EU ACHO …

‘LINDINHAS’, DA NETFLIX: ASSISTA ANTES DE CONDENAR

Ameaçado de censura pelo governo brasileiro, o filme é na verdade um forte alerta para uma sociedade que não ampara como deveria suas crianças

A escolha infeliz de uma foto para um pôster causou alvoroço e induziu ao preconceito contra o filme Mignonnes (Lindinhas, no Brasil), lançado pela Netflix há poucas semanas. Na imagem, quatro pré-adolescentes em trajes e poses sensuais, nada compatíveis com a idade delas, passam a mensagem de que o longa, premiado no conceituado Festival de Sundance, estaria sexualizando crianças. Recentemente, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pediu a suspensão da veiculação do filme pela plataforma de streaming. Em meio às controvérsias, proponho aqui uma conversa mais ampla sobre o filme e seus temas urgentes para a realidade mundial — reconhecendo que cada um tem todo o direito de gostar ou não, concordar ou não com a obra. Mas só após assisti-la por inteiro. Ver só o trailer também não vale.

Na trama, Amy, a protagonista, vive praticamente sozinha com os irmãos mais novos, assim como outras meninas da vizinhança, na periferia de Paris. De família muçulmana, a jovem de 11 anos se contagia pela vivacidade de um grupo de garotas de sua faixa etária, que ensaia às escondidas para um concurso de dança. Sem a presença de familiares, os quais trabalham longas horas por dia, as meninas usam roupas diminutas, repetem comportamentos adultos e se rendem aos excessos das redes sociais. O filme não apresenta situações de abuso ou violência sexual e prostituição, temas que entrariam na seara da pornografia infantil. Mas ele é um verdadeiro tapa na cara, fazendo-nos (ou tentando fazer) acordar para o perigo de uma pré-adolescência desassistida. Perigo esse que inclui, de fato, a sexualização precoce e a pedofilização, e que vai além, impondo um futuro muito menos venturoso e gratificante do que aquele que as filhas e os filhos merecem.

A roteirista e diretora de origem senegalesa, Maïmouna Doucouré, de 35 anos, parte de suas próprias experiências de vida, na periferia de Paris, e dos relatos de pré-adolescentes entrevistadas durante um ano e meio. Ao escancarar essa realidade, ela acabou sendo mal interpretada por quem não acredita que a arte imita a vida e que, lamentavelmente, a vida para muitas pré-adolescentes é exatamente essa. E daí para pior.

A produção tem momentos desconfortáveis, com cenas intencionalmente ousadas, que exibem de forma insistente corpos e rostos jovens, em insinuantes ângulos, “caras e bocas”. A diretora optou por deixar de lado a mensagem subliminar para ser mais direta e crua em seu alerta quanto à objetivação do corpo feminino, o que induz o espectador menos cauteloso a uma opinião apressada. Essa insistente exposição do corpo, que caracteriza o filme e vem sendo considerada por muitos como abusiva, é comum na história das telas brasileiras, com propósitos os mais diversos, especialmente para a satisfação da vaidade de mães incautas (ávidas por tornarem suas filhas prodígios ou celebridades nacionais). Entretanto, a suposta inconsequente ousadia da roteirista merece uma reflexão.

Se de um lado Lindinhas escancara a sexualização precoce, de outro apenas resvala em temas não menos relevantes e próprios da pré-adolescência, seja na periferia de Paris, seja nos quatro cantos do Brasil: estão no roteiro o bullying ou vínculos utilitários entre crianças; a prática de pequenos delitos e seus riscos; dramas familiares insolúveis; choque de culturas e conflito de gerações; sensação de desamparo doméstico e busca pelo suporte social; banalização da importância da menarca (primeira menstruação); fascínio pelas redes sociais e mau uso delas; premência em superar a falta de perspectiva; necessidade “tóxi­ca” de sucesso e fama; indignação com a ordem patriarcal e identificação com a mulher (mãe) submetida ao homem, pela revolta e pelo sofrimento inconfessos.

Com tantos argumentos levantados de início, faltou ao filme “costurar” de forma mais contundente as causas e consequências das ações das garotas, e dos adultos ao redor, assim como a complexidade e as contradições de suas atitudes. Ou a diretora propositadamente deixou para quem o assiste essa incumbência. A alguns espectadores precipitados, pouco atentos ou não afeitos à linguagem indireta pode ter escapado a mensagem de que as “Amys” de todo o mundo, especialmente as socioculturalmente menos favorecidas, se ressentem da ausência de motivação e incentivo para um desenvolvimento pessoal saudável, sem imitação aos hábitos e vícios dos adultos, hábitos e vícios esses facilmente acessíveis pelas redes sociais e pela falta de privacidade na convivência familiar. O espectador distraído pode não se sentir, ao final do filme, convidado a considerar que a confluência de estímulos paradoxais gera respostas infames (como trocar sexo por um celular ou postar fotos de partes íntimas) em quem não tem maturidade suficiente para administrar tantos conflitos. Para mim, a cineasta falha ao ser, no final, condescendente com os adultos, em vez de colocar o dedo mais fundo na ferida.

Coube, então, à personagem Amy viver e resolver sozinha todo o processo de seu amadurecimento e de sua reconciliação consigo mesma e com todos com quem tentara aproximação ou rompimento. Talvez a diretora tenha entendido que fosse cedo para encarar desfechos mais trágicos, extremos ou sem volta.

Excessos, atitudes erráticas e descontextualizadas, instabilidade e afrontas são próprios de quem tem pouca idade. Isso se resolve com educação e tempo. O tempo passa e assim faz a sua parte, sem poder esperar que os adultos respondam pela parte deles. Aos pais cabe estarem aptos para acolher, educar e corrigir. Um bom começo, então, seria conhecer por inteiro um filme como esse, antes de demonizá-lo. Também convido o leitor a buscar e cuidar do adolescente que está dentro de si. Para melhor entender e significar aqueles que adolescem, numa época cuja sexualização precoce ocupa o vazio da ausência de outras possibilidades de visibilidade a uma geração com um futuro de incerteza sem precedentes. Incerteza essa que nós, “os mais velhos”, tentamos minimizar por meio da polarização: certo ou errado, preto ou branco, bom ou mau. Estreitamos, assim, nosso campo de visão e assumimos comportamentos reducionistas, atabalhoados, impulsivos e até pueris. Sem perceber, provocamos precocidade em nossas crianças, pelo apelo velado de que elas cresçam logo e nos aliviem de um pesado fardo: o nosso sentimento de despreparo para nossa própria vida.

*** CARMITA ABDO – Psiquiatra, é presidente da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual.

OUTROS OLHARES

 O PREÇO DOS LIKES

O documentário O Dilema das Redes faz sucesso denunciando como a busca incessante por lucro dos gigantes da tecnologia transformou ferramentas capazes de aproximar pessoas em uma ameaça em várias frentes, da sanidade mental dos jovens à democracia.

Há muito em comum entre o americano Tristan Harris, de 36 anos, e os típicos desbravadores da tecnologia que fizeram a fama do Vale do Silício, na Califórnia. Harris estudou ética aplicada à ciência da computação em Stanford, de onde saiu a maior parte deles. Essa turma é da mesma geração que produziu Mark Zuckerberg, dono do Facebook, e lá pelo meio da primeira década do milênio compartilhava o idealismo de mudar o mundo por meio da internet. “Sonhávamos em usar a tecnologia para o bem, preocupados em gerar um impacto social positivo”, contou Harris, em entrevista exclusiva por videoconferência. Hoje, sobrou só uma lembrança idílica disso. Em O Dilema das Redes, documentário que é a nova sensação da Netflix no Brasil e no exterior, a enorme decepção pessoal dele com os rumos do setor digital funciona como um alerta com implicações para toda a humanidade: as mesmas redes sociais que trouxeram possibilidades revolucionárias agora se revelam uma ameaça em várias frentes, da sanidade mental dos jovens à democracia dos países.

Como narra no filme, Harris trabalhava no Google em 2013 na função de consultor ético das novas ferramentas criadas pela empresa quando passou a se incomodar com a obsessão de seus pares em tornar a navegação em sites e e-mails cada vez mais viciante. Daí nasceu um manifesto -, desabafo em que pedia responsabilidade social à elite do ramo – algumas dezenas de profissionais de 20 a 35 anos que concebiam ferramentas capazes de impactar a vida de bilhões no planeta. O manifesto circulou, ganhou elogios, foi levado a um dos donos do Google, Larry Page. Harris achou que estava fazendo uma revolução. Mas nada de concreto aconteceu. Ele sairia da empresa dois anos depois, para se converter naquilo que já foi descrito como a “consciência” do Vale do Silício: um ativista que luta contra as ameaças embutidas no uso abusivo das redes sociais à frente do Center for Humane Technology, instituto que criou em 2013 para aprofundar esse debate e provocar mudanças. “Percebi que você não pode mudar o sistema de dentro dele”, afirma.

Harris é o personagem central, mas nem de longe o único atrativo de uma produção que chegou para causar incômodo e controvérsia. O Dilema das Redes ganhou atenção mundial ao estrear no cardápio da Netflix, em 9 de setembro. Em questão de duas semanas, o documentário chegou ao primeiro lugar da plataforma na Índia, ao segundo nos Estados Unidos, e ao quinto na Inglaterra –   e também galgou o Top 10 da Netflix no Brasil. O filme, dirigido por Jeff Orlowski, é também um campeão de repercussão. Entre americanos e europeus, desencadeou correntes de pessoas que, indignadas com os pormenores da sanha manipulativa das redes, anunciaram sua saída do Twitter e do Facebook. No Brasil, provocou comentários de famosos e políticos nas redes. Ironicamente, seu sucesso pode ser medido pela repercussão nas redes – o Instagram registrou quase 300.000 interações por aqui relacionadas ao filme nos últimos dias.

Tanto barulho é compreensível: nunca se viu um raio X tão profundo e devastador das ferramentas que na última década se impuseram como parte quase indissociável não só da rotina, mas da própria relação dos seres humanos com o mundo. Sua força vem das fontes que descrevem e opinam com contundência sobre o modus operandi dos gigantes das redes sociais. Ao lado de Harris, uma dezena de outros executivos com o conhecimento de causa de quem ocupou cargos estratégicos numa constelação que vai do Facebook ao Twitter, do Instagram ao Pinterest, dá depoimentos francos, instrutivos e estarrecedores. A certa altura, o documentarista pergunta qual o maior temor que o uso das redes provoca em um de seus entrevistados, Tim Kendall, que foi presidente da rede de compartilhamento de imagens Pinterest e diretor de monetização do Facebook. A resposta é perturbadora: “No curto prazo, uma guerra civil”.

Até chegar a esse ápice dramático, no entanto, O Dilema das Redes vai pintando um panorama preciso e extremamente acessível a qualquer pessoa, mesmo para quem não é versado nos desvãos da tecnologia, sobre a verdadeira natureza dos serviços que hoje fazem a cabeça de bilhões no mundo – e em especial dos brasileiros. Recentemente, a consultoria britânica Global Webindex mostrou que o país é o terceiro em uso de redes sociais em um ranking de 46 nações. Por dia, os brasileiros passam, em média, três horas e 38 minutos conectados nesse tipo de conteúdo, atrás apenas das Filipinas e da Nigéria.

O documentário começa reconhecendo as óbvias razões do apreço das pessoas pelas redes. Seu surgimento, no raiar do milênio, produziu uma revolução bem-vinda e sem precedente na forma como as pessoas se relacionam: famílias e amigos havia muito distantes se reencontraram no Facebook; das campanhas de doação de órgãos à explosão dos grupos que unem gente de todo o mundo com interesses comuns, as redes abriram possibilidades até então inimagináveis de interação. Mais que tudo, deram a milhões de anônimos a chance de, pela primeira vez na história, expressar opiniões. Isso tudo não tem preço? Tem, sim, e ele é altíssimo, como demonstra O Dilema das Redes. “As redes trouxeram um maior espaço para vozes que antes não tinha acesso à mídia tradicional. Mas junto com essa ampliação vieram também a polarização, os discursos de ódio e as fake news, que passaram a ser uma ameaça à democracia”, diz o cientista político Filipe Campello, da Universidade Federal de Pernambuco.

A produção de Jeff Orlowski expõe as raízes do problema valendo-se de um formato original: não é propriamente um documentário, mas um docudrama, híbrido de conteúdo jornalístico, como entrevistas e imagens de arquivo, com recursos de encenação da realidade. Recorre-se a atores para narrar de forma didática o impacto das redes na vida de uma típica família de classe média americana. O recurso também é usado para produzir uma alegoria sobre o modo de funcionar dos algoritmos – as ferramentas de inteligência artificial que interpretam e se antecipam aos desejos das pessoas nas redes. É um expediente que simplifica bastante as coisas, e por isso logo foi brandido pelos críticos como prova de que o filme seria tendencioso e alarmista. Mas, na verdade, a encenação só confirma o contrário: O Dilema das Redes já nasce como uma iniciativa memorável por seu esforço esclarecedor em reunir constatações e conceitos que estavam no ar para tecer uma tradução perfeita – e perturbadora – de um fenômeno no qual estamos mergulhados até o pescoço, sem nos dar conta dos riscos.

A partir de uma constatação óbvia, porém muitas vezes esquecida, a de que Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e companhia não estão primariamente interessados no bem-estar das pessoas ou países, mas em obter lucro, o filme mostra como essas companhias não medem artifícios para manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível. Como eles ganham dinheiro, se são gratuitos?, questiona o documentário. A resposta é: eles vendem a seus anunciantes a possibilidade de atingir você, o usuário que navega ali despreocupado. É como diz um jargão das empresas de tecnologia: “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”. Na verdade, explica no filme o guru da tecnologia Jaron Lanier, o produto é algo mais sutil: agradativa, leve e imperceptível mudança em nosso comportamento e percepção operada pelas redes. “Esta é a forma de eles ganharem: mudar o que você faz, o que você pensa, quem você é”, pondera Lanier. As consequências desse modelo de negócio são avassaladoras para a vida humana. No afã de serem cada vez mais eficientes na tarefa de prender a atenção dos usuários, as redes sociais se valem de seus eficientes algoritmos para rastrear a vida, os gostos e opiniões das pessoas num nível que faz o Grande Irmão de George Orwell parecer um anãozinho. “Muitos pensam no dia em que a inteligência artificial dominará os humanos. Esse dia já chegou – são as redes sociais”, disse o diretor Jeff Orlowski.

Nosso cérebro, que levou milhares de anos para adquirir sua excepcional capacidade de processamento e raciocínio, agora tem de competir com supercomputadores que usam um volume colossal de informação para perpetrar a tarefa de nos influenciar, manipular e prender. Para tanto, as redes recorrem a truques de persuasão psicológica que exploram desejos e medos atávicos, e de eficácia tão cirúrgica quanto imperceptível. Há fatores que assemelham o vício em redes sociais à dependência em drogas. Vários estudos mostraram, por meio do monitoramento do cérebro com ressonância magnética durante o uso das redes, que o fato frugal de dar ou receber likes ativa a área do córtex relacionada à sensação de recompensa, liberando no organismo uma torrente de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e ao bem-estar. O vício nas redes tem uma agravante em relação a outros: sua ação silenciosa. “Vivemos em ambientes permissivos ao uso do celular, então é mais difícil perceber quando alguém está com problemas”, diz a psiquiatra Carolina Hanna, do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

O Dilema das Redes elenca os efeitos deletérios dessa dependência sobre a vida pessoal. As vítimas principais são os jovens da chamada Geração Z, que nasceram a partir de 1996 e já cresceram imersos na fissura das curtidas. A produção da Netflix alerta para o aumento na taxa de suicídios entre meninas americanas quando as redes sociais se tornaram amplamente disponíveis por meio de smartphones. Entre 2011 e 2018, o número de suicídios cresceu 150% entre garotas de 10 a 14 anos. O narcisismo inerente às redes fez surgir até novos distúrbios, como a “dismorfia do Snapchat” – tentativa das meninas de mudar o corpo para se adequar ao padrão característico das fotos naquela plataforma.

No plano coletivo, o impacto das redes não é menos preocupante. Ao permitirem e estimularem a customização da vida social conforme os anseios (e suscetibilidades) de cada usuário, elas criaram bolhas de realidade peculiares, que não se comunicam entre si. As pessoas passaram a viver a ilusão de um Matrix personalizado: cada um agora vive em seu mundo próprio, onde interagem só com quem comunga das mesmas opiniões, preocupações e, não raro, pirações. Não é difícil adivinhar aonde isso nos levou: a um mundo em que a crença em maluquices como o terraplanismo se exibe sem pudor e em que a polarização atinge níveis tóxicos e perigosos. A democracia é, obviamente, a vítima em potencial da história. As fake news destroem reputações, influenciam de forma suja os processos eleitorais e circulam em uma velocidade seis vezes maior do que as notícias verdadeiras (como lembra o documentário, os boatos e teorias conspiratórias são sempre mais chamativos do que o mundo em preto e branco da realidade). Num caso trágico, a veiculação de conteúdo odioso no Facebook levou ao massacre da minoria muçulmana em Mianmar, em 2018. O submundo das redes influenciou o Brexit, a eleição de Trump nos Estados Unidos e – como destaca o filme – de Jair Bolsonaro no Brasil.

O uso delas como instrumento de mobilização política em larga escala surgiu por aqui durante as manifestações de 2013. A maioria dos atos foi organizada pelo Facebook e divulgada em tempo real no Twitter. A utilização da internet ampliou sua importância na disputa presidencial de 2018, já sob a sombra da desconfiança. Principal ferramenta de campanha de Bolsonaro, passou a ser vista como fator de distorção, em razão das suspeitas sobre o uso massivo de robôs e de fake news – que ainda são alvo de análise no Tribunal Superior Eleitoral. Empossado, Bolsonaro reforçou o uso das redes sociais como ferramenta política ao transformá-las em uma espécie de canal oficial de veiculação dos acontecimentos do governo e das suas opiniões sobre temas variados. Até aí, tudo bem. O problema é que um pedaço de sua militância utiliza esses canais, às vezes com o apoio do próprio presidente, para mobilizar atos contra a democracia, agredir personagens de outros poderes da República, distribuir insultos, mentiras e toda sorte de baixarias digitais contra adversários. Hoje, o clima no país está mais calmo e Bolsonaro parece menos engajado nesse processo, mas, para os especialistas, é preciso estar alerta, pois o papel desempenhado pelas redes sociais tende a ser ainda maior nas eleições deste ano, até em razão da pandemia do novo coronavírus, que deve limitar a campanha de rua. ”As instituições até estão mais atentas a isso, mas não estão equipadas para acompanhar, ainda mais numa eleição em que tudo é resolvido em tempo real”, afirma Marco Aurélio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como o caso brasileiro ensina, o combate às fake news, ao ódio e à manipulação das opiniões é árduo, e o mesmo vale para outras ameaças que vêm de roldão nos prazeres das redes sociais. O mundo ainda busca medidas capazes de corrigir os rumos da babel digital – antes que seja tarde. Pressionadas, as próprias empresas de tecnologia começam a se mexer, anunciando mudanças para conter a disseminação de notícias falsas e de discursos de ódio. Deletar posts considerados impróprios e cancelar contas de robôs fazem parte desse grupo de ações (o ditador venezuelano Nicolás Maduro e Bolsonaro foram os primeiros líderes mundiais a ser atingidos pela “malha-fina” de bloqueio do Twitter por publicar conteúdos que põem as pessoas em risco durante a pandemia do coronavírus). Na visão dos especialistas no assunto, a despeito de alguns avanços, o movimento dos gigantes da tecnologia é ainda muito tímido e a lentidão de respostas está relacionada diretamente à falta de uma maior regulação sobre a atividade dessas companhias (procurados, Facebook, Twitter, Instagram e Google não quiseram comentar especificamente O Dilema das Redes). Para Tristan Harris, a sociedade precisa continuar pressionando as empresas, mas as ações individuais precisam caminhar junto, com a disposição de cada um em impor limites à invasão de sua vida e filtrar as informações confiáveis em meio ao esgoto das fakes news. “É assustador lidar com uma máquina que dissemina mentiras mais rapidamente que a verdade. As lideranças do jornalismo têm de se unir para restabelecer a confiança nos fatos”, diz Orlowski. As palavras do grego Sófocles, que abrem o documentário, resumem bem o tamanho da tarefa: “Nada que é vasto entra na vida dos mortais sem trazer uma maldição.” 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE OUTUBRO

UMA VISITA NO CEMITÉRIO

Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram (Marcos 5.15).

Era noite. Uma tempestade havia atingido o barco que transportava Jesus e seus discípulos. O Mestre repreendeu a tempestade e acalmou os discípulos. Em seguida, eles desembarcam na terra dos gadarenos, num despenhadeiro dentro de um cemitério. Dos sepulcros surge um homem nu, possesso, furioso, violento, sangrando, gritando sem parar. A situação era medonha. O homem era um aborto vivo, um espectro humano. Jesus fez essa perigosa viagem por causa desse enjeitado pela família. Havia dentro daquele homem uma legião de demônios. Legião era uma corporação de seis mil soldados romanos. Dentro de um único indivíduo, havia seis mil demônios. Jesus o liberta desses espíritos malignos, cura sua mente, salva sua vida e o transforma num missionário para sua gente. Jesus ainda hoje liberta os cativos, levanta os caídos, cura os enfermos e salva os pecadores. Há esperança para aqueles que estão arruinados emocionalmente.

Há libertação para aqueles que estão nas algemas do pecado e atormentados pelos demônios. Jesus veio ao mundo para desfazer as obras do diabo e proclamar libertação aos cativos. Em Jesus há copiosa redenção. Ele é a fonte da vida, o Salvador do mundo.

GESTÃO E CARREIRA

NOVA GESTÃO E APOSTA NO MERCADO INTERNACIONAL

Com ‘prata da casa’ na presidência, Lojas Renner expande negócios ao Uruguai e à Argentina. E alcança receita de R$ 8,5 bilhões.

A premissa de construir no presente o futuro move a rotina do executivo Fabio Faccio à frente das Lojas Renner. O administrador chegou à rede varejista como trainee em 1999 e, em abril de 2019, assumiu a presidência com as missões de manter o plano de crescimento – inclusive no mercado internacional – e substituir o ex-CEO José Gallo. Em pouco mais de duas décadas no cargo, Gallo tirou a empresa do anonimato e a transformou em uma das maiores varejistas de moda do Brasil. Após quase um ano e meio da gestão Faccio, as adversidades se mostram bastante desafiadoras: aumento do desemprego no País, crise econômica e, para agravar tudo isso, pandemia.

Prever como vai terminar 2020 tornou-se tarefa das mais complicadas para o executivo, que, no ano passado, expandiu os negócios da companhia no Uruguai e os levou à Argentina. Com isso, a receita líquida chegou a R$ 8,5 bilhões, 13% acima dos R$ 7,4 bilhões de 2018. “Vivemos uma fase difícil, mas que vai passar. Logo ali na frente há um momento melhor”, afirmou Faccio. “Temos a obrigação de persistir, não desistir e trabalhar muito para construir empresas melhores e um País melhor.”

O plano de expansão da companhia em 2019 incluiu a abertura de 29 lojas, seis delas no exterior – duas no Uruguai, onde chegou a nove unidades desde o começo das atividades, em 2017, e quatro na Argentina, país no qual iniciou as operações em dezembro. No Brasil, foram 23 lojas. Neste ano, o projeto previa a inauguração de unidades apenas no País, com a média anual de 20 a 30 inaugurações, mas a Covid-19 reduziu os planos a dez, segundo Faccio. A Renner possui 382 pontos no total e pretende chegar a 520 até 2025. “Por mais que neste ano a gente vá abrir um número um pouco menor de lojas, esse target está mantido. Nos próximos anos, teremos um volume maior de inaugurações para recuperar esse volume perdido.”

A redução de 40% no investimento previsto para a abertura de novas lojas em 2020 ajudou a melhorar a saúde financeira da empresa, que redirecionou recursos para o digital. No ano passado, as vendas on-line aumentaram 52,8%, em comparação ao mesmo período de 2018. Neste ano, o crescimento se manteve consistente. No primeiro trimestre, praticamente sem interferência da quarentena, a alta chegou a 32,8%. Já entre abril e junho, fase de maior impacto do coronavírus, atingiu três dígitos com o fechamento das lojas físicas, entre 18 de março e 24 de abril. Em julho e agosto, houve avanço de 239% e de 206%, respectivamente. Camicado, Youcom e Ashua, integrantes do portfólio da Renner, também tiveram alta de três dígitos nas transações on-line.

O destaque de 2019 foi o app Renner, que viu o número de downloads crescer significativamente – em dezembro, somava 2,3 milhões de clientes ativos. O aplicativo foi o maior gerador de recompra entre os canais digitais, representando 33% das vendas e 45% dos acessos ao e-commerce. No segundo trimestre deste ano, de acordo com a companhia, o volume de downloads mais do que triplicou, versus o mesmo período de 2019 – alta de 259%. “Já estávamos trabalhando, havia alguns anos, na nossa digitalização, em melhorias de experiência de consumo dos nossos clientes”, disse Faccio. “O que a gente imaginava de participação num ambiente normal nos canais digitais para os próximos três a cinco anos aconteceu agora. E vai se manter”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – XII

MITO OU VERDADE?

Tire suas dúvidas sobre alguns fatos relacionados à psicopatia

TODO PSICOPATA É MANIPULADOR?

VERDADE.

Esta é uma das principais características do portador do distúrbio.

“Ele elege determinadas pessoas com personalidade submissas, frágeis ou dependentes e em circunstâncias ideais (que estão passando por períodos difíceis da vida, por exemplo) para exercer seu poder de sedução e manipulação”, explica a psiquiatra Andrea Kraft.

É POSSÍVEL ADQUIRIR O TRANSTORNO AO CONVIVER MUITO COM UM PSICOPATA?

MITO.

Apesar de a causa da psicopatia não ser completamente decifrada, sabe-se que não é algo totalmente recorrente de fatores externos, como a convivência. “Porém, este tipo de personalidade tem um grande poder de sedução e manipulação para convencer suas vítimas a praticar atitudes amorais e, até mesmo, cruéis”, lembra Andrea.

PESSOAS COM TRANSTORNO SOCIAL PSICOPÁTICO SÃO MAIS INTELIGENTES?

MITO.

Segundo o psiquiatra Vladimir Bernik, não há comprovações científicas quanto ao nível intelectual dos psicopatas.

“Analisado do ponto de vista das alterações de seu comportamento, quanto mais elaborada esta agressão ao convívio social, mais sugere ser produzida por pessoas aparentemente de bom nível intelectual. Mas, estatisticamente falando, não existe nenhuma vantagem de inteligência na média dos psicopatas em relação à população em geral”, afirma.

PSICOPATAS PODEM SER CONSIDERADOS LOUCOS?

MITO.

Bernik ressalta que a psicopatia não é uma doença mental.

“O psicopata, ou PP, no jargão psiquiátrico, é uma pessoa com transtorno de caráter e de conduta. Jamais ‘louco’ na linguagem popular”, explica. “A psicopatia difere da demência por não haver prejuízo na cognição (memória, capacidade de raciocínio e planejamento). Não há tampouco a existência de sintomas psicóticos (delírios ou alucinações) como na esquizofrenia. O psicopata tem consciência de que está mentindo, manipulando as pessoas e transgredindo regras. Entretanto, é incapaz de ter remorso ou empatizar com o sofrimento ou sentimento do outro”, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai.

SITUAÇÕES ESTRESSANTES PODEM LEVAR A COMPORTAMENTOS PSICOPATAS?

MITO.

“Situações estressantes podem agravar grande parte das doenças mentais, mas não é o caso da psicopatia, que é um transtorno de caráter e de personalidade”, explica Bernik.

TROLLS (PESSOAS QUE GOSTAM DE TUMULTUAR EM FÓRUNS DE DISCUSSÃO E EM REDES SACIAIS NA INTERNET), HACKERS E STALKERS (PESSOAS QUE ESPIONAM A VIDA DE OUTRAS PESSOAS PELA WEB) PODEM SER CONSIDERADOS PSICOPATAS?

VERDADE.

“Todas as pessoas que deliberadamente infringem as regras de conduta moral requerida pela vida e para a vida em sociedade, tanto no mundo real quanto no virtual, têm características de psicopatia”, afirma Bernik. No entanto, é importante destacar que não se deve generalizar este diagnóstico.

PSICOPATAS SÃO INCAPAZES DE AMAR?

VERDADE.

Trata-se de uma característica central do transtorno.

“O amor para eles se aproxima mais do sentimento de posse e da possibilidade de uso do outro a serviço de seus interesses. Por exemplo, um psicopata pode chorar a morte da mãe se ela o sustentava financeiramente”, expõe Tamai.

ANIMAIS PODEM SER DIAGNOSTICADOS COMO PSICOPATAS?

MITO.

O comportamento de alguns animais, como ratos, corujas e hamsters que matam suas crias (chegando, algumas vezes, a até comê-las), não pode ser comparado ao dos seres humanos.

“Quanto aos animais, parece que esses matam por uma questão de seletividade e manutenção da espécie. O homem mata por razões muito menos nobres”, destaca a psicóloga Raquel Staerke.

PSICOPATA É O MESMO QUE SOCIOPATA?

VERDADE.

O psicólogo Armando Ribeiro esclarece que os termos são sinônimos, mas complementa: “Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID -10), da Organização Mundial da Saúde, a nomenclatura atualmente correta é personalidade dissocial ou antissocial”.