EU ACHO …

TRUCULÊNCIA

Tenho refletido muito sobre a truculência e a falta de civilidade nestes últimos dias. Começou com o documentário O dilema das redes, a que assisti no último fim de semana. Para ser sincera, gostei menos do que imaginava. Achei os “protagonistas” mais interessados em expiar suas culpas do que em outra coisa – quem acha realmente que aqueles que criaram o monstro que dizem ter criado vão agora resolver a situação? Achei também o filme bastante enviesado. As redes sociais são uma armadilha e podem fazer muito mal, sim. Por outro lado, muitas conexões com pessoas interessantes e acesso à informação e estudos científicos são possíveis e acessíveis nas redes, sobretudo no Twitter. Ao longo destes meses de pandemia, conheci muita gente com quem hoje colaboro. Mas divago. As redes são, sim, uma das fontes de normalização da truculência.

Vejo isso com alguma frequência, nos ataques orquestrados e na falta de educação explicita. Já fui alvo de alguns desses ataques e de muita falta de educação. assim como qualquer outra pessoa que apareça publicamente com certa frequência. Portanto, a truculência me é familiar. Às vezes ela me causa certa perplexidade, já que, não raro, alguém resolve tecer provocações em praça pública sem perceber que ao fazê-lo se expõe ao ridículo. Mas o que realmente me fez pensar sobre a truculência foi o debate entre Trump e Biden na última terça-feira. O enredo já era esperado, embora na prática tenha sido bem mais exagerado do que na imaginação. Trump comportou-se como o bully que é, interrompendo o moderador e o adversário sem parar, aos berros, demonstrando toda a barbárie patética a qual um ser humano é capaz de se render. Biden recusou-se a entrar no ringue armado por Trump e desse modo desestabilizou nitidamente o homem que desconta do imposto de renda cuidados com a cabeleira.

A recusa virou motivo de críticas. Vi gente diz endo que Biden parecia uma múmia, não reagia, não tinha “pegada”, não sabia “bater de volta”. Ao ler essas críticas me dei conta de que nós normalizamos em definitivo a truculência. Goste-se ou não de Biden, ele se comportou como uma pessoa normal. Manteve o autocontrole perante as agressões do outro, ficou impassível diante das provocações diversas e das interrupções sem trégua. “Foi sério, sóbrio e fiel a seu temperamento. Biden não é um sujeito combativo. E Biden, para os muitos que não sabem, é gago. Por esse motivo, as investidas de Trump, as tentativas de chamá-lo de velho gagá às vezes acabam convencendo algumas pessoas que desconhecem esse aspecto tão importante do candidato democrata. Em qualquer outra situação que não fosse a atualidade, teríamos chamado Trump de bestial e em Biden teríamos reconhecido a polidez e a civilidade. Mas não.

Essas reflexões muito têm me incomodado, sobretudo no contexto brasileiro, em que sobra truculência. O presidente da República, o tal do episódio do Leblon, a briga no restaurante chique de São Paulo. Será mesmo tudo isso fruto dos algoritmos das redes que mudam nosso comportamento? Ou será algo mais primitivo que reside dentro de nós, o cérebro reptiliano cujo instinto é atacar, o mecanismo de “pensar rápido” como ilustrou Daniel Kahneman em seu magistral Rápido e devagar.

Dominados por instintos apenas, não iremos a lugar algum. Dominados por instintos apenas, não somos tão diferentes daqueles que criticamos. Dominados por instintos apenas, nos expomos em praça pública sem reparar em nossa própria insignificância. Biden, dadas suas limitações de locução, é forçado a pensar devagar. Pensar é como degustar. Para contrapor o fast food surgiu o “slow food”. Sugiro que para contrapor a truculência inauguremos o “pensar devagar”. Quem sabe isso nos ajude até a lidar com o dilema das redes.

MONICA DE BOLLE – É pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

TODOS JUNTOS E MISTURADOS

Sim, o confinamento gerou estresse entre os habitantes da mesma casa, mas pesquisas indicam que pais e filhos estão saindo dessa com os laços fortalecidos.

Pessoas que coabitam debaixo do mesmo teto conhecem bem a rotina umas das outras, entendem quando alguém está esfuziante ou em maré baixa e sabem quais são suas grandes aspirações, certo? Não necessariamente — e isso ficou cristalino quando veio a pandemia e, de supetão, o dia a dia familiar ficou de pernas para o ar, evidenciando quanto estar lado a lado nem sempre é sinônimo de intimidade e revirando arran­jos que pareciam imutáveis. Assim que o confinamento tornou-se inevitável, pais abraçaram o home office; os filhos, o ensino a distância; todos passaram a respirar um ar; a pressão subiu; e o resto já virou história. Houve excesso de convívio, stress, brigas e até separações. Mas o que emergiu daí, agora que o cotidiano começa, lentamente, a voltar à normalidade, são laços profundamente repaginados pelas circunstâncias e, em geral, mais firmes.

 Vários estudos têm servido de termômetro para medir a chacoalhada nos lares de todo o planeta, inclusive os brasileiros — uma rajada em escala global que sacudiu a relação entre adultos, crianças e uniu esses dois mundos. Uma das pesquisas, conduzida pela escola de educação da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, revela que pais que costumavam estar distantes do universo navegado pelos filhos acabaram por se inteirar de seus interesses e aflições como nunca antes: 68% afirmam ter se aproximado da prole, e isso se deu à base de muita conversa. “Observamos que boa parte dos pais, normalmente consumidos pelo trabalho, desenvolveu um novo senso de família”, resume Rick Weissbourd, coautor do estudo. Um levantamento do governo britânico ajuda a dar contornos à virada — seis de cada dez adultos ouvidos reconhecem que, quarentenados, elevaram de forma significativa os cuidados com a garotada que perdeu o norte. “No início, houve uma imensa desorganização e o caos se instalou, mas quem se esforçou para aprimorar o diálogo e vencer a fase de adaptação teve um saldo bastante positivo”, diz a psicóloga Ceres Araújo, doutora em distúrbios da comunicação humana pela Unifesp.

O inesperado desmantelamento da vida como ela era forçou a aquisição de novos hábitos, não sem dor nem conflito. E aí crianças e adolescentes que pouco (ou nada) contribuíam nos afazeres domésticos, tocados por empregados que foram temporariamente para casa ou pelos próprios pais, tiveram de entrar em cena. “Ao que tudo indica, a pandemia deixará como legado uma divisão mais igualitária das tarefas básicas do lar e uma união maior das famílias”, diz Regina Szylit, diretora da escola de enfermagem da Universidade de São Paulo, que deu a largada a uma pesquisa que se debruça justamente sobre as transformações nos elos familiares nestes tempos estranhos. Os adultos também precisaram se amoldar à nova dinâmica das divisões, já que delegar nem sempre é trivial. “Ninguém vai fazer as coisas do meu jeito, eu sei, mas percebi que as crianças gostaram de ter mais responsabilidade e de se sentirem úteis, o que é um avanço”, afirma a influenciadora digital Marcela Laranjeiras, 38 anos, carioca e mãe de um quarteto de faixa etária que vai dos 5 meses aos 13 anos.

O fato de as famílias terem atravessado juntas a turbulência também as uniu. Houve perdas de emprego e os ajustes financeiros afetaram a todos. “Nós nos mudamos para um apartamento menor e temi que meus três filhos sofressem. Fui criticada por me mostrar vulnerável para eles, porém, no fim, isso os fez amadurecer”, afirma a fotógrafa Vivian Manzur, 38 anos, de Brasília, que em meio à crise teve uma sensação que lhe proporcionou doses de satisfação. “Eu e meu marido passamos a nos interessar mais pelas atividades das crianças e a conhecê-las melhor”, afirma.

Dito assim, pode soar demasiado idílico, o que nem de longe essa experiência é. Mas, sim, neste cenário de tantas privações se exercitaram pela primeira vez certas capacidades preciosas — desde repartir com racionalidade e delicadeza o espaço dentro de um mesmo apartamento até bater à porta do filho adolescente para engatar um assunto sobre o qual pesava o silêncio. Novos hobbies também foram cultivados em casa, numa tentativa de preencher o tempo que se alongou com o confinamento. Professora de educação física no interior paulista, Talita Tavares, 37 anos, é a grande incentivadora de uma espécie de telejornal que os filhos Arthur, 7 anos, e Caetano, 5, passaram a produzir com a meia-irmã, Gabriela, de 25, no YouTube. “Desse jeito, entendo melhor como este momento está sendo encarado por eles”, reflete Talita.

A esta altura, é natural que todos almejem cortar o cordão, de preferência preservando aquilo que o convívio em um contexto tão atípico deixou de mais valioso. “Confesso que ficamos tanto tempo juntos que sinto falta de ter momentos só para mim”, desabafa a professora de educação física, que dá voz a um desejo muito humano de uma turma numerosa. Uma pesquisa da Sociedade Americana de Psicologia constatou que o stress se abateu com mais vigor exatamente sobre o teto daqueles que têm crianças em casa. “É esperado que se instaure uma sensação de alívio com a flexibilização e a volta à normalidade”, lembra a terapeuta de família Lídia Aratangy. Alguns, porém, já sentem saudades da imersão, como descreve o ator Thiago Fragoso, 38 anos, que acaba de voltar a gravar Salve-se Quem Puder, novela das 7 da Rede Globo. “Mesmo indo aos estúdios a cada duas semanas, foi um baque me afastar dos cuidados diários das crianças”, diz o pai de Benjamin, 9 anos, e Martin, de 5 meses, casado com a atriz Mariana Vaz, 41. E assim, posta a se adaptar a cada novo dia, caminha a humanidade pós-pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE NOVEMBRO

PERDÃO, A ASSEPSIA DA ALMA

Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe (Lucas 17.4).

O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente, a cura das emoções. O perdão cura e liberta. O perdão transforma e restaura. Estende a mão a quem o feriu e abraça quem o repudiou. O perdão vence o mal com o bem, pois é maior que o ódio. O perdão não é fácil, mas é necessário. Não podemos ter uma vida saudável sem exercitar o perdão. Não podemos ter uma vida espiritual vitoriosa sem praticar o perdão. Quem não perdoa não pode orar, adorar, ofertar, nem mesmo ser perdoado. Quem não perdoa é escravo da mágoa. Quem não perdoa vive num cárcere escuro e insalubre. A Bíblia nos ensina a perdoar imediatamente, completamente, incondicionalmente. Devemos perdoar como Deus nos perdoou em Cristo. O perdão zera a conta e não cobra mais a dívida do passado. Perdoar é lembrar sem sentir dor. O perdão corre na direção do outro não para lançar-lhe no rosto a falha, mas para oferecer-lhe o abraço da reconciliação. O perdão constrói pontes onde a mágoa cavou abismos. O perdão estreita relacionamentos onde o ressentimento provocou afastamento. O perdão não é apenas a libertação dos sentimentos; é a cura das relações. É a expressão da graça e o triunfo do amor.

GESTÃO E CARREIRA

UMA CAUSA NA CABEÇA

Para ajudar uma ONG de médicos que usam motos para atender a comunidades carentes da África, duas empresas convidaram 13 artistas para customizar capacetes.

É sempre bom quando você pode combinar uma paixão pessoal com uma causa que ajuda os necessitados”. Com essa frase, o empresário americano Jonah Smith definiu, com perfeição, o novo projeto da sua empresa, a Aether. Marca de roupas e acessórios de alto padrão, voltada principalmente a atividades ao ar livre, a Aether estruturou uma parceria com o fabricante de capacetes de luxo Veldt, com um propósito digno de elogios: ajudar a Riders For Health, ONG formada por médicos e enfermeiros que usam motos para levar assistência a aldeias rurais em sete países da África. Como muitas dessas comunidades ficam em regiões inóspitas e de difícil acesso, a moto acaba sendo o meio mais prático e rápido de se chegar até elas. A ideia é simples e inteligente. A Aether convidou 13 artistas plásticos para pintar capacetes doados pela Veldt, fazendo surgir uma coleção exclusiva, com desenhos únicos e originais, cujas peças serão vendidas por preços a partir de US$ 2.500 — cinco vezes o valor médio de um capacete da grife.

Todas as peças produzidas para o projeto seguem os rigorosos padrões da Veldt. O casco, por exemplo, é moldado a mão, a partir de fibra de carbono japonesa, e usinado numa máquina de autoclave especial, num minucioso processo que requer cerca de seis horas. Na parte externa, são aplicados rebites inovadores para que o usurário possa prender acessórios com parafusos, enquanto as ranhuras de ventilação e o tecido coolmax — desenvolvido pelo próprio fabricante — garantem conforto com o controle da circulação de ar. No interior, os capacetes recebem uma camada de couro produzido por uma empresa de Portugal, além de um estofamento que pode ser removido para lavagem e para um ajuste personalizado. Todo o trabalho é feito na oficina da Veldt, em Amoy, na China.

BELEZA SOCIAL

O processo de fabricação dos capacetes e os materiais utilizados são itens importantíssimos. Afinal, estamos falando do acessório de maior impacto na segurança dos motociclistas. Mas, no caso em questão, os grandes diferenciais são a beleza das peças e a causa social abraçada pelo projeto. Entre os artistas que imprimiram seus talentos nos cascos, nenhum é famoso, já que as empresas queriam manter o foco no objetivo do programa e não no nome de um ou outro convidado. Mesmo que não sejam artistas badalados, eles criaram capacetes com desenhos intrigantes e descolados. Alguns remetem a elementos muito presentes no cenário africano, como pele de onça, céu estrelado, arco-íris, árvores e água. Com tanta beleza e destinados a objetivo tão nobre, não há dúvida de que a coleção será vendida em pouco tempo. E toda a verba arrecadada ajudará comunidades carentes nos rincões da África a ter um pouco mais de saúde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XVI

À FLOR DA PELE

Quem tem o transtorno possui as mesmas necessidades que qualquer outra pessoa quando o assunto é sexualidade

A puberdade, sem dúvida, pode ser considerada como um dos principais momentos da vida de um indivíduo. Nesta fase, dentre as principais alterações, está o aumento no desejo sexual, provocado devido às variações apresentadas em diversas partes, como o sistema hormonal. Contudo, falar de sexualidade não é apenas discutir sobre o ato sexual em si; na verdade, devem ser levadas em consideração diversas outras ações e pensamentos que estão envolvidos nesta temática.

Tocar nesse assunto com os filhos pode ser uma tarefa difícil para alguns pais. Há um certo receio e uma cautela, até certo ponto exagerada, ao se abordar questões como orientação sexual, masturbação, desejos… Mas esse contexto não é inerente a todos os seres humanos? Com exceção àqueles que possuem alguma disfunção que afeta diretamente a capacidade, é claro. Por que, então não esclarecer dúvidas e orientar quem está desbravando e conhecendo esse novo mundo

QUANDO CONVERSAR SOBRE SEXUALIDADE?

A tarefa de dialogar a respeito do universo sexual se apresenta como um tabu ou, para alguns, aparenta ser um “monstro de sete cabeças”, que deve ser afastado de seus descendentes. Se com filhos que não apresentam nenhum tipo de transtorno já parece tão complicado, como agir quando há a presença do autismo?

A psicóloga Marcia Stanzione orienta aguardar o filho demonstrar alguns sinais e, a partir disso, realizar uma abordagem de maneira responsável. “Respeitar a idade cronológica é importante no que diz respeito à forma como aborda-se o tema, e isto significa que é importante aguardar as perguntas curiosas, pois são elas que darão o tom da conversa”, comenta.

Além disso, Marcia aponta que, se a criança apresentar certa dificuldade em falar sobre o tema, os pais precisam assumir o papel de orientador para que possam tranquilizá-la, conquistar sua confiança e facilitar a comunicação, tornando o momento em um diálogo saudável.

ELES TÊM UMA SENSIBILIDADE SEXUAL MAIOR?

Seria um equívoco afirmar que os estímulos se apresentam em autistas da mesma maneira que se manifestam em pessoas que não sofrem desse transtorno – apesar de essa capacidade também fazer parte da natureza deles.

A diferença pode ser explicada por meio das características relacionadas ao sistema sensorial, que, nos casos dos portadores desse distúrbio, são diferentes das demais pessoas. “Esse sistema é responsável por realizar a interação dos estímulos ambientais e sociais com o organismo, fazendo-o responder e se comportar de diversas formas. Sendo assim, os indivíduos desse espectro possuem uma diferenciação neste quesito, desde a percepção dos estímulos e nos comportamentos de resposta até no grau de sensibilidade dos sentidos”, explica Lucas Castanho Xavier, psicólogo na Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo de Bauru – SP (Afapab).

Lucas relata que não é possível prever como isso se dará, já que cada pessoa demonstra-se de maneira individualizada, ou seja, os traços são totalmente subjetivos e particulares. Por isso, deve haver uma cautela na aproximação e na orientação nessas situações.

COMO FALAR COMO AUTISTA SOBRE DESEJOS SEXUAIS?

Os estímulos recebidos e demonstrados pelos autistas em relação a sexualidade são totalmente particulares. Nesse contexto, pode haver preconceito por parte de outras pessoas, conforme explica a psiquiatra Gabriela Stump. “A libido surge e, às vezes tendem a taxar os autistas como hiper sexualizado por não esperar em que haja exteriorização deste desejo”, completa.

Em certos casos, as manifestações podem ocorrer inesperadamente em lugares ou com a intensidade inadequadas. Por isso, algumas atitudes se fazem necessárias para lidar com esse tipo de situação:

1 – Explique claramente e de maneira aberta sobre os indícios da sexualidade.

2 – Converse sobre o assunto, tocando em variados pontos, como masturbação, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis.

3 – Ensine com paciência como agir nessas ocasiões (por exemplo, alguns podem se masturbar em locais inapropriados, então, procura-se orientar que esse ato deve ser realizado em local privado).

4 – Busque ajuda de profissionais capacitados, como os terapeutas. Dessa forma, tanto a pessoa quanto a família serão melhor orientados sobre o processo.