EU ACHO …

A PILHA DE AREIA

Foram seis meses, mas parece que foi ontem. Quando comecei a fazer transmissões diárias sobre os efeitos econômicos da pandemia no canal que tinha – mas quase nunca usava – no YouTube, não pensava que tantas pessoas assistiriam a elas. Tampouco pensava que o que ali dizia, reflexões sobre o estado da economia como disciplina, sobre os desafios da pandemia, sobre a necessidade de pensar de modo multidisciplinar, além dos temas que iam surgindo diariamente, seria o embrião para o livro que acabo de lançar hoje. O livro chama-se Ruptura e integra uma série intitulada A pilha de areia. Serão mais dois livros além desse primeiro. Quiçá serão mais do que dois livros, a depender da evolução do quadro doméstico e internacional.

Por que A pilha de areia? Primeiro, porque gosto muito da imagem. Traz a praia, o mar, um dia de sol no Rio de Janeiro, memórias da infância. Em segundo lugar porque adoro Borges, o escritor da areia, do tempo, do infinito, da finitude ante o infinito. Por fim porque tudo que sabemos sobre as pilhas de areia, toda a certeza que temos sobre elas, é que desmoronam. Elas não crescem sem limites, tampouco ficam estáticas. O vento, a onda do mar, um grão a mais no topo, e elas se vão.

O que não sabemos sobre as pilhas de areia é quando elas vão desmoronar e qual vai ser o tamanho do desmonte. Portanto, as pilhas de areia são como as pandemias. Há décadas cientistas nos alertam que a próxima pandemia não era uma questão de ”se”, mas sim de ”quando”.

Iniciamos o século XX com uma imensa pandemia – a gripe que ceifou dezenas de milhões de vidas no planeta entre 1918 e 1919. Depois, tivemos o surto da gripe aviária em 1997, o surto de sars em 2002 e 2003, outra gripe aviária em 2005, e o H1N1 em 2009. O ebola continua a assustar os cientistas pois há uma possibilidade de que o vírus algum dia sofra mutação que o torne mais transmissível. Aliás, os vírus detêm a maior biodiversidade do planeta. Portanto, a certeza sobre a ocorrência de futuras pandemias é fato. O que não sabemos é quando haverão de ocorrer, nem quão graves serão.

Pilhas de areia, as pandemias. Elas também nos remetem ao tempo, ao infinito, e à finitude perante o infinito. Quis que a série inteira sobre a pandemia de Covid-19 e seus efeitos sobre a economia refletisse esses conceitos. O primeiro livro trata do desmoronamento, do ponto crítico, da mudança de estado do mundo – da passagem de algo que conhecíamos para outra coisa que ainda teremos de entender e construir. Ele aborda a ruptura, os desafios enfrentados pelas pessoas e pelos países. Ele traz reflexões sobre a economia e a política econômica, pois a economia também é uma espécie de pilha de areia. A certeza de que seus preceitos serão postos à prova pelas circunstâncias é inequívoca, o que não se sabe é como isso haverá de refletir no ensino da disciplina, nas recomendações de política econômica, no debate público.

Ruptura, o primeiro livro da série, é e não é um livro “de economia”. Ele trata da economia, mas não foi escrito para economistas. O livro foi escrito para qualquer pessoa interessada em refletir sobre o momento que atravessamos, mas que encontra nos jornais e nas abordagens econômicas algo inacessível. Jargões, conceitos muitas vezes confusos, análises herméticas, essa é a abordagem tradicional da economia, dos economistas, de muitos – não todos – que escrevem sobre economia. Para fugir disso, escrevi o livro como se conversasse com alguém que pouco soubesse “de economia”. A linguagem é coloquial, não há presunção de conhecimento prévio por parte do leitor, os gráficos e imagens que acompanham o texto foram todos desenhados à mão.

Nos últimos dias concedi entrevistas como parte do esforço de divulgação do livro, o que é sempre ótimo. Mas muitas vezes as entrevistas não permitem que se diga tudo que se quer dizer. Portanto, usei este espaço para explicar a todos vocês que acompanham semanalmente esta coluna as várias razões de ser dessa empreitada. E, claro, há algo de pessoal na ruptura retratada. Mas sobre isso escrevo outro dia.

MONICA DE BOLLE – É pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

CHEGOU A VEZ DELES

Depois de as mulheres plus size entrarem nas passarelas, os corpos gordinhos masculinos começam também a ganhar espaço – e um outro tabu se vai

Seis em cada dez adultos hoje no Brasil estão acima do peso – e as estatísticas mostram que o número deve crescer. Entre as mulheres, essa prevalência, que sempre foi tratada com desconforto, deixou de ser vista como tabu, ao menos no universo da moda. Corpos avolumados com manequins acima da etiqueta 44 fazem sucesso, como ocorre com as americanas Tess Holliday e Ashley Graham, que ganham milhões de dólares exibindo roupas charmosíssimas. Há também na ribalta a brasileira Fluvia Lacerda – que já foi chamada de Gisele Bündchen do tamanho grande. E, no entanto, os corpos masculinos gordinhos só agora começaram a desfilar nas passarelas. É uma pequena grande revolução, e convém acompanhá-la.

Um dos mais vistosos acenos à novidade veio pelas mãos de Rihanna, ícone da música pop que nos últimos anos tem deixado a indústria fonográfica de lado para dedicar-se ao lançamento de itens de vestuário e maquiagem. No início do mês, sua coleção de peças de baixo e pijamas, a Savage X Fenty, trouxe como figura principal na ala dos rapazes o americano Steve G, com manequim 52. A internet ficou em polvorosa com a imagem do garotão sem camisa: as compras on-line explodiram e os itens esgotaram-se. A divisão brasileira da Calvin Klein, pela primeira vez, abriu espaço nas redes sociais para fotos de um modelo plus size masculino que usava única e simplesmente a famosa cueca da marca, um par de meias e nada mais – mas com toda a silhueta à mostra.

“A moda está cada vez mais distante do estereótipo de padrões inacessíveis, longilíneos e magros, e não podíamos ser indiferentes a isso”, diz Fábio Vasconcellos, CEO da Calvin Klein no Brasil.

O movimento de corpo é global. A organização da semana de moda de Nova York, uma das mais influentes, lançou neste ano um programa de treinamento virtual para incentivar profissionais do corte e costura a arregimentar modelos com o corpo fora dos padrões convencionais. Entre os palestrantes está o americano Zach Miko, o mais conhecido modelo “plus” dos Estados Unidos. No seu portfólio há uma colaboração com a grife japonesa de vestuário Uniqlo e trabalhos com marcas como a Levi’s e a rede de departamentos de luxo Nordstrom. O rapaz de 31 anos é agenciado pela IMG Models, uma das maiores do planeta, com estrelas em seu book como Gigi Hadid e Kate Moss. No Brasil, a agência Mega Model, de São Paulo, que já revelou tops como Isabeli Fontana e Renata Kuerten, tem agora uma estrela plus size. E# o engenheiro Léo Gonçalves, de 35 anos. A parceria existe há dois anos, mas só começou a engrenar em 2020, com convites para campanhas em lojas nacionais. “Em dois ou três anos ele deve ser o nome mais destacado de modelos com seu perfil no país”, diz Thiago Staudht, da divisão masculina da agência. E# um outro preconceito que começa a ser vencido.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 04 DE NOVEMBRO

O GRITO SILENCIOSO DOS QUE NÃO NASCERAM

Não matarás (Êxodo 20.13).

O aborto é uma vergonhosa e dramática realidade em nossos dias. Milhões de seres humanos são sacrificados no sacrário do ventre materno. A vasta maioria por razões torpes. O útero materno é o berço da vida, o lugar mais sagrado, onde a vida se forma e se desenvolve. Ali, os membros do corpo surgem, crescem e amadurecem para o nascimento. O cérebro, com toda a sua complexidade, tem suas conexões formadas. O coração pulsa, o sangue corre nas veias, os músculos se articulam. Mesmo na fase mais primitiva desse processo, quando o óvulo fecundado ainda não pode ser visto a olho nu, a vida está lá, com toda a sua potencialidade. O aborto é, portanto, a interrupção de uma vida; é assassinato, assassinato com requintes de crueldade. Mata-se não um inimigo, mas o fruto do ventre. Mata-se não alguém que pode defender-se, mas um ser indefeso, encurralado no ventre materno. Mata-se não por acidente, mas de forma intencional e deliberada. Mata-se sugando esse ser tenro como se fosse uma verruga indesejada; mata-se envenenando esse nascituro como se fosse uma erva daninha; mata-se esquartejando esse bebê ainda em formação, como se fosse o ser mais abominável da terra; mata-se um ser indefeso, que, ao esperar afeto e cuidado, é surpreendido pela mais brutal violência. O grito silencioso daqueles que foram mortos no cadafalso do ventre não pode ser ouvido na terra, mas esse grito ecoa nos ouvidos de Deus, lá no céu!

GESTÃO E CARREIRA

NO FOCO DO ZOOM

Empresa americana de videoconferência se torna febre na pandemia e tem planos para o Brasil após registrar aumento de 2.900% no número global de usuários diários.

As academias fecharam as portas em março por causa da pandemia da Covid-19. Henrique Zola, proprietário da Cross São Caetano, na Grande São Paulo, começou a promover aulas on-line para manter as atividades, os alunos e o negócio em pé. “Foi a forma que arrumamos para continuar com os nossos serviços”, afirmou o coach. Os escritórios encerraram as atividades presenciais. André Zukerman, CEO da companhia de leilões que leva seu sobrenome, manteve o contato com fornecedores, clientes e seu time de forma remota. “Usamos as videoconferências e foi incrivelmente bom.” As escolas interromperam as aulas. Rodrigo Aquino, fundador da LeanIT, empresa de educação corporativa, tinha todos os 28 treinamentos e consultorias com realização in loco, em cinco estados (Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo). A relação com os clientes e as reuniões com seus colaboradores agora são virtuais. “Não perdemos negócios e abrimos margem para sermos mais flexíveis”, disse. Zola, Zukerman e Aquino escolheram o Zoom Vídeo Communications para dar continuidade ao trabalho.

São três profissionais que usaram a ferramenta de videoconferência pela primeira vez. Por necessidade. Fazem parte do grupo de centenas de milhões de pessoas no mundo que passaram a utilizar a plataforma recentemente. Em dezembro, o Zoom tinha 10 milhões de usuários diários. Em abril, 300 milhões. Aumento de 2.900%. Os brasileiros aderiram em massa. O que faz o Zoom focar sua atuação para o País, onde já procura espaço para instalar escritório. O momento da companhia é de fortalecer os investimentos e se apoiar no mercado latino-americano, que tem o Brasil como player regional dominante, nas palavras de Abe Smith, head of international do Zoom. Ele é o responsável por novos negócios fora dos Estados Unidos e do Canadá. “Sendo a nona maior economia do mundo, temos o Brasil como um país importante para nossos planos globais”, disse.

O desembarque do Zoom no Brasil deve ser pelo estado de São Paulo, onde a companhia possui um de seus 17 servidores de dados instalados em todo o mundo. É também no território paulista que está alocado o primeiro funcionário brasileiro contratado pelos americanos. O engenheiro de soluções já está em processo de onboarding na companhia e vai encabeçar o plano de entrada no Brasil. A empresa não autoriza qualquer pronunciamento dele e nem sequer revela seu nome, por questão do compliance. Nos Estados Unidos, o Zoom possui cinco funcionários que falam português. O planejamento do ingresso no Brasil inclui a expansão dos negócios com aumento da conversa com usuários, clientes privados e investidores. O setor público é outro alvo da companhia, um espaço importante a ser ocupado. O Zoom foca em números: 210 milhões de habitantes, 5.570 municípios, 26 estados mais Distrito Federal. São milhares de empresas públicas e autarquias. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgados ano passado, municípios, estados e governo federal possuem juntos 11,4 milhões de funcionários.

Ao atuar mais assiduamente no País, seja na iniciativa privada ou no setor público, o Zoom oferece a praticidade de realizar videoconferência para melhorar a rotina e os negócios. Como consequência, um dos argumentos usados para conquistar o mercado local é minimizar um dos maiores gargalos dos grandes centros urbanos: o trânsito. Abe Smith mostra estar familiarizado com a capital paulista ao citar sua precária mobilidade. “Se você também considerar o congestionamento do trânsito em São Paulo, pode demorar 90 minutos ou mais para atravessar essa megacidade de carro”, afirmou.

Reduzir tempo e reduzir custos. A partir do uso do Zoom, os gastos com deslocamentos pelas cidades, viagens, refeições, estacionamento e outras despesas caíram na empresa de treinamento de gestão de Rodrigo Aquino. “A economia girou entre R$ 50 mil e R$ 80 mil”, disse o CEO da LeanIT, que contratou o Plano Profissional, no valor de US$ 14,99 por mês. Ele inclui até nove anfitriões por conta, participação de 100 pessoas por reunião, limite de duração da conferência de 24h, relatórios, ID personalizado, 1 GB de gravação em nuvem, entre outras ferramentas. Há ainda planos corporativos e empresariais que podem chegar a US$ 1.999,00 por mês. “Criamos grupos, dividimos as salas virtuais para dinâmicas diferentes. É fácil de usar, tem bom custo-benefício e atendeu as nossas expectativas”, afirmou.

André, da Zukerman Leilões, migrou os 60 colaboradores para home office. As reuniões gerais com toda a equipe eram realizadas semestralmente. Agora, ocorrem a cada semana, para atualizar metas, divulgar informativos e azeitar processos internos. Sem os deslocamentos do time, houve diminuição de gastos e, principalmente, ganhos em qualidade de vida e bem-estar dos funcionários, além de mais contato das pessoas com as famílias. “Melhorou o rendimento”, afirmou Zukerman. No pós-pandemia, a intenção é por um modelo híbrido, com mais trabalho remoto e menos presença no escritório — que será usado para cocriação de projetos, brainstorming e espaço para conversas privativas. Mudança do mindset. André Zukerman dizia ter repulsa por processos remotos. Dizia. Uma pesquisa da Robert Half, consultoria especializada em recrutamento e seleção para cargos de média e alta gerência, revelou que 86% dos profissionais brasileiros entrevistados gostariam de trabalhar remotamente com mais frequência no pós-pandemia. Exatamente a aposta do Zoom para prosperar por aqui. “O Zoom está capacitando a economia e ajudando as equipes a permanecerem sempre conectadas e trabalhando”, disse Abe Smith.

BOOM

Smith foi contratado pelo Zoom em janeiro de 2019 para liderar o processo de crescimento da companhia fora da América do Norte, onde a marca já era forte. Na bagagem trazia experiência como gestor em grandes players da área tecnológica, como Cisco e Oracle. Apesar do otimismo que sempre permeia um novo desafio, não esperava uma ascensão tão rápida e vertiginosa em apenas um ano de trabalho. (E vamos combinar que não esperava, como ninguém, uma pandemia da ordem da Covid-19). De janeiro a abril deste ano, o número de acessos ao recurso gratuito da plataforma cresceu 31 vezes no Brasil. As assinaturas a planos pagos, de clientes com mais de 10 funcionários, triplicaram no período. Sem divulgar os dados absolutos, a empresa abre somente que “o Brasil é um consumidor muito ativo dos serviços do Zoom, com crescente interesse mês a mês”.

Nos Estados Unidos, o número de usuários móveis da plataforma no mês de março foi quase três vezes maior do que o do rival Microsoft Teams, que liderava o mercado de videoconferências, de acordo com a empresa de pesquisa Apptopia. O volume diário de usuários móveis do Zoom atingiu 4,84 milhões. O Teams foi usado por 1,56 milhão. “A plataforma cresceu pela facilidade de uso, que é intuitiva, qualidade na imagem e no áudio e estabilidade”, afirmou Sergio Yoshioka, representante institucional da Sociedade Brasileira da Computação e coordenador de cursos da área Computação e Tecnologia no Centro Universitário Salesiano de São Paulo.

Crescimento de uso potencializado pelo imponderável vírus da Covid-19, que deixou metade do planeta em algum tipo de quarentena. Ter mais usuários da plataforma significou automaticamente mais dinheiro no bolso do fundador e CEO do Zoom, Eric Yuan. O empresário sino-americano estreou este ano na lista de bilionários. Sua fortuna atual é estimada em US$ 7,8 bilhões de dólares. A companhia, criada em 2011 no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), cresceu bastante em valor de mercado. Passou de US$ 26,1 bilhões em julho de 2019 para US$ 73,8 bilhões neste mês. Valorização de 182,7%.

Os negócios também avançaram de forma exponencial. A receita do primeiro trimestre foi de US$ 328,2 milhões, aumento de 169% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em apenas três meses, o Zoom faturou mais da metade de todo o exercício fiscal anterior, quando arrecadou US$ 622 milhões. Fechou contratos com 265,4 mil empresas com mais de 10 funcionários, crescimento de 354% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. São 769 clientes contribuindo com mais de US$ 100 mil em receita de 12 meses, um acréscimo de 90%.

Os números otimistas fizeram a companhia traçar projeção para triplicar o faturamento para este ano, alcançando US$ 1,8 bilhão. “Essa perspectiva de receita leva em consideração a demanda por soluções de trabalho remoto para empresas”, afirmou Abe Smith.

O Zoom aproveita o bom momento para lançar novos produtos e firmar parcerias com grandes marcas, para as quais oferece experiências inéditas. A mais recente é com a Fórmula 1. No domingo (19), no GP da Hungria, terceira etapa da temporada, a plataforma de comunicação por vídeo estreou o Virtual Paddock Club. O projeto oferece transmissão ao vivo para os convidados, por meio do Zoom. Os fãs, que estão proibidos de acompanhar as corridas nas arquibancadas dos autódromos, podem se sentir dentro do circo da F-1 ao assistir aos conteúdos em tempo real. “É a melhor maneira de recriar essa experiência esportiva VIP em casa”, afirmou Janine Pelosi, CMO do Zoom. Já existem conversas para expandir as possibilidades de uso do Virtual Paddock Club junto aos parceiros globais e equipes da categoria. Há possibilidade de criar um modelo híbrido virtual-presencial, para que a distância não seja mais uma barreira à hospitalidade esportiva.

SEGURANÇA

Com a ascensão meteórica do Zoom, também vieram as polêmicas. Como é recorrente com as novas tecnologias, a plataforma de videoconferência prezou inicialmente pela usabilidade e comodidade. A segurança ficou para segundo plano. Foi assim com os celulares. No início as chamadas eram facilmente captadas por terceiros com simples aplicações. Com o uso intensivo, as vulnerabilidades aparecem. No Brasil, o caso mais emblemático ocorreu no início de abril, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o uso da ferramenta por seus funcionários após sua equipe de tecnologia identificar, por meio de sites especializados, possibilidades de acesso não autorizado à câmera e ao microfone do usuário, viabilizando o roubo de credenciais e de informações trocadas nas reuniões.

Pelo mundo, foram vários casos relatados de invasões de videoconferências por hackers, que publicaram imagens impróprias, de pornografia e violência. Roubos de senhas e exposição de vídeos privados dos usuários foram outros problemas detectados. Nos Estados Unidos, o FBI — a polícia federal americana — pediu para escolas, empresas e outras instituições evitarem a realização de reuniões abertas e divulgadas publicamente. Os episódios se tornaram tão populares que foi criado o termo ‘Zoom-bombing’.

Como antídoto, o Zoom colocou em prática três ações. A primeira delas foi transparência. O CEO Eric Yuan reconheceu publicamente as falhas. Disse que a companhia não conseguiu assegurar mecanismos adequados diante do aumento exponencial da base de usuários. “Nós admitimos que frustramos as expectativas de privacidade nossa e da comunidade. Por isso, peço desculpas e divido que estamos fazendo algo a respeito”, escreveu no blog da empresa em 1º de abril. A segunda medida foi a aquisição, em maio, da empresa Keybase, um serviço seguro de compartilhamento de arquivos e mensagens, para elevar a qualidade da segurança e acelerar o plano de criação da criptografia de ponta a ponta que possa alcançar a atual escalabilidade do Zoom — o que foi implantado neste mês de julho.

A terceira intervenção foi a contratação de Jason Lee como diretor de segurança da informação, no fim de junho. “O Zoom leva a segurança do usuário extremamente a sério”, disse Abe Smith, ao afirmar que um grande número de instituições globais — inclusive no Brasil — fizeram análises exaustivas da segurança das camadas de usuários, redes e datacenters e continuam a usar a plataforma.

Para o professor Sergio Yoshioka, da UniSal, um ambiente totalmente seguro na rede mundial de computadores ocorre apenas se não usar a internet. “O Zoom tem dado mostras ao mercado que está preocupado com isso e tem avançado em segurança.” Na análise de Paulo Gontijo, professor especialista em segurança da informação do Instituto de Gestão e Tecnologia da Informação (IGTI), o Zoom ainda tem sofrido com segurança, mas tem avançado. “É uma ferramenta com muita praticidade e muitos recursos. Para reuniões e aulas, é uma ótima opção. Agora, para encontro virtual entre chefes de Estados não seria recomendado”, disse.

Esse é um dos enfrentamentos do Zoom do presente. E deve ser contínuo. No futuro, o desafio é permanecer com esse modelo de negócio num cenário em que as pessoas voltam gradativamente ao seu local de trabalho. A febre do Zoom continuará ou se evidenciará temporária no pós pandemia? Os empresários Henrique Zola, André Zukerman e Rodrigo Aquino dizem que vão manter ao menos uma parte dos negócios com a utilização da plataforma. Indício de que não vai embaçar o foco dos planos de expansão do Zoom.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XVII

PARECE AUTISMO…

mas não é. Conheça transtornos e síndromes que podem ser confundidas com o distúrbio

Muitas vezes, pais e responsáveis podem confundir os traços de outros distúrbios com comportamentos autistas. Por isso, a avaliação médica é a melhor forma de identificar o transtorno. De acordo com a psiquiatra e neurocientista Célia Cortez, é importante que se tenham critérios bem definidos para o reconhecimento do autismo, pois o diagnóstico diferencial é uma das grandes dificuldades encontradas na prática clínica.

CONFUSÃO

Segundo Cortez, qualquer um dos transtornos pervasivos do desenvolvimento (como síndrome de Rett e de Asperger ou transtornos desintegrativos da infância) podem ser confundidos com o autismo. Contudo, para outros especialistas, o autismo pode ser um dos sintomas de síndromes como a de Rett e do X­ Frágil. “Hoje, estamos verificando que mutações em genes da via do gene da síndrome do X-Frágil (FMRI) podem causar o autismo”, explica a professora de genética Maria Rita dos Santos.

Confira, a seguir, as semelhanças e diferenças de síndromes e distúrbios que podem provocar equívocos:

HIPERLEXIA

DEFINIÇÃO: habilidade precoce em decodificar palavras sem a presença de instrução formal. Contudo, muitas vezes, as crianças não entendem tudo o que leem.

QUANDO SURGE: entre dois ou três anos de idade, demonstrando capacidade de leitura antes dos cinco.

SEMELHANÇAS: indivíduos com hiperlexia existem comportamento social atípico, o que faz com que seja confundido com a síndrome de Asperger. Também apresentam dificuldade no processamento da linguagem oral.

DIFERENÇAS: crianças tendem a perder as características autistas conforme desenvolvem as habilidades de linguagem. “Além disso, as alterações na capacidade linguística não se encontram relacionadas com as interações sociais, e não há padrões de comprometimentos motores repetitivos e estereotipados característicos do autismo”, explica Cortez.

HIPERATIVIDADE

DEFINIÇÃO: estado excessivo de atividade mental (fluxo intenso de pensamentos) ou físico.

QUANDO SURGE: ainda durante a infância e afeta, principalmente, indivíduos do sexo masculino.

SEMELHANÇAS: em pessoas com TEA, a hiperatividade é ritmada e repetitiva, com a mesma sequência de movimentos. Ademais, pode cessar, diferente do que acontece com a criança que não apresenta o autismo e está em constante agitação.

DIFERENÇAS: não há dificuldade de socialização, apenas de concentração e, consequentemente, de aprendizado. Os principais sintomas em crianças são inquietação, movimentação contínua dos pés e mãos, dificuldade para permanecer sentada e fala excessiva.

SÍNDROME DO X-FRÁGIL

DEFINIÇÃO: condição genética associada a debilidades intelectuais, problemas de aprendizado e de comportamento. É causada pela ausência ou redução das funções do gene FMRI, responsável por produzir a proteína FMRP (que atua na maturação das sinapses no cérebro).

QUANDO SURGE: pode ser diagnosticada durante o pré-natal por meio da análise do DNA.

SEMELHANÇAS: além da ansiedade e do comportamento hiperativo ou impulsivo, os indivíduos apresentam atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem, que afetam a comunicação.

DIFERENÇAS: pode ser identificado por exame genético e também pelas características físicas como face mais alongada, testa larga, orelhas grandes e em abano, articulações flexíveis, pés planos, entre outros.

DEPRESSÃO

DEFINIÇÃO: doença psiquiátrica que provoca a alteração no humor.

QUANDO SURGE: manifesta-se entre os seis e 12 anos de vida.

SEMELHANÇAS: segundo Célia Cortez, existem sintomas semelhantes como dificuldade de concentração, falta de iniciativa, tronco arqueado, isolamento e apatia, baixa atenção nas atividades ao seu redor, tônus muscular reduzido, sensação de cansaço, fraqueza e agressividade.

DIFERENÇAS: não há estereotipias motoras que são características do transtorno autista.

SÍNDROME DE RETT

DEFINIÇÃO: doença com causa genética associada a mutações no gene MECP2, localizado no cromossomo X. A proteína que codifica é defeituosa e não silencia genes que deveriam estar “desligados” durante fases específicas do desenvolvimento do sistema nervoso central.

QUANDO SURGE: entre os dois e quatro anos de vida. Entretanto, o desenvolvimento neurológico pode ser prejudicado desde os seis meses de idade. Atinge predominantemente indivíduos do sexo feminino.

SEMELHANÇAS: crianças apresentam comprometimento da linguagem e podem demonstrar dificuldade de interação social nos anos pré-escolares.

DIFERENÇAS: de acordo com Célia Cortez, a síndrome de Rett se difere do autismo pelo “marcado déficit no desenvolvimento, com desaceleração do crescimento craniano, perda de habilidades manuais voluntárias adquiridos anteriormente e o aparecimento de caminhada pouco coordenada ou movimentos do tronco. Há retardo intelectual marcado e, muitas vezes, quadros convulsivos”.

DISLEXIA

DEFINIÇÃO: dificuldade nas áreas de leitura, escrita e soletração, resultado de uma alteração na fisiologia cerebral.

QUANDO SURGE: identificada tardiamente durante a alfabetização, devido ao atraso no aprendizado.

SEMELHANÇAS: na dislexia, ocorrem incapacidades linguísticas. No entanto, diferente do autismo, “não se encontram relacionadas com a presença de Incapacidade qualitativa das interações sociais e padrões restritivos”, explica Cortez.

DIFERENÇAS: não há presença dos padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados característicos do autismo.