EU ACHO …

O FIM DO AMOR ROMÂNTICO

A busca exacerbada pela individualidade nos tempos atuais põe em xeque a ideia da fusão de almas, historicamente cultivada, e faz refletir sobre novos arranjos de relacionamento

Não ache que a sua experiência pessoal é uma regra, muita gente tem mais sorte do que a senhora no relacionamento. Se a senhora nunca teve um amor de verdade, o azar é seu. Nunca foi amada, por isso fala mal do amor. É complexada porque nunca ninguém te quis. Que pessoa fria. É contra o amor.

Esses são alguns dos inúmeros ataques dirigidos a mim nas redes sociais quando critico o ideal do amor romântico. Imaginam que estou, na verdade, criticando o amor. E não se trata disso. A questão é que existe uma crença enganosa de que essa é a única forma possível de amar – um equívoco, na minha visão. O amor é uma construção social que, a cada período da história, se apresenta de uma maneira diferente. No caso do viés romântico, que fique claro: o problema não reside em mandar flores ou jantar à luz de velas, tudo muito bem-vindo. O que critico mesmo são as falsas expectativas alimentadas, baseadas na idealização da pessoa amada. Características de personalidade que ela não possui lhe são atribuídas. No fim, não se relaciona com a figura real, mas com aquela projetada de acordo com as nossas necessidades.

Qual é atualmente a propaganda mais difundida, poderosa e eficaz do mundo ocidental? Coca-Cola, Apple, Microsoft? Não. É justamente a do amor romântico. Ela chega até nós diariamente por meio de novelas, músicas, cinema, publicidade, com seu conjunto de crenças e valores que, mesmo inconscientemente, define como devemos sentir e agir em um relacionamento. Ocorre que estamos em meio a um processo de profunda mudança de mentalidade. A incessante busca da individualidade caracteriza a nossa época. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida e desenvolver seu potencial. E o amor romântico propõe o exato oposto disso. Ele prega que os dois se transformem em um só.

O tempo vai mostrando como essa forma de amor se desenrola. É difícil resistir à convivência diária do casamento. Nela, a excessiva intimidade torna obrigatório enxergar o parceiro como ele é e, assim, a idealização não tem mais corno se sustentar. O desencanto é inevitável e aí vêm o tédio, o sofrimento e a sensação de ter sido enganado. Quando percebemos que o outro não é a personificação de nossas fantasias, nos ressentimos e, geralmente, o culpamos.

O amor romântico apresenta atitudes e ideais próprios. Contém o conceito de que duas pessoas se transformam numa única, havendo complementação total entre elas, sem nada lhes faltar. E abarca ainda outras expectativas, que na prática não são realistas: a de que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, de que o amado é a única fonte de interesse do outro e que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. O resultado dessas crenças na vida a dois é que, com frequência, um acaba imaginando o outro como ele não é e espera dele coisas que não pode dar.

Após a Antiguidade, o cristianismo estabeleceu um hiato em que o amor se voltou para Deus. Ele só ressurgiu no século XII, com os trovadores, nobres pertencentes à corte da Provença, na França. O amor romântico mais tarde se irradiou por outras regiões e classes sociais da Europa medieval, transformando o comportamento de homens e mulheres. Ele ainda não podia fazer parte do casamento, que se dava por interesses econômicos e políticos. Só passou a ser uma opção no matrimônio no século XIX, depois da Revolução Industrial, quando se formou a família nuclear –   pai, mãe e filhos. Como fenômeno de massa, aparece nos anos 1940. Todo mundo passou a desejar casar por amor, incentivado pelos filmes de Hollywood.

Entre os anseios contemporâneos, porém, preservar a individualidade começa a ser fundamental para a existência – e é nesse ponto que a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente, por trilhar exatamente o caminho inverso. Apesar de isso vir se exacerbando, não é de hoje que a humanidade repensa as diversas formas de amar. A partir dos anos 1960, o surgimento da pílula e os movimentos de contracultura – feminista, gay, hippie – levaram ao rompimento dos modelos tradicionais da relação afetiva. O sociólogo inglês Anthony Giddens chama de “transformação da intimidade” o fato de milhares de homens e mulheres ocidentais estarem tomando consciência da importância de desaprender e reaprender a amar.

Sim, o amor romântico está saindo de cena e levando com ele sua principal característica: a exigência de exclusividade. Abre-se espaço assim para novos arranjos, como o das relações livres, sem compromisso com a fidelidade, do amor a três, do poliamor. Em meu livro Amor na Vitrine trato desse tema. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas vão desejar se fechar numa relação a dois, optando por relações múltiplas. No Ocidente, cada vez mais se discute se a monogamia é realmente uma fórmula melhor que a não monogamia. Aos que não acreditam nessa possibilidade, basta visitar os anos 1950 e 1960. Se naquele tempo alguém dissesse que um dia seria natural a moças não se casarem virgens, seria tachado de irresponsável. Afirmavam que a sociedade não estava pronta para tamanha reviravolta. A virgindade era precondição para o casamento. O mesmo ocorreria a respeito da separação de um casal, vista então como tragédia familiar. Quem poderia admitir que, décadas depois, se tornaria tão comum?

Há 47 anos atendo casais em meu consultório. Passei, de uns tempos para cá, a receber parceiros que põem à mesa novos conflitos, derivados do fato de que um deles gostaria de manter a relação não monogâmica. A outra parte muitas vezes se desespera com tal possibilidade, o que é compreensível em uma transição entre antigos e novos valores. Assistimos a grandes transformações e tudo indica que a aspiração por liberdade começa a predominar. A fantasia romântica da fusão de almas faz ambos perderem a própria identidade. As mudanças são evidentemente lentas e graduais, mas me parecem definitivas.

***REGINA NAVARRO LINS – é psicanalista e autora de vários livros, entre eles Amor na Vitrine.

OUTROS OLHARES

TRANSPARÊNCIA É BOM

Agora chamados de “alinhadores”, os aparelhos dentários feitos de acrílico ganham força no Brasil, especialmente entre jovens e crianças

É inevitável que os aparelhos dentários sejam imaginados como recursos modernos da ortodontia. No entanto, há relatos de sua existência em múmias de 4.000 anos do Antigo Egito. E mais: versões um pouco mais recentes eram desenhadas com metais grosseiros enrolados em volta dos dentes. O nome do jogo era funcionalidade e não estética. Thomas Berdmore, que cuidava das arcadas do rei George III (1738-1820) da Inglaterra, foi o primeiro a perceber que não bastavam as correções: “Eles dão um ar juvenil e saudável ao semblante, melhoram o tom de voz, tornam a pronúncia mais agradável e distinta, ajudam na mastigação e evitam que os dentes opostos fiquem proeminentes”. E, já no século XX, a boca metálica despontou como símbolo de infância e atalho para o bullying dos colegas.

A história mudou. Hoje, põem-se aparelhos para mexer em mínimos defeitos, muitas vezes perceptíveis apenas pelas implacáveis lentes dos programas de videoconferência ou por olhos mágicos de mães e pais. E os metais, até os mais delicados, agora estão sendo massivamente substituídos por materiais transparentes. Eis a nova onda: os “alinhadores”, assim chamados, são feitos de plaquinhas de acrílico, acetato e poliuretano. Exercem, supostamente, a mesma função dos aparelhos tradicionais, mas com discrição. Dados do Data Bridge Market Research, empresa de pesquisa de mercado, estima um crescimento de 38% no mercado global do produto até 2027.

Para chegar a tal delicadeza no material, há doses imensas de tecnologia por trás do processo de desenvolvimento. Na consulta inicial, o ortodontista faz a moldagem da boca com um scanner digital e gera a imagem da arcada dentária do paciente em 3D. Com a ajuda de um software, o especialista determina os movimentos exatos que o modelo deverá exercer para enquadrar os defeitos. A placa tem aproximadamente 0,7 milímetro de espessura e afasta ou aproxima os dentes alguns milímetros por semana. Ao longo do tratamento, são usadas diversas placas personalizadas, trocadas periodicamente. Elas não são coladas. Podem ser retiradas ao longo do dia, portanto, durante as refeições e na higienização bucal. “Por isso são procuradas especialmente por crianças, adolescentes e jovens adultos”, diz a dentista Liliam Fucuda, da Affetto Odontologia Preventiva. Em dois anos, a busca pelos alinhadores cresceu 60% no Brasil. A individualização faz com que o tempo de tratamento seja até duas vezes menor em relação aos modelos metálicos tradicionais. É, contudo, recurso caro: 10.000 reais, quase o dobro do custo de um aparelho convencional.

Não restam dúvidas de que a estética é um importante motivo de atração para os alinhadores. Eles, curiosamente, viraram um item de moda, e ostentá-los concede ar contemporâneo e jovial a quem os utiliza, na contramão da imagem do passado.

Não por acaso, artistas de Hollywood, como Tom Cruise, e influencers de todo o tipo andam por aí nas redes sociais abrindo o sorrisão, que supõem ser charmoso. Sim, pode até ser – mas o que vale mesmo é um aspecto escondido, e muitas vezes esquecido. Uma arcada defeituosa pode ter consequências impensáveis para muita gente, desde cárie e gengivite até problemas de dicção, de qualidade da respiração e dores de cabeça, de ouvido e até de coluna. A saúde, é claro, deve vir antes da aparência.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE NOVEMBRO

AS TEMPESTADES DA VIDA

Entretanto, o barco já estava longe, a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário (Mateus 14.24).

As tempestades da vida são inevitáveis, imprevisíveis e inadministráveis. A vida não é uma viagem por mares esmaltados. Não poucas vezes, as tempestades furiosas levantam ondas gigantescas contra nós. Nessas horas, somos varridos por ventos contrários e temos a sensação de que o naufrágio será inevitável. Assim estavam os discípulos de Jesus no mar da Galileia. Mesmo cumprindo uma ordem expressa de Jesus para entrarem no barco e atravessarem até a outra margem do lago, os discípulos foram surpreendidos por uma borrasca medonha. Tentaram inutilmente administrar a crise. Debalde foram seus esforços. O barco estava indo a pique enquanto os discípulos se encharcavam de medo.  A noite trevosa já estava adiantada. Já passavam das 3 horas da madrugada, e a situação se tornava cada vez mais ameaçadora. Quando todas as esperanças estavam no fim, Jesus foi ao encontro dos discípulos, andando sobre o mar e mostrando que ele sempre vem ao nosso encontro, ainda que na última volta do ponteiro. Ele não vem para dizer que nosso problema é insolúvel, mas vem calcando debaixo dos seus pés aquilo que nos ameaça. Antes, porém, de acalmar o mar revolto e aquietar os ventos sibilantes, Jesus acalmou seus discípulos. A tempestade que estava dentro deles era maior que a tempestade exterior. O maior problema dos discípulos eram seus sentimentos, e não suas circunstâncias. Jesus ainda acalma as tempestades da nossa vida!

GESTÃO E CARREIRA

O CUPIDO DO SUCESSO

A dificuldade das pessoas com mais de 40 anos para encontrar a sua alma gêmea despertou a criação de um dos maiores sites de encontros da América Latina

A história do site Coroa Metade começou com uma queixa do seu criador, o jornalista Airton Gontow, que já estava com mais de 40 anos, separado e não encontrava a sua alma-gêmea. Ele começou a perceber que esse problema não ocorria apenas com ele, mas com os amigos e conhecidos. “Separei-me aos 43 anos e, por dois anos, mesmo não sendo tímido, vivenciei as diversas dificuldades que um homem mais velho passa para encontrar uma nova companheira. Não estamos mais na faculdade, muitas vezes não temos vontade de frequentar baladas e geralmente não queremos nos envolver afetivamente com alguém do trabalho”, relata.

Foi então que, há oito anos, ele foi a uma festa de amigos e constatou que a sua necessidade era a mesma de toda a sua geração. No encontro, percebi que 60% dos antigos colegas eram solteiros, viúvos ou divorciados. E todos se queixavam da falta de uma companheira para a vida toda. “Muitas amigas me diziam indignadas: Faço academia, estou em forma, os homens olham para mim no shopping e em restaurantes, não tenho problema de encontrar um homem que passe um dia, uma semana ou um mês comigo, mas é tão complicado achar alguém que queira uma relação estável com uma mulher que vive com dois filhos”, lembra. Gontow voltou para casa pensando no que poderia criar para suprir a necessidade deste público. Estava ali a oportunidade de um novo negócio, e imediatamente ele teve a ideia de um site de relacionamento especificamente para essa faixa etária. Então nasceu o nome Coroa Metade e assim surgia o primeiro site de relacionamento para as pessoas “maduras”, em 2011.

A GRANDE SACADA

O nome Coroa Metade foi a grande sacada do site, pois resumia em duas palavras o seu objetivo. Ele já direcionava as pessoas para aquela ideia da “procura da cara metade”.

Mas, ainda assim, o criador do site realizou várias pesquisas antes de bater o martelo e se decidir por ele. Existia uma questão importante que precisava ser levada em conta: as pessoas não gostavam de ser chamadas de coroas. Por isso, resolveu fazer uma pesquisa para saber a aceitação do nome, que obteve 84% de aprovação. “De maneira geral, as pessoas percebem que é um nome carinhoso e, acima de tudo, hoje, a moda não é esconder a idade, mas mostrar que tem saúde e qualidade de vida na idade que a pessoa tem”, afirma. Além do nome, em suas pesquisas, o jornalista constatou que um site para um grupo com essa faixa etária passa uma ideia de mais credibilidade. O fato de as pessoas terem mais idade demostra que são mais seletivas e não podem perder mais o seu tempo.

Segundo Airton Gontow, o site é procurado basicamente por homens e mulheres que não têm tempo a perder em encontros sem sentido, mas que ainda acreditam que é possível encontrar um grande amor. ”Pensando nisso, procuramos garantir aos nossos usuários a oportunidade de conhecer com discrição, foco e privacidade pessoas interessantes, com os mesmos valores e objetivos”, explica.

Não faltam diferenciais ao site, desde o nome até o seu pioneirismo. “O principal foi o pioneirismo, o relacionamento direto com os usuários, procurando corrigir falhas e também alertar sobre questões de segurança. Além disso, nos situamos no mercado como um site voltado para um público específico. O nosso cliente tem buscas mais sérias e procura não por uma companhia, mas uma companheira ou companheiro”, mostra.

NEM TUDO FORAM FLORES

Como todo negócio inovador, no início o site Coroa Metade enfrentou momentos difíceis. O criador não tinha dinheiro para investir em anúncios e por isso dependia das reações da mídia. Por sorte, logo começaram a sair matérias nos jornais e revistas, o que ajudou a fidelizar pessoas e atrair outras nos estados em que não atuava. “Não havia ninguém no site no estado do Amazonas, por exemplo. Aí conseguimos uma matéria espetacular em um grande jornal local, que escreveu sobre a novidade. Logo se inscreveram 120 pessoas: 70 mulheres e 50 homens, com buscas específicas de altura, religião, idade, nível cultural, cidade etc., mas existiam poucas opções para os perfis procurados. Quando conquistamos a segunda matéria, as primeiras 120 pessoas já haviam nos deixado”, recorda a dificuldade.

Atualmente, o site já atinge todo o Brasil, mas fica fisicamente na Zona Sul de São Paulo. Ele funciona com uma equipe enxuta, de sete pessoas, e conta com cerca de 500 mil pessoas cadastradas. No entanto, se contarem quem deixou de ser usuário, quem só visitou o site e quem os visitou pelas redes sociais, passaram por mais de dez milhões de pessoas.

Os casos de sucesso são incontáveis, já uniu mais de 79 casais, centenas de namoros, fora os que não voltam para contar.

COMO FUNCIONA

O site tem funcionamento simples, baseado no modelo de match maker, surgido nos Estados Unidos. As pessoas preenchem amplos cadastros antes de começar a teclar. O objetivo é traçar o perfil pessoal do eventual parceiro(a) e assim, aumentar as chances de encontrar alguém que realmente valha a pena. “O cadastro é gratuito, mas existe uma assinatura (conta Premium), que dá diversas vantagens, como acesso ao chat, aparecer antes nas buscas, saber quem viu o perfil e se comunicar com todos os usuários do site, mesmo com quem não é pagante”, relata o empresário.

O preço da assinatura mensal do Coroa Metade vai de R$18,90 a R$37,90, dependendo do prazo e forma de pagamento. A assinatura de apenas um mês sai por R$37,90. A trimestral sai por R$74,70 (em até três vezes de 24,90 com cartão de crédito) e a semestral à vista por R$113,40 (que equivale a R$18,90 por mês, ou seja, 50% de desconto em relação ao preço da assinatura mensal) ou R$125,40 a prazo (em até seis vezes de R$20,90, com cartão de crédito). O site dá de presente a “degustação” da assinatura, para que o usuário teste antes de assinar.

Sobre ganhos, Airton conta que, apesar de os sites serem lucrativos, o mercado é bem competitivo e tem como maior desafio o fato de que a maioria dos usuários não quer assinar um serviço pago. Além disso, é preciso estar em constante evolução. ”Agora, além de aprimorar o site, estamos trabalhando para lançar um novo. Por isso, até agora tudo que ganhamos reinvestimos em melhorias e no novo projeto, que é um site de relacionamentos para veganos e vegetarianos, o naVEGcomigo”, diz.

Os planos do jornalista não param por aí. Ele pretende criar um portal também voltado para o público LGBT. O portal e o canal de YouTube Mundo Coroa possui notícias diversas e entrevistas voltadas para o público maduro. ”Não é uma tarefa fácil, mas faremos de tudo para conseguir, com boas informações, voltadas para o público maduro, em áreas como longevidade, turismo, saúde, cultura, lazer e comportamento”, exemplifica.

Para quem deseja se aventurar nessa área, o empreendedor indica muita pesquisa, observar o mercado, calcular os custos. Um. Bom caminho é procurar parceiros tecnológicos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MAIS RAZÃO, MENOS IMPÚLSO, MENOS PRAZER

Uma pesquisa exclusiva mostra a transformação do comportamento do brasileiro durante a pandemia: ele poupa mais, se diverte menos e está pessimista em relação ao futuro

No mundo pré-pandêmico, o professor universitário Roberto Francisco de Abreu, de 56 anos, não economizava. Todos os dias havia um motivo para sair, celebrar, encontrar amigos e não necessariamente se preocupar com a conta no final da noite. A rotina se mantinha ainda que, ao fim de cada mês, algumas contas ficassem no vermelho. A falta de preocupação com o futuro se refletia na qualidade – e no preço – de seu sono. Abreu dormia sem pensar nos boletos a pagar e, mesmo no inverno, ligava o ar-condicionado e se cobria com um edredom. Em março, tudo mudou. As aulas minguaram, o salário caiu e a pandemia tirou a leveza despreocupada de seus dias. “Fiquei assustado, e ainda estou, porque não tinha uma reserva. É uma cultura do brasileiro acreditar que o amanhã vai ser melhor. E, quando fomos impactados por uma coisa dessas, percebemos que o amanhã é incerto”, contou.

De março para cá, Abreu se tornou outro homem. Fez uma reorganização financeira severa. Comida, só preparada em casa. Ar-condicionado, só quando indispensável. Hoje, mesmo com menos aulas e recebendo menos, saiu do negativo para uma situação em que consegue economizar um pouco todo mês com a ajuda de uma consultora financeira. Cortar, renegociar e poupar são os novos mantras. Mais do que uma mudança pontual, ele mudou sua forma de gastar. “É uma mudança de olhar, mais consciente. Está havendo uma reorganização no consumo, e acredito que veio para ficar. Já estou fazendo uma projeção financeira para o futuro, quanto preciso economizar para me aposentar com tranquilidade”, afirmou o professor, que revelou não vir comprando nenhuma roupa já há sete meses.

O comportamento mais parcimonioso com os gastos, com foco em economizar, ganhou força entre os brasileiros durante a pandemia. Uma pesquisa conduzida pela agência de publicidade DPZ&T com 2 mil pessoas, em três etapas, entre os meses de junho e setembro, mostra o início de uma transformação. Segundo os dados, obtidos com exclusividade, o comportamento despreocupado deu lugar à cautela e à intenção de planejar o futuro. No período pesquisado, quem acreditava que a economia e o emprego se recuperariam não chegou ao patamar dos 20% dos entrevistados. Em junho, eram 18% dos entrevistados em comparação a 19% do mês passado. Outros 50% discordaram da afirmação. Os que concordavam que “estamos saindo dessa”, em junho, eram 22% e, dois meses depois, 31%. Nas três etapas da pesquisa, o índice de pessoas que concordavam com a afirmação “O futuro será muito melhor” se manteve idêntico: 36%. “As pessoas estão mais ligadas no final da pandemia, mas o futuro é uma incógnita”, afirmou Fernando Diniz, sócio da DPZ&T.

Com menos medo da pandemia e mais disposição em buscar novas fontes de renda, o motorista Anderson Buriche, de 42 anos, que havia sido dispensado do emprego em março, dedicou-se a trabalhar para aplicativos de transporte. O que costumava ser sua segunda fonte de renda virou a principal ocupação. Sua esposa, Renata, manicure, também ficou sem trabalho. No auge da pandemia, ele chegou a rodar dez horas em um dia e ganhar apenas RS 70. Para complementar a renda, colocou a mulher e o filho de 17 anos, que está sem aula no colégio estadual, para tocarem um pequeno negócio de venda de água. “É um dinheirinho que não sai do orçamento. Tivemos cortes, como parar de pedir lanche, fazer churrasco, comprar roupa para meu filho de 2 anos. Enxugamos ao máximo, e ainda tive de renegociar a dívida do cartão, mas estou honrando tudo”, disse Buriche. Ele revelou não ter confiança em uma volta à normalidade.

O estudo, que contemplou as classes A, B e C, mostra diferenças comportamentais entre faixas de renda. A classe C estava mais otimista que as outras em junho: 24% acreditavam que a situação melhoraria (em comparação a 19% da classe A). Agora, a curva se inverteu: 39% dos entrevistados de renda alta acreditam na melhora mais rápida em comparação a 35% da classe C. Esses dois percentuais são, contudo, a minoria. Mais de 60% dos entrevistados têm uma avaliação mais moderada ou pessimista sobre as perspectivas de recuperação.

A forma como homens e mull1eres encaram a pandemia também é diferente. Segundo a pesquisa, 67% dos homens afirmaram ter mais medo de serem infectados em junho do que tinham no início, enquanto as mulheres eram 77%. Na economia doméstica, 71% das mulheres afirmaram conduzirem suas finanças com cautela e planejamento em relação a 64% dos homens. Para o economista Eduardo Giannetti, há um paralelo estreito entre saúde e economia. “É o valor que se atribui ao futuro. As mulheres têm mais apreço pelos valores que se materializam no tempo, o homem é mais impulsivo. É bastante consistente com a psicologia econômica dos gêneros: prudência, parcimônia, cautela; a mulher pensa mais no futuro da família do que o homem”, explicou.

Na casa da bióloga llana Salorenzo, de 41 anos, em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a relação com o consumo também precisou ser repensada. Os cuidados com a família, que inclui a filha pequena e a mãe imunodeprimida, além dos com a casa e o trabalho, se tomaram um malabarismo desafiador. A família segue em isolamento a maior parte do tempo e optou por não mandar a pequena para a escola. Assim, mesmo sendo “contra consumismo e geração de lixo”, começaram a dar muitos brinquedos para a criança na tentativa de ocupá-la. “Eu me dei conta, sentamos e conversamos. Estávamos indo por um caminho diferente do que deve ser. Agora estamos mais adaptados”, contou. Mas os desafios continuam: “Não tenho coragem de trazer a funcionária. A casa fica uma loucura, a gente faz quando dá, um dia lava um banheiro, no outro dia lava outro”, disse. O desespero inicial passou, mas ela ainda não tem confiança de que tudo voltará ao normal tão cedo. “Hoje, o medo diminuiu não porque nos acomodamos, mas porque já sabemos do que se trata. Mas tenho certeza de que a curto prazo não sairemos dessa.”

O consumo nos últimos meses foi sustentado por um balão de oxigênio. Como medida para mitigar os efeitos da crise, 67 milhões de pessoas receberam um auxílio emergencial do governo, que custou aos cofres públicos RS 174 bilhões, o que representa cinco vezes o gasto anual do Bolsa Família em apenas cinco meses. Não fosse essa medida, projeta-se que o sentimento de descrença em relação à economia impactaria mais os indicadores. Giannetti explicou que muitos daqueles que hoje ainda recebem o auxílio deixaram de engordar as fileiras do desemprego durante o recebimento do benefício – mas agora deverão voltar a ela. “É muito provável, e já está começando a acontecer, que o desemprego dê um salto nos próximos meses. Aí, sim, virá a onda forte e brava do impacto socioeconômico da pandemia”, previu.

O advento do auxílio e a maior cautela com os gastos fez com que, apesar da crise e do desemprego, os entrevistados afirmassem conseguir poupar mais. Para 46%, a necessidade de ter algum investimento se deu em razão da preocupação com o futuro. “Isso pode ter efeito pedagógico na população, porque o brasileiro é um dos povos que menos poupam no planeta. Mesmo países com populações com nível de renda menor têm mais poupança, como a China. O brasileiro é imediatista, é um traço comportamental porque vem de culturas imediatistas. Outro elemento é o clima. Ao longo de muitas gerações isso tem impacto brutal”, explicou Giannetti. Outra mudança observada é a melhora no convívio familiar. Eles disseram ter melhorado a convivência como resultado do home office e do isolamento e também afirmaram estar estudando mais. O professor Roberto Abreu sentiu isso no dia a dia de seus cursos, com alunos mais interessados em participar. “Acho que perceberam que é um valor que estão investindo e agora entendem que precisam se dedicar mais.”

Apesar das mudanças, ainda há dúvidas sobre se o brasileiro cauteloso veio para ficar ou se é apenas um produto temporário da pandemia. Giannelti acredita na segunda opção. “Quando sentir que acabou, deve haver um momento de desafogo. Depois do luto, consternação e pânico, vem um rebote, como foi o Carnaval pós-gripe espanhola. Nos Estados Unidos, após o 11 de setembro, durante algumas semanas, despencou a demanda por produtos dietéticos, academias de ginástica, tudo que exigia fazer um esforço imediato. Havia dificuldade de abrir mão de prazeres por beneficias que não se sabia se seriam colhidos. A onda hedonista virá quando virarmos a página”, profetizou. Em 1920, uma das mais marcantes marchinhas do Carnaval, composta por Assis Valente e eternizada na voz de Carmen Miranda, ilustrava a sede por vida. Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar (…) E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei um samba em traje de maiô/E o tal do mundo não se acabou.”

O QUE VOCÊ APRENDEU COM A PANDEMIA?

“Passar mais tempo com os animais aqui de casa, que são considerados parte da família, e não ter de lidar com pessoas na rua”

HOMEM, 37 ANOS, CLASSE B

“A convivência diária com a família, porque estamos mais próximos e tentando resolver as coisas com mais simplicidade”.

HOMEM, 43 ANOS, CLASSE A

“Estou tendo aulas on-line, o que eliminou o teste de 160 km diários indo e voltando da faculdade e poupou tempo, dinheiro e esforço”.

HOMEM, 21 ANOS, CLASSE C

“Pude estudar coisas novas na internet e pude repensar o que realmente importa em nossas vidas. Também vi filmes e séries”.

MULHER, 65 ANOS, CLASSE B

Criei consciência corporal e espiritual. Me dediquei mais a isso nesse período, me sinto mais saudável e motivada”.

MULHER, 44 ANOS, CLASSE B

“Consigo descansar mais, pois fui mandado embora do meu último emprego. Assisto às coisas que gosto e limpo a casa para ajudar minha mãe”

HOMEM, 22 ANOS, CLASSE C

“Me aproximei mais de pessoas e vi que estar próximo nem sempre é estar perto”.

MULHER, 20 ANOS, CLASSE B

“Acho que aprendi a dar mais valor à vida como um todo. Sinto que fiquei mais próximo dos meus familiares, e isso é ótimo”.

HOMEM, 21 ANOS, CLASSE C

“Por atingir quase o fundo do poço, eu decidi que se eu não tentasse melhorar algumas áreas da minha vida, como alimentação, eu ia morrer. Então, melhorei”.

MULHER, 24 ANOS, CLASSE B

“Me sinto inseguro de curto a médio prazo com relação à economia e à geração de novos empregos, porém sinto que meu vinculo familiar (com esposa e filha) está melhor do que antes da pandemia”.

HOMEM, 38ANOS, CLASSE C

“Me preocupo mais com o bem-estar da minha família, como nunca tinha me preocupado antes. Temo perder alguém pela epidemia, passei a me importar mais com a minha família”.

HOMEM, 41 ANOS, CLASSE B

“Apesar de todo o problema, de ficar sem trabalhar, ficar sem dinheiro, ficar mais tempo com meus filhos está valendo a pena.”

HOMEM, 41 ANOS, CLASSE C

“Procurei ficar mais próxima de Deus e me conhecer melhor”.

MULHER, 44 ANOS, CLASSE B

“As reflexões que fiz sobre companheirismo e amizade me ajudaram a enxergar as pessoas que realmente atendem a esses adjetivos”.

MULHER, 43 ANOS, CLASSE A

“Estou arriscando mais na gastronomia e preparando diferentes pratos. aprendi a trabalhar com diferentes softwares por causa das aulas remotas”.

MULHER, 43 ANOS, CLASSE B

“Saber quanto somos finitos”.

HOMEM, 33 ANOS, CLASSE B