EU ACHO …

DESEJO, NECESSIDADE, VONTADE

A felicidade está em enxergar o proibido – não em praticá-lo. Sobre isso, Stendhal, grande escritor francês, tem uma passagem ótima em um de seus contos. Numa tarde de calor escaldante, uma princesa está na sacada do palácio deliciando-se com um magnífico sorbée, o sorvete da época. De repente, ela pensa: “Pena que não é pecado”.

Assim é o mundo: a noção do proibido, o impedimento de fazer algo aumenta o gosto e o desejo – da mesma forma que o desejo só existe enquanto não é saciado. Desejo realizado é desejo esgotado, é desejo que deixou de existir, como escreveu um dia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “O vitorioso também será derrotado pela vitória”.

Falar em pecado é impossível sem falar da virtude. O que é um pecado? É a maximização da virtude; ou seja, é a virtude exagerada. Assim, pelo excesso, uma admiração se torna inveja. A virtude do prazer, por sua vez, vira luxúria. Quando exagerada, a virtude da indignação se transforma em ira. O orgulho muda para soberba e o descanso exagerado, preguiça.

Há uma grande diferença entre desejo, vontade e necessidade. Desejo é um impulso vital. Vontade é uma carência transitória, a inclinação em direção a algo num certo momento. A necessidade é uma urgência.

Uma necessidade é satisfeita, uma vontade é suprida. Uma pessoa tem necessidade de comer, de beber, de ganhar a vida. Tem vontade de comer pipoca, de tomar guaraná no final da tarde, de encontrar alguém – e essas vontades desaparecem quando a carência é suprida. E o desejo é uma energia constante, aquilo que impulsiona uma pessoa, algo que ela não pode deixar de ter em seu horizonte.

O desejo não é um estado, não é um lugar aonde eu chego. O desejo é o horizonte, aquilo que norteia, mas nunca se alcança. Como escreveu Eduardo Galeano sobre a utopia como horizonte, eu caminho dois passos em direção ao horizonte e o horizonte se afasta dois passos de mim. Caminho dez passos e ele se afasta dez passos. O horizonte não existe para que se chegue até ele, e sim para não me impedir de caminhar – o desejo é que impede que eu pare de caminhar. Por isso, o desejo é imortal.

É preciso lembrar que só os humanos são mortais, pois só os humanos sabem que vão morrer – os demais animais não lidam com o conceito de finitude e, portanto, não são mortais. Assim, os cães e os gatos, por exemplo, vivem a eternidade, dado que passam o dia como se fosse o único, enquanto sabemos que para nós pode ser o último.

O que é a imortalidade? É um presente contínuo, um presente sem fim. Com exceção do homem, todo animal vive um presente eterno, sem a preocupação do futuro. Ele vive, portanto, a imortalidade e, assim, é imortal. Nós não. Os humanos somos os únicos animais que têm noção de presente, passado e futuro – e também os únicos animais que possuem a capacidade de se sentir idiota. Eu, Mario Sergio Cortella, posso me recordar de três anos atrás e pensar: “como eu pude dizer uma asneira tão grande para ela?”. Assim, ao me recordar disso, me sinto idiota desde aquela época até o presente momento.

A noção de tempo anda de mãos dadas com os nossos desejos, essa energia que nos conduz, que nos dirige aos nossos horizontes. Essa energia morre conosco na hora do “descanso eterno”. Por que essa expressão?

Descansar do quê? Descansar do desejo incessante, pois o desejo dá vida e viver cansa. “Quem sou eu?”, “o que eu quero?”, “como consigo o que falta?”, “estou mesmo no caminho certo?”. Nós passamos o tempo todo em busca de respostas, que estão sempre no horizonte, um horizonte que jamais se atinge e, por isso, impede que eu deixe de caminhar, de procurar as minhas respostas. Só tira a própria vida aquele que perdeu o desejo, pois o desejo é sinônimo da vida.

Vida é vibração. Átomos vibram. Somos compostos de moléculas, que são átomos em vibração. Átomos animados – sendo que anima, em latim, quer dizer alma. Por que átomos vibram? Eis uma pergunta que nem os melhores cientistas conseguiram dar uma resposta satisfatória. Mas eu tenho uma suspeita de origem filosófica: átomos vibram porque eles não podem não vibrar. Em outras palavras, vibram porque têm necessidade de vibrar.

Note que a tríade desejo, vontade e necessidade não se separa. Vida é sempre desejo, vontade e necessidade.

Assim, na morte, cessam-se desejos, vontades e necessidades. Se é assim, por que se fala em desejo imortal? Para responder isso, é preciso entender de onde vem a palavra “morte”. Morte, no grego antigo, está ligada ao termo lethos, ou seja, à ideia de esquecer, ao esquecimento. É daí que vem “letal”.

Assim, quem morreu não vibra mais, não chama atenção e, portanto, é esquecido. Por outro lado, também no grego clássico, alethos – ou não mortal, aquilo que não é esquecido e, portanto, vive para sempre – é sinônimo de verdade (ou aletheia). A verdade é eterna, não morre jamais. A verdade é a essência. A essência, por sua vez, é imortal. E a essência humana é o desejo. Por isso, ele é a minha verdade.

E chegamos aqui a uma das questões mais difíceis para qualquer ser humano: “Qual é a sua verdade?”. “Qual é a sua essência?”. No dia em que você se for, essas questões irão embora com você. O que permanecerá de você no mundo?

Permanecerá o seu legado. Permanecerá aquilo que você ensinou, aquilo que ensignou, as marcas que deixou.

Permanecerá a sua verdade e a sua essência.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

RETOQUES NA SURDINA

O isolamento colocou as pessoas longe dos colegas de trabalho e frente a frente com as marcas de seu rosto. Resultado: aumento da procura por procedimentos estéticos

Fechada em casa, passando dias sem ver os colegas de trabalho, eventualmente participando de uma videoconferência em que todo mundo aparece com a cara esquisita – ela inclusive -, olhando no espelho antes de atender à porta e percebendo marcas que a bendita máscara põe em destaque, o que vem à cabeça de uma mulher cumprindo quarentena? Aproveitar que ninguém está vendo e corrigir as imperfeições, oras. Nos quatro ou cinco meses em que a maioria evitou por os pés na rua, as clínicas dermatológicas e os hospitais fora do circuito de atendimento de pacientes com Covid-19 permaneceram ativos e operantes, recebendo pacientes que viram no isolamento social as condições ideais para um discreto estica e puxa. “Depois de passar por um período de angústia, solidão e medo, é normal que a humanidade, ao vislumbrar a esperança de controle da epidemia, sinta uma renovada vontade de se embelezar para voltar à vida de antes”, teoriza o cirurgião plástico Volney Pitombo.

Com o rosto em evidência no monitor, na tela do celular e nas áreas ressaltadas em volta da máscara, a maior procura (tanto de mulheres quanto de homens, aliás) tem sido por procedimentos nessa região – o consenso é de um aumento de 30% nesse tipo de intervenção entre março e agosto, sendo que em alguns pontos, como as pálpebras, a demanda pela cirurgia de remoção do excesso de pele subiu 50%. Nariz e orelhas também entraram no radar dos quarentenados desgostosos com a aparência. “Eu me incomodava quando me via em fotos e vídeos no celular. Evitava sorrir e ficava de lado para a câmera. Estava com a autoestima abalada”, relata o engenheiro Arnon Vichy, 27 anos, que criou coragem e se submeteu a uma plástica no nariz no fim de julho, tendo o cuidado de manter a máscara a mão para, se necessário, esconder os hematomas que vieram no pós-operatório.

Quem tinha alguma intervenção estética planejada mais para a frente também fez uso do home office – e até do dinheiro que sobrou de alguma viagem não realizada – para antecipar a programação. Depois de emagrecer em consequência da cirurgia bariátrica, a assistente administrativa Ana Carolina Ferreira, de 21 anos, havia marcado a colocação de próteses de mama para as férias do ano que vem. Veio a quarentena e ela acabou entrando na faca em julho. “Em casa, eu me sentia refém da minha própria companhia e comecei a ver um monte de defeitos em mim. Então, remarquei, fiquei feliz e pude ter uma recuperação tranquila”, diz.

Ganharam igualmente adeptos, no período de confinamento, as aplicações de Botox, os preenchimentos artificiais, a aspiração de gordura nas bochechas e a atenuação de olheiras. “Nota-se uma preocupação muito grande com a área ao redor dos olhos. Nas reuniões por videoconferência, as pessoas ficam se criticando o tempo todo”, explica o cirurgião plástico André Maranhão, que aponta ainda para um aumento no número de lipoaspirações – até porque o repouso obrigatório na recuperação fica bem mais fácil quando se trabalha de casa. Incomodada com as marcas da idade, a empresária Márcia Reis, 54 anos, consultou uma especialista em harmonização facial e, em seguida, submeteu-se a aplicação de Botox e aspiração da papada e das bochechas. Acabou influenciando a filha, a publicitária Paula Reis, 28, que voltou para casa com os lábios e o queixo reformatados por preenchedores. “Nunca tinha feito nada, mas comecei a me sentir mais bonita usando os filtros do Instagram que me davam uma boca maior. Como estava em casa desde maio, sem emprego, com tranquilidade para me recuperar, resolvi experimentar”, explica Paula.

Dona de uma movimentada clínica dermatológica em São Paulo, que não fechou durante a quarentena, a médica Ligia Kogos conta que recebeu muita gente incomodada com a aparência em lives. “A maioria saiu do meu consultório com receita de ring light”, brinca, referindo-se ao equipamento que melhora a iluminação e, consequentemente, as feições das pessoas nas transmissões on-line. Ligia diz que o movimento diminuiu na pandemia, mas cresceu a opção por tratamentos mais demorados, e que atendeu a muitas emergências por problemas de stress e alergias, sobretudo ao álcool em gel. Quem continuou a atender nos meses de isolamento social reforçou o investimento em testes, máscaras, higienização e altas antecipadas. “Só opero em hospitais que não têm pacientes de Covid-19, o que traz conforto a quem vai se submeter a cirurgia plástica”, diz o médico Regis Ramos. As cirurgias eletivas em hospitais públicos e particulares estão liberadas desde 9 de junho, em São Paulo, e 16 de junho, no Rio de Janeiro. E, pelo jeito, não faltam pacientes dispostos a encarar agulhadas e até o bisturi para fazer bonito no mundo pós-pandemia.

EM REFORMA

Os procedimentos mais procurados por quem não aguenta mais se ver no Zoom

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE OUTUBRO

A ORIGEM DO UNIVERSO

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Genesis 1.1).

Desde que Charles Darwin publicou em Londres, em 1859, a obra A origem das espécies,2 a teoria da evolução se tornou uma crença cada vez mais popular. Muitos confundem a teoria da evolução com as verdades científicas. Há os que pensam que o universo veio à existência por geração espontânea. Outros entendem que o universo é resultado de uma colossal explosão. Outros ainda defendem que o universo resulta de uma evolução de bilhões e bilhões de anos. Falta a essas teorias a evidência das provas. Sabemos que o universo é composto de matéria e energia; isso a ciência prova. Sabemos que o universo é governado por leis; isso a ciência prova. Sabemos que matéria e energia não geram leis; isso a ciência prova. Logo, alguém fora do universo criou essas leis que governam o universo. O criacionismo tem a evidência das provas. O relato da criação, conforme registrado em Gênesis 1 e 2, está em estreita sintonia com os ditames da ciência. O mesmo autor da criação é o autor das Escrituras.

Embora haja sobejas evidências do criacionismo, comprovadas pela ciência, cremos pela fé que Deus criou o universo. Antes do início, só Deus existia. A matéria não é eterna. Deus trouxe à existência as coisas que não existiam. Do nada, ele tudo criou, tudo sustenta e tudo governa.

GESTÃO E CARREIRA

MEU ESCRITÓRIO É EM QUALQUER LUGAR

Home office, semana de quatro dias, locais sem aperto: a pandemia provoca uma revolução no setor e abre novos caminhos para empresas e funcionários

“A única coisa que devemos temer é o próprio medo”, discursou o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) em março de 1933, durante o lançamento do New Deal, o bem-sucedido plano de recuperação econômica para combater a crise de 1929, a Grande Depressão. O programa revolucionou o mercado com inovações como o salário mínimo, a redução da jornada de trabalho e o seguro-desemprego. Quase um século depois, outro grande e trágico acontecimento — a pandemia do novo coronavírus — também mudará para sempre a vida do trabalhador e dos patrões. Cada vez mais, flexibilização será regra do jogo, mesmo depois de a vacina chegar. Em tempos normais, apenas algumas empresas consideradas excêntricas apostavam no home office. O isolamento social, porém, pôs o paradigma do trabalho remoto à prova e agora até mesmo os mais céticos reconhecem que é possível ganhar dinheiro, até mais, fora do escritório — na mais visível das mudanças provocadas pela disseminação do vírus, que mexeu também com as famílias e com os serviços de telemedicina.

Entrevistamos nos últimos dias executivos de algumas das maiores empresas do Brasil para descobrir quais tendências dominarão o mercado daqui por diante. Logo de cara, ficou evidente: não há pressa para voltar ao escritório. O Itaú já avisou seus 55 000 colaboradores que o trabalho remoto será mantido ao menos até fevereiro de 2021. Na companhia de alimentos Kraft Heinz, só 10% do pessoal tem ido até a sede, mas apenas às segundas e terças-feiras, e sempre de forma voluntária. Aqueles que pertencem ao grupo de risco ou usam transporte público estão proibidos de retornar. Já a XP Investimentos decidiu dar um passo além das rivais e aboliu definitivamente o trabalho presencial.

Todas as empresas consultadas pela reportagem afirmaram que estão plenamente satisfeitas com o desempenho de seu pessoal durante a pandemia e que, mesmo à distância, a produtividade aumentou. Segundo David Vélez, CEO do banco digital Nubank, as taxas de engajamento dos funcionários que estão em casa bateram recorde de 90% durante a pandemia. “Todos os times reportaram ganhos de produtividade”, afirma. O corte de custos, a melhora na qualidade de vida e a possibilidade de contratar talentos em qualquer parte do mundo são outros benefícios do trabalho remoto apontados pelos gestores. A falta de interação pessoal, aquele cafezinho no corredor que pode suscitar ideias geniais, é um ponto negativo, mas as empresas estão atrás de soluções. “Tivemos de revisar as formas de comunicação, com reuniões pontuais e concisas”, diz Maurício Rodrigues, vice-presidente de finanças da farmacêutica alemã Bayer.

Gigantes estrangeiros como Twitter e Facebook já sinalizaram o desejo de implementar o home office permanente para quem assim preferir. No Brasil, o Bradesco deu a seus funcionários a opção de trabalhar remotamente de forma fixa, oferecendo uma ajuda de custo de 1 080 reais no primeiro ano para cobrir gastos com internet e luz. A tendência geral, porém, caminha em direção ao modelo “híbrido”, com os funcionários indo de um a três dias até a firma.

A pandemia, sem dúvida alguma, quebrou as barreiras do horário comercial e rotinas preestabelecidas. A multinacional Unilever, que foi pioneira em medidas de flexibilização no Brasil, como o job sharing (no qual pessoas dividem uma mesma função e trabalham apenas três dias por semana) e jornada de meio período, pretende ampliar seu leque, com horários livres para os funcionários — eles decidem o melhor período para a labuta. Algumas empresas usam a tecnologia para monitorar e controlar os horários dos funcionários, mas a tendência é que as relações sejam cada vez mais de confiança. “O que importa é entregar as tarefas”, diz Flavia Caroni, diretora de RH da Kraft Heinz. Entre as novas ideias destaca-se a adoção de um dia a mais de descanso, incentivada até por governos como o da Alemanha, Nova Zelândia e Reino Unido. “A semana de quatro dias pode funcionar em qualquer negócio ou país”, diz o neozelandês Andrew Barnes, autor do livro The 4 Day Week (A Semana de Quatro Dias). “A redução da jornada de trabalho protege todas as tradições e estilos de vida, fatores cruciais para a coesão familiar, qualidade de vida e senso de comunidade.”

A maioria das empresas brasileiras, porém, não se entusiasma com a ideia de reduzir a jornada. Na realidade, os funcionários têm trabalhado mais, o que explica inclusive a alta produtividade. Especialmente no começo da pandemia, muitos esticaram a jornada temendo perder o emprego. A conta, porém, sempre chega e a saúde mental passou a ser prioridade. A Ambev criou um departamento exclusivo para o atendimento psicológico de seus funcionários. Palestras e aulas de mindfulness (atenção plena) foram incorporadas ao expediente.

O novo normal afetou mais drasticamente o topo e a base da pirâmide corporativa. Os mais jovens se ressentem do acompanhamento presencial, o que exige maior capacidade de adaptação e amadurecimento, mas têm a seu favor a familiaridade com as tecnologias. Já os chefes tiveram de se tornar mais facilitadores e menos controladores. “A pandemia trouxe tristeza, mas também aprendizado”, afirma Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos, a maior empresa de recrutamento do país. “O líder tinha uma exigência muito grande de ser o super­ homem e, diante da incerteza, teve de assumir suas fragilidades e desenvolver sua sensibilidade.”

Nesse cenário, os escritórios não vão morrer, mas terão de ser “ressignificados”, para usar uma palavra típica do mundo corporativo. “A sede da empresa é um catalisador de sua cultura e ganhou um papel mais importante, já que as pessoas não têm de estar lá o tempo todo. O novo escritório tem de ser uma experiência mais atrativa e sedutora”, diz Sérgio Athié, presidente do Athié Wohnrath, maior escritório de arquitetura do país, especializado em projetos corporativos. “As grandes mesas com porta-retratos da família devem ser extintas e dar lugar a espaços colaborativos. Até pelo temor de uma nova pandemia futura, espaços mais abertos e ventilados, como a cobertura dos prédios ou o térreo, devem ser reaproveitados.”

Diante da necessidade de cortar custos, os chamados coworkings, ou escritórios compartilhados, tendem a ganhar tração. “A demanda por flexibilidade, que já existia, explodiu”, diz Lucas Mendes, CEO da WeWork no Brasil. Recentemente, a empresa lançou um cartão que dá acesso a todos os prédios da empresa no mundo. No Brasil, o passo mais ousado, reafirme-se, foi da XP Investimentos. A empresa aboliu o trabalho presencial e está construindo a Villa XP, um campus amplo e futurista que lembrará as sedes de Apple e Google, no Vale do Silício, e da Tencent, em Shenzhen, China.

São Roque, no interior de São Paulo, receberá o projeto, que contará com hotel, restaurantes, áreas de lazer e esportes, clínicas médicas, creches, laboratórios, auditórios e salas de reuniões abastecidas por fontes de energia renováveis. Engana-se, porém, quem pensa que os funcionários terão de se deslocar para o ambiente. O espaço receberá eventos corporativos, e não só da XP, além de atividades pontuais para funcionários, como o treinamento de novos contratados. “A ideia é ter um espaço moderno, em consonância com a dinâmica do trabalho descentralizado”, diz Guilherme Sant’Anna, head de gente e gestão da XP. “O escritório será utilizado só por funcionários em treinamento e para reuniões específicas.”

A tecnologia, evidentemente, se torna cada vez mais fundamental para viabilizar essa mudança. A Via Varejo, dona de Casas Bahia, Ponto Frio e do site de vendas do Extra, avançou a digitalização da empresa, pondo de pé um modelo até então ignorado pelas varejistas: a venda pelo Whats­App. As questões relacionadas aos benefícios também demandam mudanças. “Estando mais em casa, o colaborador deve ter maior autonomia e flexibilidade”, diz Raphael Machioni, CEO da Vee, startup de benefícios como vale-cultura e planos de academias de ginástica. “Ele pode, por exemplo, trocar o vale-transporte por um auxílio home office.” As novidades do mercado também são fruto da reforma trabalhista, que atualizou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e regulamentou o teletrabalho. Melhor ou não, só o tempo dirá, mas certamente o novo mundo profissional será muito diferente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE O AUTISMO? – VII

COMO ESTIMULAR O AUTISTA?

 As terapias e os cuidados essenciais no desenvolvimento comportamental e comunicativo da criança com TEA

Por se tratar de um transtorno que afeta o neurodesenvolvimento, o autismo não tem cura. Contudo, algumas experiências contribuem para uma melhor integração de quem é diagnosticado com TEA. Terapias e tratamentos monitorados por equipes multidisciplinares visam o desenvolvimento da criança e a consequente melhora da qualidade de vida. O mais importante é que essa intervenção profissional ocorra o quanto antes, amenizando o progresso dos sintomas.

Entre as principais características presentes nos quadros de autismo, uma das que mais se destaca é a dificuldade de comunicação, tanto verbal como não verbal. Com o processo comunicativo comprometido, a interação social também é afetada, podendo desencadear prejuízos à autoestima e isolamento.

O PAPEL DA FONOAUDIOLOGIA

O fonoaudiólogo pode contribuir significativamente na superação dessas dificuldades. É ele o responsável por promoveras habilidades comunicativas, investindo no desenvolvimento das diversas formas de expressão. “Seu diagnóstico e intervenção são fundamentais. Geralmente, esse profissional, após o pediatra, é o primeiro a identificar o quadro, já que o atraso de fala e linguagem costuma ser mais evidente”, aponta a fonoaudióloga Ana Lúcia Durán.

Com os avanços nas pesquisas sobre neurociência, alguns métodos de intervenção e tratamento surgiram. E o caso do ABA e do TEACCH, duas das técnicas mais conhecidas na terapia do autismo. Apesar de serem os processos mais difundidos e utilizados, Ana Lúcia alerta para a necessidade de se buscar centros de referência para o autista. Assim, dependendo de cada caso, são elaboradas estratégias que possibilitem interação.

À GALOPE

Outra técnica muito utilizada no tratamento do autismo é a equoterapia. Um recente estudo realizado no Reino Unido mostrou que, ao cavalgar, o corpo da criança realiza alguns movimentos que diminuem a tensão na região do cérebro responsável pela fala e visão. Devido ao maior fluxo sanguíneo na área, a atividade neural tem um ganho significativo, contribuindo com melhorias na comunicação, no humor e na atenção.

Outros benefícios da prática da terapia são o desenvolvimento da postura e do trabalho em grupo. “A percepção do outro é uma das coisas que mais tem ganho. Assim, o paciente se sente como ‘não sozinho’ no mundo, que é uma das grandes dificuldades dos autistas”, afirma a terapeuta Cláudia Pocci. “Além disso, propicia ritmo, concentração e afeto, enquanto que o cavalo tem um papel importantíssimo por ser condutor de afetividade”, completa. A equoterapia pode ser praticada por crianças e adultos autistas de diferentes graus de comprometimento.

EM CASA

Engana-se quem pensa que as terapias são praticadas apenas nos consultórios. Os especialistas garantem que o próprio lar pode ser uma extensão das sessões, e a orientação familiar é um dos aspectos mais importantes no tratamento do autismo. “As estratégias utilizadas no ambiente terapêutico devem ser compartilhadas e repetidas em outras situações da vida do paciente”, observa Ana Lúcia Duran. E isso reflete muito bem no progresso do paciente. “Na maior parte dos casos, os avanços com o tratamento adequado contribuem para melhorar a qualidade de vida e autonomia”, complementa. Para a terapeuta Cláudia Pocci, o envolvimento familiar é fundamental, pois “toda a estrutura emocional da família é fortalecida, contribuindo para o desenvolvimento da criança”.

MÉTODOS DE TRATAMENTO

Apesar de cada caso de autismo ser tratado de forma diferente, há algumas técnicas mais populares utilizadas pelos profissionais.

o ABA (Análise do Comportamento Aplicado, sigla em inglês), é um método baseado na psicologia comportamental que visa reduzir as condutas inadequadas e aumentar os desejados por meio de recompensas. Nele, ao praticar o tratamento desejado, a criança recebe a recompensa, e quando ocorre o não desejado, não recebe.

O TEACCH (Tratamento e Educação poro Autistas e Crianças com Déficits Relacionados com a Comunicação, em sigla em inglês, também é um programa comportamental, mas voltado para um contexto pedagógico. Nesse método, o ambiente deve ser montado por meio de exposições visuais em quadros e murais, facilitando o reconhecimento das atividades por parte da criança. Além disso, há o cuidado para que não haja estímulos externos – como barulhos, brinquedos e movimentação – evitando, assim, a distração.