equipamentos e armas (que não necessariamente funcionam) estarão disponíveis, até 12 de novembro, a todos os cinéfilos endinheirados que quiserem dar lances na casa de leilões Profiles in History, cuja especialidade são relíquias de Hollywood. Do catálogo on-line que já está aberto ao público, nenhum item é mais cobiçado do que o biquini que transformou Ursula Andress em uma celebridade instantânea e na primeira Bond girl – uma linhagem de mulheres deslumbrantes que passariam a fazer parte das missões futuras do espião britânico. O traje de duas peças entrou para a história em 1962, quando Úrsula saiu de um mergulho nas águas quentes da Jamaica para deparar com Sean Connery em uma cena do filme 007 contra o Satânico Dr. No, na estreia do personagem no cinema.

O biquíni branco-marfim de Úrsula está cercado de lendas que se misturam com fatos, como quase tudo no mundo cinematográfico. A atriz suíça, então com 26 anos, que falava inglês carregado de sotaque e precisou ser dublada na edição final, não teria gostado do figurino de sua personagem, Honey Ryder, e decidiu ela mesma desenhar o traje de banho. O top, feito de linha de algodão, foi montado sobre os aros de um sutiã meia taça. A parte de baixo, também forrada de algodão com amarração nas alças, era forte o suficiente para resistir a mergulhos, mas não para sustentar uma faca de pesca. Um cinto do uniforme da Real Marinha Britânica foi tomado emprestado de um oficial de verdade que estava por perto e colocado às pressas na cintura da moça.

Úrsula Andress não lançou o biquíni, mas tirou de cena o maiô inteiriço e celebrizou a invenção de pouquíssimo pano de Louis Réard, um engenheiro automotivo francês que, em 1946, criou a novidade. Úrsula, hoje com 84 anos, afirmou certa vez que o biquíni branco-marfim mudou sua vida, transformando-a no símbolo sexual de uma geração. Mesmo assim, em 2001 ela pôs o conjunto em leilão na casa Christie’s de Londres, onde foi arrematado por 41.125 libras esterlinas (cerca de 300.000 reais) pelo dono da rede de restaurantes Planet Hollywood. Em novembro, o atual proprietário espera vendê-lo por 500.000 dólares (2,8 milhões de reais). Não foram feitas réplicas da cobiçada peça. O biquíni desenhado e usado pela primeira Bond girl do mundo é único – jamais haverá outro igual.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE NOVEMBRO

DIVÓRCIO, A APOSTASIA DO AMOR

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério… (Mateus 19.9a).

O casamento está-se transformando em um contrato de risco. A sociedade contemporânea aderiu aos produtos descartáveis e olha para o casamento como uma experiência temporária. Os véus das noivas estão cada vez mais longos, e os casamentos cada vez mais curtos. Em alguns países já há mais divórcios que casamentos. Casa-se sem reflexão e divorcia-se por qualquer motivo. Muitos casamentos que começaram com juras de amor e sonhos de felicidade terminam com um traumático divórcio. Mais feridos que os cônjuges, ficam os filhos, pois os cônjuges podem até se apartar um do outro, mas não há divórcio entre pais e filhos. Os filhos são as maiores vítimas do divórcio. A Bíblia diz que Deus odeia o divórcio (Malaquias 2.14). O divórcio é a apostasia do amor, a quebra da aliança, o fracasso do casamento. Deus instituiu o casamento, e não o divórcio. Este é permitido por Deus e não ordenado por ele. Permitido apenas por causa da dureza do coração, ou seja, pela incapacidade de perdoar. O perdão é melhor que o divórcio. Não há pessoas perfeitas nem casamentos perfeitos. Todo casamento exige investimento e renúncia. Todo casamento exige paciência e perdão. As crises podem ser vencidas e as limitações podem ser superadas. O amor tudo vence!

GESTÃO E CARREIRA

O LADO ESCURO DAS COZINHAS

O que são as “dark kitchens”, um tipo de negócio que segue o embalo do crescimento do mercado de entrega de comidas

A árvore de tronco largo e com galhos que se espalham para todos os lados costuma chamar a atenção de quem passa em frente ao Figueira Rubaiyat, um dos endereços da alta gastronomia no bairro dos Jardins em São Paulo. Famoso pela comida, o restaurante também é referência em termos de ambiente, com as mesas espalhadas embaixo da copa da figueira centenária. Apesar disso, o Rubaiyat está se preparando para expandir um novo modelo de negócios, sem os garçons, maitres e o glamour presentes em seus restaurantes em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Santiago do Chile, Buenos Aires e Madri. Ainda este ano, o grupo pretende entrar em uma “dark kitchen” – cozinhas industriais alugadas apenas para quem quer fazer delivery. O termo teve origem nos Estados Unidos na última década, quando começaram a surgir “cozinhas escuras” para alugar em contêineres. O Rubaiyat vai inaugurar uma unidade na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e outra em Campinas, no interior paulista. A experiência com delivery começou há três anos usando a estrutura dos restaurantes, mas é em 2020, com o aluguel de espaços em dark kitchens, que o grupo pretende dar início a um período de aceleração do crescimento. A meta é que esse segmento responda por 25% do faturamento até 2025.

A Rappi, startup mais conhecida pelo serviço de entrega, é o grande nome quando o assunto é a construção de centros de cozinhas industriais para alugar. Desde 2015, já montou 100 dark kitchens em todas as regiões do país. “Os restaurantes estão muito preparados para atender os clientes presencialmente. Quando o delivery chega, eles percebem uma dificuldade na adaptação. Isso gera a necessidade de ter um espaço com uma dinâmica só para entrega”, disse Georgia Sanches, diretora de contas na Rappi Brasil. Fora do Brasil, a empresa tem mais de 100 cozinhas nesse modelo em operação na Colômbia, México, Chile e Argentina, e abrirá em breve uma filial no Peru. A expectativa é implementar 600 espaços na América Latina ainda em 2020.

Do ponto de vista dos restaurantes que adotaram o modelo da dark kitchen, a vantagem é poder fazer um teste de demanda sem ter de montar uma estrutura própria. Por outro lado, restaurantes fiéis somente ao salão têm sentido uma queda do movimento. “Para abrir um restaurante novo demora um ano e meio. Para colocar em operação uma unidade numa dark kitchen é só um mês e meio”, disse Diego Iglesias, um dos sócios do Rubaiyat. Em caso de insucesso, a desmontagem do negócio também é mais rápida. Pensando nessas vantagens, a Al Capizza apostou no modelo no final de 2018. Além de oito estabelecimentos com salão, a pizzaria conta com 13 dark kitchens para atender a capital paulista. “O investimento elevou em dez vezes o faturamento da empresa que hoje conta com a produção mensal de 70 mil pizzas”, contou um dos sócios da Al Capizza, Marcos Mazieri.

A expansão das dark kitchens tem acontecido, principalmente, a partir do interesse de restaurantes já estabelecidos ou de investidores. Para empreendedores com menos dinheiro para aplicar, uma alternativa é o que se convencionou chamar de co-working gastronômico. Nas dark kitchens, as empresas alugam a cozinha inteira. Nos co-workings, o alvo é uma bancada. No Co-Kitchen, situado no bairro de Botafogo, no Rio, Cynthia Jacques, que produz azeites aromatizados, geleias e conservas, conseguiu acesso a um pedaço de uma cozinha industrial e um lugar para armazenar produtos. “No Co-Kitchen conseguimos produzir oito vezes mais em um dia de trabalho. comparando com o que faço em casa. Isso me proporciona tempo para cuidar de outros aspectos do negócio. Além disso, a adequação com a vigilância sanitária é menos uma preocupação”, afirmou Jacques, que também conta com as entregas para aumentar suas vendas.

A expansão do delivery é evidente até mesmo para quem não é adepto de pedir comida pelo aplicativo ou telefone. Uma medida do sucesso é o número de motos de entregadores nas ruas. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasei), o mercado de delivery gastronômico cresceu cerca de 10% ao ano e, em 2019, movimentou mais de R$ 130 bilhões. Pelos dados do Guiabolso, um aplicativo de gestão financeira, os brasileiros despendem 7,2% do seu orçamento com pedidos de entregas, e as empresas do setor apostam que esse percentual pode aumentar bem mais. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dá uma ideia do tamanho do mercado a ser abocanhado. As famílias brasileiras gastam, em média, 30% de seu orçamento com alimentação fora de casa.

Entre as causas no aumento dos pedidos de entrega de comida estão os aplicativos. Quem saía da casa dos pais para morar sozinho até a década de 1980 não conseguia nem comprar uma linha de telefone fixo, na época artigo raro e caro sob a tutela estatal. Com a popularização dos smartphones, fazer pedidos tornou-se algo instantâneo. “Há a questão econômica. A opção de comer em casa pode ser mais barata”, explicou Michel Alcoforado, especialista em comportamento do consumidor e fundador da consultoria Consumoteca.

No ecossistema do delivery também há as empresas que nasceram já voltadas para o sistema de entregas e montaram a própria cozinha. Esse foi o caso do Rão, fundado em 2013 no Rio de Janeiro. Especializado em comida japonesa num primeiro momento, a empresa se expandiu, ampliou a linha de produtos para pizzas e cozinha árabe e se transformou numa franquia, com mais de 70 lojas no Brasil, Estados Unidos e Portugal. “Pegamos nossa fórmula de operações e replicamos em outras frentes. O serviço de entrega não é só um desdobramento do setor de bares e restaurantes, mas uma tendência que, cada vez mais, se expande para outros segmentos”, contou Guilherme Lemos, presidente do Grupo Rão, que também tem um braço de conveniência. Somente em janeiro foram inauguradas quatro unidades no estado do Rio. As próximas marcas a serem lançadas serão de cachorro­ quente, o DogRão, e comida brasileira, Rão Grill. A expectativa do grupo é ganhar relevância no mercado nacional com foco em São Paulo e na região sul do país, contou Lemos. Fora do Brasil, os próximos países serão Espanha, França, Itália e Dubai.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TDP – MÚLTIPLOS “EUS”

Entenda como funciona o distúrbio caracterizado pela presença de duas ou mais personalidades em um único indivíduo

Vozes sobressaíam à musica do ambiente e seguiam Alice onde quer que fosse. Então, um apagão em sua mente tirava dela as últimas horas vividas: era impossível lembrar do que se passara. Os pesadelos que sempre a perseguiram agora eram mais detalhados e pareciam ainda mais reais. Ao menos três vezes por semana, ela acordava em um local desconhecido, fora de casa. Por vezes, tinha corte em seus braços ou se deparava com objetos que não sabia de onde vieram. No livro Hoje Eu Sou Alice, a autora relata a trajetória de uma mulher de 40 anos que sofre com Transtorno Dissociativo de Personalidade (TDP). Além de lutar contra o vício em álcool e a anorexia, ela precisa conviver com suas nove personalidades – a maioria delas crianças e de diferentes idades.

DA FICÇÃO PARA A VIDA REAL

Em 1908, com a descoberta da esquizofrenia, diz-se que muitos casos de TDP tenham sido mal diagnosticados. Com o lançamento do filme Sybil, nos anos 1970, o transtorno ganhou maior atenção. A história conta o caso real de Shirley Ardel Mason, paciente psiquiátrica americana e artista comercial que obteve notoriedade por possuir o distúrbio.

“O TDP tem sido estudado por médicos e cientistas há mais de cem anos. Em 1980 foi chamado de Transtorno de Personalidade Múltipla no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que descreve os sintomas das condições psiquiátricas. Esse nome foi alterado na edição de 1994”, ressalta o médico neurologista Martin Portner. O especialista comenta que, na descrição do caso da famosa paciente Anna O. por Sigmund Freud, na virada do século XIX, o estado secundário da personalidade da paciente é descrito por um estado alterado da consciência. “Trata-se do nascimento do conceito do transtorno de personalidade múltipla. Mas a falta de conhecimento e de recursos de neuroimagem e neuropatologia acabaram deixando as conjecturas daquela época inconclusas”, declara.

Entretanto, o problema vivido pela personagem do livro e pela mulher retratada no cinema é apenas um dos tipos de transtorno de personalidade existentes. O DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição) os divide em três conjuntos. O grupo A envolve os transtornos de personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica. Desconfiados ao extremo, indivíduos que possuam algum desses distúrbios “suspeitam e entram em conflito com tudo e todos. Muitas vezes, acham os outros maldosos e pensam que estão querendo prejudicá-los. Acabam sendo excêntricos”, explica o neurocientista Aristides Brito. No grupo B estão as pessoas com transtorno de personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista. São aqueles que, segundo o profissional, estão sempre reclamando e dramatizando as situações. Também não costumam respeitar leis e regras.

Já o último grupo abrange pessoas com transtornos de personalidade evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva. “Eles são mais isolados e podem se tomar agressivos caso sintam-se ‘invadidos’ em seus espaços. Possuem um exagero por organização”, completa o especialista.

O DIAGNÓSTICO

Os quadros de TDP são raros e graves, ocorrendo, geralmente, após grandes episódios traumáticos. Atualmente, existe um forte consenso de que o distúrbio dissociativo de personalidade seja fruto de uma interrupção – causada pelo trauma – no desenvolvimento psicológico de uma criança, impedindo os processos normais de formação e estabilização da identidade. “Relatos de traumas repetitivos na infância em pessoas com TDP (que foram comprovados) incluem queima, mutilação e exploração. O abuso sexual também é rotineiramente relatado, juntamente com abuso emocional e negligência. Em resposta a um trauma de grande magnitude, a criança desenvolve estados ou identidades múltiplos, muitas vezes conflitantes. Elas refletem contradições radicais em seus primeiros apegos, ambientes sociais e familiares – por exemplo, o pai que oscila imprevisivelmente entre a agressão e o cuidado”, revela Martin Portner.

A psicóloga Lidiane Silva explica que, para que seja feito o diagnóstico do transtorno, é necessário que, primeiramente, o médico avalie as queixas do paciente e se há depressão e/ou transtorno de estresse pós-traumático, somatização ou até mesmo um quadro de esquizofrenia, podendo, assim, chegar ao diagnóstico de TDP. “A avaliação é demorada e, muitas vezes, é necessário obter o relato de familiares para que se possa fechar o diagnóstico correto, pontua a profissional.

DIVIDIDA EM PARTES

Uma pessoa com TDP possui duas ou mais personalidades diferentes e distintas. De acordo com estudos, é possível que esse número chegue a 23, podendo ter, cada uma, idade, gênero e, inclusive, doenças diferentes. “Não é comum que chegue a tanto, mas pode acontecer, levando em consideração o fator traumático que desencadeou tal distúrbio”, comenta Lidiane.

Além disso, a pessoa com o distúrbio possui uma personalidade habitual, chamada de “core” e as personalidades alternativas, ou “alteres”. É como se ocorresse uma divisão de uma entidade que deveria ser única. Segundo Martin Portner, quando a mudança de uma personalidade para outra ocorre e um alter assume o controle, o indivíduo é acometido por uma amnésia, ou seja, ele não se recorda dos traços da outra personalidade que exibia alguns minutos atrás. “Cada alter possui traços individuais distintos, uma história pessoal e um modo de pensar e de se relacionar com o ambiente ao seu redor. Eles podem ter gênero, nome e conjunto de boas maneiras e preferências diferentes. É incrível, mas é possível que o alter tenha, até mesmo, alergias diferentes do que a ‘pessoa’ principal”, expõe o neurologista.

Apesar da geralmente ocorrer a amnésia no momento em que há a mudança de personalidade, em algumas situações, a pessoa com TDP pode estar ciente de seus outros estados e das memórias dos tempos que uma alteração é dominante. “O estresse ou a lembrança de um trauma podem desencadear uma mudança entre alteres”, completa o profissional.