EU ACHO …

A VACINA CONTRA A COVID A IGNORANCIA E A MENTIRA

De todos os episódios curiosos na história do Brasil moderno, talvez o mais difícil para o estrangeiro compreender é a Revolta da Vacina, em 1904. O governo decreta a imunização obrigatória contra a praga da varíola na então capital, e a população carioca, que se beneficia da medida, reage com um quebra-quebra generalizado? O grande sanitarista Oswaldo Cruz, hoje considerado herói nacional, inicia uma campanha paralela para erradicar a febre amarela e a peste bubônica, que acaba provocando manifestações, tiroteios, estado de sitio, tentativa de golpe militar e 30 mortos? Como explicar uma coisa dessas? Mas agora, tardiamente e devido à pandemia da Covid-19, estou começando a entender. A corrida internacional para desenvolver uma vacina eficaz – a chamada “bala de prata” que vai fazer desaparecer uma pandemia que nesta semana ultrapassou a cifra de 1 milhão de mortos – está despertando no palco mundial algumas das mesmas dúvidas que preocuparam o brasileiro há mais de 100 anos. A vacina será segura? Como será administrada? Todo mundo terá o mesmo acesso a ela, ou os ricos vão monopolizar o estoque, deixando os pobres indefesos?

É como se ainda estivéssemos nos anos 1960, auge da corrida espacial que terminou com a chegada de uma missão americana à lua. Inclusive, o programa russo se chama “Sputnik V”, e seu rival americano recebeu um nome tirado diretamente de Jornada nas Estrelas: “Operação Dobra Espacial… O Reino Unido, a China e a Alemanha também entraram para valer na concorrência.

Mas alguns desses programas, como o da Rússia, tentaram inicialmente trabalhar em sigilo e ainda agora relutam contra a transparência. No caso das empresas farmacêuticas privadas – apenas nos Estados Unidos são nove -, elas são motivadas pelo lucro, e não gostam de divulgar pistas que possam ajudar competidores. Toda vez que uma delas emite um boletim anunciando o mínimo progresso, suas ações sobem. Então imagine a rentabilidade resultante da produção da primeira vacina a entrar no mercado.

Claro que todos queremos que uma vacina chegue às mãos de nossos médicos o mais rápido possível. Mas a pressa leva à desconfiança, e não devemos abrir mão dos requisitos que asseguram a segurança da população. Esse problema já surgiu nos Estados Unidos: em sua ânsia por um segundo mandato, Donald Trump pressiona os órgãos oficiais a afrouxar suas normas para que uma vacina esteja disponível antes da eleição. Alarmado, o governador de Nova York anunciou que o estado vai administrar apenas as vacinas aprovadas por uma junta médica estadual.

Eu, pessoalmente, não gosto do fato de alguns países autoritários usarem pessoas como cobaias, sem seu consentimento. Segundo grupos de direitos humanos, a China testa sua vacina não apenas em soldados, mas também em presos políticos da etnia uigur. Os uigures são um povo muçulmano que mora no extremo oeste da China, e mais de 1 milhão deles estão confinados em campos de concentração, acusados de nutrir “tendências separatistas “.

Mas, em contrapartida ao que a ONG Oxfam chama “nacionalismo de vacina”, existe um esforço multilateral, batizado Covax, composto de mais de 150 países. Depois de tergiversar durante dois meses, o Brasil acaba de se juntar ao grupo, que busca criar um estoque estável de vacina para cada país-membro. Mas Estados Unidos e China decidiram não participar, e vários outros signatários, incluindo Austrália, Canadá e Japão, também negociaram separadamente acordos bilaterais com fabricantes – uma política que vai contra o espírito comunitário do acordo.

No contexto brasileiro, a pandemia tem exacerbado as enormes desigualdades sociais já existentes, e a busca por uma vacina ameaça acentuá-las ainda mais. Em 2010, como em 1904, são os pobres que morrem desproporcionalmente e têm menor acesso a remédios, máscaras etc. Além disso, de longe parece que existe entre alguns brasileiros uma certa complacência e fatalismo com a Covid-19, e não apenas no Palácio do Planalto. Zika, dengue e chikungunya são todas doenças que já viraram endêmicas no país, então porque não aprender a conviver com mais uma?

Nesta semana, o chefe da OMS advertiu que “a desinformação mata”. Ele tem razão. Mas a ignorância e as mentiras se combatem com a transparência e solidariedade, e a corrida pela vacina demonstra que, neste momento de crise, ainda sofremos de escassez dessas duas qualidades essenciais.

LARRY ROHTER – Jornalista e escritor, ex correspondente do new York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

ARTIFICIAL, MAS ONIPRESENTE

Softwares inteligentes passam a ter inúmeras aplicações na vida cotidiana. Com o avanço tecnológico, eles vão assumir cada vez mais atribuições

“A proposta é usar todo o nosso conhecimento para construir um programa de computador que saiba e, também, conheça”, resumiu o cientista da computação John McCarthy, em 1956, durante uma conferência na Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, na qual apresentou o termo “inteligência artificial”. Naquele momento, era formalizada a busca por máquinas capazes de livrar os seres humanos de tarefas repetitivas, além de ser atualizada, por um novo termo, uma antiga ambição humana que nasceu muito antes dos chips de silício. Uma lenda judaica já apresentava, milênios atrás, a ideia de um ser artificial pensante, o Golem, feito de barro e subserviente aos homens. Na Idade Média, alquimistas chegaram a sonhar em dar vida à criatura por eles batizada de Homunculus. O tempo tratou de fortalecer esse desejo e a ciência o converteu em realidade. Hoje em dia, a inteligência artificial (IA) se faz onipresente.

Para se ter uma ideia clara de como a inteligência artificial está ativa na vida moderna, basta visitar a loja física do mercado Zaitt, em São Paulo. Nela, não há humanos em nenhum ponto do atendimento. Quando o cliente escolhe um item nas gôndolas, sensores de movimento conectados a um poderoso software monitoram se o produto foi escaneado no caixa. Na hora de pagar, não há fila: o valor é debitado da conta do cliente, que teve de se cadastrar antes de entrar no estabelecimento. Para isso, basta passar o celular em um sensor que está sincronizado com um aplicativo bancário. Nesse exemplo, trabalhadores humanos existem só nos bastidores, recebendo as ordens da IA que faz o balanço dos produtos que devem ser repostos.

As inovações geradas pelo desenvolvimento tecnológico estão inseridas até em atividades que, teoricamente, precisam do olhar humano. Na cervejaria Ambev, uma máquina está encarregada de selecionar novos talentos para a empresa. Logo após os candidatos se inscreverem no site da companhia e realizarem uma série de testes, as informações são imediatamente capturadas pela IA e analisadas por algoritmos que sabem, graças a escolhas anteriores, apontar quais são os melhores profissionais para determinadas vagas. Um dos pontos positivos de incumbir a IA de realizar a tarefa é que são desconsideradas pelo robô as informações pessoais, como gênero e idade, dos candidatos. “Na triagem feita pela máquina, são avaliadas somente as competências, evitando uma escolha enviesada”, diz o gerente de recrutamento e seleção da Ambev, Caio Zaio.

O mundo admiravelmente novo criado pela inteligência artificial provocará efeitos colaterais severos. O mais visível deles diz respeito aos empregos que poderão ser perdidos com o avanço inexorável das máquinas. Em outras palavras: muitos humanos vão ficar para trás. Um levantamento da consultoria americana McKinsey mostra que 50% das atividades tidas como repetitivas estão em processo de serem completamente transferidas para a IA até a próxima década. Em todo o mundo, o legado da mecanização avançada será de 800 milhões de pessoas sem oportunidades de trabalho. Outro estudo, dessa vez realizado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, virou meme ao pôr no ambiente on­line um sistema que indica quais são as chances de muitas carreiras serem extintas pela ascensão dos computadores (veja o quadro abaixo). Apesar de a análise ainda ser vista como brincadeira, é muito alta a probabilidade de profissões facilmente automatizáveis, como a de operador de telemarketing, sumirem do mapa de empregos nos próximos dez anos.

Mesmo os profissionais mais capacitados terão de absorver competências novas para não correr o risco do desemprego. Quem estiver disposto a aprender – ou, se for o caso, a se reinventar – poderá encontrar oportunidades. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), a demanda média por programadores com competências como a criação de códigos de IA deve ser de 70.000 profissionais por ano até 2024. E há também as atividades que não deverão ser afetadas. São aquelas que exigem capacidades demasiadamente humanas e que envolvem sensibilidade e perspectivas que só um cérebro biológico é capaz de oferecer. Ou seja: humanizar-se parece ser a escolha certa para garantir trabalho no futuro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE OUTUBRO

DEPRESSÃO, A NOITE ESCURA DA ALMA

Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia?…  (Salmos 13.2a).

Andrew Solomon, em seu livro O demônio do meio-dia, diz que a depressão é a principal causa de suicídio no mundo e a causa primária de muitas doenças graves. A depressão é como um parasita que rouba nossas esperanças e esmaga nossos sonhos. É a noite escura da alma. Atinge mais de 10% da população. É uma doença que precisa ser corretamente diagnosticada e adequadamente tratada. Muitas pessoas têm confundido depressão com ação demoníaca ou até mesmo com algum pecado não confessado. É preciso afirmar que um indivíduo cheio do Espírito Santo pode ficar deprimido, assim como uma pessoa fiel a Deus pode contrair um câncer. O profeta Elias lidou com esse drama. Depois de estupendas vitórias espirituais, entrou para uma caverna e desejou morrer. Olhou para a vida com óculos embaçados e pensou que era o único crente sobrevivente. Olhou para a vida com as lentes do retrovisor e julgou que seu ministério havia acabado. Por isso, pediu para si a morte. Deus tratou de Elias e o restaurou de sua crise depressiva. Devolveu-lhe a saúde emocional e o ministério. Deus também pode tirar sua alma do cárcere e curar você da depressão. Não jogue a toalha, não entregue os pontos, não desista de lutar. O sol voltará a brilhar!

GESTÃO E CARREIRA

SUBWAY QUER ACABAR EM PIZZA

Uma pizza colocou a rede de fast-food norte-americana Subway em evidência durante o mês. A esperada redonda, pedida por meio de aplicativo, chegou à casa de um cliente quase quadrada, com aparência de estar crua e pouco recheada. O consumidor postou a imagem nas redes sociais e a indignação viralizou. O erro, admitido pela empresa já nas horas seguintes à publicação por João ‘Guto’ Fugiwara, presidente para a América Latina, ocorreu dias após o item entrar no cardápio. O desvio foi corrigido e não altera a estratégia de incluir as pizzas no menu da rede especializada em sanduíches no período de quarentena e no pós-pandemia. “Foi um caso isolado. A pizza já é realidade em nossas lojas dos Estados Unidos há 12 anos. Em Porto Rico, há quase 20. E tem um futuro muito promissor no mercado brasileiro”, disse o executivo.

Com 1.850 lojas, o Brasil é o quarto maior mercado da Subway no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, Canadá e Reino Unido – ao todo, são 42 mil unidades em 112 países. Além de partir para as redondas como forma de enfrentar a crise, a marca antecipou o projeto Subway Market, a comercialização de produtos no atacado, como o queijo em embalagem de dois quilos. “Era um modelo que a gente não possuía. Ainda estamos implementando”.

A grande arma para minimizar a queda nas vendas durante a quarentena foi a utilização de plataformas digitais para pedidos remotos, como delivery (por meio dos aplicativos iFood, Rappi e Uber Eats) e take away (solicita pelo app e retira na loja). A aplicação da tecnologia neste último modelo estava prevista apenas para o final do ano. “Ao dar canais alternativos para o consumidor, conseguimos movimentar o negócio de uma maneira geral”. Antes da pandemia, 70% dos clientes comiam nas lojas e o restante levava para casa. Agora, como cerca de trezentas unidades do País estão com os salões fechados, as vendas no delivery correspondem a algo entre 55% e 60% do total e, no take away, de 40% a 45%. Por ano, o Subway vende 104 milhões de sanduíches no Brasil.

O presidente da empresa disse não poder divulgar o faturamento referente à América Latina, onde há 4 mil lojas. No País, estima-se que o faturamento tenha chegado a R$ 2,2 bilhões em 2019, crescimento de 3,5% em relação a 2018. Apesar da pandemia, que provocou queda acentuada nas vendas em março e abril – desde então, a recuperação tem sido gradual –, o executivo afirmou que a receita deste ano pode se igualar à do ano passado, à medida que as atividades forem retomadas no Brasil.

Depois de fechar cerca de 130 lojas no ano passado por problemas financeiros das unidades ou ausência do franqueado na gestão, entre outros motivos, a Subway prevê inaugurar até 40 pontos em 2020, quantidade planejada antes da Covid-19. Em compensação, o executivo afirmou ter ficado surpreso com a quantidade de solicitações de plantas para realocações (novos locais apareceram com o fechamento de negócios na quarentena) ou remodelações de espaços no formato Fresh Forward, que inclui identidade visual renovada e novos displays para pães e vegetais, além de outras iniciativas para deixá-los mais modernos. “Devemos ter entre 100 e 130 plantas em execução buscando essa remodelação e outras 50 a 60 de realocações. É investir na crise, sabendo que vamos sair disso daqui a pouco.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – IX

VIVENDO COM TEA

Interpretar as ações de pessoas autistas é uma tarefa exigente

Muito se fala do “mundo autista”, referindo-se a um hipotético universo paralelo em que as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) viveriam à parte do resto da sociedade. Porém, não é bem isso que acontece. Os autistas vivem a mesma realidade que todos, porém, têm algumas reações diferentes se comparadas a não-autistas. O TEA não apresenta alterações físicas na formação do cérebro, no entanto, o autismo é um distúrbio do neurodesenvolvimento, isto é, durante o desenvolvimento do sistema nervoso do indivíduo, algo aconteceu para que o processo se desse de forma atípica. Essa alteração reflete no comportamento dos autistas, gerando condutas específicas e estereotipadas, ou seja, padronizada entre eles. “No caso das pessoas com autismo, os circuitos neurais responsáveis por características ligadas às emoções, empatia e previsibilidade de acontecimentos futuros funcionam de forma diferenciada da maioria dos seres humanos”, afirma a neuropsicóloga Renata Amável, especialista em autismo. Tal diferença faz com que os indivíduos apresentem dificuldades na tríade comportamental que engloba déficit na comunicação, interesses restritos e prejuízos na interação social. Quanto maior o nível de comprometimento, maior a dificuldade apresentada.

O QUE SÃO ESTEREOTIPIAS?

A definição de estereótipo é uma ideia padronizada tida coletivamente por um grupo sobre determinado tema. No caso do autismo, estereotipias são comportamentos automatizados e semsentido funcional que são característicos em pessoas com TEA e apresentados em ambientes distintos. “Vale lembrar que, conforme o autista é tratado para melhorar sua comunicação, as estereotipias tendem a diminuir”, destaca Renata.

QUAIS SÃOS AS ESTEREOTIPIAS MAIS COMUNS?

Um autista pode apresentar diversas estereotipias, isto é, comportamentos típicos de pessoas com TEA, que também podem variar entre os indivíduos. No entanto, as mais conhecidas são:

*** movimento pendular do corpo para frente e para trás;

*** flupping, palavra em inglês para se referir ao chacoalhar de mãos e braços ao lado do corpo, como se os braços fossem asas. É mais comum:

* em crianças e, geralmente, quando estão felizes, ansiosas ou irritadas;

* movimentos repetidos das mãos em frente dos olhos;

*andar com as pontas dos pés;

*ambulação de um lado para outro aparentemente sem sentido ou propósito;

*ecolalia, repetição de sons emitidos por outras pessoas, aparelhos, etc., ou por si próprios;

*batidas nas próprias orelhas;

*ficar observando as próprias mãos;

*olhar lateralizado;

*observar um objeto fora do ângulo normal do mesmo;

*pulos e giros sem motivo aparente.

OS AUTISTAS PODEM DESENVOLVER INTERESSE ESPECÍFICO POR UM ÚNICO ASSUNTO?

Grande parte dos autistas apresenta, além das estereotipias, deficiência intelectual. Irritabilidade, comportamentos auto lesivos, não desenvolvimento da fala ou dificuldade em comunicar-se, além de outras alterações mais comprometedoras, também podem se manifestar. Em alguns casos, mesmo com a deficiência do intelecto, a pessoa com TEA desenvolve uma grande habilidade intelectual específica, como saber exatamente qual dia da semana cai em qualquer dia do ano. “Contudo, é importante ressaltar os pontos positivos que a pessoa possui e explorar ao máximo suas capacidades, através de estímulos corretos e constantes, com abordagens multiprofissionais, que podem auxiliar no desenvolvimento da fala, socialização e comunicação, por exemplo”, afirma a psiquiatra Talita Braga. A especialista também destaca a necessidade de se estar atento ao interesse específico do autista, que pode ser utilizado para auxiliar no desenvolvimento pessoal, inclusive no aprendizado. “Por exemplo: se alguém com TEA tem grande interesse em marcas de carros, poderia-se utilizar de recursos gráficos com as letras existentes em cada marca de carro para ajudar na alfabetização de uma criança com dificuldades”, exemplifica a psiquiatra.

POR QUE ELES EVITAM CONTANTO FÍSICO?

No funcionamento do cérebro considerado normal, há a organização das informações sensoriais de forma a produzir padrões estáveis de comportamento. Isso permite uma interação produtiva com o ambiente e a aprendizagem. “O sistema tátil processa informações sobre aquilo que está em contato com a pele, como a temperatura, a ternura e outra informações vitais para nos proteger de perigos. Porém, os portadores de TEA apresentam déficits neste processamento”, explica Renata.

Estudos mostram que pessoas com TEA apresentam alteração da conexão entre diversas áreas do cérebro, isto é, a falta de interação entre elas o que resultaria na defasagem sensorial. Um experimento realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSC) observou crianças autista caminhando sobre o solo quente e em pedras pontiagudas. Notou-se que elas não demonstravam reação aparente em nenhum dos casos. “é muito comum observar crianças autistas que gostem de caminhar na ponta dos pés, que evitem pisar na areia, ou não gostem de se sujar ou de misturar alimentos de diferentes texturas e cores”, complementa a neuropsicóloga.

Outras pesquisas ainda identificaram uma área específica do cérebro responsável por modular a percepção e interpretação de movimentos biológicos (se interessar por alguém que se movimenta à sua frente, por exemplo) que não é ativada nos autistas. “Com este funcionamento, eles podem se esquivar do contato físico, mas por alterações sensoriais e não por falta de afeto pelas pessoas e familiares”, afirma Joana Portolese, assessora de neuropsicologia.

Assim sendo, os pais e cuidadores não devem entender como ausência de amor algumas reações dos autistas. Segundo o psicólogo Celso Goyos, especialista em educação especial, interpretar o que uma criança que não se manifesta verbalmente possa ou não estar sentindo pode ser de pouca utilidade para seu tratamento, já que partem apenas de deduções do adulto observador: “a função da reação da criança é o que importa; pode ser mantida pela fuga da estimulação aversiva, como também pode ser uma outra instância do comportamento de sua hipersensibilidade”.

OS AUTISTAS NÃO GOSTAM DE SONS?

Ter hipersensibilidade aos sons ao redor também é um co1mportamento que pode se manifestar nos autistas. Apesar de os especialistas desconhecerem as causas dessa característica em portadores de TEA, sabe-se que ela pode aparecer de três formas:

• HIPERACUSIA. É a sensibilidade anormal a sons de baixa ou moderada intensidade e geralmente relacionada a alterações no processamento central dos sons, o que causa desconforto;

• FONOFOBIA. Desconforto causado por alguns sons específicos e relacionados com o seu significado. Neste caso, a sensibilidade se dá pela lembrança emocional do som, e não pela intensidade do ruído. Relaciona-se por meio de conexões entre o sistema límbico e o sistema auditivo central;

• RECRUTAMENTO. É a perda auditiva sensorioneural periférica, que ocorre por uma redução nos elementos sensoriais do ouvido.

O especialista em autismo Celso Goyos lembra que a hipersensibilidade a estímulos do meio ambiente é comum não só em indivíduos com TEA. ”Não se sabe ao certo se esta característica tem origem diferente nesses indivíduos das de pessoas fora do espectro. Os tratamentos mais eficazes, no entanto, são comportamentais”, conta.

AUTISTAS SÃO SUPERINTELIGENTES?

É possível notar autistas com alto funcionamento intelectual, até com QI acima da média, como é o caso de vários cientistas. “Talvez por isso exista a imagem do ‘cientista maluco’, alguém com capacidades incríveis em determinadas áreas de conhecimento, mas que não se importa ou não compreende as regras sociais – pode ter cabelos desgrenhados, não interagir bem socialmente, vestir-se de forma peculiar, etc. Isso não ocorre ao acaso”, afirma Talita. A psiquiatra lembra que existe uma grande prevalência de TEA nos tais “gênios esquisitos”. Geralmente, são pessoas que não entendem piadas, metáforas e ironias, sendo bastante literais e rígidas com rotina.

Neste quesito, o interesse restrito acaba favorecendo o desenvolvimento dos autistas, já que, em alguns casos, pode ser algo usado de forma positiva. “Uma pessoa, mesmo com dificuldades em comunicações e interações sociais, mas que tenha um grande interesse em alguma área restrita, pode tornar-se um profissional de destaque na área, especialmente porque tem um foco aumentado no assunto. Inclusive, é possível, ter uma memória acima do normal, o que pode ser vantajoso”, explica a psiquiatra.

Por outro lado, as limitações de interação social trazem prejuízos na qualidade de vida, tornando indispensáveis as intervenções terapêuticas.