EU ACHO …

SEXO, O SIMPLES E O COMPLEXO

Você pode achar que estou sendo reacionário, mas não estou, inclusive porque vivi também essa época e tenho certa noção (não toda, claro) do que estou dizendo: não dá para separar Darwin e Woodstock, o grande festival de rock que durou três dias, realizado numa fazenda americana em agosto de 1969.

A imagem mais forte do rock’n’roll é a selvageria; portanto, a pura natureza. O rock, o grito primal, a simplicidade primordial. O consumo de substâncias que nos fazem sair da racionalidade, a maconha, o LSD. O comportamento livre, a nudez, o se abraçar, o se juntar, o “paz e amor”, o sexo. Isso sem falar no ar livre, na natureza, na lama – o local primordial, aquele em que rolamos nos primórdios da espécie. Em Woodstock, o astro foi Jimmy Hendrix, que morreu jovem e ajudou a cultuar a imagem da Supernova, de estrela que brilha muito e desaparece rápido, da vida bela e da vida breve.

Woodstock é uma representação fortíssima da nossa descida da árvore do paraíso direto para a lama.

Woodstock ficou no passado associado a algo que está longe de ser um modelo, mas muito disso não se deveu a Woodstock, e sim a um grande show ao ar livre dos Rolling Stones, em dezembro de 1969, na Califórnia, no qual um jovem foi morto. Esse evento associou shows de rock à violência, embora isso não mude o fato de que o rock, o bom e velho rock, seja uma expressão darwinista do homem.

Já viu Jerry Lee Lewis tocando piano? É visceral, ele transava com o piano – algo condizente com a própria ideia dele de seguir seus instintos, que inclusive o levou a casar com uma parente de 13 anos e, portanto, ser acusado de pedofilia. E James Brown? Quer coisa mais darwiniana, mais animal, mais simples do que James Brown e sua sex machine?

Cabe perguntar: O que somos nós no nosso nível mais fundo, mais reptiliano, além de máquinas de sexo?

Como disse antes, lembrando de Henry Kissinger, imaturos gostam de sexo, maduros gostam de poder. O poder é sexual e, como o sexo, é uma energia de dominação – não só de dominar mas de constranger o outro, de violá-lo, violar o corpo, a mente, às vezes no sentido de violência mesmo.

Em última instância, a palavra certa é profanação – profanar a natureza, os relacionamentos sociais, as relações pessoais, a dignidade do outro. As pulsões freudianas, seja a erótica ou a de morte, são poderosas.

A natureza humana padece da ausência de simplicidade. À primeira vista não parece, mas as palavras “evolução” e “simplicidade” têm relação. Como se viu, “evoluir” vem de vol, que significa rolar ou dobrar. A origem da palavra “simples” tem a ver com o radical indo-europeu plek, ou plex, que também significa “dobra”. E sim, em latim, quer dizer único. Assim, uma coisa simples é aquela que tem uma só dobra, da mesma forma que dúplex tem duas, tríplex tem três e uma coisa complexa tem muitas dobras. A complexidade incomoda a humanidade. O homem tem dificuldade de explicar – isto é, dobrar para fora – coisas complexas.

A vida é complexa. E, quando tentamos explicar o complexo, não conseguimos viver o simples.

Essa é uma das razões por que o mundo masculino – que, na nossa cultura é mais básico, menos sofisticado, mais primal, mais simples – se irrita com a tendência de algumas mulheres de quererem explicar, de quererem “discutir a relação”. E as mulheres se irritam com os homens que viram para o lado e dormem depois do sexo. Muitas mulheres podem encarar como desprezo, mas muitos homens não enxergam dessa maneira.

Como dizia Guimarães Rosa, “o animal satisfeito dorme”. Assim, depois que o homem pratica uma de suas simplicidades naturais – o sexo –, nada mais natural que ele proceda a uma segunda simplicidade natural, o cochilo. Mas as mulheres gostariam que, ao praticar sexo, o homem ignorasse o mundo da natureza,

mergulhasse no mundo cultural e atribuísse uma aura mística a algo que é essencialmente simples, e não complexo.

Essa característica atrapalha ainda mais a busca da felicidade, inclusive porque muita gente não compreende que felicidade não é um estado ou uma condição de permanência – algo que só poderia ser obtido no Nirvana ou em qualquer outro lugar onde a paixão inexista. A felicidade é uma ocorrência eventual, um instante, um episódio – e é exatamente pelo seu caráter passageiro que ela deve ser valorizada. Assim, a felicidade pode existir por causa de um desejo de algo ou alguém, mas também pela ausência de algo ou alguém. Desse modo, a felicidade pode estar em episódios breves como um gole numa taça de vinho, ou em um gole na cerveja ou em um suco.

Mas, se você faz essas mesmas coisas de forma continuada, logo o sabor e o prazer vão embora, pois é preciso haver a ausência, a carência para valorizar a percepção do presente. É como naquelas frases clássicas: “a abstinência prolongada é o melhor afrodisíaco” ou, para usar uma imagem mais gastronômica, “a fome é o melhor tempero”. Fazer compras quando se está com fome é pedir para gastar mais, assim como ir ao supermercado depois do almoço é medida de economia.

O cheiro de um perfume pode ser delicioso num primeiro momento e enjoativo quinze minutos depois. Da mesma forma, a valorização da luz vem do escuro, e a valorização do escuro vem do excesso de claridade – algo que fica evidente no filme Insônia, no qual Al Pacino é um detetive que vai para o Alasca naquele período do ano em que o sol nunca se põe por lá, irradiando uma luz contínua e desesperadora.

A felicidade, assim como o erótico, precisa de latência, para repousar e renascer.

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.