A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – IX

VIVENDO COM TEA

Interpretar as ações de pessoas autistas é uma tarefa exigente

Muito se fala do “mundo autista”, referindo-se a um hipotético universo paralelo em que as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) viveriam à parte do resto da sociedade. Porém, não é bem isso que acontece. Os autistas vivem a mesma realidade que todos, porém, têm algumas reações diferentes se comparadas a não-autistas. O TEA não apresenta alterações físicas na formação do cérebro, no entanto, o autismo é um distúrbio do neurodesenvolvimento, isto é, durante o desenvolvimento do sistema nervoso do indivíduo, algo aconteceu para que o processo se desse de forma atípica. Essa alteração reflete no comportamento dos autistas, gerando condutas específicas e estereotipadas, ou seja, padronizada entre eles. “No caso das pessoas com autismo, os circuitos neurais responsáveis por características ligadas às emoções, empatia e previsibilidade de acontecimentos futuros funcionam de forma diferenciada da maioria dos seres humanos”, afirma a neuropsicóloga Renata Amável, especialista em autismo. Tal diferença faz com que os indivíduos apresentem dificuldades na tríade comportamental que engloba déficit na comunicação, interesses restritos e prejuízos na interação social. Quanto maior o nível de comprometimento, maior a dificuldade apresentada.

O QUE SÃO ESTEREOTIPIAS?

A definição de estereótipo é uma ideia padronizada tida coletivamente por um grupo sobre determinado tema. No caso do autismo, estereotipias são comportamentos automatizados e semsentido funcional que são característicos em pessoas com TEA e apresentados em ambientes distintos. “Vale lembrar que, conforme o autista é tratado para melhorar sua comunicação, as estereotipias tendem a diminuir”, destaca Renata.

QUAIS SÃOS AS ESTEREOTIPIAS MAIS COMUNS?

Um autista pode apresentar diversas estereotipias, isto é, comportamentos típicos de pessoas com TEA, que também podem variar entre os indivíduos. No entanto, as mais conhecidas são:

*** movimento pendular do corpo para frente e para trás;

*** flupping, palavra em inglês para se referir ao chacoalhar de mãos e braços ao lado do corpo, como se os braços fossem asas. É mais comum:

* em crianças e, geralmente, quando estão felizes, ansiosas ou irritadas;

* movimentos repetidos das mãos em frente dos olhos;

*andar com as pontas dos pés;

*ambulação de um lado para outro aparentemente sem sentido ou propósito;

*ecolalia, repetição de sons emitidos por outras pessoas, aparelhos, etc., ou por si próprios;

*batidas nas próprias orelhas;

*ficar observando as próprias mãos;

*olhar lateralizado;

*observar um objeto fora do ângulo normal do mesmo;

*pulos e giros sem motivo aparente.

OS AUTISTAS PODEM DESENVOLVER INTERESSE ESPECÍFICO POR UM ÚNICO ASSUNTO?

Grande parte dos autistas apresenta, além das estereotipias, deficiência intelectual. Irritabilidade, comportamentos auto lesivos, não desenvolvimento da fala ou dificuldade em comunicar-se, além de outras alterações mais comprometedoras, também podem se manifestar. Em alguns casos, mesmo com a deficiência do intelecto, a pessoa com TEA desenvolve uma grande habilidade intelectual específica, como saber exatamente qual dia da semana cai em qualquer dia do ano. “Contudo, é importante ressaltar os pontos positivos que a pessoa possui e explorar ao máximo suas capacidades, através de estímulos corretos e constantes, com abordagens multiprofissionais, que podem auxiliar no desenvolvimento da fala, socialização e comunicação, por exemplo”, afirma a psiquiatra Talita Braga. A especialista também destaca a necessidade de se estar atento ao interesse específico do autista, que pode ser utilizado para auxiliar no desenvolvimento pessoal, inclusive no aprendizado. “Por exemplo: se alguém com TEA tem grande interesse em marcas de carros, poderia-se utilizar de recursos gráficos com as letras existentes em cada marca de carro para ajudar na alfabetização de uma criança com dificuldades”, exemplifica a psiquiatra.

POR QUE ELES EVITAM CONTANTO FÍSICO?

No funcionamento do cérebro considerado normal, há a organização das informações sensoriais de forma a produzir padrões estáveis de comportamento. Isso permite uma interação produtiva com o ambiente e a aprendizagem. “O sistema tátil processa informações sobre aquilo que está em contato com a pele, como a temperatura, a ternura e outra informações vitais para nos proteger de perigos. Porém, os portadores de TEA apresentam déficits neste processamento”, explica Renata.

Estudos mostram que pessoas com TEA apresentam alteração da conexão entre diversas áreas do cérebro, isto é, a falta de interação entre elas o que resultaria na defasagem sensorial. Um experimento realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSC) observou crianças autista caminhando sobre o solo quente e em pedras pontiagudas. Notou-se que elas não demonstravam reação aparente em nenhum dos casos. “é muito comum observar crianças autistas que gostem de caminhar na ponta dos pés, que evitem pisar na areia, ou não gostem de se sujar ou de misturar alimentos de diferentes texturas e cores”, complementa a neuropsicóloga.

Outras pesquisas ainda identificaram uma área específica do cérebro responsável por modular a percepção e interpretação de movimentos biológicos (se interessar por alguém que se movimenta à sua frente, por exemplo) que não é ativada nos autistas. “Com este funcionamento, eles podem se esquivar do contato físico, mas por alterações sensoriais e não por falta de afeto pelas pessoas e familiares”, afirma Joana Portolese, assessora de neuropsicologia.

Assim sendo, os pais e cuidadores não devem entender como ausência de amor algumas reações dos autistas. Segundo o psicólogo Celso Goyos, especialista em educação especial, interpretar o que uma criança que não se manifesta verbalmente possa ou não estar sentindo pode ser de pouca utilidade para seu tratamento, já que partem apenas de deduções do adulto observador: “a função da reação da criança é o que importa; pode ser mantida pela fuga da estimulação aversiva, como também pode ser uma outra instância do comportamento de sua hipersensibilidade”.

OS AUTISTAS NÃO GOSTAM DE SONS?

Ter hipersensibilidade aos sons ao redor também é um co1mportamento que pode se manifestar nos autistas. Apesar de os especialistas desconhecerem as causas dessa característica em portadores de TEA, sabe-se que ela pode aparecer de três formas:

• HIPERACUSIA. É a sensibilidade anormal a sons de baixa ou moderada intensidade e geralmente relacionada a alterações no processamento central dos sons, o que causa desconforto;

• FONOFOBIA. Desconforto causado por alguns sons específicos e relacionados com o seu significado. Neste caso, a sensibilidade se dá pela lembrança emocional do som, e não pela intensidade do ruído. Relaciona-se por meio de conexões entre o sistema límbico e o sistema auditivo central;

• RECRUTAMENTO. É a perda auditiva sensorioneural periférica, que ocorre por uma redução nos elementos sensoriais do ouvido.

O especialista em autismo Celso Goyos lembra que a hipersensibilidade a estímulos do meio ambiente é comum não só em indivíduos com TEA. ”Não se sabe ao certo se esta característica tem origem diferente nesses indivíduos das de pessoas fora do espectro. Os tratamentos mais eficazes, no entanto, são comportamentais”, conta.

AUTISTAS SÃO SUPERINTELIGENTES?

É possível notar autistas com alto funcionamento intelectual, até com QI acima da média, como é o caso de vários cientistas. “Talvez por isso exista a imagem do ‘cientista maluco’, alguém com capacidades incríveis em determinadas áreas de conhecimento, mas que não se importa ou não compreende as regras sociais – pode ter cabelos desgrenhados, não interagir bem socialmente, vestir-se de forma peculiar, etc. Isso não ocorre ao acaso”, afirma Talita. A psiquiatra lembra que existe uma grande prevalência de TEA nos tais “gênios esquisitos”. Geralmente, são pessoas que não entendem piadas, metáforas e ironias, sendo bastante literais e rígidas com rotina.

Neste quesito, o interesse restrito acaba favorecendo o desenvolvimento dos autistas, já que, em alguns casos, pode ser algo usado de forma positiva. “Uma pessoa, mesmo com dificuldades em comunicações e interações sociais, mas que tenha um grande interesse em alguma área restrita, pode tornar-se um profissional de destaque na área, especialmente porque tem um foco aumentado no assunto. Inclusive, é possível, ter uma memória acima do normal, o que pode ser vantajoso”, explica a psiquiatra.

Por outro lado, as limitações de interação social trazem prejuízos na qualidade de vida, tornando indispensáveis as intervenções terapêuticas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.