EU ACHO …

O CAMINHO DAS PEDRAS

Descer a pé a Estrada Velha de Santos vale cada passo

Uma pesquisa recente revelou que um dos maiores anseios relacionados ao fim da quarentena é rever o mar. Também gosto do mar, é claro, mas sempre valorizei mais caminhos que destinos. Já escrevi aqui sobre minha experiência de andarilha pelo caminho francês de Santiago de Compostela, que percorri com Luiz, meu marido. Imagens dessa viagem de 2018, assim como as lembranças do turbilhão de sensações vividas, tomam conta de mim até hoje.

Durante o confinamento, não via a hora de curtir meus filhos e retomar minhas caminhadas de aventura, sem hora para voltar. No primeiro fim de semana desta primavera com ares de verão, tive o privilégio de realizar os dois desejos num único programa. Luiz, filhas, genro e eu agendamos uma descida a pé até a Baixada Santista pela Estrada Velha.

O curto percurso, de apenas 9 quilômetros, é rodeado de Mata Atlântica, sítios históricos, quedas d’água. A experiência foi potencializada por céu nublado, cerração baixa, garoa persistente, friozinho refrescante na medida certa – a intempérie amena, eu sei, é companheira fiel das melhores trilhas. Primeira rodovia asfaltada da América Latina, o caminho paulista começa em São Bernardo do Campo e termina em Cubatão. A flora, repleta de espécies raras, é digna de um jardim botânico selvagem. Quanto aos monumentos, eles nos remetem aos anos 1920, nos idos da Primeira República. Há também ecos imperiais, como a histórica Calçada do Lorena, por onde dom Pedro subiu a serra para declarara independência do Brasil às margens plácidas do Ipiranga.

Para quem quer matar a vontade de ver o mar, nem precisa ir até o fim. Basta chegar ao Pouso Paranapiacaba, que em tupi-guarani quer dizer “lugar de onde se avista o mar”. Paramos ainda no Belvedere Circular – ponto em que a Estrada Velha cruza a Calçada do Lorena – e no Rancho da Maioridade, assim nomeado em alusão à emancipação de dom Pedro II. Segundo a lenda, o local teria servido de alcova para encontros furtivos entre o imperador dom Pedro I e Maria Domitila, a Marquesa de Santos. Fake news. A data de construção é posterior àquele relacionamento – sem falar que a Marquesa de Santos nunca pôs os pés em Santos.

Andar soba garoa, ao contrário do que se imagina, pode ser agradável. O farelo d’água afasta o calor e os mosquitos. Se a temperatura mais baixa incomodar, o segredo é relaxar, soltar os ombros, deixar o sangue fluir – e ignorar o tênis molhado. O corpo se acostuma. Em tempos de pandemia, a garoa tem a vantagem de dispersar aglomerações. Durante o percurso, não vimos ninguém, salvo um casal que passou por nós em sentido contrário. Foi um passeio animado, que nos deu oportunidade para uma boa conversa, enquanto comíamos paçocas e sanduíches levados nas mochilas.

Como é bom sentir a tranquilidade de estar em família a céu aberto, ainda mais em cenário tão exuberante. Terminei o programa já pensando no próximo. Fiquei imaginando a quantidade de rotas de aventura espalhadas pelo país. Elas merecem ser percorridas, como se faz nas trilhas de Santiago de Compostela, ao som do hino-canção “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.

*** LUCILIA DINIZ                  

OUTROS OLHARES

EXCESSO? NEM DE VIRTUDES

Temos orgulho de ser corajosos, mas, sem o sentimento de medo e autopreservação, a espécie humana não sobreviveria. É o que revelam as mais recentes descobertas

Pupilas dilatadas, mãos suadas, sensação de frio na barriga. Essas são manifestações orgânicas típicas de medo – emoção que, apesar de rejeitada e associada à covardia, tem uma importância evolutiva que salvou nossa espécie da extinção. Trabalhos acadêmicos e um novo livro jogam agora luz sobre uma das mais sombrias reações humanas, suscitando debates entre cientistas. “Trata-se de um mecanismo de sobrevivência universal”, define a professora de psicologia Elizabeth Phelps, da Universidade de Nova York. Segundo a especialista, passamos boa parte da vida aprendendo a diferenciar o que representa ou não perigo. A psicóloga clínica Neuza Corassa, diretora do Centro de Psicologia Especializado em Medos, de Curitiba, afirma que o sentimento é, de fato, inerente à espécie humana, mas ressalta que cada indivíduo reage à sua maneira: “Alguns precisam de terapia para lidar com isso, outros, não. Na última década, aprendemos a respeitar os temores de cada um”.

Para além das fobias sociais, experimentos recentes comprovam que certas aversões nascem implantadas em nós, como um chip de computador, na forma de instinto. Tome-se, por exemplo, o pavor que muitas pessoas têm de aranhas e cobras. Um estudo conduzido pelas universidades de Leipzig, na Alemanha, e de Uppsala, na Suécia, chegou à conclusão de que até mesmo bebês apresentam uma reação de stress ao ver esses animais. Ou seja, mesmo sendo o primeiro contato, eles já sabem instintivamente o perigo que os bichos podem representar.

No livro The Nature of Fear: Survival Lessons from the Wild (A essência do medo: lições de sobrevivência da natureza, ainda sem edição brasileira), Daniel T. Blumstein, estudioso do comportamento animal, debruça-se sobre a história natural do medo, exemplificando, com casos da vida selvagem, como ele tem sido benéfico para todos os seres vivos, especialmente o homem. “É uma ferramenta que, acima de tudo, nos mantém seguros”, disse Blumstein. “O mundo é um lugar perigoso, e cabe a nós lidarmos com esses riscos, já que eliminá-los por completo é impossível.”

O medo tem papel fundamental na evolução humana, mas funciona melhor longe dos extremismos. O Homo sapiens, ao longo de milhares de anos, não teria escapado se partisse para cima de qualquer animal que encontrasse pela frente. E tampouco duraria se ficasse paralisado a ponto de não conseguir fugir quando necessário. O mesmo valeria no convívio com a própria espécie. Afinal, deixar o pavor atingir um nível debilitante poderia fazer com que um indivíduo se isolasse de seus pares, reduzindo sua capacidade de se proteger. Nenhum dos extremos permitiria que ele sobrevivesse por muito tempo.

Quando se fala em evolução, é preciso lembrar que a função biológica do ser vivo é justamente sobreviver, ao menos até se multiplicar, passando adiante as suas características por meio do DNA. No mundo animal, já foi comprovado que a habilidade de identificar as coisas a se temer é um traço que pode ser geneticamente herdado. Ou seja: o indivíduo perseverante passa a sua prole o recurso instintivo de discernir entre uma situação perigosa e uma situação normal – como contatou-se no experimento com os bebês. Assumindo que nem o exageradamente corajoso nem o excessivamente covarde teriam vivido o suficiente para gerar descendentes, conclui-se que nossos ancestrais foram aqueles que ficaram alertas em relação às ameaças, mas não a ponto de abdicar da vida. Nós seríamos, portanto, fruto desses indivíduos, medrosos apenas quando as situações, de fato, exigiam.

Graças ao componente social do ser humano, nosso rol de fobias costuma aumentar ao longo da vida. Um sintoma disso é que, em tempos de Covid-19, novos medos parecem aflorar de todos os lados. Na Austrália, relatos de avistamento de morcegos – primeiro animal relacionado à disseminação do novo coronavírus – cresceram de forma expressiva, não necessariamente porque mais morcegos começaram a aparecer, mas porque as pessoas passaram a enxergar nesse animal um perigo que antes não viam – temor que, por sinal, talvez nem se justifique. A história mostra que o pânico em algumas sociedades já levou várias espécies locais à extinção, causando danos irreparáveis ao meio ambiente.

Como então reagir adequadamente aos temores que, deum maneira ou de outra, estarão presentes na vida de todos? “Não há um número mágico quando o assunto é a medida certa do medo – tudo depende da circunstância”, responde Blumstein. “Se eu tivesse que deixar um recado para a sociedade sobre o tema, seria ligado à política: cuidado com o candidato que usa o medo para levá-los a votar nele. Se ele diz que é o único capaz de acabar com o risco, vote em outro. O risco não pode ser eliminado, só administrado.” Sábio conselho do escritor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 05 DE NOVEMBRO

ANSIEDADE, O ESTRANGULAMENTO DA ALMA

Por isso, vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber… (Mateus 6.25a).

A Organização Mundial de Saúde diz que mais de 50% das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas de doenças psicossomáticas. A ansiedade é o estrangulamento da alma. Os psicólogos explicam que a ansiedade é a mãe das neuroses, a doença do século, o pecado mais democrático da nossa geração. Está presente em todas as famílias, atingindo jovens e velhos; doutores e analfabetos; crentes e ateus. A ansiedade é inútil, pois por intermédio dela não podemos acrescentar nem sequer um côvado à nossa existência. A ansiedade é prejudicial, pois nos rouba a energia do presente, em vez de nos capacitar a enfrentar os problemas do futuro. A ansiedade é sinal de incredulidade, pois aqueles que não conhecem a Deus são os que se preocupam com o dia de amanhã. Quando buscarmos o reino de Deus em primeiro lugar, as demais coisas nos serão acrescentadas. O apóstolo Paulo fala sobre a cura da ansiedade, dando-nos três conselhos: orar corretamente (Filipenses 4.6), pensar corretamente (v. 7) e agir corretamente (v. 9). Quando conhecemos a grandeza de Deus e apresentamos a ele nossa ansiedade, quando pensamos nas coisas de Deus e agimos de forma coerente com nossa fé, então vencemos a ansiedade e desfrutamos da paz de Deus, que excede todo o entendimento.

GESTÃO E CARREIRA

NEGÓCIO LEGALIZADO

Desde dezembro do ano passado, a venda de remédios à base de maconha foi regulamentada no Brasil. Essa novidade cria um promissor mercado ligado à erva – que pode movimentar 4,6 bilhões de reais

Aos 9 anos, a administradora Cristina Taddeo, hoje com 45, foi diagnosticada com uma doença nefrológica (que afeta os rins). Sua vida mudou completamente e ela enfrentou uma rotina de medicamentos diários, consultas e exames. Em 2002, aos 28 anos, sua condição se deteriorou e Cristina teve de adicionar sessões de hemodiálise em seu dia a dia. Mas algo a diferenciava dos outros pacientes. “Embora seja comum ter náuseas e dores, eu era a única na sala do hospital que não passava mal durante o tratamento”, afirma Cristina. O motivo? Ela tomava um óleo feito à base de maconha. “Descobri pesquisando por conta própria e preparava na minha cozinha [algo que na época e a inda hoje é considerado ilegal]”, diz.

Depois de cinco meses fazendo hemodiálise, Cristina precisou se submeter a seu primeiro transplante de rim (o segundo seria em 2013), e mesmo o sucesso da cirurgia não evitou os efeitos colaterais. “Eu tinha dores agudas provocadas pela reação do corpo ao órgão novo e muita indisposição. Foi aí que intensifiquei o uso do óleo”, diz. O potencial terapêutico da administração dos princípios ativos tetraidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), ambos presentes em diversas espécies da planta da maconha, foi descoberto pela ciência no final dos anos 90.

Acontece que o corpo humano produz naturalmente substâncias endocanabinoides, semelhantes àquelas encontradas na Cannabis, para estimular receptores espalhados no cérebro, órgãos, tecidos, glândulas e células imunológicas. Essas estruturas auxiliam na homeostase, que é a manutenção de um ambiente corporal interno estável, apesar das alterações no ambiente externo. Quando processos terapêuticos ou doenças, como os de Cristina, interferem nesse equilíbrio, os princípios ativos da maconha ajudam a potencializar artificialmente a homeostase.

A melhora notável foi o estalo para Cristina perceber que poderia ajudar outras pessoas. Por isso, há 17 anos, criou a BeHemp, fundação que auxilia pacientes com doenças que podem ser beneficiados pelo canabidiol. Para criar a fundação, a empreendedora investiu dinheiro do próprio bolso e contou com a ajuda da família. “Antes, já havia empreendido com franquias de balada, roupas e outros negócios, mas apenas com a BeHemp consegui realização pessoal e profissional”, diz. Atualmente, a instituição auxilia cerca ele 600 famílias com medicamentos, acompanhamento médico e visitas aos pacientes, tudo gratuitamente. “A dinâmica da família muda quando uma pessoa tem uma doença crônica. O paciente sofre e seus familiares também”, explica.

Em 2018, dois anos após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar a importação de remédios com THC, Cristina criou a HempCare Pharma, companhia revendedora de medicamentos, suplementos, cosméticos e alimentos feitos de Cannabis. Há um mês, Cristina fundou outro negócio, o Dr. Hemp, clínica médica especializada em tratamentos com Cannabis medicinal. “Percebi que poderia ganhar dinheiro e gerar impacto social”, diz. Hoje, a HempCare vende, em média, 600 produtos por mês, e a Dr. Hemp está com a agenda lotada até o final de março.

NOVO MERCADO

Atualmente, cerca de 40 países já autorizaram a maconha para fins terapêuticos – inclusive os Estados Unidos, nação que liderou o combate à planta no século 20. Por lá, onde cada unidade federativa tem a liberdade de formular as próprias leis, 33 dos 50 estados americanos, mais o distrito federal já regulamentaram os remédios à base de Cannabis. E, com a liberação para uso medicinal (e algumas vezes recreativo) no mundo, começa a surgir um novo e crescente mercado de negócios ligados à erva, que atrai profissionais e empreendedores.

Só em 2018 o mercado global de maconha movimentou 18 bilhões de dólares. De acordo com um relatório da consultoria New Frontier Data, feito em parceria com a The Green Hub, aceleradora brasileira de startups de Cannabis, apenas no Brasil essa indústria pode movimentar outros 4,6 bilhões de reais nos próximos três anos. A expectativa de crescimento do segmento é tanta que ganhou até um nome: green rush, em alusão a gold rush, ou “corrida do ouro”, que agitou o Oeste americano no século 19.

Por aqui, desde 2015 pacientes que tenham receita médica e autorização da Anvisa podem importar remédios derivados da maconha. Em quase cinco anos, pelo menos 9.540 pessoas já trouxeram 78.000 unidades de produtos para tratar problemas como dores crônicas, efeitos colaterais de quimioterapia e de transplantes, e doenças como epilepsia, autismo, mal de Parkinson e neoplasia maligna.

No final do ano passado, a legislação facilitou um pouco o acesso a esses itens. Em dezembro, a Anvisa editou a Resolução nº 327, que regulamentou a venda de remédios à base de Cannabis no país. Com a decisão, ficará mais simples importar os medicamentos e os compostos para a fabricação dos produtos em território nacional. E, ainda que o plantio e a importação da planta (ou de partes dela, como flor, folha, caule e bulbo) in natura continuem proibidos, a tendência é que os preços caiam e o consumo aumente, fomentando o green rush tupiniquim. “O mercado de Cannabis é muito promissor e cobiçado, e empresas de diferentes setores [universidades, importadoras, farmacêuticas, laboratórios, farmácias, transporte, segurança] já estão se preparando para atuar nesse nicho”, diz Carolina Sellani, analista da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

FALTA INFORMAÇÃO

A própria Abiquifi possui um grupo de trabalho com advogados, médicos, representantes de 14 empresas farmacêuticas e outros profissionais dedicados ao estudo do mercado de maconha medicinal. “Além das questões técnicas, há todo um trabalho de comunicação a ser implementado. As companhias estão se articulando para orientar, informar e educar os trabalhadores do setor”, diz Carolina. Nesse sentido, em abril São Paulo vai sediar o Cannabis Thinking, fórum multidisciplinar sobre maconha medicinal, voltado para médicos e profissionais da área farmacêutica. Hoje, dos 450.000 doutores com registro nos diferentes conselhos regionais de medicina (CRMs) brasileiros, apenas 1.100 prescrevem remédios feitos de Cannabis.

Para Renato Filev, doutor em neurociência e pesquisador do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), vinculado à Unifesp, o Conselho Federal de Medicina (CFM) é tímido em sua relação com a maconha e só aconselha o uso em casos de epilepsia. “Há muita desinformação e desconfiança entre os médicos”, diz. Por outro lado, ele defende que há também curiosidade e demanda por informações de qualidade. “Como o complexo sistema endocanabinoide é uma descoberta recente na medicina, os livros didáticos e as universidades ainda não absorveram total mente esse conhecimento”, afirma Renato. O pesquisador acredita que o assunto fará parte dos currículos em breve e cita que a Universidade Estácio promoveu, no final de 2019, um curso de extensão para médicos sobre o uso de Cannabis. “As vagas esgotaram e houve fila de espera”, diz. O próprio Cebrid, pioneiro em pesquisas com maconha, desde 2017 mantém um curso online gratuito sobre o tema, que contou com a participação de 3.000 pessoas. Também no ano passado, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, criou a primeira disciplina obrigatória sobre Cannabis nos cursos de medicina e farmácia – o que mostra o interesse por parte da comunidade pelo assunto.

HÁ VAGAS

Mas não são somente os profissionais de saúde que terão de se atualizar se quiserem aproveitar o crescimento do mercado de Cannabis. “Até chegarmos a uma cadeia estável, o setor precisará de pessoas de diferentes áreas”, diz Camila Teixeira, CEO da Indeov, consultoria que representa comercialmente empresas estrangeiras de maconha que desejem entrar no Brasil.

Para ter uma ideia do potencial de geração de empregos, é possível pegar o exemplo da Flórida, estado americano com 21 milhões de habitantes. Dados de 2019 mostram que, desde a regulamentação da maconha para uso medicinal em 2017, o setor criou 15.000 novas vagas de trabalho na região. No Brasil, não há uma estimativa sobre a quantidade de empregos que serão gerados, mas especialistas acreditam que, somando todas as carreiras – advogados, educadores, técnicos para farmácias e laboratórios, especialistas em comunicação, marketing, relações públicas, transporte, segurança e logística -, o número deve superar centenas de milhares. “Por causa do alto desemprego no país, não faltam trabalhadores interessados, mas experiência na área ninguém tem. Isso não é necessariamente um problema, porque, assim como ocorre em outros setores novos, as companhias acabam formando os profissionais”, completa José Bacellar, CEO da VerdeMed Brasil, farmacêutica de Cannabis canadense que chegou ao país em 2018 e está com dez vagas abertas.

Aliás, as contratações já começam a aparecer. A HempCare está em busca de um CEO do mercado farmacêutico e, segundo Cristina, a clínica Dr. Hemp não teve dificuldade para preencher as quatro vagas abertas para médicos quando foi fundada. “Recebemos mais de 30 currículos de profissionais, muitos já com experiência e pesquisas no uso de Cannabis medicinal”, conta. Outra companhia que está expandindo é a Entourage Phytolab, criada e presidida por Caio Santos Abreu. Fundada em 2014, a empresa hoje conta com oito funcionários. “Incluindo os prestadores externos, somos em 20 pessoas e estamos com cinco vagas para cargos técnicos”, diz o empreendedor.

Advogado de formação, Caio iniciou a pesquisa do assunto em 2005 devido a um câncer que sua mãe, Sueli, teve. “Ela fez quimioterapia e passou de 50 para 38 quilos, tinha muitas dores, náuseas, falta de apetite e fraqueza”, conta. Sueli começou a tomar um óleo de Cannabis artesanal, comprado ilegalmente, e a melhora foi evidente. “Ela começou a se alimentar mais, recuperou o peso e revigorou o ânimo. Embora tenha falecido em 2009, os desconfortos causados pela doença foram atenuados”, diz Caio.

OS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

A Entourage Phytolab foi a primeira empresa do Brasil a importar legalmente a planta de maconha para fins científicos, por meio de uma autorização judicial. Para isso, em 2017, firmou uma parceria com a Unicamp e deu início às pesquisas. Importou 10 quilos de maconha canadense de alta qualidade – carga avaliada em 200.000 reais, que ficava em uma câmara fria vigiada por seguranças e câmeras – e desenvolveu medicamentos com tecnologia 100% nacional para tratar a epilepsia. “As vendas do produto devem começar no último trimestre deste ano ou apenas em 2021”, afirma Caio.

Isso porque, antes de ser liberados para venda, os medicamentos nacionais e importados à base de maconha devem ser aprovados e registrados pela Anvisa, processo que pode durar de seis meses a um ano. “Em 2020, a agência terá de lidar com muitos pedidos simultâneos de aprovação e registro, algo que pode fazer com que os produtos não cheguem às prateleiras tão rapidamente”, avalia Sueli de Freitas, especialista ela área regulatória do escritório L.O. Baptista Advogados e integrante do grupo de trabalho sobre Cannabis medicinal da Abiquifi. A regulamentação da Anvisa, porém, não foi o último capítulo dos debates sobre o uso de maconha no Brasil. Em outubro do ano passado, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou um parecer ao Supremo Tribunal Federal para que fosse determinado um prazo para a agência regulamentar também o plantio para fins terapêuticos – atualmente, apenas 40 famílias brasileiras têm autorização judicial para plantar maconha e fazer o medicamento. Em contrapartida, no mesmo mês, o STF adiou o julgamento que definirá se o porte de drogas para consumo próprio é crime – três ministros já votaram pela legalização. O Canadá, que possui uma das legislações sobre Cannabis mais avançadas do mundo, pode ser um bom exemplo para o Brasil. O país aprovou o uso medicinal em 2001 e o recreativo em 2018. Por causa disso, os canadenses estão largando na frente no mercado de maconha medicinal e, das dez maiores companhias do mundo que atuam no ramo, seis são de lá.

Com 37 milhões de habitantes, o país da América do Norte tem mais de 360.000 usuários frequentes de Cannabis medicinal registrados em seu sistema público de saúde e lidera globalmente a exportação tanto das plantas como do óleo. O Brasil, com seus mais de 200 milhões de cidadãos, tem cerca de 4 milhões de potenciais usuários medicinais, de acordo com o relatório da New Frontier Data. É daí que vem todo o interesse no mercado.

Os remédios são apenas uma parcela do setor, que pode se expandir para uso recreativo, veterinário, têxtil, cosmético e até alimentício. Nos próximos cinco anos, de acordo com diferentes estimativas, de 60 a 80 nações terão autorizado o uso medicinal e/ou recreativo. Com isso, a planta Cannabis caminha para se tornar uma commodity agrícola global, negociada internacionalmente como o café, por exemplo. O Brasil, em razão dos milhões de hectares de terras cultiváveis e da vasta experiência em agronegócio, está muito bem posicionado para se destacar nesse mercado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XVIII

UM MUNDO DIFERENTE

As deficiências intelectuais ou atrasos cognitivos não têm cura e podem ser percebidos ainda na infância

Dificuldades para resolver problemas ou compreender determinadas ideias consideradas mais abstratas, absorver o obedecer a regras, estabelecer relações sociais ou realizar ações simples do cotidiano são algumas das características de quem é diagnosticado como deficiente intelectual.

De acordo com o neuropediatra Clay Brites, “esses indivíduos apresentam enorme imaturidade e não conseguem fazer associações de significados entre as coisas ou resolver problemas do dia adia sem o auxílio de terceiros”. Por isso, é imprescindível que o portador do problema seja cercado de estímulos que o ajudem a vencer suas limitações e adquirir independência em suas relações com o mundo. “As pessoas com DI têm um comportamento excessivamente imaturo, infantil para a idade e com nítida impressão de que não funciona no ambiente de acordo com sua realidade de vida”, completa o profissional.

TIPOS DE DEFICIÊNCIA

“Do ponto de vista da prática neurológica, no consultório ou cm hospitais, a DI pode ser subdividida em deficiência intelectual sindrômica, quando défices intelectuais associados a outros sinais e sintomas médicos estão presentes, e na deficiência intelectual não-sindrômica, em que a limitação cognitiva e das competências funcionais aparecem sem outras anormalidades”, define o neurologista Martin Portner. O profissional aponta que a síndrome de Down e a síndrome do X frágil são exemplos de deficiências intelectuais sindrômicas.

A deficiência intelectual afeta, aproximadamente, 2 a 3% da população em geral. Os casos de DI não-sindrômicas ou idiopáticas são responsáveis por cerca de 30 a 50% desses casos. Importante lembrar também que essas deficiências têm início no período de desenvolvimento humano e não na fase adulta. Por sua vez, pessoas com transtorno cognitivo que possuem ou já possuíram QI normal, mas agora mostram confusão, esquecimento ou dificuldade de concentração, têm comprometimento cognitivo típico de lesões cerebrais, que são efeitos secundários de medicamentos ou demência.

NÚMEROS IMPORTANTES

Dados divulgados pelo IBGE em 2015 apontam que 0,8% da população brasileira têm algum tipo de deficiência intelectual e a maioria (0,5%) já nasceu com tais limitações. Desse total de pessoas com deficiência intelectual, mais da metade (54,8%) possui grau intenso ou muito intenso de limitação e cerca de 30% frequentam algum serviço de reabilitação cm saúde. Outra informação relevante é que os percentuais mais elevados de deficiência foram encontrados em pessoas com o ensino fundamental incompleto ou sem instrução. “Deficiência significa uma condição onde a dificuldade do indivíduo é maior do que sua capacidade de concluir ou resolver situações sociais e acadêmicas e, judicialmente, devem ser realizadas as devidas adaptações. A deficiência intelectual é um dos diversos tipos de deficiências que existem”, explica o neuropediatra. São,aproximadamente, dois milhões de casos por ano no Brasil.

FATORES DE RISCO

As alterações genéticas e cromossômicas aparecem como causa mais comum para a manifestação de uma deficiência intelectual ainda que, em cerca de 40% dos casos seja impossível identificar exatamente por que ela acontece. Algumas motivações são biomédicas, como distúrbios metabólicos, prematuridade, lesões cerebrais, etc. Outras são geradas por dificuldades no pré-natal, durante a gravidez ou por má-formação do feto. “Problemas no período de gestação (quando, por exemplo, a mãe grávida adoece com rubéola), no nascimento (como não receber oxigênio de forma imediata e suficiente ao nascer) e a exposição a certos tipos de doenças ou toxinas (como na meningite) são algumas causas conhecidas”, alerta o neurologista Martin Portner.

Por outro lado, pensando em fatores de risco sociais e comportamentais, podemos citar, respectivamente; pobreza, má-nutrição materna e violência doméstica; e consumo de álcool na gestação (uso de drogas pelos pais), abuso e negligência com a criança. “A deficiência intelectual pode acontecer por complicações na gestação, durante o parto e até sete dias depois, e no pós-natal (com meningites, encefalites e trauma craniano). Portanto, uma ação preventiva e eficaz, com medidas de promoção de esforços cm saúde pública, ajuda a prevenir a prevalência de DI na população”, explica Clay Brites. “Uma nota digna de se enfatizar é a deficiência de iodo, que afeta cerca de dois bilhões de pessoas em todo o planeta; ela é a principal causa evitável de deficiência intelectual cm áreas do mundo”, completa Martin.

CARACTERÍSTICAS PREDOMINANTES

As pessoas com DI não apresentam diferenças com as demais cm relação ao seu organismo. Seu funcionamento cardiovascular, respiratório, digestivo e musculoesquelético é normal. Porém, quando se trata da composição cerebral dos deficientes intelectuais, podemos apontar algumas diferenças: “O cérebro do DI tem menos ramificações neuronais, com menos comunicações entre as diversas funções cognitivas, pouca resposta plástica aos estímulos do ambiente e alterações no funcionamento global das diversas áreas responsáveis pela inteligência”, explica o neuropediatra Clay Brites.

O neurologista Martin Portner indica ainda que a maior delas diz respeito à falta das imensas ligações sinápticas entre os neurônios que formam o que se chama de cérebro dos relacionamentos sociais (ou cérebro social, CS). “O componente mais saliente do neocórtex, a camada cerebral antropológica e funcionalmente mais desenvolvida do ser humano, é o CS. O homem, em essência, vive para se comunicar em um ambiente gregário e, para que isto seja possível, desenvolveu conexões poderosas para estabelecer laços com os demais. A pessoa com DI fica impedida de alcançar esse patamar pela falta de desenvolvimento das ligações neurológicas para essa finalidade”, elucida.

CONDIÇÃO PERMANENTE

É importante entender que a deficiência intelectual não possui qualquer tipo de cura, não havendo também medicação para tratá-la. Na verdade, as medicações servem para conter efeitos associados, como desatenção, hiperatividade, agressividade, crises epilépticas, entre outras. “Dentro da complexidade das manifestações da DI, vão ocorrer sintomas distintos que poderão ser tratados com remédio como o uso de anticonvulsivantes para controlar convulsões”, confirma Martin. Dessa forma, o deficiente intelectual precisa ter acompanhamento neurológico e psicológico realizado na absoluta medida de suas necessidades. “Aqueles com DI leve poderão viver de forma adequada com as suas famílias, sem grande ajuda especializada externa; já as pessoas com maior deficiência intelectiva precisarão de famílias preparadas para aceitar as diferenças humanas, acompanhados do apoio da comunidade científica estruturada”, completa o neurologista.