EU ACHO …

A GELADEIRA

Culturas, crenças e desejos guardados na cozinha

O magnata Jeff Bezos, fundador da Amazon, é o homem mais bem-sucedido do mundo. Primeiro ser humano a cruzar a linha dos 200 bilhões de dólares de patrimônio pessoal, Bezos mantém um hábito comum a várias pessoas de sucesso que conheço: marcar textos e frases inspiradores e deixá-los em local de acesso fácil. Curiosamente, o texto de que ele mais gosta está estampado há muitos anos na porta de sua geladeira.

Numa tradução livre, a mensagem diz: “Ser bem-sucedido é rir muito e com frequência; conquistar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; ganhar o apreço de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza; encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma criança saudável, um canteiro de jardim ou redimindo uma condição social; saber que pelo menos uma vida respirou melhor porque você viveu”. Interessante perceber que em nenhum momento há uma associação entre sucesso e prosperidade.

Mas o que mais me no gesto de Bezos foi ele escolher a porta da geladeira para emoldurar e preservar a mensagem que lhe é significativa. Eu também sempre gostei de textos e frases inspiradores; assim como de geladeiras. E fazer dela “o meio e a mensagem” que nutre a nossa vida não deixa de ser uma ideia genial, capaz de dar novo significado ao mobiliário refrigerado presente em quase todas as casas do planeta. Equipamento prestes a celebrar 164 anos de existência.

Toda geladeira tem luz própria (literalmente), já que seu conteúdo diz muito a respeito de uma pessoa. Imaginar o que seus donos estampam na porta delas, com o que a abastecem, o que comem e como organizam os alimentos é algo que carrega um forte e inegável tempero de voyeurismo. Se eu vir uma geladeira quase vazia, com apenas água gelada e uma caixa de pizza semidevorada, posso apostar que o dono é um homem solteiro. Assim como se eu abrir a geladeira de uma família japonesa que mora em Ichigaya, área residencial de Tóquio, encontrarei várias pastas, temperos e iscas que integram um repertório culinário absolutamente distinto daquele com que estamos familiarizados. Geladeira e cultura andam de braços dados!

Sobre espreitar refrigeradores alheios, foi lançada em maio a segunda versão do livro Inside Chef’s Fridges, obra que nos mostra como são as geladeiras domésticas pessoais dos melhores chefs do mundo. O desejo de mostrar o que está por trás da porta das geladeiras também move os anônimos. A ponto de já existir, imagine, uma categoria de fotos que faz sucesso nas redes sociais, as “shelfies”. São selfies de prateleiras, que funcionam não só para as de livros. A tendência levou os fabricantes Bosch e Samsung a lançar, na Europa, modelos que tiram fotos de seu interior. Seja para mostrar ao dono o que é necessário levar para casa, seja para mostrar seu conteúdo aos amigos.

É o aproveitamento da luz própria do eletrodoméstico para, numa versão mais “cool” da vaidade, promover uma outra exposição de si mesmo. Por essa, nem os roteiristas de O Dilema das Redes — o documentário do momento exibido pela Netflix — poderiam esperar.

***LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

A GERAÇÃO DO AQUI E AGORA

Pela primeira vez em meio século, os destinos do mundo estão nas mãos de uma nova faixa etária, a dos chamados millennials, de 24 a 39 anos, que trocam carro e casa próprios por experiências

O mundo mudou, e não é só por causa dos perrengues universais provocados pela pandemia. Entre os habitantes do planeta, a parcela majoritária em idade produtiva, que já está ditando o modo de pensar, viver, trabalhar e consumir e continuará a fazê-lo por décadas, são os chamados millenials – e eles são muito diferentes de tudo aquilo a que estávamos acostumados. A comprovação mais cabal de que as cartas estão nas mãos de uma nova geração se deu nos Estados Unidos, uma espécie de farol do comportamento ocidental: lá, em abril, os millennials, jovens entre os 24 e 39 anos assim denominados por nascerem com a existência voltada para o que seria o novo milênio, ultrapassaram em número os baby boomers, a turma então predominante que cresceu e apareceu como fruto das mudanças e da prosperidade que se seguiram à II Guerra Mundial. Antes dos Estados Unidos, a América Latina, a China e a Índia já registravam um em cada quatro habitantes dentro dessa faixa etária, que também agrupa a maior fatia populacional – 34% – no Brasil. Discretamente, sem grande alarde, o globo vem se ajustando aos efeitos de uma sacudida demográfica de enorme significado, capaz de estremecer os pilares da política, da economia e dos valores inclusive na Europa, mais envelhecida porém, e mesmo assim afeita à influência dessa tribo que molda o mundo e é moldada por ele.

Os millennials se encontram no topo da pirâmide econômica do planeta, somando 1,8 bilhão de pessoas – quase um terço da população. Esse universo em expansão deve representar, em 2030, 4 trilhões de dólares em poder de compra, segundo previsão do Banco Mundial. No Brasil, serão maioria da força de trabalho já no ano que vem e em uma década preencherão 70% dos postos. Vem daí, provavelmente, o medo constante do desemprego, citado como grande preocupação em todas as pesquisas. Mesmo estando situados em camadas sociais diversas e separados pela desigualdade social na maior parte dos países, o Brasil entre eles, esses jovens unem-se pela conexão com a internet em matéria de sonhos e aspirações. “Muitas vezes, eles só têm recursos para adquirir o básico, mas ambicionam os mesmos produtos e experiências que a parcela mais favorecida”, observa a socióloga e pesquisadora Marilene Pottes, da Antenna Consultoria.

A virada geracional tem alto potencial para influenciar votações, inclusive a disputa presidencial que se aproxima nos Estados Unidos, onde 42% dos eleitores serão millennials em 3 de novembro, contra 22% em 2014. A notícia não é boa para o republicano Donald Trump, rejeitado por 64% deles por encarnar radicalismos e preconceitos que a turma rejeita. Mas o democrata Joe Biden também não os entusiasma: embora esteja 20 pontos à frente do adversário nas intenções de voto, é visto de modo negativo por 57% dessa fatia populacional, que diz que só vai cravar seu nome na urna por falta de alternativa.

Quem são, afinal, esses jovens adultos que têm as rédeas da humanidade nas mãos? A resposta, em princípio complicada por abarcar usos e costumes de gente espalhada por todos os continentes, hoje em dia é facilitada pelo fator web, que fez da juventude atual uma massa mais ou menos homogênea em matéria de gostos, hábitos e aspirações.Tendo crescido junto com a disparada das redes sociais e dos smartphones, o millennial é, acima de tudo, um conectado, grudado na tela do celular dia e noite ou, como eles dizem, 24/7 (twenty-four/seven, em inglês, por favor). O tempo dedicado a mensagens cifradas, ícones, fotos e vídeos, sua forma de se relacionar com seus pares, fez dele um ser autocentrado e narcisista – e as selfies em série estão aí para uma amostra dessa face. Ao mesmo tempo, a convivência em tribos ativou neles o engajamento em causas sociais, destacando-se em primeiríssimo lugar as ações em prol do meio ambiente – aquecimento global e produção sustentável estão no topo da lista de suas preocupações.

A atitude tem, é claro, reflexo no que consomem. Como a demanda desse contingente populacional é um potente motor da economia, as empresas estão revirando seus conceitos para se adaptar a um novo comprador, mais saudável e consciente, atento para a qualidade de vida, a sustentabilidade e os valores éticos. “Em plena idade produtiva, essa geração não está só mudando a maneira de consumir, como atuando diretamente na transformação de bancos, companhias de telefonia, redes de varejo e empresas de tecnologia e inovação”, afirma o sociólogo Dario Caldas, diretor do Observatório de Sinais, consultoria de tendências em comportamento.

Passar o tempo fazendo o que gosta e aproveitar cada minuto da melhor forma possível é o objetivo declarado do millennial, que em geral não cultiva ambições espetaculares (tirando a de gerar e vender um unicórnio, as startups de 1 bilhão de dólares, o que costuma ser mais sonho do que projeto). Uma observação sistemática de seus perfis mostra adesão irrestrita ao lema “só se vive uma vez”- ops, you only live once, encapsulado na sigla YOLO, de alta frequência nas redes. Individualista, adepto de exercícios e de um modo de vida mais saudável para si e, por tabela, para o planeta em que vive, o millennial desenvolveu a paradoxal capacidade de dar pouca bola para as grandes questões da civilização, o que é ruim ou bom. Vão vivendo, ponto – e são inflexíveis.

Morar sozinho e comprar um carro, atos que baby boomers e Hollywood transformaram em ritos de passagem para a vida adulta, saíram de moda. O jovem moderno nem aprende a dirigir e não tem nenhuma pressa de se desprender do lar paterno, o que lhe dá liberdade para fazer as coisas no tempo que achar adequado. Por outro lado, sempre dentro de sua bolha, não aproveita a chance de conversar e desfrutar da experiência dos mais velhos, uma das falhas no aprendizado da tribo. Resistente a rótulos, essa juventude mantém distância de partidos, religiões e instituições, uma indiferença que, se de um lado estimula certa alienação, de outro incentivou nela uma maior aceitação da diversidade de raças e gêneros.

Acostumado à ausência de lideranças definidas nos movimentos empreendidos em redes sociais, o millennial simplesmente desconhece autoridade. Sendo assim, não tem por que se rebelar contra ela e aceita o establishment e o uso da máquina em vigor para alcançar as transformações que almeja – no que é o exato oposto da juventude rebelde dos baby boomers, em constante mobilização pelos direitos das mulheres, pela igualdade racial e pela paz mundial. “Além de numericamente relevantes, os millennials são formadores de opinião, influenciando outras faixas”, diz Ricardo Ismael, cientista político e professor da PUC-Rio. Artistas dessa fatia etária, como o youtuber Felipe Neto (que dá opinião até sobre o que não sabe), a cantora Iza e o ator Bruno Gagliasso, assumem posições sabendo perfeitamente que vão inspirar outras pessoas. Políticos que defendem minorias, dizem prezar a ética e fogem do padrão convencional costumam contar com seu apoio, sem grande distinção partidária. “A cada eleição, eles serão mais decisivos”, ressalta o sociólogo Paulo Baía, da UFRJ. “Busco políticos que sejam tolerantes com o diferente, que promovam diversas visões de mundo e governem para todos”, concorda o defensor público Luís Henrique Zouein, 29 anos, que, como muitos millennials, procura conciliar a carreira com as causas em que acredita.

Na mesma toada de “minha satisfação em primeiro lugar”, o jovem adulto de hoje se envolve em vários projetos ao mesmo tempo e muda de emprego sem piscar. “Sou ambiciosa e procurei um lugar onde pudesse crescer rápido. Em quatro meses, avancei aqui muito mais do que em uma empresa tradicional”, explica a carioca Letícia Becker, de 28 anos, que trocou um escritório de advocacia pela chance de trabalhar na startup de mobilidade urbana 99 – os nichos de novidades tecnológicas, com os desafios e riscos que carregam, são o emprego dos sonhos. Com seu novo jeito de ser, eles estão forçando o mercado a atender às suas vontades e caprichos. “Não compram apenas produtos. Querem coisas que traduzam as mensagens em que acreditam”, diz Keith Niedermeier, professor de marketing da Wharton School, da Filadélfia.

Viajar (sempre atento à pegada de carbono) e viver novas experiências estão no topo das atividades preferidas de uma geração que dá mais valor a usufruir do que a ter, o que embasa o sucesso de empresas de compartilhamento como Uber, Airbnb e o coletivo de escritórios WeWork. “No papel de consumidores, são mais ativos e exigentes do que as gerações anteriores. Pedem marcas que se posicionem de forma transparente e que ousem pôr em prática novos tipos de negócios”, diz Daniela Cachich, vice-presidente de marketing de alimentos da PepsiCo Brasil. Alição está sendo aprendida a duras penas por nomes consagrados como Unilever e Coca­ Cola – esta, uma marca-símbolo da juventude que perdeu o ritmo ao não perceber a tempo que millennial que é millennial torce o nariz para refrigerantes, e agora corre atrás do prejuízo. “Buscamos o engajamento de uma marca em causas em que acreditamos. Podemos até pagar mais caro, desde que ela dê um retorno positivo à sociedade”, pontifica o engenheiro agrônomo Lucas Iff, 30 anos. Em nome de seus princípios, Iff e a mulher, a advogada Priscila Martins, 27, mudaram do Rio de Janeiro para o interior de Minas Gerais, em busca de maior qualidade de vida.

No Brasil, a ascensão dos millennials à faixa mais larga da pirâmide demográfica desencadeia consequências de efeitos fundamentais no futuro do país. “Essa geração encarna um bônus demográfico, oportunidade única para as sociedades”, chama atenção o demógrafo José Eustáquio Alves. Isso quer dizer que a atual estrutura etária da população, com sua maior parcela em idade produtiva, favorece o desenvolvimento econômico. É verdade que, infelizmente, desperdiçamos parte da potencialidade do bônus, que começou a se desenhar a partir dos anos 1970. Mas a janela só se fecha em 2034 e os jovens adultos de hoje representam o último vento demográfico a favor, antes que o envelhecimento inexorável da população reduza sua força de trabalho.

Dar as mãos a grupos geracionais e entender como pensam tem o dom de ajudar a reerguer economias. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial. Passado o caos inicial e deslanchada a recuperação, o clima de prosperidade favoreceu uma explosão de nascimentos de bebês, os baby boomers, que hoje têm entre 56 e 74 anos. Essa faixa etária foi impactada pela popularização da TV, pela pílula anticoncepcional, pela entrada da mulher no mercado de trabalho, pelos ideais de liberdade e igualdade e pela ambição de trabalhar, formar família e enriquecer – quanto antes, melhor. Agora, isso é passado. “Diferentemente dos meus pais, posso adiar minha entrada no mercado profissional e os planos de me casar e ter filhos”, alegra-se Vivian Doimo, de 27 anos, que mora com a família e há três anos se prepara para o concurso de juíza. Sem pressa, a seu jeito e com satisfação pessoal garantida. #YOLO.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE OUTUBRO

CONTINUE ESPERANDO UM MILAGRE

Ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, a que chamou Samuel, pois dizia: Do SENHOR o pedi (1Sm 1.20).

Ana era estéril, mas tinha o sonho de ser mãe. Seu marido a amava, mas sua rival a provocava excessivamente para irritá-la. Elcana, seu marido, um dia lhe aconselhou a desistir desse sonho, mas Ana não desistiu. Continuou resoluta na expectativa do milagre. Em outra ocasião, ao vê-la orando no templo, o sacerdote Eli pensou que Ana estivesse bêbeda e a repreendeu. Mas Ana não se calou nem nutriu mágoa no coração. Manteve-se focada no seu propósito de gerar um filho. Fez um voto a Deus, dizendo que, se o Senhor ouvisse seu clamor e lhe desse um filho, ela o devolveria para ser um sacerdote. O sacerdote Eli, vendo que ela derramava sua alma diante de Deus, ordenou-lhe voltar para casa com a promessa da vitória. Ana voltou para casa, coabitou com seu marido, Deus se lembrou da promessa, e ela concebeu e deu à luz um filho, a quem chamou Samuel. A aparente demora de Deus era pedagógica. Os propósitos de Deus são maiores que nossos sonhos. Deus não deu apenas um filho a Ana, mas seu filho foi o maior profeta, o maior sacerdote e o maior juiz de sua geração. Quando as coisas parecem fora de controle, elas estão sob o controle de Deus. Quando tudo parece perdido, continue esperando um milagre!

GESTÃO E CARREIRA

DESTRUIÇÃO CRIATIVA

Pagamentos por meio de aplicativos se consolidam com a pandemia e ameaçam aposentar de vez as maquininhas de cartão

Pode parecer surreal, mas o setor formado pelas empresas de mais rápido crescimento no Brasil nos últimos anos corre o risco de desaparecer em ritmo igualmente surpreendente. O hábito de comprar por meio de máquinas de leitura de cartões magnéticos ou com chip pode se tornar obsoleto num futuro próximo. Trata-se de uma tendência inexorável nos chamados meios de pagamento, em que já é possível fazer transações via QR code e reconhecimento facial, sem o uso das máquinas onde se inserem os cartões e digita-se a senha no teclado numérico. Um novo passo nessa reviravolta estava prestes a ser dado no país com a entrada em funcionamento do WhatsApp Pay, operado pelo aplicativo de mesmo nome pertencente ao Facebook, em parceria com a empresa líder em operações de pagamento, a Cielo. O lançamento foi revertido, entretanto, na noite da última terça-feira, 23. O Banco Central, que tem defendido a descentralização do sistema financeiro, determinou que as bandeiras de cartões Visa e Mastercard suspendessem o suporte ao sistema, jogando um balde de água fria (ao menos temporário) na empreitada. Mesmo com a decisão do BC em relação ao WhatsApp, o fim das leitoras de cartão é visto como um processo inexorável. “As maquininhas estão com seus dias contados”, vaticina Paulo Caffarelli, CEO da Cielo, que hoje detém 42¾ do setor.

A decisão do BC, além de reforçar o interesse da autoridade monetária em se manter como indutora da modernização do mercado financeiro, atende aos apelos dos grandes bancos, que temiam o confronto com uma rede social tentacular na operação de transações financeiras. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também não via com bons olhos a parceria entre Cielo e WhatsApp por acreditar que poderia contribuir com a concentração no mercado – não levando em conta que outras empresas pretendiam entrar na parceria, como a Stone, que negociava a adesão. O BC argumenta que sua determinação tem por objetivo preservar um “ambiente competitivo” em um sistema de pagamentos “interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”.

As características delineadas pelo Banco Central são as mesmas que a instituição usa para defender o PIX, tecnologia de transferência instantânea que deve estrear em novembro no Brasil. Já a proposta de parceria entre WhatsApp e Cielo terá de passar por uma série de ajustes e exigências regulatórias para sair do papel. Mas tudo leva a crer que será apenas uma pausa. Apesar da momentânea sobrevida ao sistema tradicional, a decisão não interrompe o ciclo de inovação desse mercado. Segundo um levantamento feito pela consultoria EY, 54% dos brasileiros afirmam que usarão mais serviços financeiros digitais após a pandemia em detrimento do dinheiro vivo.

Os pagamentos virtuais atualmente oferecidos no mercado sempre tiveram boa performance decrescimento, mas a penetração nas classes mais baixas era mais difícil. Com a pandemia, esse cenário mudou. O uso da tecnologia para compras, principalmente por meio dos smartphones, disparou. O WhatsApp, involuntariamente, se tornou um propulsor desse movimento, como uma porta de acesso entre as empresas e o consumidor. Com isso, a inclusão de um meio de pagamento nessa intermediação passou a ser questão de tempo. Pagamentos por aplicativos de mensagem ainda provocam estranheza no Brasil, mas são sucesso indiscutível em outros países emergentes, como a China. Por lá, o responsável pela mudança é o WeChat, um “superapp” que armazena dados dos clientes e pelo qual é possível pagar compras e contas. A Índia, por sua vez, foi escolhida para ser o mercado-teste das primeiras versões do WhatsApp Pay. “A chegada desses novos meios de pagamento de certa forma reproduzirá o que aconteceu com o Uber, quando assistimos às reações negativas dos taxistas e do poder público. No caso das transações, essa reação vem dos bancos”, analisa Cristina Helena Pinto, economista da ESPM.

Curiosamente, a grande aposta do BC, o PIX, também está baseada em transferências usando smartphones, assim como carteiras virtuais como Pic­Pay e Mercado Pago. Para enviar o dinheiro a uma pessoa, o cliente precisará entrar no aplicativo da sua instituição financeira (banco, cooperativa ou fintech) e informar o número de telefone do destinatário ou ao escanear o QR code no caixa de uma loja. Os grandes trunfos desse formato de pagamento em relação às soluções que existem hoje são a possibilidade de ser utilizado entre clientes de diferentes instituições financeiras e, principalmente, a rapidez com que o recurso chega de uma ponta a outra da transação. Enquanto uma compra no débito leva semanas até ser liberada para o vendedor, o PIX funciona como uma transferência que disponibiliza o recurso em dez segundos. “Com a instantaneidade, os empresários receberão o dinheiro mais rápido e isso pode até diminuir a necessidade de capitai de giro, por exemplo”, afirma Carlos Eduardo Brandt, diretor adjunto de operações financeiras e pagamentos do BC.

A mudança no uso do dinheiro já está em curso, mesmo antes da operação do PIX, seja devido à pandemia, seja pela atuação de fintechs que operam transações virtuais. “Já conseguimos oferecer a transação por QR code em maquininhas de empresas como Cielo, Getnet e Rede. Migrar para o smartphone é algo natural”, afirma Gueitiro Genso, CEO do PicPay. Ao combinar critérios como livre concorrência, transparência e eficiência a baixo custo, a tecnologia acaba vencendo os entraves à inovação, até mesmo entre os mais renitentes adversários das novidades. Schumpeter (economista que criou a teoria da “destruição criativa”) estava certo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – XI

PARA UMA MELHOR QUALIDADE DE VIDA

Terapias de diferentes áreas que favorecem o desenvolvimento do autista

Primeiramente, antes de iniciar qualquer terapia ou recorrer ao tratamento medicamentoso, a análise multidisciplinar para identificar o autismo é necessário. Após a confirmação do diagnóstico do TEA por diversos profissionais, é importante começar os tratamentos o quanto antes, visando amenizar o desenvolvimento dos sintomas.

POR QUE PROCURAR ESPECIALISTAS DE DIFERENTES ÁREAS?

O processo terapêutico pode variar de acordo com as necessidades e os interesses do paciente e conforme ocorrer a decisão da família. A definição da equipe de profissionais deve ser bastante estudada por meio de uma avaliação para elencar quais os cuidados necessários. O ideal é procurar especialistas experientes em terapias relacionadas ao TEA em diferentes áreas, como a psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, entre outros. Assim, cada um pode oferecer a sua visão do caso para que, em conjunto, a evolução do tratamento multidisciplinar seja positiva.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO FONOAUDIÓLOGO PARA O AUTISTA?

Este profissional é fundamental nos primeiros cuidados com o autismo, levando em conta que a alteração na comunicação, tanto verbal como não verbal, é um dos principais sintomas no quadro clínico da pessoa dentro do espectro autista. Visto que o diagnóstico precoce e a intervenção imediata são extremamente importantes para uma melhor evolução do quadro da criança com autismo, “o fonoaudiólogo, na maioria das vezes, é o primeiro profissional, além do pediatra, que recebe e identifica os primeiros sinais e sintomas do TEA na criança”, explica a fonoaudióloga Andréa Misquiatti.

Além da parte do déficit de comunicação, esse profissional também pode trabalhar outras funções que são comprometidas pelo TEA, como a motricidade oral, ou seja, a respiração, deglutição (engolir) e mastigação. “Realizamos atividades com alimentos, proporcionando o reconhecimento de uma gama variada de texturas, cores e sabores”, complementa a fonoaudióloga e psicopedagoga Sheila Leal.

COMO TRABALHAR A FONOAUDIOLOGIA EM CASA?

Após a criança ter recebido o diagnóstico, ela precisa ser levada aos especialistas indicados para tratamento. Mas o processo não acaba por aí! Dar continuidade com exercícios simples em casa é fundamental para o melhor desenvolvimento da linguagem da criança. Para isso, existem atividades relacionadas à comunicação voltadas para cada quadro clínico. Em relação a uma criança que possua uma expressão verbal, as atividades mais indicadas por Sheila são voltadas para “o aumento de vocabulário, conquista de alguns fonemas (para que ela possa ser melhor entendida), trabalhos com fantoches (para criar turnos da comunicação), programas realizados por imitação (com jogos, figuras, músicas) atuando de forma lúdica e objetiva”. Já para crianças que tendem a se comunicar de um modo não verbal, como escrita e desenhos, a fonoaudióloga indica “as técnicas Picture Exchange Communication System (PECS – Sistema de Comunicação por Troca de Figuras, em tradução livre). Assim, ela pode adquirir recursos para realizar sua comunicação e, com isso, ter estimulado também o desenvolvimento de sua fala”.

QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES APRESENTADOS PELO AUTISTA NO ÁREA FONOAUDIOLÓGICA?

Como distúrbios de linguagem são um dos sintomas mais recorrentes e evidentes, a pessoa com TEA pode apresentar variações dessas complicações dependendo da gravidade do seu quadro clínico,” por exemplo, quando emite ecolalia tardia e imediata (repetição de palavras ou frases inteiras) fora do contexto, inversão pronominal, discurso incoerente, alterações da prosódia (voz monótona), uso de palavras pouco usuais, discurso monotemático (falam sobre um único assunto) ou mesmo a falta de comunicação oral”, exemplifica a fonoaudióloga.

EXERCÍCIOS FÍSICOS SÃO RECOMENDADOS COMO TERAPIA PARA O TEA?

Terapeutas da Associação Cultural Educacional Social e Assistencial Capuava (Acesa Capuava) indicam a prática de exercícios físicos no processo de tratamento em casos de TEA, pois a coordenação motora e a cognição (raciocínio, memória, atenção, etc.) são dificuldades bastante presentes em pessoas com esse transtorno. E, além disso, atividades físicas, seja por meio da prática de esportes ou simples brincadeiras, são importantes para promover a socialização.

Os benefícios dessa terapia ultrapassam a melhora dos sintomas mais comuns do TEA. Ela também contribui para o gasto de calorias, o que é saudável para pessoas dentro ou fora do espectro autista, gera melhorias em quadros de agitação e, consequentemente, o sono, o humor e controla a ansiedade.

Outra recomendação dos especialistas é começar as atividades físicas com esportes individuais para, posteriormente, evoluir para os que trabalham com a coletividade. A natação é um exemplo de esporte que, além de poder ser praticado tanto individualmente como em grupo, utiliza o meio aquático, importante para o desenvolvimento motor.

A TERAPIA OCUPACIONAL AJUDA NO TRATAMENTO DO AUTISMO?

Outra área a ser levada em conta na busca da melhor qualidade de vida é a terapia ocupacional. Essa especialidade tem como objetivo trabalhar as questões voltadas à integração sensorial dessas pessoas. Segundo Sheila, “este trabalho é fundamental para o desenvolvimento de várias habilidades, como ficar descalço, ter contato com areia, grama, subir em objetos e balançar.”

O ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO DO AUTISTA É NECESSÁRIO?

Sim, é importante que tanto o portador do TEA quanto os pais participem de um trabalho psicológico. Além do auxílio com a característica reclusão social e outros déficits cognitivos, a psicoterapia ajuda em possíveis comportamentos agressivos e compulsivos, que podem interferir no convívio em família, na escola e na sociedade em geral. “Conheço, acredito e aplico as técnicas do Método ABA – Análise do Comportamento Aplicada – e observo intensas modificações nos comportamentos das crianças com TEA”, indica Sheila. Alguns pais podem relutar em aceitar o diagnóstico de autismo, parte fundamental do processo terapêutico para que possam dar continuidade ao mesmo e, assim, ajudar a criança a obter alguma evolução. Segundo a psicopedagoga, “os pais, quando orientados por psicólogos, passam a entender quais são os comportamentos que devem ser reforçados ou ignorados, e essas condutas têm reflexos imediatos na vida da criança”.

E QUANTO À FISIOTERAPIA, É INDICADO PARA CRIANÇAS COM TEA?

Essa é mais uma área fundamental a ser trabalhada, principalmente nos primeiros anos de vida de crianças que apresentem um atraso nas funções motoras, estimulando ações básicas como engatinhar, sentar, ficar em pé, andar sem ajuda e brincar com as mãos. Mais adiante, é possível que apareçam dificuldades em relação à coordenação motora e noções espaciais, que também podem ser trabalhadas com a fisioterapia por meio da integração sensorial, psicomotricidade (relação entre as funções psíquicas e motoras), circuitos motores e relaxamentos.

Com o passar do tempo, nas fases adolescente e adulta, é possível que apareçam outros obstáculos a serem trabalhados pela fisioterapia, como postura e mudanças comportamentais, que podem ser exercitados com o RPG (reeducação postural global), alongamentos e controle da respiração, por exemplo.

A PARTIR DE QUAL PONTO O TRATAMENTO MEDICAMENTOSO É RECOMENDADO?

O uso de medicamentos para o tratamento não só do TEA, como de outros transtornos neurológicos, é sempre alvo de polêmicas quanto em que momentos deve ou não ser indicado. Segundo a neuropediatra Solange da Costa Silva, “algumas vezes, é necessário o uso de neurolépticos (risperidona, quetiapina, haloperidol) para as alterações comportamentais, como agressividade, e uso de anticonvulsivantes para casos de epilepsia ou de distúrbios do humor. Para os que possuem transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), está indicado o uso de metilfenidato” – vale lembrar que está fora de cogitação o uso de remédios sem a prescrição de um médico especializado. Além da indicação, é importante ter em mente que nem todo individuo dentro do espectro autista irá precisar recorrer a um tratamento medicamentoso algum dia. “Para autistas ansiosos, agitados, hiperativos, com muitas manias e estereotipias, são recomendados remédios da linha psicológica e psiquiátrica para isso. Mas existem autistas que não tomam remédios e não precisam deles”, ressalta o neuropediatra Paulo Breinis.

Esses medicamentos são indicados para o controle de sintomas provenientes do autismo. Quanto a uma cura para o transtorno, ela ainda não existe e é o que a genética tanto trabalha para encontrar. Como citado anteriormente, o neurocientista e geneticista Alysson Muotri, alguns anos atrás, fez parte de um grupo, nos Estados Unidos, que conseguiu reverter o gene autista da Síndrome de Rett, feito que impulsiona a descoberta de uma solução para a cura do TEA. Porém, Muotri explica que os laboratórios dedicados a encontra-la são poucos, mesmo com evidências de que o autismo seja curável, tanto em “minicérebros” (derivados de células-tronco de pessoas dentro do espectro autista) como em animais. Segundo Muotri, “existem algumas drogas em fase pré-clínicas, e não se sabe quando os testes clínicos começarão. O principal obstáculo da pesquisa atualmente é a falta de financiamento. É difícil prever efeitos colaterais com novos medicamentos; para isso, servem os testes clínicos.”

A EQUOTERAPIA É EFICIENTE NO TRATAMENTO DO TEA?

No equoterapia, assim como no diagnóstico e em todo o tratamento do autismo, é necessária uma equipe com diferentes profissionais especialistas, como fisioterapeuta, psicólogo, terapeuta ocupacional e, principalmente, um equitador para garantir a segurança no trabalho com o cavalo. Dessa forma, com técnicas relacionadas cada uma à sua área, a equoterapia pode proporcionar a melhora de danos motores, comportamentais, sensoriais motores, cognitivos e emocionais. Outra característica interessante dessa terapia é a realização ao ar livre, sem a limitação física de um consultório e o barulho da cidade.